"Uau, bem, este é certamente um passo na direção certa."
"Eu não sei. Parece um pouco retrógrado se você quer minha opinião."
"Bem, é por isso que você está reprovado em História da Magia, não é? Oitenta por cento dos bruxos concordam com as novas leis."
"Ok, Antony, um Aceitável dificilmente é o que eu chamo de fracasso em História da Magia."
Hermione mal estava sentada com os Corvinais por mais de cinco minutos e já havia detestado a maneira como eles falavam uns com os outros, e como eles pareciam se considerar poderosos. Ela e Malfoy tiveram algumas das melhores notas da escola, mas nunca fingiram ser adolescentes intelectuais e mais espertos do que realmente eram, se achando melhores do que todos os outros porque sabiam usar palavras complicadas e tinham memorizado informações estatísticas. E as garotas acham que eu é quem sou um pé no saco... Não há nada de errado em ser esperta, pensou Hermione, mas definitivamente há algo errado em tentar intencionalmente fazer as outras pessoas se sentirem burras.
"Do que eles estão falando?" Hermione perguntou a Terry baixinho, no café da manhã de domingo. Ele a havia convidado para comer com eles e ela nem pensou duas vezes quando trouxe Harry e Rony junto. Nós somos um pacote, Hermione cantou em sua cabeça quando eles se sentaram ao lado dele.
"O quê?" Antony Goldstein perguntou, desnecessariamente alto, chamando a atenção de todos na vizinhança para a conversa. "Você não lê?" Ele deslizou a cópia do dia do Profeta Diário na mesa entre eles.
Hermione fez uma careta. Essa era uma maneira estranha de perguntar: 'Você não leu este artigo específico que foi impresso apenas algumas horas atrás?' Terry gentilmente passou para ela. Os olhos de Hermione voaram, examinando como o Ministro da Magia tinha acabado de conceder aos Aurores a autorização para usar Maldições Imperdoáveis contra os Comensais da Morte, e como eles considerariam os julgamentos desnecessários em sua rápida determinação em fazê-los pagar por seus crimes. Hermione não pôde deixar de se sentir um pouco enjoada com essa reviravolta nos acontecimentos: sem juiz, sem sentença, apenas carrascos. Eles poderiam matá-los à primeira vista, sem fazer perguntas. Parecia meio errado.
"Eu acho que é uma coisa boa", Terry disse a ela alegremente, mastigando sua torrada. "Evita que os Aurores tenham que lidar com um monte de burocracia, você não acha?"
"Eu não sei..." Hermione respondeu honestamente, relendo o artigo mais devagar.
"O quê?" Terry perguntou perplexo. "Quer dizer, os Comensais da Morte estão ficando fora de controle. Achei que você ficaria feliz com isso."
Hermione ergueu as sobrancelhas olhando para ele. "Eu?"
Terry se mexeu desajeitadamente. "Bem, sim. Quer dizer. Isso afeta você, não é?"
Sim. Mas Hermione achava que julgamentos apropriados e justiça adequada afetavam a todos, realmente. "Claro. Mas não sei se impedir de dar às pessoas o seu julgamento no tribunal é a maneira correta de lutar contra os fanáticos."
Ela olhou para Harry que complementou a opinião dela, olhando para o artigo, muito interessado. "Além disso, há uma pequena chance de alguém ser incriminado ou falsamente acusado de ser um Comensal da Morte, e depois? Nós apenas os trancamos em Azkaban e jogamos a chave fora?" Harry deu sua opinião - e era óbvio para ela que ele estava pensando em Daphne - enquanto Hermione se servia com uma xícara de café.
"Temos o Wizengamot por uma razão. Por que duvidar deles agora?" Hermione concordou com Harry.
Antony revirou os olhos, claramente discordando dos dois.
"É fato que o Wizengamot erra o tempo todo." Harry respondeu, provavelmente lembrando daquele julgamento ridículo que eles o submeteram antes do início do 5º ano. "Mas isso não significa que devemos simplesmente descartá-los sem primeiro colocar algo melhor no lugar..."
