Tive a imbecilidade de pensar demais sobre a defesa, o que me fez ficar no banheiro mais de meia hora depois do desembarque. Eu estava mais do que pronta para a apresentação, sabia responder tudo, então meu ataque de pânico não era relação a isso, era em relação às pessoas. Era sobre estar numa sala cheia de gente olhando pra mim, ouvindo minha voz, esperando minha resposta, olhos observando cada movimento meu, ouvidos atentos a cada som que eu emitia. Lavei o rosto e desci com as costas pela parede até chegar ao chão, ali fiquei até que meu coração parasse de ameaçar sair pela boca. O toque do celular tocou uma, na segunda levantei-me, saindo pela porta desnorteada.

⁃ Bella! Hmm, oi! E então, você já pousou em Phoenix? Já saiu do aeroporto? - reconheci a voz curiosa de Alice, lembrando do que meus tios haviam preparado durante minha pequena estadia.

⁃ Droga, eu esqueci da reserva naquele restaurante. Ainda não saí daqui, mas chego em alguns minutos.

⁃ Respire - ela parecia ansiosa e feliz, até demais - se acalme e olhe na sua esquerda.

Demorei alguns milésimos para me situar onde era esquerda e direita, mas quando vi uma Alice segurando uma cartolina enorme com letras que diziam "A graduanda de Letras mais bonita do mundo", o conforto foi imediato. Corri para ela e chorei como um bebê, sendo recebida com um abraço quente.

⁃ Ah! Não era pra você chorar! Era pra sorrir... - me apertou mais ainda, chorei mais ainda.

⁃ Eu estou feliz, muito. - era uma meia verdade, meu choro era pelo alívio de achar paz num momento de ansiedade, só depois se tornara lágrimas de alegria pelo gesto. - Que desculpa você deu?

⁃ Nenhuma, só disse que tinha um compromisso inadiável na minha cidade natal e precisava voltar com urgência, cá estou!

⁃ Eu te amo tanto... tanto. - ela tinha deixado a Mercedes em Londres só para assistir minha defesa, era inacreditável.

⁃ Eu sei Bells, e te amo muito mais.

Alice era a única autorizada a estar presente naquele momento, implorei à minha família que ficassem todos em casa, incluindo meus tios, era pressão demais finalizar uma etapa tão importante bem na frente de todos aqueles que me apoiaram toda minha vida, o psicológico era insuficiente. O plano era sair da Universidade e seguir direto a Forks, Renée teve de engolir o nervosismo. Nós meditamos juntas por uma hora depois do jantar organizado por Tia Mary-Kate. Considero ansiedade a forma mais cruel de tortura, não deixa sua cabeça em paz, nem corpo ou sentidos, não sei o que ela colocou na caneca de chá de camomila que me entregou depois da meditação, mas foi essencial para que eu descansasse antes da defesa. Ela me deu mais uma caneca uma hora antes de sairmos de casa, bebida milagrosa.

Senti - com mais leveza - o mesmo de sempre: tremor, coração acelerado, vertigem e falta de ar. Vamos lá, Isabella, você é maior do que isso, você consegue, foi o que disse a mim mesma depois de cinco minutos de palavras de motivação vindas da minha orientadora, Alice disse apenas Foda-se eles. Aquela uma hora de perguntas pareceu um dia inteiro, mas um pouco de calmaria vinha quando olhava para Ali numa fileira próxima com um sorriso encorajador no rosto. Quando tudo terminou, fiz questão de fazer um tour pelo campus pela última vez, já que não colocaria os pés ali de novo, queria me lembrar no futuro com o máximo de detalhes.

Dormi o voo todo de Phoenix até Port Angeles, apesar da alegria pela nota máxima que recebi. Chutei Beau da direção da minha picape e exigi o máximo de velocidade que o motor conseguia - que não era muito, coitada. E pelo visto, era a semana de me fazer chorar por vários motivos. Tomei um susto com a bomba de confetes sendo explodida por Angela e o coro gritando "SURPRESA!" assim que abri a porta. Eu sabia quem tinha feito o que naquela festa, e sem dúvidas meu irmão tinha feito o cartaz com minha foto que dizia Não fez mais do que sua obrigação, mas parabéns! A comemoração com os Black, Swan e Brandon na minha casa foi meu ápice de alegria, todos os abraços, felicitações e olhares orgulhosos fizeram tudo valer a pena desde que saí pela mesma porta que entrei.

