Capitulo 38
QUI – 05/11/1992
Shara estava sentada na cama, enquanto encarava de forma vazia a bandeja com torradas, ovos mexidos e suco de abobora que madame Pomfrey havia pedido e trazido com tanto entusiasmo a sua frente, aquele deveria ser o seu café da manhã e ela havia sido orientada a se esforçar para tentar comer o máximo que pudesse já que faziam dias agora que seu corpo não recebia nada sólido. Shara entendeu que se alimentar adequadamente, seria uma das premissas mais importantes para que ela fosse liberada da ala hospitalar dessa vez, mas a verdade é que ela não tinha muita fome, ela nunca tinha na verdade, ainda mais quando algo estava acontecendo e no momento ela estava completamente consternada ali, ela mal podia acreditar que ela havia mesmo ficado desconectada da realidade por todo aquele tempo, foram no total, 10 longos dias, e aquilo era completamente irracional para ela já que a sensação era de que houvessem passado apenas algumas horas.
A última coisa que ela se lembrava era do professor Snape tê-la alcançando na floresta proibida, da sensação prévia de desmaio, da dor de cabeça dilacerante que a acometeu, do caos depois de liberar sua magia e de toda aquela escuridão, e então ela estava acordando na ala hospitalar depois de ouvi-lo chamar, era estranho e óbvio que Shara tinha perguntas, mas ela sabia que Pomfrey não teria as respostas que ela procurava, e ela se sentia aflita principalmente pelo fato de ter se passados tantos dias e dela ter ficado todo esse tempo sem o colar da sua mãe e ela nem sequer poderia culpar Diaz por isso, afinal ela mesmo tinha deixado o colar com a garota antes de sair por vontade própria, mas Shara jamais podia imaginar que algo assim pudesse acontecer com ela naquele lugar, e para piorar ela sequer havia conseguido coletar as pétalas da flor que tinha ido buscar, e sendo assim não haveria a poção, o que tornava tudo ainda mais frustrante.
O professor Snape, não havia comentado nada a respeito do ocorrido na floresta ainda, mas Shara sabia que era apenas uma questão de tempo agora, já que ele simplesmente não havia tido a oportunidade para isso ainda, pois madame Pomfrey o havia expulsado na noite anterior assim como havia feito com o diretor alguns minutos antes, o pretexto era que ela descansasse, e madame Pomfrey estava certa naquele ponto, Shara estava mesmo exausta, ela não se lembrava, mas seu corpo parecia que sim, e logo depois ela adormeceu, como uma pedra.
Ainda era bastante cedo quando Madame Pomfrey pediu licença essa manhã, informando que precisava despachar algumas correspondências no corujal e que voltaria o mais rápido possível e não muito depois dela sair, Shara viu Beta atravessar as portas largas da ala Hospitalar e caminhar até sua direção na cama onde ela estava finalizando o seu café e sentando ao seu lado, ela parecia um pouco desconfortável por estar ali, mas não havia mais ninguém dividindo a enfermaria com Shara e isso era bom pois assim elas poderiam ficar mais à vontade já que elas não haviam conseguido trocar nenhuma palavra no dia anterior.
_Oi Shara – Beta disse parecendo cansada também – como você está se sentindo hoje? – ela perguntou e Shara notou pelo tom de voz que havia algo de errado com a amiga.
_Bem, quer dizer, eu me sinto bem, porém ainda me sinto cansada, madame Pomfrey explicou que é normal, sabe... já que meu núcleo magico sofreu um dano considerável e acabou de se reestruturar – Shara explicou – mas... e você? Você não me parece muito bem também – ela arriscou.
_Bom, digamos apenas que eu não tenha conseguido dormir muito bem essa noite, Shara eu estive pensando e bem eu não poderia ir para as aulas do dia sem antes te fazer algumas perguntas, algo que está me incomodando – Beta disse não muito à vontade com aquilo.
_Perguntas... é claro – Shara respondeu embora desconfiada, ela notou que o olhar da amiga estava um pouco distante essa manhã, o que não era nada habitual.
