Capítulo 06 - Respeito e responsabilidade


Billy estava irritado como jamais tinha se sentido antes, nem a nicotina de um maço inteiro seria capaz de acalmar seus ânimos. O que caralhos tinha acabado de acontecer? Estacionou o carro na frente de casa encarando as mãos ainda tremendo, foi preciso apertar o volante com força – a ponto de os nós dos dedos ficarem brancos – para que conseguisse ter um pouco mais de controle sobre seu corpo. Mais do que com raiva ele estava assustado, apavorado se fosse sincero, com o que acabou de vivenciar. Como era possível? Como podia ser real? Quando chamou Hawkins de pocilga não sabia o quão certo poderia estar sobre aquele lugar de merda.

– Na primeira oportunidade caio fora dessa droga de cidade – jurou se encarando no retrovisor interno. Só precisava ser maior de idade e dono do próprio nariz para sumir no mundo, aquela era uma promessa que estava determinado a cumprir.

Decidido a mandar tudo o que viu e viveu naquela noite para o espaço, junto com a garota interessante de bunda bonita que achou uma boa ideia seguir, saiu do carro pisando duro até a porta da casa. "Como ela podia negar uma resposta sincera depois de tudo o que passaram?", se perguntou mentalmente a cada passo que dava. A vizinhança já estava totalmente apagada devido o horário avançado, se ainda estivesse na Califórnia nada disso estaria acontecendo. Nada. Tirou a chave do bolso e colocou na fechadura. Talvez fosse pela cabeça cheia de informações, mas não percebeu que algo estava errado, foi só quando entrou fechando a porta atrás de si e sentiu o corpo ser jogado contra a parede que se deu conta. Seu reflexo foi o de lutar contra o que o imobilizou, acreditando que os cipós tinham voltado, até encontrar o olhar brutal de Neil Hargrove.

– Onde você estava? – a voz de falsa calmaria perguntou. Billy permaneceu imóvel enquanto o rosto de seu pai se aproximava intimidante, um embate com ele era a última coisa que precisava hoje. – Eu perguntei onde diabos você estava, Billy?

Sua vida era realmente uma porcaria.

– Saí com alguns amigos.

– Saiu com alguns amigos? Você não tem amigos, tem vagabundas – a resposta cortante foi rápida e letal. – Sabe o que aconteceu porque você estava por aí atrás de mulher? Susan não pôde ir comigo no jantar do meu novo trabalho só porque o inútil do meu filho não estava aqui para cuidar da irmã.

O aperto implacável aumentou em seu colarinho, sufocante e doentio. Apenas o cansaço emocional por tudo o que tinha passado explicava a próxima reação de Billy, isso ou o desejo crescente de não mais existir para não precisar lidar com o pai.

– Eu já cuidei dela a semana toda, pai! – sua voz saiu mais alta do que esperava, ainda tinha tanta adrenalina correndo em suas veias. – Ela tem treze anos, não devia precisar de babá. E ela não é minha irmã.

Sentiu o corpo ser afastado da parede apenas para ser jogado novamente com ainda mais força. Suas costas que já estavam doloridas incomodaram ainda mais, com os dentes trincados soltou um baixo silvo de dor. Não podia mostrar fraqueza.

– Sobre o que conversamos? – a pergunta veio acompanhada de um tapa em seu rosto, a mão de Neil segurou seu queixo para que pudessem voltar a ficar cara a cara. Um dedo autoritário apontado na sua direção. – Sobre o que nós conversamos?

As luzes da sala foram acesas e da escada foi possível ouvir o som de passos descendo. Não precisava olhar para saber que era Susan, Max nunca desceria durante os dos surtos de Neil e, se toda essa agressividade não fosse sempre destinada a Billy, nem ele desceria.

– Neil – a esposa de seu pai chamou. Sem se importar com a cena que estava fazendo, ele apenas virou o rosto a encarando e depois voltou para o filho.

– Sobre o que nós conversamos, Billy? – a pergunta foi repetida mais uma vez.

– Respeito e responsabilidade – respondeu sentindo o nó na garganta apertar.

– É isso mesmo. Agora peça perdão à Susan por acordá-la tão tarde.

