Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Helen Bianchin, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 2
Os preparativos para o Fashion Design Awards exigiram que Nami passasse a maior parte do fim de semana em seu estúdio, enquanto checava inúmeras vezes a seleção das peças que tanto ela quanto sua sócia, Nefertari Vivi, haviam escolhido para compor os vários desfiles.
O processo seletivo constituía em exame do tecido, costura e acabamento por uma equipe de especialistas que proporcionava uma classificação antes do julgamento final na passarela. O que significava garantir a perfeição em todos os detalhes... ou tão perto da perfeição quanto possível.
A premiação em qualquer categoria acrescentava ao currículo do estilista a garantia de interesse crescente e vendas. Contudo, para Nami, o foco estava em transformar um tecido de qualidade em modelo de estilo perfeito.
Desde criança, adorava vestir suas bonecas e, com a ajuda da mãe, tinha criado modelos e feito sua própria série de roupas em miniatura, passando mais tarde a desenhar e confeccionar suas próprias roupas.
Um diploma em Design de Moda, seguido por uma especialização ao lado de conceituados estilistas australianos, finalmente lhe garantira a oportunidade de trabalhar no exterior por alguns anos... Paris, Milão e Londres, antes de retornar a Sydney, onde estabelecera o seu próprio estúdio.
Diligência e trabalho árduo lhe concederam reconhecimento em sua área, com a grife Arabelle, altamente apreciada no meio social.
Enquanto Nami possuía maestria com desenho, agulha e linha, tinha em sua amiga de infância, Vivi, com seu tino comercial, o complemento de uma sociedade bem-sucedida.
O talento e o discernimento de Vivi para selecionar os acessórios adequados eram impecáveis, pela habilidade em montar uma modelo, para uma apresentação de sucesso, que se destacava das demais.
Nami adorava o aspecto criativo de transformar uma idéia em realidade. Ser capaz de olhar para um tecido e visualizar a roupa acabada era um dom... que respeitava muito. Cor, tecido, estilo. Vivia para fazer isso funcionar e ganhar vida. Qualquer elogio ou premiação era um bônus.
A semana anterior à noite de premiação de estilista exigia longas horas, checagem dobrada para detectar se tudo estava em ordem, incluindo o planejamento de imprevistos, caso uma modelo contratada ficasse impossibilitada de comparecer... ou alguma das muitas coisas que eram possíveis de dar errado.
Ela precisava tirar folga apenas para comer e dormir, refletia ao entrar em seu apartamento, no final da tarde de terça-feira, depois de um dia estafante.
A idéia de um longo banho numa banheira de espuma e uma refeição decente era tentadora, exceto que aquilo não iria acontecer.
Em vez disso, só teve tempo de tomar uma rápida ducha, mudar a roupa de trabalho para um vestido mais formal em renda marrom, aplicar maquiagem e arrumar os cabelos num coque simples antes de pegar o carro e ir em direção a Double Bay, uma exposição numa galeria de arte com Bell-mère.
Um evento prestigioso, com convite exclusivo, anunciava a grande abertura de um novo lugar que unira três palacetes, cujos interiores tinham sido convertidos em uma espaçosa galeria, por iniciativa de uma família conhecida no mundo da arte por descobrir e patrocinar artistas.
Carros se alinhavam na larga rua arborizada no bairro de Double Bay e Nami precisou dar uma volta no quarteirão antes de achar uma vaga para estacionar.
Dois seguranças protegiam a entrada da galeria, um dos quais checou seu nome na lista de convidados enquanto outro indicava o foyer.
- Querida - o filho mais velho da família a pegou pela mão e se curvou para um beijo no rosto - Seja bem-vinda.
- Franky.
Qualquer nome masculino na família iniciava-se com a letra F... Fabian, o patriarca, e seus dois filhos Franky e Fletcher.