"Sim, com certeza", Hermione concordou.
"Vocês foram criados por trouxas, vocês não entendem como nós estivemos-"
"Goldstein, cuidado." Rony o cortou com um olhar ameaçador, se manifestando pela primeira vez no debate. Terry estava olhando para o amigo como se pensasse que ele havia cruzado uma linha invisível.
"Só estou dizendo que o problema dos Comensais da Morte está ficando fora de controle, e se algumas cabeças tiverem que rolar para nos livrarmos deles, que assim seja. Eles sabiam no que estavam se metendo quando juraram lealdade a um megalomaníaco. Eles devem sofrer as consequências."
Hermione não pode deixar de pensar em Malfoy, tendo sido marcado aos 16 anos como parte desse culto. Ele sabia o que estava fazendo? Ou será que seu terrível pai o havia guiado nessa direção? Ele deveria pas
sar o resto de sua vida tendo sua alma sugada por causa de suas péssimas decisões enquanto ainda era um adolescente? Provavelmente, ela raciocinou. Não é como se ele tivesse mostrado algum arrependimento desde então. A natureza complicada de todo o enigma fez sua cabeça girar.
"Você está bem?" Terry sussurrou para ela alguns minutos depois, já que ela não tinha comido mais nada.
"Sim. Ótima." Hermione respondeu com um sorriso forçado.
A próxima reunião da Ordem foi estranha. Bem, talvez fosse apenas estranho para Hermione, mas ela sentia que Moody continuava olhando para ela com seu olho mágico, como se estivesse se perguntando o que diabos ela ainda estava fazendo lá se não estava mais concordando em espionar para eles. Ela tentou dizer a si mesma que estava paranoica, especialmente porque Dumbledore não foi nada além de cortês e receptivo quando ela chegou, mas era um sentimento difícil de se livrar. Hermione afundou em sua cadeira no fundo com Harry e Rony, totalmente pronta para a hora passar o mais rápido possível.
"Você está bem?" Harry perguntou a ela preocupado enquanto Kingsley Shacklebolt discutia com Ninfadora Tonks sobre o melhor curso de ação para descobrir mais Comensais da Morte.
"Sim, sim, apenas um pouco cansada", Hermione respondeu, sem mentir completamente.
Ela agradeceu a Merlin quando a reunião foi finalizada mais cedo por causa de questões urgentes que um grupo central mais íntimo de membros da Ordem tinha para discutir. Parecia que apenas os Aurores e Dumbledore permaneceram no escritório, enquanto o resto deles saiu pela lareira, e Harry, Rony e Hermione saíram pela porta. Hermione alegremente retribuiu o entusiástico aceno de despedida de Tonks.
"Ainda querem jogar Snap Explosivo?" Rony perguntou a eles no corredor.
"Claro." Hermione respondeu. "Depois que eu colocar meu pijama."
Harry riu "Concordo. Não dá para jogar Snap Explosivo até ficar confortável."
Várias horas depois, Hermione havia derrotado os meninos pelo quarto jogo consecutivo quando Gina Weasley se aproximou deles perto da lareira. "Hum. Oi, pessoal. Hermione?" Ela perguntou. Hermione olhou para Gina com expectativa. "Uh, posso falar com você?"
Hermione deu a Rony um olhar de 'que diabos ela quer?' Enquanto se levantava, saindo pelo quadro da mulher gorda e parando no corredor. Ela tinha uma leve suspeita de que o que quer Gina tivesse a dizer, provavelmente era relacionado a Malfoy.
Ela tentou suprimir todos os pensamentos sobre o pau de Malfoy na boca de Gina, antes de se dirigir a ela. "Pode falar", Hermione disse sem absolutamente mais nada em mente.
"Eu não sei onde ele está." Gina disse frustrada, obviamente indo direto ao ponto.
