Capítulo 11 - Calmaria tempestuosa
Hawkins, Indiana - Janeiro de 1985
Samantha estava parada observando as costas da menina que encarava atenta a paisagem nevada pela janela da cabana, tanto o cabelo quanto a altura de El tinham crescido nos últimos tempos, ao ponto de se perguntar se fazia mesmo quase três meses que estava ali ou se era muito mais. Suspirando voltou ao sofá, na TV passava uma reprise de I Dream of Jeannie, mas naquele momento sua mente estava muito além de qualquer programa. Encarando um ponto qualquer na madeira da parede deixou seus pensamentos vagarem longe. O que será que as pessoas que deixou em 1986 estavam pensando sobre o seu sumiço? Seus pais com toda certeza estariam desesperados acreditando que ela estava morta em algum canto de Hawkins fazendo parte da trágica estatística daquela cidade. E sobre Max? Steve, Dustin e Lucas que tinha acabado de conhecer, será que cogitaram que seu sumiço era culpa do tal Vecna? Para ser sincera, nem ela sabia quem ou o que a tinha levado para o passado, tudo era tão problemático que sentia pontadas na cabeça toda vez que pensava mais a fundo sobre o assunto.
Tinha que ter um propósito o que estava vivendo, não era como se pessoas fossem mandadas para outro tempo e ninguém soubesse disso. A não ser que as teorias sobre Elvis Presley fossem reais e o coitado estivesse vivo, tão perdido no tempo quanto ela, o que seria péssimo pois isso já fazia quase dez anos para ele. A última coisa que queria era pensar que não voltaria mais para casa ou o quanto disso poderia afetá-la.
– Eles chegaram, eles chegaram – El gritou animada se levantando da cadeira, correndo para abrir a porta e deixando que o vento frio entrasse enquanto esperava pelos amigos.
Tinha se tornado normal que os pirralhos aparecessem lá depois da aula, isso era um fato, mas o mais chocante é que de certa forma também tinha virado normal que Billy Hargrove aparecesse às vezes. Começou com uma carona para Max – como quando ela ia ao arcade – até acabar com todas as crianças amontoadas em seu Camaro, afinal de contas o caminho era ruim, a neve era alta e todos estavam indo para o mesmo lugar. Nos primeiros dias o garoto acenava um "olá" educado de seu carro e só voltava a aparecer para pegar a meia-irmã, a relação amigável que estabeleceram desde o Baile de Inverno ainda estava durando, o que para Sam era um alívio. No entanto, aquela dinâmica mais distante mudou quando ele apareceu trazendo a velha bicicleta que deixaram abandonada no ferro-velho.
É dispensável dizer que depois da luta com os democães a bicicleta tinha quase se tornado sucata. Estava sem correia, um dos pedais tinha sumido, o banco faltava um pedaço, o quadro e aros amassados e o guidão solto do resto. Seu primeiro pensamento foi "é um caso perdido" seguido de "o Hopper vai me matar", então não conseguiu entender o ponto com o resgate da bicicleta além do saudosismo de uma luta que deixou uma pequena cicatriz em seu braço. Mas Billy era uma caixinha de surpresas, com determinação decidiu que restauraria o que era o seu único meio de locomoção por Hawkins. O garoto iniciou os reparos antes do inverno pesado cair, ele levava jeito para mexer com todas aquelas ferramentas e Sam gostava de vê-lo trabalhar, era uma dinâmica simples além de ser bom passar um pouco do seu tempo com alguém tecnicamente da sua idade. Ela até tentou oferecer ajuda, porém logo foi dispensada com o argumento de que era "uma reparação por um mau comportamento". Depois de um tempo de trabalho algo realmente inusitado aconteceu, Mike Wheeler foi selecionado para apoio da construção.
"Ele tem dedos finos, devem servir para alguma coisa", Billy argumentou quando ela questionou a estranha escolha de ajudante, as personalidades dos dois eram as piores possíveis para uma combinação. Não demorou nem cinco minutos inteiros para Mike atirar uma chave de boca no chão e voltar para a cabana em meio a resmungos mal educados. "Que merdinha respondão."
Naquele dia Lucas saiu pela porta com determinação nos olhos, se aproximou, pegou a chave de boca e trabalhou para soltar a porca espanada. Se Billy pensou em reclamar de alguma coisa, deve ter voltado atrás quando não apenas Sam, mas agora Max também acompanhava a restauração da bicicleta. Ele estava aprendendo que às vezes o silêncio valia ouro.
