A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 3
A EXECUÇÃO DOS MORTOS
(...) Wrong, I know, killing someone
It gets a little easier when you've done it once
You know that I'm fun, you know that I'm young
So tell me your mind, let's get it on
Baby, you can see that I'm danger
Glamorous, but I'm deranged, yeah
Teetering off of the stage, yeah
I said it really nicely, so can you be my savior?
Is it wro-wrong that I think it's kinda fun
When I hit you in the back of the head with a gun?
My daddy's in the trunk of his brand new truck
I really want him back
But I'm flat outta luck (…)
(Kinda Outta Luck – Lana Del Rey)
Era verão em Ios quando o Regente foi executado.
O golpe que lhe fora deferido pelos soldados veretianos, logo após Laurent ser declarado rei, fora profundo o suficiente para fazê-lo sangrar durante uma tarde inteira, mas não para matá-lo.
Era dito, então, que os vasos do sul com a cerâmica mais vagabunda resistiam bravamente mesmo a uma queda ocasional de cima de uma ameia. Se porventura alguém quisesse quebrá-los de verdade, era necessário deferir um martelo de metal contra a curva bojuda de suas barrigas.
Laurent mandou que um médico akielon fosse ver o seu tio quando constatou que o Regente ainda respirava e, meia hora depois, o homem surgiu limpando a mão ensanguentada displicentemente em uma toalha como se deixasse um matadouro.
"Ele está no chão do salão ainda acorrentado e sendo vigiado pelos guardas, Majestade. A espada não atravessou nenhum órgão vital. O Regente viverá se cuidarmos dele. O senhor irá mandar um de seus homens terminar o serviço ou devo seguir com o protocolo médico?" — perguntou o esculápio, apresentando-se no Quarto Real em que Damen, semiacordado, era cuidado por Paschal e outros médicos.
Houve um momento de silêncio e Damen, tendo o seu ferimento estancado, procurou pelo olhar azul de Laurent que se sustentava frio, apesar do calor.
Uma sombra perpassou pelo azul cobalto das retinas do veretiano e pousou nele, assim como um pássaro agourento se empoleira no galho de uma árvore. Laurent, trajando ainda o seu quíton esfarrapado e manchado de sangue, por fim, decidiu:
"Cuide do meu tio. Faremos de sua perseverança em viver algo memorável. A sua resistência em deixar a vida será celebrada."
Paschal, que aplicava um unguento sobre o machucado de Damianos, voltou-se para fitar o outro médico com alguma lividez em seu semblante. Um arrepio humanitário talvez. A morte teria sido melhor para o Regente.
"Certo, Majestade." — respondeu o médico akielon, deixando os aposentos.
Após isso, Laurent se voltou com impessoalidade para outros problemas quantificados, os quais solucionava prontamente com a mente aguda de um proprietário.
"Reúnam o Conselho. Quero falar com todos amanhã na primeira hora do dia." — declarou Laurent para Audin e Mathe.
E, com a mesma voz limpa de emoção, ele se voltou para um de seus soldados:
"Avisem aos homens do norte em Karthas sobre o que se sucedeu aqui e diga para que venham ao nosso encontro. Precisaremos lidar com a resistência regional. Peça também ao mensageiro real que venha falar comigo. Preciso que ele rume imediatamente para Arles e envie um memorando."
Depois, Laurent retornou para a cabeceira da cama de Damen e se postou lá com uma fidelidade muda.
Naquela época do ano em Ios, os raios de sol intenso do início da tarde ferviam os mármores e lajotas dos salões e ressecava as copas das oliveiras, conferindo um tom amarelado e quebradiço às folhagens. A luminosidade adentrava as altas janelas abertas das sacadas compridas, misturando-se ao frescor marinho e salgado trazido pelo vento.
No dia da execução do Regente, alguns akielons se posicionaram de suas varandas pintadas de branco, prestigiando a execução anunciada como um grande evento.
Damen, semanas após a retomada de seu trono, se recuperava ainda do ataque de Kastor e já podia permanecer de pé com ataduras ainda circundando a sua cintura. Ele fizera questão de acompanhar Laurent que se mantinha em uma das sacadas da área norte do palácio cercada por muros altos e pavimentada com degraus baixos, trilhas sinuosas e murtas plantadas pela antiga rainha Egeria.
"Comunique a todos que a execução será um grande espetáculo! Convide os moradores das cidades vizinhas. Creio que Akielos poderá fornecer acomodações para os nobres de Kesus e de Isthima..." — havia declarado Laurent com um olhar injetado, após o julgamento do Regente conduzido pelo Conselho. Ele mirava algum ponto distante na sacada em que dois chapins azuis estavam empoleirados.
O Regente se recuperara bem de seu ferimento. Melhor até do que Damianos. O veretiano era um homem disposto a lutar para não ser expulso da vida, dissera o médico akielon. Sem dúvida, um homem notável. Era preciso Laurent conduzir as coisas da forma correta então. De forma notável.
O soldado que ouvira o comando dado por Laurent buscou o olhar de Damianos, inseguro se deveria proceder da forma que o príncipe de Vere determinava.
Damen, com um movimento de dedos, após observar longamente o rosto resoluto de Laurent, assentiu:
"É uma ordem."
"Entendido, Exaltado!" — declarou o soldado akielon, curvando a sua cabeça e se retirando do aposento, disposto a cumprir diligentemente o que lhe fora designado.
Laurent se manteve em silêncio, sentado na beirada da cama de Damen, observando o movimento suave das cortinas brancas e da luz fulgurante. Os braços dele envolviam as pernas dobradas num gesto muito infantil.
Damianos alcançou a mão do veretiano, beijando-a e dizendo laconicamente de um modo tácito:
"Eu estou aqui..."
"Eu sei..." — respondeu Laurent com o olhar absorto, perdido ainda na sacada e nos dois pássaros bicando figos muito maduros.
"Podemos conversar se estiver disposto..."
A arena tomada por perigos em que Damen e Laurent habitaram nos últimos meses era assustadora, mas havia, agora, a calmaria em que existiam e a verdade feia, submersa e cruel proferida pelo Regente no Encontro dos Reis agonizava.
Ela se mantinha como um assunto intocado e terrível que o akielon conhecia agora e que era real, a despeito de ele não poder tê-la percebido antes. A verdade era como um verme se esgueirando sob a pele dos fatos, revolvendo-se vez ou outra e alterando o ar ao seu redor e os humores de Laurent.
"Não há nada para ser conversado. É o que escutou. Preferia que você nunca soubesse disso se eu pudesse escolher, Damen..."
Laurent tinha uma curva diferente no canto dos seus lábios. E, com alguma tensão, ele desviou o olhar da sacada quando sentiu a mão de Damen tomando a sua com mais firmeza e beijando-lhe o dorso suave novamente. Havia um impulso forte de ele puxar a sua mão como se a sua fragilidade se evidenciasse, mas ele não o fez.
Laurent fechou os olhos, então, prendendo a respiração como se visse os fatos sob a luz branca de Akielos, sem disfarces. Ele não poderia lidar com a piedade de Damen e nem gostaria que ele o enxergasse de um modo diferente.
"Estou aqui, Laurent..." — insistiu Damen.
"É passado!" — declarou o veretiano com rispidez, encerrando o assunto — "Eu sou o rei de Vere agora e ele é um homem condenado."
Um silêncio se fez em que Damen se manteve segurando a mão de Laurent, sentindo-a rígida como se quisesse escapulir do seu aperto. Após arrastados minutos, o veretiano disse com a voz hesitante:
"Você disse que preferia morrer a estuprar Nicaise certa vez em Arles. Creio que aqui em Akielos isso seja um crime. Como os akielons lidam com molestadores de crianças...?"
Damen hesitou. Depois, respirou fundo, dizendo:
"Ele é punido até o dia da sua execução..."
Damen seguiu narrando, então, torturas que iam desde a surras distribuídas em turnos e xingamentos cruéis. Modalidades sutis ou violentas de causar dor e sofrimento ao criminoso. O akielon julgou ver um brilho mortiço no olhar de Laurent e fez menção de parar de falar, mas foi impelido a prosseguir. No fim, o veretiano determinou, aproximando-se da sacada para observar algo no pátio.
"Que se prossiga em Akielos com as leis akielons..."
Damen assentiu enquanto constatava que sentia medo da cólera de Laurent e do seu silêncio quando se fundiam em uma coisa só. Era como se a luz solar ao seu redor alcançasse uma intensidade fulgurante e isso se tornasse, imediatamente, o seu oposto. Se tornasse sombrio, não como se uma nuvem engolisse temporariamente o sol, mas como se aquela estrela alcançasse o seu ápice a ponto de precisar ir numa direção contrária, tocando as franjas da escuridão. O sol forte flertava com a cegueira.
Laurent disse então:
"Meu tio é um homem morto por dentro. Então, quero que os soldados o façam gritar. Não é fácil abalar alguém que não sente. Vou recompensar os que se esforçarem o suficiente para arrancar alguma reação dele..."
Damianos baixou o seu olhar escuro porque odiava também o Regente, mas o seu temor dialogava com uma preocupação genuína com o amante.
"Isso lhe trará paz, Laurent...?"
O veretiano deu de ombros, dizendo:
"Não estou procurando por paz, Damen. Já a encontrei. Nesse momento, só procuro por justiça..."
Sendo assim, no dia da execução, o Regente foi apresentado como um farrapo de algo que ele o fora e não era mais. Os soldados o trouxeram arrastado com a sua túnica vermelha amarrotada ainda envolvendo o corpo, mas com o restante das roupas puída e com manchas de sangue seco e recente. O acontecimento se daria, de fato, como um grande espetáculo.
Havia uma banda de música akielon; amêndoas assadas, fatias de melão e refrescos sendo vendidos por homens e mulheres em barracas; curiosos transitando, portando embrulhos e cestos. Nobres de Kesus e Isthima, respondendo ao convite em nome do rei de Akielos, hospedaram-se em estalagens suntuosas ou em quartos do palácio. Os guardas se mantinham como estátuas reluzentes batendo ritmadamente as bases das suas lanças no chão e convocando a todos. Convocando até mesmo os mortos.
O palanque se estendia no centro da praça com uma escadaria e um altar de madeira estruturado e, no seu centro, o carrasco afiava a sua espada reluzente ao sol.
Era alguém da realeza de Vere sendo executado, comentavam os moradores de Ios com a língua akielon de consoantes se trombando e intercaladas por um aspirar de espírito.
A despeito do desprezo que alguns cidadãos de Akielos podiam sentir por um estrangeiro que viera de Vere, persistia mais do que tudo o rancor pelo Regente haver confabulado contra o rei Theomedes e ter ameaçado a vida do príncipe Damianos. Não foi novidade as cusparadas venenosas que o Regente recebeu da população akielon enfurecida enquanto era arrastado até o palanque.
Assim como não foi surpreendente o olhar de desprezo dos homens de Laurent, que se mantinham na base do palanque, unidos aos akielons naquele ódio. Todos encarados pelo Regente como pessoas de categoria inferior; escória; baderneiros. Totalmente desacreditados. Os mais fracos que ele deixara para a Guarda do Príncipe enquanto levara os melhores homens para a sua Guarda.
Jord não sabia ler. Então, foi necessário que ele, representando a Guarda do Príncipe ao lado de Enguerran, decorasse as palavras que seriam proferidas.
Da sacada do palácio, com uma vista privilegiada da praça, Laurent e Damen observavam os preparativos da execução. Damianos trajava roupas akielons, mas Laurent, a despeito do calor, trajava as suas roupas alinhadas veretianas. Dos lóbulos das suas orelhas, desprendiam-se brincos de safira que brilhavam quando captavam algum raio solar do meio-dia. O brilho poderia ser visto a qualquer distância.
Quando o Regente alcançou o palanque, dois guardas forçaram com mãos rudes o veretiano a se ajoelhar e Damen constatou, com algum horror, que Laurent estava certo. A despeito da morte que o aguardava, das roupas maltrapilhas, dos hematomas e das torturas pelas quais passara, o homem se mantinha impassível. Os cabelos castanhos guardavam mesmo em si algum alinhamento e os olhos azuis pareciam indiferentes a tudo o que acontecia ao seu redor. A sua barba havia crescido, mas ele ostentava algum distanciamento daquilo como se nada pudesse penetrar a sua pele.
No momento em que Enguerran entoou a sua voz rouca, citando os crimes do Regente, um empurrão foi deferido contra o veretiano por um guarda akielon, que apontou para a sacada. Em seguida, o homem puxou para trás o cabelo do Regente, forçando-o a fitar em uma direção.
