A EXECUÇÃO DOS MORTOS

CAPÍTULO 7

DAMIANA

One morning this sadness will fossilize
And I will forget how to cry
I'll keep going to work and you won't see a change
Save perhaps a slight gray in my eye

I will go jogging routinely
Calmly and rhythmically run
And when I find that a knife's sticking out of my side
I'll pull it out without questioning why

And then one warm summer night
I'll hear fireworks outside
And I'll listen to the memories as they cry, cry, cry

(Fireworks – Mitski)

Laurent e Damen deixaram o Salão Principal com os dedos ainda entrelaçados, caminhando pelos casais circundados por incensos e candeeiros como se fossem as ondas de uma praia.

Membros nus se entrelaçavam em outros, tremeluzindo sob o fogo em chaise longues ou mesmo sobre as lajotas cruas e nas mesas bem servidas de vinho. Os ruídos entoados eram de quatro línguas gemendo em sons de consoantes, vogais e glides raspando lábios, dentes e palatos.

Na saída, Damen e Laurent fizeram uma reverência para o rei de Patras, que ainda permanecia os fitando de sua mesa, e para a imperatriz de Vask.

Vishkar havia colocado os seus pés calçados com coturnos sobre a mesa como se estivesse em seu próprio reino, expelindo a fumaça de seu cigarro e com os cotovelos relaxados apoiados sobre o espaldar da cadeira. A sua expressão era dura. Damen fez um ruído de desgosto perante aquela empáfia.

"Tem certeza de que devemos nos retirar?"— inquiriu o rei de Akielos a Laurent.

"Tenho. Os seus homens e os meus cuidarão das coisas. A melhor forma de cessar um ataque, às vezes, é recuar."— sussurrou Laurent.

Damen havia chamado os seus homem em serviço para perto e os instruíra a expulsarem do Salão os convidados mais afoitos, retendo-os no pavilhão akielon. Jord e Huet, que não haviam ingerido vinho, escutaram orientações também ao lado de outros soldados veretianos.

Era um trabalho desleal e não havia nome para ele. Com as suas espadas embainhadas, os soldados percorriam os espaços vazios, fiscalizando para que as diversões não se tornassem perigosas ou forçadas. Se alguém folgasse ou se tornasse inconveniente, devia ser preso ou expulso, assim como Lydos fizera com um dos homens da Guarda.

Aparentemente, Vishkar e Torgeir instruíram também as suas tropas a manterem a vigilância para que não houvesse nada forçado entre o seu povo. Vishkar sussurrou algo no ouvido de Gene e Torgeir, após falar com o chefe da sua Guarda, se despediu do homem com dois beijos no rosto.

Ao partiram, Laurent e Damianos seguiram não para os banhos, mas para os aposentos reais em que podiam confabular sem serem vistos ou ouvidos nem mesmo pelos fantasmas de Arles.

Quando Damen fechou a porta atrás de si, Laurent puxou o nó da gola alta de sua jaqueta, passando o fio pelo ilhó até que a sua clavícula pálida de veias azuladas fosse exposta. Havia um movimento impaciente no modo como o rei de Vere desamarrou também os laços do seu pulso.

Damianos depositou um cálice de vinho vazio sobre a mesa.

"Não foi a droga de Akielos."

"Não, Damen. Mas os estragos podiam ser os mesmos ou até piores!"

O rei akielon respirou fundo. Havia sido averiguado o vinho veretiano servido por um escravo no momento em que as sombras de Nikandros, Isander e Pari se misturavam em um longo abraço gigante e oscilante do outro lado do trono.

Damianos, sob o fogo mortiço, percebeu uma qualidade granulada no tom violeta da bebida. E com um gesto discreto, ele mostrou o cálice a Laurent.

Depois, quando deixavam o Salão, os dois homens alcançaram uma taça de ouro vazia largada no chão de pedra e a analisaram. O fundo do recipiente estava manchado com um pó amarelo-esverdeado peculiar.

"Eu bebi vinho no jantar, mas não estou nesse estado amoroso urgente..." — disse Damen.

"Eu tomei água durante a refeição, mas consumi a bebida patrana na sala de reunião com todos..."

Damen puxou a sua capa de sobre os ombros, desprendendo o pingente de leão.

"Isso não foi feito no jantar com certeza. Foi feito quando estávamos reunidos em uma sala e Vishkar e Pari, em outra..."

Laurent se deteve em seus pensamentos, entreabrindo os lábios:

"Ou então, quando Vishkar aceitou o acordo e estávamos todos envolvidos demais com o preparo do Salão..."

Laurent puxou o fio do outro ilhó com alguma chateação, arrebentando o anel com o cadarço.

"Como puderam chegar às adegas e cozinhas de Arles?! Eu estou furioso por terem conseguido isso em meu reino! Maldita Arles! Como é difícil mudar os hábitos deste covil!"

Damen se aproximou de Laurent ao ver o círculo dourado da jaqueta dele cair no chão e escapar para baixo da cama, quicando no piso até encontrar algo metálico e cessar o seu movimento.

"Calma, vem cá! Me deixa cuidar de você!"

Com mãos peritas, Damen repuxou os fios com delicadeza, transpassando os cadarços e pedindo para Laurent se virar de costas quando ele alcançou os botões da jaqueta, abrindo-os um por um.

"... Se Torgeir e Vishkar queriam nos empurrar para um conflito, perderam o tempo deles! Eles deviam ser presos por atentarem contra aquelas pessoas lá fora, isso sim!"

Laurent se voltou para Damen, contraindo as sobrancelhas.

"Não temos provas que foram os dois e eles usariam isso contra nós. Suspeita de alguma droga que possa ter causado aquilo, Damen?"

O rei de Akielos se deteve por alguns minutos, desabotoando as pérolas que fechavam a jaqueta justa de Laurent como um corpete. Depois, pensativo, ele falou:

"Damiana de Patras... Já ouviu falar dela?"

Laurent voltou o seu rosto, indagando:

"Damiana...?"

"Ouvi, certa vez, uma conversa entre as escravas mais velhas de Ios que cuidaram de minha mãe. Como ela teve vários abortos espontâneos antes de me ter, o boticário de Ios lhe receitou a planta damiana típica do norte de Patras e que cresce também raramente em Aegina. Aparentemente, minha mãe se sentiu muito indisposta e triste com os abortos sucessivos, mas estava determinada em ser mãe e dar um filho para o meu pai... Damiana é uma planta que reavive o desejo sexual mesmo em casos extremos de apatia."

Laurent contraiu um pouco mais as sobrancelhas, fitando Damen dos pés à cabeça.

"É por isso que o seu nome é Damianos?"

Damen forçou, delicadamente, Laurent a se virar para a frente de novo, desabotoando cuidadosamente as pérolas.

"Entre outros fatores, sim. Ouvi dizer que a minha mãe ficou muito feliz quando chegou ao sétimo mês de gravidez e jurou no templo de Ios que se eu sobrevivesse, receberia o nome de Damianos..."

"E você não só sobreviveu, mas faz jus também à propriedade medicinal da planta..."

"Não sei... Eu faço...?" — perguntou Damen, deslizando a mão pelas costas de Laurent e depositando um beijo na nuca do veretiano, após ter os seus lábios erguidos com um sorriso orgulhoso.

Laurent, tendo a sua pele arrepiada pela carícia delicada dos lábios do akielon, removeu os fios de sua jaqueta e a puxou por sobre a blusa de seda.

"Tem certeza de que não tomou o vinho, Damen?"

"Tenho... Estava embasbacado, vendo a sua mente dar ordens e preparar o Salão... De qualquer forma, reservamos um cálice para Paschal inspecionar o conteúdo. O tom verde amarelado é o mesmo da damiana, mas pode ser que eu esteja enganado. Podemos ir ainda às adegas se preferir verificar..."

