A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 5
Personagens
VASK
O IMPÉRIO
VISHKAR, imperatriz de Vask
JUNITY (JUDY), primeira esposa imperial que atuou na Guarda Nacional de Vask
MIRCELA, segunda esposa imperial e ex-concubina
SOREM, imperador de Vask, terceiro esposo e primo de Vishkar
PARI, quarta esposa da imperatriz e irmã de Kashel, do clã de Halvik
YULIYA e YELENA, as meninas gêmeas herdeiras do império
KALINA, cuidadora de leopardos
AFANAS, filhote de leopardo imperial dado a Laurent por Sorem
A GUARDA DO IMPÉRIO
NABSIB, chefe da Guarda Imperial
GENE, um soldado
DO PASSADO
BETTHANY, imperatriz anterior, mãe de Vishkar
ISHMAEL, o primeiro imperador
PATRAS
TORGEIR, rei de Patras
ENONE, rainha de Patras
ELEMIR, *ELLIAS e EURICO, os príncipes de Patras
TORVELD, irmão de Torgeir e embaixador de Patras
ERASMUS, escravo akielon e amante de Torveld
LATIFA, escrava que serve o Conselho de Vere e é amiga de Isander
DO PASSADO
O ANTIGO REI DE PATRAS
TÍLIA, irmã falecida de Torgeir e Torveld
(cut)
ARMADILHA
Sorem foi adotado pelo Conselho de Vere, já que Vishkar o seguia desprezando. O imperador vaskiano se sentou próximo a Herode e, talvez, tomado por um ato de compaixão, foi incluído em uma conversa por Audin.
Vishkar e Torgeir foram servidos com o vinho veretiano e, por um momento, Damen pensou como repercutiria o rei de Akielos puxar o aniversariante e monarca de Vere para um canto, a fim de lhe cochichar o que descobrira.
Pareceria um fofoqueiro estrategista diante de duas nações desconfiadas e que poderiam estar vislumbrando uma guerra.
Damen fitou o rosto de Laurent, antecipando por uma solução, mas o veretiano parecia disposto a seguir com o jantar, as convenções e protocolos da noite, sem parecer estar alarmado.
Os seus olhos azuis e vívidos estavam concentrados em Pari, que, sem máscara, ainda seguia atraindo a atenção dos homens e mulheres na mesa.
Percebendo que era fitada pelo rei de Vere, ela fez um gesto educado, declarando com o seu veretiano com forte sotaque vaskiano:
"Majestade de Vere, feliz aniversário! É uma honra conhecê-lo."
"É uma honra ter a famosa consorte de Vask em meu reino. Gostaria de ter recebido um convite de casamento da manifestação do amor das duas leopardas de Skarva no entanto." — declarou Laurent em um vaskiano fluente e rápido.
A mulher ergueu os olhos do seu prato e o sorriso feneceu em seu rosto.
"Seria uma cerimônia abaixo do rei de Vere certamente. A imperatriz tomar uma quarta esposa não é algo significativo como um aniversário de vinte e dois anos de um rei. Tampouco, relevante como a comemoração de um ano da aliança de Vere e de Akielos." — retorquiu Pari em um vaskiano pesado e um tanto ríspido como o dos clãs. A delicadeza sumira de sua expressão como se, a partir da sua língua nativa, uma outra máscara fosse removida.
Durante um tempo, o rei veretiano e a consorte vaskiana se fitaram.
"Creio que caberia a mim decidir qual formalidade está abaixo de minha pessoa ou não. De qual clã a quarta esposa veio?" — indagou Laurent, sorvendo água de seu cálice.
"Do clã de Halvik, próximo à floresta Foloi."
Laurent ergueu as sobrancelhas, trocando um olhar breve e tácito com Damen, após depositar o cálice dourado em sua mesa.
"Eu e Damianos conhecemos Halvik. Estivemos no clã dela há pouco mais de um ano."
"Talvez, Vossas Majestades tenham conhecido, então, Kashel." — e, erguendo o seu olhar rapidamente para Damen, Pari complementou — "Mas, talvez, não se lembrem mais dela..."
Damianos sentiu um desconforto. Ele se lembrava. Kashel fora a primeira garota de Halvik que ele tomara na noite em que dormira com as guerreiras vaskianas a pedido de Laurent. Mas aquilo fora há muito tempo e, na época, ele e o veretiano ainda não eram amantes. Para Damen, daquela noite, remanescia somente um borrão de corpos entrelaçados, o calor das fogueiras, o prazer em seu corpo e olhos castanhos e quentes.
Laurent hesitou por um segundo, crispando os lábios ao indagar:
"Você ainda se lembra dela, Damianos?"
O rei akielon ergueu a cabeça, fitando os olhos azuis de Laurent. Ele tinha sobre si também a atenção do rei de Patras e da imperatriz de Vask. Pigarreando, Damianos falou:
"Kashel me acompanhou durante a minha curta estadia no clã de Halvik."
Torgeir interveio, rindo-se.
"Não deve ruborizar, meu jovem. As mulheres vaskianas dos clãs buscam machos dominantes para serem montadas e terem filhas guerreiras fortes. É uma honra para um homem ser eleito por elas e servi-las. Numa sociedade matriarcal e polígama como Vask, um homem só não deve se apegar demais a essas mulheres livres dos clãs."
Mathe, um dos conselheiros veretianos sentado próximo, indagou com curiosidade e um pouco de hesitação. Talvez porque o sexo entre homens e mulheres fora do casamento e a concepção de filhos bastardos fossem tabus em Vere, o homem parecia um pouco chocado.
"O rei Torgeir já dormiu com a mulher de algum clã?"
"Há alguns anos, quando os patranos celebraram a paz com os vaskianos. É possível que eu tenha algumas filhas cavalgando com os clãs, mas essas meninas não pertencem à realeza patrana. É um acordo tácito que um homem precisa seguir ao dormir com as guerreiras. Somente os meninos são devolvidos ao pai em alguns casos."
Mathe pestanejou, deixando o garfo cair.
"Há filhas bastardas suas nos clãs, Majestade?"
"Pode ser que sim. Quem sabe..." — disse Torgeir, servindo-se de pão.
Damen julgou ver os veretianos na mesa parecerem perplexos, excetuando Laurent, que ostentava somente o seu olhar avaliativo corriqueiro.
"A poligamia de Vask me intriga..." — declarou o conselheiro Audin — "Não existem brigas por conta de tantas esposas e esposos?"
