Capítulo 12 - Bolinhas amarelas de outra dimensão


Hawkins, Indiana - Maio de 1985

Maio tinha começado com uma massa de ar quente devido ao fim da primavera. Com árvores floridas e as ruas movimentadas Hawkins até parecia uma boa cidade para se habitar, isso se não fosse o caos de alguns comerciantes pela incerteza em seus negócios com a inevitável abertura do Starcourt Mall. Eles tinham sido inteligentes em abrirem o shopping quase em cima das férias de verão, o lugar ferveria de adolescentes para cima e para baixo gastando suas economias durante as horas ociosas. O único problema é que ninguém fazia a menor ideia do que aconteceria ali no feriado de 4 de Julho, nem mesmo Sam sabia de todos os detalhes além das consequências posteriores. Foi quando Billy contou que tinha conseguido um emprego na piscina comunitária durante o verão, animado como jamais o tinha visto antes, que tomou uma decisão.

Depois de muito torrar seus pobres neurônios decidiu que o que quer que a tenha mandado para o passado não a devolveria ao futuro até que fosse a hora, ou talvez nunca devolvesse, porém enquanto estivesse ali se prepararia para os perigos que se aproximavam. Foi durante uma tarde – na parte alta da cidade, comendo chips sentada no capô do Camaro enquanto encarava o antigo Laboratório agora abandonado – que pediu para Billy ensiná-la a usar uma arma. Seu pedido foi recebido com uma sobrancelha erguida em questionamento.

"Quero aprender a me defender, não quero mais ser arrastada por cipós nojentos", foi o que respondeu dando de ombros antes de voltar a encarar o sol começando a se pôr.

Havia se tornado uma rotina para eles gastarem boa parte de seus dias juntos, quase como se fossem velhos conhecidos, o que era impossível já que nem no futuro tiveram a chance de se conhecer. Nunca mais tinham tocado no nome de Neil e ela também não tinha percebido mais nenhum hematoma no garoto; se por baixo das roupas ou não, sabia que ainda assim existiam feridas mais profundas que não cicatrizariam tão rápido. Mas ela estava lá como tinha prometido.

"Você não precisa se preocupar, a pirralha já fechou o portal. Acabou", ele desdenhou do medo dela. Billy não era o único relaxado com o fim do Devorador de Mentes, todos viviam suas vidas pacificamente sem saber que estavam a poucos meses do caos.

"Okay, o portal pode até ter sido fechado, mas o que nos garante que vai continuar assim? E se abrirem de novo?"

"Se abrirem de novo eu te protejo, fazemos uma boa dupla. E se quiser ainda deixo você segurar minha mão."

"Sem essa, Hargrove. Dessa vez se acontecer alguma coisa sou eu quem vai proteger a sua bunda."

"Então minha bunda está ansiosa pelos seus cuidados."

Era por este motivo que agora latinhas e garrafas de vidro velhas estavam enfileiradas ao longe enquanto o garoto segurava um revólver que Sam tinha pegado emprestado na cabana. Talvez o "emprestado" tenha sido sem que o delegado soubesse, mas duvidava que ele concordaria se pedissem. No começo ela tinha sido realmente péssima, foi preciso que Billy arrumasse sua postura e desse algumas dicas para que tivesse sucesso; além de toda a lição de travar e destravar a arma, como recarregar, etc.

– Eu acertei – comemorou jogando a mão livre para cima.

A área que escolheram para o treinamento era afastada, precisavam ter certeza de que ninguém apareceria para atrapalhar.

– Pegou de raspão, mas não derrubou a lata. Vamos tentar de novo – foi a réplica que recebeu.

– Você poderia ao menos me parabenizar como forma de incentivo.

– O seu incentivo é abater o inimigo. Mais uma vez.

Billy era um professor um tanto mandão demais e por este motivo fez uma careta. Todo o ar ao redor dele tinha ficado diferente, estava mais autoritário, quase como um general do exército e se não estivesse com medo de perder o professor bateria continência só para ver a reação dele com a piada.

– Para alguém que não estava querendo me ensinar você não acha que está exigente demais? – ainda assim Sam não conseguiu segurar a língua.

– Eu não ensino nada de qualquer jeito, doçura. Já deveria saber disso – se posicionando atrás dela ele bateu com a bota no tênis surrado separando um pouco mais suas pernas. – Relaxa os ombros, abaixa o cotovelo e respira.

