Capítulo 2
[ Meu nome é Fenturial! ]
A copa das árvores mal podia conter as gotas de chuva, que escorriam pelas folhas e caiam sobre a cidade de qualquer maneira. As ruas de terra ficam lamacentas e entrando em suas galochas verdes, praticamente as pintando de marrom. A chuva, ao menos, não estava alagando, então apenas as galochas ficaram sujas.
Sua companheira, coberta com uma capa de chuva cinza, andava na sua frente sem se importar com a estrada molhada. A mulher de cabelos loiros a seguiu de perto, atravessando a cidade tentando não pisar nas poças mais profundas.
A cidade Primeval é conhecida por ser cheia de belas flores e diversidade natural. Aqui raramente chove, e quando chove é apenas o suficiente para regar as plantas. Esta é uma rara ocasião de chuva pesada, algo que geralmente só acontece uma vez por ano, se é que vai acontecer.
Sendo honesta consigo mesma, ela não gostava da chuva, o que faz sentido já que ela vem de uma região extremamente quente, mas o dever a chama, e quem era ela para recusar uma visita à sua irmã mais nova?
Felizmente as duas chegaram ao fim da estrada de terra, passando por uma ponte de madeira que cruzava um largo rio, agora com uma correnteza feroz, e chegando à uma escada subindo a lateral de uma pequena montanha. Assim que chegam ao fim encontram uma porta dupla de madeira levando para dentro da espessa parede de pedra.
A outra figura bate algumas vezes na porta, recuando e esperando com sua companheira. Alguns breves segundos depois e alguém chega para abrir; uma jovem donzela com roupas reais da cor rosa, que claramente eram roupas de nobres.
"Irmãs! Vocês chegaram!" Se afasta, dando espaço para as duas entrarem, limparem suas botas em um pano no chão e deixando-as encostadas em um pequeno degrau no canto.
"Como você está, Dacidea?" A primeira perguntou, retirando sua capa de chuva. É uma mulher mais velha, vestindo um casaco verde por cima de uma roupa similar a da irmã, porém amarelas como seus cabelos. Na sua cintura havia uma longa bainha com design de folhas, contendo sua espada.
"Bem! Fiquei muito feliz quando a irmã Midturial disse que estariam visitando." As duas se abraçam brevemente, com alguns tapinhas nas costas.
Enquanto isso, a terceira, aparentemente a mais velha das três, vestindo suas roupas na cor laranja e marrom e tendo um cabelo encaracolado, pendurou sua capa e se aproximou delas, segurando suas mãos cobertas por luvas pretas atrás das costas. Viam a espada dela na cintura, uma de cabo marrom e bainha laranja.
"Podemos deixar as cordialidades para depois. Agora, o foco deve ser seu desempenho. Conseguiu dominar a Arte da Primavera?" Com um olhar de alguém superior, ela olhou para Dacidea, tirando o sorriso do rosto.
"Ah... Certo, irmã Midturial." Ela murmurou. "Não, ainda não..."
Midturial buffa. "Então devemos treinar imediatamente...e depois beberemos uma xícara de chá juntas." Sorria, eliminando qualquer rastro da sua seriedade.
O sorriso volta ao rosto da caçula. Imediata e energeticamente ela as guiou para dentro de sua grande casa na montanha. Na parte de trás da casa havia uma porta dupla lateral que ela abriu para entrar em uma pequena área de treinamento. O piso era de pedra, porém coberto por vários tatames. Não havia um teto, por ser uma parte baixa da montanha, apenas várias telas de vidro protegendo o interior da chuva.
Ao entrar viam alguns bonecos de treino encostados no canto, praticamente intocados, e um armário contendo tipos diferentes de lâminas, indo de simples facas até espadas com o tamanho de uma pessoa, também intocadas. Imediatamente Midturial reconhece os eventos neste local com todas essas evidências.
"Você tem evitado treinar. Irmã, como alguém com o nome dos Turial, você precisa se dedicar ao seu crescimento, à sua linhagem."
"E-eu sei, mas..." Tentava se explicar, sendo rapidamente interrompida.