Às três da manhã, eu, Alice, Jacob e Ângela tínhamos uma garrafa de vinho, muito assunto para conversar e quase nada de sanidade mental.

⁃ Formada, hein? Agora você pode me emprestar algum dinheiro! - Jacob riu, bagunçando meu cabelo.

⁃ Desde que não ultrapasse cinco dólares, tudo bem, está na mão. - sim, eu tirei uma nota de cinco dólares do bolso e embrulhei em suas mãos enormes. - Nem acredito que nunca mais preciso colocar os pés em Phoenix, e finalmente terminei tudo.

⁃ E agora? você volta pro nosso mundo alienígena verde?

⁃ Forks é meu lar, e sinto falta de passar o tempo na Reserva, as festas do pijama com Angie e Jessica, te ligar quando a picape para de funcionar... Mas não, não tenho futuro aqui. - ele sorriu compreensivo, completando o copo com mais vinho e olhou ao redor, como se checasse se alguém estava próximo demais para ouvir o que diria.

⁃ Na verdade, você não me veria na Reserva se voltasse... - minhas sobrancelha se uniram em confusão, ele continuou - Sabe aquela saga de livros que você ama, Sol da Meia-Noite?

⁃ Claro que sei, estão fazendo um filme do primeiro livro, mas o elenco ainda não foi divulgado.

⁃ Eu posso te contar quem está no elenco se você prometer não colocar na primeira página da Elite.

⁃ Como você saberia esse tipo de coisa, menino-quileute?

⁃ Porque eu estou no elenco, peguei o papel do Taylor.

Engasguei com o gole de vinho e saiu pelo meu nariz, Jake me deu um tapa tão forte nas costas que senti meu pulmão dissolver, ele ria enquanto eu parecia um bicho engasgado. Sol Da Meia-Noite era uma saga que se passava no século XVII a conta a história de um vampiro apaixonado por uma camponesa humana. Jake faria Amis-Taylor, o integrante do clã vampiresco que impede a morte da protagonista, Elina.

⁃ Não queria que ninguém colocasse expectativas sobre isso, ainda era muito incerto e eu tinha acabado de sair do teatro... Mas iria te contar tudo hoje, juro por Deus!

⁃ Você poderia ao menos ter me dito que tinha ido a audição, nós trocamos e-mails quase todos os dias...

⁃ Eu sei, eu sei! Mas te disse, não queria que ninguém colocasse expectativas, é o meu primeiro papel no cinema, você entende isso, não entende? - ele estava se desesperando, me desesperei para acalmá-lo apesar da pontinha de chateação, a bebida faz absurdos.

⁃ Claro, eu entendo você, sei que a pressão é uma merda, então te perdoo dessa vez. Mas puta merda! Não acredito que você é uma estrela de Hollywood, como você está com essa ideia?

⁃ Sinceramente? Eu me sinto foda! - nós gargalhamos e caímos deitados no gramado úmido - É como viver um sonho, quer dizer, o segundo filme só será feito se a bilheteria do primeiro for boa, mas só de pensar em atuar num filme maior que todas as peças de teatro que fiz na vida, está perfeito.

⁃ Você sabe que merece isso, não sabe?

⁃ É, eu acho que mereço depois de tantos anos de esforço... Prometo te convidar para todas as premières.

⁃ Não se atreva mesmo a me deixar de fora, ou faço uma coluna na revista sobre como o mais novo astro do cinema adolescente é arrogante!

Jacob tinha um talento nato para atuação. Quando éramos crianças, ele montava algumas peças e apresentava em cima da pequena mesa de madeira de sua casa. Billy sempre o incentivou, e dirigia todos os dias até Port Angeles para que o filho pudesse estudar teatro, foi assim por muitos anos. A estreia de Jake foi Peter Pan, lógico que ele era o Peter, nossa foto desse dia está grudada na minha geladeira em Seattle, eu mesma já havia perdido as contas de quantas peças assisti para que ele pudesse se apresentar mais. Ele sem dúvidas merecia todo o sucesso que viria, era mérito dele. Meu melhor amigo estava alcançando seu maior sonho, e eu me perguntava se também seria capaz de realizar o meu algum dia, mesmo se num futuro distante. A ideia de nunca publicar um livro me fez encolher.