Era uma missão complicada seguir todos aqueles comandos com tanta proximidade entre os dois; como mesmo que você mira num alvo improvisado, distante, sem se desestabilizar com o cheiro de colônia barata, couro e cigarros? Desde que se estabeleceram como amigos ele nunca tentou nada além dos flertes de sempre, porém o karma era uma vadia e o ritmo mais lento que Billy vinha usando com ela era mais perigoso do que uma investida rápida. Foi preciso puxar e soltar a respiração ao menos três vezes antes de recobrar a consciência e puxar o gatilho. Dessa vez o tiro foi um sucesso, o som de uma das garrafas de vidro se espatifando preencheu a clareira em que estavam.

– Agora você acertou.

– Graças a você, o problema é quando tento só. Onde aprendeu a atirar tão bem? – o pensamento tinha escapado antes mesmo dela pensar em qual seria a resposta mais óbvia.

– Com o Neil. Ele acha que para o filho ser homem precisa saber atirar.

Neil Hargrove era um tema tão perigoso quanto um campo minado, era difícil saber quanto o garoto ao seu lado se sentia confortável em se abrir sobre os problemas com o próprio pai e por este motivo decidiu dar um passo para trás, fiel a sua palavra de não pressioná-lo a falar mais do que estava disposto.

– Ainda bem que sabemos que ele não é um exemplo de inteligência.

Como resposta o garoto apenas sorriu relaxado, quando fosse a hora sabia que ele simplesmente viria até ela para contar sobre seus problemas. Sam não estava tão assustada assim com o pai dele quando havia um monstro ainda pior à espreita, sua prioridade era manter Billy a salvo de qualquer coisa vinda do Mundo Invertido, depois disso pensaria em como lidar com o caso Neil. Uma cabeça do problema por vez e esperava ferrenhamente que essas cabeças não fossem como as da Hidra de Lerna.

..

Quando o sol começou a rarear no céu eles souberam que era hora de pararem e irem para casa. Sam ainda tinha muito o que treinar, mas já conseguia ver uma melhora em seus disparos desde que começaram mais cedo. Dentro do Camaro Rebel Yell tocava alto enquanto os dois se divertiam cantando Billy Idol a plenos pulmões. Quando Billy tomou um caminho que os levaria para o centro da cidade e não a cabana na floresta ela se perguntou mentalmente sobre o que era aquilo, porém em nenhum momento questionou, apenas continuou a cantar seu rock barulhento e a se divertir enquanto ainda tinham tempo.

Não demorou muito para eles pararem em uma lanchonete, comprarem lanches e voltarem para o carro. Como o bom amante resmungão de seu carro, ele a ameaçou caso algum pingo de molho caísse na parte de dentro; o que era uma hipocrisia já que tinha certeza de que coisas muito piores já tinham caído naqueles bancos de couro. Enquanto comiam aproveitaram o início da noite para conversarem, parecia que tinham tanto o que falar, tanto o que descobrirem um sobre o outro, e mesmo assim nunca era o suficiente. Billy contou um pouco sobre sua vida na Califórnia e do quanto sentia falta do mar, principalmente do som que as ondas faziam quando quebravam na praia, do cheiro da maresia e da sensação da areia nos pés descalços. Mas quando perguntou sobre a mãe dele, viu o exato momento em que seus olhos claros se escureceram antes do assunto ser abruptamente mudado e as perguntas se voltarem para a vida pessoal dela. Sam contou um pouco sobre sua vida na Carolina do Norte, respondeu que também tinha nascido em 1967 – o que rendeu uma explicação confusa e falsa sobre ter sido alfabetizada em casa e terminado os estudos um pouco antes para corroborar com o fato de não estar na escola – e que até receber sua carta da faculdade viveria com seu tio em Hawkins. Via que ele sabia que nem tudo era verdade, que muito do que estava dizendo eram pontas soltas, porém em nenhum momento tentou tirar qualquer tipo extra de informação.

Aos poucos a conversa mudou para temas mais amenos como os melhores filmes que já tinham assistido, as bandas de rock em ascensão, até chegarem em tatuagens. Billy contou que fez aquela caveira fumando em seu braço quando estava bêbado, foi uma decisão vinda do nada depois que um amigo falou que a bebida anestesiaria a dor.

– Passei semanas sem usar uma regata dentro de casa, mas como qualquer outra coisa deixou de ser algo para se esconder – ele falou levantando a manga da camisa para mostrar o desenho.