"A pessoa que organizou isso deve estar longe. O que mais sabe sobre a planta?"

Damen viu Laurent puxar a blusa de dentro da calça e desafivelar o seu cinto.

"Alguns comerciantes de Bazal, fugindo da guerra, migraram para Akielos e a erva passou a ser consumida como uma especiaria da aristocracia. Alguns escravos de prazer da corte tomavam um cálice do chá de damiana quando estavam muito ansiosos em sua primeira vez. Mas o médico tinha certo cuidado com a medida ideal para eles não ficarem muito afoitos e parecerem mais experientes do que eram."

"Todos pareciam afoitos e experientes no Salão..."

"E eu ouvi dizer que, em Patras, a planta crescia junto à cevada nos campos. O que acha que Torgeir e Vishkar pretendiam exatamente?"

Laurent se curvou, puxando a sua bota e a largando sobre o chão, após se livrar do cinto que deslizara da cintura estreita, atirando-o na cama.

"Se foram eles, os dois queriam cavar um pretexto para haver outro conflito quando perceberam que as nações-irmãs forçariam um acordo com Vask. Você viu como eram intensos os ringues de Arles, Damen. O sexo sempre foi uma arma potente aqui em Vere e uma boa maneira de se manipular os ânimos."

Damen deu de ombros, despindo também as tiras de suas sandálias.

"Em que momento Vishkar e Torgeir podem ter adulterado o vinho?"

"A imperatriz estava com Nikandros e Isander. E Torgeir não deixou o Salão durante o preparo..."

"Teria sido fácil eles mandarem alguém entornar damiana no vinho. Aqui..." — Damen fez um gesto para que o outro rapaz apoiasse o pé nu sobre o seu joelho e iniciou uma massagem no calcanhar do veretiano, que se avermelhara pela severidade do calçado.

"Os meus homens vigiam a entrada das cozinhas e das adegas. Mas, ao mesmo tempo, quem mais poderia ser senão eles?"

Laurent moveu os seus lábios, gemendo um pouco com a massagem de Damen, antes de prosseguir.

"...Damiana é comum no reino de Torgeir... Mas, de alguma forma, isso soa tão... simples..."

Damen fitou Laurent, girando o seu pé e o massageando até a altura dos dedos.

"Em outras nações, as pessoas não dão tantas voltas quanto vocês veretianos..."

Laurent desceu o seu pé até o chão, oferecendo o outro a Damen.

"Eu não sei... Só que, de alguma forma, o cálculo parece veretiano demais..."

Os dois homens se fitaram brevemente e Damen indagou:

"O que conseguiu descobrir com Torveld?"

"Que a esposa dele em Bazal está grávida, mas, aparentemente, é um casamento fincado em acordos e civilidade porque o favorito de Torveld ainda é, declaradamente, Erasmus..."

Damen assentiu.

"Achava que Erasmus nunca retornaria para Arles depois de tudo o que ele suportou junto ao Regente aqui..."

Laurent ruborizou um pouco, dizendo:

"Bom, de alguma forma, ele se sente seguro junto a Torveld..."

Damen sorriu e avançou a sua massagem até a panturrilha de Laurent. O rei de Vere prosseguiu:

"... Tão seguro que ele começou a se mover em uma direção contrária ao que parecia capaz até dois anos atrás..."

O akielon estreitou o seu olhar, detendo a sua atenção em Laurent.

"O que quer dizer?"

"Que Erasmus está envolvido com os protestos dos escravos maltratados de Bazal. Aparentemente, ele esteve em contato com eles e contou a sua própria história. De que ele foi subjugado em Arles, mas o rei de Akielos, disfarçado de escravo, o salvou... Então, isso inspirou alguns homens e mulheres a não tolerarem mais o intolerável em Patras..."

Damen se manteve petrificado, ouvindo as palavras de Laurent.

"Erasmus está por trás dos protestos?!"

"Sim, mas ele precisaria se sentir seguro para agir assim... Ele precisaria se sentir... apoiado... Como se sentiu por mim quando fez o que devia fazer para se livrar do meu tio e atrair a atenção de Torveld."

O rei de Akielos entreabriu os seus lábios em choque.

"Torveld o está apoiando?!"

"Sem que o irmão saiba. Aparentemente, o Regente conseguiu deixar uma marca desagradável realmente em Torveld diante do que ele fez com Erasmus e os outros..."

"E por que ele contaria isso para você?"

"Porque eu sou um abolicionista, mesmo que seja de um reino estrangeiro. Como sabemos bem, as afinidades, muitas vezes, vêm de onde menos esperamos..."

Damen assentiu, acompanhando o pensamento de Laurent com uma compreensão profunda.

"Torveld está apaixonado por Erasmus..."

"Não, paixão não é a palavra... Ele o ama e, talvez, de alguma forma, tenha começado a ver as coisas ao seu redor de um modo... diferente..."

Damen ergueu o seu olhar escuro para Laurent.

"É inevitável, não é?"

Laurent ruborizou, assentindo:

"É..."

"Torveld está inflando um movimento contrário ao próprio irmão, que talvez obtenha sucesso. O que podemos esperar disso?"

"Se, em Bazal, os ringues de escravos estão acontecendo clandestinamente mesmo como Loyse ouviu dizer, Patras está se tornando um lugar perigoso... Entendo a inquietação de Erasmus e de Torveld."

Laurent desceu o pé de sobre o joelho de Damen e, com uma curvatura desagradável do seu lábio, ele falou:

"Quantas vezes vamos ter que executar o Regente e tudo o que ele deixou apodrecendo ao seu redor...?"

Damen se antecipou até Laurent, desabotoando a sua blusa branca de seda com cuidado.

"Faremos isso quantas vezes for necessário, Laurent. E obteremos sucesso em todas as vezes."

Os dois homens, após se despirem, seguiram não para os banhos de Arles, mas para a sala contígua em que uma banheira foi preparada por um serviçal que Laurent mandou chamar. A enorme tina de louça foi preenchida com água quente e vaporosa, embaçando os ladrilhos e lajotas.

Laurent cabia bem na cuba, mas Damianos, que era um homem grande, mantinha as suas pernas encolhidas enquanto o veretiano esfregava as suas costas e massageava os seus ombros que estavam tensos.

Rindo-se como se lembrasse de algo, Laurent comentou:

"Quando Nikandros me ensinou a luta corporal de Akielos, ele não parecia disposto e se irritava com os laços das minhas roupas o tempo inteiro. Eu não sabia que Nikandros podia sequer ser um homem sensual..."

Damen virou o seu rosto com uma expressão carrancuda.

"Você ficou o olhando por trás dos véus..."

"A vista do meu trono era melhor do que a sua, Damen. Vi Isander também. Vocês, akielons, são todos bem-dotados?"

O olhar de Damianos se demorou na expressão travessa do amante.

"Nem sempre..."

"O famigerado gladiador de Isthima com quem você passou dez horas trancado em seu quarto era bem-dotado?"

Damen respirou fundo e murmurou de modo vago:

"Era, Laurent... E não foram dez horas. Foram sete. Já falei isso."

"O que vocês fizeram afinal?" — perguntou o veretiano, cessando um pouco os movimentos circulares do tecido poroso e ensaboado que deslizava sobre as espáduas de Damen.

"Você quer saber dos detalhes das minhas fodas com Pietro...?"

"Bom, eu não tenho grande experiência e eu evitava os caramanchões e os ringues. Às vezes, é bom ouvir as suas histórias, Damianos... Saber se comigo é tão diferente assim deles... Saber como era a tomada..."

Laurent replicou o gesto obsceno que fora performado por Makedon na sala de reunião quando ele enalteceu a foda em Akielos e arrancou gargalhadas de Aktis e de Pallas.