"Olhe para eles!"
Conforme Enguerran citava as atrocidades cometidas pelo Regente e um homem franzino ao seu lado, um estudioso da corte, traduzia as palavras para a língua akielon para que a plateia acompanhasse o discurso, uma torrente de vaias e palavrões se sobrepôs.
Os crimes enumerados eram extensos e hediondos. Mas o Regente chegou a mover o canto de sua boca em alguns momentos, parecendo entediado. Ele observou a aglomeração de akielons como um homem soberbo fitaria bárbaros. Ele escutou o discurso de Enguerran como se a narrativa lhe soasse maçante. Até mesmo o estudioso franzino, ele observou como se a qualquer momento pudesse corrigi-lo, oferecendo-lhe uma tradução mais apurada dos acontecimentos.
Todavia, o olhar azul do Regente, ao recair em Laurent, vacilou. A sua expressão desfaleceu quando viu o sobrinho de mãos dadas com Damianos de Akielos. Ele, o escravo. O rei. O homem que matara Auguste. O presente dado a Laurent na expectativa de que, mais cedo ou mais tarde, os dois se destruíssem mutuamente.
Não era esperado que Laurent e Damianos se embolassem em uma foda, feito dois animais desagradáveis no cio e prolongassem aquela experiência a qualquer tipo de acordo sentimental e estúpido.
A nobreza era sempre algo que fugia ao cálculo frio. O Regente não montara e desmontara Laurent de Vere para que ele, anos depois, pudesse sonhar com mundos fora dos muros de Arles ou das lembranças de seu quarto.
O Regente franziu o cenho, tomado pela raiva. Ele deveria ter atirado aquele putinho de algum penhasco em suas viagens quando teve a oportunidade de fazê-lo ou então, envenená-lo para que morresse junto ao seu cavalo favorito.
O sobrinho até que fora bom de cama. Por ser esperto, aprendia mais rápido do que alguns meninos estúpidos de Chastillon ou de Lys, mas ele crescera, tornando-se um homem com traços adultos. O Regente podia ter fechado as mãos ao redor do pescoço do menino enquanto ele dormia ao seu lado, anos atrás. Enquanto o fodia. Pelo menos, se o fizesse, ele não se tornaria feio e indisciplinado. Não teria sido alcançado pelo tempo. Não se tornaria uma dor de cabeça que o arrastara até ali. Laurent era uma decepção viva que o Regente não aguentava mirar. Um homem adulto. Um príncipe grotesco.
Quando Laurent o esquecera? Quando o substituíra por um bárbaro do sul?
Em que momento, o poder do Regente sobre o garoto findara, rompendo-se como uma corrente enferrujada tilintando no chão de pedra lavrada?
A perda de poder feria o Regente. Laurent não era importante. O domínio sobre ele, sim. Nenhum garoto era importante no fim das contas. Mas o controle era excitante. Era com ele que o Regente fodia no fim das contas.
E era em ânsia pela retomada desse poder que o Regente, secretamente, cuidara para que uma nuvem de gafanhotos devastasse o sobrinho e Damianos, deixando somente os seus ossos escarnecidos para a posterioridade. Havia ainda uma carta na manga do veretiano. Uma carta sequer sonhada por Laurent.
Como Damianos se sentiria quando a bela Estrela de Vere começasse a ser apagar?
A execução não era o fim.
Nesse ínterim, Laurent, observando ainda o evento, foi o primeiro a sentir a movimentação ao seu redor como o mormaço que emanava das pedras quentes ou o oscilar da paisagem sob o sol branco. Os soldados akielons ainda batiam com as bases de suas lanças ritmadamente no chão, clamando por justiça e barbárie.
Laurent sentiu, então, um peteleco suave na safira de seu brinco enquanto, sem entender o porquê, todos os pelos do seu corpo se arrepiaram. O veretiano chegou mesmo a ouvir um eco da risada que ouvira tantas vezes em Arles e não escutaria nunca mais porque quem a produzia estava morto.
Aquele fragmento do mundo dos mortos que era Nicaise se posicionou, então, na sacada, ao lado de Laurent. Ele se mantinha como partira. Com os seus olhos azuis e os cabelos castanhos adornados com uma tiara de pérolas. Braceletes de ouro se fechavam em seus braços e colares de pedraria, ao redor do seu pescoço delgado circundado por uma profunda marca. A túnica azul cobria o corpo pequeno de alguém que nunca viria a ser.
O homem que Nicaise se tornaria foi ceifado da terra, mas ele, como um espectro de um outro mundo em que garotos não eram interrompidos, atendeu ao chamado de Laurent. Ao chamado dos soldados akielons. O espetáculo era para todos.
"O que foi?" — perguntou Damen, percebendo um estremecer em Laurent e sentindo que a pele febril dele, rapidamente, tornava-se gelada.
Laurent, por sua vez, fitando o espaço vazio ao seu lado, sacudiu a cabeça, atribuindo à sua imaginação o que experimentara.
"Nada... Achei que tivesse ouvido alguém..."
A partir daí, acompanhando Nicaise, os outros mortos também vieram ver a execução.
Eles. Os garotos do Regente.
Inúmeros deles. Alguns quase da idade de Nicaise; alguns bem mais jovens. Eles se puseram a caminhar entre os akielons que protestavam, fitando o palanque e o homem que seria executado.
Os habitantes de Ios sentiram os pelos de suas nucas se arrepiarem, mas atribuíram o tremor à intensidade do momento; ao golpear das lanças dos soldados no chão, sacudindo as pedras, o solo, as serpentes sob a terra. O próprio mundo.
De trás da praça, cruzando as trilhas sinuosas de amendoeiras rodeadas por cabras, outros meninos, trajando roupas veretianas, vieram e atiçaram os cachorros que começaram a uivar em seu encalço, enxergando a fenda entre o mundo vivo e o mundo morto no horário de meio-dia. Abria-se, então, aquele outro plano em que o tempo não existia. Todos atendiam ao convite de Laurent de Vere. O rei.
Um garotinho loiro e de cabelos cacheados que deixava pegadas de água em seu encalço se voltou para trás, vendo algumas crianças chutando uma bola de cortiça e tentando acertar um caixote. Uma brincadeira akielon que ele talvez gostaria de ter brincado. Talvez, ele gostasse de fazer amizade com aquelas outras crianças.
Era possível que o menino Leon preferisse muitas coisas em vez daquele homem que gostava de garotos e que se livrava deles quando estavam quebrados; quando adoeciam; quando não lhe serviam mais. Quando se tornavam homens que queriam fugir. Ou quando aprendiam a revidar.
No momento em que Jord se pôs a entoar as palavras decoradas, ele falou uma frase que muitos entendiam somente parcialmente, mas ele entendia com um pouco mais de profundidade. Laurent, que havia escrito o discurso, entendi-a na própria carne e Damen estremeceu ao seu lado ao ouvi-la.
O verdadeiro matador de príncipes.
Nesse momento, o corpo de Jord se enrijeceu e ele experimentou um arrepio em sua espinha. No exato ponto em que os dedos do espectro de Aimeric lhe tocaram. Jord chegou a sentir a fragrância dos cabelos castanhos do homem que fora o seu amante e que ainda guardava em si.
Era uma recordação singular as noites em que os dois estavam deitados próximo ao fogo e o rapaz erguia os seus olhos muito verdes que sorriam junto com os seus lábios. Sorriam com o seu corpo inteiro.
O fantasma de Aimeric observou Jord como se, em vida, não houvesse o enxergado o suficiente. Mas agora o enxergava.
A sensação de presença do rapaz veretiano encheu, então, Jord de coragem.
"Você matou Aimeric! Duas vezes!" — vociferou Jord, finalmente, fitando o Regente diante de si, antes de prosseguir com o seu discurso — "Estuprador de meninos!"
A fala de Jord pareceu atingir o coração das pessoas ao redor que já estavam tomadas pela cólera, no instante em que o intérprete, com um olhar chocado, traduziu as palavras do veretiano para a língua de Akielos.
Imediatamente, uma torrente de vaias e gritos se fez presente na praça. Uma revolução. Algumas pessoas começaram a atirar objetos que tinham à mão no Regente, punindo-o pelo crime imperdoável de Akielos. O palanque foi tomado por pedras, cascas de melão, talheres dos nobres que deixavam as estalagens no horário do almoço, verduras das barracas que apodreciam sob o sol.
Foi nesse momento, então, que o Regente os viu. Desviando o rosto para não ser acertado por um garfo.
Primeiramente, ele enxergou a morte como um garoto muito bonito correndo entre as pessoas, parecendo brincar de esconde-esconde com outro. Serpenteando os homens que explodiam de perturbação.
"Velaine?!" — pensou o Regente, franzindo o cenho.
Mas não! Não fazia sentido algum porque o menino Velaine fora morto há muitos anos. Ele tinha certeza disso. Ele cuidara disso pessoalmente quando o garoto ameaçara contar para o príncipe Auguste, amigo seu e da mesma idade na época, o que o tio havia feito com ele por meio da força.
O Regente precisou dar cabo de Velaine. O rei Aleron o teria punido implacavelmente se soubesse da verdade na ocasião. O Regente cuidara para que um soldado fosse responsabilizado pela morte do menino. E ele vira Auguste soluçando no peito de Hennike quando Velaine foi enterrado.
Certamente, o Regente estava alucinando devido ao forte calor daquele país desgraçado e selvagem. Sem dúvida, estaria.
No entanto, no instante em que moveu o rosto em direção a Jord, o veretiano, sem erro algum, viu Aimeric com o seu olhar ininterrupto e vicejante. Afastando-se com o choque, o Regente observou novamente a sacada, então, e viu ao lado de Damen e de Laurent, inconfundivelmente, Nicaise.
Talvez, fosse porque ele estivesse muito próximo do precipício da morte. Talvez porque, no fim da vida, um homem era obrigado a rever todos os seus feitos. Talvez porque as almas precisassem fechar ciclos. Ou talvez ainda porque os mortos tivessem a sua própria justiça. Não importava o porquê, mas o Regente, de fato, os viu.
O Regente escancarou, então, a boca e se pôs a gritar, fitando a sacada do palácio. Em seguida, ele gritou mais alto ao se deparar com um menino de pele morena e cabelos escuros brincando com a corrente do altar no palanque, ao lado de outro garoto idêntico. Ele os conhecia.
Tratava-se dos gêmeos com o sangue imperial de Vask. Os dois meninos estavam mortos. No entanto, com as suas expressões assombrosas sob o sol branco, eles se puseram a cantar uma melodia que arrepiou o corpo do veretiano, a despeito do mormaço.
O tremor experimentado pelo Regente era desagradável. Tal qual como se um verme se movesse debaixo da sua pele, forçando nervos e veias até que se rompessem.
Foi necessário um soldado enfiar um trapo na boca do Regente para que Jord finalizasse o seu discurso. E, com alguma inquietação, Damen viu o tio de Laurent, com os olhos esbugalhados, produzir grunhidos guturais, fitando o seu entorno com terror.
Damianos se mantinha segurando a mão de Laurent, que fitava a conduta do Regente também com alguma surpresa.
"Ele está finalmente sofrendo?"
Damen observou o homem tremendo no palanque, após mirar Jord e se encolher um pouco mais quando fitou a multidão. O seu rosto era uma careta de pânico.
"Talvez ele tenha podido, finalmente, enxergar a pessoa que ele é..." — declarou Damen.
Minutos depois, a sentença foi anunciada.
Ver alguém ser executado nunca era bonito. De fato, era bárbaro e não havia honra nisso. Mas Laurent havia sido machucado em instâncias da alma que só ele conhecia, tornando-o estoico e embotado dentro de si mesmo.
Damen também nutria uma profunda aversão pelo Regente e ele nunca se esqueceria do que fora dito no Encontro dos Reis. Talvez o que mais lhe machucasse naquele ponto fosse o jogo prosaico de palavras; o modo como o Regente, um homem de quarenta e tantos anos, fazia parecer que Laurent desejara aquilo em vez de ter sido terrivelmente manipulado. O Regente era o adulto que tirara proveito da inocência de um sobrinho que amargava ainda a perda de um pai e de um irmão. Era abjeto.
Nem Damen e nem Laurent eram nobres o suficiente para perdoá-lo. Ele precisava morrer.
