Capítulo 05 - Não era apenas uma toca de coelho
O céu já estava alaranjado assim que Sam chegou na cabana, nunca sentiu tanto a falta de um carro como agora. Mais alguns dias pedalando por Hawkins e logo suas pernas estariam prontas para o verão.
– El? Eu voltei – chamou pela garota não recebendo nenhum retorno. – Que estranho.
O chão continuava cheio de cacos de vidro, além do lugar não aparentar arrumação encontrou no sofá uma caixa sobre o laboratório de Hawkins. Algo tinha acontecido enquanto estava fora. Sam surtou durante o restante da tarde quando se deu conta de que Eleven não estava em lugar nenhum, depois surtou mais um pouco quando o horário avançou e Hopper não apareceu. Estava contando com a volta do delegado para encontrarem a garota, agora estava sozinha sem ter alguém para pedir ajuda.
Em algum ponto da madrugada acabou adormecendo no sofá, uma noite de sono horrível ficou evidente no corpo dolorido na manhã seguinte. O som dos ossos estalando encheu a sala silenciosa assim que se espreguiçou. Ainda não tinha nenhum sinal da El ou do Hopper, esperava que nada de ruim tivesse acontecido. Depois de arrumar um pouco a bagunça da sala e comer alguns waffles lavou suas roupas sujas, em certo momento sentiu o humor escurecer um pouco. Já era o seu quarto dia no passado e ao invés de ter algum progresso sobre o que estava acontecendo, só conseguia ficar de um lado para o outro em completa confusão.
– O que devo fazer? – se perguntou em voz alta, um suspiro cansado lhe escapando.
O que fazer se nunca conseguisse voltar para casa? Não era como se um cientista maluco a tivesse colocado em um carro-máquina-do-tempo e a levado para o passado. Não tinha nada tangível que explicasse o que estava vivendo. Todas as noites antes de dormir pensava em seu lar torcendo que sua força de vontade a devolvesse para o tempo certo. Com a cabeça cheia de perguntas não respondidas, pedalou até o arcade conforme acordado na tarde anterior. Não achava mais que ela e Max conseguissem encontrar o Dart, a não ser que algo de ruim acontecesse. Caso fosse isso a cidade inteira acabaria descobrindo e o problema seria ainda maior.
Encostou a bicicleta no bicicletário e encarou a amiga saindo do carro do irmão. Pelas bochechas vermelhas e o dedo médio esticado teve certeza de que os dois brigaram novamente.
– Está tudo bem? – perguntou se aproximando, a menina abriu a porta do arcade e elas entraram juntas.
– O Billy é um idiota – Max despejou de uma só vez. – Ele é insuportável. Ele é… Eu queria que ele sumisse. As coisas seriam melhores se ele não estivesse aqui.
O coração de Sam se apertou com aquela declaração. Max estava tão irritada, tão cansada de ser o alvo número um das frustrações do irmão, que não poderia ser culpada pelo que desejava. Mas aquele tipo de sentimento era o que a sufocaria dali dois anos. Não era assim que as coisas funcionariam no futuro.
– Eu sou filha única, sabia? – começou sem saber muito bem onde terminaria. – Sempre me perguntei como seria ter um irmão, provavelmente brigaríamos bastante. Ao invés disso cresci um pouco solitária criando as próprias brincadeiras e jogando por dois. O que eu quero dizer é que se o que ele faz te incomoda então você deveria enfrentá-lo.
– Você já viu o tamanho dele?
– Não estou falando sobre um confronto físico, palavras às vezes são mais eficazes. O pouco do que vi do Billy diria que ele pode ser comparado a uma granada. Uma explosão capaz de atingir um espaço grande, só que o pino ainda está lá e nem tudo foi pelos ares. Não é como se ele fosse um idiota total sem capacidade intelectual, só precisa entender que as suas vontades não são absolutas.
Elas tinham acabado de chegar em frente ao Dig Dug, Max parecia pensativa com suas palavras, mas quando viu a placa "fora de serviço" na máquina resmungou irritada. O garoto com uma camiseta do lugar se aproximou dizendo que houve um curto circuito na placa-mãe ou o que quer que fosse. Então ofereceu uma máquina funcionando nos fundos, as garotas o seguiram atravessando o balcão até uma porta só para funcionários. Achando a atitude estranha, Sam tomou a frente pronta para proteger a menina mais nova de algo ruim. Quando a porta foi aberta, Lucas Sinclair sorriu sem jeito. No começo ele não quis que Sam participasse da conversa, porém Max foi categórica em dizer que só ouviria com ela junto.