⁃ Elina interpretada por Tanya Denali? - Angela reclamou, pondo uma colherada de bolo na boca.

⁃ Ainda não decidiram sobre ela, o resto do elenco já está definido. - Jacob deu de ombros e Alice torceu o nariz, desaprovando a possibilidade.

⁃ Não sei se ela é boa o suficiente pra Elina, esse filme vai ser uma bomba.

⁃ Alice?! EU estou no filme, engula suas palavras agora! - ele arregalou um olhão enorme, apavorado com a ideia do filme fracassar, eu só ri e mastiguei o queimado do bolo.

⁃ Ah, acho que ela seria uma boa Elina, ela é comprometida com a carreira.

⁃ Agora com os namorados... - Ang e sua língua de chicote.

⁃ Como assim?

⁃ Você não lê o que sua empresa publica? Ela terminou com Edward Cullen porque ele a pegou com James Hunter antes de um Grand Prix* - Ali disse como se contasse que a Britney Spears e o Justin Timberlake tinham terminado.

⁃ Eu quero saber quem eles são?

⁃ Terra chamando Bella? - Alice estalou os dedos no meu rosto - James Hunter, piloto da Ferrari, Edward Cullen, piloto da Mc Laren?

⁃ Eu não falo a língua Car and Drive, me desculpe? - olhei pra Jacob pedindo socorro, ele era outro que não sabia nada.

⁃ Não olha pra mim, eu sou só um ator em começo de carreira!

São inimigos mortais! - Beau gritou da escada, a audição daquele moleque me assustava.

⁃ É esquisito você não saber quem são as pessoas que mais aparecem nas páginas da Elite.

⁃ Angela, preciso te lembrar que me formei em Letras e não Jornalismo Esportivo? Alice é quem trabalha na Mercedes.

⁃ A chance pra você entender tudo, aumenta o volume, Jacob!

Como uma piada do universo, o assunto principal de um programa era o triângulo entre Edward Cullen, Tanya Denali e James Hunter. Tanya era famosíssima desde a adolescência e se consagrou uma ótima atriz britânica, o cabelo louro-morango era característico dela. Os outros dois jamais tinha visto na vida. Edward tinha um cabelo meio acobreado na altura dos cotovelos - maiores que os da Denali, e os olhos verdes demais, James tinha cabelos curtos e claros, o rosto era italiano, bonito. A apresentadora fazia um trocadilho sobre a velocidade dos pilotos e quem ganhou o coração de Tanya mais rápido, Angela soltou uma piada sobre o dia que pegamos o carro escondidas e acabamos batendo de leve num muro, isso aos quatorze anos, Jake ganhou uma cicatriz na testa, Charlie nos livrou da polícia, mas ficamos todos alguns meses de castigo. Nós gargalhamos no sofá e percebi - de novo - como todo momento com meus amigos conseguia tampar um buraco no meu peito que se abria quando eu estava longe.

Meus dias em Forks voaram e eu já estava de volta em Seattle, exatamente no dia da corrida. Estava tudo certo para cobrir o evento, até a companhia aérea comunicar um atraso de duas horas na decolagem do avião, eu chegaria a tempo pro início da corrida, mas não para o Meet & Greet, então liguei para Leah e pedi que repassasse o crachá pra alguém da Elite que pudesse estar no meu lugar.

Leah - 01:17 p.m

Me espere na entrada do autódromo, não conseguia encontrar o batom favorito de Sam :/ Chego rápido! xoxo

O SMS no meu celular me fez respirar fundo, beirava a humilhação o tanto que Lee se esforçava para agradar aquele feio que não merecia sequer o vômito dela, quanto mais um batom favorito. Ela estava mesmo esperando conhecer os amigos dele, mas eu sentia que outra coisa aconteceria naquela tarde. Desci do táxi pronta para esperá-la sentada na calçada quando senti meu blackberry vibrar outra vez. O nome do chamador fez meu coração palpitar.

⁃ Stephenie?

⁃ BELLA! - ela gritou tão alto que me fez afastar o aparelho da orelha, parecia aliviada por atender a ligação - Bella, me escute, por favor!

⁃ Aconteceu alguma coisa?

⁃ Eu esqueci a credencial da Elite na portaria, me diga que não entrou no autódromo! Os seguranças não conferiram a credencial ainda, por isso consegui entrar.