"Venha. Me mostre o que consegue fazer, se acha que não precisa de treinamento." Sem esperar por ela, Midturial andou até o tatame, sacando sua espada com a mão direita.
A caçula olha para a outra, relutante. Nocturial só pôde dar de ombros e a convencer a ir se juntar à mais velha. Diferente da irmã, a espada de Dacidea não era um florete e sim uma rapieira. Ela sacou-a e retraiu o braço, apontando-a na direção de Midturial.
Partindo com um golpe horizontal rápido, a mais velha iniciou o duelo. Por sorte, Dacidea conseguiu bloquear o ataque no último momento, porém a força a fez perder o equilíbrio e ter que dar vários passos para trás.
Sem esperar que ela se recuperasse, a mais velha então atacou novamente mirando no peito de Dacidea com o cotovelo. O ataque foi simples e direto, derrubando-a e fazendo soltar sua rapieira.
Com apenas dois ataques básicos, Dacidea foi derrotada. Midturial suspirou, claramente decepcionada, e a ajudou a se levantar enquanto Nocturial a devolvia sua espada. "Treine." Ela disse.
Ela assentiu, cabisbaixa. Então foi isso que elas três fizeram. Pegaram os bonecos de treino e passaram várias horas ajudando a jovem lorde a se tornar mais forte. Por mais difícil que acabou sendo, com frequentes acidentes por parte dela, nenhum progresso foi realmente feito na "Arte da Primavera".
A família Turial tem uma longa tradição de masterizar quatro diferentes técnicas, chamadas de Artes das Estações. Quatro técnicas mágicas poderosas que apenas esta família pode usar, o que as tornou tão importantes para a região que atualmente governam.
Quando um descendente da família domina uma dessas quatro técnicas, ele tem o direito de alterar seu nome. É como assumir seu papel como um lorde Turial, como foi o caso de Nocturial e Midturial, cujos nomes originalmente eram Nocturna e Midna.
Entretanto, Dacidea nunca mostrou sinais da sua técnica, algo que já deveria ter ao menos acontecido dada a sua idade. Por anos as irmãs tentaram e tentaram a ajudar, sem sucesso mas também sem desistir, por mais que a própria sinta que esteja apenas desperdiçando o tempo das irmãs.
Dacidea sempre admirou suas irmãs. Midturial sendo tão responsável e nobre, como esperado da mais velha das três, e Nocturial sendo a mais ágil e forte da família, superando até sua irmã mais velha de forma assustadora. Mas ela... Ela é apenas uma garota fraca, sem habilidade alguma. Não possui uma arte, não possui técnica, não possui um incentivo para tentar, não desde... ele.
Figuras misteriosas andavam em direção à casa, rápidos e quietos como sombras. No meio da escuridão da noite eram invisíveis, com exceção de um, possivelmente o líder, que apenas a silhueta podia ser identificada.
"Achei vocês..." Sussurra, descendo do telhado da casa na qual estava, fazendo a lama respingar aos seus pés. Em passos muito lentos ele segue a estrada até a casa da lorde, acompanhado pelas outras duas figuras que o acompanham sorrateiramente.
Depois de tanto treinar, como combinado, as irmãs decidiram fazer uma pausa e se sentar na sala de estar para beber chá juntas. Dacidea que o preparou e serviu prontamente.
A bebida ainda estava bem quente, porém saborosa, como elas sempre gostaram. "Que delícia!" Elogiaram-na, a de roupas verdes tomando goles maiores e longos.
"Obrigada, Noc. As pessoas de Primeval sempre vêm compartilhar as melhores folhas de chá que encontram, então naturalmente quis aprender a fazer o melhor chá que puder."
Midturial ergue um pouco a cabeça, olhando ela do canto do rosto. "Assim terá que desistir de ser uma lorde e abrir um negócio próprio."
Esta pequena brincadeira fez a jovem dama de rosa ficar levemente vermelha de vergonha, mas também feliz de saber o que achavam de sua bebida. "Hehe... Eu não poderia, mal sei cozinhar..." Sentou-se com elas no chão de pernas cruzadas, segurando a xícara com sua mão por baixo do pires.