Os convidados se reuniam em grupos, bebendo champanhe e aceitando canapés oferecidos por empregados uniformizados. Música incidental vinda de alto-falantes escondidos proporcionava um ambiente adequado para a conversa dos convidados.
Uma garçonete ofereceu uma bandeja repleta de taças de champanhe e suco de laranja. Por mais que precisasse do champanhe para melhorar seu ânimo, ela preferiu o suco. Bandejas de canapés circulavam pela sala, e Nami aceitou um guardanapo e experimentou cada uma das iguarias numa sucessão relativamente rápida.
- Finalmente você chegou, querida - Bell-mère apareceu ao seu lado, e Nami se inclinou, oferecendo o rosto para uma previsível troca de beijinhos.
- O arquiteto e os decoradores de interiores trabalharam bem - disse ela, e pôde ver o sorriso caloroso da mãe.
- Concordo com você - Bell-mère apontou para as amplas paredes de vidro - É algo fora de série.
Nami lançou um olhar rápido para os grupos de convidados.
- Uma boa multidão.
- Quem recusaria o convite de Fabian ?
O efusivo patriarca da família era quase uma lenda no campo das artes, um homem sagaz, com um instinto infalível para detectar o talento no trabalho de um artista.
Muitos de seus patrocinadores fizeram uma pequena fortuna através de seus conselhos, e a abertura de novos locais era uma causa célebre.
- Venha dar uma olhada - disse Bell-mère.
- Você viu alguma coisa de que tenha gostado? - sua mãe riu.
- Como adivinhou ? - Nami retribuiu o riso.
- O brilho nos seus olhos.
- Vou fingir interesse solene na esperança de que Fabian negocie o preço.
Juntas elas se moviam vagarosamente, parando para falar com uma amiga, sorrir para uma conhecida, até que Bell-mère parou em frente a uma paisagem primorosa, com árvores e céu que pareciam quase vivos. Uma visão realista em óleo sobre tela, onde cada detalhe evidenciava a obra de um mestre.
- Você vai comprar isso - soou mais como uma afirmação do que uma pergunta, e Nami podia calcular o lugar perfeito na casa da mãe.
- Sim - concordou Bell-mère com um leve sorriso - Eu a colocarei na sala de jantar formal. As cores combinam graciosamente.
- Foi exatamente o que eu pensei.
Bell-mère olhou para cima quando Franky apareceu ao seu lado.
- Isso é um sim, Bell-mère ?
- Definitivamente - sua mãe esperou um pouco - Mediante uma pequena negociação.
- Tenho certeza de que meu pai será razoável.
Um desconto de cinco por cento era oferecido no convite para cada compra... todavia, se Bell-mère podia barganhar, era discutível.
Uma etiqueta com a discreta palavra "Reservado" estava anexada, aguardando ser substituída por "Vendido" quando a compra fosse efetivada.
Havia outros quadros de diversos estilos. O tradicional rosto de uma criança com imensos olhos tristonhos e uma única lágrima. Uma incrível paisagem com ondas turbulentas estourando nas pedras, tão bem representadas que era quase possível sentir os respingos refrescantes da água na pele de quem observava o quadro. Emoção, tristeza, alegria, tudo em óleo sobre tela.
Nami trocou a taça de champanhe vazia por outra cheia, subtraiu outros três canapés de uma bandeja que lhe fora oferecida.
- Eu deveria falar com Fabian - disse sua mãe.
- Claro. Eu a encontrarei logo - ela permaneceria ali um pouco mais, saboreando as bolhas efervescentes do champanhe e talvez seus olhos captassem algum outro interesse.
Eles captaram, mas não do modo que ela imaginava. A pintura tinha uma qualidade assombrosa, escura e rígida demais para a paz de espírito de qualquer um.
- Interessante - disse uma profunda voz masculina familiar, e Nami permaneceu em silêncio, imaginando o motivo da falha em seu mecanismo de autodefesa em alertar a presença de Monkey D. Luffy.