_Bom... Aquele dia... o que você estava fazendo na floresta proibida, por que você foi lá? – Beta perguntou, Shara sabia que em algum momento ela teria que responder essas perguntas, mas era tão prematuro ainda e ela simplesmente não havia conseguido se preparar com as respostas adequadas, não que ela fosse mentir, ou algo assim, mas não era tão simples como parecia.
_Eu... precisava encontrar algo – Shara disse soando vagamente e conhecendo Beta suficientemente bem, Shara sabia que aquela resposta não seria o bastante, mas ela tentou mesmo assim, já que tinha também a questão toda da hidra, e o diretor tinha pedido sigilo sobre aquilo, e qualquer coisa que Shara falasse ali poderia comprometer isso, ela precisava pensar, pensar bem a respeito primeiro, antes de responder qualquer coisa e que não desse para concertar depois.
_Encontrar algo... hmmm é claro – Beta parecia chateada – e onde está o seu colar? Sabe aquele que era da sua mãe? Aquele que você me mostrou outro dia – como ela havia notado a falta daquilo? será que Diaz havia mencionado algo nesse sentido com ela em algum momento? tudo podia ser possível, afinal se passaram 10 dias, e Shara podia ter perdido muita coisa ali.
_Eu pedi para Diaz guardar – Shara notou que Beta não parecia muito surpresa com aquela resposta, era estranho e ela não estava gostando do caminho que as coisas estavam tomando ali.
_Diaz, então ela sabia que você iria entrar na floresta aquele dia? – Beta manteve o mesmo tom ao perguntar.
_Sim… bem, ela sabia – Shara estava tentando entender onde Beta queria chegar com aquilo tudo, mas ela estava começando a se sentir bastante desconfortável também.
_Sabe, aquele menino loiro da sua casa, o Malfoy não é? Bem, ele te visitou algumas vezes durante esses dias que você ficou desacordada aqui na enfermaria, eu não entendi muito bem no começo, não sabia que pudessem ser amigos, enfim – Beta disse parecendo pensar sobre aquilo – mas ele também, ele sabia que você estava indo para a floresta naquele dia, não é mesmo? – Shara não entendeu aquilo, na verdade ele não sabia e ela gesticulou negativamente para aquele comentário – não precisa mais mentir pra mim Shara, já que foi ele que alertou o professor Snape sobre tudo que estava acontecendo, você pode se lembrar de agradece-lo mais tarde por isso, se está viva hoje, afinal foi ele... ah e foi ele me disse isso também, mais ou menos dessa forma – Beta informou de forma agressiva agora, mas aquilo realmente não fazia o menor sentido.
_Eu não estou mentindo, só não faz sentido... – Shara tentou se defender da acusação, afinal Draco não sabia sobre a floresta, aquilo estava errado, simplesmente errado, como ele poderia saber?
_Você está Shara – Beta disse a encarando agora – sabe, eu realmente achei que fossemos amigas, mas aparentemente estava enganada sobre você.
_O que? – Shara não podia acreditar naquilo – olha Beta, eu até entendo que você esteja chateada com o fato de eu não ter compartilhado meus planos sobre a floresta proibida com você naquele dia, mas simplesmente aconteceu tudo muito rápido e bem você não iria entender, você iria tentar me impedir...
_Justamente por que é isso que amigos de verdade fazem, amigos de verdade se importam, eles não incentivam esse tipo de loucura, mas você não consegue ver isso – Beta desabafou - onde você estava com a cabeça quando decidiu entrar lá daquela maneira? E ainda por cima a noite? É contra as regras, é perigoso, tinha acontecido um ataque lá fora no dia anterior – ela cuspiu – obvio que eu não ia permitir, eu não poderia... simplesmente óbvio.
_Eu precisava fazer aquilo está bem tente entender e Diaz... ela meio que me apoiou nisso por que ...