"Besteira! Sua culinária era de primeira no passado. Tanto talento não desaparece de repente!" A esta altura Nocturial já finalizou tanto a bebida quanto o simples sanduíche servido junto.
Várias vezes durante a infância delas Dacidea entregava refeições completas às irmãs. Não só de pratos básicos, como também pratos exóticos, estrangeiros e enfeitados, todos perfeitamente cozidos, fritos ou temperados, como se fossem feitos por um mestre-cuca de verdade.
"No passado?" Perguntou, um tanto confusa.
"É! Lembra de quando a mamãe teve que sair e você preparou um prato tradicional de Akibata para nós? Nossa, eu ainda lembro do sabor daquele arroz cozido!"
"E quanto ao molho perfeitamente apimentado? Uma ardência leve, todavia notável."
"Ah, tem os sucos também! O suco de uva dela era maravilhoso!"
O rumo da conversa mudou completamente, agora ambas ficavam o tempo todo somente falando dos dias passados e da comida maravilhosa que Dacidea fazia.
"Mas... eu nunca cozinhei para vocês." Elas se calam. A sala fica em completo silêncio por vários segundos. "Quem fazia isso era o-"
"NÃO OUSE TERMINAR ESSA FRASE." Midturial a cortou abruptamente se levantando e gritando com uma voz fria e cruel nunca antes usada por ela.
O grito acabou dando um susto na jovem, que acabou dando um pequeno pulo para trás e se calou completamente, começando a lacrimejar.
"Nós concordamos nisso. Ele não deve ser mencionado. Nunca." Senta-se novamente, voltando a beber seu chá como se não tivesse acontecido.
Dacidea olhou para Nocturial, esperando algum comentário dela, qualquer um. Todavia, ela permaneceu em silêncio. Ela agora só podia chorar, magoada pela atitude das duas. Ela se levantou e correu para fora da casa, diretamente para a estrada lamacenta da chuva.
Rapidamente Nocturial se levantou, largando a xícara no chão. "Irmã, espera!" Corre logo atrás dela, colocando suas botas e capa o mais rápido possível para não a perder de vista. Por outro lado, a fria Midturial não moveu um músculo, ficou onde estava sem nem olhar para as irmãs saindo.
Do lado de fora a chuva ainda cobria os céus sobre Primeval, a terra do chão estava muito mais lamacenta do que quando chegaram. Por isso via-se uma trilha de passos dos sapatos de Dacidea indo em linha reta. Se não fosse rápida, a chuva poderia acabar limpando as pegadas.
Por sorte a cidade não era muito grande, então ela não pode ter ido longe. A jovem leide seguiu os rastros o mais rápido possível até chegar em uma bifurcação. Haviam agora dois caminhos, esquerda e direita, mas apenas um deles levava à sua irmãzinha.
As pegadas já começaram a desaparecer, todavia ainda havia o suficiente para revelar o caminho de Dacidea. Nocturial prosseguiu, chegando enfim nela no que parecia ser uma fonte; um pequeno monumento redondo com água dentro sendo espichada por uma estátua de beija-flor.
A mesma estava sentada na fonte em posição fetal, escondendo o rosto entre as pernas para disfarçar o choro. Nocturial se aproxima cuidadosamente, pondo uma mão em seu ombro e se abaixando.
"Irmã... Por que você correu assim?" Ela perguntou, evidentemente preocupada com seu bem-estar.
"Ele era meu irmão também... Mas vocês agem como se ele nunca tivesse existido..."
Nocturial fica quieta mais um pouco, pensando no que dizer. Só então abriu sua boca: "Como lordes, não podemos deixar sentimentos interferirem em nosso julgamento. Ele cometeu um crime e manchou o nome da família, e por isso tinha que ser punido." e começou a acariciar sua irmã mais nova gentilmente, tentando acalmá-la.
Ela se encolhe mais, audivelmente soluçando. Por mais que a mais velha quisesse a abraçar, ela sabia que Dacidea precisava de espaço para chorar, afinal ela foi a mais afetada naquele dia. O dia que as duas mais velhas tomaram uma decisão sobre o crime deste irmão, o que resultou no seu exílio.