⁃ Ainda não entrei, estou indo buscar.

Stephenie era uma das meninas da Elite, fora ela que entrou no meu lugar. O nervosismo dela era tanto que até se eu tivesse entrado, voltaria para buscar a credencial de identificação e acesso ao M&G, seria meu primeiro grande feito na revista, mas agora era o grande feito dela. Tudo bem, teremos outras oportunidades, pensei sozinha. Eu colocava a crachá no meu pescoço para conseguir entrar quando vi a pior cena que poderia ver, a cena que sabia que acontecia nas costas de Leah. Mas ver era pior do que cogitar.

"Sammy" aos beijos com uma morena, cheios de intimidade. As mãos dela percorriam os cabelos dele, e quando vi seus dedo, o ditado "Nada é tão ruim que não possa piorar" me veio como um sopro. Tudo sempre pode piorar, porque a moça tinha um anel com uma pedra enorme no dedo anelar da mão esquerda. Dedo anelar, anel brilhante, mão esquerda. Ela era noiva dele. Muitas pessoas passavam por mim, e eu só enxergava duas coisas: o anel e um bebedouro, ela o beijou uma última vez e se foi, me vi enchendo um copo de água gelada e indo na direção de Sam. Aquele filho da puta enganava minha amiga muito mais tempo do que eu pensava, o diabo era noivo, NOIVO!

Ele viu minha aproximação e proferiu frases que meu cérebro não traduzia, meu rosto fervia de ódio e mais ódio. O blackberry não parava de vibrar e as pessoas de irem para a sala, mas eu não me importava com nada que não fosse aquele ser desprezível na minha frente.

⁃ Bella, eu iria contar a ela hoje e- fechei o punho e soquei, jogando a água e o copo de plástico em seu rosto.

⁃ Não se atreva a chegar perto dela outra vez.

Saí pisando firme e com a mão doendo, e minha raiva era tanta que se tivesse quebrado algo seria irrelevante. Leah estava atrasada por um batom que o agradava, enquanto ele estava de casamento marcado. Minha ira só aumentou quando vi as quatro chamadas perdidas dela e senti um estúpido bater de frente comigo, espatifando meu celular azul no chão.

⁃ Me desculpe, eu estava distraído... - uma voz baixa disse, recolhendo a bateria que tinha voado longe. Eu respirei fundo, tentando voltar a consciência e não xingá-lo de todos os nomes possíveis. - Se tivesse deixado o dedão fora do embrulho para o soco, não teria te machucado.

⁃ Hm, é o que? - eu esperava tudo, menos ouvir aquele tipo de coisa naquele momento.

⁃ O soco que você deu, te machucou pelo dedão dentro da sua mão, e não fora. - a mão devolveu meu blackberry ligado e sorriu, eu sentia conhecer aquele rosto de algum lugar - Mas você tem uma boa força, e se o celular estragou, compro outro pra você... Stephenie. Está indo para o Meet? - meu nome é Isabella, por que esse idiota me chamou de Stephenie? STEPHENIE! MEU DEUS!

⁃ Na verdade sim e estou atrasada, obrigada pela dica de violência e pelo celular! - disse praticamente correndo para a sala, deixando o homem parado.

Por mais que tivesse a sensação de ter visto aquele rosto em algum lugar, não conseguia me lembrar onde ou quem poderia ser, talvez pela ira enorme que ainda sentia. Steph tagarelou mil agradecimentos, o M&G estava começando e ela precisava da credencial para conseguir o primeiro bate-papo com algum dos pilotos junto com Eleanor, outra menina da Elite. Me sentei no canto, tentando acalmar meus nervos para enfrentar minha amiga que me aguardava no camarote. Fiquei ali por mais de quinze minutos, sem coragem alguma de descer e olhar pra ela. Uma senhora sorridente me entregou uma ecobag com alguns produtos autografádos, lembrei-me de Beau e sorri para a senhora, ela não tinha culpa do meu humor.