Não era como se Sam estivesse sempre vendo aquela tatuagem. Eles se conheceram durante o outono, depois veio o inverno e só recentemente tinha sido capaz de ver o desenho. Com curiosidade levou a ponta dos dedos para traçar as linhas do crânio, a pele tinha uma textura diferente – mais grossa – por causa da tinta.

– Apreciando meu braço, doçura? – Billy lançou um sorriso sedutor antes de levar o canudo do refrigerante aos lábios.

– Bem que você queria.

– Eu nunca disse que não, é só parar de fingir que somos apenas amigos.

Aquele garoto era impossível de lidar, não tinha aquela vozinha na cabeça que sempre avisa antes de algum comentário inconsequente ser dito, não tinha um filtro. Ele apenas lia em voz alta o cenário geral sem se importar em constranger a outra pessoa; por mais que estivesse terrivelmente correto. Sam sabia que estava em suas mãos decidir o que seria deles e por este motivo pegou o canudo e voltou a encaixar na boca falastrona dele. Na ordem de um problema por vez "relacionamentos" estava no final da sua lista.

– Você é impossível, William Hargrove. Impossível – foi a resposta menos estúpida e mais invasiva que ela conseguiu dar.

– Ok, eu não tenho pressa – Billy voltou a tirar o canudo da boca, não tinha mesmo como mantê-lo em silêncio por tanto tempo. – Temos todo o tempo do mundo.

Foi uma reação automática o sorriso de Sam sumir de seu rosto como se tivesse sido machucada, seu cérebro não teve tempo para digerir o perigo de mostrar tão abertamente suas reações, mas estar ciente de que eles não tinham todo o tempo do mundo fez seu coração se comprimir pela dura realidade; Billy não estava vivo quando ela chegou em Hawkins em 1986. Quando se deu conta, o garoto a encarava com dúvida na feição.

– 'Tá tudo bem?

– Está, está sim.

Ela não sabia mais como voltar a conversa ao normal, o clima esquisito que se instalou no carro deixou os dois desconfortáveis durante alguns minutos de silêncio. Então Billy disse em voz alta que a levaria para casa já que os lanches tinham acabado, girou a chave no contato e colocou o carro em movimento. Árvores floridas passavam pela janela do Camaro enquanto Sam ainda tentava reorganizar seus sentimentos, 4 de Julho estava tão perto e ela não tinha nada que pudesse impedir o que estava por vir.

– Por que você não faz uma? – ele iniciou um novo assunto enquanto batia com os dedos no volante.

– Desculpa?

– Uma tatuagem, por que não faz uma?

Sam voltou o rosto para encarar o perfil masculino, os cachos cor de areia escorregaram para a testa quando ele tombou o rosto na direção dela, olhos enigmáticos a encaravam em busca de uma resposta.

– Por que eu pagaria para me furarem e marcarem minha pele? – perguntou dando de ombros.

– Então você tem medo de agulhas.

– Eu não tenho medo de agulhas.

– Tem medo sim.

– Não tenho não – respondeu virando todo o corpo no banco para dar sua atenção a ele e sua discussão infantil. Por mais que fosse irritante era um bom jeito para voltarem a se falar sem ficar esquisito.

– E por que não fazer uma? É apenas tinta, agulha e pele.

– Não sei, só nunca pensei nisso. Não é como se eu acordasse e pensasse "ah, acho que eu preciso de uma tatuagem".

– Vamos lá, Sam. Já que você não tem medo de agulha… – o carro tinha acabado de passar o grande carvalho, logo estariam em casa. – Vai ser divertido.

– Ah, claro, muito divertido. Qual é, é tão improvável quanto você parar de fumar – Sam brincou com a impossibilidade dos fatos.

– Fechado.

– O quê?

– Vamos fazer uma aposta, se eu ficar… deixa eu pensar, uma semana? Se eu ficar uma semana sem fumar você faz a tatuagem que eu escolher para você.

– Ei, eu estava brincando.

– E se eu não conseguir aguentar uma semana faço a tatuagem que você escolher para mim.

– Você está me ouvindo?

– Não seja medrosa.

Odiava ser chamada de medrosa, odiava mais ainda cair na provocação barata dele. Deixar Billy entrar na sua mente era o tipo de burrice que não deveria acontecer. Mas qual a chance de alguém que fumava como uma locomotiva velha aguentar uma semana sem enfiar um cigarro na boca? Suspirou resignada no mesmo momento que estacionaram na frente da cabana.