Ainda assim, ela apenas se afastou um pouco, sentando-se na fonte, voltada a outra direção mas ainda perto o suficiente para ouvir sua tristeza.
"CUIDADO!" Ouviram de repente, seguido por um pequeno objeto metálico voando em direção à Dacidea. Pensando rápido graças ao anúncio de perigo, a leide sacou sua espada e golpeou o dito objeto, alterando sua trajetória para o chão.
Era uma shuriken, um objeto de arremesso afiado usado por assassinos. Estranhamente não havia tal tipo de assassinos em toda Bloom, o que significa que não são locais. Ela se levantou e assumiu posição de combate, mantendo seu olhar nos telhados das casas, de onde a shuriken veio voando.
"Dacidea, se proteja!" A caçula levanta a cabeça e vê a situação. Suas lágrimas param de cair e imediatamente ela se levanta, puxando sua própria espada apesar da ordem de sua irmã. "Revelem-se! Sabemos que estão aqui!"
As duas ficam de costas uma para a outra, aguardando o próximo ataque. Duas figuras saltam dos telhados em direção à elas, empunhando katanas na hora de atacá-las por cima. Como antes, as irmãs bloquearam os ataques enquanto os assassinos aproveitam e se jogam para trás, a uma distância segura.
Eram dois homens com trajes preto e máscaras cobrindo seus rostos, como se imaginaria de ninjas. Entretanto, as máscaras destes eram feitas de um metal negro, tal como a lâmina das suas armas. Vendo a postura de combate deles, agachados com as pernas abertas e braços cruzados em x, as duas reconheceram este estilo de luta, era um muito familiar para ambas.
A mais velha vigiava ambos. Sabia que sua irmã, sem seu treinamento, não conseguiria lidar com dois assassinos treinados como esses. Ela teria que resolver isso sozinha. "Irmã, se proteja. De verdade. Este não é um confronto que você pode dar conta." E, desta vez, ela assentiu, rapidamente indo para trás da fonte. "Agora que não tenho com o que me preocupar... peço que tentem fazer o desafio valer o esforço."
Os três se encaram em silêncio, ansiosos para o próximo movimento. Ambos os assassinos pareciam prontos para atacar e Nocturial estava pronta para isto. O silêncio permeia pela área, exceto pelo som constante da chuva caindo sobre a cidade.
O primeiro ataque logo é lançado quando ambos os ninjas se impulsionam em sua direção, erguendo suas espadas para atacar de ambos os lados. Mesmo assim, Nocturial permanece confiante.
O da frente não está segurando sua espada com firmeza. Ele não vai atacar, é uma isca. O de trás... A lâmina dele está reta e na altura da minha cintura. Este é quem planeja me acertar.
Ela aguarda pacientemente, sabendo exatamente como reagir. Assim que os dois chegam perto, ela rapidamente se vira para trás com um ataque na intenção de se defender. Então, quando as lâminas batem, a leide parte para um segundo ataque, este fazendo contato com as roupas do assassino e as rasgando.
Ao mesmo tempo de seu ataque ela levantou uma das suas pernas e a usou para chutar o peito do outro, que havia parado e segurado sua katana de modo defensivo assim que se aproximou. Os dois ataques fizeram ambos os ninjas caírem para trás, porém rapidamente se levantando novamente.
A seguir a mulher avançou contra aquele com um corte no peito. Desferindo vários ataques rápidos, que o ninja lutava para defender, ela também o fazia andar para trás, e nisso ela atacou de novo; usando sua perna para chutar a dele e desestabilizar seu equilíbrio, abrindo a oportunidade para atingir uma estocada na região do abdômen dele.
O segundo vinha em sua direção, prestes a atacar suas costas. Pensando rápido, a leide agarrou a mão do ninja atingido e o fez bloquear o ataque com sua própria espada.
O assassino ferido tentou usar sua mão livre e a agarrar, até Nocturial afundar mais sua lâmina e o fazer recuar em agonia.
Logo ela mais uma vez usou suas pernas e chutou o atacante, o empurrando para trás e a permitindo fazer um puxão rápido que jogou seu refém contra o chão e livrou sua arma.