Era inacreditável a forma como a mente daquele homem funcionava, como sempre transferia seus problemas e obrigações para o filho. Como o tratava igual a um erro.

– Sinto muito, Susan – suas palavras não eram sinceras, era apenas o reflexo do cárcere em que vivia. Era apenas para poder ir o mais rápido possível até seu quarto.

– Tudo bem, Neil, sério… – a mulher tentou diminuir a tensão.

– Não. Não está tudo bem. Nada no comportamento dele está bem, ele está todo sujo como um porco que chafurda na lama – soltando o aperto, Neil se virou para a esposa com naturalidade. Nem parecia um maldito lunático que massacrava o próprio filho. – Mas ele vai compensar por isso. Amanhã mesmo vai passar o dia tomando conta da Maxine como o irmão bom, gentil e respeitoso que ele é. Não é mesmo, Billy? Não é?

– Sim, senhor – sentiu a voz sair em um fio quase inaudível.

– Sinto muito, não ouvi – o pai o pressionou para uma resposta mais alta.

– Sim, senhor – como se estivesse no exército respondeu no tom adequado.

– Tome um banho. Está fedendo.

O pai foi até a escada colocando as mãos nas contas da esposa indicando que eles deveriam subir. Dava para ver pelo olhar de Susan que ela não concordava com aquilo, mas não existia alma viva que contrariasse Neil Hargrove. Não em sã consciência ao menos. Assim que não havia mais ninguém na sala, Billy fechou as mãos em punhos acertando as próprias pernas em frustração, sentindo as lágrimas escorrendo de seus olhos.

Que droga de vida a que tinha.

..

Já no quarto se encarou no espelho. Sua imagem não era das melhores, os cachos estavam desfeitos pela umidade e as roupas sujas com um tipo de lama asquerosa. Jogou a cabeça para trás e suspirou fechando os olhos, se sentia tão humilhado, insignificante e pequeno. O que teria acontecido se ele fosse capturado pelos cipós ao invés da garota? Ela não teria conseguido soltá-lo, certo? E ele nunca mais precisaria lidar com Neil na vida. Eram pensamentos tão obscuros que precisou empurrá-los para fora do caminho com bastante força de vontade. Não era um maricas, não era um fraco como o pai o chamava.

Parando em frente a cama fechou os olhos por alguns minutos tentando normalizar a respiração. Se havia algo que não conseguiria ignorar, por mais que quisesse, era o que tinha acabado de presenciar. Muito pelo contrário, ainda podia ver aquela coisa se arrastando, sentir o aperto se enrolar em seus braços enquanto tentava soltar Sam. Podia vê-la sendo engolida por aquelas raízes grossas, sendo asfixiada por elas, e se debatendo em uma luta desesperada por ar enquanto seus olhos rodavam nas órbitas. Enfiando a mão na calça, tirou o canivete do bolso. Encarou o objeto com o pensamento mórbido de que se não fosse por ele as coisas teriam terminado bem diferentes. Deveria ter desconfiado desde o momento em que pisou na clareira que algo ruim aconteceria, o cheiro esquisito, a terra de coloração diferente e o nervosismo dela. Tudo era como um sinal de alerta gigante.

Tirando as roupas foi até o banheiro tomar um banho, no rosto encarou a marca avermelhada da palma de uma mão pesada. O jeito que Neil o tratava era calculado, nenhum tapa ou soco doía mais do que as cicatrizes deixadas no seu interior, ele o fazia se sentir tão inútil, um erro que não podia ser apagado. Raiva ferveu dentro dele, seus olhos mais uma vez se enchendo de lágrimas. Só queria voltar para a Califórnia, procurar por sua mãe e nunca mais ser o saco de pancadas de ninguém. Seria uma pena para Susan, tinha certeza de que ela seria o mais novo alvo. Para ser sincero Billy se perguntava por que a mulher aceitava aquilo? Ele não tinha como escapar, era seu pai, seu guardião legal, já a mulher poderia meter o pé na hora que quisesse. Deixando a água quente cair em suas costas sentiu os músculos começarem a relaxar, precisava desesperadamente se acalmar. Saindo do banho colocou roupas limpas, deitou na cama e fechou os olhos disposto a esquecer o quão medíocre era; nada deveria incomodá-lo naquele ponto. Ele era Billy Hargrove, abalaria o mundo como um furacão e algum dia todos conheceriam seu nome. Não aceitava um futuro menor do que esse, se houvesse justiça algo mudaria essa sua sina.