"Quem?" Hermione perguntou, cruzando os braços. A calça do pijama podia ser felpuda e quente, mas a blusa oferecia pouca proteção contra a corrente de ar do corredor.
"Malfoy." Gina disse secamente. "Ele deveria fazer a ronda comigo esta noite, mas ele não apareceu. Eu não quero patrulhar fora do castelo sozinha, isso me dá arrepios."
Era uma preocupação válida. Hermione notou que seus monitores estavam muito magros desde que os novos requisitos de McGonagall foram estabelecidos. Ela se perguntou se havia uma maneira de dizer à professora que eles não eram mais necessários sem revelar o que ela sabia - e admitir que ela estava acreditando na palavra de um Comensal da Morte. E se ele não apareceu porque está torturando algumas crianças agora?
"Eu cuido disso. Apenas," Hermione suspirou, "comece de cima, pela Torre de Astronomia e desça. Você não tem que patrulhar lá fora esta noite."
"Obrigada." Gina girou nos calcanhares e desapareceu em uma esquina.
Maldito Malfoy. Ele havia dito a ela que pararia. Furiosa, Hermione marchou de volta para dentro da sala comunal e caminhou até Harry, pedindo a Capa de Invisibilidade de emprestada. Hermione foi até o dormitório vestir uma capa e saiu da torre logo após.
Por que Hermione se sentiu enjoada quando passou por Harry e Rony (dizendo para eles não esperarem) e correu pelo castelo?
Ela tinha que reunir provas de que ele havia quebrado sua promessa para que ela pudesse quebrar a dela e denunciá-lo. Talvez com as mudanças nas leis, sua invencibilidade não fosse tão garantida quanto ele acreditava anteriormente. Se ela contasse a uma sala cheia de pessoas - talvez a Ordem inteira - quem realmente eram os Comensais da Morte na escola e o que eles faziam com os outros alunos, todos seriam jogados em Azkaban antes que seus pais pudessem impedir - antes que eles pudessem me machucar.
Hermione quase escorregou quando seus pés pousaram no Hall de Entrada, pronta para sair pelos terrenos. Ali, no chão de pedra, havia uma trilha pesada de sangue na qual ela havia pisado. O intervalo entre as gotículas carmesim foi diminuindo gradativamente conforme o caminho se afastava da porta da frente, fazendo Hermione pensar que quem foi arrastado por este corredor definitivamente estava sangrando muito. Mal pensando, ela segurou sua varinha perto e correu atrás do rastro vermelho, seguindo-o até as masmorras, na entrada do Salão Comunal da Sonserina.
Draco não apareceu para fazer a ronda. Hermione sentiu vontade de vomitar. Não. Ela se envolveu na capa de Harry e usou sua senha mestra para entrar, correndo para onde ela sabia que era o dormitório dos meninos do 7º ano. Ela quase escorregou novamente na poça de sangue do lado de fora da porta.
Quando Hermione empurrou a porta, ela foi recebida com gritos enlouquecidos e torturados de um homem que ela conhecia muito bem.
"Precisamos levá-lo para a ala hospitalar!" Daphne gritou, obviamente não pela primeira vez.
"Não, eles vão descobrir, Daph, eles vão-" Malfoy teve que parar de falar, lamentando ao invés disso enquanto agarrava o que parecia ser sua barriga. Não, é um buraco, percebeu Hermione. Todo o lado esquerdo de seu abdômen está faltando.
"Foda-se, isso não importa se você estiver morto!" Zabine gritou.
"Ele disse que não, merda Zabine. Ouça-o!" Crabbe gritou, encarando Zabine enquanto o garoto tentava agarrar o outro braço de Malfoy, parecendo que ele e Daphne iriam arrastá-lo até Madame Pomfrey.
"Eu vou resolver", Malfoy declarou tolamente, fracamente, tentando apontar sua varinha para si mesmo, apenas para estremecer quando ela escorregou por entre seus dedos escorregadios, cobertos com seu próprio sangue.
