Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Helen Bianchin, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.


Capítulo 4

Não havia nada pior do que ser acordada no meio de um sono profundo, ao raiar da alvorada, pelo toque persistente de um celular, e Nami pegou o aparelho sob o criado-mudo num movimento automático, apenas para atender e ser respondida pelo silêncio, seguido de intermináveis minutos que resultaram no distinto clique de desligado. Número errado ?

Uma hora mais tarde, o celular tocou de novo e ela foi recebida com o mesmo silêncio.

Duas chamadas desligadas não poderiam ser consideradas uma coincidência.

Mais uma vez, o número não podia ser identificado no visor do aparelho.

Era Lucci, com toda certeza.

Ela checou o horário, viu que era muito cedo e tentou voltar a dormir... sem sucesso.

Com um suspiro de irritação, saiu da cama, vestiu o roupão e se dirigiu à cozinha para fazer café. Foi só então que se recordou que não tinha ligado para Luffy para cancelar o encontro deles naquela noite.

"Vá ao encontro", disse a si mesma. O comportamento de uma mulher fraca e medrosa seria um bom instrumento para as ameaças escusas de Rob Lucci. Uma decisão que ficou inclinada a mudar diversas vezes durante o dia.

Finalmente decidiu tomar uma ducha quente e vestir um terninho elegante. Então pegou o carro e dirigiu até a cidade.

Luffy a cumprimentou no restaurante, surpreendendo-a ao tocar seus lábios com os dele.

- Belíssima.

O elogio lhe agradou profundamente e Nami retribuiu com um sorriso tentador quando o maître se aproximou para indicar a mesa.

Então eles conversariam um pouco, degustariam um bom vinho, comeriam, assistiriam à peça de teatro... depois ela entraria no seu carro e voltaria para casa.

Quão difícil isso poderia ser ?

Com isso em mente, Nami começou a relaxar e apreciar a companhia de Luffy, que tinha a habilidade de fazer uma mulher se sentir à vontade... ou percebia seu conflito interior e apenas procurava facilitar as coisas ?

Ela se recusou a analisar a razão. Mais tarde, talvez, quando estivesse sozinha. Mas agora estava feliz em aproveitar o momento.

Um garçom anotou os pedidos e Luffy manteve uma conversa leve, ciente de que, se pressionasse um pouco mais, Nami se retrairia, e qualquer progresso que pudesse ter feito até o momento seria perdido.

A comida chegou e eles começaram a comer.

- Você passou algum tempo no exterior. França e Itália, se não me engano - ele percebeu a expressão dela se iluminando - Somente com propósito de estudo ?

- Exatamente, e de maneira bem intensa - ela sorriu, refletindo - A personalidade forte dos estilistas europeus é lendária - uma risada escapou de seus lábios - Mas conseguimos arrumar algum tempo para nos divertir, explorar um pouco. Eu aprendi muito.

Paris... a capital do mundo, exótica e eclética, as mulheres jovens ou idosas com seus inerentes sensos de estética. Milão... a cidade, as pessoas. Sua estada na Toscana... quem poderia esquecer ?

Foram dias alegres e despreocupados, uma época em que tinha confiado livremente e sido feliz.

- Como estudantes, compartilhamos acomodação e comida - continuou Nami, inconsciente de como seus olhos brilhavam diante da lembrança - Todos os fins de semana, nós alugávamos um carro e explorávamos a região campestre, comprávamos comida e fazíamos piquenique.

Luffy sentiu um impulso protetor em relação à jovem cheia de amor pela vida que ela fora um dia.

Sentiu também um forte desejo de lhe devolver tudo aquilo.

E poderia fazer isso, assim que Nami aprendesse a confiar nele.

Desejava-a em sua cama, em sua vida, como sua esposa.

Porém, se a pedisse em casamento naquele momento, ela fugiria imediatamente.

Habituado a seu mundo de negócios, sabia que decisões rápidas e frias constituíam a norma.

Mas estava diante de uma situação diferente... pessoal.

O teatro ficava perto. Eles foram caminhando, e o espetáculo provou ser um excelente entretenimento, com muito equilíbrio e emoção, figurino fabuloso e diálogos inteligentes.

Nami gostou da noite e disse isso aos produtores logo que se juntaram a eles.

Tinha perfeita consciência da mão de Luffy rodeando sua cintura e de sua íntima proximidade.

- Onde você estacionou ?

Ele a ajudou a entrar no carro e se aproximou, inclinando-se.