"Por que ela não pode ficar? Se minha amiga sair eu saio também", foi a resposta determinada que a menina ruiva deu. Sem muita escolha, Lucas suspirou derrotado. Então foi assim que tudo começou, esse era o início do que viu em 1986. O romance entre pré-adolescentes era algo fofo de presenciar.
Ele começou dizendo que contaria tudo o que houve no ano anterior e as fez dizer que aceitariam o risco sobre isso. Sam já sabia mais ou menos qual seria a história. O seu interesse estava nos acontecimentos atuais e se isso estava relacionado a sua vinda ao passado. Lucas contou, com mais detalhes, o que já tinha ouvido antes sobre o desaparecimento de Will, o laboratório de Hawkins com seus experimentos em crianças desencadeando a abertura de um portal para o Mundo Invertido e das criaturas perigosas vindas de lá. Falou sobre Eleven, a garota com super-poderes que salvou suas vidas na escola e desapareceu logo em seguida. A intenção dele foi boa, isso se Max não tivesse se ofendido. Ela não acreditava em nada do que ouviu, ignorando todos ao sair da sala bastante irritada.
– Se te consola eu acredito em você – garantiu ao menino que tinha os ombros caídos em sinal de derrota.
Lucas correu atrás da menina tentando argumentar, ele estava determinado a fazê-la acreditar em suas palavras. O problema é que era difícil alguém acreditar em algo tão ilógico assim. A discussão ainda não tinha terminado quando Sam também saiu da sala e os encontrou em frente ao Dig Dug, Max estava furiosa e usando de argumentos tão bons que o garoto não parava de gaguejar. O conhecido som de motor os interrompeu como um aviso de que a conversa tinha acabado.
Max saiu tão rápido ao encontro do meio-irmão que até mesmo tinha se esquecido de Sam. Parada ao lado do Lucas viu a tensão entre os dois no carro através das portas do arcade. Como o pedido para não sair não tinha sido dirigido a ela, abriu a porta e foi até a janela do passageiro, havia uma ideia amadurecendo na sua cabeça desde que passou a madrugada sozinha se perguntando onde Eleven e Hopper estavam. Era hora de colocá-la em prática e para isso precisaria da ajuda dele.
"Agora sabe o nome dele, hein?", ouviu assim que se debruçou na janela.
– Ei! – chamou a atenção dos dois que se viraram ao mesmo tempo. Billy abandonou a imagem relaxada se endireitando no momento em que a viu.
– Oi linda – a resposta veio acompanhada de um sorriso condizente com a personalidade dele. Ambíguo e sedutor.
– Preciso falar com você.
Sua declaração chocou os dois em níveis diferentes. Max a olhou como se um terceiro olho tivesse nascido na sua testa, já Billy alargou o sorriso convencido.
– O que você quiser.
Quando não abordou o tema ele percebeu que seria um assunto apenas entre os dois. Não queria que Max tivesse a ideia errada, porém também não era algo que quisesse tratar na frente dela. Quanto menos a envolvesse em seus próprios problemas melhor seria. O garoto saiu do carro e ela o seguiu para um canto mais afastado.
– A sua proposta ainda está de pé? – perguntou em um tom de voz mais baixo.
– Você pode ser um pouco mais específica? Tenho muitas propostas para você, linda.
Será que ele não conseguia ter uma conversa séria? O que mais a deixava incrédula era a vontade de rir a cada cantada barata que recebia, era divertido vê-lo tentar com tanto afinco. Se ele fosse um pouco mais engraçado do que sedutor estaria realmente em perigo de se apaixonar, mas como esse não era o caso só continuaria a se divertir.
– Calma, garotão. Estou falando da proposta de que poderia contar com você, de que tenho um amigo na cidade?
– Aconteceu alguma coisa com você? – A postura dele mudou de relaxada para endurecida em questão de segundos. Se perguntou de onde vinha tanta alteração de humor, era como se ele estivesse sempre preparado para uma luta e isso a intrigou.