Leah - 01:48 p.m

Pedi nossos lanches, você ainda come peito de peru? Também pedi uma taça de champanhe, venha logo! (Tyler está te procurando) xoxo

Que Tyler sumisse do planeta junto com Sam! Respirei e olhei com atenção pelo ambiente, identificando alguns pilotos como Felipe Massa, Mark Webber, Lewis Hamilton e James Hunter com seus cabelos enormes, tinham muitos mais, mas era só o que me lembrava. Quis saber o nome do cara que pouco antes tinha trombado comigo, o procurei e não tive sucesso. Talvez fosse membro de alguma Scuderia*, um jornalista ou sei lá o que, seja o que fosse, não estava ali. Meu coração trincou quando entreguei meu ticket dourado e vi uma Leah de batom magenta, sorridente e segurando dois Martinis me esperando. Provável que o pior só estivesse começando.

A corrida em si tinha sido ok, não entendia muito bem, então era como assistir um monte de carrinhos em círculos, aquela brincadeira levantaria alguns muitos mil dólares no fim das contas - isso era o que importava. Não tivemos nem sinal do Uley, Tyler e o restante dos amigos idiotas daquele autódromo até o fim da corrida, teríamos ficado para ver a comemoração com bebidas derramadas nos pilotos, mas o insuportável vinha ao encontro de Leah, eu inventei um mal estar terrível e implorei que ela me levasse para casa, soubemos depois que o pódio foi de Edward Cullen, Fernando Alonso e James Hunter. Quem diria que uma simples corrida causaria tantas emoções, não é?


Minha cabeça latejava pelo maldito barulho dos carros na pista ao lado, engoli o último comprimido na tentativa burra de amenizar a dor, porque a merda do telefone tocou pela quarta vez no dia pelo mesmo motivo. Atendi só pelo prazer de dizer as mesmas palavras que Eleanor repetiu três vezes.

⁃ Elite Magazine, boa tarde.

⁃ Boa tarde, sou Victoria Sutherland, trabalho na McLaren* e procuro por Stephenie Hartford.

⁃ Lamento Victoria, mas a Senhorita Hartford não se encontra, gostaria de deixar recado? - torci para que dessa vez deixasse recado e parasse de ligar, estava me irritando.

⁃ Bem, dessa vez sim. Pode anotar um endereço e um número de telefone?

⁃ Claro. - AMÉM!

A coitada da Victoria Sutherland havia ligara tantas vezes que até eu fiquei com pena, deveria mesmo ser um assunto muito urgente para ligar quatro vezes num intervalo de poucas horas. Steph havia saído para fazer algo que não era da minha conta - não éramos íntimas a esse ponto, e a propósito, estava demorando demais e sobrecarregando a outra pobre da Eleanor. Eu anotava o que era dito quando chegou o que resolveria aquela encheção de saco.

⁃ Um minuto, Stephenie está aqui e vai te atender! - interrompi apressada, balançando os braços para chamar minha colega de trabalho que veio a passos largos. - É pra você, está te ligando faz horas, acabe com essa merda. - sussurrei, lhe passando o fio.

Não éramos íntimas, mas eu era fofoqueira e estava atenta a cada "sim" que ela dizia, todos em tons de voz diferentes e indicando muita animação e surpresa, parecia ser algo bom. Ela desligou e parecia ter um ataque de nervos, pulava no lugar feito uma criança, minha língua coçou para perguntar do que se tratava, e como uma heroína, Leah chegou sanando minha curiosidade.

⁃ Ganhou na loteria, Hartford?

⁃ Melhor, tipo, mil vezes melhor! Vocês não vão acreditar!

⁃ Se você não disser, não vamos mesmo acreditar. - ela disse impaciente, me perguntei o que poderia ser melhor do que ganhar na loteria.

⁃ Edward Cullen me viu no Meet, gostou de mim e quer sair comigo, isso não é surreal?!

⁃ Espera, o que? - Leah piscou algumas vezes, incrédula, eu estava boiando. - O campeão da McLaren*?

⁃ SIM! - Stephenie iria colapsar ali mesmo, sem dúvidas - Eu ainda não acredito! Ele estava na capa da revista da semana passada com Tanya Denali e hoje, está pedindo para a assistente me ligar?!

Minha memória estalou com os comentários e lembrei do casal recém separado que comentara com Jake, Angie e Alice quando estive em Forks. O rosto dela era inconfundível - principalmente depois que Jacob me jogou sobre interpretar minha personagem literária favorita -, agora o dele era um borrão, só o longo cabelo meio cobre era nítido... Voltei ao meu trabalho enquanto as duas conversavam sobre as chances de um piloto famoso e lindo olhar para uma de nós. Bem, eu diria que as chances eram de uma em um milhão, e Stephenie era o nosso um, os cabelos castanhos se moviam perfeitos juntos com os pulos de animação que dava.