Era bem provável que houvesse uma justiça mais eficaz e menos bárbara. Era possível que um homem pudesse ser entregue a uma ordem dos fatos mais evoluída de causa e consequência determinada por deuses. Mas mesmo naquele sol brilhante de Akielos, havia sombras e era ali que as coisas se dariam.
Nicaise olhou, então, demoradamente para Laurent de Vere. Para o seu rosto resoluto. Ele sempre admirou a força do príncipe, a sua inteligência e pensava que, quando se tornasse um adulto, gostaria de ser como ele. Gostaria muito de se parecer com Laurent de Vere. O rei que tinha o brasão da estrela.
Após arrastados segundos, Nicaise partiu.
Ao ter a sentença anunciada, o Regente, com o corpo trêmulo e fitando ainda os fantasmas dos meninos que ele destruíra, foi arrastado até o altar e a sua coluna foi forçada para que ele se debruçasse numa mesa de pedra que estava já assando pelo calor.
Ao baixar o seu olhar, o Regente se deparou então com ele. Com o último menino que matara.
Nicaise, deixando a sacada, se aproximara da bancada e, com o seu rosto bonito, sorriu-lhe.
Os meninos, diante do palanque agora, mantinham-se enfileirados com os olhos concentrados no espetáculo. Eles batiam os pés no chão, assim como os soldados batiam as pontas de suas lanças no solo fervente.
O guarda forçou o Regente a se manter quieto, ignorando os seus espasmos de medo que eram atribuídos ao terror pela própria morte e, de certo modo, era.
Nicaise, então, tomando um dos objetos que havia sido atirado pelos akielons no Regente e estava caído sobre o palanque, fechou-o em sua mão.
O Regente arfava quando teve a sua cabeça apoiada na pedra quente, sendo acometido por uma verdade incomensurável.
A vida e a morte eram incoercíveis, indômitas e insopitáveis. Nenhum homem poderia governá-las feito um cortesão manipulando um escravo acorrentado. E essas duas forças, como duas irmãs aviltadas, não esqueciam uma ofensa.
O trapo foi arrancado da boca do Regente, encharcado e imundo. E o veretiano gritou bem antes que a espada do carrasco caísse em seu pescoço, separando a sua cabeça do corpo.
Ele gritou quando Nicaise enfiou um garfo prateado em sua perna sob a bancada.
Gritou até o carrasco descer, então, a lâmina, produzindo o ruído agoniante de metal e pedra faiscando.
A cabeça do Regente rolou. E Laurent acompanhou com o olhar ela quicar nos degraus, indo parar no pé dos seus homens enquanto vozes akielons gritavam. Os olhos azuis ainda estavam arregalados, fitando a morte. Fitando Nicaise.
Os soldados ergueram as suas lanças no ar, bramindo a queda de um homem.
Após a execução, a cabeça do Regente foi colocada em uma lança e exposta no caminho dos traidores de Ios. Não demorou muito para que as moscas a encontrassem, zumbindo ao seu redor.
Os dias se passaram e Jord, quando passou pela ruela, observou a pele putrefata com tons arroxeados, a boca escancarada e os olhos vítreos do homem que um dia sonhara reinar sobre Vere e Akielos. Suportando o mau cheiro, Jord ergueu a sua caneca cheia de vinho na direção do Regente, murmurando para si mesmo:
"Descanse em paz, Aimeric..."
E Aimeric, que permaneceu mais alguns dias em Ios como se houvesse sido dado aos fantasmas um período de férias, encostou a cabeça no ombro de Jord.
As outras crianças também permaneceram um tempo na cidade estrangeira, preenchendo os espaços entre os mercados e as pedras banhadas pela espuma do mar.
No início, o latido dos cachorros era ensurdecedor e contínuo, mas, com o tempo, os animais se acostumaram com aqueles meninos que não estavam mais ali, mas estavam. Os anjos que usavam roupas estrangeiras. E os bichinhos, depois de alguns dias, até abanavam o rabo, recebendo o carinho dos veretianos que estavam na idade de sonharem em ter um cachorro.
Os fantasmas brincaram nos balanços de madeira montados próximos aos penhascos brancos e das elevações de calcário. Subiram nos galhos das oliveiras e, vez ou outra, brincavam com os vivos, atirando azeitonas nos transeuntes. Certa vez, um fruto acertou a nuca de Nikandros e após tateá-la, o akielon olhou ao redor, procurando pelo responsável.
Havia um farfalhar entre os ramos da árvore, mas a tarde se mantinha silenciosa e vazia. O akielon rumou, então, para dentro do palácio, atribuindo o fato a um mistério.
Nicaise se divertia, dançando com Velaine uma música local akielon entoada pela flauta de um pescador. Um garoto girava o outro diante do horizonte de azul estridente e do azul esverdeado do oceano. Eles riam abraçados como crianças, aceitando a desordem de seus passos e se pondo a rodopiar novamente. Perto deles, uma fileira de cardumes com escamas prateadas era retirada da água e exposta em tapumes. Os trabalhadores prosseguiam com os seus serviços braçais, alheios aos visitantes.
Vez ou outra, no entanto, um morador de Ios mais sensitivo ou que estava próximo da morte via as crianças com roupas veretianas passando correndo pela multidão. Uma jovem chegou a deixar o seu jarro bojudo de cerâmica cair no chão, espalhando refresco de laranja sobre as pedras quando os sentiu. Ela estava gelada.
"A corte do rei de Vere foi trazida para Akielos?" — perguntou uma senhora de rosto muito enrugado e cabelos totalmente brancos, acenando para um menino de pele leitosa do outro lado das barracas de fruta.
"Creio que não se trate disso, vovó..." — murmurou a jovem, prendendo a respiração e com olhos injetados, observando o veretiano desaparecer na multidão.
No fim de uma semana, o tempo de exposição da cabeça do Regente se tornou um tópico recorrente no palácio de Ios.
"Exaltado, já foi cumprido o tempo de exibição. Devemos remover a cabeça do Regente de Vere da estaca do caminho dos traidores?" — indagou um soldado durante o café da manhã.
Laurent estava sentado à mesa com Damen, que já se recuperava quase totalmente do seu ferimento. O veretiano levava uma rodela de damasco à boca do akielon e riu quando ele o puxou para um carinho mais efusivo, mergulhando o rosto em seu pescoço.
A interrupção fez com que Damianos não respondesse ao guarda e deixasse a decisão para Laurent tomar.
"Não. Deixem-na lá por mais um tempo..."
Damen, então, fez o gesto com os seus dedos, deliberando:
"É uma ordem, soldado!"
Então, a cabeça foi deixada exposta por mais uma semana.
A ruela que era o caminho dos traidores se tornava mais fétida a cada dia e houve uma profusão de moscas naquela área. Os poucos mercadores que precisavam passar por ali enrolavam tecidos ao redor do pescoço, puxando-os até o nariz. Alguns desavisados se curvavam sobre o calcário, sentindo a bile lhes invadir a garganta e vomitando. Os vermes, recém-nascidos dos ovos postos pelas moscas, já comiam parte do rosto do Regente.
Para os fantasmas, contudo, isso não era um problema e o garotinho loiro de cabelos cacheados passava correndo por lá bastante vezes, acompanhando com o olhar uma pipa que era içada de uma encosta e movia-se ao sabor do vento fresco do golfo de Atros. Definitivamente, ele gostaria muito dos brinquedos de Akielos.
Nicaise também passava pelo caminho dos traidores algumas vezes e o seu olhar se demorava na cabeça empalada do Regente. Depois, dando de ombros com um gesto de desprezo, de superação, ele ia procurar Velaine para dançar sob o luar.
A recusa de Laurent em aceitar que descessem a cabeça do Regente da lança se demorou por mais algumas semanas. No fim, quando o rei de Vere estava sentado à uma mesa jogando um jogo akielon com Damen, o soldado insistiu:
"Majestade... Não restou muito da cabeça... Os mercadores estão reclamando do fedor..."
Laurent, erguendo os olhos azuis da peça de vidro em seu tabuleiro, indagou:
"Não é possível colocar a cabeça em um saco e dar para as crianças chutarem como se fosse uma bola daquele jogo de Akielos?"
O soldado, com uma expressão atordoada, após trocar um olhar com Damen, declarou:
"Não sobrou muito da cabeça, Majestade... E o cheiro é insuportável..."
Laurent respirou fundo, dizendo:
"Livrem-se dela amanhã então. Mas não a enterrem."
O soldado, como de costume, fitou Damen, esperando o movimento dos dedos e o seu comando.
"É uma ordem..."
Depois disso, no dia seguinte, a cabeça do Regente foi descida da estaca e se livraram dela.
Na véspera, no entanto, as crianças mortas fizeram a sua última celebração. Os fantasmas haviam estabelecido no caminho dos traidores uma competição de quem acertava as laranjas num círculo desenhado no chão de terra, fazendo rolar de dentro os damascos verdes dispostos.
As regras foram estabelecidas por alguns garotos mais velhos que vieram de longe. Tratava-se daqueles que foram dispensados pelo Regente quando alcançaram a maturidade, sendo entregues à própria sorte. À má sorte.
Depois, todos fizeram uma segunda disputa. Uma competição de dança dentro do círculo, ouvindo a música akielon que era trazida pelo vento do mar e fazendo uma coroação simbólica dos melhores.
Tharname, um dos garotos mais velhos que fora um empregado dos vinhedos de Belloy antes e após ser levado para Arles, movia os pés com habilidade, batendo palmas. Velaine seguiu o ritmo, girando o seu corpo como lhe foi ensinado na corte de Vere. E Nicaise movia os quadris e os braços até o chão, erguendo o seu dedo médio no ar enquanto o Regente era devorado por vermes gordos e famintos que já desnudavam os ossos.
"Executado!" — riram-se os garotos, com as mãos diante da boca e fazendo uma reverência debochada ao substituírem a palavra Exaltado enquanto alguns cachorros que atravessavam a ruela coçavam as suas orelhas ou latiam para o nada.
Aimeric, sentado em um muro de pedra baixo, observava desaparecer aos poucos o rosto do homem que, erroneamente, julgara amar um dia. Observava como se aprendesse algo disso. Da mesma forma que, em vida, observava a movimentação de espada dos soldados, procurando entender o mecanismo hábil do ataque e da defesa. Do cair e do se levantar.
Quando a cabeça foi descida, os soldados, com panos enrolados nos narizes e nas bocas, carregaram o que sobrou de um homem que um dia se julgara grande demais. Um dos guardas akielons quase escorregou, transportando aquela carniça horrenda ao pisar em alguns damascos verdes largados ali e praguejou, jogando longe o que sobrara do Regente.
Havia o temor asqueroso do homem em tocar, por acidente, a cabeça depredada. Da poeira do chão quente, os olhos azuis do veretiano, sem vida como sempre foram, fitaram o vazio que também sempre fora parte indissolúvel de si.
Depois, a cabeça foi queimada e as crianças, finalmente, deixaram a cidade de Ios. De mãos dadas, algumas seguiam para o mar.
Outras saltitavam pelo caminho dos portões, brincando com o sino pendurado nos pescoços das cabras ou chutando as amêndoas pelo caminho, replicando a brincadeira que viram em Akielos.
Aimeric, que não era mais uma criança, mas morrera preso naquela condição, despediu-se do homem que o notara. Certa manhã, ele se curvou sobre um adormecido Jord, depositando um beijo na maçã do seu rosto. Segundos depois, Jord acordou sobre a sua cama de palha, sentindo o vento fresco de Akielos adentrar o seu quarto e sentindo o perfume de Aimeric.
Nicaise, ao partir, não atiraria uma azeitona em Laurent, mas mirou uma no escravo ao seu lado, acertando-o em cheio na testa quando o akielon já fora autorizado pelo médico a deixar o seu quarto e a fazer breves caminhadas pelo jardim.
"Ai!" — queixou-se Damen, levando a mão ao rosto.
"O que foi?" — indagou Laurent, tateando o seu ombro e olhando ao redor.
"Algo me acertou..."
O veretiano se ajoelhou e tomou a azeitona que rolara sobre as pedras em sua mão, fitando um movimento discreto entre os galhos das árvores.
"...Há algum tempo, Nikandros me contou que uma dessas o acertou. Pode ser algum pássaro..."
Laurent, no entanto, estava parado, mirando a oliveira com o fruto ainda em sua mão. O seu olhar se demorou entre as folhagens atravessadas pelo sol branco e ele sentiu que o seu coração se partia e se tornava muito leve ao mesmo tempo.