_Claro, Diaz... ela apoiou? Mesmo, não me surpreende em nada, vai lá Shara, coloque sua vida em risco, incrível essa sua nova amiga, não acha? – Beta disse a interrompendo – aliás você deve confiar muito nela agora né? para simplesmente deixar algo tão valioso e tão significativo para você nas mãos dela assim como fez, o colar da sua mãe, sério? – Beta estava revoltada naquele ponto, e bem Shara não confiava em nada na Diaz, mas se Beta pelo menos a deixasse explicar isso – curioso, estamos falando da mesma garota idiota e arrogante que tentou rouba-lo semanas atrás, mas as pessoas podem mudar não é mesmo?
_Olha, me ouça, não é o que parece, me deixe explicar – Shara tentou outra vez, começando a ficar nervosa – você simplesmente está imaginando coisas ao meu respeito que não são verdadeiras...
_Será? Imaginando? Da mesma forma como eu presenciei você despertar de um coma de dias, ao ouvir a voz do seboso do professor Snape – ela a estava fuzilando com o olhar agora, Shara respirou fundo, é aquele era um detalhe complicado mesmo.
_Não o chame assim está bem – Shara defendeu.
_Por que? Desde quando você se importa tanto com ele a ponto de defende-lo assim? Ou vai dizer que também não é o que parece… quando eu mesma vi com meus próprios olhos você se jogar nos braços dele ontem daquela forma? – Beta estava irredutível – tem algo que você queira me contar? – ela pediu com desgosto, cruzando os braços – vamos então diga, explique-se sobre isso – ela pediu.
_Não… apenas pare ok? - Shara pediu, e aquilo a incomodou bastante, e ela não queria ter que justificar aquilo, era tão pessoal e íntimo.
_Imaginei, sabe Gina me disse que ele tinha te enfeitiçado naquela sexta-feira do treino de quadribol por que você se lançou nos braços dele de uma forma afetiva e eu concordei com ela, na verdade todos nós concordamos, mas pensando bem, não havia feitiço nenhum, não é mesmo? – ela perguntou.
_Não... não havia, ele não me enfeitiçou Beta – Shara respondeu encarando aquela realidade de frente - sinto muito em decepciona-la - Shara disse a provocando agora.
_Então é isso, então você realmente o abraçou por que quis? – ela pediu parecendo não conseguir processar aquilo.
_Sim eu fiz – Shara estava séria agora, estava feito.
_Sabe Shara, a amizade é algo que só pode existir entre pessoas que podem confiar umas nas outras acima de qualquer coisa – Beta disse recuando um pouco – eu achei que éramos amigas, de verdade, mas você esconde coisas de mim... eu sinto muito, mas não posso mais levar isso adiante – Beta disse se levantando – o diretor estava enganado, ele não deveria ter me convidado ontem, enfim... eu realmente espero que você se recupere bem – ela disse ao se levantar.
_Sabe, se você não pode entender e lidar com o fato de que pela primeira vez em toda a minha vida eu tenha um adulto em quem confiar, terei mesmo que concordar com você Beta, não podemos mais fazer isso - Shara disse aquilo com bastante dor no coração, Beta era uma das poucas amigas que ela tinha naquele lugar, ela não queria perder tudo que elas haviam conquistado juntas, mas se ela não podia entender isso, os demais com certeza também não iriam, por que as coisas nunca poderiam ser fáceis para ela? E Shara sentiu um abismo se formar entre elas naquele momento.
_Sério? você só pode estar completamente maluca, tente ouvir aquilo que está dizendo, ele é um comensal da morte Shara, ele não se importa com ninguém, ninguém Shara, acorda para a realidade, de verdade, por que acha que ele se importaria com alguém como você? - Beta disse friamente e aquilo a machucou, ela estava sendo tão dura agora - ele não é quem você pensa, Diaz também não é sua amiga e o Malfoy, bem ele é todo influente, sobrenome, riquezas e tudo mais, e isso não te faz pensar que ele está se aproximando por algum interesse, não sei o colar quem sabe, qualquer coisa... eu achei que você pudesse ser mais esperta – Beta disse.
_Saia daqui – Shara pediu – SAIA AGORA – ela gritou, sentindo que estava prestes a desabar ali.
_Era o que eu estava fazendo – Beta disse, enquanto sumia porta a fora.