– Quando eu ganhar você vai fazer a tatuagem que eu escolher sem nenhuma reclamação? – ela perguntou ainda em dúvida.

– Precisamos ajustar algumas coisas. Você escolhe o desenho, eu escolho onde vai ser e vice e versa.

– Então nada de tatuar meu nome na sua testa? – brincou, tombando a cabeça para o lado e sorrindo com provocação.

– Você vai deixar eu tatuar o meu na sua bunda? – Billy rebateu certeiro como sempre. A careta que fez foi resposta o suficiente. – Foi o que eu pensei.

– Ok, vamos às regras.

Depois da decisão idiota de entrar numa aposta com Billy ela passou por uma semana infernal esperando que ele vacilasse em algum momento no seu jejum de nicotina. Durante cada um dos dias procurou por sinais de que ele tinha fumado, seja cheiro de fumaça ou cinzas, mas assim como sua palavra não havia nada que mostrasse um deslize sequer. O garoto tanto estava cumprindo com a aposta que os primeiros sintomas da abstinência já eram visíveis após 48 horas sem o uso dos cigarros. No penúltimo dia Sam não tinha mais escrúpulos em dissimular o medo de perder a aposta chegando ao ponto de tentar persuadi-lo a perder, admitia que foi humilhante tentar oferecer um cigarro a ele, porém os fins justificavam os meios. No final o problema não era nem mesmo fazer a tatuagem e sim perder a maldita aposta enquanto tinha que lidar com um Billy vencedor. Isso sim era uma morte dolorosa. No último dia foi com uma expressão nada agradável – braços cruzados e o nariz empinado – que foi obrigada a engolir a própria derrota.

A parte boa é que ele não estava tripudiando sobre a vitória que levou em cima dela, com um sorriso sínico no rosto o garoto apenas anunciou que tinha vencido ao final do sétimo dia para logo em seguida acender um cigarro e tragar com plena satisfação.

"Achei que eu não conseguiria aguentar. Ficar sem cigarros quase me matou", o sarcasmo que ele usou era extremamente irritante.

E agora, com o final da aposta ridícula, ela estava na cidade vizinha sentada em um tipo de cadeira esquisita que mais parecia uma cadeira de massagem enquanto um amigo de Billy rabiscava a base de suas costas com a imagem que ele tinha escolhido; naquele ponto estava apenas esperando que o cara fosse um bom tatuador para que não desse nada errado. Quando o homem terminou de furar sua carne e o desenho estava pronto, Sam admirou o círculo quase completo através do espelho.

– Não acredito que você me convenceu a isso – a garota resmungou enquanto segurava no lugar a calça que precisou abrir para o tatuador ter acesso ao ponto escolhido.

Billy estava escorado em uma das paredes com a mão no queixo avaliando a arte final.

– Você perdeu a aposta, nada mais justo do que isso. E eu gostei, Ms. Pac-Man.

Sam entortou o nariz em falso desagrado. Na base de suas costas havia a bolinha com um laço na cabeça e a boca aberta do jogo Ms. Pac-Man. Era óbvio que ele escolheria algo tão ridículo assim, algo que a faria se lembrar de uma piadinha ambígua que ele fez sobre ser bom no "come-come" com a desculpa de que tatuagens eram apenas tinta, agulha e pele transformadas em memórias. Aquelas eram as memórias deles gravadas na sua própria pele.

– E você garoto? Não vai fazer nenhuma? – o tatuador com cara de poucos amigos, mas muito gentil, interrompeu os dois. – Por que não fazer o Mr. Pac-Man?

De alguma forma a ideia os agradou. "Memórias", ela pensou enquanto dizia que seria legal se ele também marcasse a pele. Depois de mais algum tempo Billy e Samantha estavam voltando para Hawkins com suas novas tatuagens, ela no final das costas e ele no quadril na parte da frente. Ninguém além deles saberia dessa conexão, ninguém veria o senhor e a senhora Pac-Man em seus corpos a não ser que abaixassem suas calças. Ninguém poderia entender aquela conexão. Aqueles eram eles, como bolinhas amarelas lutando contra bichos de outra dimensão.

..


Hey, folks!

Prometo que esse é o último capítulo antes de entrarmos na season 3. Sam e Billy continuam bons amigos, mas o dia da grande batalha no Starcourt Mall está cada vez mais perto. Vamos continuar seguindo firmes até que mais informações e as consequências dessa viagem no tempo apareçam.

Ps.: Quem aqui se lembra da conversa deles sobre Pac-Man no capítulo 4?