De pé no galho da árvore, Nicaise olhou longamente Laurent uma última vez. Depois, ele deu as costas para o mundo dos vivos, desaparecendo no mundo dos mortos e partindo para o lugar onde príncipes, que eram todos os meninos, iam. Ele partiu para o espaço em que não havia dor e depredação. Nem juras falsas de amor. E nem traições ou punições.
No dia seguinte, todos os mortos haviam desaparecido da cidade. E Ios se tornou um lugar silencioso. Exceto pelos cães que uivavam a saudade leal dos animais.
As crianças seguiram o seu caminho.
E o Regente seguiu pela sua terrível estrada que não se encerrava com o último suspiro em vida e nem com a última mordida das pragas de mosca.
Também, os vivos seguiram o seu destino.
E a vida continuou.
Assim como deve ser.
(cut)
Demorou em torno de meia hora para Laurent se reerguer de sua cama, descolando-se do estado tenso e retraído no qual fora atirado.
A sua respiração, subitamente, parecia contraída pelas vestes suntuosas, como se os fios o retivessem engessado dentro de uma casca, de um casulo ou de uma armadura. O seu mundo estava ruidoso enquanto um arfar ondulante movimentava o seu corpo, a sua bacia, o seu peito.
Talvez o ar lhe fugisse. Talvez estivesse morrendo.
Levando a mão à garganta e a deslizando por seu peito, o rapaz sentiu os ilhoses e babados se entrelaçando em seus dedos. A sua fronte estava úmida, apesar do frio de Vere e ele se antecipou em encher um copo com água para tomá-lo de uma só vez.
Laurent sentia a sua boca seca e, sozinho em seu quarto, ele não sabia o que fazer. Mas havia algo a ser feito.
Damianos.
Quando mandou chamar Isander, Laurent ostentava os cabelos desalinhados e se mantinha de pé com as mãos apoiadas na cornija da lareira, imerso em impaciência e autocensura. O quarto estava afundado em escuridão e friagem porque a noite caíra e Laurent não mandara chamar os serviçais para acenderem o fogo.
Minutos depois de deixar o aposento a mando de Laurent, Isander retornou novamente com os seus olhos bondosos e munido, dessa vez, de um lampião, anunciando com a cabeça curvada em um gesto humilde:
"O Exaltado foi visto rumando para o jardim recém-construído. Ele dispensou os seus homens e avisou a todos que não queria ser incomodado. Devo ir buscá-lo, Majestade?"
Laurent fez um gesto com a mão, de dedos levantados. Ele aprendera o movimento quando estivera em Akielos e percebera que sentia uma movimentação própria, estranha no seu corpo quando via Damen exercendo a sua autoridade com a displicência dos que nasceram para governar.
"Não. Eu mesmo vou buscá-lo. Diga a todos que me atrasarei, Isander..."
E Laurent deixou os seus aposentos, passando pelos guardas com lanças apoiadas no chão e fazendo o caminho que fizera algumas vezes com treze, catorze anos quando o mandavam chamar. Ele sentia a sua ansiedade ondular com as camadas do medo.
O veretiano pestanejou os seus cílios claros, apoiando-se em uma parede. Ele estava tendo uma crise de algo invisível e temerário?
A área suntuosa que compreendia o antigo Quarto Real, ocupada prontamente pelo Regente após a morte do rei Aleron, fora demolida.
Móveis foram arredados e doados. Quadros foram vendidos em leilões. Paredes haviam sido derrubadas, revelando os seus esqueletos de tijolos e vigas por trás de tecidos e reboco. Os pisos foram esmigalhados e as cortinas, arrancadas das sanefas e dos ganchos com mãos brutas.
Marretas haviam destruído a lareira e roupas haviam sido cortadas com uma tesoura afiada até sobrar somente os retalhos que foram atirados ao fogo. A seda queimou até a última cinza.
As janelas foram alvejadas com pedras como se os homens realizassem uma disputa para ver quem acertava mais vezes o vidro colorido atravessado pela luz solar. Os tapetes foram enrolados em serpentes grossas que voaram pela sacada, caindo no gramado com um ruído macio. As maçanetas das portas com a flor-de-lis em safira sofreram ataques truculentos enquanto as portas tinham a sua madeira partida com picaretas.
Por fim, a cama do Regente foi quebrada; os lençóis e tecidos, cortados com navalha; o colchão sofrera golpes assassinos de espadas que levantaram penas de ganso no ar como uma neve prematura. Depois, quando os destroços não podiam ser mais reduzidos, finalmente, foram todos queimados.
Não fora desocupação. Fora depredação.
Afinal, Laurent costumava visitar aqueles aposentos antes mesmo do Regente desonrá-lo. Em um passado distante. Laurent o visitava quando os seus pais e Auguste estavam ainda vivos.
O rei Aleron era um homem ocupado e não se importava que os seus dois filhos passassem algum tempo no Quarto Real, acompanhados de alguns escravos.
Juntos, os príncipes de Vere montavam quebra-cabeças durante tardes chuvosas e brincavam com os cavalinhos e soldados sobre um tabuleiro aberto no carpete. Auguste aceitava, como um atencioso irmão mais velho, colorir os desenhos que Laurent trazia nos seus livros ilustrados dentro de uma malinha e, juntos, eles praticavam a língua de Patras, rindo e corrigindo a pronúncia um do outro.
"Você fala patrano melhor do que eu, Laurent. Eu sou devagar para as línguas e para as artes. Tive um amigo chamado Velaine que não parava de rir de mim por conta disso." — falou, certa vez, Auguste, procurando uma palavra em seu dicionário.
Às vezes, Aleron vinha para o quarto acompanhado de seus cachorros grandes e estabanados que pisoteavam os mapas e os soldadinhos, enfiando os focinhos na bochecha de Laurent e na cara de Auguste. E, rindo, acariciando as orelhas de seus cães, o rei brincava com os seus dois filhos. Ele era um homem adulto. Preocupado com o destino do seu reino. E Auguste já estava há muito na idade de deixar os jogos de criança de lado. Mas havia Laurent muito jovem. Então, eles brincavam.
Por fim, Hennike voltava da biblioteca e se juntava à conversa, sendo rodeada como uma ilha pelos cachorros com rabos eufóricos. Ela conversava longamente com o rei e com o filho mais velho sobre assuntos sérios e políticos que Laurent não conseguia acompanhar na época. Algumas vezes, ela se sentava próximo ao fogo, com a cabeça do pequeno Laurent apoiada em seu colo e cantarolava baixinho até que ele dormisse.
"Meu príncipe..." — murmurava ela, deslizando o dedo comprido pela maçã do rosto do menino.
Laurent se recordava ainda da surpresa que sentira quando vira pela primeira vez o Regente refestelado na cama que fora de seus pais. Ele se deteve na porta do quarto, observando um outro menino com um roupão jogado por cima de uma camisola de seda deixar o aposento com os olhos baixos.
"Leve-o para Paschal..." — ordenou o Regente, dirigindo-se a um guarda.
Laurent fitou o menino deixar o corredor, parecendo trêmulo e vacilante. Um pouco trôpego.
Aquilo também era depredação.
Por isso, quando Laurent retornou para Arles, após ser coroado rei em Marlas, ele não quis mais aquele maldito quarto. Ele não queria nunca mais pisar nele.
Há muito, ele soubera que os retratos pintados do rei Aleron, da rainha Hennike e do príncipe Auguste haviam sido destinados ao fogo pelo Regente. Sobrara somente um quadro de família. E isso era a única coisa que ele salvou daquela ruína que o Regente deixara. Depredação.
Laurent precisara ressignificar aquele espaço. E, sobre o esfacelamento, ele ergueu novos contornos.
O rei veretiano, afogado em ansiedade, alcançou um dos arcos de pedra que levava ao recém-construído jardim. Aquele que ele gostaria de ter apresentado a Damen com tempo e com palavras pensadas. Ruborizando mais a cada frase proferida. O lugar em que ele erguera uma biblioteca em que escravos libertos, filhos de soldados e cidadãos aprenderiam a ler e a escrever.
Na antiga ala dos aposentos reais maculada pelo Regente, Laurent mandara que erguessem pilastras brancas. Com livros ilustrados, o veretiano dera instruções, ordenando aos construtores que replicassem o que lhes era apontado e pavimentassem o chão com mármore.
Laurent lhes ordenou que seguissem esculpindo estátuas brancas e não pintadas expelindo água fresca em fontes com flores boiando na superfície. Havia mudas e pés de laranjeira envolvendo a praça com a sua fragrância cítrica. Havia colunatas sombreadas e prédios erguidos com a arquitetura de Akielos. Os canteiros eram acarpetados por flores brancas.
Laurent prendeu a respiração quando viu Damen sentado em um caramanchão de mármore, conversando com uma mulher.
Damianos estava com os ombros arriados e não parecia ostentar uma expressão melhor do que quando ele deixara o Quarto Real. A jovem, no entanto, uma mulher de seus vinte e poucos anos, com roupas de festa e cabelos escuros soltos, lhe sorria. Ela estava de pé diante do akielon, meneando o seu rosto bonito.
O rei de Vere franziu o cenho e se aproximou de Damen, sem pensar. Sem planejar. Sem racionalizar. E ele não deu tempo da jovem lhe cumprimentar com profundidade ou de ela se anunciar.
"Saia!" — decretou Laurent, vendo Damen encará-lo como se não o esperasse ali.
A jovem escancarou a sua boca e com um movimento cortês de seu vestido, deixou o jardim, sem olhar para trás, mas com os olhos ainda arregalados.
Damen pareceu confuso quando viu Laurent se sentar ao seu lado, demonstrando aborrecimento e suspirando com pesar.
"Achei que quisesse ficar sozinho..."
"Eu estava sozinho..."
"Você e as suas putas patranas, Damiamos... Gosta tanto assim de montar nelas?"
Damen moveu o rosto com surpresa.
"Eu não estou com patrana nenhuma! Aquela mulher se perdeu de seu marido no palácio e acabou vindo para o jardim errado. Eu só estava lhe explicando o caminho de volta..." — e, diante do olhar faiscante de Laurent e de sua pequena narina que se dilatava, ele acrescentou — "Eu não sou um animal no cio! Acha que depois do que aconteceu, eu iria minutos depois flertar com uma mulher em seu reino, Laurent?"
"Nosso reino!"
"Seu reino! Não somos casados. Você não quer isso. Você não me quer..."
"Ah, Damianos, eu nunca disse que não o queria... Eu apenas disse que não conseguia responder às suas palavras naquele momento... Acha que eu não o quero? Por que acha que eu tentaria replicar um pedaço de Ios em Arles?! Como acha que lido com a falta que você me faz quando estamos afastados? Acha que me deitaria com alguém por quem não sentisse algo?!"
Damen tinha os olhos vermelhos e passou a mão por seu rosto.
"Mas você está esquivo, Laurent! Por favor, me ajude a entender o que está acontecendo. Você se retraiu quando eu falei sobre nos casarmos, mas depois deu a entender que eu era o homem da sua vida. Depois, quando eu disse que te amava, você mal conseguia falar... Eu estou confuso... Eu devo me afastar? Você quer encerrar a nossa relação...?"
"Não!" — declarou Laurent, com um olhar apreensivo, envolvendo os seus dedos pálidos no braço de Damen — "Por favor, eu não quero isso..."
Laurent sentia as palavras criarem um zumbido estranho em seu ouvido. Seu coração doeu. Ele nunca fora cortejado. Ele nunca namorara. Ele nunca tivera uma relação rompida daquele modo. O seu mundo parecia estranho agora quando o imaginava sem a presença de Damen. Como seria aquele arranjo? Tornar-se-iam amigos que se veem em cerimônias reais e estabelecem reuniões uma vez por ano? Tornar-se-iam reis unidos pela aliança de Vere e de Akielos apenas, sem qualquer outro envolvimento?
Damianos removeria o bracelete dourado de seu pulso e ele se veria obrigado a fazer o mesmo? O seu nome não seria mencionado nos cânticos akielons quando cantassem as façanhas de Damianos de Akielos e o nome de Damen nunca seria escrito nos registros veretianos? Tudo o que possuíam desaparecia no ar como bruma... Era assim que os amantes morriam? Tornando-se um fantasma pálido da realidade fulgurante que foram um dia?
Damen se surpreendeu quando Laurent o abraçou, se aninhando em seu peito. E com mãos hesitantes, o akielon acariciou as mechas de cabelo loiro do rapaz sobre as quais a luz do candeeiro tremeluzia. Laurent também tremia levemente.
"... Por favor, eu não quero que nos separemos, Damen..."