Beta cruzou com Madame Pomfrey, que estava voltando naquele exato momento, ela olhou para a garota que saia um tanto quanto assustada e olhou para Shara, era evidente que algo havia acontecido ali, Shara enxugou as lagrimas, ela não queria falar sobre isso, ela não queria ver mais ninguém.
_Algum problema, querida? – Pomfrey perguntou e Shara se deitou se virando de costas para ela, enquanto puxava as cobertas acima da sua cabeça, sem responder, era assim que Shara se escondia, era ali que ela desejava desaparecer.
Aquela quinta-feira havia voado e ao se dar conta ele já estava quase finalizando com a última turma do dia, aquele que foi um dia relativamente tranquilo, nenhum episódio de caldeirão derretido e poucos pontos sendo descontados, talvez isso seja um reflexo ao fato do seu humor não estar tão ruim já que aquele era o primeiro dia após Shara ter despertado daquele estágio de quase coma e sendo assim aquela também foi a primeira noite que ele havia conseguiu dormir por uma noite inteira, depois de todos aqueles dias exaustivos onde ele vinha sendo assombrado pelos fantasmas do seu passado, sim talvez o sono regular faça toda a diferença até mesmo para alguém como ele, ele estava entrando na ala hospitalar naquele início de noite, que por sinal se encontrava completamente vazia, normalmente era assim por essa época do ano e costuma mudar depois que a temporada de Quadribol começasse, algo que aconteceria nas próximas semanas, no momento o único leito ocupado no recinto era o de Shara, ela deveria ganhar um leito com seu próprio nome, ele pensou cansado, já que nenhuma criança naquele castelo havia permanecido tanto tempo lá e em passagens distintas, ele suspirou.
Ainda era cedo e aquele seria um bom momento para eles terem aquela conversa, conversa que ele havia programado em sua mente a dias, certamente que o teor do que seria dito foi mudando conforme os dias iam passando e obviamente que agora ele já não estava mais tão aborrecido e chateado com todo o ocorrido como ele estava logo no início, embora ele soubesse da importância em se manter duro e firme, afinal a ideia ali era não deixar nenhuma margem para que algo parecido com aquilo pudesse se repetir no futuro, isso para o bem de todos, a hidra ainda era um perigo eminente, embora depois do ataque naquele dia, Alvo acreditasse que ela deveria ter sofrido um bom dano, e não voltaria a incomodar tão cedo, mas ainda assim estava mais do que na hora de esclarecer alguns pontos e Shara teria que entender de uma vez por todas que ela não podia simplesmente se arriscar todas as vezes que ela estava frustrada, ou decidida a resolver algo por conta própria.
Algo que Severo não podia se opor era o fato daquela garotinha estupida estar mesmo predestinada a realizar algo grande, a forma como ela ousadamente se colocou entre ele e a hidra naquele dia, a liberação da magia que ela estava retendo da forma como ocorreu, ele não podia simplesmente ignorar isso, ela seria uma bruxa poderosa no futuro, mas por hora ela era apenas uma garotinha estúpida, e ela era um ímã de problemas. E como diretor da casa Sonserina era seu dever administrar e conduzir a disciplina adequada, sem fechar os olhos ou ser displicente, já que aquilo era uma das coisas que mais o incomodava ali na escola e o tornava tão crítico também, sim era a forma como as outras casas administravam o descumprimento das regras pelos seus alunos, onde por vezes chegavam a recompensa-los quando elas eram quebradas, algo que acontecia com bastante frequência com o garoto Potter e sua trupe, mas ele não entendia assim, ele jamais seguiria por esse caminho, crianças precisavam de limites e de controle, e isso para sua segurança.
Ao chegar ele percebeu que a Shara não estava deitada como o esperado, e ele notou que havia um prato de sopa completamente intocado na bancada lateral da cama.
