Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Helen Bianchin, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 5
Nami saiu cedo da cama e fez o café bem forte e quente, depois se sentou numa poltrona perto das amplas portas de vidro que davam para um pequeno terraço com vista para a baía.
Faria um lindo dia de início de verão, o Sol brilhando no mar calmo, e os amantes de praia já estavam caminhando na areia ao longo da orla. Em breve, guarda-sóis tomariam conta de cada espaço disponível na areia, e suas cores vibrantes causariam o belo efeito de um caleidoscópio.
Ela adorava o ar puro, a vista de seu apartamento de frente para a praia e a proximidade da esplanada, com suas mesinhas bem dispostas na calçada, sempre cheias e alvoroçadas.
Nami tinha meia hora para mudar de roupa e caminhar uma curta distância até o trabalho.
Criar um design para substituir o vestido vermelho não era uma tarefa fácil, pois deveria ser superior ao modelo premiado.
Ela desenhou esboços e descartou-os em seguida por diversas vezes, e no fim da manhã ainda não tinha o esboço do que pretendia para fazer justiça à cor e ao tecido escolhido.
Ao meio-dia, fez uma pausa para buscar seu laptop no apartamento.
Checou as mensagens de sua secretária eletrônica e viu que havia muitas gravadas... a maioria contendo longos silêncios seguidos pelo clique do "Desligar".
Persistente, patético... mas com o efeito pretendido pelo interlocutor anônimo, mesmo que anônimo não fosse o termo mais adequado.
Eram chamadas incômodas, sabiamente feitas a partir de um telefone público ou número privativo para garantir que não houvesse nenhum registro no identificador de chamadas. Só podiam ser de Rob Lucci.
Nami aceitaria repetir esta rotina, e lidaria com as ameaças de seu ex-noivo.
Poucos anos atrás, fora uma jovem despreocupada e feliz, planejando seu futuro ao lado de um homem que acreditara amar.
Porém, não passava de uma ilusão, como finalmente descobrira por si mesma.
Um leve arrepio percorreu sua coluna quando tomou o elevador para descer ao saguão. Qualquer pensamento envolvendo Lucci lhe causava uma terrível tensão.
A manhã tinha sido longa e conturbada e Nami parou num café para comprar um lanche e levar ao estúdio. Andara somente poucos metros ao longo da calçada quando teve o pressentimento de que estava sendo seguida.
Continuou andando, recusando-se a olhar para trás ou demonstrar que alguma coisa ou alguém a estava importunando.
Lucci ? Ela esperava fervorosamente que não.
A tensão na base do pescoço permanecia e houve uma sensação de alívio quando finalmente chegou ao estúdio.
Uma reviravolta aconteceu no período da tarde.
Doente, uma costureira voltou para casa. Uma máquina de costura quebrou. Nami praguejou com irritação, antes de chamar o técnico.
Estava cansada, e pior, apreensiva. Cada toque do telefone a assustava, e ela acabou fazendo com que Vivi atendesse todas as chamadas, escolhendo falar somente com seus contatos profissionais e com sua mãe.
Tudo o que mais queria era que o dia terminasse e lhe permitisse voltar para casa. Podia até mesmo visualizar um banho quente e uma bebida fria, de preferência com álcool para que pudesse acalmar seus nervos e relaxar seus músculos.
Agora, graças a Monkey D. Luffy, a mídia a deixara exposta ao falatório maledicente da sociedade local, e por conseqüência, trouxera Lucci de volta à sua vida.
"Estou de olho em você".
Ele teria esperado por ela do lado de fora do apartamento naquela manhã ? Teria seguido seu carro até o estúdio ? Pior, estaria sentado num carro estacionado nas redondezas, espreitando até que Nami estivesse voltando para casa no fim do dia ?
A hipótese de que ele pudesse estar planejando outro ataque era perturbadora.
Tinha todos os motivos para permanecer no estúdio, principalmente pelos esboços que precisava examinar, os ajustes que precisava fazer, e queria moldar e alfinetar um corte de chiffon de seda num manequim para estudar o melhor caimento.
