A EXECUÇÃO DOS MORTOS

CAPÍTULO 6

O BEIJO DO CÉU E DA TERRA

Surrender with me

We're walking in our sleep

And won't come around for you

Leave the story at the shore

In case you thought it done

Yesterdays Will Start Fluttering

Now surrender with me

'Cause we're walking in our sleep

And won't come 'round

Hey, put our pistols down

Crawl along the ground

Where we won't

Won't Be Found

(White Elephant – Ladytron)

No tempo em que permaneceram a sós na sala de reuniões, Damen narrou para Laurent sobre os pormenores da conversa que tivera mais cedo com o imperador de Vask na sacada do Salão Principal.

O veretiano sustentava o seu olhar avaliativo, vez ou outra, erguendo uma sobrancelha ou perpassando o dedo por seu queixo. Ao fim da história, Laurent declarou:

"O filhote de leopardo Afanas é, então, a garantia feita por Sorem de que Vishkar não brandirá a sua espada contra Vere?"

Damen, que tinha os dedos entrelaçados e apoiados na grande mesa de madeira do recinto, respondeu:

"Acredito que sim. Caso contrário, a imperatriz não estaria esquentando a cabeça agora, tentando encontrar uma forma de negar o que você lhe pediu. Ela ofereceu Sorem de Ver-Tan em presente para nós como um gesto de retaliação a ele. Talvez ela quisesse humilhá-lo perante Vask..."

Laurent moveu as suas retinas circundadas de azul, murmurando pensativo:

"Vishkar estava sofrendo pelo leopardo dela ter sido dado a mim ou por ter os seus planos interrompidos?"

Um silêncio se estendeu no ambiente e após apertar brevemente os olhos, Damen declarou:

"Há outra coisa, Laurent. Não me importo que a imperatriz esteja impelida em lançar Akielos e Vere em uma guerra, mas eu não quero causar mal à Pari de Skarva. Ela foi retirada do seu clã, entorpecida e estuprada. Não vou permitir que aquela mulher seja exposta em meio às pessoas lá fora, ainda que ela seja uma inimiga..."

Laurent se silenciou, mas as engrenagens do seu cérebro trabalhavam, sendo perceptíveis somente através de uma veia um pouco mais saltada na sua fronte.

"Não faz sentido essa história..."

"Por que não?" — indagou Damen, com alguma surpresa.

"A quarta esposa parece ser o tipo de pessoa que arrancaria os olhos de quem fizesse isso com ela. Ela iria atrás de um por um e se vingaria dos culpados..."

"Como sabe disso?"

A pergunta de Damen soou para si mesmo terrível, após ter sido formulada. Laurent, simplesmente, respirou fundo, mas o akielon se adiantou em dizer:

"...Você não sabe se ela não puniu os envolvidos..."

Laurent baixou o seu olhar, dizendo:

"Não, eu não sei. Só que tenho a sensação de que há algo nessa história que falta. Um pressentimento, eu acho. De qualquer forma, eu pretendo dar a ela a escolha..."

"Escolha...? A escolha de ir para a cama conosco ou não? Laurent, isso não acontecerá..."

"Não, escute, Damen! Se tudo der certo, as relações de Vere e de Akielos com Vask não serão abaladas... Não precisaremos dormir com ela. Afinal de contas, não é a nós que ela deseja..."

Os olhos do akielon se moveram com curiosidade.

"Do que está sabendo? Você havia mencionado que havia feito descobertas também junto a Torveld e a Erasmus. Vi você conversando com os dois antes do jantar. Tem algo a ver com isso?"

Laurent moveu o seu rosto com um sorriso enviesado.

"Não, isso se trata de uma outra história. Mas vamos trabalhar com uma questão de cada vez. Já temos o bastante com o que lidar por enquanto..."

Damen estava sentado ao lado de Laurent em uma das cadeiras de espaldar alto com arabescos talhados ao estilo veretiano, observando-o sob a luz dos candeeiros com a sua roupa suntuosa de rei e a máscara de serpentes presa na algibeira de sua calça.

Os seus olhos estavam mornos e a sua beleza parecia atingir um novo esplendor aos vinte e dois anos, como teria aos vinte e três, vinte e cinco, trinta, quarenta... Laurent de Vere sempre seria belo e Damen desejava poder permanecer sempre contemplando esse brilho no decorrer dos anos.

"Eu gostei do que você falou mais cedo..." — disse Damen, mudando de assunto e enrubescendo.

"Você vai precisar ser um pouco mais específico, Damianos..."

"Gostei de quando você disse que eu sou o seu rei..."

"Ah, isso..."

"Você também é o meu rei, Laurent, meu amor..."

Laurent enrubesceu ferozmente do queixo até as orelhas e sentiu os dedos de Damen se entrelaçarem nos seus, pouco antes do akielon lhe beijar a palma com as linhas em um M delicado e manter as suas mãos unidas.

E, num gesto doce, o rei de Akielos se aproximou e beijou também o rosto do rei de Vere, que, por sua vez, tateou a sua bochecha instintivamente. A sua pele leitosa estava rosada.

"Damianos, você precisa me deixar estrategiar. Sabe que não consigo pensar como costumo pensar quando faz essas coisas..."

"Não. Você pensa até melhor quando é tratado com carinho, rei das serpentes. Além do mais, você pediu que eu confiasse em você e estou confiando..."

Os dois homens se fitaram por alguns segundos e um sorriso esquivo surgiu no canto dos lábios de Laurent, pouco antes de se ouvir batidas na porta.

Lorde Berenger e Ancel foram os primeiros a serem trazidos por Isander. O escravo de estimação veretiano tinha os seus cabelos flamejantes e soltos caídos pelas costas nuas, circundados por topázios amarelos em uma tiara que faziam o seu rosto parecer emergir de uma realidade quente, bruxuleante e vibrante.

Estando ele mais cedo conduzindo a demonstração pirotécnica no Salão, as suas roupas permaneciam reveladoras e o seu rosto, um pouco afogueado.

Depois, Loyse e o médico Paschal, que Damen nem mesmo sabia que estivera na festa, chegaram, seguidos de Jord e de Lazar. Também vieram o kyros de Ios, Nikandros, acompanhado de Makedon, Aktis e Pallas. Por último, Charls e Guillaime, escoltados ainda por Isander, chegaram. O serviçal akielon fechou a porta dupla atrás de si, tendo o time completo.

Laurent estudou os convidados um a um enquanto eles se sentavam e a sua expressão parecia um pouco intimidadora, fixando os olhos gélidos neles, antes de cruzar as pernas e declarar:

"Certo, o que descobriram na festa de hoje? Primeiramente, Loyse e Paschal..."

Damen moveu o seu rosto com alguma surpresa, tentando pensar em um momento em que Laurent deu algum direcionamento para as pessoas que lhe haviam sido leais antes e o seriam novamente.

Com um tapa de leve no ombro de Damen, Laurent havia se despedido dele durante a formalidade anterior ao jantar, embrenhando-se com a sua máscara de serpentes entre as pessoas e distribuindo comandos e orientações, sem que o akielon, um leão grande e mirando somente leopardos e águias, seus alvos, pudesse perceber.

Laurent multiplicara os seus olhos e ouvidos em um estalar de dedos.

Paschal foi o primeiro a falar. Mesmo ele, tinha uma máscara de serpentes erguida sobre a cabeça enquanto o seu rosto humano permanecia descoberto.

"Torgeir trouxe o seu próprio médico de Bazal, mas Vishkar trouxe somente um farmacêutico que cuida dos chás contraceptivos das mulheres da sua comitiva. Ele atua como veterinário dos leopardos também. Soube que ela dispõe de uma equipe médica que cuida das imperatrizes herdeiras em Skarva, mas, por alguma razão, não a trouxe, o que é estranho para uma corte imperial viajando ao estrangeiro..."

A informação soava demasiadamente simples para Damen, que não via importância nas palavras de Paschal. Contudo, Laurent parecia estar concentrado no médico e, após meio minuto em que ele moveu os seus olhos, refletindo, fez um gesto para que Loyse falasse. A senhora de Fortaine começou então:

"Eu havia permanecido ao lado da imperatriz e da quarta esposa no Salão, antes de Vossa Majestade chegar. Elas não me deram muitas informações, mas quando me apresentei, Pari me perguntou se eu havia sido a esposa de Guion. E quando eu disse que, infelizmente, sim, ela me perguntou se ele havia sido executado em Ios... Após isso, Pari se fechou e se esquivou quando eu perguntei de onde ela conhecia o meu marido..."

"Guion?!" — surpreendeu-se Laurent.

"Sim, Majestade! Em seguida, entreouvi algumas conversas dos patranos. Não domino tão bem a língua de Patras, mas pelo que entendi, segundo uma nobre, Torgeir está furioso com uma espécie de paralização de escravos acontecendo frente ao palácio de Bazal. Além disso, alguns ringues clandestinos de escravos parecem ter sido descobertos em Patras..."

Laurent e Damen se olharam com surpresa.

"Ringues de escravos... Em Patras?!"

"Sim, Majestade!" — declarou, Loyse com uma expressão séria — "Anellos schiavon, não é?"

Laurent assentiu, confirmando a palavra 'ringue de escravos' na língua de Patras.

