Capítulo 09 - O final de algo


Mike foi o primeiro a ir até Eleven para um abraço apertado, 353 dias era tempo demais até para os mais velhos quem dirá para dois pré-adolescentes. Hopper foi o segundo a abraçá-la, mas logo o garoto Wheeler explodiu ao descobrir quem era o culpado pelo afastamento dele com a melhor amiga, foi necessário que o delegado o levasse para outro cômodo para uma conversa em particular. Agora Sam encarava El com um sorriso nos lábios, estava tão preocupada que a garota tivesse sido capturada pelos cipós que assim que ela estava na distância de seus braços a puxou para um abraço cheio de alívio.

– Você está aqui – a menina falou secando uma lágrima.

– Estou – se afastando olhou para trás onde estavam os demais. – Os seus amigos são muito legais.

– Legais – ela concordou com um sorriso.

Logo Dustin e Lucas também a estavam recebendo com abraços de saudades, tudo parecia seguir em harmonia até Max se aproximar e ter seu cumprimento ignorado. Ninguém compreendeu a atitude grosseira de Eleven, ela sempre era tão doce, além de ser uma grande amiga da outra menina no futuro.

– Quem é ela? – Billy se aproximou com um olhar curioso, não era para Sam que olhava, era para Max constrangida com sua mão estendida sem uma resposta. – O que está acontecendo agora e por que a pirralha punk ignorou a Max?

– É a Eleven.

– Como o número?

– Sim, como o número, a história é longa demais. Não sei porque ela ignorou a Max, mas acho que aquela menina será nossa melhor chance de vitória.

Joyce Byers e Eleven estavam na cozinha encarando o papel em que traduziram o código morse. Selar o portal era a prioridade agora, quanto mais demorassem para conter as criaturas mais os túneis se aproximariam da cidade. Se não fizessem logo algo Hawkins cairia. Hopper, que esteve no laboratório, disse que o portal era gigante – que não parava de crescer – além dos democães infestando o local, porém El insistiu que conseguiria fazer. Billy estava cético em como uma garotinha de 13 anos poderia fechar a entrada para outro mundo, dava para ver em sua expressão. Assim que houvesse tempo teria que colocá-lo a par de outras histórias.

Mike estava mais calmo agora, prova disso foi o seu raciocínio rápido com a sucessão de acontecimentos após eles fecharem o portal. A ligação da mente colmeia faria tudo relacionado ao Mundo Invertido ser desativado, o exército do Devorador de Mentes seria morto e com ele Will Byers. Era assustadora a forma como o inimigo parecia sempre estar um passo à frente deles. A Sra. Byers saiu da cozinha indo até o quarto onde o filho estava apagado.

"Ele gosta de frio", foi o que ela falou. "Continuamos dando a ele o que quer".

A engrenagem na cabeça de todos começou a funcionar ao mesmo tempo, se conseguissem tirar o Devorador de Mentes com calor antes do portal ser selado, Will ficaria bem. Hopper ofereceu a cabana na floresta como o lugar desconhecido para tirarem a criatura. "Pegue a Denfield, terá um grande carvalho, vire à direita e mais 5 minutos de caminhada", passou a instrução para Jonathan. Sam estava tão acostumada com aquele caminho naquela altura.

Na parte de fora encarou El, que estava pronta para sua missão no laboratório, e Mike sendo interrompidos pelo delegado em seu momento romântico, os adultos tinham um timing incrível para aquilo. Sentiu um braço rodear seus ombros encontrando novamente Billy ao seu lado, quase como uma extensão de si mesma naquela noite e isso estava se tornando algo comum.

– Até os merdinhas acham tempo para flertar, por que eu não poderia? – a nova rodada de humor barato se iniciou. Estava começando a entendê-lo, ou pensava estar. Ligação emocional profunda não era o seu forte. Billy a encarava como se soubesse todos os seus segredos e sorria como se pudesse realizar os seus desejos, porém nem tudo se resumia em uma boa foda para ela. Não estavam na mesma página. Se afastando dele assim que os dois carros partiram foi até Max colocando a mão em suas costas.

– Vamos entrar. Temos um grupo de pirralhos encrenqueiros para ficar de olho.

..

Agora que se tornaram o grupo que apenas espera, as coisas ficaram mais leves. E maçantes. Steve e Dustin estavam na cozinha tentando esconder um democão na geladeira da Sra. Byers, Max e Lucas limpavam os cacos da janela quebrada, Mike andava de um lado para o outro, Billy abria e fechava seu isqueiro de metal em um barulho irritante e Sam pensava sem parar. Se ela veio ao passado por causa do Mundo Invertido será que seria devolvida ao futuro quando ele fosse selado? Tinha esperança de voltar para sua antiga vida, beijar seus pais, abraçar o avô e procurar por Max. Procurar por todos eles em 1986. Mas Billy não estaria lá, nunca mais o veria e seus encontros, ao invés de recheados de ação e monstros, seriam silenciosos na frente de uma lápide fria com margaridas brancas.