Vishkar respondeu, erguendo brevemente o seu olhar de duas cores.
"Entendemos que o amor é algo que transcende a carne. Pessoas têm desejos e esses desejos apodrecem, tornando as pessoas amargas se não são nutridos. Na minha terra, é importante satisfazer uma esposa ou um esposo sexualmente, ainda que não seja com o próprio corpo. Além disso, havendo mais cônjuges, existe menos egocentrismo e menos pressão."
"Ah, é mesmo?" — indagou, subitamente, Sorem tomando a sua sopa com uma colher. Ele não fitava a imperatriz, mas parecia ter estado acompanhando a conversa.
Vishkar o olhou com frieza.
"O cálculo nem sempre se aplica a todos. Você tem liberdade, meu senhor imperador, de ser montado, assim como as minhas consortes. Talvez seja o que lhe falte para deixar de lado tanta amargura."
Uma tensão se instaurou na mesa e Sorem, parecendo um menino censurado, declarou:
"O mesmo se aplica à Pari?"
"Cale-se!" — determinou Vishkar com uma expressão fulminante, parecendo que iria rosnar.
O desconforto se estendeu pesado e Damen achou a cena diferente de todas as experiências de mundo que já tivera. Sorem parecia um filho brigando pela atenção da mãe com Pari. Mas Vishkar era a esposa dos dois e ela parecia tão jovem quanto eles, mas, na verdade, era uma imperatriz veterana planejando alguma armadilha para Laurent.
"Você e Kashel são amigas?" — perguntou Laurent à consorte vaskiana, mudando de assunto e parecendo ainda ter a sua atenção concentrada em Pari.
"Ela é minha irmã."
Enquanto o veretiano parecia expressar uma surpresa comedida, Damen deixou cair a colher sobre a sua tigela com a revelação. O olhar de Pari se deteve rapidamente nele, antes de se servir do caldo quente da sopa, bebendo-o da própria cumbuca de porcelana ao invés de usar talheres.
"Você não se parece com ela." — determinou Laurent com uma voz fria.
"Em Vask, muitos têm olhos claros e a pele leitosa como a sua, Majestade, e representam o céu. Outros têm a pele oliva e os olhos e cabelos escuros como o rei de Akielos e representam a terra. Kashel e eu temos a mesma mãe, mas pais diferentes."
Vishkar, que acompanhava a conversa com uma expressão ainda contrariada pelo imperador e sorvia a sopa do mesmo jeito que Pari, declarou:
"Dois irmãos meus tinham a pele oliva. Também a minha esposa Judy e Ishmael, o primeiro imperador. E assim são as minhas duas filhas Yuliya e Yelena. O beijo do céu e da terra se reflete no povo vaskiano."
Damen se recordava do cabelo negro de Kashel em uma longa trança que se movia com o seu seio.
"O clã de Halvik vive muito longe de Skarva." — comentou Laurent com o seu olhar fixo em Pari ainda— "Você o visita?"
"Não. Faz muito tempo que não. Eu não posso voltar lá pelas leis do clã." — declarou Pari com um rosnar seco, revelando um pouco mais do seu espírito selvagem sob todas aquelas joias e sedas.
Laurent sorveu mais um gole de sua água.
"Quais leis?"
"Vossa Majestade faz muitas perguntas."
"É o meu reino. Pergunto até aos cavalos se eles vão bem ou não se assim eu quiser..."
"Pergunte a eles então..." — foram as palavras ouvidas por todos com uma intuição apurada, mas não proferidas por Pari. Ao invés de responder com maus modos ao rei, a vaskiana fechou o punho, apoiando-o sobre a mesa e baixou a cabeça, respirando ruidosamente.
Vishkar olhou a consorte com alguma censura, mas também algum cuidado. A imperatriz fechou a sua mão sobre o punho dela. E Damen entendia que Pari possuía um passado demasiadamente mórbido para ser exposto na mesa de jantar de uma nação estrangeira.
A imperatriz de Vask, colocando o cabelo atrás da orelha da esposa, declarou de um modo resoluto em veretiano:
"Não falamos sobre isso, Majestade. É algo doloroso para Pari. Por favor, vamos mudar de assunto..."
E, entoando o seu veretiano com sotaque e se forçando a sorrir, Pari de Skarva declarou:
"Perdoe-me, Majestade. Meu passado não é bonito e não merece ser exposto em uma festa tão bela como a sua..."
Torgeir, que observava a cena, interveio com uma voz grave:
"Vamos voltar às conversas mais etéreas e profundas sobre o beijo do céu e da terra. Patras é um reino supersticioso e em Bazal, acreditamos que temas que magoam o coração das pessoas devam ser evitados na mesa..."
Damen, sentindo-se em parte aliviado pelos ânimos terem se acalmado, declarou:
"Torgeir é um homem espiritual?"
"Eu costumava não ser, mas depois de sobreviver três vezes à surra de tonfa que Vishkar me deu em campo aberto na época da guerra e sair com todas as partes do corpo intactas, comecei a acreditar em deuses."
Vishkar, que se voltava para a sua tigela de sopa, disse:
"Você lutou usando a sua adaga comigo porque queria ser justo. Tenho a cicatriz ainda no meu flanco. Se tivesse optado pelo machado, Torgeir, poderia ter cortado a minha cabeça e continuar acreditando em si mesmo..."
Torgeir coçou o seu rosto com uma expressão pensativa.
"Não... Acho que eu preferia mesmo ganhar uma amiga a arrancar a sua cabeça, raffie, apesar de você me irritar um bocado. Na época, desconfiei que a filha do império não escolhia a espada em combate por um motivo. E os deuses sussurraram no meu ouvido que eu talvez, não estivesse usando o meu machado pela mesma razão. Estávamos fartos de morte naquela época. Eu não suportava mais o cheiro de sangue, de carniça e de fumaça... E percebi que Vishkar também não. Se um de nós morresse, o outro lado nunca aceitaria uma proposta de paz."
As palavras de Torgeir pareceram imergir Vishkar em uma lembrança densa e que tornara subitamente os seus olhos mais fundos. Damen se recordava do mensageiro de Theomedes trazendo notícias da fronteira de Acquitart. As casas dos moradores queimadas e soldados destroçados no mato alto ocupavam grande parte da narrativa do akielon na época.
Mathe, membro do Conselho de Vere, dirigiu-se a Torgeir, dizendo, talvez, para trazer alguma leveza à conversa:
"Em Bazal, existe a crença de imagens e palavras escritas interferirem na substância do mundo, não é mesmo, Majestade?"