O rei de Akielos envolveu o veretiano e insistiu:
"Me diz, então, o que está havendo, Laurent... Eu estou aqui..."
Laurent ainda estava preso no impacto do vislumbre de perder Damianos. Aquele medo sobrepunha o anterior.
Há dois anos, quando Damen se apresentara diante dele finalmente como o príncipe Damianos de Akielos em Fortaine, e eles discutiram com virulência, Laurent, deliberadamente, se afastou. Havia uma infantilidade de sua parte quando ele pensara que pudesse fazer isso, após eviscerar um pouco o rei de Akielos com as suas palavras e Damen sair de sua presença furioso e destruído ao mesmo tempo. Laurent percebeu isso pouco tempo depois, quando designou um soldado para que descobrisse se Damen estava recebendo escravos de prazer em sua tenda.
Por que Laurent precisava saber se Damianos tocaria com entrega, com esquecimento, com abandono outro corpo, após haver tocado o seu? Era possível que ele precisasse de carinho e de doçura. Era possível que Damen precisasse dos escravos bem treinados de Akielos para lamberem as feridas que Laurent abrira com os seus cascos rudes.
O que significava em meio a uma guerra travada com o Regente, Laurent precisar investigar os atos libidinosos de Damen? Damianos era um homem viril que montara várias das garotas de Halvik, uma após uma. As vaskianas só faltaram organizar uma fila, esperando pelo pau de Damianos entrando em suas bocetas. Na escuridão, quando se afastara da líder do clã vaskiano, Laurent se manteve próximo ao fogo, observando de longe o movimento da carne; dos quadris; os gemidos. A boca de Damen escorregando de uma boca para outra.
Mas naquela época eles não eram amantes. Agora, em Fortaine, o eram?
Laurent experimentou o ciúme, sentindo-o amargo. Os homens, quando enjoavam dos garotos, os substituíam rapidamente. Damen haveria, certamente, de tomar outro amante. Ele estava enfurecido e decepcionado com Laurent. O príncipe frígido de Vere. Ele o esqueceria com sexo, violência, silêncio e melodia naqueles dias da arena.
"Alteza, eu interroguei um guarda akielon. Não foi fácil obter a informação dele porque os akielons não querem conversar com os veretianos. Mas ele disse que Damianos não está recebendo escravos de prazer em sua tenda. Uma escrava foi levada até ele, mas Damen a mandou embora, dizendo que não desejava ninguém..."
Laurent dispensou o soldado, sentindo as suas bochechas arderem. Depois, um sorriso estúpido se desenhou em seu rosto e ele se indagou se estava se tornando cretino como a maioria dos homens que conhecia.
Foram duros aqueles dias sem Damen. Solitários. E cretinos.
Algum tempo depois, rumando para Karthas, Laurent, enquanto estudava o mapa com as suas fronteiras e territórios remexidos, os percursos que levavam ao seu forte, analisando sozinho rotas; montanhas; caminhos e a posição de seus homens, acabou adormecendo sobre a bancada.
Ele sonhou, então, com Damen sob a luz do candeeiro enfiando os dedos morenos em seu cabelo, a sua face tocando a sua não para beijá-lo, mas apenas para manter as suas peles unidas como se ele compartilhasse do mesmo sono. Como se os dois fossem forjados a partir da mesma substância. Uma carícia com a própria face. Damen murmurou:
"Laurent, eu sou o seu escravo..."
O veretiano acordou abruptamente com um sobressalto para se descobrir sozinho em sua sala. Completamente sozinho. Havia o barulho de homens trabalhando no acampamento e o relinchar de cavalos. A vela que tinha sobre a mesa já ostentava a chama consumindo quase que inteiramente a cera.
Laurent sempre soube que seria sozinho. Era o seu acordo tácito consigo mesmo, estabelecido há anos. Ele se sentia tranquilo quando traçara esse plano. Mas de um modo estranho, essa decisão agora doía.
Por que Damianos estava atrapalhando mais esse plano seu? Remexendo em partes suas de um modo que não o deixava pensar direito. Será que o rei de Akielos não podia deixar que restasse nada?
Com Damen, as barreiras de Laurent nunca funcionavam.
E isso o enervava.
No jardim recém-construído de Arles, Damen envolveu o corpo do rei de Vere em um abraço. E mirou com estranheza o rosto de Laurent, removendo algo que se assemelhava a uma lágrima no canto externo de seu olho.
"Você está tremendo. O que aconteceu?"
Apertando o mármore do caramanchão como se estivesse se segurando firme para receber uma bofetada que o arrancaria do mundo, com os nós da mão muito brancos e a rigidez contraindo o seu corpo, Laurent murmurou a frase que lhe feria desde o instante em que era produzida até o segundo em que era dita.
"Você não foi a primeira pessoa que me disse aquilo que falou no quarto..."
Damen se demorou um tempo, fitando o rosto pálido de Laurent. O veretiano parecia prender a respiração como se tivesse um escorpião andando sobre a sua pele. O akielon, com a voz hesitante, perguntou:
"Algum pretendente disse que te amava?"
"Não." — respondeu Laurent, laconicamente — "Um pretendente não..."
Damen demorou o seu olhar escuro no rosto do veretiano até envolver a sua nuca e o puxar para um abraço que queria abarcar não só o seu corpo, mas toda a dor que ele sentia.
"Era mentira!" — declarou Damen, sentindo o corpo de Laurent prender os seus soluços — "Era mentira! Aquele homem era falso, Laurent!"
"Acha que eu não sei disso?"
"Jogue tudo o que tem a ver com ele fora, Laurent! Jogue tudo!"
"Eu já fiz isso..."
Foi em Ios que Damen descobrira que Laurent tinha pesadelos durante a madrugada e que acordava com o rosto assustado e os olhos úmidos. Foi em Ios que ele descobriu que ele pedia para Paschal remédios para dormir no meio da noite às vezes. E foi em Ios que Damianos constatou que não importava o quanto amasse Laurent, havia algumas coisas que não podiam ser mudadas. Mas ele podia permanecer ao seu lado, abraçando-o até que tudo passasse.
Damen segurou o rosto de Laurent com ambas as mãos.
"Você precisa jogar fora o que carrega dele dentro de você ainda. Não pode deixar que ele more em você! Não pode deixá-lo afetar algo tão importante, Laurent! Não precisa ser eu, mas precisa poder ouvir isso... Se vier a amar outra pessoa..."
"Eu não vou amar outra pessoa, Damen! Como poderia amar outra pessoa?! Foi você quem me libertou, mesmo eu sendo... mesmo eu sendo quebrado..." — Laurent tinha uma expressão infantil, segurando o choro e o puxando para dentro de si, antes que ele existisse.
"Você não é quebrado, Laurent! Não é um brinquedo para se quebrar. É um ser-humano com corpo, mente e coração. Você é um homem adulto e inteiro! Você é o homem mais forte que eu conheço! Ninguém pode derrubar você, Laurent de Vere! Muito menos um homem morto..."
Havia um desprezo genuíno no timbre do akielon como se Damen experimentasse um gosto amargo na boca ao dizer as palavras homem morto.
"Eu mandei chicotear você..."
"Porque estava sozinho e assustado! Você mandou me chicotear quando acreditou que eu o estupraria. Eu entendo isso agora! Perdão!"
Laurent tinha uma expressão de abandono e os seus lábios úmidos tremiam. Damianos insistiu, segurando ainda o rosto do veretiano.
"...Se não me ama, não há necessidade de dizer isso. Mas se sente o mesmo que eu, diga..."
Laurent tremia e ofegava. O seu corpo estava rígido e o seu maxilar contraído.
"Damen, você é o melhor homem que eu conheço..."
"Diga!" — disse Damianos o segurando ainda com firmeza — "Sei que é assustador, mas precisa enfrentar isso..."
"Você me faz sentir coisas que eu achei que haviam sido arrancadas de mim..." — as taças dos olhos de Laurent estavam no limiar de segurarem as águas.
"Diga, Laurent!' — falou Damen com o olhar vermelho.
"Eu sinto isso há muito tempo também. E eu tenho medo de perder você..."
"Diga..."
"Eu te amo, Damianos..."
O ar ao redor dos dois homens pareceu se tornar mais quente, apesar da friagem de Vere. O perfume cítrico das laranjas pareceu se tornar mais doce e a tonalidade dos frutos, mais intensa. As folhagens, mais verdes. O mundo, subitamente, tornou-se um lugar mais confortável.
Damen sorriu e Laurent levou a mão ao peito, arfando e experimentando as palavras com todo o seu corpo. Com um movimento bobo de lábios, o rei de Akielos percebeu, finalmente, que os seus olhos também ardiam.
"Você me ama?"
Laurent contraiu as sobrancelhas como se sentisse o ar retornar para os seus pulmões, ajustando-se a si mesmo. Ajustando-se àquele sentimento dentro de si que fluía como o mar de Ios. Por um momento, ele tinha os olhos arregalados e fitou Damen como se as palavras o arrebatassem também por dentro. Olhou-o como se descobrisse o quão as palavras faziam sentido. O quão fazia sentido sentir. E o quão fazia sentido dizer isso. O seu sentimento tinha um nome.
"Amo. Claro que amo!"
Damen o trouxe a si, erguendo o seu queixo com a ponta do dedo.
"Eu também te amo, Laurent de Vere. E eu nunca disse isso para mais ninguém. Você é o primeiro... E o único."
Laurent ainda parecia um pouco aturdido, encerrado naquelas roupas veretianas azuis com detalhes dourados e repleta de laços, ilhoses e babados. Ele estava com o olhar perdido, parecendo um homem que voltara a enxergar.
"Certo... Você também é o primeiro e até onde prevejo, o único..." — respondeu Laurent, fazendo um movimento com a sua mão que lembrava muito quando ele dava alguma ordem a um soldado enquanto estava mais inclinado a permanecer refletindo sobre algo com os seus próprios botões.
Houve um momento de silêncio em que Damen, com um sorriso ainda bobo, não sabia o que fazer. Tampouco Laurent parecia saber qual atitude tomar. Havia um soldado veretiano próximo a um dos arcos de pedra, fazendo a ronda e o rei de Vere se sentou no mármore com almofadas do caramanchão. Damen permaneceu ao seu lado, feito um adolescente. As mãos unidas diante dos joelhos, o olhar satisfeito e o sorriso nos lábios.
"Eu te amo..." — repetiu Laurent, verbalizando aquelas palavras de anos. Ele as sentia com cada músculo do seu corpo.
"Eu também te amo, Laurent. Você é o meu amor..." — respondeu Damen prontamente com o seu sorriso característico e parecendo ansioso por ser romântico e meloso até o fim dos seus dias.
Damianos nunca poderia mentir sobre o seu sentir. Ele era um homem vivo, inteiro. Preenchido com o sopro dos deuses. As divindades respiraram em sua boca quando ele veio ao mundo.
E o Regente nascera morto...
Para o Regente, o amar era só uma palavra. Um verbo. Uma união de letras sem sentido que mantinha estranhamente cativos aqueles anjos transbordando vida.
Mas Laurent amava. Laurent precisava deixar aquele resquício escuro dentro de si ir embora. Porque ele também jorrava vida.
Era tempo de executar os mortos.
Então, Laurent, sentindo que se lembrava novamente de como viver, avançou para Damen, surpreendendo-o. Definitivamente, as reações apaixonadas do veretiano sempre pegariam o akielon de surpresa. Do nada, Laurent beijou-o na boca, subindo sobre ele e mergulhando os dedos no cabelo escuro de Damianos.
O rei de Akielos, passada a surpresa, retribuiu ao beijo e sentiu o veretiano montar sobre ele, envolvendo-o com braços ávidos. Foi um pouco desconcertante quando ele sentiu Laurent mover os quadris sobre si e deslizar os dedos por baixo do seu quíton. Arregalando os olhos, Damen observou ao seu redor e se deparou com o guarda veretiano com a boca aberta e a lança frouxa em sua mão. Ele veria o rei de Vere e o rei de Akielos em ação!
"Amor, você está bem?" — indagou Damen, afastando Laurent e o olhando contra a luz com as sobrancelhas contraídas.
"Eu... eu estou bem..." — respondeu Laurent, parecendo enrubescer diante da palavra utilizada pelo akielon. Seu rosto, subitamente, parecia muito quente e vermelho.
Mal se declarara e Damianos já estava o chamando de amor, usando a palavra com naturalidade. Ele tomava liberdades! Laurent ainda tentava entender se aquela era uma característica dos akielons; da realeza akielon ou do próprio Damen. Aquilo tinha um efeito atordoante sobre ele. Amor, você está bem? Damianos era confiado.