Uma onda de energia percorreu sua coluna de imediato, se espalhando rapidamente pelo corpo, aquecendo sua pele.
- Diga - disse Luffy - O que você vê nesse quadro ?
Ele estava bem atrás dela, numa distância mínima ao toque, e Nami teve a sensação de que, caso se inclinasse um pouco para trás, seus ombros tocariam o peito largo.
Seria tão fácil dar um pequeno passo para frente... mas então ele notaria, e ela não suportaria que Luffy pudesse imaginar o efeito que lhe causava.
- Vejo muita coisa.
Por que ela não havia previsto que ele estaria ali naquela noite ? Monkey D. Luffy representava dinheiro... muito dinheiro.
Naturalmente recebera um dos cobiçados convites. Ele se posicionou ao seu lado.
- Uma lembrança dolorosa, não acha ? Ou um aviso ?
- Talvez ambos.
- Não se trata exatamente de uma visão confortável.
- Não.
Sua estatura e a largura dos ombros a fizeram pensar num guerreiro... e imaginou se o corpo por baixo do terno impecável escondia uma musculatura poderosa.
O pensamento não contribuiu para a sua paz de espírito.
Deveria se desculpar e ir embora. Permanecer tentando uma conversa fútil também não iria ajudar em nada.
Além do mais, não precisava aumentar a tensão.
Nami se virou para ele e imediatamente lamentou tê-lo feito.
As feições de Luffy eram atraentes, marcantes, bem esculpidas, a boca, intensamente sensual, e os olhos negros pareciam ver demais.
- Você parece cansada.
- Muita gentileza sua se importar - ela conseguiu dizer com pretensa jocosidade.
- E o fato de eu me importar a incomoda ?
- Nem um pouco.
A risada dele, apesar de suave, era perfeitamente audível.
- Jante comigo, então.
Ela pensou na banana que comera de modo apressado no elevador, e nos goles de água com gás seguidos por suco de laranja, champanhe e canapés exoticamente elaborados. Muita coisa, mas não eram uma refeição adequada.
Que mal faria uma brincadeira leve e despreocupada numa sala cheia de convidados ?
- Seu ego sofreria muito se eu recusasse ? - ele deu um sorriso pensativo.
- Aceitarei uma oferta para uma oportunidade futura.
- Não me lembro de ter solicitado uma nova oportunidade.
- Na próxima semana - continuou Luffy como se ela não houvesse falado - Entrarei em contato.
- Depois que checar sua agenda social ? - ele a olhou fixamente.
- Diga uma noite.
O instinto a prevenia de que estava prestes a percorrer um território perigoso. Luffy possuía a habilidade de manter a expressão indecifrável.
- E você, colocará de lado quaisquer obrigações já agendadas ?
- Sim.
Ela sentiu um aperto no peito e tremeu um pouco.
Ele não se moveu, nem a tocou... mas Nami sentia como se tivesse sido tocada. Sua visão ficou nublada, e o barulho, a música... tudo pareceu desaparecer.
O clima entre eles era tomado de muita energia, e por um momento ela poderia ter jurado que o mundo parara.
Quanto tempo eles teriam permanecido ali em silêncio ?
Segundos ? Um minuto ? Dois ?
Então Nami viu as feições dele relaxarem, a boca sensual se curvar num leve sorriso, e percebeu que a atenção de Luffy havia se desviado.
- Bell-mère.
O som da voz dele a trouxe de volta à imensa sala e ao burburinho de seus ocupantes, e sentiu a tensão começar a desaparecer do corpo quando se virou para a mãe.
"O que acabou de acontecer aqui ?", ela se perguntou. "Nada".
- Luffy - o sorriso de Bell-mère era sincero - Você viu algo do qual tenha gostado ?
"Você está errada. Oh, pelo amor de Deus. Acabe com isso. Ele está fazendo um jogo... e o objetivo deste jogo é você. Um desafio. Como ele tem poucos na vida, precisa buscar um inatingível".