Hermione já tinha visto o suficiente. A situação era terrível e ela poderia consertá-la. Ela tirou a capa de Harry, não dando tempo para os meninos reagirem e enfeitiçá-la, porque ela já estava agachada ao lado da cama de Malfoy, varinha em punho e murmurando todos os feitiços de cura que ela conhecia.
"Hermione-" Malfoy disse ofegante, de alguma forma sorrindo para ela apesar de toda a sua dor. Infelizmente, foi um lampejo de curta duração, pois ele convulsionou um segundo depois, seu corpo incapaz de lidar com a extrema perda de sangue e carne, gritando de uma forma assustadora.
Porra, isso é ruim. Hermione se virou para Daphne. "Você. Use a capa para ir até a ala hospitalar e me roubar as poções de Reabastecimento de Sangue, Muscle-Gro, Skele-Gro e a Poção Entorpecente de Cérebro de Bertie Bott." Daphne apenas olhou para ela inexpressivamente, como se ainda estivesse tentando descobrir quando ela tinha aparecido. Hermione não tinha tempo para o choque. "AGORA GREENGRASS, AGORA!"
Daphne entrou em ação, agarrando a capa de invisibilidade e saindo correndo do dormitório. Ela se virou para Zabine, chocado tanto quanto Daphne pela aparição da grifinória, e ordenou "Segure a mão dele."
Zabine fez imediatamente o que lhe foi dito enquanto Hermione conjurava um graveto para enfiar na boca de Malfoy, para que ele não mordesse sua própria língua. "Desculpe, Draco." Ela sussurrou enquanto começava a cauterizar todas as feridas abertas dele, fazendo Zabine gritar quando Malfoy quase quebrou sua mão sob seu aperto, se debatendo na cama. Hermione sabia que era bárbaro, mas sem as poções certas, ele iria sangrar até morrer. Pelo menos assim ele viveria até que Hermione pudesse regenerar todo o pedaço dele que estava faltando.
"Merda! Ele vai-"
"Quase pronto, Zabine." Hermione respondeu, franzindo a testa em concentração enquanto selava a última pele aberta de Malfoy. "Terminei."
Ela olhou para cima para encontrar lágrimas escorrendo dos olhos de Malfoy, mas seu rosto começou a relaxar, percebendo que o pior finalmente havia passado. Ela provavelmente deveria ter executado o mesmo feitiço calmante sobre ele com o qual ele a enfeitiçara antes de começar a literalmente colocar fogo em sua pele - mas ela não o fez.
Daphne irrompeu pela porta, equilibrando o que pareciam ser dez garrafas diferentes em seus braços. "Havia muitas garrafas parecidas, então eu peguei todas", ela disse em pânico, jogando-as na beirada da cama de Malfoy. "Vão servir?"
"Sim," Hermione disse comovida com a óbvia amizade entre eles, o que a fez pensar em Harry imediatamente. Ela pegou a familiar garrafa roxa, abrindo a rolha e levando-a até os lábios de Draco, onde ela teve que remover o graveto.
Daphne respirou fundo ao perceber que seu melhor amigo não estava mais à beira da morte. "O que, eu saio por cinco segundos e você já o amordaçou?"
"Cale a boca." Hermione disse distraidamente, os olhos grudados na boca de Malfoy enquanto ele engolia a poção. "É isso, beba", ela o acalmou, afastando distraidamente o cabelo dele para trás de sua testa suada, deixando-o correr por entre os dedos. "Você perdeu muito sangue."
Os olhos acinzentados de Malfoy estavam desfocados, nublados com toda a dor, mas eles pareciam estar tentando se concentrar no som da voz dela.
Ela pegou a próxima garrafa, reconhecendo que Daphne havia trazido para ela as poções Muscle-Gro e Skele-Gro. Ela estava bastante certa de que a maldição que ele recebeu o estripou sob sua caixa torácica, então nenhum osso estava faltando pelo menos. "Vou ter que refazer um pedaço de seu estômago, e possivelmente a parte inferior do seu rim esquerdo", disse ela em voz alta, principalmente para si mesma, mas também no caso de ajudar a tranquilizar seus dois melhores amigos. "Isso vai ter gosto de merda, Malfoy, mas eu sei o quanto você gosta do seu abdômen, então beba", ela o instruiu, levando a poção azul brilhante que ajudaria a regenerar os seus músculos aos lábios dele. Seus olhos nunca a deixaram enquanto ele tomava.