Em vez disso, fechou o estúdio e seguiu Vivi e duas costureiras até a calçada... quando parou à vista de um Bentley GT prata estacionado na esquina, com Monkey D. Luffy recostado bem à vontade na porta do passageiro.
- Nami - a voz de Luffy era mansa. Seu terno de trabalho era impecável e modelava bem os ombros largos. Intensamente másculo, ele possuía uma aura de poder que o envolvia onde quer que estivesse.
E a boca... uma personificação do pecado, refletiu ela, recordando-se da sensualidade com que tocara a sua. Uma boca que poderia derreter qualquer mulher por dentro.
Por breves instantes, ele a fez esquecer quem era e onde estava, quando se viu transportada para um lugar onde não havia medo ou insegurança. Somente a promessa de paixão e o homem que podia lhe fornecer isso... se ela ousasse permitir.
Nami estava certa de que Vivi e as duas senhoras não estavam mais por perto.
- Olá - ela tentou demonstrar calma.
Luffy parecia relaxado, embora houvesse indício de uma longa espera e observação atenta.
Ele se aproximou até uma distância em que quase a podia tocar. Ela não o queria tão perto. Ele a perturbava demais.
Havia uma fileira de carros estacionados em ambos os lados da rua. Seria possível que Lucci estivesse sentado em um deles, observando... de olho nela...
- Pensei que pudéssemos jantar.
- Eu tenho outros planos - não era exatamente uma inverdade - Obrigada, mas...
Ele mudou sua expressão e estudou a palidez dela, a testa levemente franzida e os olhos castanhos.
- Não, obrigada ?
- Luffy...
- Seja mais generosa comigo.
Ela passou uma das mãos pelos cabelos alaranjados.
- Não posso.
- Precisa lavar a louça ? - ele parecia usar de deboche - Limpar seu apartamento ? Escrever para tia Jennifer ?
- Não tenho nenhuma tia Jennifer.
- Devo ficar aliviado ? - uma sobrancelha se ergueu interrogativamente e ela suspirou, irritada.
- Não seja ridículo.
Luffy observou as rápidas mudanças nas emoções que Nami teimava em esconder, ciente de que não era próximo o suficiente para insistir em obter qualquer explicação. Algo que pretendia corrigir muito em breve.
- Não levaremos mais do que meia hora - reiterou ele tranqüilamente.
Nami sabia que uma recusa seria mais adequada. Caso Lucci estivesse de vigília e a visse saindo com Monkey D. Luffy... talvez pudesse tomar aquilo como uma vitória a seu favor.
E daí ? Lucci cessaria e desistiria de espreitá-la ? Claro que não ! As chances eram nulas !
Havia uma alternativa muito simples... ir até a polícia.
Mas o que eles poderiam fazer, exceto aconselhá-la a prestar queixa se Lucci a perturbasse de novo ?
Por outro lado, ela não podia mais viver com medo. E estava com fome naquele momento.
- Tudo bem - concordou Nami.
Com diversos cafés a escolher ao longo de Campbell Parade, Luffy a conduziu para um bem agradável, optou por uma mesa no interior, examinou o menu e fez o pedido.
- Conte-me sobre o seu dia.
Nami saboreou o aroma do café e colocou uma pedrinha de açúcar em sua xícara.
- Você realmente não gostaria de saber.
Ele fez o mesmo com seu café, enquanto ela notava a firmeza das mãos másculas e o movimento preciso dos dedos quando ele desembrulhou o açúcar.
- É claro que quero.
Mãos bonitas, ela percebeu distraidamente. Adoraria senti-las em sua nuca, segurando o seu rosto.
"Pare agora mesmo", ela ordenou a si mesma.
Imaginar como o toque dele a afetaria era algo próximo da loucura.
Nami tomou um gole do café e olhou para ele cuidadosamente sobre a borda da xícara.
Luffy era realmente enigmático. Por baixo de sua aparência tranqüila habitava uma mente muito astuta e sagaz.