O assunto na empresa era o tal Cullen da Mc Laren*, mas o único assunto que me atormentava desde o domingo, era o anel enorme daquela mulher. Não consegui contar nada a ela durante a corrida, nem no domingo, nem na segunda, e felizmente não tinha visto mais o autor da maior canalhice dos últimos tempos. Me sentia pisando em ovos, o coração de Lee era tão fino e sensível quanto uma camada de vidro, todo cuidado era pouco e por isso, pedi que fosse ao meu apartamento para conversarmos, eu faria sua comida favorita no intuito de tornar tudo menos dolorido, mesmo sabendo que era em vão.

⁃ Toc-toc!

⁃ Está aberta! - gritei da cozinha com a garganta seca, logo ela estava no meu sofá.

⁃ Refrigerante de uva, pizza de tomate, cheesecake de chocolate... O que você quer conversar? - ela parecia tão feliz, e eu me sentia pior, mas era agora ou nunca.

⁃ Hmm, precisamos conversar sobre o Uley.

⁃ Ah sim, Bells, está tudo bem, eu sei de tudo! - ela disse numa confiança que me fez desistir de continuar, talvez ela não fosse tão sensível assim - Eu sei que você o viu com a prima dele no autódromo.

⁃ Prima?! Foi isso que ele te disse, que era uma prima?!

⁃ Não é o que ele me disse, é a verdade... - a mentira mais idiota do mundo, Leah era mesmo uma bobona, caiu como um patinho feio.

⁃ Ok, coloque seu casaco, eu vou dirigir até a casa desse estrume.

Ela relutou e foi o caminho todo o defendendo com unhas e dentes, me mantive calada, segurando toda a raiva dentro de mim mais uma vez. Nada do que eu dissesse a ela faria com que acreditasse, e eu estava cansada de ser tão suave quando o assunto era Sam Uley, mas se ela visse com seus próprios olhos, era possível que fizesse efeito. Eles estavam juntos há anos, não conheciam a família ou amigos um do outro, não frequentavam lugares públicos, então não faziam coisas de namorados como ir ao cinema e sair pra jantar, dois anos nessa situação ridícula e Leah jurava que as coisas mudariam, que ele era bom. A verdade é que ele não queria ser visto com ela, independente se em restaurantes ou conhecendo amizades íntimas.

O tempo de Deus é perfeito. Estacionei na maldita casa e pedi que Leah ligasse, todas as luzes estavam apagadas, com exceção a do quarto no andar de cima com as cortinas abertas. Óbvio que ele não atendeu. Nós esperamos por alguma movimentação no cômodo aceso por alguns minutos, e isso veio. Um "Sammy" apareceu na janela rodopiando e dançando, logo veio o que eu esperava: a morena rodopiando junto com ele, os dois alegres e se divertindo. O rosto da minha amiga era inexpressivo, e aquilo pra mim bastava, bastava ela saber que ele mentia, mais uma vez o ditado "Nada é tão ruim que não possa piorar" aconteceu. Durante a dança, eles se beijaram e continuaram a dançar. Leah continuava inexpressiva, eu dei a partida no carro de volta em direção a casa dela, arrumei uma mala e voltamos ao meu apartamento. Ela não dizia uma única palavra, não questionou o motivo da mala ou reclamou de eu continuar dirigindo seu carro.

Ela desligou o celular, abraçou os joelhos no mesmo sofá que horas antes estava feliz e começou com um pequeno soluço. Naquela noite, vi nela o que ela via em mim em relação a Alec já fazia tempo: decepção, tristeza, solidão. Se alguém nos tocasse no nosso abraço, nós duas quebraríamos juntas. Leah estava no meu apartamento para não correr o risco dele procurá-la, e ele estava barrado de entrar na Elite, eu não tive nem a coragem de destroçar seu coração ainda mais dizendo que ele era noivo. E ela não estava sofrendo pelo o que ele fizera, estava sofrendo por ter se colocado naquela situação, por ter aceitado não conhecer amigos e familiares, aceitado não frequentar locais públicos, juntando as peças era tudo muito óbvio...

