Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Helen Bianchin, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 3
- Acorde, dorminhoca.
Quando o carro parou sob o toldo iluminado junto à entrada do de seu prédio, Nami virou a cabeça e olhou para as feições fortes de Luffy.
- Eu não estava dormindo.
Os dentes alvos brilharam quando ele sorriu.
- Pensamentos agradáveis ?
- Obrigada - disse ela ao destravar o cinto de segurança e estender a mão para o trinco da porta.
- Não por isso.
Ela não pôde se mover quando Luffy lhe segurou o rosto e inclinou-se para um breve e provocante beijo.
Então, soltou-a e Nami, numa rapidez que lhe era incomum, desceu do carro, caso contrário, seria tentada a passar os braços em volta do pescoço dele e se aninhar naqueles braços fortes quando devolvesse a saudação.
E isso nunca aconteceria.
Ele esperou que ela entrasse no elevador, para só então dar a partida e dirigir o Bentley GT ao longo da rua.
Tinha sido uma noite maravilhosa, pensou Nami quando entrou no seu apartamento. Uma celebração extraordinária. Ser vencedora a deixara fora de órbita.
Amanhã... hoje, corrigiu mentalmente, era domingo e não havia necessidade de ajustar o despertador para alguma hora antes do amanhecer.
Uma xícara de café seguida de uma ducha quente ajudou um pouco, assim como também algo para comer, e finalmente um analgésico e mais café quente e forte.
O apartamento tinha representado apenas um local para dormir por mais de uma semana antes da noite da premiação, e Nami recolheu as roupas, ligou a máquina de lavar e se dedicou às tarefas mais essenciais da casa antes de vestir seu jeans caseiro e se dirigir para o estúdio.
Os raios de Sol a aqueciam enquanto caminhava pela calçada, obrigando-a ao uso dos óculos escuros para se proteger da claridade do meio-dia.
Os cafés estavam lotados com a multidão domingueira sentada nas mesinhas sobre a calçada, e os motoristas dirigiam pelas ruas de frente para o mar à procura de vagas.
Uma leve brisa que vinha do mar soprava sobre os inúmeros guarda-sóis que se espalhavam na areia da praia.
Por tudo isso, o fim de semana estava convidativo para um relaxamento total, pessoas se estendiam na areia durante todo o dia para ganhar um bronzeado, se refrescavam na água, vagando entre os diversos cafés.
Aromas diversos se espalhavam pelo ar, uma tentação com a promessa de um almoço tardio assim que ela colocasse alguma ordem em seu estúdio.
Nami destrancou a porta, deixou de lado a sua bolsa e o celular, e começou a trabalhar, organizando e limpando a bagunça generalizada.
Era necessário que atualizasse a sua agenda de compromissos, checar datas e transcrever os números de seus contatos.
Em seguida, ela fez um exame detalhado nas roupas que haviam deslumbrado a platéia na passarela da noite anterior.
Algumas precisavam de limpeza, outras deviam ser separadas para lavagem a seco, e era preciso examinar todas as bainhas no caso de minúsculos estragos.
De modo geral, as modelos eram cuidadosas, mas na pressa das rápidas trocas de uma peça para outra era possível que uma unha prendesse em uma costura, desalinhando uma bainha.
Eram tarefas que demandavam algum tempo, e ela deu um suspiro de alívio ao ver que somente dois vestidos precisavam de reparos mínimos.
Nami se dirigiu à geladeira, pegou uma garrafa de água mineral e tomou diversos goles longos, quase terminando com todo o seu conteúdo.
Por um momento, reviveu a noite anterior, visualizando cada vestido em cada categoria... até que de repente mudou o semblante.
O vestido vermelho do desfile não estava entre as peças devolvidas para o estúdio. Ela sentiu um aperto no peito. Queria estar errada... mas tinha absoluta certeza de que não estava.
Boa Hancock. Só podia ter sido ela.
O que Nami pretendia era ligar para a modelo e amaldiçoá-la. Não tinha outro recurso senão entrar em contato com a agência de Boa Hancock, explicar, pedir a devolução do vestido e oferecer outro em troca.
Naquele momento, o seu celular tocou. Ela atendeu com seu habitual cumprimento cortês... e recebeu o silêncio de volta.
Conferiu o nível da bateria, viu que tinha carga suficiente e ouviu a chamada ser desligada.
Dentro de alguns minutos, o celular tocou novamente, com o mesmo resultado, e quando ela checou a função "Chamadas Recebidas" viu que estava registrada uma ligação privativa, negando acesso ao número de origem.
Que estranho ! A menos que o celular do interlocutor estivesse fora de área.
Nami ligou para a agência de modelos e foi atendida pela secretária eletrônica.
Era domingo... o que esperava ?