- Uma de nossas funcionárias adoeceu. Uma máquina de costura quebrou - ela deu de ombros - Muitas coisas para fazer em pouco tempo - pausou quase imperceptivelmente - Sua vez.
- O de costume. Uma longa reunião importante. Papeladas - nada com o qual ele não pudesse lidar com facilidade.
Um garçom levou dois pratos de risoto de champignon, espinafre, pinhão e uma farta quantidade de queijo parmesão ralado.
A refeição estava deliciosa e ela comeu com satisfação, mas atenta com a proximidade de Luffy e a cada suspiro que dava enquanto apreciava a maneira refinada com que ele levava a comida à boca.
Pensar na boca de Luffy quase a descompensou, e ela precisou de muita concentração para focar em qualquer outra coisa que não exclusivamente nele.
O que era difícil, quando estava sentada a uma distância tão insignificante.
Foi um alívio terminar de comer, e Nami rejeitou a sobremesa, preferindo mais café, enquanto começava a contagem regressiva dos minutos que restavam para ir embora. Pagaria sua parte na conta e ofereceria algumas palavras em agradecimento, o que evidentemente não aconteceu...
Luffy lhe deu um olhar de reprovação acompanhado de um tranqüilo "não" quando ela deixou algumas notas sobre a mesa.
O "obrigada" educado de Nami, quando saíram do café, recebeu em retorno uma inclinação de cabeça em reconhecimento.
Ela poderia se retirar e ir embora. Ele certamente não a impediria. Quase agiu assim, mas seus pés desobedeceram suas instruções.
- Preciso adiantar algumas tarefas - o que não deixava de ser verdade, além dela sentir falta da indispensável segurança que seu apartamento oferecia.
- Eu a levarei para casa.
- Não será necessário. Meu apartamento fica a apenas duas quadras daqui.
- Estou indo nessa direção.
- Você é sempre tão... - as palavras lhe escaparam.
- Determinado ? Sim, no que diz respeito a conseguir aquilo que quero.
- É bom saber - disse ela suavemente - Detesto homens ditatoriais.
Uma gargalhada estrondosa irrompeu da garganta de Luffy.
- Quer ficar parada aqui e discutir um pouco mais sobre isso ?
- E se eu dissesse que preferia não vê-lo novamente ? - os olhos dele perderam o brilho suave.
- Eu iria saber que você estaria mentindo.
Palavras calmas e medidas que quase lhe tiraram a respiração, e por um momento Nami se sentiu muito vulnerável.
Emocionalmente exposta para um homem que parecia decifrá-la tão bem.
- Você está perdendo o seu tempo - sua voz soou desarmônica mesmo para seus próprios ouvidos, e ela recuou quando ele a tomou pela mão e entrelaçou os dedos nos seus.
Completamente em silêncio, Nami caminhou ao lado dele em direção ao Bentley, tomou o assento do passageiro e travou o cinto de segurança, enquanto ele rodeava o carro e se acomodava ao volante.
Em poucos minutos, ela estaria em casa... sã e salva.
O trajeto até seu prédio foi cumprido em silêncio, e Nami já tinha sua chave de segurança à mão quando Luffy parou o carro numa praça larga adjacente à entrada principal do seu edifício.
Ela destravou o cinto de segurança, se movimentou para abrir a porta e ia agradecê-lo quando suas ações foram interrompidas pela voz dele.
- Você se esqueceu de uma coisa.
Nami o fitou de soslaio quando ele se inclinou para frente e roçou-lhe os lábios com os seus.
Oh, Deus ! Ela não queria se sentir daquele jeito.
Querer, desejar... relutante em confiar. E com medo, muito medo de permitir que qualquer homem, especialmente aquele homem, derrubasse as barreiras que protegiam seu coração.
A mão máscula se fechou sobre seu braço e ela gemeu de dor.
- O que está acontecendo ? - Luffy estreitou os olhos, ao perceber a expressão de dor no rosto dela.
- Está tudo bem. Um machucado, nada mais.
Ele gentilmente teve a iniciativa de erguer a manga.
A expressão de Luffy não se alterou, mas Nami sabia o que ele tinha visto. As marcas de dedos impressos em seu braço machucado eram bem distintas.