Damen riu-se, repuxando os cabelos escuros e molhados para trás.

"É sempre diferente de uma pessoa para outra. É outro corpo, outro sentimento, outro momento, Laurent..."

"Pietro gostava também de quando você ia devagar e era carinhoso?"

"Pietro era um guerreiro e gostava de disputas. Ele não gostava tanto de gentileza e eu, com aquela idade, me excitava com alguma rudeza também... Fodíamos após os treinos. Era muito bom. Mas você é diferente de tudo, Laurent de Vere. Não quero falar de Pietro... Quero aproveitar o meu tempo com você..."

Laurent se manteve em silêncio, derrubando um jarro bojudo com água morna sobre as costas de Damen até finalmente dizer:

"Mesmo a sua rudeza não é desagradável..."

Damen se voltou, tocando o queixo de Laurent com a ponta do dedo ao se recordar de algo que precisava esclarecer há um tempo.

"Acho que fui um pouco bruto com você quando nos despedimos no mês passado em Delpha e utilizamos todos os óleos do qual dispúnhamos..."

Ruborizando, Laurent deslizou uma toalha úmida por seu braço alongado e avermelhado por conta do calor, após Damen beijar os seus lábios brevemente. Um silêncio se fez até que, muito corado, o veretiano falou:

"Eu gostei de Delpha. Foi instrutivo..."

Damen beijou o dorso da mão do veretiano.

"Mas eu me excedi com você, Laurent! Me perdi sendo um pouco afoito demais porque foi tão bom que não me contive. Eu não tive muito cuidado e quebramos a sua cama. Você é um rapaz decente e vou ser mais cuidadoso nas próximas vezes. Eu prometo!"

Damen envolveu os ombros de Laurent, puxando-o para o seu peito e o rei de Vere se manteve com a cabeça encostada junto ao coração do akielon, movendo os seus olhos azuis enquanto abria a boca, mas voltava a fechá-la. Depois de alguns segundos, ele arriscou:

"Você não me machucou..."

"Você não conseguiu montar a cavalo no dia seguinte, Laurent. Teve que adiar a sua viagem e, ao invés de deixá-lo se recuperar e descansar, fizemos de novo nos banhos no outro dia. Isso nunca mais vai se repetir..."

Os olhos de Laurent se arregalaram enquanto Damianos depositava um beijo no topo da cabeça do amante com os fios dourados escurecidos pela água.

"Nunca mais?"

"Não."

Laurent abriu a boca novamente e a fechou. Depois, ficou carrancudo e pensativo, ensaboando-se em silêncio quando Damianos se dedicou a ajudá-lo também em seu banho.

Após se retirarem da grande tina e deixarem a sala contígua, os dois homens se vestiram com as suas roupas de dormir.

Laurent tinha um roupão de seda sobre o seu pijama e se aproximou da arcada de arcos semicirculares do aposento quando ouviu uma explosão no céu em tons coloridos. A uma distância dos jardins tomados por plátanos, explosivos de efeito pirotécnico disparavam do chão rumando até os céus, abrindo-se ruidosamente ao iluminarem a noite.

Com uma expressão de desinteresse, o veretiano gesticulou em direção aos fogos de artifício.

"Aí está o gran finale da noite! Havia planejado que todos observassem dos jardins o espetáculo e orientei meus homens para que os soltassem antes da meia-noite. Foram trazidos diretamente de Kempt. Agora, todos estão fodendo como se não houvesse amanhã e isso foi um desperdício..."

Damen, que movia os seus olhos em direção aos céus que se clareavam momentaneamente com os explosivos coloridos, sorriu, observando os fogos de artifício. Eles não eram comuns em Akielos.

"Não, não é um desperdício..."

O rei de Akielos envolveu o pescoço de Laurent e encostou a cabeça em seu ombro, observando o espetáculo que iluminava as suas retinas e os seus rostos. Durante muitos minutos, eles permaneceram em silêncio, abraçados, ouvindo as suas respirações, os batimentos cardíacos e o ruído dos fogos de artifício que pouco a pouco iam perdendo a intensidade, mergulhando os jardins de Arles novamente em sombras.

Laurent, sentindo a fragrância dos cabelos úmidos de Damen perfumados com óleo de mirra, murmurou com as suas bochechas tingidas de vermelho:

"Apesar de tudo, esse foi o melhor aniversário que já tive. O de vinte e um precisou ser breve porque estávamos às voltas com a coroação, mas esse foi... diferente. Você, as suas surpresas e tudo o mais..."

"Elas ainda não acabaram. Tenho mais coisas para entregar a você, mas vou prolongar o suspense até o momento ideal. Nesses dois anos, já estou familiarizado com o quanto gosta disso..."

Laurent observou uma flor flamejante se abrir no céu e se apagar, deixando o rastro de pontos alaranjados em uma trilha brilhante.

"Por que conta o nosso tempo juntos como dois anos? Ficamos juntos pela primeira vez em Ravenel. Alguns meses antes de eu completar vinte e um..."

Damen acariciou uma mecha do cabelo úmido de Laurent.

"Mas sabemos que não foi lá que começou o nosso destino. Para mim, tudo mudou quando eu fui rendido em meu próprio reino e aprisionado naquele navio rumo à Vere. Ali, nossas histórias se entrelaçaram..."

Laurent pestanejou os seus cílios compridos com um assentimento. Na verdade, a história dos dois se iniciara anos antes, em Marlas, quando as suas vidas se tornaram reais e marcantes um para o outro, amarrando-se em um nó.

Em Marlas, por ordem de Aleron, não haviam deixado Laurent se aproximar do front na disputa de Vere com Akielos. Mesmo que Laurent tenha se esforçado para conquistar a anuência de seu pai, brandindo a espada no pátio durante a manhã com habilidade. Mesmo que ele tenha desfilado com a armadura dos treinos no jantar e rodeado os soldados com mapas abertos, discutindo estratégias. Tudo fora em vão. Aleron o proibira terminantemente de participar da guerra. No fim, Auguste, com alguma impaciência também, erguera um dedo em riste, declarando:

"Chega! Você vai esperar aqui, Laurent!" — e, dirigindo-se aos criados, pontuou — "Mando prender qualquer um que deixar o príncipe sair do forte. Ele é criança, mas é o mais inteligente da comitiva e pode inventar histórias mirabolantes para escapar. Não deem ouvidos a ele!"

Fitando o pai e o irmão em suas armaduras brilhantes, Laurent atirou a sua espada longe, na terra seca, com uma expressão contrariada e correu para a ameia da torre sul, permanecendo mal-humorado e irritadiço por um longo período. Com o queixo apoiado nas mãos, ele viu os soldados fardados de Aleron e de Auguste subirem de vez em quando na ameia, olharem o campo inimigo com o instrumento óptico e se retirarem.

À tarde, o comandante da tropa de Aleron chegou com dois soldados, sem dar muita atenção a Laurent. Ele apontou algo no acampamento akielon e, enrolando o mapa em sua mão, deixou a muralha, sendo escoltado por seus homens. Todos pareciam muito confiantes na estratégia discutida em reuniões confidenciais.

Em um canto, o instrumento óptico que o comandante utilizava para espreitar os terrenos adversários foi esquecido. Laurent, aproximando-se do objeto, tomou-o nas mãos e o testou, imitando o movimento do capitão das tropas veretianas.

O objeto de metal acobreado era uma luneta que possibilitava a visão do território inimigo, mesmo a uma considerável distância. Auguste dissera que fora um presente dado por Patras.

Laurent moveu o seu rosto, olhando de um canto da ameia. Do alto, ele viu milhares de tendas na cor vermelha de Akielos e a sua bandeira tremulando ao vento. Homens com armaduras reluzentes e pernas à mostra andavam pelo campo, parecendo tão agitados e concentrados quanto os veretianos. Havia corpos em trabalho, a pele cor de oliva, cabeças escuras e treino de espadas encontrando escudos. Os akielons eram um conjunto de atividades.