Ela praguejou baixinho. Derrotada e zangada, não lhe restava outra opção exceto trancar o estúdio, almoçar e voltar para o apartamento.
Ela escolheu um dos cafés, fez o pedido e pegou o jornal que a casa gentilmente oferecia aos clientes.
O garçom trouxe um chá com leite, e ela não teve tempo de completar mais do que o primeiro gole quando o celular tocou.
- Eu deveria preveni-lo de que você é frígida ?
A chamada foi desligada antes que Nami tivesse chance de responder. Ela fechou os olhos, depois os abriu novamente num esforço para controlar a raiva que a dominou.
Lucci ? Surgindo de repente depois de quase dois anos ?
Um tremor gelado percorreu seu corpo frágil. Por quê ? E por que logo agora ! A menos que...
Não, não era possível que alguma coisa que ela tivesse feito ou dito houvesse despertado a fera escondida sob o charme superficial do seu ex-noivo. Voltou a pensar nas palavras dele. Então, de repente, entendeu.
Os fotógrafos presentes na premiação. Certamente um deles havia capturado com sua câmara o momento em que Luffy a beijara.
Nami folheou as páginas do jornal até a seção da coluna social e rapidamente vasculhou todas as fotos, até que se deteve em uma delas e sentiu a respiração parar na garganta.
Se a foto não fosse tão explícita, a legenda impressa certamente o era, especulando que Monkey D. Luffy e Nami Roussel formavam um casal, uma vez que tinham sido visto juntos diversas vezes nas últimas semanas.
Que droga ! A boataria absoluta da mídia. Eles teriam percebido o que haviam feito ? Um casal ? Juntos ?
Sua vontade era cerrar o punho e socar alguma coisa. Ou alguém !
Poderia exigir uma retratação ?
Claro, assim como elefantes podiam voar ! O editor do jornal acabaria morrendo de rir. Ele não teria consciência do efeito que aquela mera foto, legenda e texto teriam em sua vida, ou nenhuma idéia de que seu ex-noivo era um camaleão dotado de uma raiva extrema.
Um garçom lhe trouxe a refeição e ela olhou para a salada César, depois se esforçou para comer algumas garfadas antes de empurrar o prato definitivamente para o lado, uma vez que tinha perdido todo o apetite.
Nami pagou a conta e caminhou em direção ao seu apartamento. O desconforto a atormentava terrivelmente, e foi só quando se viu segura dentro de casa que a tensão começou a ceder um pouco.
A luz de alerta do aparelho telefônico piscava, sinalizando que recebera alguma chamada.
Uma mensagem de Bell-mère, uma de Vivi, algumas ligações para lhe dar os parabéns, e finalmente a voz de Rob Lucci.
- Estou de olho em você.
A raiva se mesclou ao medo autêntico, e ela pegou o cartão de Luffy e digitou o número de seu celular. Luffy atendeu ao terceiro toque.
- Nami.
- Você tem alguma idéia dos problemas que a foto no jornal e os decorrentes boatos me causaram ?
A voz dele era controlada e fria.
- O pior é que as notícias se alastram rapidamente. Estarei aí em dez minutos.
- Você não pode...
- Dez minutos, Nami.
A chamada foi desligada e ela tornou a discar, ouviu o telefone tocar e ir direto para a caixa postal. Praguejou de modo nada delicado.
E se Luffy chegasse ao prédio de seu apartamento e Rob Lucci estivesse observando...
Sem pensar, ela pegou sua bolsa e as chaves, então tomou o elevador e desceu para o saguão.
Seus nervos estavam à flor da pele quando o Bentley GT de Luffy parou na entrada do edifício, e ela teve de, conscientemente, caminhar num passo normal ao seu encontro, quando na verdade sua mente, em total desequilíbrio, ordenava que corresse.
"Calma, é preciso manter a calma", disse a si mesma quando alcançou o carro, abriu a porta e se sentou ao lado de Luffy.
- Por favor. Nós podemos sair daqui ?
Luffy queria exigir uma resposta e o faria... em breve. Mas por enquanto, atendeu ao seu pedido e dirigiu o carro até chegar a Double Bay, e então desligou o motor.
- Vamos.
- Eu não quero...
- Vamos relaxar, vamos comer, e você poderá me contar o que a está preocupando.
Ela lhe deu um olhar cauteloso.
- Eu já almocei.
Ele deu a volta no carro e abriu a porta para ela.
- Talvez possa ficar tentada a provar ao menos a entrada.
Minutos depois, eles entraram num restaurante charmoso onde o maître cumprimentou Luffy com deferência especial, conduziu-os até a mesa e lhes ofereceu a carta de vinhos.
Nami recusou o vinho e pediu água gelada e Luffy a acompanhou antes de examinar o menu e fazer o pedido para ambos.
