Seattle. Dois meses de mudança.

Contatos, tão importante ter contatos com as pessoas certas. A Sra. Harper - querida professora que me escolheu como estagiária na escola de pequenos milionários - ficou indignada com a decisão da diretoria de me dispensar, e meu meio metro de língua pensava conveniente dizer que estava abandonando Phoenix. Como se não bastasse me apresentar com algumas tabletes de chocolate suíço, ela ainda me garantiu emprego numa revista. parecia uma dádiva: ter um emprego sem num lugar novo sem precisar procurar. Claro, não me pagaria tão bem quanto a escola, mas me deixava tranquila saber que não precisaria gastar minha reserva de emergência ou chorar muito no telefone com Renée e Charlie sobre como a vida adulta mexe nos nossos bolsos de um jeito cruel.

Elite Magazine era uma revista que sendo honesta, beirava mais o sensacionalismo do que algo relevante, mas tinha prestígio - sei lá por qual motivo. Estavam formando uma nova equipe de estagiários, precisando de revisores de texto pra não publicarem qualquer merda, estava naquele meio para tentar ser uma boa revisora, por isso o cargo na faixa júnior. Com o novo micro-apartamento abarrotado de poeira, peguei um táxi e corri para o prédio indicado no endereço. Bastei dizer "Harper" e me colocaram numa mesa no mesmo dia. Eu me senti ótima mesmo sozinha, numa cidade estranha e me adaptando do zero outra vez, mas o lance de estar só - de verdade - tornava algumas coisas empolgantes. E medonhas.

Minha vida se resumia a estar na Elite com uma pilha de papéis das nove da manhã até cinco da tarde, o restante do meu tempo era usado no TCC e conversava com quem eu amava. Checar e-mail, reunião em Skype, ligar para casa, Alice e meus tios, fazer a própria comida todos os dias e ser mesmo dona do meu próprio nariz. Apesar de tanta correria, me sentia feliz com aquilo, fora uma boa decisão recomeçar.

⁃ Ei, Leah! - chamei apressada, correndo feito uma pata choca pelo corredor. - Cara?

⁃ Estava esperando você, boba. - ela entrelaçou nossos braços e entramos no elevador.

Leah Clearwater foi a primeira amizade que fiz em Seattle, ela era outra estagiária, ficava com o design das capas da empresa e tudo que era relacionado a fotos para as matérias. Lee era minha carona quase todos os dias, me livrando do transporte público algumas vezes, além de amiga chicletinho - tudo dentro e fora do prédio, fazíamos juntas.

O sol da tarde se despedia, e finalmente o barulho dos motores de motos e carros passageiros. No penúltimo andar, o elevador panorâmico nos permitia ver o autódromo mediano - eu chamava de pista - usado mais para manutenção e testes de máquinas de corrida, não sabia a quem permitir, o barulho durante o expediente me irritava demais para ter interesse nisso.

⁃ E ele sabe que vocês farão uma trilha no domingo?

⁃ Deveria, ele quem deu a ideia.

⁃ Ele confirmou com você?

⁃ Ainda não, mas vai confirmar. - apertou o volante, um pouco ansiosa. Detestava vê-la insegura.

⁃ Dispenso a trilha, e se ele não aparecer de novo, passe na minha casa, estou pensando num almoço especial.

⁃ Ha-ha, Samy não vai furar! Terá de almoçar sozinha, mas hoje te acompanho no jantar!

Na cabeça dela, vivia um romance com Sam Uley, um grande aproveitador de meninas tontas quando o assunto é amor, como minha amiga. Trabalhava na pista ao lado do prédio, cuidando da parte elétrica ou algo assim. Enrolava Leah há tanto tempo que pelo tempo, eles sim deviam morar juntos, e ela achava mesmo que isso aconteceria. Ao mesmo tempo que torcia por sua felicidade, sabia que não seria com ele, mesmo que ela fechasse os olhos e tampasse os ouvidos sobre isso.

Ela era maravilhosa, e acho que se tivesse encontrado uma Leah Clearwater em Phoenix, as coisas haviam sido melhores. Não sei, mas todo aquele tempo tinha sido difícil fazer amizades, eram só alguns colegas quando havia trabalhos em grupo e não passava disso. De qualquer forma, tinha passado, sem motivos para remoer. Eu voltaria pra defesa do bendito Trabalho de Conclusão de Curso e alguns meses depois para a formatura - que já estava paga e meu vestido pegando mofo numa embalagem plástica no fundo do meu guarda-roupas.

⁃ Hmmmm... - ela murmurou, enrolando mais massa no garfo. - Esse espaguete está incrível Bells, sério!

⁃ Finalmente gostei de alguma coisa que cozinho.- brinquei falando a verdade, Lee sempre concordava em comer comigo, mas só quando era macarrão ou algo sem muitos erros.

⁃ E falando em agradar... Sam disse que um carinha do autódromo, Tyler, viu você comigo e eu me pediu se...