- Vamos parar em Double Bay para um café e depois seguirei seu carro até sua casa - ele disse o nome de um café popular e então lhe acariciou o rosto - Eu estarei bem atrás de você.

Nami se perguntou por que não insistira em ir diretamente para o seu apartamento. Porque, no fundo, não queria que a noite terminasse.

Só por um momento, ele a fez considerar o inatingível.

Isso era algo ruim ?

Ela optou por chá enquanto Luffy pediu café e, durante todo o tempo, Nami sentia que eles pareciam compartilhar algo muito especial.

Tal sensação era tão diferente que a chocou um pouco. Estar tão sintonizada com um homem, especialmente do calibre de Luffy, não era algo em que se imaginava, e tinha dificuldade em aceitar que o interesse dele era genuíno. E se fosse, onde aquilo poderia levar ?

Era quase meia-noite quando eles deixaram o café e chegaram ao carro dela. Luffy segurou-lhe o rosto e capturou em sua boca um beijo tão ardente que apagou todo pensamento racional que Nami pudesse ter.

Quanto tempo aquele beijo durou ? Segundos, minutos ? Ela não tinha idéia.

Tudo o que sabia era que desejava que nunca terminasse.

Luffy mordiscou-lhe carinhosamente o lábio inferior antes de soltá-la. A ânsia por tocá-la, fazer amor com ela, o estava enlouquecendo, e foi necessária muita força de vontade para deixá-la ao volante do carro.

- Eu a verei no coquetel, amanhã à noite.

Ela assentiu com um gesto de cabeça enquanto ligava o carro e partia.

As ruas estavam relativamente calmas e Nami se sentia segura com o Bentley GT de Luffy seguindo-a em direção a Bondi Beach.

Ela se deteve por um minuto quando chegou ao prédio e piscou os faróis para ele em sinal de agradecimento. Então, usando o cartão de segurança, abriu e entrou na garagem subterrânea, estacionando o BMW em sua vaga privativa.

Duas lâmpadas de néon separadas estavam queimadas, o que era incomum. Uma, talvez... mas duas ? E podia jurar que ambas estavam acesas poucas horas antes, quando tinha saído.

Um leve ruído a fez tremer num alarme instintivo.

No momento seguinte, mãos fortes se fecharam sobre seus ombros, enquanto era empurrada para os fundos da garagem.

- Vadia !

Um punho golpeou uma de suas faces antes que tivesse alguma chance de recuperar o equilíbrio. Rob Lucci... aqui ?

Um olhar no rosto dele revelou que estava alcoolizado ou drogado, ou ambas as coisas.

"Não tire os olhos dele, não pense..."

A dor pulsava na face golpeada, e Nami ignorou enquanto esperava, atenta, o próximo movimento dele.

Carregava uma pequena lata de spray de pimenta em sua bolsa e um alarme pessoal pendurado em seu chaveiro. Além disso, usava um par de sapatos com saltos homicidas. Todos eles eram armas práticas...

- Ouça-me com muita atenção, vadia...

Não permitindo que ele dissesse mais nada, Nami percebeu o instante em que Lucci pretendia golpeá-la mais uma vez, e usou o momento seguinte para jogá-lo no chão de concreto. O salto de seu sapato fincado na mão dele o fez gritar de dor e rolar para longe.

Enquanto ele praguejava enfurecido, ela aproveitou a incapacidade momentânea de Lucci para retirar o spray de pimenta da bolsa e percorreu os poucos metros até o elevador. O ódio que sentia era maior do que o medo quando apertou o botão. "Por favor, não deixe que esteja parado num andar alto".

Felizmente as portas se abriram em segundos e Nami entrou, inseriu sua chave de segurança no leitor e digitou o código de seu andar.

Somente depois de entrar no apartamento, trancar a porta e ligar o alarme, seu corpo reagiu.

Suas mãos começaram a tremer, e algumas partes de seu corpo sentiram a dor.

Graças a Deus ela estava a salvo.

Um longo banho quente ajudou. O hábito fez com que completasse sua rotina noturna. Depois, se deitou, diminuiu as luzes e ligou a televisão na esperança de que algum filme ocupasse sua atenção.

Devia ter adormecido profundamente, pois, quando acordou, o Sol da manhã já se infiltrava pelas fendas da persiana de seu quarto. Checou a hora, saltou da cama, sentindo todos os músculos do corpo doloridos.


Vestiu roupas confortáveis, tomou o café da manhã e pegou o elevador para a garagem subterrânea, ciente de sua tensão quando caminhou até o carro. Tolice, pois era manhã, o Sol brilhava, a garagem era bem iluminada, e o bom senso dizia que Lucci já havia ido embora há tempos.