Aos poucos a dinâmica entre todos tinha melhorado bastante, com a chegada do inverno o conserto da bicicleta foi adiado fazendo Sam achar que as visitas de Billy também terminariam, mas ao invés do que acreditou inicialmente quase todos os dias ele ficava na cabana após as aulas com a desculpa de que era legal implicar com ela e com os mais novos. Precisava admitir que ao menos era isso mesmo o que acontecia, nos últimos dias os flertes tinham diminuído, porém havia aqueles momentos em que ele deixava claro não ter desistido ainda.
O som alto de vozes animadas atraiu a atenção da garota para a porta. Com os olhos voltados para a entrada encontrou o grupo de pré-adolescentes arrancando gorros, luvas e casacos pesados para correrem até a lareira acesa onde poderiam aproveitar do calor das chamas. Max, depois de cumprimentar El, foi até onde Sam tinha acabado de se levantar passando os braços ao redor da cintura da amiga.
– Ei, linda. Trouxe donuts para nós – lá estava ele. Um dos motivos para a sua mente trabalhar incansavelmente nos últimos dias tinha sido o último a passar pela porta da cabana e como sempre atraía todas as atenções para si.
– Oba, eu adoro donuts – Dustin sorriu se afastando do fogo.
– Você não, aspirador de pó ambulante – Billy respondeu enquanto batia alguns flocos de neve de seus cachos. Sam insistia para que ele usasse uma touca naquele tempo horrível, mas a vaidade de um homem com o seu penteado nunca poderia ser vencida. – Os donuts são meus e dela.
– Não importa o que você diga, a Sam vai dividir com a gente – Max entrou na discussão mostrando também estar interessada no doce.
– Vai mesmo porque ela é muito legal – agora era a vez de El se intrometer, andando até o sofá com Mike colado ao seu lado.
– Você mima demais esses merdinhas – Billy tinha terminado de espanar a neve do corpo e lentamente se aproximava de onde todos estavam com um saco pardo nas mãos. Sua expressão transcrevia seus exatos pensamentos naquele momento, ele não dividiria seus donuts com ninguém além dela. – Vocês não têm vergonha?
A pergunta foi recebida com várias sobrancelhas arqueadas, mesmo Sam enrugou a testa em descrença.
– Meio irônico ouvir isso, ela também te mima e você é bem mais velho do que nós – Dustin era o único com coragem, e motivação nos doces, o suficiente para aquela réplica. Talvez Mike tivesse elaborado aquela resposta de uma maneira mais malcriada se não estivesse tão ocupado encarando El com olhinhos de sapo apaixonado. – Além disso, eu estou em fase de crescimento.
– Crescimento – com um sorriso incrédulo Billy balançou a cabeça de um lado para o outro. – Cai fora, fica longe dos meus donuts, Henderson, caso contrário te faço de boneco de neve lá fora.
Como em todas as tardes Sam precisou intervir antes que a única coisa que fizessem fosse trocar insultos, ao menos dessa vez ela sabia que aquelas palavras rudes agora faziam parte do estranho tratado de paz instaurado entre todas as partes. Billy resmungaria deles, eles responderiam e tudo continuaria normal porque não havia mais ódio envolvido.
– E se eu fizesse chocolate quente?
A ideia da garota foi respondida com sentenças positivas de todos os lados, o frio ainda estava castigando e qualquer calor era bem-vindo. Apontando com a cabeça até a pequena cozinha, ela e Billy deixaram os mais novos para fazerem o que quer que tinham programado para a tarde, Dustin retirava da mochila uma de suas invenções malucas enquanto os outros se reuniam ao seu redor. Will parecia retornar aos poucos a velha normalidade, ele sorria um pouco mais e estava sempre disposto a participar do que o grupo escolhesse fazer, principalmente se fosse uma partida de D&D. Era bom que sua mãe não o tivesse prendido em casa.
Sam colocou o leite para esquentar e apanhou o saco de donuts estendido, dentro encontrou quantidade o suficiente para que cada um ali comece ao menos uma rosquinha açucarada. Com um sorriso provocativo nos lábios encarou os olhos claros do garoto encostado no balcão ao seu lado.