Loyse poderia passar a imagem de uma nobre sem ambições e em uma situação de fofoca, ela seria vista como alguém que não oferecesse perigos com os seus olhos verdes desinteressados e os poucos fios prateados presos em uma trança longa e castanha que exigia tempo e ócio para ser feita. Mas Loyse era um pombo, constatara Damen. Algo que, certamente, ela tinha em comum com o falecido esposo, Guion, e o filho Aimeric.

Laurent seguiu para lorde Berenger e Ancel. O senhor de Varenne foi o primeiro a falar:

"O imperador não está fazendo uso de escravos. Ele e Vishkar se desentendem há meses e alguns na corte imperial se sentem empáticos em relação a ele. Segundo alguns vaskianos, Sorem de Ver-Tan é alguém de personalidade tranquila, mas permanece à sombra de Vishkar desde que ela se casou com Pari. A imperatriz e ele pareciam melhores amigos antes, mas, agora, parecem se detestar ferozmente..."

Ancel, ao fim do relato de Berenger, jogou o seu cabelo para trás e, estando com a barriga e os braços de fora em uma temperatura fria, ele foi fitado com entusiasmo por Lazar. Pallas revirou os olhos nas órbitas.

"A imperatriz teve um aborto espontâneo logo no primeiro ano de casamento com Sorem de Ver-Tan. A criança tinha uma má formação e morreu ainda na barriga da mãe. Dizem que foi praga da falecida imperatriz Betthany, que não se dava muito bem com Vishkar. Um dos escravos concubinos me disse e Berenger traduziu para mim..."

Ancel parecia um pouco apático e deu de ombros.

"...É só isso. Depois disso, Vishkar enlouqueceu com o imperador. Talvez, ela o tenha culpado por não conseguir lhe dar uma criança. Me surpreende Sorem ter conseguido sequer fodê-la. Daria algum mérito a ele só por ter chegado tão longe..."

Laurent crispou os lábios e se voltou para os seus homens. Foi Jord que tomou a palavra:

"Como lhe disse mais cedo durante o jantar, Majestade, Enguerran nos enviou um mensageiro pouco antes da festa. A comitiva de Vask e de Patras se encontraram próximo às montanhas na fronteira de Varenne e de Lys e elas se subdividiram, rumando para o sul e para o norte. Vask carregava liteiras e baús pesados, cujo interior não conseguimos descobrir. Patras também tinha caixas pesadas sendo trazidas para o norte, mas vimos que se tratava das bebidas oferecidas à Vere."

"Acha que eles estão rumando para Akielos?"

"É cedo ainda para saber, Majestade. Mas Enguerram e a sua tropa continuam seguindo as comitivas que vão para o sul a alguma distância para não serem descobertos..."

Damen se alarmou. Descobrir que pessoas da comitiva de Vask e de Patras seguiam para o sul soava demasiadamente suspeito. Contudo, Delpha permanecia fortemente vigiada pelos soldados veretianos e akielons e seria impossível uma comitiva com carroças e liteiras passar por eles. O que Torgeir e Vishkar pretendiam?

Laurent permaneceu pensativo até o seu olhar deslizar para Nikandros, antes de ele prosseguir:

"Jord, você ficou incumbido de vigiar disfarçadamente as duas leopardas de Skarva. Imagino a sua surpresa ao perceber o kyros de Ios de gracejo com a quarta esposa de Vishkar como se estivesse em um banho público em Ios..."

Nikandros pareceu demorar para perceber que o seu nome era citado e se voltou para as pessoas ao redor, visivelmente aturdido. Ele ainda remoía as informações sobre parte da comitiva de Vask e de Patras rumar para o sul.

"O que?"

"O kyros de Ios cortejando Pari de Skarva, quando se me lembro bem, o rei de Akielos o mandou manter os olhos em Torgeir."

Nikandros se mostrou indócil.

"Mandou os seus homens me vigiarem, Laurent?!"

"Não, mandei que vigiassem a imperatriz e Pari de Skarva, mas eis que surge você na frente de Jord e de Lazar, rindo e satisfeito como um garoto de treze anos que descobre que já pode montar..."

Explicando-se, Nikandros começou:

"Eu vigiei Torgeir! Eu descobri, colhendo informações com algumas pessoas que a rainha Enone de Patras acompanhou a comitiva de Patras somente até Varenne e depois, abandonou o esposo durante a viagem. É possível que ela esteja neste grupo de pessoas rumando para o sul. E descobri também que Torgeir trouxe os seus machados e armamento para Vere!"

"E depois, foi flautear com a consorte de um reino que pode ser rival das nações-irmãs?"

Nikandros moveu o rosto, estupefato.

"Está desconfiando da minha lealdade?!"

O rei de Vere respirou fundo enquanto Damen interveio:

"Laurent, eu tenho plena confiança no kyros de Ios!"

"Sim, eu também. Caso contrário, ele não estaria aqui. Mas gostaria de saber o que acontece entre um leão e uma leoparda..."

Nikandros contraiu as sobrancelhas com raiva e declarou:

"É proibido um homem se atrair por uma mulher em Vere?"

"Não para você que é de Akielos. Mas não seja tímido e nos conte o que aconteceu..."

"Não aconteceu nada! Nos vimos por acaso antes do jantar e ela falou comigo em akielon."

"O que ela falou?"

"Coisas triviais! Não sou um idiota, Laurent! Pari me perguntou de onde vim e como era Ios. Perguntou se as pessoas lá são felizes e se eu tive uma boa infância... Só isso... E ela me falou que era uma mulher dos clãs e que sentia falta de cavalgar em campo aberto..."

"E depois? No Salão Principal, Jord o viu falando com Pari novamente e com Vishkar!"

"A imperatriz disse que Pari me achava atraente e perguntou se eu gostava de mulheres..."

"E o que disse?"

"Que sim, ora bolas! Mas disse que estava em serviço."

"Espero que não tenha dito que estava em serviço vigiando Torgeir a mando de Damianos..."

Nikandros tinha manchas vermelhas em suas bochechas.

"Não, mas... Acho que Pari de Skarva percebeu porque ela disse que Torgeir estava no jardim falando com os seus soldados patranos quando eu me despedi dela e, de fato, ele estava no jardim..."

O olhar gélido de Laurent se estreitou e Loyse aspirou o ar numa risada curta, resmungando:

"Homem é um bicho trouxa mesmo..."

Nikandros tinha as orelhas muito vermelhas e ele mirou Damen, mas o apoio do rei akielon não veio em sua direção. Laurent comentou com um sorriso enviesado:

"Já sabemos o ponto fraco do kyros de Ios: um rabo de saia..."

Nikandros se ergueu, dizendo:

"Eu não fui enganado! E aquela mulher... Não é qualquer mulher..."

Pallas, que se mantinha em silêncio até então, disse:

"Por favor, Majestade de Vere, seja razoável... O kyros Nikandros é sempre muito focado em tudo o que faz e não perderia a cabeça desse jeito... Estamos comprometidos com a segurança das nações-irmãs!"

A voz de Lazar saiu amarga:

"Ah, é? Olhe só para você, coração! Você perdeu a cabeça também por essa tal Pari de Skarva quando a viu nos jardins de tarde!"

Pallas moveu as mãos para trás como se se isentasse de algo:

"Eu não me interesso por mulheres! Eu achei que a imperatriz fosse um homem e o achei bonito... Ou bonita... Enfim, só isso..."

Damen passou a mão pelo rosto com alguma vergonha por seus homens. A primeira vez deles em Arles estava sendo um desastre.

"...É você, Lazar! Você quem fica olhando para os putos de Arles como se fosse um parvo..." — retorquiu Pallas, atirando um olhar desagradável para Ancel num veretiano que melhorara muito desde que ele começara a dormir com o membro da Guarda Real de Vere.

Ancel jogou os cabelos vermelhos para trás, colocando as mãos na cintura estreita, com ultraje:

"Oi, cuide do seu homem, akielon! Já tenho um amo. Não tenho culpa se sou fascinante!"

"A carapuça de puto lhe serviu bem?" — indagou Pallas.

"Serviu! É o que eu sou, seu idiota! O melhor puto de Vere! Posso ensiná-lo a cavalgar o pau de um homem já que parece estar perdendo o seu!"

Pallas se levantou e foi detido por Lazar enquanto lorde Berenger puxou o pulso de Ancel.

Laurent esfregou os olhos e bateu na mesa com o punho fechado, irritado o suficiente. Depois, aproximou os seus dedos, dizendo:

"Falta isso para eu perder a paciência! Calem-se e não queiram me ver aborrecido!"

Aktis, que acompanhava a cena calado, movia os seus olhos e ergueu a mão para pedir a palavra como se Laurent fosse um mestre e ele se encontrasse em uma sala de aula de Akielos tomada pelo caos. Em um akielon misturado com o veretiano, ele falou:

"Majestade, eu troquei algumas palavras com Nabsib, pedindo ajuda à escrava Talik. Ele é o capitão da Guarda Imperial e está incumbido de vigiar o imperador. Não foi possível arrancar muitas informações dele, mas, aparentemente, o imperador fez um caminho diferente da rota que Vask normalmente faz para Vere, tomando um atalho para chegar no mesmo dia que a imperatriz. Sorem deveria permanecer cuidando das princesas vaskianas que moram no casarão de Skarva que é cercado pela floresta em que os leopardos sagrados vivem. Pelo que entendi, ele deveria somente morar no palácio e assegurar que tudo corresse bem, mas ele desobedeceu às ordens e trouxe alguns soldados seus."