- Sim. Algo que pretendo reservar para mim mesmo - ele estava falando a respeito de um quadro... não estava ? Ou o champanhe tinha confundido sua mente e ela era a única que percebia um significado oculto ?
Café, quente, forte e doce. Poderia clarear a sua mente... e, principalmente, mantê-la bem acordada.
O que não seria bom, num momento em que precisava desesperadamente de um sono decente naquela noite.
Ela poderia pedir desculpas e ir embora. Bell-mère sabia o quanto as últimas semanas tinham sido exaustivas, e quantas horas mais Nami ainda precisava para se preparar adequadamente para a noite da premiação.
Porém, com orgulho teimoso, alinhou a coluna e indicou o fundo da espaçosa galeria.
- Há algo que quero ver novamente.
Nami tinha a impressão de que definitivamente não o enganaria quando lhe ofereceu um sorriso de despedida antes de se afastar, juntando-se aos demais convidados.
Se assegurando de manter um passo ocioso, fingiu um interesse verdadeiro. Sorriu, parando aqui e ali, trocando algumas palavras com conhecidos, tagarelando a esmo, aceitando os desejos de boa sorte na iminente premiação dos estilistas.
Há quanto tempo estava ali ? Duas horas... talvez um pouco mais ?
Eram quase dez da noite quando Bell-mère manifestou de longe sua intenção de ir embora.
Um dos seguranças deu um passo à frente quando Nami saiu pela entrada principal.
- Seu carro está estacionado aqui perto, senhorita ?
- Não muito longe do meu - a voz masculina era familiar demais - Caminharemos juntos.
Ela não desejava a companhia de Luffy, não precisava sofrer com sua presença perturbadora.
- Não há necessidade. Eu estou bem.
"Se me tocar, vou bater em você", jurou Nami em silêncio. Teria ele premeditado sua saída para coincidir com a dela ?
Nami não fez o menor esforço para conversar e ficou insuportavelmente aborrecida com o fato de ele ter optado pelo silêncio quando ela queria ter a oportunidade de esnobá-lo. Quanto tempo levaria para chegar ao carro ?
Minutos... cinco, no máximo, e ela suspirou de alívio quando desativou o alarme e pegou no trinco da porta, mas sua mão colidiu com a dele, quente e forte sob seus dedos. Ela retirou a mão num gesto brusco, como se tivesse tido contato com fogo.
- Obrigada - uma palavra educada e breve demais quando ele abriu a porta do carro para que ela se sentasse ao volante.
Luffy se inclinou para frente e colocou um cartão de visitas sob o painel do carro.
- O número do meu celular particular.
Um convite para que ela lhe telefonasse ? Um convite para que, em troca, ela oferecesse seu próprio cartão ? Como se Nami fosse fazer isso !
Ela deu a partida assim que ele fechou a porta, sabendo, quando se afastou, de que a leve dor de cabeça que começara na última meia hora havia se transformado numa terrível enxaqueca.
Ótimo. Era tudo de que precisava. Pouco sono e muita tensão...
Foi um alívio chegar ao seu apartamento e tomar dois comprimidos de analgésico antes de ir para a cama.
"Amanhã", refletiu enquanto amaciava o travesseiro, "seria um outro dia".
Uma ordem caótica reinava no estúdio de trabalho de Nami.
Algumas imprecações brandas e outras nem tanto eram ditas, mas abafadas pela música que soava de uma das estações de rádio popular, e o chiado do ferro a vapor harmonizava com a chuva rebatendo sobre o telhado de zinco.
Nami checava roteiros, confirmava a agência que fornecia as modelos e se assegurava de que a locadora de furgões cumpriria o horário para a retirada de todo o material.
Ela estivera ansiosa a semana inteira, como de hábito, pensou... mas hoje... bem, o dia anterior à noite da premiação, em especial, significava sangue, suor e lágrimas.
- Há um entregador na porta da frente - Nami retraiu o semblante.