– Ou você quer que a gente desenvolva diabetes com esse tanto de açúcar ou aqui dentro tem um donut para cada um dos merdinhas naquela sala – viu o momento que sua provocação atingiu o alvo quando enxergou as íris claras dançarem de divertimento. – Mas você é Billy Hargrove, nunca compraria doces para crianças.
– Nunca mesmo. Só que você, Samantha, insiste em dividir as coisas que compro para nós. Principalmente com o pirralho que parece estar em um jejum de cem dias.
– Que maldade a sua. Isso tudo só porque o Dustin acha o Steve o cara mais legal de Hawkins? – sua pergunta foi recebida com um estalar de língua, era realmente mais divertido quando era ela quem estava provocando e não ao contrário. – Agora você poderia me ajudar pegando as canecas no armário, sim? Hopper sempre deixa elas na parte alta.
Dando de ombros Billy foi até o armário fazer o que foi pedido, antes de abrir as portas voltou sua atenção para a garota em frente ao fogão.
– Como sempre você pode olhar a minha bunda enquanto pego as xícaras se quiser.
Sam revirou os olhos com um sorriso nervoso nos lábios, na única vez que esticou os olhos para encarar a bunda dele foi vergonhosamente pega e agora pagaria pelo resto de sua vida por isso. Ninguém poderia culpá-la por aquilo, só quem não sabia o quão bem a bunda dele ficava em um jeansapertado é que achava que tinha como não olhar. O seu deslize o deixou mais confiante, era munição o suficiente para fazer com que ele ficasse mais convencido do que geralmente já era.
– Ah, claro, minha meta de vida é secar sua bunda.
– A sua eu não sei, doçura, mas eu gosto de secar a sua.
Como das outras vezes, a tarde correu sem problemas e a noite – depois de garantir a Will que estava marcado para ser sua babá na noite seguinte – voltou a divagar em seu quarto improvisado. Ela e Hopper tiveram uma conversa rápida sobre o novo namoro de El com Mike assim que o delegado chegou do trabalho, talvez fosse coisa de pai de menina, mas ele sempre fazia Sam passar o relatório do dia. Só que toda aquela dinâmica estranhamente a fazia se sentir parte daquele lugar e isso começava a incomodá-la.
Há alguns dias Sam começou a pensar que a vida parecia boa, que mesmo com toda a loucura do Mundo Invertido ela sabia que teria gostado de conhecer todas aquelas pessoas dentro daquelas circunstâncias. Ela teria adorado conhecer Billy com seu falso jeito despreocupado, com suas cantadas baratas, e isso a assustava porque na mesma medida em que estava confortável também sentia o desespero esmagador que era a necessidade de voltar para o seu tempo. Mas ela sabia, e isso a machucava, que o futuro era sombrio. Hopper não estaria mais lá para El, Billy seria uma vítima do Devorador de Mentes dentro daquele maldito shopping que estavam agora mesmo construindo e Max estaria na maldição de uma criatura pior do que qualquer outra vista antes.
Talvez porque antes não estivesse afeiçoada àquelas pessoas fosse fácil guardar tantos segredos, mas agora que os via como amigos, lutava dia após dia com a vontade de contar tudo o que sabia ignorando os riscos que uma atitude assim traria ao futuro. As férias de verão não estavam tão longe, assim que entrassem em julho de 1985 era questão de dias para que tudo desse errado e vidas fossem sacrificadas. Sam não sabia se ainda estaria no passado e estava odiando cada momento em que sua mente trabalhava em velocidade surreal para que tantos sentimentos e pensamentos acontecessem ao mesmo tempo. Cansada virou para o lado esperando que Morfeu fosse generoso o suficiente para fazê-la dormir tão rápido quanto fechasse os olhos.
..
Se tinha outra coisa que ela sentia falta em sua extensa lista era de sua independência financeira, odiava depender e dever para Hopper, era frustrante como a falta de seus documentos, responsáveis legais ou a forma como seu segredo não a permitiam arrumar um trabalho, no final do dia se sentir um peso estava se tornando costumeiro. Foi graças à gentil percepção de Joyce Byers que sua situação tinha melhorado através da oferta de ser babá de Will; depois dos últimos dois anos era quase um milagre que a mulher conseguisse sair e deixar seu filho sozinho. O dinheiro não era muito, porém gostava de ao menos ser capaz de pagar por seus produtos mais pessoais.
Na tarde seguinte Hopper voltou para a cabana e deu uma carona para Sam até os Byers, havia neve cobrindo boa parte de Hawkins e aquele cenário desolador corroborava com o que os mais velhos chamavam de "calmaria antes da tempestade".