O resto da semana teve um clima estranho, a felicidade de Stephenie era contagiante, a indiferença de Leah era assustadora. Eu tomava nota de algumas coisas essenciais que ela esquecia por estar totalmente focada no designs das capas, como uma reunião importante que aconteceria dali uns dias. É claro que ela tentava melhor no sentido de sim, isso aconteceu e preciso seguir minha vida, mas tudo leva tempo. Na segunda-feira, os papéis pareciam invertidos: Clearwater mais leve, Hartford com uma carranca. Estávamos todas sentadas na grande mesa da sala de reuniões quando mais uma vez, Leah matou nossos espíritos de fofoqueiras.

⁃ E então, Steph, como foi com o Edward?

⁃ Uma merda. Ele não me ligou outra vez depois do sábado, e o encontro foi estranho. - alerta dor de cotovelo!

⁃ Estranho como? - mais um ponto pra Lee, detalhes eram essenciais.

⁃ Estranho tipo ele fazer uma cara de não era você que eu estava esperando ver, pelo menos ele é gentil, mas sequer me beijou! Dá pra acreditar?! - eu quis saber cada minuto do bendito encontro, mas a reunião teve de começar.

Não tinha mais chato do que ouvir sobre assuntos empresariais por horas e ter que fingir interesse. Como se não bastasse, a CEO da Elite dispensou todos, menos eu e Leah, sem dúvidas iria reclamar sobre o tempo que ficamos na copa fazendo pipoca no microondas nos últimos dias, pipoca era nosso ponto fraco.

⁃ Espero que não se importem de ter ficado, serei o mais direta possível.

⁃ Sem problemas. - sorri tentando simpatia, doida para ir embora logo.

⁃ Bem, algumas sedes da Elite estão enviando seus melhores funcionários para a matriz principal em Londres, vocês são as minhas melhores e pensei que gostariam da oportunidade.

Ela desenvolveu uma longa explicação sobre o motivo de nós sermos a escolhida, mas eu só assimilava uma coisa: Inglaterra. Me mudar de novo, ganhar mais. Me mudar de novo, puta merda. Os olhos de Leah faiscaram e ela não hesitou em aceitar - assim como eu fugi de Phoenix meses atrás, eu demorei alguns segundos para aceitar, e era necessário manter a oportunidade em segredo até que maior parte das coisas se resolvessem. Ficava tão longe de Forks, voltar pra casa seria mais difícil, mas eu era uma adulta, não era? E adultos tomam decisões difíceis, por mais que me sentisse adolescente a maioria do tempo. Ser adulto é uma grande porcaria algumas vezes.

De qualquer forma, Alice estava em Londres e conseguiu um novo apartamento que coubesse nós três. Não era irônico que eu tenha acolhido Lee no meu apartamento e agora moraríamos todas juntas? Porém, uma coisa era ter Leah por um tempo, outra coisa era ter Leah e Alice para dividir as despesas do mês. Eu gostava tanto da minha privacidade, então não sabia se aquilo era algo bom ou ruim, por enquanto era o mais seguro. Nós tínhamos poucas semanas para mudar, contei tudo aos meus pais por telefone e ambos respiraram aliviados por ter alguém da família no meio de tudo - como se Alice fosse a personificação de responsabilidade. A burocracia ficou toda com a empresa, felizmente. Ganhamos uma festa linda de despedida e mais uma vez fotografamos muito na minha câmera digital, uma grande choradeira em mais um fim de capítulo na história de Bella Swan.

Voltei a coisa toda de empacotar e fazer malas gordas, algumas caixas foram enviadas por encomenda à Ali num endereço que não era o dela. Esse é o endereço do meu amigo Jasper, a portaria funciona 24 horas, é mais seguro, foi a explicação fajuta que me deu. Leah embarcaria alguns dias depois de mim e Alice prometera me buscar no aeroporto, mas por algum motivo, eu estava nervosa. Mudanças são boas coisas, mas quando tudo acontece num espaço curto de tempo, acho que é normal você se sentir perdida, ansiosa.