Malfoy fez uma careta e gaguejou. "Uh, uh, beba tudo." Ela poderia jurar que um músculo em sua têmpora se contraiu com seu comando. Ela vasculhou as garrafas que sobraram, tirando a última de que precisava. Os garotos ao redor da cama observavam extasiados, claramente pensando nela como uma espécie de deusa genial que acabara de salvar seu rei.
"Agora, não deixe o nome no rótulo te enganar, esta é superforte." A garrafa tinha o formato de um Feijãozinho de Todos os Sabores, mas Hermione sabia que era apenas uma homenagem a como o bruxo que a inventou fez sua fortuna original. Em seus últimos anos, depois de ter inventado a guloseima que alimentaria gerações e gerações de crianças corajosas, Bertie Bott voltou-se para sua verdadeira paixão na vida: poções. Ele havia inventado a que mais alterava a mente, a poção que entorpecia o sistema nervoso mais conhecida pelos bruxos - que por acaso era perfeita para pacientes que lidavam com quantidades inconcebíveis de dor. Era altamente viciante e alucinógena - inclusive eles haviam tentado reproduzi-la em uma das suas aulas de poções recentemente - se usada incorretamente e era raramente prescrita. Hermione sabia que se Malfoy tivesse que regenerar metade de seu abdômen e lidar com a tentativa dela (não era como se fosse uma prática comum ou algo assim) de reparar alguns de seus órgãos vitais, ele precisava disso.
Hermione abriu a tampa e deu a Malfoy um dedo muito severo em seu rosto. "Agora, não é para você se tornar um viciado." Ela inclinou a cabeça dele para trás e derramou uma boa dose em sua língua.
Ele engoliu em seco e olhou para ela sonhadoramente. Funcionou rápido. "Tarde demais."
Seu estômago brilhava enquanto sua pele queimada parecia borbulhar e mudar, movendo-se para abrir espaço para os músculos que estavam tentando se formar. Era uma visão medonha que Hermione estava agradecida que ele não pudesse mais sentir.
"Draco, cara..." Zabize deu um tapinha no ombro dele e Hermione pensou que pegou um pouco pesado demais, dada a sua condição atual, "não me assuste assim de novo, certo?"
Ele apenas deu de ombros em resposta.
"Bem, ele vai ficar chapado por pelo menos dez horas." Hermione se levantou, usando a varinha para higienizar as mãos, antes de sugar o sangue dos lençóis dele. Não havia como não ter encharcado seu colchão, havia tanto. "Vou trabalhar na pele e nos órgãos assim que os músculos tiverem crescido novamente." Hermione puxou o cabelo para cima em um coque bagunçado, usando um elástico de veludo azul que estava em seu punho, sabendo que esta seria uma longa noite.
"Você pode curar a minha mão?" Zabine perguntou humildemente.
"Claro." Hermione apontou a varinha para Zabine sem nem mesmo erguer os olhos de Malfoy.
"Merda, obrigado", ele murmurou agradecido, caminhando até sua cama.
Hermione sentiu o olhar quente de Daphne em sua bochecha. "Onde você aprendeu tudo isso?"
"Eu tenho muito tempo livre durante os verões", Hermione respondeu vagamente, não querendo entrar no assunto de sua família - ou melhor, a falta dela - com uma pessoa que ela mal conhecia. O bom de sua casa estar localizada em uma cidade tão movimentada quanto Londres, era que ela nunca teve que se preocupar em ser presa por estudar e praticar magia sendo menor de idade.
"Bem, isso foi brilhante." Ela se virou para Daphne surpresa, não esperando nenhum tipo de elogio. "Você salvou a vida dele."