– Ei, garota, está tudo bem? – Hopper chamou a atenção dela quando pararam em frente à casa de Joyce. – Você anda tão silenciosa.
Sam pensou em como responder, se contaria a verdade ou se continuaria se esquivando, em quais palavras usaria para que apenas o necessário fosse dito. Um suspiro cansado escapou antes que conseguisse formular uma frase boa o suficiente.
– Saudades de casa – foi a sua evasiva. Esse era o tipo de resposta que qualquer pessoa aceitaria sem mais questionamentos.
– Vamos arranjar um jeito de te mandar para casa. Você vai voltar para o seu tempo, com seus pais, e vamos nos encontrar mais uma vez.
As palavras do delegado fizeram os olhos da garota se encherem de lágrimas porque a verdade era a de que eles nunca mais se encontrariam ela voltando para o seu próprio tempo ou não, Hopper não estaria mais lá e tudo o que conheciam agora seria um borrão escuro e sujo. Encarando a emoção da garota de forma equivocada, o homem a puxou para um abraço fraternal.
– É uma promessa, Sam – ele continuou. – E eu não costumo quebrar uma promessa.
Enxugando as lágrimas com as mangas do casaco a garota balançou a cabeça algumas vezes em sinal de concordância, ela gostava de acreditar que a vida era imprevisível e que ainda havia força de vontade para queimar. Com um sorriso contido agradeceu ao apoio do homem antes de ir em direção à porta dos Byers.
Will era uma criança tranquila para ser babá, tinha certeza de que se fosse Mike ou Dustin ela já estaria a ponto de arrancar os cabelos. Diferente do que aparentava o menino era bastante falante quando os temas corriam para áreas de seu domínio, naquela noite Sam aprendeu mais sobre D&D, como funcionava as partidas e sobre os seus vilões. Quando Vecna foi apresentado sentiu um nó apertar tão forte sua garganta que foi difícil como jamais tinha sido antes o ato banal de engolir a própria saliva. Também ouviu mais sobre as diferenças entre pintar com crayons, lápis de cor e tinta guache. No final da noite se apertaram no sofá da sala para assistirem Gremlins, o Gizmo era a coisa mais fofa e ela se pegou pensando que se todas as criaturas do Mundo Invertido fossem com ele – com a condição de não serem molhadas porque ninguém merecia ter que lidar com o Stripe e seu bando – as coisas seriam melhores.
Passava um pouco das 22h00 quando a Sra. Byers chegou, a mulher ofereceu uma carona até a delegacia onde Hopper a levaria para casa, mas mesmo com o frio Sam declinou a oferta para que pudesse andar e pensar livremente, afinal ninguém morria congelado por alguns minutos na rua. O vento frio ajudou a aliviar a mente de tantos pensamentos proporcionando uma falsa sensação de liberdade, estava tão absorta – se deixando guiar por passos inconscientes – que quando percebeu tinha ido por um caminho que passava pela rua dos Hargrove.
Ao longe viu o Camaro azulado parado na rua, o topo salpicado de neve dizia que o seu dono não tinha saído de casa nas últimas horas. Dando de ombros rumou em direção a entrada, o horário não era dos melhores para uma visita e estava relutante em dizer que era esquisito passar um dia inteiro sem a presença petulante de Billy, mas não estava muito disposta analisar suas atitudes naquele momento. Quando chegou em frente a porta, pronta para bater, o som de vidro quebrando fez com que a garota desse um pulo no lugar onde estava. Se sentindo boba riu por agir como um rato assustado, porém logo em seguida ouviu o barulho abafado de algo se chocando dentro da casa seguido por vozes alteradas. Sam não era fofoqueira e muito menos bisbilhoteira, foi apenas o pensamento de que talvez eles estivessem sofrendo um assalto ou coisa pior – vinda direto do Mundo Invertido – que a fez esticar o pescoço para olhar a casa por uma brecha na janela que a cortina não cobria.