Ele estudou o seu rosto com cuidado, então tocou uma das faces, encontrando um leve inchaço ali.
- Quem fez isso ?
As portas giratórias da portaria se abriram e um morador saiu do saguão, dando ao carro e seus ocupantes um olhar superficial quando passou por perto.
Nami novamente tentou abrir a porta, mas Luffy a impediu, fechando sua mão sobre a dela.
- Seu ex-noivo, por acaso ?
A voz dele tinha uma suavidade perigosa junto ao seu ouvido, e ela sentiu a respiração agradavelmente quente deslizar em sua testa.
- Você não tem o direito de me fazer esta pergunta.
O silêncio fornecia um clima quase amedrontador dentro do veículo fechado.
Luffy retirou a mão, liberou o trinco e se inclinou um pouco para trás.
- E se eu tivesse ?
- Não lido com hipóteses.
Ela abriu a porta e desceu, sentindo o alívio em se livrar dele... mas Luffy estava bem ao seu lado muito antes que pudesse dar alguns passos.
Nami o olhou e disse:
- Não...
"Toque-me", contradizia-se em silêncio. "Ou venha comigo". Havia algo na postura dele, uma qualidade que ela não se preocupou em definir.
- Tornaria tudo mais fácil e conveniente se você me dissesse o que realmente aconteceu - insistiu Luffy.
Ele não poderia saber. Ninguém sabia !
- Não - disse ela, cuidadosamente - , não tornaria.
Luffy a estudou em silêncio por um longo tempo, observando suas feições pálidas, a ansiedade que ela lutava tão desesperadamente para esconder.
Ela percebia os recursos que ele tinha em mãos ? Toda a extensão de seu poder ?
- Tudo bem. A escolha é sua.
Por que seus nervos de repente estavam tão tensos ?, Nami perguntou-se. Não fazia o menor sentido.
"Tome a iniciativa", uma voz silenciosa lhe dizia. "Deseje boa noite, vire-se e ande calmamente pelas portas, entre e caminhe direto para o elevador".
Se ele tentasse detê-la, ela lidaria com isso, mas Luffy a deixou ir e Nami não olhou para trás até entrar no elevador.
Só depois de já estar no apartamento, trancou a porta e deixou fluir as emoções que ameaçavam consumi-la.
Estava protegida em seu próprio refúgio. Sozinha, onde ninguém poderia ameaçá-la fisicamente.
Então por que suas emoções estavam em turbilhão ? Aquilo não fazia sentido.
"Oh, relaxe ! Faça alguma coisa... algo que ocupe a sua mente".
Imediatamente, Nami trocou a roupa que usava por uma confortável camiseta extragrande. Remover a maquiagem foi o passo seguinte, depois escovou os cabelos e fez uma trança simples.
"Melhor assim", pensou ao entrar no quarto que havia convertido em estúdio doméstico, ligou o computador e se concentrou nos desenhos em que estava trabalhando para a próxima coleção de inverno.
Ao terminar, enviou um e-mail para Bell-mère, contando sobre os acontecimentos de seu dia.
Era um hábito que elas haviam iniciado quando seu pai falecera. Um diário do dia via e-mail. No início, a idéia era de que seria algo apenas temporário... mas então se tornara um compromisso que nenhuma das duas quis abandonar.
Às onze horas, Nami apagou as luzes, deitou-se e adormeceu assim que pousou o rosto sobre o travesseiro macio.
O dia seguinte começou como qualquer outro, bastante movimentado, retardando os esforços de Nami em acrescentar os toques finais em seu novo vestido de noite.
Estava quase terminado quando Vivi e as costureiras deram por encerradas suas atividades ao anoitecer.
Alguns minutos a mais e ela terminaria seu trabalho, então iria embora.
Era um final de tarde encantador, com o Sol brilhando baixo no horizonte e a brisa fresca soprando do mar quando Nami trancou o estúdio e deu alguns passos pela calçada.