"Sorem trouxe armamentos?"

"Sim, dentro do que é permitido à cada nação visitante..."

Laurent respirou fundo, trocando um olhar tácito com Damen, que disse:

"Sorem se declarou contra qualquer possibilidade de guerra e concedeu uma informação importante às nações-irmãs..."

Makedon, que se mantinha em silêncio com os braços cruzados, falou:

"A maioria dos que estão nesta sala era muito jovem quando houve a guerra entre Vask e Patras, mas eu me lembro de como foi essa época. O comércio de Akielos teve escassez de alimentos e víamos a fumaça a quilômetros de distância nas fronteiras de Patras. Mesmo em meio aos homens mais broncos, a guerra era um assunto constante e preocupante. No fim da guerra, ouvi dizer que os soldados das duas nações eram só pele e osso e não se aguentavam em pé. Todos estavam doentes e fracos demais. Muitos, mutilados. Havia vaskianos e patranos que nasceram e morreram na guerra. Mas eu lembro de ouvir falar de uma mulher notável que foi a responsável pela derrota de muitos patranos e que era a comandante das tropas de Vask. Muitos a mencionavam com respeito e temor: Somalia de Ver-Tan era o nome dela..."

Laurent sacudiu a cabeça, assentindo:

"Sim! Prima da falecida imperatriz Betthany e mãe de Sorem de Ver-Tan!"

Damen moveu o seu rosto, declarando:

"O imperador mencionou que perdeu a mãe na guerra."

Laurent levou as mãos às têmporas como se calibrasse a sua mente perspicaz para organizar e guardar todas aquelas informações. Por fim, ele disse:

"Bom, precisamos falar sobre o presente oferecido por Vask ainda. Vamos prosseguir..."

"Lamento por não conseguir deixá-lo claramente a par da situação, Laurent. O imperador mencionou que seria uma armadilha..." — disse Damen.

O rei de Vere voltou a se sentar, cruzando as pernas.

"Não, foi importante você me dizer que o presente seria uma armadilha, Damianos. Me inteirou de onde viria o ataque e me favoreceu com o tempo de descobrir um ponto fraco de Vishkar..."

Os olhos azuis e ágeis de Laurent se postaram em Charls e Guillaime.

"Vocês dois sabem de algo que possa nos ser útil?"

Charls fez uma reverência para Laurent, após se colocar de pé.

"Majestade, obrigado por nos incluir no seu círculo secreto. Conversei com alguns homens e mulheres na festa e muitos boatos ainda circulam sobre o senhor e o rei Lamen entre os cidadãos das quatro nações. Mas um em especial me chamou a atenção e talvez tenha a ver com o que a senhora de Fortaine disse. Há histórias de que pessoas da corte de Vere são simpatizantes do tráfico de escravos para outras nações e muitos senhores de escravos parecem olhar com maus olhos a abolição e a união de Akielos e de Vere..."

Laurent esfregou os olhos, dizendo:

"O Regente se cercou de muitos senhores de escravos que lhes forneciam garotos ao seu gosto. Esses eram um pouco mais descartáveis do que os escravos de estimação preferidos, mas serviam bem ao fetichismo doentio do meu tio. As jogadas do Regente contribuíram para que muitos dos comerciantes de escravos se tornassem ricos e poderosos na corte. E, naturalmente, os desgraçados me detestam. Obrigado, Charls..."

Damen observou o comerciante veretiano voltar a se sentar ao lado de um cabisbaixo Guillaime e o rei se recordou por alguma razão de Charls conversando algo sigiloso com Isander. Por um momento, a situação lhe soou estranha novamente a despeito de ele haver explicado que estava repassando tecidos para o serviçal simplesmente.

Laurent respirou fundo e, após meio minuto, disse:

"Preciso que o plano de Vishkar de humilhar a mim e a Damianos não transcorra conforme ela quer. Infelizmente, muitos ainda duvidam das minhas escolhas no meu reino e comer na mão de uma imperatriz astuta de uma nação vizinha no dia do meu aniversário é declarar a minha incapacidade diante de Arles inteira. Isso não vai acontecer..."

Laurent reteve um tempo a respiração e falou, sem meandros:

"...Preciso de um homem para cortejar Pari de Skarva no Salão Real. Damianos, você me concede o direito de convidar o kyros de Ios para essa tarefa...?"

Nikandros, com a boca aberta, se levantou estupefato:

"O que?"

"É o seu dia de sorte, Nikandros..."

Damen interveio com uma voz severa.

"Espere, Laurent! Eu não vou ordenar que o kyros de Ios tome uma mulher à força! Homens que fazem isso em Akielos têm os paus chutados pelos soldados... É desprezível!"

Laurent girou os olhos nas órbitas.

"À força?! Os dois estavam se comendo com o olhar na mesa do jantar. Não fazia ideia de que Nikandros pudesse ser sensual, mas ele mal tocou na comida, apreciando a quarta esposa!"

Damen se recordava de ver Pari fitando o akielon na mesa vizinha e o acompanhando com o olhar.

"... Além do mais, Vishkar perguntou a Nikandros se ele se interessava por mulheres. É o que os casais polígamos fazem em Vask. Normalmente, os possíveis amantes são abordados pelo cônjuge, que estabelece as normas e lhe conta o que agrada a outra pessoa na cama. Vishkar não lhe falou do que Pari de Skarva gosta entre quatro paredes e qual parte sua ela apreciaria entre as pernas dela...?"

Nikandros arqueou as sobrancelhas, parecendo nervoso e vermelho.

"Eu não vou tomar uma mulher diante da corte!"

Laurent hesitou e pareceu pensativo.

"Não a quer?"

"Quero! Mas não dessa forma!"

"Ela também o que melhor no que estou pensando para resolver essa situação. Vishkar estava temerosa porque está achando que como me aborreceu, eu estou planejando algo bruto e covarde para a sua consorte. Mas eu não vou deixar uma mulher sofrer em minha corte. Você seria gentil e representaria Akielos... Preciso também de um outro homem que represente Vere!"

Damen moveu o rosto com surpresa.

"Outro homem?!"

"Vishkar estabeleceu as regras. É um presente dado para as nações-irmãs. Preciso de um homem meu..."

O olhar de Laurent passeou pela mesa comprida e fosse por cansaço ou por distração, ele demorou-se um pouco em lorde Berenger. Ancel pulou sobre o amo, abraçando-o.

"Majestade, lorde Berenger não!"

"Eu não estou o cogitando!"

O olhar verde de Ancel se arregalou, conforme Laurent o encarava por algum tempo ainda e o escravo de estimação retorquiu, nervoso, assumindo inferências como realidade:

"Quer que eu monte Pari de Skarva então?"

Damen sacudiu a cabeça, pensando:

"Mais fácil ela montar você, Ancel."

Laurent sacudiu a cabeça, dizendo:

"Mais fácil ela montar você, Ancel."

Ancel abriu a boca e a fechou. Depois, contraiu os lábios em irritação, replicando:

"Já montei um escravo de estimação em um ringue, Majestade!"

"Difícil de acreditar." — pensou Damianos, surpreso como Laurent parecia ler os seus pensamentos.

"Difícil de acreditar." — declarou Laurent.

Ancel tentou replicar algo, mas foi silenciado por Berenger, que moveu a mão, sinalizando que era melhor ele permanecer quieto.

"...Teve outro homem que Pari escolheria..." — voltou a falar Laurent, erguendo a cabeça para mirar Isander.

O serviçal se mantinha quieto com os seus olhos de cervo baixos e uma expressão contida.

"... Pari de Skarva, pelo visto, não gosta muito de reis, mas gosta dos akielons. Observei ela admirando a beleza do meu serviçal, que, de fato, é belo, além de Nikandros, a quem ela julga atraente..."

Damen espreitou o rosto de Isander e perguntou:

"Isander o representaria?"

"Você a quer, Isander?"

O serviçal se manteve de cabeça baixa, após lançar um olhar desolado para Laurent.

Ancel ergueu as sobrancelhas com certo despeito.

"Pari de Skarva arrematou alguns dos homens mais bonitos da corte! Que fogo e que sorte essas mulheres de Vask têm, não...?"

Laurent disse:

"As mulheres vaskianas são famosas por serem intensas. Elas veem o ato sexual como um momento de integração, desde que os homens se mantenham dignos delas..."

Nikandros, que ainda fitava Isander com assombro, perguntou com indignação:

"Então, é o que pensa em fazer, Laurent de Vere? Quanto a você e a Damianos, nem pensar! Mas quanto a mim e ao seu serviçal, quer designar que tomemos uma mulher diante de quatro cortes como se fôssemos seus escravos num ringue..."

Laurent não alterou a voz e tamborilou os dedos sobre a mesa:

"Não, os escravos de estimação nos ringues nunca tiveram escolha. Eu não estou o ordenando, kyros de Ios. Somente o seu rei pode ordená-lo e sei que isso fere os princípios de Damen. Estou lhe dando a opção. Se não quiser, basta que o diga!"