- Entregador ? - todas as entregas já tinham sido concluídas.
A assistente de Vivi foi até a porta e voltou com um generoso buquê de botões de rosas-champanhe. Teria sido Bell-mère ?
Nami retirou o cartão que acompanhava e leu: Luffy. Não havia engano no nome escrito com letra masculina... seguida de uma mensagem personalizada: "Boa sorte".
- Uau ! Lindas. Quem mandou ? - perguntou Vivi, curiosa.
Pensando rapidamente, Nami colocou o cartão no bolso e esboçou um sorriso.
- Votos de boa sorte para a noite de amanhã.
Ela foi à pequena kitchenette e retirou um vaso do armário de cozinha.
Era um gesto de gentileza... caso este simples ato fosse o objetivo dele. De qualquer modo, duvidava que qualquer coisa que partisse de Luffy pudesse ser simples.
Havia pouco tempo até mesmo para pensar quando o sábado amanheceu e a equipe da Arabelle entrou em ação com os preparativos da grande noite de premiação.
Uma hora antes da primeira modelo entrar na passarela, os camarins nos bastidores excediam sua capacidade com cabides de roupas, designers ansiosos, costureiras preocupadas, assistentes de cabeleireiros e maquiadores quase histéricos em frente de espelhos inadequados. Quase não havia lugar para se movimentar no pequeno espaço, enquanto a música ambiente tocava no imenso salão de baile do hotel, com mais de mil convidados.
Organização e coordenação eram as exigências da noite. Cada designer tinha uma lista, detalhando cada categoria e a ordem de aparição das modelos.
- Me desculpe, eu estou atrasada.
Nami ouviu a voz, vagamente conhecida, voltou-se... e sentiu o coração despencar.
Boa Hancock era a modelo substituta ? "Oh, meu Deus", pensou Nami, enquanto tentava reprimir toda a sua frustração diante dos contratempos típicos de Boa Hancock.
- Estes sapatos não estão corretos. Este cinto... você está louca ?
A modelo também insistiu em usar os cabelos soltos.
- Definitivamente não para estas jóias falsas... me traga algo mais.
Várias designers pareciam murmurar cautelosamente, mas estavam visivelmente aborrecidas. Na plateia, tudo estava em ordem.
- Se ela fizer mais uma reclamação - ameaçou Vivi quando Boa Hanckck chegou à passarela - , uma única que seja, eu a devorarei para compensar o café da manhã que ainda não tomei.
- Com torrada de canela ou ovos mexidos ? - perguntou Nami, com indisfarçável cinismo.
- De preferência mergulhada em minha xícara de café.
- Expresso ou café com leite ? - Vivi fez uma careta.
- Você é uma provocadora, sabia ?
- Só mais uma hora e tudo estará terminado - lembrou ela.
Minutos depois, Vivi entregou braceletes e brincos à modelo, recebendo em troca um expressivo suspiro de resignação.
- Não até que a mulher gorda cante - assegurou Vivi quando Boa Hancock desapareceu para o palco.
Aplausos podiam ser ouvidos acima da música.
Enfileiradas, as modelos retornaram, efetuaram uma rápida mudança, se compondo para a próxima categoria. Roupas esportivas e a rigor.
Nami criara um vestido vermelho deslumbrante, com um delicado corpete pregueado, uma saia longa drapejada com uma fenda lateral que quase chegava aos quadris.
Com uma incrível ousadia, Boa Hancock pegou a peça e simplesmente disse:
- Pegarei este em vez do meu cachê.
- É um modelo original e faz parte da coleção.
- E essa é precisamente a razão para que eu fique com ele.
- Impossível. Não pode ser permutado - Vivi deu um passo à frente e baixou o zíper escondido - Este vestido será usado no desfile da próxima estação.
Boa Hancock ofereceu seu olhar de superioridade.
- Faça outro igual.
Respirando fundo e contando até dez, Nami disse calmamente:
- Então não vai mais ser um original.