"Sim. É uma crença antiga e muito importante para os patranos. Quando as crianças nascem, os familiares confeccionam bonecos e os pais escrevem sobre esses bonecos palavras de bênçãos. Meus três filhos tiveram essa cerimônia e, graças aos deuses, tenho uma princesa e dois príncipes muito saudáveis e fortes."
Jeurre, outro membro do Conselho, declarou:
"Em Vere, fazemos diferente. Quando o rei Laurent tiver herdeiros, a rainha deverá entregar flores-de-lis a todas as crianças de Arles na primeira noite estrelada do ano para que os príncipes tenham uma vida permeada pela sorte."
O olhar escuro de Damianos, involuntariamente, buscou o rosto de Laurent, que tinha o queixo um pouco contraído e uma expressão austera. Por fim, Laurent retorquiu com uma voz seca:
"Não haverá herdeiros por enquanto."
O conselheiro Jeurre, que era um homem de meia idade e calvo, retrucou:
"Um governante com herdeiros como o rei de Patras e a imperatriz de Vask traz mais confiança para o seu povo. Todos o seguem, seguros de sua força e de sua linhagem. Todos admiram um rei com filhos..."
Laurent depositou a taça de água com um ruído sobre a mesa.
"Mesmo? O Regente não tinha filhos e isso não impediu que muitos de vocês abanassem o rabo para ele e acreditassem em suas boas intenções. Ao invés de procriar, meu tio arrastava por aí um bando de garotos prostitutos que vocês só enxergaram quando foi conveniente..."
As palavras duras de Laurent dirigidas a Jeurre foram o suficiente para calarem o homem. Herode, o membro mais velho do Conselho, ergueu a sua mão enrugada, declarando:
"Jeurre, não chateie o rei! Ele é muito jovem ainda para se preocupar com casamento e filhos. O rei Aleron era um homem maduro quando se tornou pai."
"Aleron vinha de um governo estável. Laurent não! Talvez fosse o caso de o rei Laurent ao menos cortejar uma dama, procurando por opções..."
Mathe, o mais jovem dos conselheiros, fitava a cena com uma expressão de censura e incômodo, intervendo também:
"Conselheiro Jeurre, isso cabe ao rei decidir e não a nós! Ele é jovem e começou o seu reinado no ano passado. Não o aborreça no dia do seu aniversário..."
"Você costuma ser flexível demais com tudo e todos, Mathe! Sofremos uma tentativa de golpe de Estado recentemente. É grave o fato de não termos uma rainha e um herdeiro a caminho. Vere se torna...vulnerável!"
Laurent contraiu por um instante as suas falanges sobre a mesa, antes de sorver mais um gole de água. Por fim, ele declarou com aspereza, erguendo o seu olhar gélido para Jeurre:
"Você foi flexível com tantas decisões do meu tio, conselheiro. Por acaso, você o importunou também na época em que ele governava Vere ou guardou os melhores conselhos para mim?"
A secura de Laurent silenciou novamente Jeurre. No entanto, o rei e o conselheiro ainda se encaravam. Damen tinha as sobrancelhas contraídas, fitando a cena com irritação.
Vishkar, que começava a degustar o carneiro, disse, sem parecer se importar com o silêncio constrangedor:
"Eu me lembro de ouvir sobre os garotos do Regente. É o costume de Vere, me diziam, apesar de eu nunca acreditar que era a cultura de uma nação destruir crianças. Nós nunca soubemos em Vask como o Regente, afinal, pagou pelos seus erros..."
Torgeir interveio com uma voz severa:
"Vishkar, achei que tivesse deixado claro que gostaria de evitar os assuntos desagradáveis..."
Laurent pestanejou os seus olhos vívidos.
"Mas não é um assunto desagradável! Na verdade, é completamente aprazível. O Regente teve a sua cabeça cortada em Ios e ela foi colocada em uma lança na rua dos traidores. Moscas e vermes o devoraram por semanas inteiras. No fim, ele se tornou algo inominável como ele, de fato, era. Meu tio foi decapitado diante de todos, como faria comigo e com Damianos se tivesse tido a oportunidade."
O rei de Patras e a imperatriz de Vask fitaram Laurent. Pari soltou um riso abafado, que ressoou pela mesa. Damen se lembrou de quando recebera a vaskiana mais cedo no jardim e lhe achara a risada deslocada. Os olhos do conselheiro Chelaut, que se mantinha em silêncio até então, se depositaram nela:
"Acha isso engraçado, senhora Pari de Skarva?"
"Acho hilário!" — respondeu a mulher em veretiano — "É o que um clã vaskiano faria com homens que tentassem roubar alguma de nossas meninas para violá-la. A outra opção seria estripá-lo e deixá-lo semivivo para os abutres o comerem. Uma mulher do clã gosta de ver um homem que destrói coisas belas e puras morrer..."
Sorem declarou:
"É disso que sente falta, Pari? De barbárie?"
"De justiça, Vossa Majestade Imperial!"
E ela soltou um novo riso, que Damen, finalmente, identificou como nervosismo. Ou, então, algum traço de loucura. De desequilíbrio. Da agonia de uma mulher que ele ouvira que fora retirada dos clãs para ser entorpecida e prostituída em um bordel.
Laurent, entrelaçando os seus dedos, comentou simplesmente com um olhar distante:
"Não havia abutres em Ios. Somente moscas."
A refeição seguiu a despeito do clima pesado e adiposo. Damen viu Nikandros na outra mesa conversando com Aktis e Makedon e quando o kyros se levantou, o rei akielon percebeu que Pari o acompanhou com o olhar.
Depois, Isander se aproximou da mesa com uma bandeja pequena de ouro com gomos das laranjas trazidas de Akielos, servindo Laurent e os outros convidados.
Ele fez um gesto educado perante Pari e a vaskiana avaliou também o serviçal com um olhar profundo. Definitivamente, Pari parecia ser o tipo de garota que gostava de se deitar com homens e com mulheres. Damianos procurou algum traço de ciúme no rosto de Vishkar em relação à sua consorte, mas ele não o encontrou.
Então, nesse instante, intercalando as vozes que conversavam e o ruído de talheres raspando porcelana, houve um barulho e a atenção de todos se concentrou em uma jovem de cabelos cacheados e loiros vestida como escrava. Ela derrubara uma travessa com frutas no chão, sujando as lajotas do Salão com uvas, damascos, nectarinas e romãs fatiadas.