"É, não valeu o esforço." Diz para provocá-los. Muda seu olhar para aquele que apenas levou chutes, agora se levantando pela segunda vez. "E você, acha que consegue sozinho?" Aponta seu florete à ele. Sabendo suas chances, o assassino largou sua espada e se ajoelhou em rendição. "Esperto."
Antes de voltar para sua irmã, ela chutou a espada do assassino caído para longe e deu um golpe com o cabo da sua na cabeça daquele que se rendeu. Dacidea saiu de seu esconderijo soltando um longo suspiro de alívio e correu para a abraçar.
"Você é incrível! Como sabia o que cada um faria no começo?" Pergunta entusiasmada.
"Um poder mágico incrível chamado observação. É muito útil." Pisca e depois ri baixo, brincando sobre si mesma. "Enfim, vamos voltar. Pode haver mais assassinos."
Sem hesitar, Dacidea concorda e juntas as duas voltam pelo caminho que vieram. O tempo todo elas seguram suas armas no caso de outro ataque surpresa. Não se importavam de deixar os dois para trás, afinal um já foi ferido e o outro foi nocauteado. Que sirvam de exemplo, ela pensou na hora.
Sem demora elas alcançaram a ponte que levava diretamente à casa de Dacidea. Não havia mais nenhum inimigo no caminho, e muito menos na casa, pois enquanto a cruzavam já podiam ver Midturial as aguardando na frente da porta.
A expressão dela muda de sua seriedade natural para uma de curiosidade. "Algum motivo para terem sacado suas espadas?"
"Assassinos. Usavam o estilo 'dele'."
Midturial franziu a sobrancelha. "Você tem certeza disso?" Enquanto dizia, colocava a mão sobre o cabo da sua espada. Ambas afirmam de imediato com olhares preocupados. "Bem... Temos um problema sério, então. Não concorda?"
Elas estranham o que como ela levantou levemente a cabeça ao falar a última parte. Então, para seu espanto, ela sacou sua espada e assumiu postura de batalha. Imediatamente elas viram para trás, dando de cara com quem a fez se preparar, e era... ele...
Bem em cima da ponte estava ele, com um capuz sobre sua cabeça e uma capa que chegava até seus joelhos. Diferente delas, ele não era um humano. Longe disso, na verdade. É uma criatura muito semelhante a um inseto, mais especificamente um louva-a-deus antropomórfico de corpo azul claro e quatro braços. Um par de seus braços era normal, com mãos e dedos, mas o outro tinha duas foices ao longo deles e ficava dobrado em suas costas, apenas parcialmente visível. Além de sua espada, uma katana embainhada de cabo azul escuro.
A passos muito lentos ele começava a se aproximar, ao mesmo tempo falando com uma voz fria e sarcástica. "Vejam só se não são minhas queridas irmãs mais novas. Os anos foram bons para vocês, hm?"
Sem pensar duas vezes, Nocturial também aponta sua espada em direção à ele, pronta para atacar seu irmão sem hesitação. Apenas Dacidea hesitou, se recusando a levantar sua arma e o observando em silêncio a cada passo que dava.
No fim ninguém o respondeu ou disse qualquer coisa. "É assim que vocês tratam a família? Pensei que nossa mãe tinha ensinado modos à vocês."
"Você... Você não devia estar aqui. Você foi exilado e a tradição da família diz que–"
"Tradição isso, tradição aquilo... Você só sabe falar disso, Midna?" Ele a corta, cambaleando de um lado para o outro enquanto zombava dela. "Conheço as tradições. Vocês devem matar um exilado que volte para Glasde. Acha que consegue? ACHA QUE É CAPAZ?"
De repente assume sua própria postura de ataque, exatamente a mesma que os ninjas usaram antes; agachado de pernas abertas e braços cruzados em xis assim que saca sua katana. As outras duas também apertam suas espadas, aguardando um ataque.
"Esperem! Não precisamos lutar! Podemos resolver tudo pacificamente!" Dacidea implorou, mas ninguém a ouviu.
"Mesmo sendo o mais forte, nós somos duas, Fenjor."
Esse nome. A mera pronúncia desse nome o irritava, o enchia de raiva. É um nome que ele abandonou, não pela sua tão odiada tradição de família, e sim pelas memórias que carregava consigo. E agora que ele ouviu-o novamente, todas essas memórias o atingiram como caminhão o atropelando.