⁃ Não ouse terminar essa frase. - cortei sua fala querendo passar a faca no meu próprio pescoço, sabendo o que viria.

⁃ Um encontro duplo, é tudo que eu te peço, uma vez só!

⁃ Sabe que ainda não me sinto pronta pra sair com alguém. - aquela conversa acabou com todo o meu apetite, me fazendo empurrar o prato pra longe, e ela empurrou de volta.

⁃ Eu entendo, de verdade, só acho que você desvia tentar mais... Sair mais, se divertir mais, agir como jovem. Você deveria ao menos pensar no convite de Samy, gostaria que fosse.

Em parte, ela tinha razão, e eu também tinha. Sabe a dor do primeiro amor e não querer mais ouvir sobre isso? Pois é, eu (ainda) estava vivendo esse luto. Talvez haja tempo demais, mas quem liga? Porque eu não. Pensar nessa sequência me apavorava:

1) Estar de coração aberto pra conhecer alguém.

2) Sair com a pessoa num encontro que te deixa insegura e vendo se tem batom no dente a cada cinco minutos e falar sobre coisas inúteis.

3) Fingir que aquele encontro nunca existiu de tão ruim e sustentar a torta de climão toda vez que encontrá-la na rua - e nem estou falando das coisas piores como, fingir que está interessada no assunto, ter que contar mais uma vez sobre sua vida e seus hobbies, e é daí pra pior.

Acho que para fazer o que quer que seja na vida, precisamos nos permitir viver aquilo, e eu não estava pronto para me permitir, então pra que tentar? Estava certa, não estava? Leah continuou a falar como um disco arranhado o resto da noite, me fazendo agradecer ao nosso Senhor Jesus Cristo quando a levei até a portaria.
O outro convite que ela se referiu conseguiu ser ainda mais ridículo do que o encontro duplo. No autódromo ao lado da Elite, teria uma corrida beneficente com alguns "grandes nomes da Fórmula 1" em prol de crianças em vulnerabilidade social em Seattle, todo dinheiro arrecadado seria distribuído entre ONG's que fazem um trabalho sério e organizado. Era inacreditável que os ingressos esgotaram em menos de duas horas, mas o Uley conseguiu dois tickets no camarote e entregou a Leah, um para ela e outro a quem quisesse.

Era uma causa nobre e bonita, isso era inegável, mas... Qual era a graça de ver homens enfiados num macacão e pilotando um Hot Wheels? Leah estava eufórica por ter a convicção - ainda na cabecinha de minhoca dela - de que finalmente "Samy" a apresentaria para os amigos da graxa. No momento que cogitei a ideia de ver minha amiga deprimida por alguém que fede a gasolina, e pior: num lugar cheio de gente, me fez sentir mal e com raiva.
Já que não consegui evitar que ela se humilhasse pra ele e criasse falsas expectativas, pelo menos poderia oferecer meu apoio. Sabia que provavelmente ele a ignoraria toda a corrida, e aí eu teria uma desculpa pra socar sua cara torta e feia por tê-la deixado triste. Portanto, eu pensei em aceitar o convite não para ver alguns famosos como Michael Schumacher, Fernando Alonso ou Rubens Barrichello, iria para prestar um apoio prévio a minha amiga.

Era sábado à noite quando eu estava prestes a colapsar no meu sofá. O rosto parecendo uma bolacha de tão inchado e um pote grande de sorvete Ben & Jerry's sabor Fudge Brownie Vegano no colo, Edward corre contra o tempo para buscar seu amor. Ele gritava como um louco na frente do prédio, e aquilo me fez chorar mais ainda quando ela apareceu sorrindo na janela com cabelos castanhos esvoaçantes um sorriso de fazer queixos cairem. "Desça, princesa" era o que ele dizia. Engasguei com meu próprio soluço causado pelas lágrimas quando Uma Linda Mulher terminou na TV a cabo.
Vivian não fazia ideia da sorte que dera tendo um Edward pra si. Eu queria um Edward. Chorei mais um pouco pensando na ideia de não ter um Edward e dei a última colherada no pote antes de zapear um canal de música qualquer e folhear a Elite que iria às bancas na segunda-feira. Edward Lewis e Vivian Ward, vocês me pagam.

A capa da semana estampava as fofocas quentes dos pilotos que participavam da corrida beneficente - é claro que a notícia do evento também estava na capa, mas bem no cantinho e em letras miúdas. Ainda com os olhos úmidos e brilhantes, passei uma rápida leitura pela capa, procurando por uma matéria que me prendesse minimamente a atenção depois de duas horas me empanturrando de açúcar e filme clássico.

Spoiler do seriado de quinta, não. Como evitar corte químico nos cabelos, não. Próximo filme romântico da Lily Collins, próximo. Namoro do piloto Edward Cullen e a atriz Tanya Denali... O nome me chamou a atenção... Edward, assim como o Edward que me desidratou e lembrou que nunca teria um, tchau e benção. Como superar um relacionamento sério que acabou há muito tempo? SIM! MIL VEZES SIM! PÁGINA 36 AGORA!