– Não. Eu estou bem. Só preciso que me ajude a encontrar um lugar.
– E que lugar seria esse?
– Você se lembra de quando nos vimos pela primeira vez?
– É claro. Foi no dia das bruxas, eu quase te atropelei.
– Isso. Você se lembra onde foi? Do lugar exato?
Billy a encarou absorto, a mão no queixo e a língua correndo pelos lábios era uma forma peculiar de ficar pensativo. Tão peculiar quanto ele.
– Eu estava indo para a festa da Tina, sei exatamente onde foi.
– E você pode me falar?
– Por que você quer saber disso?
"Porque pretendo voltar lá e ver se tem alguma ligação com a minha vinda ao passado já que sou de dois anos no futuro, um futuro onde você não está vivo e estou enlouquecendo um pouco mais a cada dia que continuo aqui. Ah, não podemos esquecer que também vou investigar se tem alguma vinha assassina do Mundo Invertido por lá", era exatamente isso o que queria responder, porém sabia o quão ferrada estaria se fizesse. Corria o risco de vê-lo saindo irritado como Max tinha acabado de fazer com Lucas e nunca mais descobrir o lugar exato de onde acordou há algumas noites.
– Apenas quero saber.
– Sam é sério que nada está acontecendo? – ele perguntou com um pouco mais de preocupação na voz. Qual era o problema em apenas dar uma informação? Não queria ninguém se envolvendo nos seus problemas, não queria destruir o futuro ou sabe-se lá o que caso tomasse alguma decisão ruim. – Você não tem nenhum ex-namorado babaca te perturbando, né? Ou o seu pai? Sei lá.
– Não. É claro que não – mentalmente se perguntou de onde ele tinha tirado isso.
– Então me conta porque você quer voltar lá.
– É pessoal.
– Não. Deixa de ser pessoal quando você me envolve. Quer que eu te diga onde é? Então vamos juntos.
Confusa não entendeu como a conversa tinha se virado a favor dele, talvez bons argumentos fossem algo ensinado na sua casa. Suspirou resignada antes de desistir de relutar, era uma batalha perdida de qualquer forma.
– Vamos juntos até lá e depois você pode ir embora.
Billy não parecia inclinado àquele acordo, o sorriso que abriu dizia que faria o que bem entendesse.
– Fechado. Entra no carro, vamos deixar a Max em casa e de lá seguimos para o lugar onde nos vimos pela primeira vez.
– Não vai dar, eu estou de bicicleta. É melhor você levar a Max e depois passar aqui para me pegar.
– Você é tão difícil, sabia? – a pergunta dele soou dúbia. Tão perigosamente estimulante que não pôde se refrear antes de respondê-lo no mesmo tom.
– Achei que você gostasse de desafios.
Com um movimento de sobrancelha ele pareceu aceitar o desafio com renovado entusiasmo.
– Vou te lembrar disso no futuro, doçura. Vou só deixar a Max e já volto.
Como ainda tinha algum tempo até que a sua carona voltasse resolveu entrar novamente no arcade. Fazia tempo que não jogava Pac-Man.
..
Quando ouviu novamente o som característico do carro azulado saiu às pressas. A passos rápidos foi até a porta do passageiro se sentando no banco livre. Billy tinha acabado de colocar um cigarro na boca e estava acendendo.
– Max me perguntou o que você queria comigo.
– E o que você respondeu?
– Um encontro.
Tinha se tornado estranhamente fácil sorrir na presença dele, era só por isso que mantinha um no rosto.
– E ela acreditou?
– Não.
Depois dessa pequena interação ele ligou o carro e o rádio, um rock tocando alto enquanto ganhavam velocidade. Sam o encarou no banco do motorista, sério e compenetrado. Encarando seu perfil soube exatamente com quem ele se parecia, antes pensou ser o Roger Taylor ou o David Coverdale, agora sabia que era idêntico ao Rob Lowe em St. Elmo's Fire. O mais irônico era que o personagem também se chamava Billy e não conseguia manter as mãos longe das garotas. Os dedos longos batucavam no volante no mesmo ritmo da música, foi neste momento que percebeu seu pé também batendo no chão ao som de You Shook Me All Night Long. Fechou os olhos sentindo a sincronia entre a guitarra, a bateria e a voz de Brian Johnson. Era previsível que aquele tipo de música tocasse em seu carro – com letras sugestivas – porém o som era bom demais para atribuí-lo a um defeito. Era apenas o tipo de música perfeita para alguém como ele.