"E quanto ao querer de Pari?"

"Ela também pode dizer não. Mas o modo como isso irá resvalar nos tabus de Vask não é problema nosso e confesso que me daria muito prazer ver Vishkar tomar do seu próprio veneno!"

"Por que, então, insistiu que queria Pari?"

"Se aceitássemos o imperador, teríamos um problema diplomático ainda mais grave com os vaskianos. Estaríamos tomando partido em uma briga de imperadores que não é nossa! E se eu aceitasse prontamente a anulação do presente, teríamos uma imperatriz que sobreviveu a uma guerra, dando surras com tonfas em Torgeir, podendo, na melhor das hipóteses, ficar furiosa pelo seu plano não ter dado certo e cessar o comércio com Vere em retaliação. Eu preciso arrumar um modo de domar as duas leopardas... O ponto fraco de Vishkar não pode proporcioná-la, necessariamente, somente dor. Isso não é a única coisa que podemos extrair de um adversário."

"Então, é assim que age, Laurent de Vere? Encurralando as pessoas?"

"Se não está percebendo, Nikandros, somos nós que estamos encurralados nesta sala por conta de um presente que eu, a princípio, nem pedi! Acho que todos aqui sabem da minha ligação com o rei de Akielos e, sim, eu sou egoísta e não vou mandar Damianos dormir com a mulher mais bela de Vask, principalmente ele dizendo que não a quer. Estou tentando pensar numa solução em que todos saiam satisfeitos e não haja uma guerra declarada amanhã de manhã nas nossas fronteiras. Pensei em dar dois presentes a Pari e a vocês! Mas se ela os recusar ou se vocês dois recusarem, anulamos a entrega de presentes e deixaremos esse assunto ser inflamado pelos atiçadores dos quatro reinos..."

Laurent falava, parecendo impaciente e se voltou para Isander:

"... Isander está com vinte e um anos e é um escravo liberto. É livre para decidir se quer Pari de Skarva ou não."

O rapaz akielon fechou os seus olhos por alguns segundos e uma tensão parecia tomá-lo. Em um veretiano quebrado, ele declarou:

"Me mande, meu mestre!"

Laurent, irritando-se, bateu com a palma da mão na mesa e Damen percebeu que a impaciência de Laurent começava a despontar feroz.

"Você é livre! Você a quer ou não a quer, Isander?!"

"Eu não sei! Preciso que me diga!"

"Você é virgem e deseja desesperadamente poder exercer a sua virilidade. Não dormirei com você, Isander, mas ela o quer! Terá nos braços a mulher mais linda que já pisou em Vere! Pode fazer isso ou não?"

O escravo ergueu o seu olhar inseguro para Laurent e, por um segundo, pareceu que ia falar algo. Mas calou-se. Depois, murmurou de um modo vago:

"Se Vossa Majestade quiser, eu farei..."

"ISANDER, VOCÊ É LIVRE!"

Nikandros interveio com raiva:

"Pare com isso, Laurent! Não percebe que o seu serviçal está assustado?! Ele nunca esteve com uma mulher antes e isso o está deixando nervoso..."

"Não! Ele espera que eu tome a decisão por ele, assim como você espera que Damen escolha por você, Nikandros! Caso achem que o que eu estou pedindo é um absurdo, basta que o digam, mas se a ideia os animar, parem com esse teatro e desembuchem logo! Não temos muito tempo."

Nikandros permaneceu com os olhos perdidos.

"Eu nunca fodi com alguém em público... Para mim, os costumes veretianos são... estranhos."

Laurent deslizou rapidamente um olhar para Damen, dizendo:

"Entendo..."

Ancel falou em um tom apaziguador:

"É mais tranquilo do que parece, kyros bonitão... Lorde Berenger me conheceu montando em um outro escravo de estimação num ringue cheio e eu gozei na cara do meu adversário..."

Nikandros arregalou os olhos, parecendo chocado.

"Pelos deuses, e como você se sentiu?!"

"Sensacional! Parecia que eu estava gozando na cara de todos aqueles homens endinheirados e esnobes. Eu sou o melhor puto de Vere e não tenho do que me envergonhar. Você também não. Estamos ansiosos para ver o que tem debaixo desse quíton aí, kyros de Ios..."

"Chega, Ancel!" — interveio lorde Berenger, parecendo incomodado pelo modo como o seu escravo de estimação fitava Nikandros.

Laurent moveu o seu olhar até Isander e se dirigiu a Nikandros:

"Pode cuidar do meu serviçal? Pode guiá-lo como faria... como faria com um amigo, kyros de Ios?"

Nikandros se apoiou no espaldar de sua cadeira, parecendo abatido. Ele permaneceu em silêncio por quase um minuto inteiro até mover timidamente o seu rosto vazio:

"Eu... posso tentar..."

"Ótimo! Isander, preciso falar com você em particular um segundo..."

E Laurent se dirigiu para um canto da sala, próximo à janela, trocando algumas palavras sussurradas com o escravo liberto. O akielon tinha os olhos escuros úmidos, mas ouvia atentamente as palavras do seu amo.

Damen, sentindo uma ponta de ciúme, como, talvez, sempre sentiria devido a um vínculo estranho que um serviçal tinha com o seu amo e do qual ainda se lembrava, puxou Nikandros para um canto, falando-lhe também:

"Nikandros, você é o kyros de Ios e eu serei o seu amigo, independentemente do que decidir. Não se sinta pressionado por Laurent..."

O homem arqueou as suas sobrancelhas espessas, dizendo:

"Laurent está certo... Eu quero aquela mulher, Damiamos... Maldita seja a mente de serpente dele!"

"Pode ter Pari em outras circunstâncias. Não nessa..."

O kyros olhou para o teto, falando:

"Odeio ter que concordar com o rei de Vere, mas ele tem razão. Se acalmarmos a imperatriz, dando algo que Pari de Skarva quer, toda aquela tensão pesada lá fora pode ser dissolvida... Akielos não quer uma guerra, não é mesmo?"

"Não, não quer. Mas o que você quer, Nikandros?"

"Satisfazer o meu rei e a mim mesmo..."

Damen fitou o homem dos pés à cabeça e tocou-lhe o ombro.

"Então, cumpra essa missão, Nikandros... Eu conto com você!"

Os dois akielons se detiveram, olhando-se por um momento. Depois, observaram Isander se ajoelhar diante de Laurent e beijar a sua mão. O veretiano tocou a fronte do serviçal, sorrindo enquanto os dois pareciam chegar a um acordo. Nikandros, mirando Isander, comentou:

"Faz muito tempo que não me deito na mesma cama com um outro homem..."

Damen fixou a atenção no rosto um pouco ruborizado de Nikandros e, em seguida, a sua atenção se deteve no corpo forte de Isander; na sua pele cor de oliva e nos olhos e cabelos escuros, que cacheavam um pouco em madeixas bem cortadas. Uma luz de compreensão o atingiu e ele se indagou se Laurent presenteava mais pessoas com aquela trama elaborada que tecia.

Laurent e Isander se aproximaram e Damen não sabia o que o veretiano havia dito para o escravo liberto, mas, agora, ele parecia mais calmo e bem mais disposto.

Ancel perguntou então:

"Veremos mesmo em Arles um homem e uma mulher fodendo ao ar livre? Eu nem faço ideia de como possa ser!"

Damen, até o momento, não se atentara para o fato de que o sexo entre homens e mulheres antes do casamento era um tabu em Vere e que o sexo, mesmo após o matrimônio, não era feito publicamente para não incentivar outros casais e, consequentemente, fomentar a concepção de bastardos. A grande maioria dos veretianos ali não fazia ideia do que estava por vir.

Jord tinha uma expressão curiosa. Ancel e Berenger se entreolhavam e Charls estava ruborizado ao lado de Guillaime. Paschal parecia ter uma expressão comedida de alguém que entendia sobre desenlaces biológicos e Lazar olhava para cima sonhador, tentando, talvez, antever os processos.

"Vocês, veretianos, são a porra de um povo inacreditável..." — comentou Makedon, sacudindo a cabeça — "Se expõem as suas fodas que nem os cachorros e os cavalos, exponham todas elas!"

"Acho que, dentre os veretianos aqui, se ninguém anda quebrando os tabus de Vere escondido, Loyse é a única que tem algum conhecimento nesse setor..." — comentou Laurent e Damen se recordou de que o rei de Vere, talvez, nunca houvesse visto o sexo heterossexual também.

A senhora de Fortaine respirou fundo e disse em um tom entediado:

"O sexo com homens é prazeroso, mas Guion era preguiçoso..."

"A senhora teve muitos filhos..." — replicou Paschal.

"Eu não era preguiçosa..."

Makedon olhou a senhora de Fortaine com um renovado interesse e se pôs a contar em seus dedos com juntas grossas:

"Em Akielon, minha senhora, é obrigação de um homem decente satisfazer a esposa como se estivesse entrando em um campo de batalha. Não deixamos sobrar nada sem ronda, averiguação, constatação, exploração, invasão e tomada!" — um gesto obsceno foi performado por Makedon na palavra tomada, arrancando gargalhadas torpes de Aktis e de Pallas.

