Notas iniciais: olá, mundo!

Mais um longo hiato que felizmente chega ao fim.

A intenção é postar ao menos um capítulo por semana, mas acho que já sabemos da minha incapacidade de cumprir os meus próprios prazos rsrsrs

Agradecimento especial à May Prince e Mickky, pelos comentários nos últimos capítulos.


Maybe you don't want to believe that you

Have your chance now, inner dreads remain unchained

Maybe you have just gotten used to your

Constant waiting for another tidal wave

But your worry is finally done and you have to deal with that

So it's done, you've won the fight

War is over, you can stop

You took the strain, got through the night

There's a way to make it right

And it's going to be the best story of your life

(Lunatic Soul — Untamed)

Fazia alguns minutos que ele havia voltado a dormir. O corpo de Hermione doía por estar tanto tempo na mesma posição, mas essa era a menor de suas preocupações. De toda aquela interação bizarra, o que mais a assustava era a fragilidade que havia visto nos olhos de Snape quando disse que iria procurar Madame Pomfrey.

Era tão errado concluir que o corpo tensionado, a expressão alarmada e os olhos arregalados pintavam uma caracterização clara de medo. Afinal, aquele deitado na cama, a poucos centímetros de distância, era Severus Snape. O professor mais temido que Hogwarts já vira! Mesmo agora, Hermione podia ver no braço esquerdo descoberto a temível Marca Negra, que não deixava dúvidas quanto ao passado de Snape; mas como ela poderia sentir qualquer coisa remotamente ruim por aqueles olhos que suplicaram a sua permanência ao seu lado? A realidade destoante daquela situação confundia os pensamentos da jovem bruxa.

Sentindo as solas dos pés queimarem, Hermione olhou ao redor e viu que havia uma cadeira próxima a uma janela, a poucos passos de distância da cama. Observou Snape por alguns segundos, apenas para se certificar que ele ainda estava dormindo e, satisfeita com o ressonar baixo que o homem produzia, afastou-se alguns passos para buscar a cadeira.

Da janela, Hermione podia ver parte dos terrenos de Hogwarts, mas não os jardins onde deveria estar acontecendo o memorial. Seu peito apertou com a constatação de que estava perdendo o funeral de seus amigos, mas ela sabia que não seria capaz de deixar Snape sozinho, não depois da estranha — e inesperada — conversa que tiveram. Não, ficaria ali e esperaria pelo retorno de Madame Pomfrey.

Maneando negativamente a cabeça para afastar a sensação de culpa que sentia, Hermione levou a cadeira até próximo à cama e imediatamente se preocupou quando pousou os olhos em Snape, pois novamente ele fazia uma careta de dor enquanto se remexia inquietamente nos lençóis. Numa tentativa instintiva de apaziguar seu sofrimento, a jovem levou uma de suas mão até o rosto do homem, delicadamente retirando alguns fios negros da bochecha pálida e ajeitando-os sobre o travesseiro.

Seu toque fez o corpo de Snape tensionar, apenas para na sequência voltar a relaxar, fazendo com que algumas linhas de expressão abrandassem instintivamente e, segundos depois, o ressonar de seu sono voltasse a acontecer.

Finalmente sentando-se na cadeira, Hermione permitiu-se relaxar pela primeira vez desde que havia entrado naquela sala. Com Snape dormindo e mais ninguém para observá-la, a bruxa tentou suavizar a rigidez de seus músculos e raciocinar o quê, exatamente, estava acontecendo naquele momento.

O homem que conversou com ela não se parecia em nada com a figura sombria que conheceu aos onze anos de idade. Hermione sempre respeitou Snape, do mesmo modo que respeitava a todos os outros professores de Hogwarts, mas ela estaria mentindo para si mesma se não dissesse que Severus Snape era o professor que mais temia.

Ao longo dos anos, o medo que as palavras e ações do taciturno bruxo provocavam em Hermione se tornou quase que uma espécie de combustível para movê-la além; Poções e, mais tarde, Defesa Contra as Artes das Trevas eram, sem sombra de dúvidas, as matérias que a garota mais se cobrava em aprender com excelência. Queria ser a melhor da turma não apenas pelo desejo intrínseco à sua personalidade de estudar e conhecer, mas porque tinha a impressão de que parte da personalidade austera e do terror que o Professor Snape produzia em seus alunos, estava intimamente relacionado ao fato de que, diferente de todos os outros professores, Snape parecia ser o único docente a prepará-los — mesmo que às vezes beirando ao limite — para a verdadeira vida que os esperava fora de Hogwarts.