– Você curte AC/DC – a voz chamou atenção ao seu lado a obrigando a abrir os olhos. Assim que o encarou a íris clara, bonita e hipnótica, parecia enxergar além dela.
– Surpreso?
– Para ser sincero sim. Diria que você se parece mais com Madonna, Blondie… talvez até Duran Duran.
– Ei, eu gosto de Duran Duran. Eles são bons e o Simon é bonito. Por que não gostar deles?
– As músicas não são excitantes o suficiente.
– Entendi. Eles não fazem referência a uma noite selvagem de sexo.
Billy tirou a atenção da estrada para encará-la, um sorriso contido querendo despontar no canto dos lábios bem desenhados.
– Entre outras coisas.
Sam sorriu em resposta voltando sua atenção para a estrada enquanto curtia a melodia. Não muito tempo depois o carro parou, como quase todo lugar em Hawkins a estrada era ladeada por árvores gigantescas.
– Chegamos – Billy se virou apoiando o cotovelo no banco e a cabeça na mão.
– Ótimo, muito obrigada – esperava conseguir escapar sem maiores explicações, mas a mão que segurou seu pulso pensava diferente.
– Não tão rápido. Eu disse que vamos juntos.
– Não preciso que você venha comigo. Agradeço a carona, mas daqui para frente eu me viro – não estava querendo ser mal agradecida, só precisava que ele a deixasse só.
– E eu não preciso de alguém dizendo se devo ou não ir a um lugar. Essa era a condição, te traria aqui se fossemos juntos. Você não vai se livrar assim tão fácil de mim, linda.
A mão dele ainda segurava seu pulso em um aperto gentil, entretanto firme em suas convicções. Cabeça dura como aparentava ser tinha certeza de que a seguiria de qualquer forma. Além disso, estava ficando tarde e precisaria de uma carona até o arcade para pegar a bicicleta de Hopper.
– Certo, mas sem perguntas – cedeu contra vontade. Ele não aguentou um segundo sequer de silêncio.
– O que você é? Alguma bruxa que vai realizar um ritual na floresta?
– Sem perguntas, Hargrove.
Logo os dois estavam fora do carro, Billy foi até o porta-malas tirando uma lanterna de lá. Um garoto estranhamente precavido. Depois seguiram em direção à floresta com Sam indo na frente. Aos poucos ela se lembrou daquela noite, do frio desolador e das vinhas a arrastando pelo chão, ainda tinha algumas marcas no corpo que não curaram completamente. Mais uma vez sentiu a estranha sensação que a guiava por entre as árvores. Andaram em silêncio completo até verem uma abertura encontrando a grande clareira.
De forma automática os pés de Sam a levaram até a grande árvore na outra extremidade, grossa e com as raízes expostas. Era a mesma para onde os cipós tentaram arrastá-la. O cheiro de podre continuava lá, menos forte, porém nojento igual. A terra fofa tinha uma aparência doente. Pegando um graveto mediano no chão começou a revirar o solo abrindo um pequeno buraco, não sabia bem o porquê de começar a cavar, mas quando se deu conta Billy estava ao seu lado com um pedaço resistente de casca de árvore cavando também. Quando a terra ficou viscosa igual as vinhas soube que estava no caminho certo, foi preciso apenas de mais um pouco de esforço para abrirem um buraco que dava para um túnel subterrâneo.
– Que porra é essa? – Billy quebrou o silêncio.
– Não faço a menor ideia – tirando terra o suficiente para que um corpo passasse se preparou para descer.
– O que você pensa que vai fazer?
– Descer é claro.
– Nem fodendo.
– Eu não te pedi para vir comigo, falei para se mandar assim que chegamos. Vou descer sim.
– Droga, como você é dura na queda – puxando sua mão ele se colocou na reta do buraco. – Eu desço primeiro, você joga a lanterna e depois eu te pego.
– Você não vai descer, Billy.
– Não estamos discutindo isso, doçura.