_Ela não come Severo – Poppy disse assim que o viu chegar – ela está terminando o banho agora, tive que obriga-la – ela informou - mas ela simplesmente não come, eu já tentei de tudo, tudo que estivesse ao meu alcance aqui, e sem falar que ela passou o dia todo embaixo daquelas cobertas, completamente apática a qualquer coisa aqui fora – ele estranhou aquilo, na verdade não a parte da alimentação, ela parecia mesmo lutar com aquilo e não era nenhuma novidade, mas por que ela estaria se comportando daquela maneira deprimente, algo havia acontecido nesse período, alfo que a estava incomodando, ela ainda não usava o colar e ele não podia acessar suas emoções para saber como ela estava se sentindo.
_Aconteceu alguma coisa diferente? – ele perguntou intrigado, ele já havia notado esse negócio da coberta também, ela se cobria para se esconder, era um ato de defesa, e uma maneira de fuga também, certamente que aquilo era algo bastante infantil, mas ela era apenas uma criança ainda, o estranho ali era que ontem ela parecia estar bem quando ele a deixou antes de sair, algo havia mudado para que ela se comportasse assim hoje, ele iria tentar descobrir.
_Na verdade, acho que sim Severo – Poppy disse em tom mais baixo para que Shara não ouvisse caso saísse do banheiro – a srta. Vicente esteve aqui mais cedo, bem cedo essa manhã, e elas tiveram algum tipo de discussão, eu não acompanhei, não posso afirmar com exatidão sobre o que se tratava aquilo, mas acredito que seja isso afinal Vicente estava saindo daqui bastante transtornada quando voltei, e Epson, bem ela estava chorando, eu notei – aquilo explicava o motivo, Severo suspirou, ele imaginou que algo assim pudesse ocorrer, afinal a corvina não parecia muito feliz ao presenciar a cena que ela tinha visto no dia anterior quando foi obrigada a sair com o diretor da ala hospitalar daquela maneira ela certamente havia cobrado algumas respostas de Shara ou algo nesse sentido, e aquilo com certeza não foi bom, Severo notou Shara saindo do banheiro, ela estava vestindo os pijamas clássicos da ala hospitalar, que por sinal ficavam enormes e desajustados nela.
_Pomfrey agradeço as informações – ele disse encarando a criança cabisbaixa que voltava e se sentava em sua cama, ela estava com o cabelo molhado - agora se puder nos dar licença, eu assumo daqui – ele pediu e ela assentiu.
_Estarei no meu escritório se precisar Severo, de momento fiquem bem à vontade - Madame Pomfrey disse enquanto se retirava. Severo gesticulou com a cabeça agradecendo.
_Srta. Epson vejo que ainda não jantou – ele ponderou, olhando para a sopa intocada – um pouco tarde eu presumo, algum motivo especial para não se alimentar? – ele perguntou.
_Eu... apenas não estou com fome – ela respondeu com pouca emoção.
_hmmm talvez precise de alguma poção – ele disse conhecendo o histórico agora, ela o olhou, ela havia entendido aquilo.
_Não senhor... eu apenas não estou com fome mesmo – ela respondeu, por hora ele não iria insistir, ele guardaria isso para mais tarde.
_Entendo - Severo disse, enquanto fazia um sinal com sua varinha, fazendo sumir o prato de sopa que estava na sua frente, e puxando a cadeira mais próxima, cadeira que ele havia ocupado todas aquelas noites, ele se sentou nela outra vez, era desconfortável, ele cruzou as pernas, independente do estado de espírito da criança, ele não iria abrir mão daquela conversa, não era bom estender ainda mais aquilo – agora, Madame Pomfrey me informou que o dia não foi muito animado por aqui, Epson saiba que se você se comportar dessa maneira, ficará ainda mais difícil conseguir liberação dela para ser dispensada da ala hospitalar - ele disse enquanto ele a avaliava e ela não parecia se importar muito com aquilo no momento, ela estava verdadeiramente alheia a tudo a sua volta - aconteceu alguma coisa? - ele perguntou por fim.
_Não, eu estou apenas cansada - ela disse, ela estava mentindo, ele não poderia julgá-la naquilo, ela era como ele afinal, fechada - amanhã vai ser um novo dia - ela forçou um sorriso.