Foi com choque que encarou uma cena que fez sua boca se abrir e seus olhos piscarem frenéticos em descrença, Billy estava sendo prensado em uma das paredes por mãos impiedosas. Um homem, Neil, ela notou, o intimidava segurando seu queixo impedindo que o adolescente olhasse para qualquer outro lugar além dele. Sam não conseguia ver o rosto do Sr. Hargrove, mas se a expressão do garoto era algum indício – uma mistura de raiva, indignação, tristeza e opressão – sabia que não era das melhores. Jamais imaginou ver o amigo em uma postura tão submissa. No primeiro tapa ela se assustou, no segundo continuava incrédula com o que via, no terceiro seu coração se quebrou com o filete de sangue que escorreu da boca dele e do quarto em diante indignação fez seu estômago borbulhar.
"Você nunca faz nada direito, é uma vergonha ter um filho tão maricas assim. Quantas vezes mais vamos ter essa conversa, Billy?"
As palavras que o mais velho dizia eram cruéis, o jeito como diminuía o próprio filho era monstruoso e algo estalou na mente de Sam enquanto acompanhava tudo como uma espectadora clandestina. A forma como as palavras do Sr. Hargrove soaram a fizeram se lembrar de como o próprio Billy se comportava, agora percebia que era apenas uma sombra do que aprendia em casa. Sua agressividade defensiva o estava levando por um caminho descontrolado e perigoso. Pegando o filho pela gola da camisa, o homem o arrastou soltando no sofá com brusquidão, viu o exato momento em que o ombro dele se chocou com o braço do móvel com força. Agora fazia sentido os hematomas que às vezes ela via pelo corpo dele, os resmungos ocasionais de dores musculares e como Max falava com frieza do padrasto. Sempre esteve na cara de todo mundo, entretanto ninguém se preocupou em ver.
Sam queria entrar, impedir que as agressões continuassem e gritar até que toda sua indignação pudesse ser controlada, mas sabia que seria ainda pior para Billy se fosse impulsiva naquele momento. Resignada arrastou os pés para trás, com o coração apertado chacoalhou a cabeça de um lado para o outro tentando tomar coragem antes de correr pela rua em direção ao seu destino inicial; a delegacia. Com o coração acelerado e os ouvidos zunindo sentiu o frio cortante no rosto enquanto o som dos tapas a acompanharam como uma memória de crueldade. De mãos atadas decidiu que primeiro falaria com Billy, tentaria entender dele o que era aquilo – desde quando acontecia – para depois pensarem juntos em como seguir. Odiava deixá-lo para trás daquela forma, mas o que uma garota tão jovem e fora do seu tempo poderia fazer sem piorar ainda mais a situação?
..
Sam teve uma noite de merda como não tinha desde que chegou ao passado. Todas as vezes que fechava os olhos e caia no sono a imagem da Neil Hargrove machucando o filho voltava em um looping com diferentes formas de agressão; ter uma mente com criatividade quase ilimitada não era uma vantagem naquele tipo de situação. Seu humor estava péssimo, diversas foram as vezes em que sua língua coçou para contar a Hopper sobre o que viu, como delegado ele saberia o que fazer em casos assim, porém o quão eficiente seria a justiça naquele em específico? De nada adiantaria alarmar se o agressor saísse impune. Além da certeza de que se desse esse passo sem consultar Billy ele ficaria muito irritado e qualquer chance de ajuda seria perdida.
A tarde passou arrastada para uma sexta-feira, no horário de sempre ouviu o ronco do motor do Camaro e sem esperar correu em direção à porta. Apenas Max, Mike e Lucas saíram do carro e quando viu que Billy não sairia foi até a janela do motorista falar com ele depois de cumprimentar os mais novos que entraram na cabana correndo. A atitude displicente nele – esparramado no banco do motorista – impedia que a realidade fosse vista, mas ela sabia o que tinha acontecido e isso a estava machucando.
– Andou brigando? – fingiu não saber do que se tratava ao apontar para o corte arroxeado no canto da boca masculina. – Está feio.
– Olá, Samantha. Também é muito bom te ver, estava com saudade – ele caçoou em sua posição relaxada, foi impossível não se perguntar quantas vezes o seu jeito despojado foi usado apenas para mascarar a realidade. – Isso? Você tem que ver como ficou o outro cara. Isso aqui não é nada.
O escárnio em sua resposta fez com que ela sentisse um novo peso caindo em seus ombros. Ele não queria falar sobre aquilo, passaria por cima com um humor mórbido. Mas até quando conseguiria suportar aquilo?
– Só se a mão do outro cara saiu machucada por te bater – sua resposta séria chamou a atenção dele, os olhos claros a encararam semicerrados pela compreensão que usou ao falar.