Ignorando os seus resmungos, o garoto passou pelo buraco. Estava escuro demais para alguma coisa ser vista, então se sentiu aliviada ao ouvir a voz masculina pedir pela lanterna. A descida foi horrível, era como um escorregador em direção ao desconhecido. Precisou se firmar nos ombros de Billy, colada a ele, quando os pés tocaram no chão. O sorriso divertido que viu próximo ao seu rosto a fez consciente demais da proximidade que estavam. Rapidamente se soltou dos braços em sua cintura dando alguns passos para trás.
– O que é esse lugar? – ele perguntou apontando a lanterna para as paredes dos túneis.
Olhando ao redor enquanto andavam reconheceu as partículas esbranquiçadas voando, as mesmas da noite em que chegou e que Eleven disse ser do Mundo Invertido.
– Não faço ideia.
Nas paredes uma grande massa como um tumor inflava e esvaziava como se respirasse. Uma delas espirrou em suas cabeças.
– O que quer que seja não respire! – ordenou retirando a camisa de flanela e enrolando em volta do nariz.
Eles continuaram andando pelos túneis e encontrando bifurcações, era como um labirinto gigante conectando passagens secretas. Chegaram em uma área mais espaçada com dois caminhos se abrindo para lados diferentes.
– É bom que você esteja vendo o mesmo que eu. Sou muito jovem para acabar num hospital psiquiátrico – Billy resmungou ao seu lado.
Sam o encarou incrédula. De todas as personalidades que esperava dele a de "piadista em momentos de crise" era a última delas.
– Nesse caso eles podem nos internar juntos.
– Nesse caso não seria uma má ideia.
Estava pronta para responder quando algo macio se enrolou em seu tornozelo, com um solavanco tropeçou indo de encontro ao chão. Novamente estava sendo capturada pelos cipós viscosos que a arrastavam pelo chão..
– Billy! – gritou em desespero.
– Sam! – a resposta veio ao mesmo tempo em que ele se jogou no chão onde estava tentando se soltar.
Mais vinhas escorregaram pelo chão, sentiu seus braços sendo imobilizados e o pescoço enrolado por um cipó.
– O que é essa droga? – o garoto gritou em desespero enquanto lutava para não ser pego também, mas aquela coisa tinha tanta força.
Sam sentiu o aperto no pescoço se intensificar, seus lábios se abriram em uma súplica muda por ar. Lágrimas começaram a embaçar sua visão.
– Sam! – sentiu a mão dele tentando puxar o cipó de seu pescoço dando um breve alívio de ar.
– Bol-so – tentou falar. – Cal-ça.
Entendendo o recado ele enfiou a mão entre as vinhas encontrando o cós do seu jeans, com certo esforço chegou no bolso traseiro retirando o canivete de lá. Sem pensar duas vezes a lâmina estava abrindo rasgos pelas extensões pegajosas que a asfixiava, ainda não sabiam muito bem como, mas os cipós começaram a ceder as dolorosas investidas que Billy dava. Assim que seu viu livre ficou de pé sendo envolvida por um abraço protetor.
– Você está bem? – a pergunta zuniu e seus ouvidos, ainda estava tentando recuperar o fôlego.
– Estou legal. Mas precisamos sair daqui.
Recuperaram a lanterna caída prontos para darem o fora, não viam a hora de sair daquele buraco assustador. Encontrar o caminho pelo qual vieram não seria difícil, porém quando estava pronta para seguir naquela direção Billy puxou sua mão colando seus corpos em uma das paredes cavernosas, com o dedo indicador nos lábios pediu silêncio. Saído de um dos túneis estava uma pessoa vestindo roupas brancas de risco biológico, nas costas um galão gigante e um tipo de arma nas mãos. Deveriam cair fora de lá o mais rápido possível, a situação era bem pior do que imaginavam, mas ao invés disso seguiram silenciosos até se depararem com uma cena tão assustadora quanto tudo o que já tinham visto ali antes. Fogo saía pelo bocal da arma queimando um emaranhado de vinhas nas paredes do túnel, elas se retorceram em desespero, o som de uma se chocando com a outra parecia com gritos de dor.
– Vamos sair daqui antes que nós vejam – o garoto sussurrou no ouvido dela.