"Latifa, o que é isso?!" — indagou o conselheiro Mathe, de modo solícito, dirigindo-se à jovem.
Latifa era uma mulher pequena e com olhos assustados como os de um coelho. Ela olhava a todos, apertando as suas mãos e o seu rosto com um tom rosado estava tenso. Sua atenção se alternava entre os conselheiros e os convidados próximos ao rei de Vere.
"...Peço perdão a todos. Latifa, normalmente, é muito hábil servindo, mas acredito que esteja um pouco impressionada com a presença da Majestade de Patras no jantar. Latifa é patrana."
Torgeir sorriu para a jovem, vendo-a curvar a sua cabeça de fios cor de palha diante dele. Depois, acenou.
"Pelo visto, alguns escravos optariam por uma máscara então..." — ponderou Vishkar com um comentário provocativo jogado no ar.
Laurent fez um gesto para que Isander fosse ajudar Latifa. O escravo akielon, prontamente, seguiu a ordem do seu amo e se ajoelhou próximo à escrava, juntando as frutas do chão e as reacomodando na travessa para serem levadas de volta à cozinha.
Torgeir observou a jovem e disse:
"Vejo que Vossa Majestade de Vere ainda está mantendo alguns escravos em sua corte. Lembro de Latifa e do irmão dela. Eles serviram a minha falecida irmã Tília e ao meu cunhado, antes de evacuarmos Bazal durante a guerra."
"Os meus escravos foram libertos, mas o Conselho e quase todos os nobres ainda os mantém. Ainda estamos estudando o que faremos com os contratos."
Damen observou Latifa fazer um movimento de mãos e de olhos discretos para Isander. Depois, ela mexeu a mão de novo, levando-a à cabeça, aos olhos e ao coração e o serviçal akielon replicou com um giro dos dedos.
"Ela é surda." — constatou Damen, observando a comunicação velada da patrana com o akielon.
"De nascença." — respondeu Laurent— "Mas consegue ler os lábios e entende os comandos."
"E Isander entende a linguagem dela?"
Laurent deu de ombros.
"Os escravos libertos e não libertos são muito inteligentes. Eles desenvolvem o seu próprio meio de se comunicar, mesmo que falem línguas diferentes. Creio que o fato de gostar de Latifa faça Isander também se dedicar um pouco mais."
Damen observou os olhos de cervo do akielon se tornarem ainda mais gentis ao olharem para Latifa. Era por ela, então, que Isander estava enamorado.
"Achei que fosse um tabu em Vere uma escrava servir a um homem ou vice-versa." — declarou Vishkar.
Mathe, que voltara a se sentar em seu lugar, pediu que Latifa lhe trouxesse mais vinho com um gesto e a moça, parecendo pálida ainda, afastou-se e desapareceu nos portais de pedra que levavam à cozinha.
Laurent respondeu então:
"Ela não serve o Conselho na cama. Latifa somente o serve na mesa, vestida dos pés à cabeça e entrando nos quartos dos conselheiros com a porta aberta. Ela nunca foi uma escrava de prazer. Somente de companhia."
Após esse acontecimento, sendo finalizado o jantar, as apresentações artísticas começaram e se estenderam por um bom tempo. Um grupo de flautistas veretianos fez uma apresentação belíssima, sendo seguido por acrobatas que conseguiam colocar as suas cabeças em lugares que nada mais poderia alcançar. Houve cantoria e houve Ancel, com o seu cabelo flamejante, girando bastões que se incendiavam em rodas de fogo no ar.
Depois, o rapaz soprou a ponta das maças, cuspindo fogo como se fosse incendiar o Salão Principal e todos que o observavam, fascinados. Erasmus saiu nesse momento para tomar um pouco de ar nos jardins, acompanhado de Torveld.
A uma altura, Damen segurou a mão de Laurent, sinalizando que havia coisas para serem ditas a sós, mas o rei deixar a formalidade era algo declaradamente suspeito em uma festa daquela magnitude. Damianos viu as suas chances de conversar a sós com Laurent serem perdidas definitivamente quando Jord se aproximou do veretiano para lhe falar algo próximo ao ouvido, demorando-se bastante.
Damen deslizou o olhar pelo Salão, então, e viu Pallas observar com desgosto Ancel cuspindo fogo em sua direção enquanto Lazar havia sumido de circulação. Loyse passou ao lado de outra mesa, conversando com duas mulheres patranas que trajavam ainda as suas máscaras de águia circundadas por penas. Aktis trocava algumas palavras com o soldado chamado Nabsib e, ao seu lado, postara-se Nikandros.
De alguma forma, parecia que todos no Salão estavam se movimentando em torno de algo maior e velado. Leões, serpentes, leopardos e águias exploravam os territórios e estabeleciam os seus arranjos na arena política.
Até que, após mais algum tempo, Damen viu as apresentações serem interrompidas com as trombetas de Vask e de Patras. Havia chegado o momento das nações vizinhas presentearam finalmente o rei Laurent de Vere.
(cut)
O primeiro a se colocar de pé foi o rei de Patras, tendo Torveld se unindo a ele. Havia também o chefe da guarda patrana que, com um gesto, pediu que alguns dos seus homens carregassem uma dúzia de caixas grandes de madeira.
Com um pé de cabra, o soldado violou um dos invólucros, revelando o conteúdo tomado por garrafas bojudas envoltas em serragem.
"Em nome de Patras, é oferecido ao jovem rei de Vere a bebida feita a partir da melhor cevada cultivada nas fronteiras de Bazal. A nossa bebida é um orgulho para Patras."
Aplausos se elevaram na corte, antes que Torgeir, com um gesto um tanto paternal, adiantasse-se até Laurent e o beijasse de cada lado da bochecha, surpreendendo o jovem, que pareceu confuso e perdido com o cumprimento íntimo demais para os costumes de Vere.
Damen achou Laurent demasiadamente garoto, próximo ao rei de Patras. Torveld deu uma risada espirituosa, como se Torgeir tivesse o abraçado assim bastante vezes, como faria com um irmão mais novo.
Depois, Torgeir entregou a Laurent um boneco de uns dez centímetros costurado com roupas azuis e brancas. Em sua cabeça, havia um emaranhado de linhas creme e um rosto com olhos azuis e boca rosada pintados no tecido. Ao redor do boneco, havia pequenas etiquetas com votos de saúde, prosperidade, vida longa e paz.
Observando o boneco, Laurent declarou:
"Achei que só um filho tivesse essa honra..."