Já deveria ter esperado que o silêncio não duraria por muito tempo. A pilha de nervos ambulantes que era Mike Wheeler começou a argumentar sobre ficarem parados enquanto todos faziam alguma coisa. Os mais novos queriam entrar nos túneis por onde Hopper tinha acessado, atearem fogo no centro, chamarem a atenção dos democães para que o laboratório ficasse livre e provavelmente morrerem no processo. Steve começou a tentar chamar atenção para o fato de que isso não aconteceria, de jeito nenhum eles se colocariam em risco.

– Não vai rolar. Prometi que ia cuidar dos imbecis e isso é exatamente o que vou fazer – rebateu com as mãos na cintura. Sam achou que a pose a fazia se lembrar de sua própria mãe quando estava irritada e a chamava pelo nome completo.

Mike foi o único a tentar argumentar quando foi interrompido pela risada alta de Billy acompanhada de palmas. A sensação de que nada de bom sairia daquilo era visível, Steve parecia estar no limite com aquela presença indesejada desde o ferro-velho.

– Vamos lá, mamãe Harrington, impeça os pestinhas de se matarem já que a namorada você não conseguiu impedir de te deixar.

– Cala a boca – Steve respondeu, punhos cerrados ao lado do corpo.

– Ah, qual é, eu não fui o único a ver a Nancy saindo com o Jonathan naquele carro. Mulheres gostam de garotos estranhos às vezes, mas como já te disse você é bonitão, vai achar outra rápido, rápido.

Ninguém quis se intrometer na discussão, nem mesmo Sam se moveu. Steve parecia realmente chateado com a namorada, não porque Billy o estava perturbando com isso, mas porque nenhuma palavra dita era mentira. Nancy escolheria um dos dois e não seria ele.

– Você é um idiota. Por que ainda está aqui? – Steve levantou o queixo já bastante irritado.

– Não fui eu que saiu com a sua namorada, cara. Mas faz sentido ela te trocar, você é um mané – a última palavra foi falada em uma pausa jocosa acompanhada do dedo indicador de Billy pontuando as sílabas no ombro do outro garoto.

– Babaca – Steve o empurrou para longe cansado de lidar com as piadinhas.

Se divertindo com a cena que criou Billy riu alto.

– Eu queria mesmo conhecer o Rei Steve de quem todos falam. Só é uma pena sua rainha ter encontrado outra coroa para adorar.

Aquele foi o limite, a próxima resposta de Steve foi um punho direto no rosto de Billy, sangue escorrendo por seu nariz. Em questão de segundos os dois adolescentes estavam trocando socos, as crianças gritavam por seus nomes durante a confusão. "Vai, Steve! Vai, Steve", Dustin tomava partido, animado como se estivesse assistindo algum esporte na TV. Será que todo mundo tinha perdido a cabeça? Max tinha os olhos cheios de lágrimas enquanto pedia em desespero para o irmão parar. A briga foi da cozinha para a sala despertando Sam do torpor de incredulidade em que estava, sem pensar no soco gratuíto que poderia levar se jogou na confusão entre os dois.

– Billy para com isso! – pediu em desespero.

– Não. O Harrington bateu primeiro, agora é a minha vez.

Os três foram para o chão com Steve por baixo levando socos e mais socos, ocasionalmente se debatendo e chutando seu oponente com os joelhos. Parar Billy era como tentar se colocar na frente de um caminhão, enquanto tentava segurar o braço direito dele viu o exato momento em que Max pegou alguma coisa e se aproximou enfiando a agulha com o líquido calmante no pescoço do irmão.

Os gritos na sala pararam. Ainda no chão com um Steve agora inconsciente assistiu quando Billy se levantou, tirou a seringa da pele e encarou a garota antes de cair tonto. Max foi até o taco cravejado de pregos empunhando a arma.

– De agora em diante você vai deixar a mim e a meus amigos em paz. Entendeu? – a garota gritou com as bochechas avermelhadas em fúria.

– Vá se ferrar – Billy respondeu com dificuldade, o remédio dominando aos poucos seu sistema.

– Fala que entendeu! – Max gritou acertando o taco no chão entre as pernas dele. – Fala! Fala!

– Entendi – ele cedeu antes de apagar de uma vez.

A seringa ainda estava na mão dele, a dose aplicada não foi a total, ainda tinha líquido no cilindro. Se levantando às pressas Sam correu até Max que a abraçou pela cintura, os outros meninos foram até Steve ver como estava. Acariciando os cabelos ruivos sussurrou que ficaria tudo bem.