Sentiu dedos se entrelaçando nos seus enquanto Billy a puxava indicando o caminho por onde deveriam seguir. Estava se sentindo um pouco perdida, então ainda não se cobraria uma resposta mais rápida ou coerente. Tinha quase sido asfixiada por plantas vivas e visto pessoas preparadas para combater contra elas, alguém sabia o que estava acontecendo e talvez pudesse ajudá-la a voltar para casa. Ou talvez apenas a prendessem em um laboratório como a Eleven, igual a um rato de laboratório. De qualquer forma não achava mais que as coisas dariam certo, jamais voltaria a ter uma vida normal.
– Você sobe e eu vou logo atrás – Billy juntou as duas mãos e abaixou para oferecer apoio. Quase que de forma automática se segurou nos ombros dele, colocou o pé nas mãos unidas e usou do impulso para subir. Chegando lá em cima apoiou o corpo de uma forma que conseguisse passar os braços pelo buraco ajudando a puxá-lo logo em seguida.
Deitados no chão de terra eles estavam sujos, cansados e machucados. As respirações pesadas sendo o único som a preencher a clareira.
– Sei que já perguntei isso antes, mas o que diabos era aquilo?
– Eu não sei – sua resposta saiu rápida e um pouco grosseira indicando que não queria falar sobre aquilo.
– Não sabe? E como exatamente sabia onde estava? Vamos lá, acho que mereço algumas respostas.
Sam se sentou encarando as árvores ao redor, retirou a camisa de flanela que a essa altura já tinha escorregado para o pescoço e a usou para limpar algumas lágrimas. Ela se virou vendo o olhar irritado de Billy, uma fúria misturada com confusão.
– Eu não sei – repetiu se colocando de pé e começando a andar. Não queria ter essa conversa agora, não queria ter essa conversa nunca. Tinha tanta coisa passando pela sua cabeça, só queria um pouco de silêncio e alguns minutos solitários para chorar.
– Quem é você? Quem eram aquelas pessoas? – ele se colocou na sua frente, mãos em seus ombros impedindo que continuasse a andar. A confusão em sua expressão era genuína. – A primeira vez que te vi estava assustada como um animalzinho, correndo como se sua vida dependesse disso. Foi por causa daquelas coisas?
– Eu já disse que não sei! – seu grito saiu um pouco mais doloroso do que pretendia. Estava com sentimentos demais para lidar, por enquanto ficaria com a exaustão. – Não pedi para vir comigo, mandei que fosse embora então por favor não me faça mais perguntas.
Choque cruzou o olhar dele, logo sendo substituído novamente pela raiva.
– Quer saber? Que se dane!
Tão irritado quanto ela estava cansada ele saiu a passos duros na direção por onde entraram na clareira mais cedo. Sam o seguiu com passos lentos até perder suas costas, ou o brilho da lanterna, de vista. Enquanto andava só conseguia pensar no quanto queria deitar no colo da mãe para receber um carinho nos cabelos, como queria nunca ter vindo para Hawkins. Assim que pisou na estrada depois de algum tempo se surpreendeu com o carro, totalmente apagado, ainda parado no mesmo lugar. Billy estava dentro com a cara fechada e um cigarro na boca, se esticando abriu a porta do passageiro esperando que ela entrasse.
O caminho até o arcade foi constrangedor, silencioso e quase sufocante. Seus dedos massageavam o pescoço dolorido, ainda sentia a textura do cipó na pele nua. Assim que pisou fora do automóvel Billy não esperou mais nenhum minuto antes de acelerar e sair fazendo um barulho estrondoso. Aquela velocidade certamente o mataria se algum animal silvestre o encontrasse pelo meio do caminho. Suspirando cansada foi até a bicicleta, agora só restava voltar para a cabana na floresta torcendo para que Hopper ou El já tivessem retornado.
..
Hey, voltei!
Um capítulo cheio de fortes emoções. A partir de agora as coisas vão ficar ainda mais diferentes porque o Billy teve o seu primeiro contato com o Upside Down e a experiência obviamente não foi das melhores. Sam está esgotada, assustada e agora chateada. Mesmo sendo um capítulo com mais interação eles terminaram brigados, vamos ver como esse nó vai se desenrolar nos próximos capítulos.
Aproveito para mencionar que o nome desse capítulo é uma analogia a Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Ao invés de ser a toca de um coelho, temos a toca de um democão.