Contradizendo seus desejos, sempre que estava a ponto de cair no sono a imagem de Sam explodia em seu subconsciente, então ele rodava de um lado para o outro na cama. A forma como ela insistiu para que não fosse junto, como sabia exatamente onde ir, dela sendo puxada por vinhas vivas e, por fim, de sua explosão final depois de conseguirem sair com vida. Não tinha raiva em sua expressão, apenas tristeza e medo nos olhos castanhos. A imagem dela na frente do arcade também o estava perturbando, quando a deixou para trás – ainda confuso com o que tinha acabado de viver – a viu pelo retrovisor parada encarando o carro desaparecer na noite.

Por que deveria se importar tanto com uma garota que acabou de conhecer? Só para levá-la para cama? Garota nenhuma deveria valer toda aquela loucura, muito menos as que não gostavam de dar respostas sinceras. Sabia que algo não estava certo naquela história, desde a primeira vez em que quase a atropelou soube que nada de bom sairia dali. Em pleno dia das bruxas uma garota sai correndo pela estrada, rosto assustado, como se estivesse fugindo de alguém? Cilada das grandes. Por um momento acreditou que ela estivesse fugindo de algum agressor, de um pai como o seu, ou um namorado idiota. Agora sabia do que estava fugindo, eram aquelas coisas que a perseguiam e nada o faria mudar de opinião quanto a isso.

Seus olhos se abriram encarando o teto, a mente trazendo à tona o exato momento em que ela gritou seu nome dentro da toca bizarra. Foi instintivo se jogar sem pensar duas vezes, qualquer pessoa faria algo parecido em momentos de crise. Os túneis tinham uma aparência desolada, pareciam túmulos tristes e frios, a sensação ao estar ali era a mesma de ter sua vida drenada de seu corpo; não havia felicidade, apenas um oco sem fim. Quando conseguiu soltá-la com a ajuda do canivete e a abraçou sentiu pela primeira vez em anos que fez algo certo, que ela realmente podia contar com sua ajuda como tinha dito antes.

– Que droga, Samantha – resmungou colocando o braço em cima dos olhos. Esperava que ao menos tivesse chegado bem em casa, saiu tão irritado que não pensou em oferecer uma carona. Não que achasse que ela aceitaria, era misteriosa demais para isso e era culpa desse mistério todo que sua curiosidade andava aguçada sobre ela. Só poderia ser.

Um suspiro alto saiu pela sua boca. Precisava de um cigarro. Se levantando foi até a escrivaninha, empurrou algumas camisinhas para o lado e pegou um maço lacrado, a nicotina entrou como uma benção nos nervos agitados. Seus olhos caíram no pequeno canivete. Queria tirá-la do seu pensamento, estava decidido a nunca mais falar ou pensar nela, Hawkins tinha várias garotas menos problemáticas e dispostas a se divertirem em sua cama. Carol, Tina, Nicole... Eram muitas e além de não apresentarem resistência também não trariam problemas. Só precisava abrir os primeiros botões da sua camisa e soltar um ou dois agrados que conseguia o que queria.

Era isso. Quando acordasse no dia seguinte fingiria que nada do que aconteceu foi real. Plantas eram apenas plantas, não capturavam pessoas ou tentavam matá-las. Se Sam não queria confiar nele então que lidasse sozinha com os próprios problemas, a esqueceria definitivamente. Mas naquela noite ainda continuaria revivendo cada pequeno detalhe, porque viu com os próprios olhos algo que não deveria ser possível e que muito provavelmente continuava lá fora pronto para atacar novamente.

..