Foi a coisa mais sincera que ela já ouviu a garota dizer.
"Obrigada. Eu quero ser uma curandeira, é o que eu pretendo fazer depois da escola", ela rebateu.
Daphne sorriu para ela, mas não respondeu, agachando-se para ficar na altura dos olhos de Malfoy. "Como você está, amigo?"
Malfoy sorriu preguiçosamente, a cabeça pendendo sobre o travesseiro. "Ótimo." Hermione não pôde evitar que seus lábios se contraíssem em um sorriso. Era divertido vê-lo assim.
"Merlin!" Zabine riu, balançando a cabeça.
Querendo dar aos melhores amigos um pouco de privacidade, Hermione pediu licença para ir ao banheiro para se limpar, removendo com magia o sangue que de alguma forma havia espirrado em seu pijama. Ela estava imersa em pensamentos saindo de uma das baias, imaginando se o que ela tinha lido em seus livros de cura significava que ela seria habilidosa o suficiente para realizar um reparo de órgãos, quando foi saudada pela visão de Zabine tomando banho, esfregando o sangue de seu melhor amigo do corpo. "O que-" ela gritou, protegendo os olhos da visão indesejada.
"O que você esperava, querida?" Ele sorriu, sem se mover nem um pouco para se cobrir. Na verdade, ele parecia mais do que confortável em se virar ainda mais, lavando o traseiro. "Este é o banheiro masculino."
Hermione bufou, caminhando rapidamente para a pia para lavar as mãos. Se ela conseguiu evitar olhar para o corpo nu de Malfoy quando ele desfilou diante dela neste mesmo banheiro, ela certamente poderia evitar olhar para o de seu melhor amigo também. Sua visão estava apenas captando-o perifericamente e ainda assim suas partes não eram - Como devo colocar isso? - tão chamativas como as de Malfoy.
"Você poderia vestir uma toalha ou algo assim? Ninguém quer ver isso." Não era verdade e Hermione sabia disso. Ele era mais baixo que Malfoy, mas era muito bonito. Suas feições eram fortes e simétricas, e a sua pele escura contrastava com uma fileira de dentes muito brancos.
"Metade da população feminina de Hogwarts quer ver isso." Ele não estava errado. Ele sorriu, mas o olhar também não era tão atraente quanto o de Malfoy. "É só um pau, Granger. Você pode olhar se quiser. Eu sei que você já viu um antes." Sua diversão cresceu. "Eu ouvi você vendo um antes."
Hermione revirou os olhos. "Uau. Eu já fiz sexo na minha vida. Tão pertinente." Ela sacudiu a água de suas mãos. "Talvez eu só não queira ver o seu pau, já pensou nisso?"
"Hum, sim", Blaise disse intencionalmente enquanto finalmente pegava uma toalha e a enrolava na cintura. "Draco mencionou que você não estava confortável com corpos nus ainda—"
"O quê?" Hermione gritou, mordendo a isca. "Estou muito confortável. Só porque não exibo o meu sempre que posso, assim como vocês dois..."
Blaise estendeu as mãos, suas palmas para cima. "Como de repente eu estou me exibindo?"
"—não significa que eu não ame o meu próprio corpo—"
"Eu estou literalmente parado aqui no meu próprio chuveiro, depois de tomar banho..." Ele continuou a falar, caminhando ao lado da pia e encostando na parede, cruzando os braços sobre o peito. "Os paus grifinórios não devem ser tão bons quanto os das cobras, se é que você me entende".
Uau. Ele realmente não ia deixar essa coisa toda de 'você transou com meu melhor amigo' para lá, não é? "Original. Então você acha que todos os sonserinos são bem-dotados por que Malfoy tem um belo pau?" Ela zombou.
"Então, você acha que Draco tem um pau grande e bonito, hein?"
"Eu não disse grande."
"Ficou implícito."
"Merda, você consegue ser pior do que ele."