Grande parte do motivo de Hermione ter aprendido a estar pronta para todos os cenários possíveis e imagináveis — como em todas as situações em que foi capaz de salvar a própria vida e a de seus melhores amigos —, devia-se à necessidade de jamais ser pega de surpresa em uma das aulas do Professor Snape.

E, por mais que o Trio de Ouro tenha duvidado da lealdade do bruxo inúmeras vezes ao longo dos seus anos como estudantes — e depois, na insana busca atrás das Horcruxes de Tom Riddle —, Hermione aprendeu, logo em seu primeiro ano em Hogwarts, que nem sempre o quê os olhos vêem pode ser considerado a mais pura verdade. Afinal, muitas foram as vezes em que Snape tentou salvar Harry, Ron e ela de algum perigo iminente e, mesmo tendo sido obrigada a aceitar a versão de Harry sobre o quê aconteceu na Torre de Astronomia, Hermione sabia que, da mesma forma que Snape se colocou na frente deles no terceiro ano, completamente desarmado e fisicamente tentando protegê-los de um lobisomem transformado, também haveria de existir um outro lado que explicasse o porquê Albus Dumbledore foi assassinado a sangue frio naquela noite.

A verdade é que Hermione sempre tentou racionalizar as ações de seu antigo professor. A bruxa não era defensora dos insultos — aparentemente gratuitos — que Snape distribuía aos seus alunos, muito pelo contrário. Sua personalidade amargurada, por vezes vil, simplesmente não era algo que merecesse qualquer tentativa de defesa — Hermione ainda carregava traumas pelas palavras duras que ouviu, ao longo dos anos, do Diretor de Sonserina. Qualquer que fosse o motivo para tanta acidez, a grifinória não achava justo um adulto tratar crianças da forma que ele fazia.

Contudo, compreendê-lo para além do que os olhos viam passou a ser uma espécie de missão pessoal, e isso só aconteceu porque, depois do episódio com Remus Lupin, Hermione simplesmente não conseguia aceitar a dualidade que enxergava diante de seus olhos. Como Snape poderia se preocupar tanto com o bem-estar de seus alunos e, ao mesmo tempo, ser mau e desagradável em todas as oportunidades que tinha?, era algo que simplesmente não fazia sentido algum para a jovem bruxa.

Fosse durante uma refeição no Salão Principal, ou nas poucas vezes que dividiram um cômodo em reuniões da Ordem da Fênix, Hermione passou a observá-lo com discrição, aprendendo os padrões de comportamento que ele seguia e criando uma nova interpretação para a grande charada que seu Professor de Poções era.

Ninguém nunca soube, mas Hermione ansiava por momentos como aqueles, para que pudesse sorver cada mínimo detalhe, cada arqueada de sobrancelha, sorriso sarcástico e músculo que, mesmo sob as vestes pretas, tensionavam instintivamente antes de algo ruim acontecer, pois a incógnita que Severus Snape representava a levava à beira da obsessão. Quando percebeu, Hermione já estava envolvida demais naquele complexo — e aparentemente infinito — quebra-cabeça. Fora apenas uma curiosidade inocente no começo, ela não tinha grandes intenções com aquelas observações secretas, mas depois de um tempo, foi ficando difícil continuar se enganando, pois quantas não foram as vezes em que se envolveu em discussões acaloradas, defendendo Snape das acusações que seus melhores amigos faziam? Sozinha, ela absorvia os detalhes que ninguém parecia perceber — ou se importar — sobre o misterioso bruxo.

Apesar de não travar diálogos efusivos com seus colegas de profissão, era normal observar o professor trocando algumas palavras com McGonagall, e tendo longas e discretas conversas com Dumbledore, enquanto dividiam uma refeição na mesa principal. Com o advento do Torneio Tribruxo, Hermione percebeu que a frequência dessas conversas havia diminuído, e não era estranho encontrar Snape vagando os olhos por sobre o Salão Principal, sem focar por muito tempo em nada ou em alguém em específico, sempre com a mandíbula cerrada, numa clara inquietação que, honestamente, não fazia sentido algum para ela.