- É uma pena.
Vestidos para noivas seria a última categoria a ser apresentada. A Arabelle optou pelo tradicional, corpete revestido em fina renda, um decote delicado e, atrás, botões forrados da nuca à cintura. Uma longa saia em camadas de seda com detalhes em renda tinha toda a leveza de movimentos como num sonho a cada passo que a modelo dava.
Ao final do desfile, todos aguardavam o resultado... emoção e tensão tomavam conta dos estilistas reunidos, esperando ansiosos para saber em que categoria cada um deles seria vencedor.
Enquanto isso, as modelos estavam em suspense, prontas para vestir a roupa que fosse premiada.
Aquele era o momento mais aguardado por todos, e os organizadores criavam um clima de suspense e excitação enquanto o resultado era apurado.
Então as categorias vencedoras foram anunciadas... na ordem de apresentação, e cada modelo reapareceu no palco na companhia do estilista para o recebimento dos aplausos vibrantes.
O suspense estava no ar e Nami apertou a mão de Vivi quando a categoria de vestidos a rigor foi anunciada.
A Arabelle ganhou com o vestido vermelho.
E a Arabelle ganhou também na categoria vestido de noiva.
Foi um momento incrível quando Nami e Vivi subiram no palco e ficaram juntas, enquanto Boa Hancock desfilava na passarela.
A apresentação, um pequeno discurso. Glória, alegria, nervosismo e alívio.
Chegada a hora das congratulações, as câmeras dos fotógrafos disparavam sem parar, registrando tudo.
- Querida, estou muito orgulhosa de você - disse Bell-mère, envolvendo-a num forte abraço. Foram tantos os abraços que se seguiram que Nami achou que sua cabeça iria explodir.
- Parabéns.
A voz masculina era conhecida e ela sentiu o coração disparar quando virou-se vagarosamente para encontrar o olhar fixo de Luffy.
A presença dele era inesperada. O evento daquela noite não era o tipo que um homem pensaria em assistir sozinho em circunstâncias normais.
Diversas perguntas impregnaram sua mente.
Estaria ele esperando por Boa Hancock ? Talvez para irem a uma boate ?
Ou teria uma outra acompanhante ?
Companhias femininas não lhe faltavam, isso era óbvio.
"Oh, pelo amor de Deus... pare com isso ! E daí se ele estiver com mais alguém ? Como se você se importasse !"
- Obrigada.
Ele emanava seu vigor masculino e um elevado grau de sensualidade. Era uma combinação letal e comprometia a paz de espírito de qualquer mulher.
Debaixo daquela fachada sofisticada, havia o coração e a alma próprios de um guerreiro moderno. Insensível, cheio de atitude e poder. Somente uma tola ousaria brincar com ele.
Era fácil ver porque as mulheres caíam aos seus pés.
Fascinante, as expectativas iniciais da conquista... e o conhecimento instintivo de que ele sabia precisamente como tocar, com suas mãos, sua boca, para presentear o último prazer. E tomar isso para si próprio. Chama e ardor, exultante no seu auge. Mas depois... o que restava ?
- Você já terminou ? - a voz quase inaudível tinha uma leve provocação e Nami se perguntou por quanto tempo tinha ficado ali, apenas olhando para ele.
"Por favor, Deus, certamente foram apenas alguns segundos".
Ela sentiu seu rosto em chamas enquanto lutava para manter a compostura, e viu o leve sorriso de Luffy um instante antes que ele pudesse inclinar a cabeça para pressionar sua boca contra a dela.
Os lábios dele eram quentes, e Nami sentiu a textura sensual da boca, que acariciou revelando um beijo que lhe tirou a respiração. Porque aquilo exigia mais, muito mais.
Tudo o que precisava fazer era provocar a língua de Luffy com a sua num convite silencioso.
Mas não fez isso. Não podia.