Laurent pareceu morder os lábios, sufocando algo que parecia um riso e Damen evitou olhá-lo porque não queria que os seus momentos íntimos com o rei de Vere fossem revelados novamente. Além disso, o akielon não ia favorecer Laurent, um rapaz bem-comportado, com um olhar encorajador para que ele embarcasse nas obscenidades soldadescas dos seus homens.

"Receio que a minha oportunidade passou, então, porque sou viúva, estou velha e só fui tomada..." — retrucou Loyse.

"O estrume do Guion morreu! A senhora, não! E se me permite dizer, és ainda uma cocotinha, senhora de Fortaine! Venha a Akielos que eu a mostrarei que há homens melhores do que o parvo do seu marido lambe-botas do Regente..."

Loyse esboçou um sorriso enquanto Laurent, cortando o assunto, perguntou:

"Bom, vamos seguir adiante. Nikandros e Isander, do que precisam?"

O kyros de Ios olhou para o teto, parecendo ter um riso nervoso, fosse pela adrenalina, fosse por sua desgraça:

"De alguma bebida forte..."

"Sobrou bastante da aguardente akielon..." — comentou Makedon.

"Se Nikandros desmaiar em cima de Pari e de Isander, Akielos ganhará uma fama constrangedora e será o mesmo que nada... Vou mandar trazerem a bebida de Patras." — determinou Laurent.

"Existe a droga afrodisíaca de Akielos..." — sugeriu Ancel, pensativo.

"Não há necessidade quanto a isso..." — respondeu Nikandros — "Não preciso de subterfúgios. Só de algo que atenue a minha vergonha..."

Laurent fez um gesto em direção a Charls e Guillaime.

"Se Pari e Vishkar aceitarem a proposta, precisarei de sedas e véus para enfeitarem o salão. Não quero brutalidade e violência como nos ringues do Regente. De alguma forma, quero que isso seja bonito e honesto, assim como o é no clã de Halvik..."

Nikandros sacudiu a cabeça, repetindo a palavra com incredulidade.

"Honesto..."

"Tem algo a dizer para Isander?" — prosseguiu Laurent, ignorando a ironia do akielon.

"De todos os amos que poderia ter, rapaz, te arrumaram o melhor. Devia ter fugido de volta para Marlas quando recebeu a sua alforria..."

Laurent franziu o cenho:

"Algo de útil!"

"Faça tudo o que eu fizer... E não seja muito rápido."

"Ótimo!"

Damen experimentou, então, com algum assombro a cena insólita em que se encontrava. Um soldado trouxe uma garrafa da bebida patrana para Nikandros e Laurent pediu ao homem que servisse também Isander.

No fim, todos estavam bebendo porque mesmo os que sabiam o que podia acontecer entre um homem e uma mulher não estavam totalmente preparados para o que estava por vir. Todos conheciam Nikandros há um tempo. Pallas soltou uma risada espirituosa, como se estivesse já imaginando uma sequência de ações do kyros.

Depois de uma taça da bebida, Nikandros deu um sorriso para o nada e para ninguém. Aktis fez uma massagem em seus ombros tensos como se o kyros fosse adentrar um ringue, o que não deixava de ser verdade de um certo modo. Os soldados akielons lhe deram tapinhas incentivadores nas costas:

"Acreditamos em você, Nikandros!"

Ancel, que penteava os fios do cabelo ruivo com os dedos, após ter bebido alguns goles da bebida patrana da taça de lorde Berenger, disse:

"Não entendo vocês, soldados! Vocês recebem ordens do seu rei para lutarem e para matarem pessoas. Vocês cheiram a cavalo por meses; se arrastam no chão e se enfiam em buracos no meio do mato com uma espada e um escudo para atacarem algum outro infeliz fedendo a cavalo e saindo de outro buraco. Mas é de foderem que sentem vergonha... Espero poder ver pelo menos uma tomada satisfatória, após tanto drama..."

O escravo de estimação replicou o gesto obsceno feito por Makedon e lorde Berenger afastou a taça dele, julgando que a bebida já alcançara a corrente sanguínea do veretiano.

Após algum tempo, Isander se ajoelhou ao lado do kyros de Ios com os seus olhos escuros de cervo e cílios compridos e disse em akielon:

"Por favor, mestre, me guie. Servirei à Pari de Skarva, mas servirei ao senhor também. O que espera de mim?"

O kyros espreitou o serviçal, deslizando brevemente os seus dedos pelas madeixas negras do jovem. Nikandros perguntou:

"Você é virgem mesmo?"

"Eu estava esperando por este momento. O momento em que me pedissem..."

Nikandros respirou fundo, sorvendo mais um gole da bebida.

"Não se preocupe. Não tocarei em você..."

"O senhor pode me tocar se assim desejar, mestre... O meu amo disse a verdade. Eu confessei para ele os meus desejos. Faz muito tempo que eu quero que peçam isso a mim... Eu sonho em montar e ser montado ao mesmo tempo."

Nikandros levou o gargalo da garrafa à boca, tomando todo o conteúdo e enxugando os lábios com o dorso da mão. Depois, destampou outra garrafa e sorveu a bebida, sem falar nada. As suas orelhas estavam vermelhas.

Quando um soldado veretiano bateu à porta, avisando que uma hora já havia transcorrido e a imperatriz e a sua consorte os esperavam no Salão Principal, Laurent se voltou para Nikandros e Isander, dizendo:

"Lembrem-se de que Pari pertence à realeza de Vask. Vocês devem agradá-la acima de tudo. Essa não é só uma foda em que deverão ser os melhores que puderem ser e receberem o melhor que puderem receber, mas é um gesto político para evitar um desgaste entre as nações-irmãs e Vask."

Nikandros, que tinha as bochechas vermelhas, hesitou, mas Isander, com um gesto ousado de escravo recém-liberto, tocou a mão do homem, oferecendo-se para acompanhá-lo.

Quando deixavam a sala, Damianos se demorou um pouco, chamando o rei de Vere para perto e dizendo:

"Tem certeza de que isso dará certo, Laurent?"

"Tenho certeza de que se tudo correr bem, temporariamente, não teremos um pretexto dado aos outros líderes para cavarem uma guerra conosco. Também não teremos estragados os nossos planos sobre a abolição dos escravos. Mas se houver mais armadilhas, precisaremos nos movimentar de novo..."

"Você havia dito que Vishkar e Torgeir tentariam somente uma provocação sadia conosco... Ainda acha isso?"

"As coisas mudaram de figura quando recebi as notícias do meu exército que está vigiando as comitivas de Patras e de Vask. Mas Afanas, o bebê leopardo da imperatriz, está em Vere... Creio que isso nos dê alguma vantagem..."

"Ou não. Um filho cativo em outro reino pode ser um motivo para não se começar uma guerra ou um pretexto para justamente começá-la..." — retorquiu Damen com uma expressão sombria.

(cut)

Quando reencontraram a imperatriz e a sua consorte, havia ainda alguma tensão no semblante de Vishkar, mas ela parecia um pouco mais calma.

Seguindo as instruções de Laurent, Nikandros e Isander, que acompanhavam de perto o rei de Akielos e o rei de Vere, ajoelharam-se diante das duas mulheres com as cabeças baixas em um gesto deferente.

Laurent se aproveitou do momento de confusão das duas vaskianas para falar, não lhes dando oportunidade de argumentarem:

"Em nome de Vere e de Akielos, oferecemos à bela Pari de Skarva dois homens de suprema confiança das nações-irmãs e que representam os seus reis: Nikandros, kyros de Ios, e Isander, o primeiro escravo liberto de Vere."

Vishkar fitou os dois homens que se mantinham de cabeça baixa e trocou um olhar atordoado com Pari.

"O que significa isso?"

"Significa que, assim como pedimos à Vask a sua joia, oferecemos duas joias também à Vask..."

"Os reis são vocês, Laurent de Vere, e Damianos de Akielos!"

Laurent meneou a cabeça, falando com uma voz pausada.

"É um tabu em Vere um homem ir para a cama com uma mulher fora do matrimônio e pretendo dar o exemplo ao meu povo como rei. Assim como não quero que a senhora quebre tabus de sua cultura, não quebrarei os meus..."

"Muito conveniente! E o rei de Akielos?"

"O rei de Akielos não está tomando mulheres em Vere em respeito ao povo veretiano que o apoia desde que estabelecemos o tratado de paz entre as nações-irmãs..."

"Oh, sim! E você pediu Pari, pensando nisso naturalmente..."

"Pedi o melhor que a senhora poderia trazer à Arles. A sua consorte, sem dúvida, é um diamante."

"E você oferece para ela um kyros e um serviçal?"

"O kyros de Ios é um homem honrad braço direito de Damianos. E quanto ao meu serviçal liberto, achei que acreditasse que escravos e nobres fossem iguais, Vishkar de Vask. Achei que acreditasse no beijo do céu e da terra. Eu não posso mandar um veretiano dormir com a sua consorte. Mas Isander é virgem, akielon e é um presente dado à Vask, assim como o escravo Isobell de Skarva seria dado a mim e a Damen... Um presente justo, não?"

A imperatriz procurou o olhar de sua consorte. Se elas haviam pensado em desafiar Laurent para um duelo; forçar a anulação da entrega de presente ou cederem de boa vontade à demanda do rei, os convidados no Salão nunca saberiam, pois o que elas, subitamente, tinham eram dois belos homens ajoelhados aos seus pés e algum aturdimento percorrendo os seus rostos.