Laurent descansou a vista por um instante e depois, ergueu novamente o objeto óptico, observando agora de outro canto da ameia. Ele viu duas mulheres com vestidos brancos e seios desnudos entrarem em uma tenda ao lado de dois homens. Elas não pareciam da nobreza e nem os soldados. Por que os homens e mulheres akielons dividiam a mesma tenda? Isso, em Vere, era proibido.

Divertindo-se com a distração, Laurent olhou um pouco mais ao redor. Ele moveu a luneta pelo campo e se deparou com dois homens conversando, próximo aos cavalos. Um deles devia ter a idade de seu pai mais ou menos. O outro, deveria ser um pouco mais novo do que Auguste. Talvez se tratasse de um capitão e de um soldado. Talvez, fossem pai e filho, dadas as fisionomias semelhantes.

Eles olhavam um mapa, conversando com os rostos próximos. No fim, o homem mais velho bateu no ombro do soldado, puxando o seu rosto para o peito e partindo para dentro de uma tenda.

O olhar de Laurent se concentrou, então, no soldado. Ele era forte e, após se afastar dos cavalos, caminhou até uma clareira, desembainhando a sua espada e iniciando um treino com ela, depois de despir a parte de cima de sua roupa.

O soldado akielon era alto e o seu corpo, bem talhado. Os seus cabelos se dobravam em madeixas escuras e a sua pele oliva recebia os raios de laranja destilada da manhã.

Ele era bom com a espada. Ele era bom! Não tão bom quanto Auguste, claro! Mas era bom. E bonito. Muito bonito! Mais bonito do que Auguste cabeça de batata certamente.

Tão bonito que Laurent não conseguiu desgrudar os olhos dele. Tão bonito que Laurent não compreendia por que alguns dos veretianos chamavam akielons de bárbaros. Os arranjos do outro lado da arena não eram tão diferentes dos do forte veretiano. O rapaz que treinava com a espada parecia disciplinado e a sua barriga definida parecia tabletes de madeira rígidos. Ele parecia um príncipe.

Em Arles, Laurent sempre achara os meninos com a pele oliva mais bonitos do que os que tinham a pele leitosa como a sua. Esses garotos brunetes pareciam mais livres para fazerem o que queriam de alguma forma e Laurent os invejava. Talvez fosse o ar rebelde do bronzeamento que inspirava a sensação de sol.

Quando Auguste lhe perguntara, certa vez, sobre o seu tipo para cortejar quando chegasse a hora, Laurent fizera uma cara de nojo, dizendo que nunca beijaria ninguém. Ele vira, por acaso, dias antes, o irmão beijando o criado Theodore sob a sombra das vinhas do jardim e, sem que pudesse se conter, deixara escapar um sonoro "Eca" com uma careta.

No entanto, apesar da eca, Laurent já preferia um tipo se, porventura, tivesse mesmo que beijar alguém. Se viesse a ter que beijar. Não que quisesse, claro.

Laurent, na ameia, engoliu em seco, sentindo um estranho formigamento em seu corpo quando o soldado akielon sorriu para alguém. A sua expressão, quando alegre, era bela. Ele parecia um homem feliz, confiante, e isso fazia dele alguém ainda mais atraente. Que idade ele teria? Dezoito, dezenove? Certamente, ele acharia Laurent um pirralho de baixo de seus treze e uns quebrados. Olharia para ele como se não tivesse importância alguma, assim como os soldados de Vere.

Laurent baixou a luneta, enrubescendo com algum decoro. O garoto deixou o item em um dos bancos de pedra da ameia e voltou a olhar a paisagem bucólica do outro lado, sentindo um arrepio na sua nuca, uma febre em seu rosto e o vento em seu cabelo. Após alguns minutos, Laurent voltou a segurar a luneta diante de seu rosto novamente, movendo-a em direção ao soldado que treinava com a sua espada e era, agora, observado por outros soldados akielons que pareciam animados.

Laurent se sobressaltou quando sentiu uma mão em seu ombro. A luneta quase caiu no chão de pedras irregulares e Auguste acalmou o irmão:

"Ei, batatinha, o que foi? Parece que viu um fantasma. Me disseram que estava aqui desde cedo..."

Laurent abriu a sua boca e a fechou. Depois, ele disse, gaguejando:

"O comandante esqueceu o artefato óptico e eu estava o testando..."

"Ah, sim?" — disse Auguste, recebendo em sua mão a luneta que Laurent tinha.

O príncipe-herdeiro de Vere ajustou o artefato em seu olho direito e moveu o rosto, fitando o campo inimigo. Após alguns segundos em que ele estudava o território adversário em silêncio, Auguste disse:

"Papai sempre nos disse para não confiarmos em akielons. Eles estão se preparando para resistirem ao inevitável. O número de tendas aumentou de ontem para hoje."

Laurent se manteve quieto e atordoado pelo que estivera pensando antes enquanto espionava o soldado akielon. As suas bochechas estavam vermelhas como se tivessem sido queimadas pelo sol.

"...Hunf, lá está Damianos. O príncipe-herdeiro desaforado de Akielos que ousa esnobar Vere. Ele é bom com a espada. Está treinando e os seus soldados o estão aplaudindo. Ele se move bem, mas deixa o ombro dele um pouco baixo. Se ele se envolver na disputa por Delfeur..."

Laurent não se recordava se Auguste não concluíra a sua frase ou se ele simplesmente se esquecera do que fora dito. Ele só se lembrava do nome Damianos e do formigamento nas palmas das mãos que um menino de treze anos sente quando descobre em si sentidos que até então, repousavam na meninice de fortes erigidos com blocos de madeira, guerras de mentirinha e soldadinhos de brinquedo.

Laurent nunca contara de que modo, desde o início de tudo, ele soubera que Damen era Damianos. Havia segredos e coisas que não se revelavam nem mesmo para um amante dedicado. A descoberta de si mesmo é algo que pertence somente a um menino ou a uma menina e a mais ninguém. Um sentimento inocente, passageiro, mas forte o suficiente para acender todas as luzes em uma única pessoa e aturdi-la profundamente por toda a sua existência.

Após isso, no dia seguinte, Laurent permaneceu no forte, obedecendo ao comando de Aleron até que houvesse a comoção de soldados, cavalos e carroças de rodas raiadas no pátio, anunciando o desenrolar dos acontecimentos.

A luneta havia sido levada embora. As ameias tiveram o seu acesso fechado. A espera era tudo o que se tinha nas horas vazias.

"Papai, Auguste!" — murmurara Laurent, sobressaltando-se e descendo, com pressa, os degraus da escada espiral da sala de leitura onde permanecera desde a manhã, esperando notícias da batalha. Forçando-se a se concentrar em livros herméticos que levara para a viagem, ele apurava os ouvidos a cada ruído.

Laurent correu em direção ao átrio, ouvindo a sineta do mensageiro.

O príncipe se postou diante de alguns soldados ensanguentados, com as armaduras rachadas e os rostos macilentos. O seu tio conversava com um deles. Outros homens tinham as cabeças baixas e os olhares fundos.

"Papai?! Auguste?!" — balbuciou novamente Laurent, com treze, olhando ao redor como se procurasse Aleron e o irmão entre aqueles corpos maltratados.

O sol começava a se pôr e o veretiano sentia as primeiras sombras tocarem os espaços abertos no piso de terra descampado.

Os soldados pareciam bravos demais para as batalhas, mas fracos demais para dizerem com palavras o que havia se sucedido. Ao invés disso, eles moveram os seus olhos sorumbáticos em direção à carroça.