_Seria bom se esforçar pra isso - ele pediu - agora tenho alguns pontos que precisaremos e quero alinhar essa noite, isso é algo que eu não gostaria de adiar mais - ele disse percebendo que ela estava se mexendo de forma desconfortável na cama - ainda está em tempo de uma poção para o estômago - ele tentou uma última vez, mas ela gesticulou negativamente - certo, Epson, me responda o que você foi fazer na floresta proibida naquele dia? – ele perguntou indo diretamente ao cerne da questão, e ele notou a expressão no rosto da criança mudar, obviamente que ela sabia e estava esperando que ele iria questioná-la a respeito daquilo, por que tamanha surpresa? Ele não entendeu.
_Por que todos querem saber isso? – ela disse com o tom de voz mais baixo.
_Todos? – ele arqueou a sobrancelha – bom, não vejo mais ninguém aqui – ele disse tentando não soar tão irônico, pelo menos não ainda - mas quem sabe, por que esse seja o motivo pelo qual nós estamos aqui hoje - ele disse finalmente, entendendo ali que ela se referia a Srta. Vicente apenas.
_É uma longa história professor - ela disse respondendo à pergunta inicial, e ignorando a colocação seguinte.
_Bom, acredito que temos algum tempo – ele disse a encarando, enquanto chamava um elfo doméstico e pedia um chá para si e outro para ela, sem ao menos questionar se era isso que ela queria - eu vou ajudá-la para que possamos avançar um pouco mais e ganhar um pouco de tempo - ele pontuou enquanto ela o analisava - você uma garota estúpida - ele reforçou - foi até a floresta naquele dia por que estava chateada com a falta de informação e estava atrás de respostas, achou que iria conseguir as pétalas de hynodora dourada e preparar a poção Memorare sozinha, mesmo depois de ser alertada sobre os perigos, mesmo estando ciente da hidra, resolveu quebrar uma das regras mais importantes dessa escola e ainda por cima fez tudo isso sem o colar - ele terminou, era um bom resumo, e ela o olhava assustada agora.
_Como? - ela pediu, garota tola, será que ela achou que ele não iria atrás de nenhuma informação, que ele estaria as cegas esse tempo todo?
_Diaz me contou, não exatamente por vontade própria é claro - ele sorriu, agora sim havia ironia naquele sorriso – mas ela fez.
_Ela… ela vai me matar - Shara parecia assombrada
_Bom nada diferente daquilo que ela já tenha tentado até aqui, não é mesmo? quantas tentativas foram? duas vezes... Deixe-me ver na sala comunal aquele dia e agora te mandando na floresta proibida assim - ele pontuou um pouco irritado - dificilmente ela tentará algo tão cedo – ele fechou o rosto.
_Ela não me mandou, não exatamente, ela estava tentando me ajudar - Shara disse chateada - já que ninguém aqui me conta nada.
_hummm e acredita mesmo nisso? - ele perguntou enquanto o elfo servia o chá.
_Não - Shara baixou a cabeça - mas ainda assim serviria, se eu tivesse conseguido o ingrediente.
_Você é uma garota estúpida – ele cuspiu - consegue ver? - ele perguntou, enquanto cruzava os braços – e ainda por cima, deixou o colar com ela, muito prudente da sua parte, também – ele alertou.
_Era uma garantia… e o senhor, como o senhor sabe do colar? - ela se ajeitou na cama o encarando agora.
_Eu estou com o colar - ele podia notar a expressão de alivio que acabará de se formar no rosto dela naquele momento.
_ Eu… eu sei que não deveria ter saído daquela maneira como fiz, nem ido lá fora, na floresta, eu sei que foi errado, mas era minha única esperança de conseguir algo – ela estava se justificando agora – e eu queria tanto algo, qualquer coisa... mas então enquanto estava lá, com o vampiro, eu entendi que não faria nenhuma diferença, afinal eles não vão voltar e nada vai mudar... – ela se recolheu puxando as pernas contra o seu corpo, era difícil até mesmo para ele agora, e mais uma vez, não era para as coisas irem por aquele caminho, ele também não estava preparado para trilhar por ali, ao mesmo tempo que ele sabia que havia muita entrega da parte dela ali, ela estava desistindo disso também? Era difícil, principalmente por que ele tinha as respostas, todas elas, mas havia tanto em jogo, era mental demais, ele precisava tirar o foco daquilo.