"Um rei é o filho de uma nação e pai ao mesmo tempo. Há um ano, despontava um rei em Vere. Esperamos que os deuses iluminem a sua mente, Majestade."
Damen pensou por um momento que Laurent pudesse se sentir ultrajado ao ser presenteado com um brinquedo, mas o rapaz, enrubescendo um pouco e tendo as suas orelhas muito vermelhas, respondeu:
"Certo. Obrigado."
Damen teve o seu olhar cruzado com Sorem, que havia mencionado a entrega da bebida de Patras antes do jantar. Havia chegado a hora dos protocolos de Vask.
O imperador, com o seu corpo alongado e roupas suntuosas se pôs de pé e Vishkar evitou olhar Sorem, permanecendo brincando com uma faca de cortar pão sobre a mesa.
"Venho em nome do povo de Vask presentear o jovem rei de Vere com uma das nossas joias mais preciosas de Skarva. Como sabem, em minha terra, possuímos abundância de rubis e diamantes..."
Vishkar ergueu finalmente o seu olhar, quando teve o seu ombro tocado por Pari de Skarva.
"... Somos famosos por produzir as joias mais belas, fundindo o ouro ao presente que nos é dado pela terra..."
Damen observou que a imperatriz contraiu o cenho, observando uma mulher com um rosto encovado e algumas cicatrizes em uma das faces adentrar o salão, segurando uma criança.
Pari parecia ter a sua respiração presa e Vishkar acompanhava a figura com olhos injetados.
Todos olhavam na direção da visitante, que sob um manto de fios de ouro enrolado, tinha uma criança que se movia de modo agitado. Uma coleira dourada despontava sob os tecidos.
Alcançando alguma revelação misteriosa, Vishkar levou a mão ao rosto como se sufocasse um grito.
"... Mas nenhuma joia estaria à altura do rei, exceto por uma joia muito específica do reino em que leopardos são sagrados..."
Quando a mulher de rosto encovado ergueu o tecido, todos descobriram que não se tratava de uma criança. O felino, mesmo sob o fogo bruxuleante, exibia olhos cinzentos.
A sua pelagem esbranquiçada era coberta por pequenas manchas escuras e, apesar de ser um filhote, ele era inquieto. A sua pata era gorda e se cravava com firmeza no braço da sua cuidadora. O pequeno leopardo fitou as pessoas que o espreitavam soltando gritinhos excitados.
"... Eu lhe entrego, Majestade, em nome de Vask, Afanas, um dos recém-nascidos dos leopardos Feodor e Alegra..."
Damen observou o rosto de Vishkar empalidecer enquanto ela levava a mão ao ventre. Os seus olhos estavam úmidos e Pari fechou a mão sobre a sua faca de cortar carne.
"...Demonstrando o nosso comprometimento com a paz. Os leopardos criados por todas as imperatrizes são sagrados e atentar contra a sua vida é o mesmo que atentar contra o Império. Vask nunca poderia atacar o lar do seu filho Afanas."
Sorem fez um gesto para que a mulher se aproximasse. Ela olhava de um modo inseguro para a imperatriz e para o imperador. O pequeno felino parecia uma criança tímida, agora, no centro do Salão.
O olhar de Laurent alternava entre Afanas e o imperador. O leopardo filhote soltou um pequeno e curto rugido.
Damen só tinha uma certeza. Era a de que aquele presente não fora dado de espontânea vontade por Vishkar. Talvez ela esperasse que Laurent fosse presenteado com um anel de rubis ou um colar de diamantes de seu reino, mas nunca com um filho do império. Com a mão em seu ventre como se o animal houvesse sido arrancado de seu próprio útero, a imperatriz respirava com dificuldade.
Pari se dobrou sobre a sua esposa, anunciando algo, mas Vishkar a segurou pelo braço, pedindo que ela se sentasse novamente.
A maioria das pessoas não percebia a situação que se desenrolava porque todos tinham o olhar fixo no leopardo que era passado da mulher de rosto encovado para Laurent. O felino, com olhos redondos e curiosos, começou a brincar com os fios que transpassavam os ilhoses da jaqueta do veretiano.
"É uma grande honra, mas receio que eu não saiba como cuidar de um leopardo..." — declarou Laurent, segurando o felino com um braço e tendo ainda o boneco dado por Torgeir em outro.
A mulher retorquiu em um veretiano simples e carregado pelo sotaque de Vask:
"Eu também estou sendo dada à Vere como cuidadora de Afanas."
Uma onda de aplausos se elevou no Salão e Vishkar parecia à beira das lágrimas, levando as mãos à cabeça.
Torgeir a olhava com atenção agora. Alguns vaskianos conversavam entre si, parecendo confusos também com a doação de Afanas e da cuidadora de leopardos ao rei de Vere.
O imperador voltou a se sentar, baixando o seu olhar diante da expressão desolada da imperatriz.
Nesse ínterim, Laurent e Damen trocaram um significativo olhar enquanto o filhote de leopardo ainda cutucava os laços das vestes veretianas. E o akielon constatou que era uma cena curiosa ver Laurent com um boneco em um braço e um gato demasiadamente grande em outro. Como um príncipe muito garoto cercado de presentes.
O veretiano se empertigou, então, devolvendo o leopardo à mulher e o boneco a Isander. Laurent declarou, então, com o seu tom costumeiro:
"Agradeço em nome de Vere. Afanas e a senhora serão muito bem cuidados em Arles. Isander, providencie aposentos dignos de um bebê de Vask e de sua ama."
O escravo fez um aceno com os seus cabelos escuros e olhos de cervo, acompanhando Afanas e a mulher até o arco de pedra que levava à saída.
Damen entendia a jogada política de Sorem. Sendo um homem que desejava a paz, ele trazia um filho de Vask para Arles, a fim de garantir que a imperatriz não declarasse guerra à Vere, residência agora do seu amado leopardo. Era quase um fosso que ele abria entre os soldados vaskianos e o reino veretiano. Mas o akielon não podia dizer que apreciava esse método.
Vishkar parecia estar sofrendo atrozmente como há minutos atrás, dada a sua aspereza e força, ninguém a julgaria capaz de sofrer. Seu leopardo filho se tornava quase um prisioneiro de guerra.
Houve um prolongado momento de silêncio em que os aplausos haviam cessado e Vishkar ainda permanecia sentada com abandono em seu assento. Como se estivesse imersa em um mundo vazio e depredado. Com os dedos percorrendo os lábios.