O maître se retirou e Luffy a olhou cuidadosamente, notando a pulsação acelerada na base do pescoço dela e a ansiedade quase não controlada que emanava daquele corpo delgado.
- A foto no jornal de hoje - sugeriu ele como tema de conversa.
Por onde ela começaria ? E o quanto explicaria ? O suficiente para fazê-lo entender.
- Meu ex-noivo fez certas... ameaças quando eu cancelei o casamento.
- E você está preocupada porque a foto pode chamar a atenção dele ? - perguntou Luffy. Nami hesitou por uma fração de segundo e seus olhos estreitaram-se - Ou já chamou ?
- Sim.
- Problemas ? - quando ela deu um profundo suspiro e inclinou a cabeça, ele acrescentou: - De que tipo ?
- Por favor... apenas acredite na minha palavra.
- Você acha que corre perigo ? - ela não sabia se ria ou se chorava.
Ameaça por telefone significava perigo ? Embora por enquanto fossem apenas palavras, não deixavam de ser um aborrecimento.
Por outro lado, se Lucci continuasse, a resposta tinha de ser sim. Mas quem sabia ao certo ? Como ela podia julgar ? Que bem faria explicar que seu ex-noivo era mentalmente desequilibrado ?
Isso não mudaria as coisas, pois a foto constituía um mal consumado.
O garçom chegou com o pedido e Nami brincou com a comida em seu prato, enquanto Luffy comia com deleite.
- Quero passar mais tempo com você.
O coração dela pareceu parar, então as batidas dispararam.
- Não acho que seja uma boa idéia.
- Por causa das ameaças de seu ex-noivo ?
Ela quis gritar, dizendo que ele jamais entenderia... apesar de desconfiar que Luffy sabia muito bem.
- Talvez eu tenha perdido toda a confiança nos homens.
- Você tem inteligência o suficiente para saber que nem todos os homens são iguais.
- Todos têm o mesmo objetivo.
- Sexo ? Há uma enorme diferença entre fazer sexo e fazer amor.
- É mesmo ?
Ele a fitou com intensidade.
- Um homem que ignora a hipótese de dar prazer a uma mulher enquanto procura seu próprio prazer com total indiferença faz sexo, não amor.
- Quem poderia duvidar de sua vasta experiência ?
A risada suave de Nami a desequilibrou de modo incomum, e por um momento ela visualizou como seria tê-lo como amante.
Semelhante ao nirvana emocional... com um só fim.
Aquilo não duraria, é claro. Como poderia durar ? Mas que incrível viagem seria !
- Eu tenho ingressos para uma peça de teatro, e depois um jantar na terça-feira. Gostaria que você me acompanhasse. Às seis e meia, podemos dizer ?
Luffy a estava convidando para sair ?
- Eu não acho...
- Às seis e meia - insistiu ele enquanto acenava, pedindo a conta.
A independência a fez pegar intuitivamente sua carteira, mas o ato teve uma recusa determinada na voz de Luffy.
Nami se sentou em silêncio ao seu lado enquanto ele conduzia o Bentley GT em direção a Bondi Beach.
Um encontro com Luffy ? Se Rob Lucci os visse juntos, aquilo apenas aumentaria sua raiva, e só Deus sabia que tipo de reação isso incitaria.
Ela precisava recusar. Não havia outra maneira, e disse isso quando ele parou o carro do lado de fora de seu prédio.
- Eu a encontrarei na cidade, se preferir - Luffy fez uma pequena pausa - E não aceitarei um não como resposta - ele disse o nome de um restaurante - Seis e meia - então se inclinou em direção a ela e tocou sua boca num breve roçar erótico, e depois ergueu a cabeça - Cuide-se.
Nami não conseguiu dormir facilmente e acordou na manhã seguinte com uma dor de cabeça que cedeu apenas com o uso de analgésicos, mas não desapareceu.
Em seu estúdio, cada toque do telefone deixava seus nervos em estado deplorável, e ao meio-dia ela já se sentia em frangalhos.
- O que está acontecendo ?
Ela levantou os olhos da agenda que estava consultando, encontrou o olhar preocupado de Vivi e forçou um sorriso triste.
- Dor de cabeça. Você sabe como é - Vivi lamentou com um gesto de cabeça.
- Conte.
- Estou falando sério. Muita excitação e pouco sono - a campainha da porta tocou e Vivi atendeu, recebendo outro tributo floral para juntar aos muitos que tinham sido entregues ao longo de toda a manhã.
- Para você.
Rosas creme e amarelas maravilhosas, com um cartão onde se lia a seguinte mensagem: "Até amanhã à noite. Luffy".
Elas eram bonitas e serviam perfeitamente para recordá-la de telefonar para ele ainda naquela noite e cancelar o compromisso marcado.