O dia passou dentro dos moldes habituais e duas vezes durante a manhã, ela pegou o telefone e digitou o número de Bell-mère, mas desligou antes que a chamada fosse completada.

O pensamento de comparecer a um coquetel naquela noite não tinha o menor atrativo.

Não queria ir, não queria aparecer em público naquela noite. Os últimos dias tinham sido exaustivos, e ainda estava tentando entender o súbito reaparecimento de Lucci na sua vida.

Um ataque verbal como vinha acontecendo, ela podia agüentar, mas violência física era algo bem diferente.

As palavras de Lucci ecoavam repetidamente em suas lembranças. "Fique longe de seu amante".

Porém, cada passo que dava, cada evento social em que comparecia incluía a presença de Luffy. Evitá-lo era quase impossível.

Por que sua vida se tornara tão complicada ? Poucas semanas atrás, tudo parecia tão normal. Passava longas horas no trabalho, apreciava algum tempo na companhia de amigas confiáveis e acompanhava Bell-mère em seus compromissos.

Mas isso tinha mudado, e para pior.

Agora tinha apenas meia hora para tomar banho, arrumar os cabelos, camuflar um machucado com ajuda da maquiagem e escolher uma roupa antes de se encontrar com Bell-mère no saguão térreo.

Decidiu-se por um elegante vestido de renda preto com mangas três-quartos, combinando com os sapatos de salto alto e cabelos presos num coque simples no topo da cabeça.


Nami entrou no Lexus de Bell-mère, estacionado diante do prédio. Cumprimentou-a com um beijo afetuoso, e, de alguma forma, conseguiu manter uma conversa inofensiva, inócua e leve durante o breve percurso para Rose Bay.

Mal podia controlar os nervos quando entrou com a mãe no suntuoso hall da mansão, com um sorriso disfarçado nos lábios enquanto cumprimentava rostos familiares.

Luffy estava de pé em uma animada conversa com um convidado, seu porte alto e largo instantaneamente reconhecível.

Quase como se sentisse sua presença, ele ergueu a cabeça e encontrou os olhos castanhos de Nami, prendendo-os.

Ela aceitou uma taça de champanhe de um garçom uniformizado e bebeu na esperança de que aquilo pudesse ajudá-la a se acalmar.

Em uma hora, alegaria uma dor de cabeça e chamaria um táxi.

Bell-mère expressaria preocupação, mas entenderia.

Nami se misturara aos convidados, fingindo estar aproveitando uma noite prazerosa.

Não era exatamente fácil quando os músculos faciais doíam e era difícil até mesmo sorrir.

Falta de sono, uso exagerado de analgésicos, adicionados a um dia conturbado passado no estúdio... e era de admirar que ainda estivesse de pé.

Champanhe, ela logo percebeu, não seria o mais adequado, e descartou seu cálice quase cheio, optando por água gelada.

- Nami.

A voz familiar acelerou as batidas de seu coração e ela se armou de um leve sorriso quando se direcionou para o homem de cabelos negros cuja presença tinha o poder de fragmentar seus nervos.

Luffy estreitou os olhos quando notou as feições pálidas de Nami, os olhos castanhos e a maquiagem mais pesada do que a habitual.

- Você está bem ? Oh, meu Deus.

- Muito bem.

Ele continuou a estudá-la.

- O que aconteceu ?

Estava evidente que algo havia acontecido. Se ela lhe contaria o quê, era outra questão.

- Não quero jogar com você - disse ela.

- Você acha que estamos em um jogo ?

- Não tenho lugar em sua vida.

- Sim, tem.

Nami sentiu o rosto empalidecer, seguido por um rubor quente.

Com um movimento deliberado, Luffy capturou a mão dela e entrelaçou os dedos nos seus.

O coração de Nami disparou imediatamente ao toque. Ela quis retirar a mão e quase o fez, não fosse o desejo por uma aproximação maior...

- Não - disse ela, e viu uma sobrancelha arqueando para uma expressão interrogativa.

- Segurar sua mão ?

Ela tentou livrá-la, mas fracassou completamente. Seus olhos estavam brilhantes... brilhantes demais, enquanto lutava contra a ameaça de lágrimas.

- Por favor, não faça isso.

Ele afrouxou o aperto, mas não a soltou.

- Você recebeu outra ameaça de seu ex-noivo.

Era uma afirmação, não uma pergunta, e Nami não podia sustentar o olhar dele.