Então, com o retorno de Voldemort no final daquele ano e a apresentação do Trio de Ouro à Ordem da Fênix, Hermione percebeu que a presença do professor conseguiu ficar ainda mais sombria.

Ele escondia muito bem, tão bem que Hermione demorou meses para realmente entender que a cortina que seu cabelo preto formava sobre seu rosto não era um gesto meramente à toa. Pois durante aquele ano, uma veia saltada em sua têmpora era a única representação física visível de que ele deveria estar vivendo sob algum tipo de estresse. E, observando-o silenciosamente, Hermione se perguntava como ninguém mais via que o Professor de Poções parecia estar chegando à algum tipo de limite; ele não fazia mais todas as refeições no Salão Principal, claramente havia perdido peso, estava ainda mais pálido do que seria saudável e, um dos fatores mais preocupantes: durante o período letivo de seu quinto ano em Hogwarts, as aulas nas Masmorras simplesmente deixaram de ser assustadoras.

Não porque Snape diminuiu a frequência com que humilhava os alunos, mas por ter se tornado comum ele colocar as instruções no quadro negro e ordenar que trabalhassem em silêncio. Não havia mais discursos inspiradores sobre a poção que estudariam, e até mesmo as anotações que ele fazia em suas tarefas eram diretas e secas. Forçando um pouco a memória, Hermione se lembrou deque, durante seu quinto ano, não foi chamada nenhuma vez sequer de Insuportável Sabe-Tudo — porque se ele não discursava mais nas aulas, também não direcionava mais perguntas aos alunos e como poderia ser possível que somente ela fosse a única a perceber que algo de muito errado estava acontecendo com o Diretor de Sonserina?

Voltando a encarar o homem adormecido sobre a cama, Hermione lembrou-se do momento em que descobriu que ele havia assassinado Dumbledore.

Durante o decorrer daquele ano, havia uma tensão explícita no ar. Harry estava completamente obcecado por Draco, Ron só pensava em quadribol e em Lavender, e Hermione? Bem, ela sabia que alguma coisa muito ruim estava para acontecer, podia sentir aquela certeza em seus ossos, mas viver no limite da preocupação não era algo que podia se permitir fazer, então ocupava sua mente com os estudos e com aquela paixão infantil que nutria pelo melhor amigo.

Permitindo-se refletir sobre isso, Hermione não podia deixar de se culpar por ter parado de observar Snape... Não que tivesse qualquer ideia de grandeza que a levasse a crer que poderia ter impedido o que aconteceu, mas talvez se ela não tivesse se acostumado com aquela nova faceta de Snape, alguma coisa em suas observações poderia tê-la preparado para a confusão que foi o final do seu sexto e último ano em Hogwarts.

Havia tanto naquele homem que Hermione desconhecia e, ainda assim, ela estava ao lado dele nesse exato momento, velando seu sono exatamente como faria por um de seus melhores amigos.

Harry tinha sido claro ao enfatizar que "Snape não era quem pensávamos ser", e Dumbledore — o quadro de Dumbledore — havia implorado para que a dupla de amigos salvasse o seu assassino.

Agora, observando de perto Snape dormir, Hermione se perguntou em que momento o bem-estar de seu antigo professor tinha se tornado uma preocupação sua.

Provavelmente no momento em que percebi que, atrás de toda aquela fachada, havia um ser humano em crise, ela concluiu sua linha de pensamento, por fim concordando com a voz em sua cabeça que dizia que era hora de colocar esses pensamentos de lado e se concentrar no que estava acontecendo agora.

Afinal, Snape parecia estar sofrendo com algum tipo de trauma devido ao ataque que sofreu. Ele não parecia se lembrar de nada antes de acordar e, por mais que fosse estranho ouvir seu antigo professor dizer coisas como por favor e obrigado, Hermione desejava verdadeiramente que ele ficasse bem e recuperasse suas memórias.

Totalmente perdida em suas divagações, Hermione ouviu um barulho indicando passos no corredor e rapidamente ajeitou-se na cadeira, varinha em riste, instintivamente preparando-se para se proteger. Entretanto, quem abriu a porta foi Kingsley Shacklebolt, entrando sem fazer muito ruído e sendo seguido de perto por Minerva McGonagall. Eles pareciam conversar em voz baixa, mas assim que os olhos de Shacklebolt encontraram os de Hermione, ele interrompeu sua fala e perguntou, claramente surpreso:

— Senhorita Granger, o que está fazendo aqui?