Pari tinha o olhar contornado de negro cravejado no imperador, como se pudesse atirar nele a sua faca a qualquer segundo.
As duas vaskianas sofriam por Afanas ou pelas suas intenções beligerantes terem sido imobilizadas? Havia muitas coisas não claras no olhar que a imperatriz e a sua consorte trocavam.
Nesse instante, Damen viu uma outra figura adentrar o Salão enquanto Vishkar deslizou o dedo pelo canto do seu olho cor de âmbar, enxugando algo que nem chegara a se formar. Se recompondo.
O novo visitante era um jovem de cabelos cacheados e loiros em um tom cinzento. Dos seus lóbulos, despontavam brincos de ouro cravejados com pequenos rubis e em seu pescoço, pedrarias coloridas davam várias voltas. A sua túnica vermelha era um pouco transparente na luz e revelava o contorno do seu quadril sobre o qual o cinto era só um cordão com um nó, propenso a ser aberto com um gesto rápido e efetivo. O seu corpo de um tom leitoso translúcido era o de um rapaz de seus dezoito anos.
O akielon viu os homens e mulheres no Salão fitarem o rapaz como se uma onda de desejo entrasse pela porta e os obrigasse a olhar em sua direção. Damen pensou que aquele era um presente que poderia ser dado a um rei de Akielos na época distante em que em seu reino era aceito aquele tipo de doação.
Caminhando com chinelos confortáveis, o jovem se ajoelhou no chão e curvou o seu rosto uma vez, erguendo olhos castanhos que na luz pareciam arder em um tom de fogo. Laurent o observava com curiosidade.
Fechando os olhos e parecendo recobrar a sua força, Vishkar se pôs de pé, falando com a voz embargada. A imperatriz parecia ainda abatida, mas ela concluiria o que a levara até lá. Um brilho tremeluzia em seu olhar bicolor.
"Majestade de Vere, eu trouxe no dia do seu aniversário o concubino mais formoso de Skarva..."
"Você me trouxe um escravo?!"
"Ele não é um escravo. É um concubino. Ele se voluntariou de espontânea vontade quando soube que havia a possibilidade de ser oferecido de presente à Vere. E eu diria que Isobell tem a obediência, o ar divertido e a graça que um amante que serve a um rei precisa. De fato, um rosto belo e único. Isobell é virgem e não foi tocado ainda nem mesmo por mim..."
Laurent buscou o olhar de Damen e o akielon caminhou até o rei de Vere com passos firmes e decididos, declarando:
"Vossa Majestade Imperial, o que pretende?"
"Agradar ao rei de Vere, que governa um reino onde o sexo ao ar livre não é um tabu e onde até tempos atrás, havia ringues em que os escravos fodiam diante dos nobres. Pensei que o rei de Vere pudesse fazer as honras e foder com um concubino para mostrar mais sobre a sua cultura para Vask e para Patras..."
"A senhora está louca?! Espere que eu foda com o seu concubino diante da minha corte?"
Vishkar sorriu do modo que só alguém que sente uma profunda amargura pode sorrir.
"Esse seria o estabelecido por mim minutos atrás. Era a minha intenção. Mas eu mudei de ideia. Pensando melhor, acho que Isobell, apesar de ser um rubi não é a pedra mais brilhante de Vask. E eu acho que Vere merece o melhor. E o melhor é o homem que foi escolhido entre todos os outros para ser um imperador. O melhor é Sorem de Ver-Tan! Eu, Vishkar de Skarva, dou de presente para o rei o próprio imperador. Monte-o! Foda com ele. Use-o. Distribua ele para as suas tropas! Faça com ele o que bem entender. Mas conceda-me a dádiva de vê-lo abrir as pernas aqui neste Salão."
O recinto despencou em um silêncio sepulcral. Damen olhou em direção ao imperador, cujo rosto que já era de uma palidez marmórea parecia atingir outros tons de branco. Os membros do Conselho pareciam perplexos com as palavras vomitadas por Vishkar. Mathe levou a mão ao rosto, parecendo enojado.
"Então, a senhora espera que eu, o rei, tome o seu esposo diante dos quatro reinos para puni-lo pelos seus desentendimentos conjugais?" — indagou Laurent com frieza, sem alterar a voz.
Vishkar deslizou o seu olhar até Damen e ele percebeu uma ferocidade renovada no rosto felino da imperatriz.
"Akielos não é a nação-irmã de Vere? Os boatos que chegaram até Vask são de que Damianos de Akielos e Laurent de Vere dividem além da cama, os tronos, as ideias, as ambições e os mesmos desejos. Então, esse é um presente para as nações-irmãs..."
"Recusamos!" — declarou Damen em um tom alto de indignação, mas Laurent ergueu a mão, pedindo que ele se silenciasse.
No mesmo instante que o akielon usou a palavra recusa,algumas vozes se ergueram entre os vaskianos com as suas máscaras de leopardo e um soldado chegou a bater com a ponta da sua lança no chão. A ofensa máxima de Vask ressoou como uma pedrada lançada por Akielos no Salão.
Vishkar contraiu as sobrancelhas, como se alguém a tivesse dado um forte empurrão.
"Recusa? Vask não está à altura de Akielos?"
"Não é isso, mas..."
"Damen, espere..." — determinou Laurent. O veretiano estudava o rosto de Vishkar diante de si como se ele fosse um réptil perscrutando o ecossistema.
"A recusa de um presente é um tabu em Vask. Vossa Majestade de Akielos recusará o presente dado pela nação vaskiana?" — indagou Vishkar, içando novas vozes de protesto.
Damen abriu a boca para argumentar, mas Laurent se adiantou com uma voz fria e dura que gelou o coração do akielon.
"Recebemos o presente, Vossa Majestade Imperial..."
Um burburinho se elevou no Salão e Damen moveu o seu rosto com surpresa em direção a Laurent. Não, ele não ia montar Sorem. E nem Laurent iria se submeter àquele estratagema político mórbido.
Vishkar semicerrou um pouco mais os seus olhos. Damianos tinha os ombros e o maxilar contraídos.
"Espera que estupremos um imperador diante de todos?" — indagou Damen com assombro.
"Estupro?! Vossa Majestade de Akielos estava cortejando o meu esposo na sacada, sob os jasmins, pouco antes do jantar! Os dois estavam no escuro cochichando e falando em akielon. O chefe da minha guarda viu! Tenho certeza de que a comunicação e o arranjo entre vocês dois se dará muito bem na cama. E Laurent de Vere, sendo tão inteligente, certamente, encontrará uma posição adequada entre o seu amante e um convidado..."