– Eu enfrentei.

– Como? – Sam perguntou confusa assim que se separaram.

– Eu enfrentei o Billy, disse para ele nos deixar em paz.

Se lembrava da conversa que tiveram antes sobre enfrentá-lo. Drogar o irmão não era bem o que queria dizer, mas não falaria isso para ela, um aceno positivo de cabeça deveria bastar por enquanto. Max se afastou indo até Billy e pegando a chave do carro de seu bolso.

– Vamos dar o fora.

– O que? Não! – Sam protestou. Ela estava com um garoto nocauteado, outro dopado e quatro pré-adolescentes. Não podiam se arriscar de jeito nenhum.

– Você pode ficar, nós vamos – Mike tomou a frente, às vezes essa valentia dele somada a língua respondona era irritante.

– E quem vai dirigir? – levantou a questão mais importante para o plano aparentemente infalível deles.

– Eu – Max respondeu convicta.

– Você por acaso já dirigiu antes?

– Já sim. Com o meu pai em um estacionamento.

Olhou para a mais nova com uma expressão que dizia mais do que se realmente tivesse falado, era impossível eles acharem que era uma boa ideia.

– A questão é que precisamos fazer isso – Mike se aproximou um pouco mais paciente dessa vez. – E precisamos fazer juntos. Por favor, Sam.

Droga de crianças persuasivas.

..

De todas as coisas que fez quando chegou ao passado, levar crianças para uma confusão foi a mais maluca delas. Estavam agora no carro de Billy, ele e Steve estavam apagados no banco de trás aos cuidados de Mike e Dustin. Na frente Max e Lucas dividiam o banco do passageiro dando as coordenadas para onde Sam, que estava dirigindo, deveria seguir. No meio do percurso Steve acordou e começou a surtar, a quantidade de pessoas gritando ao mesmo tempo a deixou confusa e talvez o passeio estivesse sendo com mais emoção do que deveria.

O carro foi freado em frente ao buraco, do porta malas os mais novos tiraram bandanas para cobrirem os narizes e óculos de proteção. Steve saiu aos tropeços enquanto tentava convencer Sam a impedi-los.

– Não posso, Steve. Eles vão mesmo sem a gente, então é melhor ficarmos de olho – tirando a jaqueta de couro gigante voltou para o carro colocando-a em cima do dono adormecido. Que continuasse assim por enquanto, um problema de cada vez.

Quando saiu viu Dustin conversando com o outro adolescente, a cara de Steve era uma bagunça de sangue e inchaço. O restante já tinha amarrado uma corda no para-choque do carro e estavam preparados para descerem com a gasolina, babá em Hawkins era definitivamente uma profissão a não ser seguida.

Dentro dos túneis encontrou um cenário já familiar para ela, escuro, feio e assustador. Steve pegou o mapa improvisado de Mike para tomar a frente, a segurança dos menos era prioridade, o que fez com que os dois mais velhos liderassem o grupo. No final Sam ficou com o mapa por ser melhor com direção, sua lanterna emprestada ia de um lado ao outro sempre em alerta com os cipós. Não seria pega uma terceira vez. Houve apenas um momento de pânico – o que era quase um milagre – com Dustin gritando que algo tinha entrado em sua boca para depois de tossir afirmar que estava bem. Dez anos de vida foram reduzidos de cada um deles com o susto.

– Eu vou envelhecer rápido se ficar muito tempo perto desses merdinhas – Steve murmurou para Sam. – Não sabia que irmãos mais novos eram tão problemáticos.

– E aparentemente não temos só um, temos uma gangue de mini-terroristas.

Como dois filhos únicos até que estavam se saindo bem, ninguém tinha morrido ainda e organizar os pestinhas não era difícil. Ao menos até que Mike começasse a argumentar em seu falatório sem fim, talvez nem Nancy conseguisse lidar com ele.

O centro da criatura era um lugar gigante ligado a diversos túneis, foi por um deles que ela viu os homens de branco ateando fogo. Estiveram tão perto do perigo real antes, mas quem iria saber? Logo passaram a encharcar o chão e as paredes de gasolina, cada canto foi meticulosamente coberto pelo líquido, ao terminarem se posicionaram no túnel pelo qual vieram mais cedo. Agora era a hora de jogar o isqueiro aceso, correr de volta para a saída e rezar para que ninguém seja devorado. As chamas que subiram foram altas, vinhas levantaram se retorcendo em agonia.

– Vai, vai! – Steve deu o sinal.

Todos correram o mais rápido que conseguiam sendo auxiliados apenas pelas lanternas e coordenadas de Sam, em uma das passagens Mike foi pego por uma vinha que tentou arrastá-lo pela perna. As crianças voltaram e começaram a gritar enquanto seguravam o amigo pelos ombros. Sam tirou o canivete do bolso pronta para esfaquear novamente aquela porcaria, mas outra vinha se enrolou em seu pulso impedindo o ataque com um solavanco. Inesperadamente fogo surgiu pela parte de trás, uma figura alta segurava uma lata em uma mão e isqueiro na outra.