Um leve tremor, como um calafrio, alarmou seu corpo e ela rezou fervorosamente para que ele não tivesse percebido.
Nami não esperava o modo com que a boca máscula pressionou contra a sua no momento em que Luffy lhe segurou o rosto nas mãos e aprofundou o beijo.
Aquilo lhe aguçou os sentidos, evidenciando as batidas descompassadas de seu coração quando se sentiu perdida num mar de sensações tão intensas, onde havia somente o homem diante de si e tudo o que ele lhe despertava.
Mas o pior era sua própria resposta espontânea... algo que a surpreendia e a arrasava, uma vez que nenhum homem, nem mesmo seu ex-noivo, conseguira tocar tão fundo em suas emoções.
Quase como se soubesse disso, Luffy afastou-se um pouco até erguer a cabeça.
Por um momento, Nami pôde apenas fitá-lo com olhos arregalados e profundamente escuros quando percebeu algo na expressão dele que foi incapaz de decifrar.
Então tudo terminou quando Luffy a libertou, e ela tentou corajosamente convencer a si mesma de que aquilo não tinha nenhum significado especial. Nada mais do que um beijo, quando abraços e beijos de felicitação estavam sendo distribuídos em abundância.
E sabia que enganava a si mesma.
O beijo dele mexeu com as emoções num lugar que Nami havia trancado a porta e jogado a chave fora.
Um som abafado lhe escapou, e por um momento, não pôde tirar seus olhos dos dele.
"Por favor", orientava uma voz em seu íntimo. "Eu não quero isso".
Não havia nada que pudesse ler naquele olhar impenetrável, então esboçou um leve sorriso quando sua atenção foi voltada para outro congratulador e Luffy desapareceu de sua vista.
Por que ele a beijara daquele jeito ? Só para impressioná-la ?
Ou estava apenas fazendo um jogo, para despertar ciúme em Boa Hancock ?
Tal pensamento provocou uma onda de raiva e criou nela uma sensação de profundo ressentimento. Jamais se permitiria ser manipulada por qualquer homem... especialmente Monkey D. Luffy !
E mais, teria coragem de dizer isso a ele.
A vitória da Arabelle rendeu um convite para apresentação em um evento com o propósito de levantar fundos para a caridade, pedidos para expor sua coleção de verão e muitas reuniões para os próximos meses.
- Vou aos bastidores ajudar as garotas no carregamento do furgão com nossas peças - disse Vivi calmamente, e Nami inclinou a cabeça.
- Irei com você.
As modelos já tinham trocado de roupa e a maioria havia partido, junto com as equipes de cabeleireiros e maquiadores.
Reinava um clima de muita descontração no ambiente, e se houve decepção por parte de algum estilista que não ganhara nenhum prêmio, não era demonstrada.
As assistentes de Nami e Vivi mantinham tudo sob controle. Sapatos, acessórios, bijuterias... eram todos individualmente embalados, e os vestidos eram postos em sacos plásticos para serem conduzidos até o estúdio de Nami.
- Uma palavrinha antes que eu vá embora.
Nami ajustou um sorriso na boca quando se virou para Boa Hancock.
- Obrigada pela participação - reiterou ela, e os ombros da modelo se ergueram num gesto descontente.
- É o meu trabalho - aquele não seria o propósito da conversa se o olhar venenoso da modelo não portasse algum indício contrário - Fique longe de Luffy.
O olhar dela era notavelmente firme.
- Eu nunca me aproximei dele.
Se um olhar matasse, Nami teria caído ali mesmo. Com um movimento elegante, Boa Hancock se dirigiu à saída e rapidamente desapareceu.
Não era segredo que a modelo morria de amores pelo magnata grego. Assim como muitas socialites da cidade. Exceto Nami Roussel... a única jovem da qual Boa Hancock não teria nada a temer. A ironia daquilo a fez sorrir com uma ácida satisfação.
- Terminamos - Vivi levantou a mão espalmada e Nami bateu nela no meio do ar - Agora vamos festejar !