A tensão era grande e Damen sentiu um ímpeto de desafiar Vishkar para um duelo de espadas ali mesmo, tamanha a sua fúria e ultraje, quando Laurent segurou o pulso do akielon. Deslizando o dedo pelo bracelete dourado.
"Seguiremos conforme a Vossa Majestade Imperial determina..."
Damen sentiu uma fisgada em seu coração. Não, não seguiriam...
Laurent prosseguiu:
"...Mas a imperatriz nos subestima, oferecendo-nos Sorem de Ver-Tan quando todos sabem que a joia mais brilhante de Skarva não é o homem que seria deixado para trás em Vask. Eu sei que é um tabu para Vask ter um presente recusado. Mas é um tabu em Vask também oferecer a alguém algo que não serve mais enquanto se esconde o melhor. Isso fere os olhos dos deuses..."
"O que quer dizer?"
"Eu não quero Sorem de Ver-Tan! Quero o que lhe é mais caro, mais precioso e que trouxe para Arles, passando por cima de protocolos. Se pessoas serão dadas em presente como se fossem joias no dia do meu aniversário, eu quero o diamante negro de Vask. Eu quero Pari de Skarva, Majestade Imperial! Aqui, neste Salão."
Damen se moveu para fitar o rosto de Laurent que estava impassível, exibindo um olhar estreito e gélido.
Ao ouvir as palavras de Laurent, a imperatriz trocou um olhar nervoso com a sua consorte e fitou novamente o rapaz diante de si como se fosse o desafiar para uma luta de tonfas diante da proposta.
Alguns vaskianos emitiram um entoar perplexo, parecendo confirmarem entre si o que foi ouvido em veretiano.
Depois, o Salão mergulhou em silêncio, violência retida e ansiedade esgotada. Todos fitavam aquela negociação protagonizada por uma serpente, um leão e uma leoparda.
"... Eu quero Pari de Skarva, Majestade Imperial! Aqui, neste Salão!" — repetiu Laurent com o seu olhar estreito e firme, vociferando a frase em vaskiano dessa vez.
Pandemônio entre a comitiva de Vask que não tinha mais dúvidas sobre o que se desenrolava no Salão Principal. Perplexidade e indignação.
Após estendidos minutos, a imperatriz retorquiu com uma expressão categórica enquanto a franja mal cortada e escura dividia o seu olhar cinzento e dourado:
"Não!"
"O presente mais caro de Vask é aquele que a imperatriz não pode deixar para trás. Acha que eu não conheço os seus costumes? Acha que pode me entregar um homem com quem tem um casamento rachado e me manipular em meu aniversário?"
Damen viu a pálpebra sob o nervo óptico de Vishkar tremer. No ambiente, havia alguns cochichos principalmente proferidos em vozes veretianas traduzindo para os idiomas das outras nações as sentenças, na tentativa de manterem os seus acompanhantes inteirados dos argumentos políticos da arena.
Isander retornava para o Salão e estava estático diante do portal de pedra. Latifa, que servia taças com refresco de laranja e uva parecia também tentar compreender o embate performado. Um escravo que atendia ao conselheiro Audin, servindo-lhe vinho, movia os olhos ansiosos, esforçando-se para decodificar os conflitos da corte e a sua tensão.
Os soldados de Vask seguravam com firmeza as suas lanças e tonfas, iniciando alguma movimentação com som de metal nas lajotas do ambiente, assim como os homens de Laurent e de Damen levavam as mãos às bainhas de suas espadas.
"Está menosprezando o imperador de Vask?"
"Estou? Ou vossa Majestade Imperial quem está? Conheço as normas de presente de Vask. Venho estudando a cultura vaskiana desde que comecei a aprender a língua de sua terra, imperatriz Vishkar! Um rei merece o melhor. E Pari é o melhor que trouxe de Vask!"
"E o que pretende fazer com ela? Pretende montá-la?"
"Uma capacidade da qual não é somente a senhora que desfruta neste Salão..."
"Você não pode dormir com ela! É tabu em Vere um homem foder com uma mulher fora do matrimônio!"
"Ah, agora a senhora vai me ensinar sobre a minha própria cultura dentro do meu reino...? Por favor, continue..."
Damen segurou a mão de Laurent e sentiu a pele do rapaz fria como a de um réptil. Diante de todos, ele parecia impassível, mas Damen conhecia o rei de Vere bem o suficiente já para perceber uma leve contração no canto de sua boca, que seria o único sinal de nervosismo que ele deixaria escapar de si mesmo.
Vishkar fitou os dedos entrelaçados dos dois reis e perguntou com uma voz dura:
"Vai mandar o seu amante, o rei de Akielos, fazer o serviço então?"
Laurent, observando a vaskiana, retorquiu como se um gelo pontiagudo atravessasse a sua voz:
"Pari de Skarva! Aqui, neste Salão!"
"Não! Não haverá presente então..."
"Resposta errada, Majestade Imperial! Creio que eu precise agora refrescar a sua memória sobre um outro tabu da sua magnífica cultura. Tomar de volta um presente é como se declarar alguém tacanho, mesquinho e incapaz. É com essa alcunha que Vask será lembrada em visita à minha terra? Como uma nação miserável, pobre e incapaz que não cumpre a sua palavra e toma de volta um presente oferecido ao rei? Ou será lembrada como uma terra governada por uma imperatriz polígama só nas palavras? Quais tabus serão quebrados hoje?"
"Ora, seu fedelho petulante..."
"Vishkar!" — ergueram-se as vozes de Pari e de Torgeir em uníssono.
A quarta consorte da imperatriz havia se levantado, com olhos faiscantes enquanto Torgeir erguia a sua mão de forma peremptória.
"Vishkar, você está transtornada! Acalme-se, raffie!" — declarou o patrano em um tom apaziguador— "Não é sensato duas autoridades brigarem por algo assim..."
Vishkar respirou fundo, fitando Laurent. A sua mão repuxou os cabelos curtos e escuros de cavalariço para trás com ansiedade.
"Podemos anular esse compromisso..."
Havia alguma súplica em seu olhar. Talvez, Vishkar houvesse mesmo subestimado Laurent, achando que ele era um menino da corte que se melindrava com qualquer beliscão. Mais um pouco, ela perderia a mão e o braço nesse gesto de tentar intimidá-lo.