"Meu nome... é FENTURIAL!"
Introdução de personagem.
Nome: Fenturial
Sexo: Masculino
Espécie: Hoibu louva-a-deus
Arma principal: Katana
Facção: Família Turial
O hoibu partiu para o ataque, avançando até Midturial com um grande salto e realizando um ataque horizontal poderoso. Mesmo que ela tenha defendido perfeitamente, a força do impacto a empurrou para o lado enquanto tentava segurar o ataque.
Nessa posição ela estava presa em apenas defender a lâmina inimiga, porém estava vulnerável ao golpe dos braços de foice que vieram em sua direção logo em seguida. As foices fizeram dois cortes em seu braço esquerdo que a forçaram a recuar, saltando para uma rocha distante.
Gotas de seu sangue escorrem dos dois cortes, pingando na rocha igual as gotas de chuva. O ferimento foi bem superficial, então a dor é facilmente tolerável.
A seguir Nocturial avança por trás de seu irmão planejando atingir suas costas com um ataque vertical. As foices das costas dele bloqueiam o ataque e prendem a espada entre suas lâminas, e assim o irmão pôde realizar outro ataque, cortando parte do torso dela.
Como sua irmã, ela recua, tentando tampar seu ferimento, que foi mais profundo do que os causados pelas foices. Fenturial se vira com a mão esquerda no quadril.
"Vamos, acham mesmo que vão me derrotar assim? Venham com tudo! Venham com suas Artes!"
Elas o encaram, Nocturial até rosnando. Nenhuma delas queria ter que recorrer às suas Artes das Estações, eram habilidades especiais e poderosas, não sabiam que tipo de estrago poderiam causar nos arredores.
"Não?... Pois bem... Eu não serei tão tradicional quanto vocês." Novamente assume sua postura de ataque, porém desta vez tinha algo diferente. Seu corpo estava inteiramente coberto por uma aura azul clara e fria. Gelo se formava ao redor de seus pés e em sua espada como se feitos por magia.
Por reflexo ambas assumem posição defensiva, sabendo bem como é a Arte do Inverno de Fenturial. Quanto a mais nova, ela correu para o outro lado da ponte, onde supostamente era mais seguro, sussurrando para si "Não faça isso, irmão..."
E, enfim, o ataque foi realizado. Fenturial saltou extremamente alto a ponto de ficar na frente da lua no ângulo de visão das irmãs. Com um golpe de espada no ar ele começou a girar em alta velocidade, e com sua Arte ativada ele transformou as gotas de chuva em pontiagudas adagas de gelo caindo logo em cima delas.
Quando os incontáveis projéteis de gelo vinham em sua direção, ambas as leides faziam o possível para as bloquear, partir e até cortá-los. Inevitavelmente alguns deles conseguiam passar e rasgar suas roupas e pele, jorrando mais sangue de todo o corpo.
Com o fim da chuva de adagas, Fenturial aterrissou exatamente onde estava antes do salto, enterrando sua espada no chão de pedra e criando uma fileira de espinhos de gelo avançando em direção à Nocturial.
Desta vez ela não defende e opta por se jogar para o lado rolando e se salvar de qualquer novo ferimento. Isto foi estranho, as Artes não deviam funcionar desta forma. Elas deveriam ser apenas uma forma de aprimorar um único ataque com propriedades mágicas poderosas, não criar técnicas deste nível. É como se Fenturial tivesse aprimorado a Arte em si.
"Surpresas? O poder da magia externa é muito bom para amplificar a magia interna." Retira a espada. "Vão lutar a sério agora?"
A resposta de Midturial foi um óbvio sim não verbal. Ela ativou sua própria técnica, a Arte do Outono, e avançou em sua direção com uma velocidade mais rápida do que o olho podia acompanhar. Ela realizou uma estocada que por muito pouco não atingiu Fenturial e passou direto.
E assim que tentou a atacar, ela se agachou e evitou seu golpe para entrar fazer outro ataque, agora um corte horizontal que o hoibu defendeu ao deixar o peso da lâmina abaixar a espada para ficar no caminho.