– O que você está dizendo?
– Estou dizendo que eu sei o que aconteceu – não tinha como adiar mais, precisava puxar o band-aid da ferida de uma vez e tentar aliviar a angústia que vinha sentindo. – Eu passei na sua casa ontem e vi o que aconteceu.
O olhar de confusão que ela recebeu logo mudou para vergonha e então para raiva.
– O que estava fazendo lá? – Sam já tinha ouvido aquele tom de voz irritado antes, mas nenhuma vez dirigido a si. – O que você viu?
Tentando não demonstrar fraqueza endureceu a mandíbula, se mostrasse qualquer sinal de covardia jamais conseguiria tirar alguma coisa dele além de resmungos.
– Tudo, ou assim acho eu. Eu vi seu pai-
– Não! – Billy a cortou, depois controlou o volume da voz. – Não.
– Billy isso é errado, é perigoso. Desde quando tem acont-
– Eu já disse que não, Samantha – o tom de voz dele voltou a subir a assustando um pouco. Por mais que esperasse uma reação assim não era fácil de lidar. – Você não deveria estar lá, não tinha que ter visto nada.
– Eu quero te ajudar, me deixa te ajudar – a mão de Sam apertou o braço pendurado para fora da janela do carro. Assim como ele esteve lá por ela tantas vezes também queria poder apoiá-lo. – Não é de agora que você está passando por isso, certo? Os roxos que às vezes aparecem no seu corpo não eram de brigas com outros garotos, foi o seu pai.
– Quando você vai parar?
Ela achou que a raiva na voz dele fosse algo que a entristecia, mas ao ouvir o tom frio seus ombros caíram em desamparo. Naquele momento soube que ele não aceitaria sua ajuda e, o pior de tudo, continuaria passando por aquilo sozinho.
– Eu só quero te ajudar.
– Eu não quero a sua ajuda, você nunca me ouviu pedir por isso e não vai acontecer agora.
– Mas-
– Não me meto nas coisas que você não quer me contar, Samantha, então não se meta nas minhas.
Sam soltou o braço que ainda segurava se sentindo tão desolada e impotente quanto na noite em que acordou em outubro de 1984. O motor do carro foi ligado novamente e ela deu um passo para trás, tinha dado tudo errado.
– Você contou para alguém? – ele perguntou sem olhá-la nos olhos.
– Não.
– Ótimo, que continue assim. E é melhor que esqueça o que viu, isso não tem nada a ver com você então não meta o nariz onde não te chamaram.
Com um aperto no peito maior do que o que sentia antes ficou parada encarando a traseira do Camaro ganhando distância e sumindo em direção à estrada. Talvez tivesse feito besteira ao se meter onde não foi chamada, mas não se arrependia em oferecer sua ajuda. Estaria lá para quando ele quisesse se abrir.
..
Não dava para dizer que ela tinha ficado bem depois da discussão, fazer o que parecia ser certo nem sempre era fácil e de certa forma já esperava aquele tipo de reação. Sam tinha tantas perguntas a fazer: sempre foi assim? Por que ele faz isso? Quem mais sabe? O que a mãe da Max fala sobre isso? Onde está sua mãe? Entretanto sabia que se pressionasse mais apenas o teria espancado por seus dedos.
Fazia pouco mais de uma semana desde a discussão e consequentemente pouco mais de uma semana que não se viam ou se falavam, era final de tarde e enquanto El e Max ouviam Tears For Fears no quarto ao lado, Sam estava de cabeça para baixo, as pernas jogadas na parede, encarando as meias de Rocky e Bullwinkle que comprou na promoção. Parecia loucura, mas tinha a impressão de que quando ficava naquela posição suas ideias voltavam para o lugar certo; o cérebro. Billy estava certo quando disse que não se metia nas coisas que ela não queria contar. Eles a conheciam em Hawkins como a sobrinha do delegado Hopper que veio passar um tempo com o tio, nenhuma informação adicional sobre sua vida pessoal foi revelada e por mais que visse as perguntas estampadas na expressão dos novos amigos nenhum deles se atreveu a verbalizar.