_Muito bem Epson, e por acaso você já preparou alguma poção de nível avançado alguma vez na sua vida? – sim esse era um caminho seguro e era por ali que eles iriam, ela o olhou, certamente não entendendo a mudança brusca que ele havia imposto ali.
_ Não – ela respondeu
_ Imaginei – ele disse com a voz arrastada – mas mesmo assim, você achou que estaria apta para preparar essa poção, correto?
_Eu… bem, eu ia seguir as instruções do pergaminho – ela respondeu acuada.
_Entendo, e por acaso estava seguindo as instruções para a coleta dos ingredientes quando se aventurou na floresta para buscar as pétalas das flores? – era interessante notar quão despreparada ela era, não que ele esperasse que ela soubesse daqueles detalhes, mas era evidente que aquilo não iria funcionar, mesmo se ela tivesse sido bem sucedida naquela empreitada, pois ela não sabia sobre o básico.
_ É… não é como se houvesse alguma instrução sobre isso exatamente – ela respondeu um pouco confusa.
_ Percebo, mas você levou luvas, presumo – ele sabia que não.
_ Eu...bem não – ela disse se sentindo envergonhada.
_Mas é claro que você sabia que não poderia pegar as pétalas com as mãos expostas para não as contaminar – ele disse mantendo os olhos sobre ela – acredito que um detalhe tão importante assim não passaria despercebido.
_Eu não sabia – ela disse baixando a cabeça.
_Que surpresa, e eu notei também que você não estava carregando nenhum recipiente, onde exatamente você estaria guardando as pétalas? – ele perguntou
_Eu iria coloca-las nos bolsos – ela respondeu sem o olhar.
_Hummm então você não se atentou ao fato de que esse tipo de ingrediente só pode ser armazenado em recipiente de vidro, pois do contrário ele perde completamente suas propriedades – ele informou.
_Eu também não sabia disso – ele a ouviu fungar.
_Uma pena – ele disse com certo sarcasmo, aquele sim era um caminho seguro, e era bem por onde ele havia programado caminhar, ele havia conseguido faze-la se sentir despreparada e entender que ela não estava preparada para algo assim sozinha.
_Não é justo, nada disso estava escrito naquele maldito pergaminho - Ela disse levantando a cabeça, ele notou que haviam algumas lagrimas ali.
_Talvez por que aquela seja uma poção de nível avançado, e poções de nível avançado são assim denominadas Srta. Epson, por que elas requerem um certo conhecimento das aplicações e usos, que no caso você ainda não tem – ele respondeu se sentindo verdadeiramente vitorioso, mas por que ele não se sentia feliz?
_Então... depois de tudo e mesmo que eu tivesse conseguido as flores, não daria certo? Simplesmente a poção não iria funcionar? – ela parecia tão desolada ali.
_Não – ele se limitou a dizer - Então vejamos você se aventurou, quebrou as regras da escola, se colocou em perigo, quase foi levada por um vampiro sanguinário, e morta pela hidra, e tudo isso, sim pra nada... garotinha estupida, você consegue entender isso agora? - ele disse por fim, essa era a primeira vez que ele havia conseguido seguir o repertório, conforme aquilo que ele havia programado, e ele disse exatamente o que ele queria ter dito para ela ali.
Ele notou as lágrimas descendo com mais velocidade agora, sim ela havia entendido o quão imprudente havia sido, ela estava decepcionada, frustrada, aquilo era fácil de perceber, mas ele não conseguia se sentir realizado em ver aquilo, como ele imaginou que seria, havia algo de errado com ele, ele desejou tanto poder apontar cada erro, cada maldita falha cometida por ela ali, mas por que ele estava se sentindo daquela forma? Ele tentou ignorar.
_E onde exatamente você iria preparar a poção? Eu imagino que tenha pensado nisso – ele perguntou.
_Eu não pensei – ela colocou as mãos sobre o rosto – por favor pare... – ela pediu.