A seguir ele viu, logo atrás dela, Nocturial avançando naquela mesma velocidade com sua própria arte de aura amarela. Ela saltou por cima de Midturial para o atacar de cima para baixo com a espada praticamente pegando fogo.
Como sua katana já estava ocupada, ele precisou defender usando seus braços de foice. Quando as lâminas fizeram contato uma com as outras, o irmão teve que usar muita força para segurá-la.
"Trabalho em equipe, não é?" Encarava-a diretamente nos olhos, esboçando um olhar confiante e agressivo. "Que sorte eu ter quatro braços... e nenhum limite de uso para minha Arte." Ao falar isso, o chão ao seu redor começou a congelar e sua aura a voltar. Ambas, percebendo o perigo, se afastam rapidamente bem a tempo de evitar serem empaladas por espinhos de gelo.
Midturial foi a primeira a se recompor e voltar ao ataque. Ela avançou de frente e começou a fazer vários ataques velozes, porém nenhum fazia contato com Fenturial, ele desviava de todos.
"Sabe... Poder usar minha Arte quantas vezes eu quiser não é a única surpresa que a magia me deu." Ele faz algo inesperado: jogou sua espada para cima e se deixou ser atingido por um golpe da irmã. Entretanto, neste momento, seu corpo ficou completamente preto, como se fosse feito de alguma substância sombria, e em vez da lâmina o cortar ela atravessou seu corpo sem causar danos.
Chocada com o que acabara de ver, Midturial deixou sua guarda baixa. Ela sabia que não tinha como escapar do próximo ataque de seu irmão, e nesse instante via tudo se movendo em câmera lenta. Via as gotas caindo, a área cortada de Fenturial se juntando novamente como se nada tivesse acontecido, e mais importante, via-o depois de voltar ao normal, e movendo ao redor dela, porém em velocidade normal.
Ele para atrás dela, pega sua katana no meio do ar, e com um único e preciso corte, decepou o braço direito de Midturial.
Impossível... Ela pensa. Afinal, como ele se movia tão normalmente enquanto, em sua mente e olhos, tudo ao redor estava extremamente lento? Seria isso uma super velocidade, percebida apenas por essa capacidade de observação dela?
Ela não sabia. Tudo que podia pensar agora era na dor insuportável de ter seu braço separado de seu corpo. Tudo volta a se mover normalmente depois disso, enquanto ela tenta em vão tampar seu ferimento. Torrentes de sangue vazam de seu braço, encharcando o piso, sua mão e suas botas parecendo que nunca acabaria.
"Entende agora o quão superior eu sou...?" Apesar de estar bem atrás dela, ela ouvia sua voz muito abafada. "Suas tradições... Elas as tornam fracas, limitadas. A magia é o contrário, ela me aprimora."
As outras duas estavam horrorizadas, Nocturial se sentindo imensamente furiosa, querendo salvá-la. Entretanto sua aproximação foi impedida por outro uso daquele poder mágico sombrio, que fez um tentáculo sair da sombra da própria e segurar sua perna com força.
"Mas não se preocupem, eu sou piedoso. Permita-me tirá-la da sua dor." A passos lentos ele foi para a frente da leide ferida. Ele ergueu sua espada e então...
...a decapitou.
Um golpe rápido e limpo. Facilmente terminou o serviço.
A cabeça de Midturial caiu para frente, rolando até os pés de seu assassino, que a olhava com um largo sorriso.
"Isto foi só um exemplo. E a próxima... é você." Ergue a espada novamente, direcionando-a à Nocturial. Neste momento Fenturial se abaixou e pegou o sabre que pertencia à sua agora falecida irmã. "Desista enquanto pode. Não precisa ser doloroso."
O tentáculo se foi, agora que não era mais necessário. Todavia ela ainda se encontrava incapaz de se mover. Estava completamente petrificada, olhando atentamente o corpo de sua irmã mais velha caindo ao chão. Não sentia mais nada, nenhuma tristeza, nenhuma raiva, nada...
O mesmo acontecia com Dacidea, tremendo incontrolavelmente e chorando. Acaba de ver sua irmã ser morta pelo seu amado irmão, com seus próprios olhos...