Ela sugeriu um bar bem próximo dali, cruzou os braços com Nami e se dirigiram para a saída.
- Bell-mère estará lá, é claro - Vivi fez uma pausa - E Luffy.
O coração de Nami deu um salto repentino.
- Por que Luffy ?
- Porque ele a beijou como um homem determinado a ter mais de você. Por acaso, ele estava conversando com sua mãe, quando então lhe estendi o convite. E já é tempo de você começar a namorar novamente.
- Você se encarregou de arrumar a minha vida ?
- Só por esta noite - sustentou sua amiga e sócia com um sorriso malicioso - O que vier a seguir não será da minha conta.
- Nada, absolutamente nada vai acontecer.
- Veremos.
Nami a olhou com seriedade.
- Não estou interessada.
- Mas está.
- Acho que tudo não passa de um desafio - a voz de Nami era bem-humorada - Beijar a donzela de gelo e ver se consegue derretê-la.
- E você derreteu ?
"Totalmente". Não que fosse admitir isso a alguém.
- Ele tem prática.
- Sem nenhuma reação de friozinho na barriga ou sensação de estar fora do planeta ?
Nami deu de ombros.
- Realmente não.
A equipe da Arabelle já estava acomodada quando Nami e Vivi chegaram ao moderno bar, onde havia champanhe no gelo e aperitivos espalhados sobre a mesa.
Luffy se levantou, indicando um lugar ao seu lado, e antes que Nami pudesse recusar, Vivi ocupou a cadeira oposta, não lhe restando outra opção.
A noite era regada a brindes de champanhe e muitas risadas descontraídas... e ela sentiu um desconforto quando Luffy tocou a taça na sua. Os olhos dele eram negros, indecifráveis, e ela de repente perdeu o fôlego.
Ele estava sentado muito próximo, as coxas somente a alguns centímetros das suas, e Nami estava mais do que nunca convencida do poder de sua masculinidade. Uma confusão de sentimentos lhe tomava, provocando e amedrontando pela possibilidade de abrir o coração vulnerável para um homem que poderia destruí-la.
Seria muito mais prudente evitar um relacionamento com qualquer homem... especialmente com Monkey D. Luffy.
À meia-noite, as garotas se prepararam para encerrar a noite e, juntas, desapareceram na calçada depois de beijos e abraços de despedida.
- Eu a levarei para casa de carro.
Nami olhou fixamente para ele e meneou a cabeça.
- Eu tomarei um táxi.
- Não. De forma alguma.
Era um delírio ou todos de repente tinham se dissipado com discreta velocidade ? Até mesmo Bell-mère...
- Não seja ridículo - Luffy tomou-a pela mão.
- Meu carro está estacionado aqui perto.
- Você é sempre tão autoritário ?
- Vamos andando. Eu dei minha palavra à sua mãe de que a deixaria ilesa em sua casa.
Quando Nami se deu conta, já estava sentada num veículo luxuoso antes de ter tempo para raciocinar sobre sua conduta. O resultado de um pouco a mais de champanhe, ou manipulação astuciosa ?
A música soava através do aparelho de som do carro e ela reclinou contra o apoiador de cabeça do assento e fechou os olhos, enquanto pensava na noite... as roupas, as modelos, o julgamento, a vitória.
E no beijo de Luffy.
"Uau !" Foi a palavra que veio à sua mente.
Que tipo de amante ele seria ?
Não que ela pretendesse descobrir. Seu sexto sentido a alertava de que nunca sobreviveria com suas emoções intactas.
Além do mais, como poderia se esquecer da horrível ameaça de Rob Lucci depois de cancelar o casamento na última hora ?
"Eu a matarei se você se envolver com outro homem".
Por dois anos, Nami não quisera a menor aproximação com os homens.
Assegurou-se de que nada havia mudado. No entanto, sabia que era mentira. E não sabia o que fazer sobre isso.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.