Mais uma vez, a ansiedade era tanta que escutei músicas dos anos 80 durante todo o voo, cochilando poucas vezes, isso fez-me sentir exausta considerando as horas de viagem. Chovia tanto em Londres que me assustei, raios e trovões por todo lado. Alice não atendia minhas ligações e a água só aumentava, eu tinha duas malas grandes, uma mochila pesada nas costas, um celular descarregando e zero táxis no campo de visão. Para fechar com chave de ouro, o período menstrual resolveu dar sinais e me presentear com cólicas, a ansiedade não me deixou verificar ao certo se a cápsula dourada era mesmo minha medicação para cólica, para sono ou para a própria ansiedade, quando dei por mim já tinha ingerido.

Alice - 21:34 p.m

Estamos num Volvo XC60 preto, por favor, me espere chegar e não se enfie num táxi.

Impressionante como ela me conhecia. Não sei quanto tempo esperei, eu usava uma blusa que não dava conta e o frio estava me matando, seria ainda mais intenso quando eu pusesse a cara fora do aeroporto. Um Volvo roncou alto de propósito e piscou os faróis na minha direção, eu caminhei para ele sentindo os pés pesados quando dois homens saíram de dentro dele, correndo até mim e se ensopando na chuva. Um deles usava um capuz que cobria o rosto todo e pegou uma as malas com rapidez, já colocando dentro do carro, o outro apertou minha mão antes de tocar nos meus pertences. Educado.

⁃ Oi, Bella. Eu sou Jasper, Alice está no carro esperando você, prazer em conhecê-la. - ela abaixou rapidamente o vidro de trás e acenou, subindo de novo pela chuva densa. Hm, então aquele era o Meu amigo Jasper.

Eu agradeci sua gentileza de acompanhar minha prima na minha chegada, ele também colocou minha mochila no carro e entramos. Eu tremia de frio feito um filhote de chihuahua, e notei que era a única sem um casaco apropriado para o frio violento do Reino Unido. Alice quase estremeceu ao me abraçar e minha cabeça pesava, talvez tivesse tomado o remédio para dormir. Notei a organização do carro: o amigo Jasper no carona, Alice e eu nos bancos de trás, o encapuzado dirigindo.

⁃ Você está morta ou algo assim? Está congelando! - ela espirrou e fungou como uma princesa, eu teria feito como uma ogra.

⁃ O aeroporto estava num clima bom, não imaginei que o tempo estaria assim... Você parece... péssima. - falei grogue, sem saber se o nariz de palhaço dela era real ou minha imaginação.

⁃ Dê meu casaco Alice, está na mala. - enquanto ela se esticava para alcançar a peça de roupa, o motorista esquisiti tirou o capuz e parou no sinal vermelho. Vi apenas um borrão de cabelos ruivos num coque mal feito, sei lá.

⁃ Faremos uma comida especial de boas vindas hoje no meu apartamento, Alice disse que você adora legumes, certo Bella? O Ed também vai.

Naquela altura eu ouvia apenas sussurros e risadas, senti minha cabeça tombar e ser recolhida pelas mãos de Alice. Espelho, espelho meu, existe alguma moça mais tonta do que eu? Definitivamente tomei remédio para dormir e fui apagando aos poucos, como uma criança que se recusa a descansar. Estava tendo um sonho bom, onde um cheiro incrível de Ratatouille pairava no ar enquanto um anjo perfeito de olhos muito verdes me colocava sob lençóis quentes. Sonho ou alucinação, eram os olhos mais bonitos que já vira em toda minha vida.


Grand Prix*: Qualquer uma das séries de corridas (sessões de treinos, classificatórios e corrida) de Fórmula 1 realizadas para determinar o Campeonato Mundial, acontece em vários lugares do mundo. Exemplo: Grand Prix (GP) de Miami, GP do Japão.

McLaren*: Equipe de automobilismo competidora de Fórmula 1, é uma das equipes de maior sucesso que contou com Ayrton Senna.

Scuderia*: Empresa de automóveis para competições - contratação de pilotos e equipe especializada. Exemplo: Scuderia Ferrari.


Pois muito que bem, tivemos atrasos essa semana por motivos de: internet uma merda, faculdade e dia das mães, massss, prometo que no domingo posto sem falta (se Deus quiser e ele quer). E aí, gostaram do Edward de cabelo enorme? Porque eu amo hahaha
Vejo que tem muitas leitoras dos Estados Unidos acompanhando Getaway Car, um beijo brasileiro pra vocês, americanas lindas! E mais uma vez: obrigada por todas vocês lerem (independente de onde moram), significa muito pra mim! Um beijo e até domingo!