Trabalhara até mais tarde do que pretendia, mas havia uma enorme satisfação em saber que o novo vestido de noite superaria o vermelho premiado do qual Boa Hancock tinha se apropriado.
Ela deu um leve sorriso e quase não se conteve em fechar um punho e golpear o ar numa comemoração silenciosa.
Nami ligou para Vivi de seu celular, relatou a novidade, e num impulso decidiu relaxar em um dos cafés próximos.
Estava saindo do bar quando teve mais uma vez a estranha sensação de estar sendo observada, provocando um leve calafrio.
Já era início de noite, mas não deveria temer e seu apartamento não era distante dali.
Naquele momento, o celular tocou, e ela não teve a preocupação de checar o número de quem chamava. Então praguejou quando ouviu a voz familiar de Lucci.
- Oi, vadia.
Ela deveria ter desligado, mas estava furiosa pela contínua perturbação dele.
- Com medo de mostrar-se à luz do dia ? Como se sente sabendo que estou de olho em você ?
- Você devia viver sua própria vida.
- E estragar meu divertimento ?
Nami desligou e quase não teve tempo de respirar quando o celular mostrou uma mensagem de texto que era curta e clara.
Deveria ir embora e caminhar para casa, mas se recusou definitivamente a dar a Lucci a satisfação de vê-la em fuga.
Cinco minutos... dez talvez fosse o tempo necessário, e ela deliberadamente esperou o tempo passar, percebendo a chegada de clientes que estavam começando a ocupar as mesas próximas.
Tudo bem, logo sairia dali. Estava em lugar público e movimentado; além do mais, possuía um alarme pessoal com um som tão estridente que acordaria até mesmo um morto.
Uma brisa fresca soprava do mar e Nami ergueu a mão para afastar os cabelos do rosto.
Foi então que ouviu um tumulto atrás de si, seguido por uma batida e um gemido masculino de dor, e se virou rapidamente para se deparar com Lucci a cambalear em uma luta que travava com outro homem que tentava contê-lo. Horrorizada, viu Lucci conseguir se livrar e fugir pela rua com uma velocidade inacreditável.
- Quem é você ? - perguntou Nami ao homem que havia lutado com Lucci.
- Ele estava prestes a abordar você - ele se virou para ir embora, mas algo no comportamento do homem era estranho.
- E como você sabia disso ?
- Pelas ações suspeitas dele, madame.
O uso inadequado do "madame" a fez dizer:
- Não acredito em você - ele deu de ombros.
- O carro está estacionado ali em frente - segundos depois, ele apontou para um Sedan escuro com vidros também escurecidos - Eu preciso ir.
Alguma coisa naquele carro lhe era familiar, e Nami de repente lembrou de tê-lo visto estacionado na rua no dia anterior.
- Acho que deveria me dizer quem você é.
Um carro da polícia parou junto à calçada e um policial disse pela janela:
- Você está bem, senhorita ?
- Este homem estava me seguindo.
O policial saiu do carro e ficou de pé com a mão no coldre.
Armas de fogo representavam uma advertência. Acrescente um uniforme e autoridade, e o efeito era impressionante.
O policial fez algumas perguntas e solicitou sua identificação, além de uma explicação... e Nami não gostou nada do que ouviu.
- Um guarda-costas ?
Shanks Hudson havia sido contratado por Monkey D. Luffy para protegê-la?
O policial voltou para o carro e a viatura partiu.
- Parece que eu deveria lhe agradecer
- Eu estava apenas fazendo o meu trabalho.
- Teria sido melhor, Shanks, se você tivesse dito isso de uma vez.
- A proposta era agir com a maior discrição possível.
Os olhos castanhos de Nami escureceram de raiva.
- Me assustar não conta ?
- Não foi minha intenção - não, ela não imaginou que tivesse sido. Então o guarda-costas indicou a direção do prédio de Nami - Eu a acompanharei no caminho até o seu apartamento.
- Eu vou sozinha - ele inclinou a cabeça.
- Neste caso, eu a levarei até o carro.
Shanks a acompanhou e ela lhe acenou, acrescentando:
- Tire o resto da noite de folga.