O telefone tocou.
Vivi atendeu e sussurrou para Nami:
- Da agência de Boa Hancock.
Levou poucos minutos, palavras firmes foram ditas e Nami antecipou o resultado.
- Problemas ? - Vivi perguntou à amiga.
- Boa Hancock informou à agência que o vestido foi um presente no lugar do seu cachê habitual.
- E ?
- É a palavra dela contra a nossa.
O que significava que aquele vestido teria de ser retirado da mostra da próxima estação e substituído por um outro de igual qualidade.
Chamadas telefônicas continuaram ao longo da tarde, entre elas, duas desligadas e uma de Luffy, que Nami se recusou a atender, causando um olhar intrigado em Vivi.
- Você está louca ? - perguntou sua sócia.
Naquele momento, ela não precisava de mais uma complicação, algo que um homem certamente traria para sua vida... em especial Monkey D. Luffy.
- Eu não quero me envolver, Vivi. O que mais preciso no momento é paz de espírito.
- Querida, ele é maravilhoso, um representante sexy do gênero masculino - ela fez uma careta - Para uma mulher, basta olhar para ele e se derreter por inteiro.
- Você acha ? - disse Nami, com um sorriso amargo.
- Você não acha ?
- Não - e sabia que estava mentindo.
Vivi também sabia, uma vez que conhecia bem sua sócia e amiga. Mas resolveu não insistir naquilo. Em vez disso, murmurou:
- Por mais insignificante que pareça, eu não acho que ele irá lhe dar muita escolha.
Impossível. Ela estava no controle. Poderia fazer suas próprias escolhas.
Mesmo enquanto reafirmava as palavras mentalmente, estas eram marcadas pela dúvida.
Monkey D. Luffy não tinha alcançado seus quase quarenta anos e adquirido um nível de sucesso tão excepcional sem usar seu poder de manipulação. Ele lidava com insensibilidade elementar, incorporando companhias e as reconstruindo.
O homem comandava um verdadeiro império.
E daí ?
Suas emoções tinham sido destruídas, e ela reconstruiria sua vida. Era auto-suficiente, forte. Uma sobrevivente.
Depois da fatalidade à véspera do seu casamento, fizera um juramento pessoal: que nunca mais confiaria em homem algum.
Então por que, em nome de Deus, estava agora fragilizada e cheia de dúvidas ?
Por causa da boca de um homem tocando a sua ? Mexendo com emoções enterradas, revivendo-as e fazendo com que ela ansiasse pelo impossível... não era justo. Nada daquilo era justo.
O expediente continuou movimentado, com telefonemas de clientes fazendo consultas, uma organização de caridade solicitando que a Arabelle conduzisse uma mostra... e outra ligação de Luffy, que Nami novamente se recusou a atender.
Foi um alívio quando reconheceu o número de Bell-mère e sorriu ao pegar o telefone.
- Querida, por que não vem jantar comigo esta noite ? Eu mesma cozinharei. Apenas para nós duas.
Elas conversariam, ririam um pouco, relaxariam e a comida seria divina.
- Eu adoraria. Às seis e meia ? Levarei o vinho.
O apartamento espaçoso de Bell-mère dava vista para Watson's Bay e Nami sentiu a tensão da semana anterior começar a ceder quando cumprimentou a mãe calorosamente.
Frango ao vinho, servido com legumes e uma torta deliciosa como sobremesa, e o acompanhamento de vinho tinto, seguido de café e licor.
Juntas, elas discutiram os compromissos sociais próximos e aqueles dignos de nota ocorridos nas semanas anteriores, tais como a premiação de design de moda.
Bell-mère era uma mulher astuta e uma mãe muito afetiva. Não mencionou o nome de Monkey D. Luffy, nem a foto divulgada no jornal de domingo.
- Eu imagino que você esteve extremamente ocupada - comentou Bell-mère - Tem dormindo bem ?
"Sutil, mamãe. Muito sutil".
- Eu estou bem - mentiu Nami.
Não estava bem. Como poderia estar, quando a sombra de Lucci insistia em pairar sobre ela ?
Era tarde da noite quando se despediram e o céu apresentava uma ameaça de chuva, que logo se tornou realidade enquanto ela atravessava a avenida principal em direção a Bondi Beach.
O tráfego era escasso e o movimento repetitivo do pára-brisa tinha um efeito vagamente hipnótico.
A música em ritmo lento ajudava, e o CD reproduzia a última faixa quando Nami estacionou o BMW na garagem subterrânea do edifício.
Tinha sido uma noite muito agradável, em companhia agradável, excelente comida e boa conversa.
Ela saiu do carro, fechou a porta, acionou o alarme para ativar a tranca do veículo e se dirigiu para o elevador.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 4.