Os dois homens continuaram se fitando até que Laurent se lançasse novamente sobre Damen, parecendo acometido por desejo e voracidade.
O olhar de Damen cruzou com o do soldado.
"Laurent, há um guarda ali..."
"Foda-se!" — respondeu o rapaz, reavivando as lembranças de quando ele atuava no forte e usava palavrões como se fossem vírgulas. A Guarda do Príncipe, mesmo sendo composta por homens broncos e brutos, amiúde, dizia que nunca haviam visto um garoto tão boca suja.
Damen observou o guarda veretiano desviar o olhar, fingindo observar as ingênuas laranjeiras, mas, segundos depois, a atenção do soldado deslizou novamente para o caramanchão em que Laurent, montado sobre o rei de Akielos, começava a abrir os laços de sua calça.
"Laurent, ele vai ver..."
"Foda-se ele! Eu estou pouco me fodendo. Me fode!"
"Que?"
"Me fode, Damianos!"
"Achei que estávamos tendo um momento romântico..." — murmurou Damen sob os lábios de Laurent.
"Me foda amorosamente..."
O akielon engoliu em seco, sentindo a sua ereção sob os movimentos de Laurent e tendo a pele arrepiada por seus lábios. O veretiano mergulhava em seu pescoço, murmurando:
"... Faz amor comigo agora!"
Damen, então, cessou os movimentos dos quadris de Laurent, determinando:
"Nos caramanchões, não... Posso fazer isso em outro lugar..."
Laurent se deteve. Havia impaciência e urgência em sua expressão.
"Tímido? Damen, quando vai parar de ser tão puritano...?"
"Os atos de prazer nos caramanchões não são incentivados no seu reinado, Laurent... Vamos dar o exemplo."
Respirando fundo, o veretiano se pôs de pé, então, estendendo a sua mão.
"Venha..."
Damen hesitou, sem conseguir desgrudar o olhar do guarda. Quando aceitou a mão do veretiano, ele permitiu que ele o guiasse, descendo os degraus de mármore e subindo outros ao rumarem para um edifício muito próximo, com pilastras brancas diante dele, árvores de oliveira frondosas e uma fonte.
O rei de Vere apontou para o guarda que os acompanhava com o olhar, declarando como se o ameaçasse.
"Não deixe ninguém se aproximar da sala de reuniões! Mando prender qualquer homem que nos interromper!"
"Sim, Majestade!" — respondeu o guarda com um olhar nervoso.
Havia candeeiros iluminando o ambiente dentro do edifício amplo. Havia uma sala e outra, contígua. Uma mesa de carvalho ocupava o centro do recinto, e, sobre a bancada, estava disposto um mapa com miniaturas de cavalos e soldados. As duas únicas cadeiras de espaldar alto se mantinham encostadas em um canto. Na parede, estavam penduradas lado a lado a bandeira de Vere e de Akielos.
Damen ainda observava o lugar em que nunca estivera antes quando viu Laurent, num gesto apressado e um tanto bruto, passar a mão espalmada sobre o mapa, derrubando as peças no chão. Depois, ele arredou o próprio mapa, limpando a bancada e subindo na mesa enquanto puxava um atordoado rei de Akielos para um beijo profundo e apaixonado.
"Melhor assim?"
O akielon pode se concentrar, então, naquelas retinas circundadas de azul em que as sombras e a luz do candeeiro tremeluziam como se as írises cozinhassem em fogo alto, derretendo que nem metal leitoso. Ele enxergava, agora, Laurent sob uma nova perspectiva.
Os seus dedos tocaram o rosto do rei de Vere, tomando-o em suas mãos. Mergulhando o mais fundo que a sua perscrutação permitia, ele se deteve embevecido pela transparência das palavras ditas. Pela obviedade dos fatos. Pelo silêncio que agora não era tenso, mas profundo e tácito.
"Bem melhor..."
Damen aceitou a boca de Laurent, puxando os laços dos ilhoses dourados da jaqueta dele como se o descosturasse. Como se o retirasse de um invólucro enquanto o veretiano expunha um vislumbre da abertura em sua garganta e clavícula. Próxima ao coração.
Damianos sentiu, então, o pulsar, a respiração, a febre que emanava de Laurent enquanto o libertava daquelas roupas complicadas. Enquanto o libertava.
Ele deixou, então, que as mãos do veretiano deslizassem por suas costas, por seus braços e que as suas unhas se cravassem em seus ombros.
O rei de Akielos se ajoelhou e abriu um pouco o fecho da bota lustrosa de Laurent que era longa e chegava quase em suas coxas.
Beijou-lhe, então, no tecido macio da calça cor de marfim, sobre a virilha, olhando para o rapaz que jogava o corpo e a cabeça para trás, apoiando-se na mesa. A visão causou uma injeção de lascívia em Damen, fazendo-o se sentir em um tempo distante.
Um tempo em que era esperado que ele desnudasse o seu amo. A sensação alcançou um tom maior quando Laurent, sorrindo, apoiou a bota no ombro de Damen, oferecendo o seu pé para que fosse despido.
Damianos se sentiu com dezesseis anos. Com a boca aberta, ele fitou Laurent durante alguns segundos até que ele mergulhasse o rosto naquela região em que nós, laços e o cinto de Vere se fechavam. O espaço em que o pau de Laurent estava rígido.
Por sobre o tecido branco, Damianos deslizou a sua boca, sentindo os contornos da virilidade do veretiano em seu rosto, em sua bochecha. Experimentando, logo em seguida, as pernas de Laurent se fecharem em seu pescoço em um abraço como os seus braços haviam se fechado antes.
Quando se encararam algum tempo depois, Laurent o olhava de cima, com a boca entreaberta, ostentando a inclinação orgulhosa de seu queixo e uma expressão comedida. Era como ele o fora no passado. Excetuando pelo piscar de seus olhos que era prolongado como se a excitação o assaltasse em intervalos curtos. Os olhos não eram mais hostis.
Damen se colocou, então, de pé, tomado por sua ânsia que não era suave. Envolvendo a parte de trás dos joelhos de Laurent, ele o puxou em sua direção, fazendo-o deslizar sobre o tampo da mesa até a sua virilha. Os dois homens voltaram a se beijar com intensidade.
"Fugiríamos de uma festa e nos divertiríamos em algum canto escondido do palácio de Arles..." — murmurou Laurent com a voz entrecortada enquanto desfivelava o seu cinto e o puxava da cintura, atirando-o longe com o ruído de couro e metal.
"Estamos fazendo isso agora mesmo. Como reis." — respondeu Damianos, puxando dessa vez as botas do veretiano e as largando no chão.
Em seguida, o rei de Akielos, desfazendo os nós e fechos da calça branca de Laurent, puxou-a com uma determinação irrefreável, da mesma forma que tirou a roupa de baixo do rapaz, escorregando os trajes até os seus quadris com os ossinhos salientes, seus joelhos e os desnudando nos pés.
Damen mergulhou o rosto novamente naquela curva pálida do pescoço de Laurent, pensando em como poderia tomá-lo naquele espaço. Sob si, ele tinha o seu amante se abrindo totalmente para o prazer, trajando somente a parte de cima da sua roupa.
Como na noite anterior, eles não dispunham de óleos e o akielon pensava em replicar o método que empregara anteriormente para garantir que a experiência fosse prazerosa também para o veretiano quando ele sentiu a mão de Laurent se fechar em seu pau, sob o quíton.
Os olhos dos dois se encontraram e o veretiano se aproximou, falando com um rubor em suas bochechas:
"Me mostre como seria a exploração juvenil..." — declarou Laurent com as suas pupilas flutuantes afundadas em azul e escuridão.
Com uma acepção tácita, Damen fechou a sua mão ao redor do sexo de Laurent, fazendo-o gemer. O veretiano estava excitado e os seus lábios se afastaram conforme ele fechava os olhos e movia a cabeça para o lado.
Damen também gemeu quando sentiu o polegar de Laurent deslizar pela cabeça de seu membro inchado e rijo.
Por alguns minutos, os dois homens permaneceram se explorando daquela forma. Afundados em prazer e toques intencionados. Os sons deixando os seus lábios estavam alterados pela sensação atordoante do tato. Até que Laurent provocou Damianos de um modo mais incisivo. Deslizando por alguns instantes o pau do akielon até a sua entrada, que era apertada.
Laurent não forçou a penetração, deixando que a ereção do amante apenas o percorresse naquela abertura. Afastando mais as suas pernas de uma brancura leitosa, Laurent gemeu, contraindo o olhar. A cabeça do membro de Damiamos o roçava.
Damen ainda descia os dedos pelo pau ereto de Laurent, mas ele se debruçou um pouco mais sobre a bancada, sentindo aquele ímpeto. Aquela vontade indômita de entrar em Laurent. Ele chegou a dar um murro na mesa, xingando em akielon devido ao prazer invasivo que o tomou.
Contudo, o veretiano gemeu em protesto quando sentiu Damen forçando a sua entrada, afastando-o e voltando a mover a mão com mais intensidade sobre o seu sexo. Aquilo não era um convite. Só um estímulo.
Foi com um assombro que Damen constatou que, num outro mundo, em outro universo sem Regente e sem Kastor, Laurent não teria sido um amante fácil. Ele teria provocado Damen até o levar às raias da loucura enquanto o akielon tentava preservar a virgindade do príncipe de Vere. A experiência de Damianos seria uma piada para aquela mente reptiliana.
Era difícil para Damen se conter após aquela promessa impiedosamente não cumprida. Laurent, sendo cortejado como príncipe, teria mesmo deslizado o pau do akielon pela sua entrada com aquele ar de "Olha o que o aguarda."; "Olha o que você vai ter que esperar."; "Olha o que você não está fodendo ainda."; "Tem certeza de que entrará em mim algum dia?"
Talvez, se tivessem sido príncipes prometidos, Laurent até o deixasse se masturbar ali, mas sem consumar o ato em si. Era cruel.
A proibição, no entanto, encheu ironicamente Damen de mais desejo como se ele fosse um adolescente interrompido. Na próxima vez em que fizessem amor daquela maneira, ele prolongaria aquele prazer ao máximo. Ele devoraria Laurent de Vere.
Damianos se conteve, então, beijando a fronte de Laurent e retornando para a sua consciência. Ele estava disposto a satisfazer Laurent como parte daquela fantasia que reescrevia a sua própria história. O akielon sentia a pele macia feito seda do veretiano e fechou a sua palma sobre o seu próprio sexo, afastando a mão de Laurent e unindo os seus membros em uma estimulação única.
Laurent jogou o corpo para trás, deslizando as unhas sobre a madeira do tampo da mesa e arqueando as costas. Ele tinha os seus olhos fechados e gemia com os lábios entreabertos e úmidos. Com algum receio ainda, Damen se inclinou e deslizou a sua boca até o ouvido do veretiano enquanto erguia o seu rosto para beijar-lhe a região da garganta, do pomo de adão.
"Amo você." — declarou o rei de Akielos em sua própria língua de consoantes marcadas elevando-se como em uma revolução.
Damianos experimentou, imediatamente, o amante envolver o seu pescoço sem rigidez, sem hesitação. Sem silêncio. Sem hiato.
Vivendo o destino dos vivos. Enterrando o que havia apodrecido e estava morto. E deixando o sopro das divindades o preencherem mais uma vez. Nascendo novamente.
"Eu também te amo, Damen..." — respondeu o rapaz na língua akielon.
Damianos movia os seus quadris como se ele penetrasse Laurent e algo em seu bolso batia na base da mesa, provocando um ruído sólido.
As estocadas contra os membros dos dois era deliberada e o akielon sentia o pulso de calor em sua mão. Sentia os movimentos dos quadris de Laurent e os seus membros deslizando juntos. A experiência das peles sensíveis se tocando, as suas cabeças se encostando envoltas por seus dedos.
A uma altura, então, Damen percebeu que Laurent levava as mãos ao rosto, cobrindo os seus olhos, cobrindo algo. Cobrindo aquela parte nua de si que ele aprendera a manter retida e submersa por tanto tempo.
Adentrando com os dedos a abertura estreita da roupa do veretiano, Damianos lhe tocou o peito. O coração.
"Solta, Laurent! Eu estou aqui com você..." — disse Damen, entrelaçando, depois, os seus dedos nos de Laurent. As suas mãos unidas. A luz do candeeiro tremeluzia sobre os braceletes de ouro como se eles fossem novamente forjados no calor.