Nikandros, num gesto ousado, ergueu o seu rosto para espreitar o rosto belo de Pari e, ruborizando como um garoto, baixou-o novamente. Isander pestanejou os seus olhos com cílios compridos.

Vishkar se voltou para Pari, falando em um vaskiano rápido e fluido como uma corrente de ar adentrando ambientes e batendo portas e janelas.

"Os homens do Salão que a agradaram. Eles ainda a atraem, Pari, meu amor?"

A bela vaskiana voltou os seus olhos azuis contornados de negro e, num gesto muito delicado, ela mergulhou nas madeixas escuras dos dois homens, os seus dedos compridos envoltos em anéis e com unhas rentes ao sabugo como as mulheres que caçavam e portavam armas tinham. Em um akielon melhor do que o seu veretiano, ela indagou, ajoelhando-se:

"Kyros de Ios, mandaram que fizesse isso? Que se ajoelhasse para mim?"

Nikandros ergueu a cabeça, fitando Pari. Não havia nada nela que ele não achasse atraente. A sua vontade era de tocar os cabelos macios de ouro da vaskiana e lhe beijar a boca de lábios úmidos.

"Eu só me ajoelho perante o meu rei. Mas, hoje, desejo me ajoelhar para a leoparda de Vask..."

"Por que quer se submeter a mim?"

"Porque tenho essa escolha. Achei que não a tivesse, mas quando me foi dada a liberdade, percebi que era exatamente o que eu desejava fazer. Nunca servi a uma mulher dos clãs antes e não sei se sou digno de uma leoparda, mas sou um leão e tentarei fazer o meu melhor. Permita que a terra hoje toque o azul vívido do céu, adorada."

As palavras de Nikandros pareceram causar algum efeito na vaskiana e mesmo Laurent arqueou as sobrancelhas, surpreso com a desenvoltura do akielon. Nikandros devia ser um bico doce entre as mulheres de Ios e de Delfeur. Vejam só!

Pari fitou, então, Isander.

"Olhe para mim!" — ordenou ela.

O serviçal ergueu os seus olhos bondosos.

"Você é belo. Por que olha sempre para o chão? Em Vask, os melhores concubinos são os que conseguem sustentar o olhar de seus amos. Um amo deve ser contemplado, adorado. Mesmo a minha senhora imperatriz, que é a líder de todo o império, é fitada nos olhos pelos seus melhores concubinos."

Isander moveu o seu rosto com insegurança.

"Em Akielos, fui ensinado a olhar para o chão desde que eu era criança. É um hábito difícil de perder, mesmo o meu amo me vestindo com roupas bonitas e puxando conversa comigo quando me pergunta se estou gostando de Vere..."

"Por que você?"

"Só sirvo o meu amo na mesa e o ajudo a se vestir. Eu acho que... gostaria de saber como é o prazer."

"Fazendo o que o seu amo lhe pediu? Se submetendo?"

"Eu não posso sentir prazer me submetendo, senhora?"

Pari permaneceu pensativa por alguns segundos e, depois, se levantou. Isander se curvou, então, beijando o dedo menor do pé da mulher que estava desnudo em sandálias de tiras de couro curtido muito finas.

"... Eu não sei se sou um leão ou uma serpente. Creio que seja só um homem livre que ainda está aprendendo sobre o mundo, mas adoraria servir à bela leoparda e ao radiante leão..."

Isander se mantinha curvado num gesto deferente.

Pari pestanejou, dirigindo-se a Nikandros.

"Você gosta de homens também?"

Laurent estreitou os seus olhos quando Nikandros moveu o rosto em direção a Damianos.

"Às vezes..."

"Nos clãs de Vask, fazemos isso próximo às fogueiras até o sol raiar. Todos os homens são de todas as mulheres e todas as mulheres são de todos os homens se elas não estão em missão e se sentem dispostas... A nudez não é uma ofensa e o sexo abençoa o solo, as colheitas e os nossos próprios corpos. Estão dispostos a isso?"

Houve um prolongado silêncio, mas Nikandros e Isander concordaram com um assentir murmurado.

Pari se voltou para a sua esposa, declarando com uma voz firme:

"São homens que parecem ter o coração no lugar. Pode ser eles..."

Vishkar esticou a mão, colocando o cabelo de Pari atrás da orelha. Não havia ciúme em seu semblante, mas um claro cuidado que lembrou Damen de quando lorde Berenger perguntou a Ancel se ele tinha certeza de que queria servir a Laurent, chupando o pau de seu escravo akielon em um caramanchão.

"Está certa de que os quer?"

"Sim, minha imperatriz! Creio que isso não será uma afronta para nós e não prejudicará as negociações de Vask..."

Damen anotou mentalmente a palavra negociações proferida por Pari de Skarva, que, em vaskiano, tinha o mesmo sentido de planos dependendo do emprego e do contexto do vocábulo.

Vishkar, com o seu corpo estreito e não muito alto, aproximou-se de Laurent, indagando:

"O que você ganha com essa manobra, jovem rei?"

Por um momento, Damianos temeu que Laurent declarasse sonoramente apenas: "Eu sempre ganho." Mas o rei de Vere não fez isso. Em vez de atiçar os ânimos, ele replicou com uma voz tranquila:

"Todos nós ganhamos. A sua leoparda, o homem de Vere e o homem de Akielos, sem exceção..."

Vishkar fez um gesto de assentimento, colocando os seus próprios termos:

"Assim como em Vere, nos clãs de Vask, o sexo ao ar livre não é um problema. Pari concordou em seguir com o protocolo de presentear as nações-irmãs. Mas ela é a minha esposa e não aceitaremos nada que a constranja, restrinja ou que ela rejeite, fui clara...?"

"De acordo..."

"Ela seguirá para os banhos e o kyros e o serviçal devem seguir também para serem purificados. Eu os acompanharei e conversaremos sobre o que Pari gosta ou não na cama. Creio que em uma hora, poderei lhes deixar mais ou menos a par de tudo..."

Nikandros, tendo os seus lábios entreabertos com surpresa, indagou, gaguejando:

"A Vossa Majestade Imperial nos acompanhará até os banhos...?"

"Naturalmente! Tomarei um banho com vocês dois e conversaremos. Vou poder treinar o meu akielon e conferir os corpos dos senhores..."

O kyros de Ios não protestou, mas passou a mão por seu rosto. O corpo nu não era um tabu em Akielos, mas tomar banho com uma mulher da realeza de Vask e um serviçal liberto, cujo intuito, assim como o seu, era montar uma mulher com habilidade e desenvoltura, satisfazendo-a diante de uma plateia era um combo de informações novas e atípicas. Damianos mandaria um dos serviçais levar mais bebida para Nikandros nos banhos. Ele precisaria.

Na sucessão do desenrolar insólito, Vishkar deu o braço para os dois akielons como se os três fossem sair juntos para uma comemoração soldadesca em alguma taberna, dirigindo-se aos reis de Vere e de Akielos com secura:

"Preparem o Salão. Minha esposa não vai se deitar e rolar no chão..."

E Pari, dando as costas e a mão para um concubino que a ajudou a descer os degraus, seguiu na direção contrária, possivelmente para os banhos da ala em que a sua comitiva estava hospedada.

Laurent fez um gesto para os guardas e para Charls e Guillaime.

"Tragam a cama do nosso melhor quarto de hóspede vazio. Movam os candeeiros para perto como se fossem as fogueiras dos clãs." — disse o rei veretiano, dirigindo-se para os seus soldados. E, depois, olhando para Charls e Guillaime, acrescentou — "Preciso de sedas, tules com pó de ouro e organza em tom cristal. Circundaremos a cama com esses tecidos..."

Damen viu os soldados veretianos e os dois comerciantes dispararem pelo Salão, dispostos a cumprirem as ordens do rei. Depois, ele comentou próximo a Laurent:

"Você está sendo bem cuidadoso..."

Laurent ergueu o seu olhar vívido:

"Trata-se de uma consorte imperial. Trata-se de Nikandros e de Isander. É Vask, Akielos e Vere indo para a cama, Damen. Felizmente, Vishkar concordou com a nossa proposta. Preciso cuidar para que ela não se arrependa e que o nosso orgulho e o dela não sejam maculados. Preciso que não seja como os ringues de escravos..."

(cut)

Uma hora depois, o Salão havia sido modificado ao gosto de Vishkar e do rei e a cama solicitada por Laurent fora desmontada de um quarto de hóspedes e remontada no centro do Salão rapidamente, sendo preenchida com lençóis limpos e almofadas de seda.

Charls e Guillaime haviam feito um trabalho primoroso, dispondo tecidos semitransparentes que circundavam o móvel, envolvendo-o numa película fina e onírica de um interior que podia ser visto em partes, mas também só vislumbrado em outras. Havia os momentos em que o seu interior era só intuído pela imaginação que preenchia lacunas porque a seda ocultava o conteúdo.

Havia ainda as organzas com pedraria em que vaga-lumes pareciam sobrevoar o ambiente.