Na manhã seguinte o rádio relógio soou alto em seus ouvidos. Tinha passado a noite inteira criando teorias absurdas sobre o que eram aquelas coisas e quando conseguiu dormir teve um sonho muito perturbador. Estava com Samantha em um encontro, o clima não estava tão frio como o esperado para a época e eles foram para a parte alta da cidade ver o sol se pôr. Mesmo que algumas coisas estivessem fora, o sonho parecia bem real, a voz e a sensação de estar perto dela eram familiares. Ele flertava abertamente deixando suas intenções claras enquanto a garota apenas sorria o dispensando com alguma resposta espertinha. Era a doce sensação de brincar de gato e rato, de empurrar e puxar até que escorregassem pela borda do desejo.

A mudança ocorreu em questão de segundos. Estava encarando o sol sumir no horizonte quando o céu ficou azulado e frio, partículas brancas flutuavam no ar como nos túneis. Encarando Sam viu medo em seus olhos, sua boca se abriu para dizer algo, mas antes que conseguisse foi novamente arrastada pelos cipós. Dessa vez não conseguiu ser rápido o suficiente, não tinha nada afiado consigo, e viu horrorizado a garota sendo enrolada pelas vinhas que a apertavam com força. Não importava o quanto tentasse esmurrar a criatura nada a faria soltar sua presa. Ouviu o exato momento em que os ossos dela foram quebrados, o sangue escorrendo dos lábios abertos e os olhos vidrados antes de seu pescoço pender para o lado sem vida.

Billy gritava em desespero tentando chegar até ela, buscando a todo custo se soltar de seus próprios cipós captores quando o som de passos chamou sua atenção. Uma figura escura se aproximou aos poucos, a pouca luz permitindo que a identidade fosse revelada aos poucos. Seu pai estava parado ao lado do corpo de Sam agora inerte no chão, seu sapato cutucou a cabeça confirmando que não havia mais vida ali.

"Como pôde achar que fez algo certo? Você não a protegeu até o fim, assim como também não protegeu sua mãe. Você é um inútil", a voz cruel ecoou no ambiente. Sua visão começou a falhar quando uma vinha grossa também se enrolou em seu pescoço tirando todo seu ar.

Depois disso foi difícil conseguir cair em sono profundo, tudo o que mais temia parecia sempre sondar seus pensamentos e trazer isso em forma de pesadelos. Agora estava exausto enquanto tomava o café da manhã, Max estava sentada em silêncio à sua frente na mesa, mas os olhos curiosos que o encaravam eram bastante expressivos. Por que tinha que ficar de babá de uma criança? Quando foi a sua vez ninguém se importou em ver se estava bem, se precisava de ajuda ou cuidados. Os olhares continuaram até o ponto em que não dava mais para ignorar.

– O que você quer? – perguntou encarando a menina. O dia seria longo.

– Onde vocês foram?

Seria inútil fingir que não entendia de quem ela estava falando, não havia necessidade em tentar construir uma ligação entre eles com diálogos fingindo que eram uma família unida e feliz. Precisava de algo que a desencorajasse de conversas inúteis.

– Motel.

– Mentira – a resposta da garota veio logo em seguida, alta e um tanto irritada. – A Sam nunca iria para um motel com você.

– Se tem tanta certeza então não faça perguntas idiotas – empurrou a cadeira se levantando.

Precisava urgente de algo para se distrair. Colocando o prato na pia decidiu assistir alguma coisa na TV, depois tentaria cochilar um pouco no sofá e mais tarde queimaria energia levantando alguns pesos. Por mais que estivesse exausto sentia uma terrível ansiedade que de tempos em tempos o lembrava de que algo de ruim estava à espreita.

– Você lava a louça! – gritou apertando o botão que ligava a TV.

Foi capaz de identificar alguns resmungos vindos da cozinha. Estava tão infeliz quanto ela sobre aquele arranjo, não eram família e ainda assim teriam que se aguentar. Pelo menos até que ele pudesse ser livre.

..


Olá, pessoas. Todos bem?

No capítulo de hoje acompanhamos a visão do Billy sobre os últimos acontecimentos. Diferente do cânone ele já teve o seu primeiro contato com o Mundo Invertido e seria esquisito passar por cima disso sem abordarmos o que ele achou. Também alterei alguns acontecimentos que deveriam ter rolado em outro momento da série e coloquei aqui, só o que não muda é que Neil é um babaca chocando um total de zero pessoas.