O primeiro soluço foi um movimento discreto no corpo do veretiano, mas o segundo não. Tampouco o terceiro.
Chorar para Laurent não era só deixar que aquela emoção escapasse de seu corpo.
Era chorar pela aceitação do que não pode ser impedido. Era chorar pela constatação. Era chorar pelo amor de Damianos, dedicado e paciente. E pelo seu próprio amor, visceral e desobediente.
Damen lhe beijou novamente a fronte, a linha até as maçãs do seu rosto, tocando aquela parte sua. As lágrimas que não podiam ser plenamente choradas.
O akielon se perguntou se deveria parar, se Laurent precisava de um tempo. Se ele precisava se recompor. Mas, após alguns segundos, ele percebeu que aquela era já a própria recomposição do veretiano. A sua ressignificação. O seu renascer após depredação.
Com os olhos injetados, Laurent segurou os ombros de Damen, animando-o a prosseguir. Os seus corpos estavam entrelaçados e unidos naquela ressaca de sentimentos que era o deixar ir e o deixar vir de si mesmos. Damianos tinha os olhos vívidos e azuis de Laurent conectados aos seus enquanto tocava o rapaz e a si mesmo.
O ar ao redor deles era aquecido e o akielon aumentou a intensidade e a lascívia dos seus beijos porque o clímax não demoraria a encontrá-los. Então, entre os soluços, o gemido de Laurent se sobrepôs no mesmo instante em que Damianos percebia que começava a perder o controle.
Laurent arfou sob Damen. O seu corpo se moveu com os abalos do gozo e os seus gemidos se tornaram estridentes.
O líquido perolado tocou os dedos de Damen no mesmo instante em que o deslizar da mão do akielon se tornou mais intenso. Damen sentiu, então, o seu próprio prazer o atravessar. Derradeiro. Real.
Despejando sobre os dois aquela torrente que levava destroços de um mundo, as suas ruínas. Como o mar de Ios, poderoso e implacável sob o sol de meio-dia.
Laurent tinha uma movimentação ondulante em seu peito. O seu coração batia acelerado ao receber o peso morno de Damen sobre si. Ele virou a sua cabeça para o lado, não olhando para Damen, mas para dentro de si. E como se sentisse um renovado prazer em seu corpo, ele fechou os olhos com um sorriso em seus lábios.
Damen recebeu um abraço do veretiano, em seguida, enquanto puxava ainda o ar para os seus pulmões. E Laurent beijou a sua fronte, afastando as mechas úmidas.
Enquanto os seus corpos recuperavam o compasso, Damen tocou também a cabeça de Laurent, aquelas mechas loiras em que as raízes estavam um pouco escurecidas. E, com os olhos fechados, ele murmurou em um devaneio seu em akielon:
'...Seu olhar deixa os homens de joelhos
Seu suspiro leva cidades às ruínas
Será que ele sonha em se render?
Em um leito de flores brancas?
Ou essa é a esperança enganosa
Dos que desejam ser conquistadores
O mundo não foi feito para a beleza como a dele'
"A conquista de Arsaces..." — murmurou Laurent em um assentir tácito.
Aquela fora a canção que Damen pedira que um escravo tocasse com a sua kithara em Ravenel e, enquanto ele enxergava as estrofes, enquanto enxergava Laurent, enquanto enxergava a si mesmo, ele percebia a verdade da qual não podia mais fugir.
Talvez o afeto de Damen também ansiasse por ser exposto como verdade derradeira e intransitiva. Talvez todo o seu romantismo, as palavras doces já se mantivessem formuladas dentro de si, esperando para serem proferidas e respirarem na superfície.
Damen era um homem romântico e afetuoso. E o amor e o carinho também eram a sua linguagem. Assim como, quando tomado pela paixão, ele precisava do akielon, a sua expressão nativa, para dizer o que sentia, ele precisava do afeto também para transmitir o seu coração. Laurent percebia, então, que amava isso em Damianos há muito tempo. A delicadeza à serviço do amor. Ou vice-versa.
"Eu li pela primeira vez essas estrofes quando tinha dez anos e me emocionei com a beleza das palavras. Eu já sabia ler o akielon desde os quatro anos de idade, mas, nesse dia, meu pai celebrou, dizendo que eu agora sabia ler de verdade." — murmurou Damen.
Laurent fitava o teto do ambiente em que as sombras e a luz tremeluziam devido ao fogo do candeeiro. Ele piscou com um raio de compreensão.
"...Você está bem, Laurent?" — perguntou Damen, passando a mão pelos cabelos do veretiano. Pelo canto dos seus olhos.
Nascer, morrer e renascer nunca era simples. Era um processo complexo e que exigia força, coragem e, talvez, sempre envolvesse algum pranto. Alguma fúria. Algum estrangular tenaz; algum cingir bárbaro de um estado anterior e por fim, um desencarceramento de si mesmo. Mas era necessário. E, justamente, nessa necessidade, talvez residisse uma beleza atroz.
A beleza do ciclo vital que não acontecia somente uma vez. A beleza colateral das inúmeras vidas e mortes que se desencadeiam dentro de um único homem. De um homem inteiro.
Nascer, viver e morrer.
E nascer de novo.
(cut)
Damen descobriu que a sala contígua do edifício se tratava de um pequeno lavabo quando Laurent retornou dela com a sua toalha habitual.
O veretiano tinha dignidade o bastante para se lembrar de vestir a parte de baixo de sua roupa ao invés de caminhar até o banheiro parcialmente nu. Ele voltou de lá, poucos minutos depois, alinhado como se tivesse saído de uma audiência, excetuando pelos laços de sua jaqueta que estavam abertos e da sua camisa de seda que estava para fora da calça.
Laurent deslizou com delicadeza a toalha pelo corpo de Damianos, desviando o olhar do sorriso bobo do akielon. Por fim, ele se rendeu com um sorriso breve e enviesado, indagando:
"O que foi?"
Damen apontou para a bandeira de Akielos e disse:
"Por que tenho a impressão de que esta sala tem alguma coisa a ver comigo?"
Laurent entregou a toalha a Damen e se pôs a calçar as suas botas.
"Toda esta área tem a ver com você, caso não tenha percebido..."
"Você tentou replicar Ios dentro de Arles. Eu refletia sobre o porquê disso quando você me encontrou no caramanchão. Daí, lembrei que providenciei a construção de uma área de jardins de flor-de-lis iguais aos de Toutaine na corte de Akielos e que estou trabalhando na inauguração de uma biblioteca com obras veretianas em Ios. Então, acho que entendi o porquê..."
Laurent, com o rosto enrubescido e com o olhar ainda fixo em suas botas, perguntou:
"Com que tipo de livros vai encher essa biblioteca?"
"Com os melhores. Aguardo as suas sugestões, Majestade..."
Laurent, sem erguer ainda o olhar, mas enrubescendo um pouco mais, falou:
"Esta é uma sala de reuniões que mandei construírem somente para nós dois. Apesar da minha coroação ter sido feita em Marlas, receio que seja necessário que eu visite muitas vezes a capital de Vere. Nesta sala, somente a nossa entrada e a dos meus serviçais é permitida e, aqui, podemos discutir sobre o nosso reino. Nem mesmo o Conselho pode pisar aqui..."
Damen ergueu as sobrancelhas, fitando as miniaturas de soldados e cavalos espalhadas pelo chão. O mapa era uma superfície dobrada e abandonada de qualquer jeito.
"Destruímos a sala."
"Havia planejado uma inauguração solene e gostaria de apresentá-lo ao lugar propriamente..."
"Vamos inaugurar o restante dessa ala assim?"
"Sossegue, Damianos. E pare de estragar os meus planos..."
Damen, devolvendo a toalha ao lavabo, retornou e se pôs a juntar o mapa e as miniaturas, organizando tudo com cuidado sobre a mesa. Laurent bateu os pés no chão, calçando melhor as suas botas e declarando:
"Precisamos ir para o Salão Principal. Há uma festa em minha homenagem e ao invés de estar lá, eu estava me divertindo aqui com Damianos de Akielos..."
Laurent parecia muito adepto da fantasia induzida por Damen e, por algum prazer pessoal, não parava de mencioná-la.
"Você se divertiu o suficiente?" — indagou Damen, distribuindo os cavalos veretianos em Delfeur.
"Sabe que sim. Você?"
"Tanto que estou me lamentando agora por ter que pular de um momento como este para as guerras silenciosas da corte..."
"É necessário. Mas, se preferir, aqueles atores do norte de Akielos trazidos por Makedon ainda estão em Arles. Posso mandá-los em nosso lugar. Ninguém vai perceber a diferença..."
Damen soltou uma risada, deslizando o seu dedo pela área de Vask e de Patras ilustrada no mapa. Sua cabeça se inclinou um pouco para medir por alto a extensão territorial dos dois países unidos se comparados à Vere e Akielos, as nações-irmãs.
"Por favor, não deixe que eles apresentem aquela peça hoje à noite. Receio que a ira de Vask e de Patras nos colocaria numa posição desfavorável e o pior seria não poder culpá-los por isso..."
Laurent também soltou uma risada e abraçou Damen por trás, apoiando o seu queixo no ombro do akielon, que, por sua vez, havia puxado uma das cadeiras para se sentar. O rei de Vere falou então:
"Eu sei no que você está pensando..."
"Esse medo sempre existiu, mesmo quando o meu pai era vivo. Torgeir e Vishkar são amigos desde a declaração de paz entre as duas nações após a guerra e se resolvessem se unir contra Akielos e Vere, teríamos uma disputa acirrada que se estenderia por meses. Anos talvez. Laurent, eu não desejo uma guerra..."
"Tampouco eu, Damen. Vere está precisando de reformas dentro dos seus territórios e não de um conflito com os seus vizinhos. Por isso, precisamos descobrir quem está espalhando esses boatos sobre nós e nos transformando em ameaças perante Vask e Patras. As duas nações estão desconfiadas da alforria dos escravos. Mas, refletindo um pouco mais cedo, constatei que tem algo mais..."
Damen se voltou, fitando o olhar pensativo de Laurent.
"Algo mais?"
"Essas histórias que chegam aos ouvidos de Torgeir e de Vishkar não são só histórias distorcidas que correm de boca em boca até alcançarem Skarva e Bazal. Existe alguma sofisticação na alteração dos fatos. Parece-me alguém que conhece bem a história verdadeira e, deliberadamente, a reescreve..."
Damen se manteve pensativo por quase um minuto.
"Alguém está querendo nos colocar em inimizade com os governantes de Vask e de Patras? Nos desacreditar...?"
"Ou querendo criar pretextos para um conflito. É por isso que precisamos ser cuidadosos na noite de hoje. Torgeir e Vishkar vão nos testar como as autoridades veteranas que são. Mas há muito mais em jogo do que recebermos tapinhas nas costas deles, nos dizendo que temos muito a aprender ainda. Trata-se de eles comprovarem o quanto de verdade existe nos boatos... Boatos que transformam você no verdadeiro parricida de Akielos e eu em um assassino de um irmão e de um tio dentro da realeza de Vere..."
Damianos observou o mapa, fitando os soldados de Akielos e de Vere lado a lado.
"Uma inimizade com Vask e com Patras enfraquece o nosso reino fortemente. E esses boatos fomentam descrença nos nossos territórios. Transformam Kastor e o Regente em vítimas perante muitos que se opõem à união de Vere e de Akielos. É perigoso."
"Por outro lado, a abolição se transforma num discurso ameaçador para as nações de Torgeir e de Vishkar, desidratando os seus reinos escravocratas. Percebe, Damianos, que uma arena está prestes a ser montada e que precisamos ter muito cuidado onde pisamos?"
Damen assentiu, inclinando novamente a cabeça para fitar o mapa.
"Suspeitos, Laurent?"
"Todos e ninguém. Alguma lacraia que sobreviveu ao Regente e a Kastor e que esqueci de esmagar. Alguém do leste? Os próprios Torgeir e Vishkar que querem se beneficiar dos golpes que sofremos talvez e careçam de um pretexto para iniciarem uma disputa. Mas só preciso de um tempo para que seja revelado o responsável..."
Damianos deslizou o seu dedo pela fronteira montanhosa de Varenne e de Ver-Vassel e pela linha no mapa que separava Aegina e Bazal.
"Qual é a posição do Conselho diante disso?"