Ela falou aquilo com a intenção de fazer um comentário cínico, mas ele levou a sério.
- Eu cumpro ordens, madame.
- Nami. Meu nome é Nami.
Ela deu a partida, dirigiu algumas quadras, então parou junto ao meio-fio e pegou o celular.
- Mamãe, você tem o endereço de Luffy ? - se a mãe estava curiosa, não demonstrou isso.
- Claro, querida. Vaucluse - Bell-mère citou a rua e o número.
- Obrigada, mamãe.
Cinco minutos depois, Nami dirigiu seu BMW para o leste da cidade, que levava ao prestigioso bairro onde Nami residia.
Queria matá-lo. Bem, talvez isso fosse um pouco severo demais... socá-lo, pelo menos. Sem mencionar que verbalmente o reduziria a farrapos.
Sua mente fervia com tudo o que pretendia dizer.
A tranqüila rua ladeada por árvores frondosas tinha uma composição de diversas casas bonitas, algumas modernas, outras em estilo vitoriano, todas com grandes jardins.
Nami verificou o número, estacionou e então cruzou o portão de entrada se identificando através de um sofisticado sistema de segurança.
Uma imensa casa de dois andares estava situada no centro do terreno amplo com jardins bem conservados, o estilo arquitetônico combinando soberbamente com o cenário em volta.
Em questão de segundos, o portão se abriu e ela rapidamente cruzou o caminho semicircular até a entrada principal.
Quando alcançou a entrada, Luffy já estava com a porta entreaberta.
- Nami.
Ele não parecia nem um pouco surpreso em vê-la e a raiva dela aumentou ainda mais.
- Como você ousa ?
Uma sobrancelha arqueou-se num visível cinismo quando ele ficou de lado e gesticulou em direção ao saguão.
- Não me diga que quer discutir na soleira da porta - ela lhe lançou um olhar fulminante e entrou, detestando a falta de sensibilidade dele.
Assim que a porta se fechou, Nami se virou para encará-lo, com seus olhos ardendo de fúria quando enfrentou o porte poderoso.
- Quem lhe deu o direito de interferir na minha vida ?
- O que aconteceu com um educado "Olá" ? - perguntou Luffy, com visível deboche no tom de voz e apontando para uma sala à sua direita.
Ele parecia estar testando o controle dela.
- Você contratou um guarda-costas. Por quê ?
- Entre e eu lhe oferecerei um drinque.
Havia raiva em seus olhos quando retrucou:
- Esta não é - ela fez uma pausa e tentou respirar com calma - uma visita social.
- Foi o que deduzi.
Nami não se importara em olhá-lo antes, pois estava muito consumida pela raiva.
Mas agora se dava conta de sua postura, os ombros largos por baixo da camisa branca com os punhos dobrados, revelando antebraços fortes, e botões desabotoados à altura do pescoço, como se ele tivesse se livrado da gravata para descartar a imagem formal de homem de negócios.
Demonstrava força, não somente do corpo, mas também da mente.
- Você poderia pelo menos ter me contado.
- E qual seria a sua reação ?
Ela deu um profundo suspiro.
- Ele me deu um susto enorme.
- Rob Lucci ?
- Você acha que eu... - Nami parou e seus olhos se estreitaram - Quem ?
- Você ouviu.
Ela empalideceu. Como ele podia saber ?
Mas claro, qual dificuldade um homem como Monkey D. Luffy teria para obter informações ?
Tudo o que ele tinha a fazer era dar um telefonema e investigar. Ela procurara atendimento em um hospital... particular, não público, após a agressão de Lucci na véspera do casamento deles. O hospital mantinha seus registros, havia um boletim de ocorrência policial.
Os olhos de Luffy estavam escuros, quase parados enquanto observava o movimento de emoções nas feições expressivas dela.
- Existe uma lei de privacidade - disse ela - Eu posso processá-lo. Você a violou.
Ele deu de ombros levemente.
- Fique à vontade.
Ela reagiu sem pensar, golpeando com os punhos onde podia. No peito dele, no ombro, no braço.