"Vou tomar isso como um elogio", Blaise disse com um enorme sorriso. "Só não vá se apaixonar por mim também, certo? Não quero irritar meu garoto."
"O quê?" Hermione o olhou confusa. Brigar com Malfoy sempre pareceu uma sedução, mas com Blaise parecia uma armadilha.
"Bom, ele finalmente dormiu!" Daphne entrou no banheiro, interrompendo a discussão deles, caminhando até a pia onde os dois estavam e lavando os braços cheios de sangue. A garota nem mesmo se abalou ao ver Zabine só de toalha, se dirigindo à Hermione. "Obrigada por ter salvado a vida dele, Granger. Me lembre de dizer a Harry que ele fez uma boa escolha para melhor amiga."
Hermione estudou a linda garota por alguns minutos, enquanto ela terminava de se limpar. "Você realmente se importa com Harry, não é?"
Daphne lhe deu um olhar solene ao inclinar a cabeça para se encostar no espelho, estudando-a. "Assim como você se importa com Draco."
Hermione não estava preparada para a essa admissão tão sem esforço por parte de Daphne e muito menos para a mudança na direção da conversa. Ela se sacudiu e pegou uma escova de dentes para fazer algo com as mãos, esperando que Blaise e Daphne não notassem que ela sabia exatamente qual era a de Malfoy (Eles notaram). "O que te faz pensar isso?"
Daphne revirou os olhos enquanto o sorriso de Blaise se transformou em algo que até o Gato de Cheshire mataria para conseguir. Eles sabiam que a tinham encurralado. "Você praticamente invadiu a Sonserina para salvá-lo."
"Havia sangue nos corredores", Hermione defendeu-se ardentemente. "O que mais eu deveria fazer?" Ela encheu a escova de Malfoy com pasta de dente e a enfiou na boca. "A propósito, vocês provavelmente deveriam pedir para alguém limpar a bagunça, antes que todos comecem a fazer perguntas", ela deixou escapar, tentando desviar o assunto.
Não funcionou. "Você teria vindo correndo se pensasse que era Nott quem estava ferido? Ou Crabbe?" Daphne questionou sorrindo. Não. Ela não teria. Ela teria se sentido mal se eles tivessem morrido, mas ela não teria se desviado de seu caminho para salvá-los... Eu teria me sentido mal? Eles são pessoas más. Coisas ruins acontecem à pessoas más... Não é?
Daphne a pressionou enquanto Hermione escovava os dentes com mais força. "Você gosta dele. Já era a hora também, porque ele está obcecado por você há muito tempo."
Hermione cuspiu a pasta espumosa, sentindo que isso era algo que Daphne não deveria estar contando a ela. "O quê?"
Blaise ignorou completamente a conversa sentimental das garotas e decidiu abordar o assunto de um outro ângulo. "Bom, eu divido o dormitório com Draco desde os onze anos. Já ouvi ele transando com muitas garotas. Tudo o que eu sei é que se eu fodesse uma garota como ele fez com você, seria porque eu já estaria completamente dominado, querida." Hermione lambeu a pasta de dente de seus lábios, infelizmente sendo forçada a reviver a memória da dita foda enquanto Daphne fingia vomitar. "Não quebre o coração dele", disse Blaise.
Bem, agora Hermione não tinha certeza se ele estava brincando ou não. Todas as suas experiências com Malfoy a fizeram chegar à triste, mas inevitável conclusão, de que ele não tinha um coração para partir. Contra a sua própria vontade, Hermione sentiu como se tivesse começado a ganhar uma compreensão real de Malfoy, mas seus melhores amigos o levaram de volta para um mistério absoluto. Eles devem estar brincando com você.
Daphne observou cada movimento dela, calculadamente. "Ele é um cara legal." Oh! Graças a Merlin. Eles estão brincando. Hermione enxaguou a escova de Malfoy e a colocou de volta no lugar dele.