Para os convidados das quatro cortes presentes no Salão, havia sido distribuído mais vinho, uvas e pães. Um serviçal akielon se pôs a tocar a kithara e os acrobatas veretianos retomaram o seu número fantástico de membros infinitos e flexíveis como os de pangolins.

O ambiente se mantinha aquecido e perfumado com incensos e flores. Vishkar retornou pouco mais de uma hora depois, trajando uma túnica, tendo a pele avermelhada pela água quente e os cabelos ainda úmidos, ao lado de Nikandros e de Isander. Os dois homens vestiam roupas fáceis de serem abertas e nos seus ombros, braços e rostos, havia sido feitas as pinturas dos clãs.

Os dois akielons se posicionaram no espaço em que a imperatriz os deixou. Fosse pelo tempo transcorrido; fosse pelo que Vishkar lhes dissera, eles exibiam expressões um pouco mais confiantes.

Pari chegou alguns minutos depois, acompanhada de dois concubinos. Um deles era Isobell, o rapaz que seria oferecido antes que a imperatriz de Vask tentasse retaliar Sorem, oferecendo-o no lugar do belo jovem.

Damianos havia visto Sorem de Ver-Tan, com o seu olhar esverdeado e cabisbaixo, se manter longe da fúria da imperatriz, que tinha a sua consorte favorita puxada para a sua manobra política. Enquanto o Salão era preparado, ele trocou algumas palavras com o conselheiro Audin, que lhe dera alguns tapinhas encorajadores no ombro enquanto bebia vinho.

Quando Vishkar ergueu uma mão peremptória no ar, Nikandros e Isander se aproximaram de novo e ela reforçou alguma coisa com eles, como se lhes repassasse as instruções. Por fim, a imperatriz se afastou para se sentar em sua cadeira de espaldar alto junto ao rei Torgeir, favorecendo o ambiente com a sua atenção pela primeira vez.

Damen, sentado em seu trono, tinha a sua mão cor de oliva, bronzeada pelo sol apoiada sobre a mão cor de pérola de Laurent, acomodado ao seu lado. O rei de Vere se mantinha contido nas suas roupas apertadas e severas, de fechos e nós intricados; ilhoses; cadarços; fivelas e botões, todos conhecidos em seu abrir e fechar pelo rei akielon como se fosse a palma de sua própria mão.

Havia uma curiosidade em Laurent como parecia haver em muitos veretianos que não conheciam ainda o enlace que poderia se dar entre um homem e uma mulher ou dois homens e uma mulher.

"Nervoso?" — perguntou Damen.

"Nem tanto. Eu conheço a teoria e a mecânica do processo..."

Damen observou o seu redor e viu Charls dar um toque final na decoração do Salão, puxando um lampião para próximo da organza, fazendo com que as sombras de dentro dos véus tremeluzisse no chão e no teto, agigantadas. O rei akielon se relembrou do comerciante veretiano dando um embrulho para Isander mais cedo.

"Escute, Laurent... Charls é um homem confiável, não?"

O rei de Vere moveu o seu rosto, mas a sua atenção ainda estava presa no ambiente e ela se demorou para se desprender dele.

"Duvida de sua lealdade?"

"Não, não é isso, mas, na festa, antes do jantar, eu vi Charls dar um embrulho para Isander. Ele parecia sigiloso e desconfiado..."

"Você lhe perguntou do que se tratava?" — inquiriu Laurent, voltando, agora, os seus olhos azuis completamente para o akielon.

"Charls disse que se tratava de alguns tecidos que ele estava repassando para Isander..."

Laurent respirou fundo, apoiando o seu rosto bonito no dorso de sua mão.

"Cheguei a mencionar para Charls que não quero que meus serviçais se vistam como escravos e se ele disse que eram tecidos, devemos acreditar nele. Charls sempre esteve ao nosso lado, mesmo na época em que o Regente estava com as costas quentes em Arles. Não desconfiaremos dele..."

Havia um ar resoluto no rei de Vere, mas o olhar de Damianos se demorou no comerciante, que carregava fazendas de um lado para o outro, parecendo satisfeito em contribuir com o seu rei.

Depois, Damianos percorreu o olhar pelo Salão e viu Ancel sentado no colo de lorde Berenger, bebendo vinho. Lady Vannes, não muito distante, tinha a cabeça de sua escrava apoiada em seus joelhos e levava um cálice aos seus lábios. Loyse e Makedon estavam sentados próximos agora e brindavam com as suas taças de refresco de laranja.

Pallas brincava de dar comida na boca de Lazar como um escravo faria por seu amo em Akielos, mas, no momento em que o gomo de laranja quase tocara a boca do veretiano, Pallas o levou à própria boca, dando de ombros e rindo. Lazar sorriu de volta e os dois pareciam ter feito as pazes.

Aktis, carregando uma garrafa de vinho até onde o soldado Nabsib da Guarda imperial estava, sentou-se ao lado do vaskiano na escadaria de pedra e os dois se puseram a conversar. Aktis buscava mais informações?

Todas aqueles akielons e veretianos estavam de algum modo conectados. Há dois anos, Laurent não permitiria que outras pessoas comungassem das suas elucubrações e estratégias dentro de uma sala de reunião.

Damen se recordava de como fora difícil o rei de Vere confiar nele e essa confiança se alicerçava, talvez, sobretudo, em alguma ingenuidade de Damen que o fazia parecer honesto e honrado. Mas agora, Laurent chamava para perto aquelas pessoas que estiveram na festa organizada por Damianos e que se mostraram leais a eles até o último momento.

De alguma forma, desde que o Regente fora executado em Ios e Laurent ascendera ao trono de Vere, uma parte dele tinha se aberto mais e mais para que o mundo externo entrasse. Cadeados, ferrolhos e algemas ainda eram arrancados do coração do veretiano diariamente com martelo, cinzel e malho. O rei de Akielos achava belos os processos de entrega de Laurent, que nunca haviam sido fáceis, mas eram verdadeiros e emocionais como só para um grande homem podiam ser.

Entre os patranos, a expectativa do que aconteceria no Grande Salão não se encontrava tão densa, mas havia interesse, sem dúvida. Torveld tinha Erasmus com a cabeça apoiada em seu ombro e um rubor subia pelas bochechas do escravo.

Torgeir permanecia ao lado de Vishkar, tomando a sua bebida patrana e, talvez, assim como Damianos, ele refletisse consigo mesmo que um homem podia atingir a idade máxima que um homem poderia ter, mas ainda assim não teria visto tudo o que tinha para se ver. A foda de três pessoas se tornara um espetáculo feito o teatro de Akielos.

Finalmente, Pari, Nikandros e Isander se aproximaram.

Pari tomou em suas mãos o rosto de Nikandros, beijando-o demoradamente na boca até que os seus lábios alcançassem, em seguida, Isander, que, talvez, beijasse alguém pela primeira vez naquele instante. Havia um misto de surpresa e de inabilidade no escravo recém-liberto, mas ele parecia tentar, realmente, replicar os gestos e movimentos do kyros de Ios com delicadeza e dedicação.

Por fim, quando Pari guiou pela mão Isander até Nikandros, se tornou muito claro o que ela queria que os dois fizessem. E Damianos, do seu trono, viu dois homens com a pele oliva forjada pelo sol de Akielos, com os seus cabelos escuros e corpos bem talhados se beijarem. E a estranha lembrança levada pelo tempo e pela insensatez retornou para Damen. Ele e Nikandros, com quinze anos, se beijando próximo ao fogo enquanto as duas nobres patranas dormiam extasiadas na sua cama. Damen se recordou das respirações entrecortadas e quentes sua e do outro akielon.

Aquela época jazia muito distante. O tempo em que Damen não era um rei, mas um príncipe inconsequente, irresponsável e que tentava achar a si mesmo dentro daquele corpo que se descobria desejando as diferenças e as semelhanças de outros corpos.

E havia Nikandros, que não era um kyros também na época. Era somente um garoto bom com a espada e que se destacava nos treinos militares. Com a voz tendo mudado há pouco tempo, ele manejava as suas adagas akielons no ar, dizendo para Damen muitas vezes quando os dois conversavam sob a sombra das oliveiras, degustando fatias de melão:

"Quando você for rei, quero poder cavalgar ao seu lado, Damianos, atravessando Mellos e Sicyon!"

"Podemos chegar até Delfeur e desfraldar a bandeira de Akielos nos portões, varrendo os veretianos nojentos de lá!" — respondia Damen no que, agora, lhe parecia uma outra vida em que a sua visão, apesar de todas as cores vívidas e brilhantes de Ios, enxergava o preto, o branco e poucas gradações de cinza.

Nikandros riscava com a lâmina de sua adaga o chão de terra, fazendo uma linha transversal.

"Vamos tomar Arran, Chasteigne, Barbin e a merda da capital de Vere também!" — dizia ele, fazendo questão de pronunciar os nomes das províncias com uma ênfase debochada nas vogais e fazendo troça da entonação veretiana.

"Preciso de você, Nikandros, ao meu lado! Um dia você vai ser kyros e vamos dominar Akielos e Vere!"

Uma década depois, os dois homens akielons haviam cavalgado ao lado da comitiva de Laurent, reivindicando os tronos de Akielos e de Vere e tendo as suas próprias vidas ameaçadas. Pouco depois, Akielos e Vere se tornaram irmãs.