"O meu aniversário de vinte e dois anos e o convite feito aos governantes e às cortes vizinhas são o pretexto ideal para reforçarmos os laços segundo Herode, Mathe e Audin. Na verdade, isso deveria ter sido feito há um ano atrás com a minha coroação, se não tivesse optado por Marlas em vez de Arles. Somente Akielos compareceu na ocasião."
Damen assentiu, passando a mão por seus lábios, imerso em pensamentos.
"Patras esteve em minha coroação oficial em Ios. Mas Torgeir mandou o irmão Torveld em seu lugar. Torveld, há dois anos, nos deixou claro que o rei de Patras não se colocaria declaradamente contra o Regente e mesmo o apoio de Torveld à sua campanha em Ravenel, Laurent, se deu contra a vontade de Torgeir."
Laurent deslizou o dedo pálido por Bazal.
"Torveld estava com Erasmus em sua coroação, Damen, mesmo estando prometido à duquesa Dieda de Acquitart na época. Foi por Erasmus que ele foi até Ravenel. Talvez tenhamos em Torveld um apoio para a libertação dos escravos..."
Damen se voltou para fitar o rosto de Laurent.
"Sempre soube que a escravidão te embrulhava o estômago. A libertação não é um movimento só de Vere e de Akielos, não é mesmo?"
A luz do candeeiro se refletia no olhar azul de Laurent quando ele disse:
"Tanto faz o que eu pense. A libertação não poderia ser restrita mesmo que quiséssemos, Damianos. Se um único homem começa a sonhar com a sua liberdade é questão de tempo até todos sonharem... Se os boatos não podem ser contidos, tampouco podem ser os ideais. Mas mantenho a minha palavra. Não desejo uma guerra com Vask e com Patras. Você, melhor do que ninguém, sabe que prefiro outros métodos."
Damen ergueu o seu rosto para fitar por um tempo o deslizar orgulhoso e resoluto do queixo de Laurent. Depois, ele se levantou, estendendo a mão para o veretiano e dizendo:
"Vamos."
Quando os dois homens deixaram o edifício de arquitetura akielon, o guarda próximo ao arco de pedra deu uma boa olhada para os dois e depois, voltou a sua atenção para as laranjeiras. Ele era um soldado jovem, com espinhas ainda no rosto e o crescer desordenado dos membros inferiores e superiores concedido aos que acabaram de deixar a adolescência.
Havia um controlado sorriso em sua face, pois ele se via impelido a dizer: "Rei frígido o caralho. O rei de Vere é um garanhão..."
Mas o soldado amava a sua própria vida e não gostaria de perder a sua cabeça por tomar liberdades com a realeza.
Os caminhos que levavam até o Salão Principal eram longos e, de mãos dadas ainda, Damen e Laurent seguiram até a antessala dos tronos. Os serviçais veretianos e akielons os aguardavam com o que era necessário e, aparentemente, estavam lá há bastante tempo.
De certa forma, os serviçais eram os que tudo sabiam em um reino. Eles souberam de Damianos deixando os aposentos reais, transtornado, e se refugiando no jardim recém-construído. Eles souberam de Laurent saindo do seu quarto para resgatar o akielon. E, agora, após uma longa espera, eles viam o tom afogueado, sanguíneo nos rostos dos dois homens e as suas roupas ligeiramente amarrotadas. A verdade sobre a foda de reconciliação se tornou inquestionável quando Damen se adiantou por trás de Laurent, colocando a sua camisa de seda para dentro da calça enquanto ele calçava as suas luvas.
"Aqui, deixa que eu faço isso pra você..."
Segundos depois, um dos serviçais akielons trouxe o manto vermelho pesado para ser colocado sobre os ombros do seu rei, ajustando o pingente de leão.
Apesar do quíton de Damen ter mangas compridas, seguindo a nova tendência, ele sentia o impacto do frio do início de primavera em Vere e, rapidamente, experimentou um calor confortável em seu corpo sob a capa.
Sobre os ombros de Laurent, também havia sido disposto o manto azul e dourado com arabescos e a estrela de Vere. Pouco a pouco, a indumentária real ia lhes envolvendo e a nobreza de cada um; o que representavam para o seu povo ia se revelando.
Contudo, quando Isander se aproximou com a tiara de safiras de Laurent disposta em uma almofada, assim como um serviçal trouxe a coroa de folhas douradas de Damianos, Laurent fez um gesto com os dedos, dispensando-os.
"Hoje nos misturaremos à corte. Tragam as máscaras de Vere e de Akielos..."
Damianos se voltou para indagar Laurent, mas antes que ele tivesse a sua pergunta formulada, um dos serviçais da corte veretiana surgiu com duas máscaras folheadas a ouro e destinadas a eles.
Uma das máscaras ostentava contornos e arabescos em relevo ao redor de dois buracos, que eram reservados para o espaço dos olhos. Das laterais da cabeça, desprendiam-se dois semicírculos que eram orelhas metálicas. O contorno do nariz descia alargado, replicando o focinho de um felino. E ao redor da máscara, também em dourado, havia ondas de cabelo em metal que eram parte da juba do leão. O símbolo de Akielos.
Damianos hesitou. Mas, novamente, antes que pudesse falar, viu o serviçal colocar a outra máscara em Laurent. Uma com a estrutura mais leve e cujas gravuras se assemelhavam mais a bordados em renda. Do canto do seu rosto e seguindo até a fronte, erguiam-se algumas finas serpentes com a língua bífida para fora. Uma serpente maior se insurgia do centro de sua cabeça como um réptil prestes a dar o bote. Damen viu os olhos azuis de Laurent pelas fendas da máscara.
"O que é isso?"
"A indumentária da festa. Você não morou tempo suficiente em Arles para frequentar os nossos bailes de máscara."
"Trata-se de uma festa à fantasia?"
"Não necessariamente. Cada pessoa veste a máscara correspondente ao seu país. Seus leões já devem aguardá-lo assim, apesar de eu ter as minhas dúvidas que Makedon aceite uma dessas..."
Damianos se recordou de Makedon sinalizando sempre que Laurent tinha a mente de uma serpente. E isso era algo que não mudaria.
"Cobras..." — comentou o rei de Akielos, deslizando os dedos pela superfície dourada que cobria agora parte das maçãs do rosto e a fronte de Laurent.
"Mais impactante do que a flor-de-lis ou a estrela, que são os símbolos de Vere. Devo essa também a Makedon. Para um homem que detestava veretianos, ele tem servido ao rei de Vere muito bem."
Damen observou Laurent como a serpente que diziam que ele era. Trocando sempre de pele com ideias que, às vezes, o akielon não conseguia acompanhar. Ele deixou, então, que a máscara de leão lhe fosse colocada e, para a sua surpresa, o item sobre o rosto não chegava a ser desconfortável e nem pesava tanto.
Por um momento, ele achou que a sua visão fosse ser comprometida pelo artefato, assim como o ator da companhia de teatro do norte de Akielos tivera a sua vista obliterada pela máscara de monstro. Mas ele conseguia enxergar bem diante de si e o seu entorno.
Laurent ajustou mais uma vez a sua luva, puxando a área do pulso e acomodando os seus dedos. Depois, ele endireitou o bracelete dourado discretamente em seu braço. Os serviçais se posicionaram diante da cortina que os levaria aos tronos, esperando pelas vozes de comando.
Damen, antes, no entanto, voltou-se para Laurent, em creme, ouro e serpentes, deslizando o dedo por seus lábios expostos e úmidos. Beijou-o rapidamente ali, comentando:
"Creio que a ideia da festa tenha sido do Conselho, mas o modo de conduzi-la, certamente, foi um procedimento seu."
"Naturalmente, Damianos, meu amor. Como acha que se luta numa arena?"
Após se olharem longamente e entrelaçarem os seus dedos, eles fizeram o sinal para o serviçal esperando ao lado da cortina vermelha.
Damen estava um pouco ruborizado pelas palavras de Laurent. Era a primeira vez que ele o chamava de meu amor. E apesar das palavras saírem um pouco irônicas, elas foram ditas.
Isander soprou, então, longamente o clarim que indicava a chegadas dos reis de Vere e de Akielos no Salão Principal. Ouviu-se um murmúrio denso no salão. A cortina foi aberta.
Quando, de mão dada ainda com Laurent, Damen caminhou até a plataforma em que os seus tronos eram posicionados lado a lado, ele viu, sendo iluminado por inúmeros candeeiros, o Salão Principal.
O akielon compreendeu, então, a magnitude do evento que reunia três reis e uma imperatriz. Os seus nobres. A sua comitiva. A sua realeza. Damen compreendeu o entra e sai de pessoas trabalhando naquela festa e os ruídos diversos que alcançaram os seus ouvidos durante todo o dia e até tarde da noite.
Havia longas mesas enfeitadas e candeeiros cuspindo fogo também sobre elas. Havia flores-de-lis dispostas em vários lugares e um balanço serpenteado com seus ramos. Um serviçal tocava kihtara se embalando nele.
Havia uma grande quantidade de comida e de bebida. Dança e música já aconteciam enquanto todos esperavam pelos reis. Um carneiro assava no fogo e o seu cheiro invadia o salão.
Havia as cores de Vere, Akielos, Patras e Vask. E havia aqueles animais naquela arena montada. Leões e serpentes espreitando-os por trás de uma fenda em rostos de ouro.
Pateavam o salão também, os radiantes leopardos dourados com olhos semicerrados, narizes arrebitados e arabescos belos ao redor dos olhos. Eram os leopardos vindos de Skarva em que a imperatriz Vishkar mantinha dois daqueles grandes felinos ao seu lado no trono.
E, por último, voavam pelo salão em tecidos vaporosos, as águias de Patras com os seus narizes muito pontudos e curvados prontos a deferirem golpes, tendo penas ao redor do rosto presas às máscaras. No fim, todos pareceram aderir à ideia de Laurent, que era o aniversariante. Apenas os serviçais se mantinham neutros e com os rostos à mostra.
Damen apertou mais forte os seus dedos entrelaçados nos de Laurent quando sentiu os animais se revolverem na arena. Alguns batiam palmas.
Outros gritavam palavras em vaskiano. Outros, batiam os pés no chão. A saudação de cada povo. Seu olhar pousou em Laurent, então, tão jovem, tão grandioso, com as luzes do candeeiro tremeluzindo em suas retinas expostas e sentindo como as serpentes, a movimentação ao redor não com ouvidos, mas com toda a sua pele escamosa.
Laurent quase chorara há pouco tempo, mas Damianos era a única pessoa que poderia vê-lo naquele estado. Diante das outras pessoas, como rei, a sua força emanava como a de uma serpente que fareja o ar com a própria língua.
E Damen sentia a sua própria potência também enquanto pateava o chão, crispando os lábios.
Os dois homens adentraram a arena.
NOTAS DA AUTORA
O Capítulo 3 é, sem dúvida, um dos meus favoritos.
Por meio do Regente, C. nos descreveu um verdadeiro sociopata de sua época que se tornava grande, graças à lábia, manipulação e só conseguia "se relacionar" com pessoas vulneráveis e sob o seu comando. O Regente usou até mesmo os cortesões de Arles e o Conselho como "macacos voadores" (termo da psicologia) com a finalidade de alcançar objetivos próprios. Por muito pouco, aliás, o próprio Damen não caiu na lábia do Regente.
Erasmus e Laurent foram os que abriram os olhos dele.
Por isso, eu gosto tanto do lorde Berenger e do Ancel. Eu os acho personagens muito fortes! Quando você lê "Pet", você percebe que lorde Berenger, rapidamente, notou que tudo naquela corte da capital era falso e se uniu logo ao Laurent. E quando foi dada a escolha a Ancel, ele conseguiu engabelar o Regente, fazendo-se de traidor. Os dois perceberam sozinhos quem o Regente era.
Como 90% dos leitores da trilogia de O Príncipe Cativo, eu me peguei achando que, no fim, o Regente sofreu foi é pouco. No entanto, após a leitura minuciosa de O Palácio de Verão, por meio de uma frase do Laurent, eu entendi o ponto da C.S. Pacat e entendi porque a morte do Regente foi breve. E acho que ela fez a melhor coisa como a rainha da escrita que ela é.
Mas, aqui, temos uma catarse que é construída nessa brecha que percebi no Palácio de Verão. E esse Capítul combustível, principalmente, dos últimos Capítulos da trama desta fanfic. Eu adorei escrever os detalhes. E a inspiração veio inteira por meio da música da Lana del Rey. E a partir dela ainda, surgiu o nome da história com a visão de Nicaise e Laurent erguendo o dedo médio para o Regente. E eu também.