Laurent abriu a sua boca e a fechou, ignorando o silêncio e a tensão mortiça dos fatos. Com passos hesitantes, ele caminhou em direção à carroça até que os seus movimentos se tornassem um andar rápido que se desembocou em uma corrida.

Então, ele os viu.

Deitados na carroça de madeira crua sobre um tecido simples e sem nobreza alguma, Aleron e Auguste foram depositados juntos.

Como se quisesse resgatar o seu primogênito de uma partida prematura, o rei de Vere fora colocado de um modo em que o seu braço transpassava a cintura do filho. Como se tentasse o puxar da morte e, ao invés disso, houvesse tombado junto em um abismo. Os seus olhos ainda estavam abertos e vítreos.

E Auguste... Com o golpe fatal de espada, o seu corpo sem vida manchava de sangue a mortalha.

Os rostos dos dois estavam marcados pela poeira, pelo sangue seco e pelo suor da batalha. Os seus cabelos estavam com nós embolados e sujos. Por um momento, Laurent não acreditou que eram eles porque a imagem não se configurava em nenhuma recordação que pudesse ter do pai e do irmão limpos, sentados no Quarto Real de Arles, rindo e cercados por cachorros efusivos.

Mas, então, o seu coração quebrou terrivelmente quando ele os sentiu mortos em seus ossos e estômago. Como quando sentiu que Hennike, um rosto imóvel e frio, nunca mais o chamaria novamente de "meu príncipe".

Laurent só percebeu que gritava como só crianças podem gritar quando já o fazia há um tempo. E sentiu o seu choro movê-lo quando tocou o peito de Auguste, sacudindo-o como o sacudia nas manhãs de domingo, em que não havia treino militar, para que o irmão acordasse cedo e brincasse com ele.

Depois disso, ele sentiu o tio envolvê-lo, dizendo:

"Laurent, eles se foram! Eles se foram! Os akielons venceram! Mas eu vou cuidar de você! Laurent, acalme-se! Você não está sozinho!"

E o menino, sacudindo Auguste, sentiu a força deixar o seu corpo quando desmaiou nos braços de seu carrasco. Quando uma parte sua pareceu se desprender e morrer também nos fundos daquela carroça, agarrando-se àqueles dois corpos para que o levassem com eles aonde quer que fossem e não o deixassem descobrir tanto sobre a morte em tão pouco tempo, sem explicá-lo o ritmo dos ciclos que eram como as marés.

Ali, a vida de Laurent se despedaçara enquanto Damianos era saudado por ter vencido o príncipe-herdeiro de Vere e ter posto fim à guerra com a conquista de Delfeur. Ali, o príncipe de Akielos ganhava um nome, um enxerto, uma existência e na vida de Laurent, muito cedo, se fizera tarde.

Poderia ter sido o contrário por um descuido ou uma fraqueza percebida por Auguste, que era determinado e possuía concentração nos treinos com espada? Ele poderia ter percebido a vulnerabilidade de Damianos?

Aleron poderia perceber que o irmão o invejava e planejava, em um único movimento, a queda do seu primogênito e a sua? E que ele só não daria cabo de Laurent porque o queria até que, inevitavelmente, não o quisesse mais?

A arena cegava os homens. Tanto.

Com Damianos, tudo começara. E com Damianos, tudo se encerrara. Um reino ou isso? No fim, ele e Laurent carregaram tudo o que podiam carregar. Tudo o que havia restado para que ainda amassem.

Laurent não verbalizou os seus pensamentos, afastando as lembranças mórbidas que já o haviam acometido muitas vezes. Um irmão por outro irmão. Uma aliança por uma guerra. Nações-irmãs. A inocente descoberta de si mesmo e o esquecimento brutal.

Depois de um tempo, pigarreando um pouco, Laurent, no Quarto Real, falou, desejando mudar de assunto e afastar a estranha tristeza que o efeito dos fogos de artifício proporcionava quando as suas estrelas desapareciam no céu escuro em um último estouro e se calavam para sempre, deixando só o reverberar de corda no coração.

"Sabe, eu vi também Pari de Skarva por trás das organzas e entre elas..."

Damen moveu os seus olhos, assentindo:

"Creio que todos a viram... Ela parecia bem-disposta..."

Pigarreando novamente, Laurent moveu o seu rosto enrubescido, indagando:

"Você já esteve numa mesma cama com um homem e com uma mulher...?"

Damen assentiu, laconicamente:

"Já..."

"Tem algo no qual você seja ainda virgem, Damianos?"

O akielon riu-se.

"Por que anda tão curioso sobre o meu tempo de príncipe?"

"Por nada. Só uma curiosidade sadia sobre a sua habilidade. Pelo modo como Nikandros e Isander estavam animados, creio que Pari de Skarva seja muito habilidosa com os homens também. Você viu a parte em que ela foi penetrada na frente e atrás pelos dois...? É incrível as mulheres poderem fazer isso..."

Damen se moveu um pouco desconfortavelmente.

"Vi, Laurent..."

"E a parte em que Isander fodia e era fodido ao mesmo tempo?"

Damen apoiou os seus cotovelos no balaústre, fitando o veretiano de cima a baixo ao se curvar um pouco.

"Você está parecendo bem animado, Laurent. Não me diga que quer alguém também em nossa cama..."

O rei de Akielos já vivenciara experiências diversas, mas a ideia de ter outra pessoa em seu leito com Laurent o aborreceu. Ele não se satisfaria nem mesmo remotamente ao ver um outro homem encostando em Laurent ou o rei veretiano explorando um terceiro corpo. O que, às vezes, o excitara febrilmente com outros amantes lhe parecia descabido e enervante com Laurent.

O rei de Vere moveu o seu rosto, cruzando os braços.

"Não diga bobagens! Só você deita na minha cama, Damianos... Não quero nenhum intruso."

Diante da pergunta desconfiada do akielon, Laurent se recordou de uma briga de ringue conduzida em Arles há alguns anos em que um escravo de estimação arrancou o globo ocular do seu oponente, após ter o seu pau mordido enquanto era chupado. Se Laurent visse alguém se roçando em Damen, talvez, a sua reação não fosse diferente.

Damianos, com o corpo ainda curvado sobre o balaústre da sacada dos aposentos reais, confessou com um tom rosado em suas bochechas:

"Sentiria ciúme se visse você com outra pessoa, Laurent. Muito ciúme. Não sou nobre ou abnegado como os vaskianos... Eu nunca ficaria tranquilo com a situação aceita facilmente por Vishkar. Ficaria enciumado se você fizesse com outra pessoa as coisas que fazemos juntos. As nossas coisas."

Laurent desviou o rosto corado, fingindo se concentrar num fogo de artifício retardatário que fora lançado e se içava no céu noturno sobre os plátanos.

"Bom, e eu não entregaria você à Pari, ao imperador ou a Isobell nem que tivesse que erguer a minha espada novamente em uma guerra... Creio que... seria estranho para mim também ver você cortejando outra pessoa, Damen. Fazendo amor com outro, sussurrando em akielon..."

Damianos fitou o rosto do veretiano, que tinha as suas mãos pálidas apoiadas no balaústre também. Os dois haviam se afastado um pouco enquanto conversavam e o akielon encurtou a distância com um passo.

"Vem aqui..." — disse Damen, abraçando Laurent e mergulhando os lábios em sua boca.

Os dois homens se beijaram e Laurent, quando teve a sua língua massageada pelo akielon, experimentou os beijos serem aprofundados e se permitiu responder à carícia, tocando a ponta da língua do outro homem da forma que gostava e movendo a cabeça, ao sentir a sua pele se arrepiar.

A tensão também parece ter sido sentida por Damen, que ergueu o rapaz, envolvendo as costas dos seus joelhos até apoiá-lo no balaústre.

"Acha que devíamos aproveitar a abertura da noite com Nikandros, Isander e Pari e nos permitirmos também saborear a madrugada?"