Damen espreitou o rosto do veretiano, ansiando que ele aceitasse a oferta. Mas Laurent ostentava o seu olhar mais severo que lembrava a Damen da época em que os dois estrategiavam a tomada de fortes e terras para derrubarem dois tiranos usurpadores do poder.
"Pari de Skarva! Eu a quero!" — decretou Laurent com frieza, içando burburinhos nervosos na multidão.
Damen se sentiu impelido a falar, então, cochichando em akielon com alguma inquietação:
"Laurent, vamos encerrar isso agora..."
Pari se adiantou até Vishkar e a tentava acalmar com palavras vaskianas rápidas e cujas consoantes se trombavam rudes em uma entonação pesada de pedras se chocando.
Torgeir também sussurrou algo próximo ao ouvido da imperatriz de Vask.
"Não, Damen, não posso aceitar manipulações contra mim e contra você em Arles. Não mais..." — determinou Laurent, com firmeza.
"E o que vai fazer com aquela pobre mulher? Não me diga que você está pensando em..."
Laurent se deteve com os seus olhos azuis e vívidos e ergueu, num gesto muito rápido, as suas sobrancelhas.
"Sabe que não. Eu não vou fazer isso..."
Os dois homens se encararam por mais alguns segundos e uma suspeita entorpecente alcançou Damen. Com uma voz ultrajada, ele indagou:
"O que vai fazer então?! Espera que eu protagonize esse circo? Que eu monte a quarta esposa imperial?"
"Seria uma linha reta, já que você gosta de mulheres..."
"Sim! E em todas as vezes em que estive com mulheres, elas deram sinais claros com o corpo e com as palavras de que me queriam. E eu também as queria. Vai me negociar também agora?"
O rapaz, quase duas cabeças menor, fitou Damen como se, neste momento, fosse ele quem houvesse sofrido uma grave injúria.
"Acredita mesmo nisso?! Acha que eu seria capaz de usá-lo em uma barganha política, Damianos? Você que é o meu rei?!"
Damen baixou o seu rosto, ruborizando ao mesmo tempo que sentia a tensão opressiva entre eles.
Nesse ínterim, do burburinho aglomerado do Salão, dois soldados vaskianos irromperam, tendo as mãos em suas tonfas presas ao cinto e flanqueando a imperatriz. Um deles era o chefe da Guarda que escoltara o imperador. O outro era um homem mais franzino.
Com olhos fixos nos reis das nações-irmãs, o soldado menor disse em vaskiano:
"Vossa Majestade Imperial, permita-nos lidar com esse ultraje!"
Imediatamente, Jord e Lazar se materializaram ao lado de Laurent, tateando as suas espadas. Assim como Aktis e Pallas, flanqueando Damen com lanças em punho.
"Não ouse sacar qualquer arma diante dos nossos reis." — ameaçou-os Jord entre dentes — "Não seja estúpido, rapaz!"
O soldado não parecia entender o veretiano, mas percebeu o tom agressivo nas palavras de Jord e sacou a sua tonfa.
Pallas ergueu, então, a sua lança acima do ombro.
"GENE!" — advertiu-o Vishkar com uma voz peremptória — "Guarde isso!"
A tensão era asfixiante.
O soldado franzino contraiu o canto da boca e, parecendo reter em si alguma indignação, acatou o pedido a contragosto.
O silêncio se estendeu e o olhar de Laurent estava ainda fixo na imperatriz de Vask.
Quando Vishkar declarou em veretiano, com o olhar bicolor fundo como uma cova aberta, todos se voltaram para a vaskiana:
"Preciso de um tempo para pensar. Podem me dar alguns minutos para deliberar?"
"Posso lhe dar até uma hora."
"Ótimo!" — proferiu a mulher, se retirando da festa, ao lado de Pari.
Imediatamente, Laurent fez um gesto, chamando Isander para perto, dizendo-lhe em akielon:
"Reúna na sala menor as pessoas que estavam no almoço conosco hoje mais cedo. Preciso juntar algumas peças. Seja discreto. Depois, venha você também..."
O serviçal assentiu, deixando um jarro bojudo de cerâmica sobre a mesa e seguindo para a multidão, a fim de obedecer ao comando de seu amo.
Laurent se dirigiu aos convidados, dizendo:
"Estamos tendo um choque cultural intenso, mas, por favor, aproveitem a festa ou o que sobrou dela..."
O rei de Vere fez um movimento de deixar o Salão, mas foi retido por Damen, que disse:
"Espere! O que faremos?"
"Como assim? Segundo você, eu vou dá-lo de mão beijada para Pari de Skarva porque devo ser alguém manipulador e sem coração. Essa deve ser a imagem que você tem de mim. Logo após...— Laurent enrubesceu— "...eu dizer que te amo, Damianos..."
Damen se sentiu mal, observando a expressão mais honesta de Laurent. Um abatimento genuíno era expresso no seu desconforto e nos seus olhos cegos, que era como as suas retinas pareciam quando se tornavam desfocados e tristes.
"Me perdoe. Mas por que não deixou a imperatriz recuar?"
"Porque não quero lhe dar a chance de criar armadilhas novamente contra mim. Ninguém vem ao meu reino e tenta me enganar na frente do nosso povo, Damianos. Ninguém!"
Damen franziu o cenho.
"Mas estamos presos agora nessa armadilha! Laurent, eu não quero..."
"Damen!" — interrompeu-o o rei veretiano com o seu olhar sombrio e ininterrupto— "Confie em mim!"
Damianos observou o amante diante de si. Por fora, Laurent apresentava uma impessoalidade distante. Por dentro, certamente, as engrenagens do seu cérebro se moviam incessantes e febris, estrategiando cenários.
Naquele estado de humor, Laurent poderia estar pensando em qualquer coisa. Ele era capaz de qualquer coisa. E isso era parte do fascínio que ele exercia também. O mundo como um labirinto com saídas criadas era a realidade de Laurent.
"Certo. Eu confio em você." — declarou Damen, cedendo por fim.
Uma curva discreta se elevou no canto dos lábios do veretiano e ele estendeu a sua mão para Damen de modo resoluto.
"Venha!"
Damianos, então, tomando a mão do rei de Vere, acompanhou-o. Laurent, por sua vez, se sentia um pouco mais imbatível quando o akielon lhe fitava daquele modo, colocando nele a sua fé irrestrita.
Os dois reis deixaram, então, o Salão, sendo seguidos por alguns olhares predatórios e depredativos. Nabsib e Gene, os soldados de Vask, acompanharam os homens como dois felinos vendo as suas presas tomarem distância e alçarem voo.