Foi com um susto que ouviu o som de um motor se aproximando da cabana, podia dizer que era Hopper voltando do trabalho, mas hoje ele estava em casa para vigiar o casal pré-adolescente e o seu carro fazia um barulho diferente. Ela sabia exatamente de quem se tratava, expectativa se agitou em seu estômago com a esperança de pôr um fim a estranheza em que estavam. Largando os cadarços desamarrados depois de calçar os sapatos correu em direção à entrada, ao passar pela sala ainda pôde ouvir o resmungo "como se um não fosse o suficiente agora tem dois" do delegado. Sam ficou parada na pequena varanda esperando o garoto vir em sua direção, a ferida na boca de Billy já não estava mais lá, era como se nada tivesse acontecido e se não soubesse da verdade seria só mais um machucado idiota cicatrizado.
– Hey – a voz rouca chamou quando ele atingiu o último degrau ao subir na varanda.
– Hey.
Foi estranho como ainda não tinha sido antes. Era mais fácil quando o garoto flertava e ela ignorava, o cenário menos provável acabou se mostrando o mais seguro por puro capricho do destino. Ou era apenas karma, afinal Newton já dizia que "toda ação possui uma reação de igual intensidade, mas em sentido oposto". Porém se ele estava de volta era para resolverem o que tinham pendente.
– O que você acha de irmos ao drive-in? – a oferta foi feita em tom incerto, Billy não a olhava nos olhos enquanto falava, o que era bastante atípico.
Sam encarou o céu já escuro, naquela época do ano as tardes escureciam mais rápido, mas com fevereiro batendo à porta e a primavera se aproximando o ar frio até que não era dos piores. Não morreria congelado só por assistir um filme quase ao ar livre.
– Vou pegar meu casaco.
Aquele não era um dia de lançamentos então acabaram assistindo Raiders of the Lost Ark, nada como um filme onde várias coisas acontecem ao mesmo tempo. Billy tinha vindo preparado para uma resposta positiva já que logo que estacionaram em uma vaga pegou um cobertor no banco de trás e colocou no colo da garota. Não era a primeira vez que assistiam a um filme juntos então não tinha que parecer estranho, isso desde que resolvessem suas pendências. Eles passaram o filme em silêncio, não tinha surpresas a cada passo que Indiana Jones dava, os diálogos eram tão conhecidos como de qualquer outro filme que já tenham alugado diversas vezes.
A espera era realmente uma vadia cruel, assim que as letras rolaram anunciando o fim nada tinha sido resolvido. Se fosse preciso estava disposta a falar primeiro, mesmo que estragasse tudo por falar demais. O que tinha mais para dissimular agora que ele sabia que ela conhecia seu segredo? Quando o Camaro voltou a estacionar na frente da cabana se preparou para iniciar um diálogo, qualquer coisa que não permitisse que eles apenas passassem por cima daquele problema sem nenhuma resolução, quando foi cortada antes mesmo de abrir a boca.
– Sobre Neil – ele a encarou sério, não conseguiu encontrar nenhuma emoção na expressão masculina. Era como um robô, quase mecânico e inanimado. – O que você viu, eu não quero conversar sobre isso e também não quero ficar longe de você.
– Isso não é certo – tentou argumentar.
– Muita coisa não é certa, Sam, mas sou eu quem decido. Só, por favor, não se afasta.
Concordar com isso era o mesmo que concordar em ignorar as agressões que ele sofria, era ignorar que talvez tivesse muito mais sob a superfície do que o demonstrado e era assustador ter tanta responsabilidade. Mas o que deveria fazer? Discordar, brigar e se afastar?
– Ele mentiu – foi sua decisão.
– O quê?
– Seu pai, quando ele falou que você nunca faz nada direito, era mentira. A culpa não é sua se ele não consegue ver isso – houve um lampejo de compreensão nos olhos dele, quase um agradecimento silencioso. – Você não vai poder fugir disso para sempre, mas eu vou continuar aqui para quando quiser falar.
Sam sabia que um dia Neil sentiria muito pelo que fez o filho passar, que quem estava perdendo era ele e que o altruísmo silencioso de Billy salvaria o mundo.
..
Oi, ainda tem alguém por aqui?
Enfim consegui fazer esse capítulo depois de quase dois meses travada em um bloqueio horroroso, porém ele foi postado mais depois ainda. O que a primeira parte de Perdidos no Tempo foi fácil de escrever a segunda começou se provando ser o extremo oposto.
E aí, o que acharam desse novo início? Preparados para voltarem a acompanhar? Por enquanto as postagens acontecerão uma vez ao mês, no máximo duas, mas assim que eu conseguir terminar tudo volto com postagens semanais.