"Não foram eles que abriram a noite, Damen. Fomos nós no jardim recém-construído..."

Deslizando a boca até o ouvido de Laurent, Damen sussurrou, lhe mordendo o lóbulo macio:

"Sim. E eu não me esqueci de como me provocou, não me deixando penetrá-lo. Posso fazer isso agora?"

Laurent fechou os olhos, experienciando a sensação de ter a respiração de Damianos lhe arrepiando a epiderme enquanto ele apertava a sua túnica com os dedos.

"Ainda estamos no cortejo. Na fase de explorações juvenis..."

Damen sorriu, contraindo as sobrancelhas.

"Você gosta mesmo dessas histórias... Quer me deixar louco me fazendo esperar...?"

"Você ficaria louco se estivéssemos enamorados e eu ainda fosse um príncipe virgem?"

"Tenho certeza de que já enlouqueci um bocado ao seu lado, Laurent de Vere..."

"Só quero viver um pouco mais nessa realidade..."

"E essa história tem um final feliz?"

"Garanto que sim..."— murmurou Laurent, sentindo Damen segurá-lo com firmeza na sacada e fitar o seu corpo com aquele desejo que atiçava o seu como se alguém atirasse papéis e seda ao fogo.

"Então, Alteza, o que vamos fazer?" — indagou Damen, constatando que a mente de serpente era algo de Laurent que ele também amava e que bagunçava docemente os seus sentidos.

Laurent engoliu em seco, experimentando o seu próprio corpo reagir enquanto a escuridão do olhar do akielon drenava a sua atenção.

"Posso usar a minha boca em você do jeito que você gosta. E você pode fazer o que fez quando voltou de viagem. Gosto quando você usa a sua língua daquela forma... Uma troca justa..."

Damen deslizou a mão sob a túnica de Laurent.

"Nesse caso, se vamos nos divertir com essas brincadeiras de alcova, quero poder gozar não na boca... Mas dentro... Sem penetrá-lo. Só sendo provocado como fez na sala de reunião das nações-irmãs. Como eu faria com um amante virgem..."

Laurent anteviu a sensação no seu corpo de estimular Damen com os lábios e deixá-lo finalizar de acordo com aqueles termos. A sua ereção latejou.

"Feito!"

Damen voltou a beijar a boca do outro homem, declarando quando descolou os seus lábios, erguendo Laurent e o conduzindo até a cama com os dedos entrelaçados.

"Temos um acordo então, Alteza!"

Antes de se deitarem, no entanto, Damen foi até o baú com os seus pertences e guardou no móvel uma pequena caixa que tirara do bolso de seu quíton despido. Depois, ele retirou a sua espada embainhada do interior e analisou a lâmina contra a luz de um dos lampiões, voltando a embainhá-la e deixá-la próxima à cama.

Laurent, por sua vez, deixou a sua adaga sobre a cômoda próxima ao leito em uma posição estratégica em que bastaria esticar o seu braço para apanhá-la e atirá-la em alguém. A sua espada residia sob a cama.

Alguns hábitos adquiridos do velho mundo e de suas próprias experiências sempre permaneceriam, principalmente quando duas nações estrangeiras visitavam o covil Arles. Quando alguém estava tentando cessar a estabilidade que instauraram num reino de corrupção naturalizada.

Então, precavidos contra o mundo externo que poderia tentar lhes roubar o seu reino e isso, eles eram cautelosos.

Damen puxou Laurent para a cama e, mergulhando o rosto em seu pescoço, entregou-se ao momento. Enquanto Damianos chupava os mamilos rosados de Laurent e os mordiscava, após lhe abrir os laços do pijama, o veretiano murmurou, tendo o seu olhar fixo na bainha da espada do akielon.

"Podemos treinar juntos amanhã no pátio, Damen? Os homens da Guarda Real são cuidadosos demais comigo por eu ser o rei deles. Preciso de um oponente implacável. Sei que você é o melhor..."

Damen acompanhou o olhar do veretiano e replicou, voltando a deslizar os seus lábios até a linha reta e dura da barriga do amante, segurando a sua pélvis estreita.

"Certo. Quero ver também o seu lançamento de adagas. É sempre melhor nunca deixar um adversário chegar tão perto... Finalizar com ele, antes que se torne uma ameaça."

Laurent assentiu, gemendo alto e tendo a sua respiração entrecortada quando Damen desceu ainda mais a sua boca, erguendo os quadris do veretiano com mãos firmes e o fazendo se esquecer de tudo.

(cut)

Damen acordou no dia seguinte com o sol pálido da manhã de primavera invadindo as janelas e cortinas do Quarto Real. Como era costume, Laurent se levantou bem cedo e deixou um serviçal encarregado de oferecer o café da manhã para o akielon. Damianos tomou o desjejum e seguiu para os corredores, depois de ser informado que o rei veretiano se dirigira para as adegas de Arles.

Quando atravessava os caminhos um tanto labirínticos da área destinada à realeza do palácio, Damen se deparou com Sorem de Ver-Tan com um roupão vaporoso sobre roupas de dormir vaskianas, deixando um dos quartos.

O homem tinha os seus cabelos escuros um tanto bagunçados e a camisa se abria até a clavícula, revelando um peito branco feito algodão, sem pelos e com algumas marcas vermelhas. Atrás dele, estava o conselheiro Audin, que, ao se deparar com Damen, enrubesceu ferozmente.

O rei de Akielos contraiu as sobrancelhas quando o conselheiro de Vere curvou a cabeça com deferência enquanto o imperador unia as mãos no cumprimento típico de Vask. Aparentemente, Sorem encontrara acolhimento na cama de Audin, após o incessante desprezo de Vishkar.

Corando um pouco também, o vaskiano fechou o seu roupão com algum decoro, dizendo:

"Estou um pouco perdido nos labirintos desta ala. O palácio de Arles é enorme. Ontem, estava tão alcoolizado que não consegui encontrar o meu quarto e o conselheiro Audin deixou que eu dormisse nos seus aposentos. Damianos de Akielos permaneceu na festa ontem até o fim?"

"Não. Eu e o rei Laurent nos recolhemos para os aposentos reais..."

Damen observou os dois homens, com algum constrangimento. Audin era um homem de seus quarenta e poucos anos com cabelos acobreados, olhos cinzentos e pele sardenta. Laurent o apontava como um estudioso disciplinado das línguas e culturas estrangeiras. Damen, por sua vez, não conseguia simpatizar com Audin por uma lembrança muito nítida do conselheiro oferecendo Nicaise para ele no ringue quando todos acreditavam que ele era um escravo.

Fechando também o seu roupão, Audin perguntou a Damen, colocando com delicadeza a mão sobre o ombro do imperador:

"Vossa Majestade de Akielos vai ao encontro do rei?"

"Sim. Queiram me dar licença, conselheiro e imperador... Aproveite a estadia, vossa Majestade Imperial..." — declarou o akielon, sem jeito por flagrar os dois homens com olheiras profundas, após uma foda que possivelmente se estendera madrugada a dentro, em decorrência da planta damiana.

Damen, tomado pela curiosidade, fez questão de passar pelo Grande Salão e percebeu que os fragmentos da noite anterior já haviam desaparecido. Os serviçais de Laurent e os escravos da corte fizeram um trabalho impecável, juntando do chão taças vazias, cascas de fruta e farelos de pão, destinando-os ao tanque ou ao lixo. Também, foram descartadas as pétalas primaveris e as folhas amassadas.

As secreções e resquícios de qualquer encontro amoroso haviam sido enxutos e esfregados com severidade do piso de lajotas e dos estofados dos móveis com água e sabão. A cama em que Nikandros, Isander e Pari se deitaram fora desmontada e retornada para o seu ambiente original. Os véus, possivelmente, haviam sido dobrados e devolvidos a Charls. Os candeeiros permaneciam apagados e o pó de incenso fora varrido. A noite passada permaneceria adormecida como um sonho. Para alguns, algo que devia ser lembrado. Para outros, esquecido e enterrado.