"Ele salvou minha vida hoje à noite." Blaise disse a encarando fortemente. " Essa maldição que atingiu ele? Era para mim. Ele nunca deixa nada de ruim acontecer às pessoas que ele ama. Lembre-se disso, Granger."
Hermione finalmente devolveu o olhar. Ele estava usando o sobrenome dela em vez de um daqueles apelidos ridículos porque queria que ela o levasse a sério? Ela não tinha ideia de que Malfoy havia tomado o feitiço que tinha como alvo o seu melhor amigo, mas honestamente, ela não estava tão surpresa. Se ele não tivesse sido criado da forma como foi, ele teria muitas características que deixariam Godric Gryffindor orgulhoso. Hermione tentou reprimir a memória do Chapéu Seletor tentando dizer a ela que ela se sairia bem na Sonserina e que queria colocá-la lá. Foi algo que ela nunca disse a nem uma única alma e ela lutou contra, durante todo o seu tempo em Hogwarts. Ela queria ser como McGonagall - a formidável bruxa que lhe mostrou o caminho e abriu seu mundo para a magia. Hermione obviamente tinha visto o tipo de pessoa que residia nesta masmorra e ela não queria fazer parte disso. Ela forçou um gole, tentando molhar as cordas vocais. "Estou um pouco mais preocupada em como ele trata as pessoas que odeia."
Blaise sustentou o olhar dela sem piscar por um bom tempo.
Finalmente, Daphne pareceu decidir encerrar o assunto, por enquanto. "De qualquer forma, sabe se Harry vai fazer algo no próximo fim de semana? Eu gostaria de fazer uma surpresa para ele. Eu adoraria levá-lo para a casa dos meus pais. Você sabe, irritá-los um pouco." Ela e Zabine compartilharam um olhar e caíram na gargalhada. Hermione não sabia o suficiente sobre os pais de Daphne, mas estava bem óbvio que, embora eles compartilhassem suas crenças retrógradas sobre os trouxas, aparentemente isso não havia sido o suficiente para influenciar Daphne sobre quem ela deveria se apaixonar.
"Não se atreva a usá-lo assim—"
Daphne bufou. "Foi só uma brincadeira, Granger. Bom, a parte sobre os meus pais obviamente, porque eu realmente quero passar um tempo de qualidade com Harry…" A garota tem um senso de humor bizarro. "De qualquer maneira, você não tem nenhuma moral parar falar a respeito. Quando foi a última vez que você usou meu melhor amigo como seu brinquedinho sexual ou Boot para se sentir melhor sobre Draco ser seu brinquedinho sexual?"
Ela era muito pior do que Zabine. "Você não sabe do que está falando." Sua pequena bufada empurrou Hermione de um pouco indignada para uma auto injustiçada afrontosa. "No mínimo, Draco me usa para gozar."
"Você está-?" Daphne balbuciou chocada, enquanto ela e Zabine se entreolharam. A loira se afastou da parede, parecendo querer estrangulá-la por ser tão idiota. "Tire sua cabeça da sua bunda, Granger!"
"Fui eu quem o convidou para sair!" Hermione afirmou teimosamente, virando-se para encará-la completamente. Ela sabia que era uma coisa boba de se agarrar, mas sentia que era tudo o que tinha. Não havia tempo suficiente para explicar a eles como ela sentia que todo o seu psicológico estava desequilibrado. Era como se Malfoy estivesse bagunçando sua química cerebral.
Daphne ficou boquiaberta, como se tivesse um milhão de coisas para gritar com ela, mas de alguma forma encontrando forças para puxar tudo de volta. "Você tem tanta sorte que eu te devo uma." Ela estendeu as mãos e cerrou os punhos na frente do rosto dela, demonstrando claramente como desejava estar apertando a cabeça dela até a morte. "Você é tão..." ela gaguejou, "- cheia de merda!" Daphne se virou e saiu do banheiro.
Hermione a observou enquanto a porta se fechava atrás deles. "Foi o que me disseram", ela murmurou, enquanto Zabine balançava a cabeça em negação e saía do banheiro também.