Já Fenturial não se importava. Um obstáculo foi removido, porém ainda havia outro no seu caminho. Então enquanto Nocturial se via desnorteada ele assumiu posição de ataque e avançou, fazendo um ataque duplo com tanto sua espada quanto a de sua primeira vítima.
Sua intenção já foi deixada clara; ele quer fazer o mesmo com Nocturial, uma morte rápida e indolor. Ela é seu último objetivo, sua última inimiga ainda viva.
"Nocturial, cuidado...!" Dacidea a chamou em meio às lágrimas. Sua voz, e apenas ela, conseguiu a trazer de volta à realidade bem a tempo de ver o ataque chegando.
Sem tempo para raciocinar direito, Nocturial só teve tempo de se atirar para o lado em uma tentativa improvisada de se salvar da morte certa. Ela ainda foi atingida pela lâmina de Fenturial cortando seu peito e a fazendo perder o equilíbrio. Sem esse equilíbrio a leide caiu de costas nas rochas, e mais abaixo, rolando sobre elas até que caiu no rio com uma forte correnteza, desaparecendo debaixo da água.
O assassino assistiu a queda até seu desaparecimento na água. Como isso poderia não ser o suficiente para matar alguém, ele esperou por alguns instantes, apenas olhando o rio com atenção, esperando ver Nocturial aparecer.
Mas isso não acontece. Neste caso, ele só podia supor que ela realmente morreu, ou ficou inconsciente e se afogou. "Hah! No fim nem fui eu que a matou." Guarda sua katana, retrai seus braços de foice e pega a bainha de Midturial para si. Então, se aproxima calmamente de sua última irmã ainda viva. "Quanto a você, minha querida Dacidea..."
Vendo-o se aproximando, o assassino de suas irmãs, seu único instinto foi de sacar sua espada e apontá-la com medo. "F-fique longe!"
"Oh? Não seja assim, maninha. Eu só quero o seu bem." Ele para, já estando bem perto. Sem dificuldade alguma ele rouba a espada dela e a finca na lama, sem usar força ou agressividade em momento algum. "Eu não vou te ferir. Afinal, você era a única que me entendia de verdade. Não se lembra dos velhos tempos, quando brincávamos juntos, quando eu cozinhava para você, quando você me ensinou a dançar..."
Não, ela não queria lembrar dessas coisas. Se recusava a acreditar que seu irmão se tornou um assassino de sangue frio que acaba de matar suas duas irmãs. A jovem leide tenta se afastar, mas ele segura seu braço firmemente.
"Eu sempre fui o mais forte de nós quatro. De acordo com as tradições de família, isso faz de mim o regente de Glasde. Nossa família vai continuar através de mim com meus futuros filhos. Eu quero que você esteja lá para ver tudo, irmã."
"Não... Você não é meu irmão..." Sussurra, sua voz séria, todavia trêmula.
"Ora, não seja assim. Você estará segura comigo..." A olhava de cima para baixo. Era sutil, mas ele tinha certeza do que via. Uma leve aura rosada vibrando por seu corpo, iluminando suas roupas, além de uma flor brotando do fundo da lama no chão, algo impossível de acontecer normalmente. "... Dacturial."
[•••]
Acompanhava o resto do grupo, sempre se mantendo em alerta máximo. Com inimigos por toda parte, cada cuidado é pouco.
Seus três companheiros, no entanto, não pareciam nem um pouco preocupados. Não dava para criticar, eles que montaram este esconderijo, sabiam que ninguém os encontraria tão cedo. Além do mais, todos eles são poderosos e habilidosos heróis, ninguém os derrotará juntos.
Contudo, ela não podia ter certeza. Se ela aprendeu alguma coisa recentemente é que até os melhores e mais numerosos podem cair perante um inimigo bem preparado.
Só lhe restava agora recuperar suas forças, descansar os pés, polir seu sabre de cabo verde, em uma bainha com design de folhas...
Introdução de personagem.
Nome: Nocturial
Sexo: Feminino
Espécie: Humana
Arma principal: Sabre
Facção: Família Turial