Damen cruzou o arco de pedra que levava às cozinhas e adegas do palácio. Escravos passavam de um lado para o outro, carregando panelas de cobre envoltas em vapores e cestos apinhados de verduras e frutas. Caldos cozinhavam em caldeirões sobre fogos altos. Numa bancada, uma escrava com braços fortes depenava um pato com o pescoço mole. E um criado ao seu lado limpava a escama de salmões muitos rosados com um facão afiado.

Todos, com deferência, enxugavam as suas mãos em aventais engordurados em reverência ao rei de Akielos, que levantava os dedos, sinalizando que não precisavam agir assim. Era ele o intruso que invadia o trabalho, o ritmo e a orquestra daquelas pessoas que separavam; lavavam; estripavam; cortavam; escaldavam e cozinhavam tudo o que alimentaria a corte.

Damen seguiu até uma sala contígua em que alguns escravos com as vestes pontilhadas de branco sovavam massas de pão com movimentos encadeados, girando-as em roscas, polvilhando açúcar sobre elas ou as recheando com frutas cristalizadas e damascos.

Entre os criados, encontrava-se Latifa, a escrava por quem Isander se enamorara. Ela estava com o avental sujo de farinha e os cabelos cacheados e loiros presos em um coque. Com as faces vermelhas por causa da proximidade da fornalha, a jovem baixou a cabeça diante de Damianos, juntamente com os seus olhos assustados de coelho.

Damen estava um pouco perdido na cozinha que parecia tão labiríntica quanto os corredores do palácio. Sem jeito, ele perguntou aos servos:

"Onde está o rei?"

Os escravos, timidamente, pareceram confusos e não sabiam informar, mas Latifa, que, aparentemente, comandava aquela parte da cozinha, fez um gesto sobre a sua cabeça com as mãos em pé. Demorou um tempo para Damen entender que a jovem, que era surda, sinalizava a coroa real. Ela queria se certificar se ele procurava por Laurent.

"Sim. O rei." — repetiu Damen, movendo bem os lábios e fitando os olhos da jovem, sorrindo-lhe.

Latifa caminhou até uma sala contígua, apontando para uma escadaria de pedra larga que seguia para o subsolo. A jovem fez um movimento na sua linguagem de sinais, movendo os dedos sobre a palma da mão como pernas andando e apontando para a entrada.

"Obrigado!" — agradeceu Damen enquanto a jovem fazia uma reverência e retornava para o seu trabalho com os pães.

A adega de Arles era gigantesca e, no seu interior, iluminado pela luz mortiça de alguns lampiões devidamente afastados das garrafas e toneis, encontrava-se Laurent conversando com Paschal. Sobre um barril de madeira entre os dois homens, residia o cálice dourado que fora reservado da festa da noite anterior.

"Você chegou na melhor parte..." — declarou Laurent, saudando Damen ao lado de seu médico, que fez um gesto polido diante do akielon— "Paschal está analisando a erva que foi misturada aos vinhos..."

O médico veretiano passou o dedo por uma ruga em sua testa, dizendo:

"Tivemos um número de pessoas que se exaltaram na festa de ontem à noite e hoje de manhã, procuraram os meus serviços. O rei de Akielos pode estar certo. A damiana foi uma erva muito consumida em Patras, principalmente após a guerra em que muitas pessoas morreram e o rei Torgeir estimulou o nascimento de crianças entre os seus súditos... Muitas vezes, é eficaz também em casos de infertilidade."

Paschal deslizou o seu dedo pela parte granulada no cálice e em sua digital se fixou o pó amarelo-esverdeado.

"... O açúcar do vinho misturado à planta aumenta a potência sexual e o desejo..."

Laurent pestanejou os seus olhos azuis e gélidos.

"Pode ser outra droga que você conheça, Paschal?"

O homem levou a mão à cabeça como se consultasse um catálogo invisível que residisse entre as paredes carnais do seu cérebro.

"Conheço quatro outros estimulantes, mas as características intensas e a coloração dela se aproximam mais da damiana mesmo. A droga akielon possui propriedades diferentes e os seus efeitos são mais evidentes e duradouros..."

"Conheço bem os efeitos da droga akielon e sei que não se trata dela. Damiana é cultivada em Vere?"

"Não é uma planta comum em nossas regiões, Majestade, e o chá é muito difícil de se encontrar em nossos boticários. É uma erva temperamental em que o uso indiscriminado pode acarretar em efeitos colaterais adversos e ainda carece de estudos. Lazar, que me procurou mais cedo, está vomitando desde de manhã e sente uma moleza no corpo. Ele nem desconfia que foi entorpecido. Apesar de que é difícil precisar se os sintomas são um efeito da sua bebedeira ou da erva..."

Laurent escorregou os dedos pelo fecho do tampo do barril de madeira, indagando, após entregar o cálice de ouro a Damen:

"Lazar contou o que se lembra da noite passada?"

"Ele só me falou que sentiu uma excitação muito grande e que toda o espetáculo de Nikandros, Isander e Pari de Skarva o deixou muito disposto. Ele se descreveu com a sensação de um garoto de quinze anos e se estendeu madrugada a dentro com Pallas... Apesar do mal-estar, ele parece feliz..."

Laurent respondeu com frieza, abrindo o tonel em que o vinho estava armazenado até a boca.

"Imagino que sim..."

Damen olhou dentro da pipa e observou a solução violeta, da qual exalava o forte cheiro de uvas e álcool.

"Esse é o reservatório?"

"Sim. O vinho veretiano que vem de Belloy é derramado aqui e servido em jarros e taças. Em ocasiões como grandes festas feito a de ontem, a barrica se esvazia rapidamente, após uma ou duas voltas no Salão. O vinho está puro. O que restou dos resquícios da droga se foi. Mas se alguém quis entorpecer as pessoas na festa, sem dúvida, fez uso do tonel..."

Damen olhou para cima, escutando o ruído dos escravos trabalhando na cozinha reverberar no teto da adega.

"Você já interrogou os escravos?"

Laurent voltou a fechar o barril, dizendo:

"Foi a primeira coisa que fiz. Aparentemente, ninguém viu pessoas entrando ou saindo, salvo pelos escravos e serviçais que trabalham na cozinha. Acredito que se membros da comitiva de Vask ou de Patras entrassem aqui, teriam chamado a atenção. Os soldados são orientados a vigiarem o fluxo de pessoas nesta área e também não viram nada de anormal. Mas não posso acreditar que alguém alterou a qualidade do vinho somente para promover uma orgia no dia do meu aniversário por pura diversão..."

Laurent, após um tempo, dispensou Paschal, que partiu, alegando que havia pacientes precisando de sua atenção na ala hospitalar.

Com passos um pouco lentos e as mãos para trás, Laurent caminhou ao lado de Damianos, subindo os degraus de pedra da adega.

"Você soube de alguma movimentação suspeita? Algo que tenha se sucedido na noite de ontem, depois que nos retiramos?" — perguntou Damianos, caminhando ao seu lado.

"Nada que mereça atenção. O palácio está vazio. Muitos estão dormindo ainda. A diversão de ontem se estendeu até a manhã..."

Damen respondeu, sorrindo:

"A nossa diversão também se demorou bastante..."

"Achei que você não conseguiria se levantar hoje e que se esqueceria do nosso treino..." — respondeu Laurent com um rubor em suas faces e um sorriso enviesado.

"Não me esqueci. Vamos nos exercitar mais."

"Preciso visitar mais alguém, antes de seguirmos para o pátio..."