– Billy? – o reconheceu quando ele se aproximou para soltar seu braço, as vinhas se encolheram retorcidas com guinchos de dor. A lata de spray vazia foi lançada fora.

Max olhou desconfortável para o meio-irmão agora acordado. Não tinham tempo para aquilo, não agora.

– Vamos, vamos, vamos galera! Estamos ficando sem tempo – Steve gritou libertando Mike com seu taco. – Estão todos bem?

Não, ninguém estava bem. Mal conseguiram se reorganizar para continuarem a correr quando um dos democães grunhiu alto parando perto do túnel que tinham que passar. Era grande e ameaçador abaixado em suas quatro patas.

– Dart – Dustin falou encarando a criatura.

Ignorando o protesto dos demais, o garoto se aproximou tentando estabelecer contato com o antigo bichinho. Era como ver um domador de feras, paciente e confiante, buscando o elo entre eles; o que se resumiu em caramelo. Com um aceno de mão eles foram mandados prosseguir no caminho enquanto Dart era distraído com doces. O ritmo não podia diminuir, quando Dustin se juntou a eles, os passos rápidos voltaram aos seus pés. Os túneis tremeram, novos grunhidos foram ouvidos mais a frente.

– Corram! Corram! – alguém gritou fazendo todos mudarem de direção.

Depois de uma curva encontraram a corda pendurada. Sam foi a primeira a subir para ajudar os demais, logo em seguida os outros dois adolescentes empurraram Max, Lucas e Mike. Iria dar certo, tinha que dar. Estendeu a mão para o próximo a subir, porém ninguém a segurou.

– Cadê vocês? – gritou sem receber um retorno.

Enfiando a cabeça no buraco viu Dustin, Steve e Billy parados no meio do túnel colados uns nos outros, tudo tremia com os passos pesados das criaturas. Um número absurdamente grande de democães passou por eles – como se os três garotos não estivessem ali – seguindo um rumo fixo sem parar por nada. Eleven já deveria estar no portal.

– Steve, Billy! – chamou novamente vendo os dois olhando para cima com caras confusas. – Vamos!

Com a mão ainda estendida auxiliou os últimos três a subirem; Billy sendo o último deles. Estava tão cansada que deitou no chão igual da primeira vez que saiu daqueles túneis, o garoto que tantas vezes a salvou também estava lá deitado ao seu lado, o peito subindo e descendo numa respiração ruidosa de cansaço. Os olhos claros, tão límpidos, a encararam com intensidade. Tinham conseguido mais uma vez. O farol do carro brilhou forte cegando todos próximos ao buraco. Estava acabado, eles conseguiram ajudar com o plano suicida e El fechou o portal.

A volta para a casa dos Byers foi constrangedora, aceitar a carona de Billy era esquisito depois de todo o drama vivido por ele, Steve, Max e os demais. Porém estava escuro, não tinham muito o que fazer além de se ignorarem pelos minutos que levavam no percurso. Will voltou para casa com a mãe, o irmão e Nancy, o menino estava debilitado, mas o mais importante é que estava vivo. Logo Hopper e Eleven também chegaram completando o grupo. Sam se sentia estranha. Esperava voltar para 1986 depois que o portal fosse fechado, só que nada indicava que estivesse remotamente perto de voltar para casa.

– Oi – Billy se aproximou, o nariz ainda tinha um rastro de sangue seco. – Podemos conversar?

– Não – respondeu ríspida tentando encerrar o assunto. – Muito obrigada por todas as vezes que você salvou a minha vida nos últimos dias, mas eu não quero falar com você.

– Droga, Sam, espera – a mão dele segurou o pulso dela impedindo-a de sair.

– Não, Billy – ela puxou a mão do aperto delicado, ainda estava tão furiosa com a atitude dele, tão decepcionada. Ser idiota deveria ter um limite. – Achei que você era melhor do que diziam, que não poderia ser um completo babaca. Estou vendo que me enganei.

Dando as costas foi até onde Hopper estava, sua atual situação era complicada demais para acumular mais um drama e, definitivamente, adicionar um garoto a equação era uma enrascada das grandes.

..


Hey, folks.

Penúltimo capítulo dessa primeira parte de Perdidos no Tempo. Assim como em capítulos anteriores, tentei ao máximo encaixar os acontecimentos canônicos para enfatizar que mesmo com algumas mudanças o caminho permanece o mesmo. Billy sendo idiota porque, sinceramente, ninguém muda do dia para a noite, vamos ser realistas aqui.