- O que o faz pensar assim ?

- Eu diria que é um dom.

Ela nunca deveria ter ido lá naquela noite. Porém, era mais fácil comparecer do que inventar qualquer desculpa, pois tanto sua mãe quanto Luffy provavelmente não acreditariam.

- Você vai me contar o que está acontecendo ?

- Não.

- Você não tem de lidar com isso sozinha - Nami o olhou cuidadosamente.

- Aceitar ajuda somente vai piorar a situação. Acredite - a dor de cabeça que a vinha perturbando o dia inteiro parecia ter se agravado com o barulho e à sua própria tensão nervosa.

Ela percorreu a sala com uma sensação de desespero. Onde estava Bell-mère ?

- Sua mãe está numa conversa animada no canto da sala - a voz de Luffy possuía uma calma que ela não ousou examinar quando ele soltou sua mão. Sem olhar para trás, Nami foi em direção a Bell-mère.

A dor de cabeça que pretendera simular tinha se tornado uma realidade, e não houve necessidade de fingir quando transmitiu sua vontade de ir embora.

- Oh, querida - lamentou Bell-mère - Sinto muito por você. Quer que eu...

- Não - disse Nami rapidamente - Fique. Eu chamarei um táxi.

- Levarei você para casa.

Luffy tinha passos de um felino, e ela fechou os olhos, depois os reabriu.

- Não é necessário.

- Obrigada - murmurou Bell-mère, com charme inato - Quanta gentileza !

Nami tinha uma alternativa... a recusa, ou simplesmente partir em silêncio. Em consideração à mãe, aos anfitriões convidados, ela optou pela última alternativa. Assim que chegaram do lado de fora da casa, pegou seu celular.

O ar noturno era mais frio do que o normal, prenunciando o verão.

- O que você está fazendo ?

- Chamando um táxi.

- Não, não vai chamar.

- Deixe-me em paz.

Os olhos negros inflamaram diante da negativa de Nami, e naquele instante o tempo pareceu parar. Tudo ficou nublado quando ela se deu conta da sensação quase primitiva eletrificando o ar... e das batidas fortes de seu coração.

Como se fosse em câmera lenta, Luffy a puxou para si e tomou sua boca de maneira ardente.

O movimento atingiu seu rosto machucado e um protesto de dor surgiu e morreu em sua garganta.

Então não havia mais nada além do homem, sua força e seu gosto maravilhoso... a boca habilidosa que fazia promessas nada inocentes.

Quanto tempo teria durado ? Segundos ? Minutos ?

Nami se sentiu emocionalmente fundida quando ele a soltou, e por alguns segundos perigosos, pensou que poderia se despedaçar quando lutou por alguma compostura.

Luffy desativou o alarme do carro e deu alguns passos para onde o Bentley estava estacionado, abriu a porta do passageiro e ficou de lado.

- Entre, Nami - ela não se moveu.

- Você ainda não compreendeu que eu não quero ir ?

- Não há nada que você precise temer vindo de mim - a voz dele era calma, na verdade, calma demais. Quase como se soubesse...

Ele não podia saber. Ninguém podia, exceto Bell-mère.

- Prefiro pegar um táxi.

Luffy não disse uma palavra, e depois de alguns poucos instantes, relutantemente ela deu os passos necessários até o carro dele.

Quanto tempo levaria para chegar ao seu apartamento em Bondi Beach ? Era longe demais... pensou ela, quando Luffy se sentou ao volante e deu a partida.

Os lábios de Nami doíam pela pressão dos lábios másculos, e ainda podia sentir o gosto dele. Seu queixo doía, assim como uma das faces. Uma onda de fragilidade a dominou e, por alguma estranha razão, sentiu-se próxima das lágrimas.

"Não", ela se repreendeu em silêncio. Uma única lágrima que escapasse seria a humilhação final.

"Tenha pensamentos felizes. Dias ensolarados, céus sem nuvens, jardins forrados em rosas e a mudança de pétalas multicoloridas. Gatinhos dando cambalhota na grama... qualquer coisa que não suas lembranças amargas ou a presença do homem ao seu lado".

Parecia funcionar, de certa forma, combinado com o cenário além do pára-brisa, as luzes de néon, o tráfego, os minutos desaparecendo enquanto a distância encurtava até seu destino.

Luffy não disse uma palavra. Ela estava grata por isso, e deu um suspiro inaudível quando o Bentley parou diante do prédio.