O domingo conseguiu humilhar ainda mais meu emocional. Por um milagre, minha internet funcionou bem o suficiente para me permitir checar as redes sociais, e foi uma péssima escolha. Leah e outras garotas da Elite tinham ido juntas a uma boate no sábado e ficaquei chateada por não ter sido convidada. A chateação durou menos de alguns minutos quando me lembrei da ligação de Lee algum tempo antes de assistir meu filme. Acho que meu choramingar deu a ela uma ideia de "Ok, a Bella precisa de tudo, menos de um ambiente fechado com música alta e vestido apertado". Compreensível.
Olhando as fotos e comentários nas sequências das "Eliteiras", todas elas com babyliss no cabelo, blush nas maçãs e sem dúvidas cheirando a bons perfumes franceses, fez eu me sentir estranha, mal. Não mal, talvez um pouco inferior? Me levantei em direção ao banheiro, observando minha aparência

Cabelo um pouco opaco e emaranhado, unhas roídas, olheiras roxas, lábios pálidos e ressecados, pijama amassado, cheiro estranho. Eu sabia que não era feia, só estava... descuidada. E tinha uma opinião formada sobre como o externo afeta o nosso interno: mesmo que não esteja tudo bem, quando você gosta do que vê no espelho, você se sente melhor. Corri ao quarto procurando pela mala lilás recheada de itens que Alice me dera no meu último aniversário.
Tinha roupas desde até óleos para os pés, e tudo estava intocado até aquele momento. Passei o dia todo em função do "Dia do Spa", Ali ficaria acompanhada com o resultado geral, se antes me sentia inferior por minha aparência desleixada, agora me sentia no mesmo nível. Costumava me cuidar o suficiente antes e enquanto estive com Alec, e confesso que quando tudo acabou, preferi viver o término enfiada em qualquer trapo.

Ainda me senti uma merda por ter sido chutada? Sim, mas em parte concordava com Leah, precisava reagir de alguma forma. Alec não tinha se afetado tanto, poderia estar em outro relacionamento e definitivamente não precisava de horário no salão pra fazer uma hidratação potente nos cabelos. Eu queria me sentir bem, não que fosse me tornar uma Angel da Victoria's Secret, só queria me ter de volta, ser como antes.

Naquela semana, iniciei o projeto "Resgate da Bella", havia me matriculado em aulas de pilates, colocado os presentes lindos de Alice no armário, renovado o corte das madeixas e começado a terapia psicológica. Sentir que a vida voltou a caminhar me fazia acordar com ânimo todo santo dia, Seattle nem parecia mais tão assustadora. Não que todos os meus problemas tenham desaparecido junto com a aparência esquisita, mas me deixado mais segura para enfrentá-los.

Recebi um enorme apoio das "Eliteiras", com foco em Leah, que caminhou comigo durante uma hora toda terça-feira, vez ou outra também pintava minhas unhas dos pés de preto. Tudo melhorara tanto que apesar de não ser jornalista, fui convidado para ajudar a cobrir a corrida beneficente de Fórmula 1 no setor do Meet&Greet, significava muito ter meu trabalho e competência reconhecida dessa maneira, era gratificante ser valorizada.

Não contei a Beau sobre o convite, era capaz dele dirigir como um louco até Seattle para conseguir fotos e produtos dos "gigantes das pistas", como dizia. O que ele não sabia era que, nós da revista esperava ficar com alguns objetos oficiais autografados que eram destinados ao pessoal da publicidade, então mesmo que eu não comparecesse, Beaufort Swan poderia se vangloriar no colégio e surtar em paz quando me visse chegar em casa com alguns presentinhos na mochila.

Os ingressos para a corrida estavam tão disputados que nossa revista recebeu somente como credenciais para cobrir o evento, sem mais privilégios, o que aos olhos de Leah, tornava os tickets do camarote de Sam preciosos. Apesar do projeto Resgate mostrar bons resultados, ainda não me sentia confortável em estar em alguns lugares, mas era só uma corrida, não um episódio de Casamento às Cegas.

Empresa caótica, treinos insuportáveis dos carros o dia todo, passagem comprada para defesa do TCC, músculos doloridos do pilates, mente nervosa graças a minha psicóloga. Acho que o champanhe servido no camarote e reparar nas bundas dos pilotos no Meet&Greet me faria relaxar depois de um ritmo tão frenético. Era só uma corrida, o que poderia acontecer?


Oie! Primeiramente, gostaria de agradecer a todo mundo que está acompanhando Getaway Car, significa muito pra mim, então, obrigada por isso! Em segundo lugar, me desculpem a demora pra atualizar, estava em semana de provas na faculdade e depois tirei um tempo pra respirar em paz kkkkkkkkk, enfim, torço pra estar gostando e não se preocupem, Edward vai aparecer muito antes do que voces pensam hahahah
Um beijo e até semana que vem!