- Quero que você morra !
Luffy não recuou, não se moveu por um longo momento, depois a conteve pelos pulsos e a dominou facilmente.
- Solte-me !
- Basta - a voz dele era suave, porém firme - Pare com isso - ordenou enquanto ela continuava a lutar - Você vai acabar se machucando.
Ela já estava ferida o bastante. Zangada... muito zangada, com Lucci e com Monkey D. Luffy.
Mais do que tudo, não queria continuar a viver daquele jeito. Sempre em alerta, consciente de todas as possibilidades de riscos que corria...
Sua respiração suavizou vagarosamente, assim como as batidas de seu coração.
- Por que fez isso ? - perguntou ela. Luffy não se fez de desentendido.
- Você precisava de proteção e eu providenciei para que a tivesse.
- Só isso ?
- Sim.
O leve deboche dele a fez erguer o queixo em desafio.
- Mais uma vez... por quê ?
A boca sensual dele curvou em um sorriso leve.
- Porque eu possuo um bom coração e sou afetuoso.
- Estou certa que há uma legião de mulheres que poderiam atestar sua afetividade.
- Nem tantas assim.
- É mesmo ? Como se você pudesse me enganar.
Por um momento ela notou um certo divertimento naqueles olhos negros e se sentiu tentada a socá-lo novamente. E o faria, assim que pudesse se livrar dele.
- Eu vim aqui para...
- Desabafar ?
- Para lhe dizer que dispense seu guarda-costas e fique fora da minha vida !
- É difícil.
- Basta pegar o telefone e dispensá-lo.
Ele não demonstrou qualquer intenção de fazer isso.
- Não.
Os olhos de Nami pareciam em fogo naquele momento.
Luffy recordou o ódio que sentira quando tomara conhecimento de toda a dor que Rob Lucci causara a ela. Sua reação fora imediata.
- O guarda-costas fica e eu também.
Ela fechou os olhos numa tentativa de abrandar sua ira, depois os reabriu.
- Você não pode fazer isso.
Ele a olhou fixamente e conteve a vontade de tomá-la em seus braços, imobilizá-la até que ela pudesse absorver toda a sua força. Assegurar que faria tudo ao seu alcance para mantê-la em total segurança.
- Você descobrirá que posso.
A tranqüilidade na voz de Luffy a perturbou momentaneamente, e por alguns segundos, ela se sentiu aprisionada em seu olhar.
- Não quero homem algum em minha vida.
- Que pena.
Nami abriu a boca para responder, mas fechou-a novamente, procurando se controlar.
- Terminei o que vim fazer aqui - o tom de voz dela era convincente.
Luffy liberou uma das mãos, mas continuou segurando a outra com firmeza.
- Nós deveríamos comer alguma coisa.
Sem poder acreditar no que ouvia, ela o encarou.
- Aqui ? Com você ? Perdeu o juízo se pensa... - ela fez uma pausa - Que absurdo ! Não existe nós.
- Jantar - reiterou ele implacavelmente.
- Não - Nami queria sair dali, ir para longe daquele homem perturbador e de tudo o que ele representava.
- Uma refeição agradável, um bom vinho - ele deu de ombros.
Sentada à sua frente na intimidade de uma mesa para dois ? Saborear lentamente a comida enquanto tentavam uma conversa ? Agir como se tudo estivesse normal e eles fossem apenas bons amigos ?
- Eu não acho uma boa idéia.
Assim, ela puxou sua mão e caminhou em direção à porta.
Como uma saída triunfal, funcionou bem... embora depois de ter se afastado, não estivesse mais tão certa disso.
Uma vitória temporária, quem sabe em nome da auto-preservação ?
Nami voltou para Bondi Beach atenta ao espelho retrovisor, e apesar de não ter percebido qualquer indício de estar sendo seguida, percorreu todo o trajeto com o coração disparado de medo.
Teve um mau momento quando entrou com o BMW na garagem subterrânea do prédio e manteve o spray de pimenta nas mãos, até que alcançou seu apartamento em segurança.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 6.