Nami soltou o cinto de segurança e se movimentou para abrir o trinco da porta, agradecendo-o brevemente.

Tinha dado somente alguns passos quando ouviu a discreta batida de uma porta de carro, seguida pelo sinal de alarme acionado quando Luffy veio para se juntar a ela.

- Acompanharei você até o seu apartamento.

- Não - Nami queria que ele fosse embora, para entrar no elevador e saber, dentro de instantes, que estaria protegida dentro de seu santuário particular... e sozinha.

Digitou o código de segurança que liberava o portão de entrada e passou rapidamente para o saguão do prédio, mas não fora rápida o suficiente, porque logo ele estava ao seu lado.

O elevador era operado por uma chave de segurança, e Nami ficou parada diante da porta, imóvel.

Luffy ergueu uma das mãos e lhe tocou o rosto, estreitando os olhos ao perceber a lágrima que descia pela face.

- Por favor... vá embora.

Por um momento, Nami pensou que ele pretendesse ignorar-lhe o pedido, mas, em vez disso, ele gesticulou em direção ao elevador.

- Quando você estiver dentro, eu irei embora.

Ela hesitou, não tendo muita certeza de que ele cumpriria a promessa, depois apertou o botão e chamou o elevador.

Segundos depois, as portas se abriram e ela entrou.

Um medo momentâneo toldou seus olhos antes que as portas se fechassem, e ela o viu se afastando, e logo em seguida, escutou o ruído do Bentley que partia.

Nami entrou em seu apartamento e cruzou a espaçosa sala de estar até à cozinha. Todas as luzes já estavam acesas, uma precaução que tomava quando sabia que voltaria para casa depois de escurecer.

Uma xícara de chá, alguns analgésicos e a mudança de roupa para uma confortável camisola... na ordem inversa, quando resolveu se dirigir ao quarto.

Se por um lado era bom se livrar da maquiagem, não era tão bom ver o machucado escuro cobrindo uma de suas faces. Havia marcas vívidas em cada um dos braços. Nami também as havia camuflado, e escolheu uma blusa de mangas compridas para cobri-las.

Vestiu o roupão e voltou para a cozinha, ligou a chaleira elétrica, preparou uma caneca de chá e engoliu dois analgésicos com água.

Minutos depois, levou a caneca para a sala de estar e usou o controle remoto para ligar a televisão.

Era um alívio estar no sofá confortável cheio de almofadas, enquanto escolhia a melhor programação entre os canais.

Alguma coisa branca no assoalho lhe despertou a atenção bem ao pé da porta. Um envelope ? De quem ?

Ela atravessou a sala, verificou que o envelope tinha seu nome e endereço impressos e imaginou o motivo para ter sido empurrado por baixo da porta quando toda a correspondência era deixada na recepção do edifício.

Um simples pedaço de papel, pensou Nami quando tirou-o do envelope e o desdobrou. Continha uma frase: "Livre-se dele". Sem assinatura. Somente Lucci lhe enviaria um bilhete daquele tipo.

Um tremor involuntário sacudiu seu corpo delgado e diversas indagações invadiram seus pensamentos. A segurança do prédio era rígida, uma das principais razões pela qual ela comprara o apartamento. O fato de Lucci ser capaz de violá-la era uma preocupação.

Por dois anos, Nami não tivera nenhum envolvimento... ora, não estava namorando agora. Ou estava ?

Jantar na companhia de Luffy, passar algum tempo com ele em eventos sociais, ter ido para casa no carro dele... eles eram conhecidos, partilhando do mesmo círculo social e de amigos.

Portanto, o que significava um beijo ou dois ?

Significava que era mais do que isso.

Pior: uma parte sua queria que fosse muito mais.

Ousaria ignorar as ameaças de Rob Lucci e aceitar o que Luffy lhe oferecia, independente do que fosse ?

Pelo que podia entender, qualquer opção a conduziria ao sofrimento... seu sofrimento.

O chá na caneca esfriou enquanto olhava para a tela da televisão sem que realmente estivesse vendo nada, e, em determinado momento, desligou-a, tornou a checar pela segunda vez se a porta da frente estava trancada, depois jogou o chá na pia e foi para a cama.

O sono não chegou com facilidade e por duas vezes durante a noite, ela acordou de um pesadelo do qual não conseguia se lembrar com clareza, mas que a deixou tremendo, obrigando-a ligar o abajur sobre o criado-mudo e ler até que seus olhos começassem a pesar.

À beira do sono, a poderosa imagem de Monkey D. Luffy preenchia sua mente.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 5.