E, agora, o kyros seguia um plano traçado por Laurent na capital de Vere que ele almejara conquistar um dia quando era ainda um garoto, sem entender ainda a complexidade do mundo.

O beijo do céu com a terra no Salão Principal do palácio de Arles não foi bruto ou rude como poderiam ser os caramanchões no tempo do Regente. Não havia pessoas com correntes tilintando no chão de pedra e coleiras de rédea curta ao redor do pescoço de homens e mulheres servis. Ao invés disso, foi delicado e lindo como somente o beijo dos deuses e dos seres humanos libertos podia ser.

Quando chegaram à cama preparada para eles, os véus e tecidos arrumados por Charls e Guillaime permitiam que Nikandros, Isander e Pari fossem vistos em um segundo, resplandecentes e belos e no outro momento, somente as suas sombras escuras e lânguidas podiam ser perceptíveis até que desaparecessem complementarmente em sedas brilhantes e a imaginação de cada um presente participasse também do enlace, traçando contornos.

Havia abraços e encontros de bocas. Havia o seio de Pari que se revelara com um mamilo rosado e intumescido que foi sorvido por Nikandros. E houve os dedos morenos de Isander deslizando por uma coxa de uma brancura leitosa.

E o ato seguiu como se Vere mergulhasse em um estado insólito e onírico. Damen olhou para Laurent e o veretiano se mantinha observando o desenlace sexual entre a vaskiana e os dois akielons com os seus olhos azuis e árticos sob cílios dourados. Havia uma curiosidade juvenil em seu rosto, no entanto, e uma curta distância se abrira entre os seus lábios, que se separaram brevemente.

As sedas, os véus, as flores e o fogo bruxuleante dos candeeiros que circundavam os curtos gemidos que já podiam ser escutados emitidos por Nikandros, Pari e Isander aumentavam a impressão de sensualidade.

Não demorou muito para que houvesse uma alteração na qualidade do ar e os olhares fascinados e úmidos dos presentes encontrassem os olhos dos seus amantes, como se o ato que ocorria no Salão Principal fosse também uma parte de si. Como se todo o inspirar e expirar daquele ecossistema ondulante os abarcasse também em um espaço embebido de vinho.

Damen viu Torveld, sentado próximo a um candeeiro, tatear o rosto de Erasmus e os dois homens se beijarem de um modo delicado a princípio, mas com entrega depois. Ele viu Lady Vannes deslizar os dedos longos pelo cabelo trançado de sua escrava de estimação como se a visse sob uma nova luz. Ancel subiu sobre lorde Berenger.

E, então, tudo se transformou como se os deuses orquestrassem aquelas vidas sobre a terra e os desejos se tornassem tangíveis. Quase palpáveis.

Lazar, que tomava vinho, serviu uma uva pequena e violeta na boca de Pallas e o akielon, quando a recebeu em seus lábios, sorveu os dedos do outro soldado também.

Alguns outros convidados se debruçavam sobre membros da sua corte ou visitantes da corte vizinha, beijando-se e se abraçando.

O escravo que tocava kithara se movia no balanço ainda e um escravo patrano se sentou ao seu lado, dedilhando também o instrumento musical.

Alguns quítons haviam descido, se levantado ou se aberto um pouco e as pessoas brindavam as suas taças de vinho com taças de desconhecidos, reverberando o tilintar de metal amarelo.

Os corpos veretianos, patranos e vaskianos pouco a pouco se revelavam também conforme dedos mergulhavam em cabelos cujos penteados eram desfeitos ou em que as frontes eram circundadas por joias ou flores. Algumas tranças intrincadas eram desamarradas em nucas que se curvavam. E mesmo as roupas complicadas tinham um nó chave que desnudava não apenas a clavícula, mas o próprio desejo.

Laurent ainda tinha os dedos entrelaçados nos de Damen e a outra mão se apoiava em seu queixo.

Como se mergulhassem num transe inspirado por Nikandros, Isander e Pari, as pessoas se tocavam e começavam a fazer amor no Salão Principal com seus parceiros ou os visitantes de outras nações. E enquanto os rostos se aproximavam e lábios se tocavam, Damianos pensava:

O beijo do céu e da terra.

Até que, de mãos dadas ainda, Damen e Laurent fitaram Vishkar e Torgeir. Dois dos poucos que não estavam seminus ou nus agora. Os únicos que não estavam trocando carícias ou se entregando à estranha magia que se dava no ambiente.

O rei e a imperatriz de nações que flertavam com uma guerra.

A curvatura do queixo de Laurent se ergueu, então, intrigada enquanto fitava novamente a sua corte. Ele observava os cálices de vinho passearem entre a multidão e depois, rolarem vazios sobre as lajotas.

E Damen, por um momento, observou também, soldados limpando as bocas com o dorso da mão, removendo os resquícios de vinho, antes de mergulharem, trôpegos, no prazer. Até que o rei de Akielos viu um jarro bojudo se partir no chão e a substância violeta e granulada se revelar sob a luz de um candeeiro.

Damen espreitou os atos sexuais libertinos e ansiosos com um novo olhar. A excitação palpável e urgente.

E o vinho em cada foda...

Ele se recordou de si mesmo com dezesseis anos, abatendo três amantes bem-dispostos, com um embaraço de virilidade. E se recordou de Laurent com um constrangimento próprio ao ter a droga akielon posta em sua água quando o Regente tentou articular uma armadilha para ele e Damen caírem.

A compreensão chegou derradeira para Damen.

As pessoas no Salão não estavam excitadas, mas entorpecidas. Drogadas.

Damen fitou, então, a imperatriz e Torgeir sentados lado a lado um uma mesa distante. Vishkar tinha entre os seus dedos um cigarro de palha que era comum entre homens broncos e soldados das tropas.

Ela soprava a fumaça enquanto o seu olhar deslizava pelo cenário. A sua atenção bicolor pousou nos reis das nações-irmãs com uma dureza impessoal.

Depois, Vishkar compartilhou o cigarro de palha com Torgeir com a mesma proximidade de uma amante e foi o momento em que o leste, o oeste, o norte e o sul se encararam. Os olhos escuros de Torgeir eram como dois pássaros agourentos numa noite escura.

Damen e Laurent fitavam Vishkar e Torgeir como se os vissem através de um espelho. Reis e imperatriz com homens e mulheres de suas nações os separando e os unindo.

Damen sentiu o enrijecer de Laurent ao seu lado como uma serpente tomando distância e sibilando. Depois, experimentou um arrepio percorrer a sua espinha.

Enquanto as nações-irmãs estrategiavam na sala de reuniões, o que o império e Patras haviam planejado por trás de portas fechadas?

No Salão, Lydos afastou um soldado akielon alterado que tentava insistentemente cortejar uma nobre de Arles, fazendo a sua escrava enrubescer e ferindo o decoro de Vere. Lydos envolveu a nuca do homem com alguma dureza e o guiou até os jardins com um declarado ato de represália, jogando-o lá. O soldado enxugava ainda o vinho do canto de sua boca.

O mesmo se sucedeu quando Elon tentou acariciar uma escrava de estimação de uma nobre de Chastillon. Elon foi interceptado por Huet, que levou a mão à sua espada. Em outro lugar do Salão, Barieus dava um empurrão em Straton, impedindo-o de se aproximar de uma jovem de Toutaine que fodia com a sua escrava.

Os conselheiros Herode, Jeurre e Chelaut olhavam o seu entorno e o próprio rei com alguma censura, com algum aturdimento. Com alguma apreensão. E temor.

"Damianos..." — disse Laurent, após engolir em seco — "Tire os seus homens daqui agora."

NOTAS DA AUTORA:

De alguma forma, acho que tenho alguma obsessão mal resolvida ou uma cisma com o Nikandros que nem a do Laurent. rsrsrs

Quando estruturei este capítulo, sabia que deveria ser ele quem salvaria o dia em Arles e essa ideia veio fixa na minha cabeça e depois, precisei só lidar com o humor dele recebendo essa proposta diante de todos. O Isander foi a liga intuitiva que precisava dar ao sexo entre os três e só percebi a importância dele depois.

Aliás, gosto muito quando o Damen e o Laurent se juntam com os amigos deles de portas fechadas porque todos têm personalidades muito díspares e como gosto de escrever na terceira pessoa, é sempre divertido girar os pratos. Puxando um spoiler para a roda, digo que as pessoas que estiveram na festa de aniversário amigável do Laurent terão um papel muito importante na fic. Eu amo esse grupo!

E eu adoro a voz da Helen Marnie na música do Ladytron que abre este capítulo, ficando toda arrepiada com essas duas passagens:

'Yesterdays will start fluttering' (Os dias de ontem começarão a vibrar)

'Crawl along the ground/Where we won't/Won't be found'

(Rastejar ao longo do chão onde não seremos encontrados)

Essa é quase a espinha dorsal da fic, que espero ter conseguido já sinalizar com alguma elegância, não é uma história que fala apenas da morte física. Existem várias maneiras de se morrer, continuando vivo. E maneiras de se evitar a própria vida, morrendo pouco a pouco sem perceber.

Fiquem ligados!

No próximo capítulo, uma morte acontece em Vere!

O que será que isso significa?

E quem está por trás desses atos contra as nações-irmãs?