_Bem... de qualquer forma, isso é tudo sobre a poção – ele respondeu sentindo uma pontada de culpa, ao avalia-la naquele estado deplorável, mas ele não iria deixar com que isso o impedisse de concluir aquilo que ele havia vindo fazer ali - mas já que está pedindo, eu não vou me dar o trabalho de discutir a parte que falamos sobre o uso inapropriado de ingredientes em lugares insalubres, como seria o seu caso, e que possivelmente fariam a poção explodir antes mesmo de conclui-la, podendo machucar de forma grave quem a estivesse manipulando, até por que isso você sabe com alguma vivencia prática – ele fez menção a primeira poção que ela havia preparado em sua aula e que havia sido sabotada ironicamente por Diaz, ela certamente se lembraria daquilo, ela não esboçou nenhuma reação, ela continuava encolhida ali e ele havia acabado de desmerecer cada pequeno passo e esforço que ela havia feito para conseguir fazer aquela poção, e ter as respostas que ela tanto queria, mas ele era um mestre de poções, ele não poderia permitir aquele descaso, e se isso servisse para impedi-la de cometer um ato imprudente assim mais uma vez, isso estaria valendo a pena – alguma consideração aqui Epson? – ele pediu
_Não senhor – ela respondeu vagamente.
_Como imaginei – ele disse – nós ainda vamos falar sobre as consequências – ele disse de forma lenta, tentando captar a reação daquelas palavras sobre ela, mas ela apenas assentiu, o que o fez prosseguir – mas antes, tenho mais uma coisa a discutir, você não simplesmente quebrou uma porção de regras e recomendações naquela noite, ao expor mais uma vez sua vida a perigo de morte daquela forma, o que, ficou ainda pior quando por descuido você perdeu sua varinha – Ela levantou a cabeça ali – um bruxo, ele não é nada sem a sua varinha Srta. Epson – ele pontuou.
_Minha varinha – ela sussurrou, com o rosto marcado pelas lagrimas.
_Sim, sua varinha – ele repetiu – que também está comigo, a devolverei assim que achar prudente – ela não se opôs – Epson agora sobre as consequências, você irá escrever linhas. Eu quero 2 mil linhas. Com a sua melhor caligrafia, dizendo "Não sou superior as regras da escola" e quero uma redação de pelo menos duas páginas explicando a importância do preparo de poções de forma adequada, tudo isso até domingo – ele disse esperando alguma objeção, mas ela também não fez – Quando você estiver pronta e for liberada pela Madame Pomfrey, você fará um mês de detenções, mas falaremos sobre isso mais tarde, em outra ocasião, não pense que me esqueci das detenções que não foram cumpridas com o Filch, ele está um pouco mais mal humorado depois do que aconteceu com a sua gata no final de semana passado – Severo se lembrou - E para encerrar, menos 50 pontos da Sonserina, pela sua total falta de senso e zelo pela vida. Espero realmente que os pontos possam ser recuperados em breve, com o seu desempenho exemplar nessa escola daqui em diante, estamos entendidos Epson?
_Sim, senhor – ela respondeu, ela estava completamente introspectiva ali.
_Por hora, acredito que finalizamos esse assunto - Severo se levanta, ele estava se preparando para sair, ele passou os olhos de forma despretensiosa pelas janelas enormes da ala hospitalar, estava bastante escuro lá fora, mas ele não pode deixar de notar os olhos da ave que estava na janela central, Antony, ele suspirou.
_Eu sinto muito – ela disse chamando sua atenção outra vez – eu prometo que não vou mais decepciona-lo dessa forma - ela disse antes de se deitar e puxar as cobertas por cima de si mesma, a fazendo desaparecer ali. Ele deveria estar se sentindo orgulhoso por ter conseguido concluir com sucesso aquilo que havia sido proposto para aquela conversa, mas por alguma razão, ele não se sentia feliz, ele preferia o abraço e o afeto da noite anterior, sim ele estava ficando mole, disciplina também era importante, ele pensou tentando se convencer daquilo.
_Boa noite Srta. Epson – ele disse, saindo da ala hospitalar.