Quando alcançaram a bancada da cozinha em que Latifa e os outros escravos ainda sovavam o pão e o assavam, repetiu-se a reverência perante os dois homens, tornando-se mais profunda por conta da presença do rei de Vere. Latifa ergueu os seus olhos de coelho em direção a Laurent e, movendo os lábios com clareza, o veretiano disse:

"O pão com frutas secas que acabou de ser assado..."

Parecendo compreender perfeitamente bem o comando do rei, Latifa moveu os seus braços até a fornalha que havia sido retirada do forno e, com uma espátula, colocou um pãozinho num prato dourado, servindo-o diante de Laurent com um garfo.

A jovem se manteve diante de Laurent, parecendo inquieta não como uma serva que teme não agradar ao seu mestre, mas como alguém ansioso para saber a opinião de um convidado que degusta a sua comida.

Laurent deu uma garfada no pão e experimentou a massa doce, mastigando-a calmamente e limpando em seguida a sua boca com um guardanapo. Fechando os olhos por um tempo, ele sorriu com uma delícia em seus olhos azuis.

"Excelente! Como sempre, Latifa! Obrigado!"

A jovem, ruborizando, limpou as mãos no seu avental e sorriu, antes de se voltar para o forno de pedra e cuidar da outra fornalha de pães que mergulhavam a cozinha em um cheiro gostoso e aquecido. Laurent se sentou diante da bancada e ofereceu a próxima garfada a Damen.

Os serviçais na cozinha pareciam não estranharem a presença de seu rei comendo um pão com o rei de Akielos.

"Você parece bem familiarizado com a cozinha de Arles..."

"Eu vinha muito aqui quando era criança. Com Auguste. Os cozinheiros escondiam os doces quando estávamos por perto... Auguste tinha o hábito de roubar comida antes do jantar. Gostávamos de comer massa crua também e a minha mãe ficava aborrecida porque ficávamos com dor de estômago. Ela disse que Auguste estava me estragando porque fazia todas as minhas vontades..."

Damen observou o veretiano e imaginou um Laurent criança se esgueirando por trás das bancadas de mãos dadas com um irmão mais velho que o ensinava a saquear a despensa. Ele conseguia sentir a doçura da cena. Laurent prosseguiu:

"... Depois, quando eu fiquei só, vinha aqui por hábito afanar um doce. Latifa está aqui há muito tempo e sabe do que gosto de comer. Ela serviu à minha mãe, antes de ser dada ao Conselho."

Damianos observou a jovem patrana fazer furinhos com um palito na massa em que trabalhava, ao lado de um escravo que veio ajudá-la. Ele era um homem de olhos escuros e cabelos ondulados.

O serviçal fitou brevemente os reis, detendo a sua atenção demoradamente em Laurent, antes de abrir uma caixa com uvas ressecadas e misturá-las ao pão. Vez ou outra, uma atenção meio desconfiada do empregado pairava em Damianos.

"Por que Latifa veio para Arles, sendo patrana?"

Laurent deu uma nova garfada no pão, catando com as pontas afiadas algumas uvas secas.

"Os pais de Latifa morreram jovens e os mestres dela faleceram em decorrência da guerra de Patras. Ela foi realojada em Vere junto com alguns outros escravos e nobres que vieram fugindo de Bazal."

Damen, após mastigar o pedaço de pão que Laurent lhe oferecera, comentou:

"Deve ter sido difícil para ela. Vir para uma outra nação como escrava, fugindo de uma guerra e sem família..."

"Ela tinha um irmão mais novo. Ele seria dado a mim como escravo de companhia para brincarmos juntos e treinarmos a língua patrana. Minha mãe achou que Auguste deveria passar mais tempo lidando com as questões políticas e com os soldados, mas ela não queria que eu me sentisse sozinho. Mamãe pensou, então, que uma outra criança da mesma idade seria uma boa solução."

Latifa caminhou até uma outra porta que parecia ser a despensa e voltou do seu interior com um cesto de maçãs verdes. O rapaz que a ajudava rasgou uma saca de farinha com um punhal e pareceu fungar com o contato do pó em suas narinas.

"E onde está o irmão de Latifa?"

Laurent ergueu o olhar brevemente para Damen e se voltou para o seu prato com algum desconforto.

"Ele morreu quando criança ainda. Bom, é melhor nos apressarmos..."

O veretiano, com um rubor em suas bochechas, levou o último pedaço de pão à boca de Damen.

Damianos reparou também que Laurent beliscou um pedaço da massa crua, levando-a à boca, sem que Latifa percebesse. O escravo de olhos escuros e cabelos ondulados, no entanto, ao dispor algumas batatas sobre a bancada para serem descascadas, flagrou Laurent mexendo na massa crua e riu-se.

"Não vai me dedurar, não é, Theodore cabeça de batata?" — indagou Laurent, mastigando a mistura de farinha de trigo, água morna, sal e óleo.

"Não, Majestade batatinha..." — disse o homem com um sorriso profundo e conspiratório.

Era a primeira vez que Damianos presenciava a interação de Laurent com aquelas pessoas e, de alguma forma, o veretiano parecia mais afável com elas do que com as pessoas da corte que o rodeavam diariamente. Da mesma forma, os criados, apesar de se curvarem perante o seu rei, pareciam observá-lo sem o temor que os soldados de Laurent ostentavam. Percebendo a confusão do akielon, Laurent se antecipou em apresentar o serviçal:

"Theodore serviu também à realeza, antes do Regente assumir. Ele era do séquito de Auguste."

Damen e Laurent seguiram de volta para os corredores da ala real e o rei veretiano adentrou uma sala em que a vaskiana de rosto encovado que trouxera Afanas durante a festa da noite passada se encontrava, segurando uma chuquinha que administrava para o pequeno leopardo.

Envolto em sua manta, o felino se encontrava em um quarto amplo, forrado com tecidos e um lugar adequado ao seu sono com um pequeno colchonete e água fresca. Ao lado, havia sido providenciada uma cama para a sua cuidadora, que o alimentava com leite enquanto estava sentada em uma poltrona reclinável. O animal, com feições sonolentas, tinha os olhos semicerrados e apertava com as garras o seio da mulher, massageando-o porque acreditava que era de lá que a comida vinha.

A vaskiana ergueu o seu olhar e fez um movimento discreto para Laurent.

"Majestade de Vere, o senhor voltou..."

Em um vaskiano fluente, Laurent respondeu:

"Sim, Kalina. Ele está aceitando bem o leite que providenciaram?"

A mulher assentiu com o seu rosto macilento e concentrado.

"Sim, Majestade. O desmame já está acontecendo aos poucos e alternarei o leite com carne crua." — e, com um olhar inseguro por não saber se deveria se estender — "Poderei levá-lo para caminharmos mais tarde na floresta próxima ao palácio? Um quarto fechado pode aborrecer Afanas, após um tempo..."

Laurent tinha o seu olhar fixo no leopardo filhote.

"Um serviçal meu e um soldado acompanharão a senhora para mostrá-la o local. Tem a minha permissão para cuidar de Afanas conforme cuidariam dele em Skarva. Só não deve ir muito para o fundo da floresta porque há uma infestação de formigas, da qual a minha mãe foi vítima há alguns anos atrás. Mas a orla é segura..."

Kalina, a ama de Afanas, moveu a sua cabeça em assentimento. Os seus cabelos eram puxados para trás em um rabo de cavalo apertado e os seus olhos eram brilhantes. Em seu rosto e braços, havia marcas de seu ofício que era cuidar de leopardos. De alguma forma, ela parecia mais presente e mais calma do que estivera na noite passada. Depois de um tempo, ela falou:

"A imperatriz Vishkar esteve aqui ontem durante a madrugada e vai voltar mais tarde. Ela pode alimentá-lo também?"

Laurent pestanejou, voltando o seu rosto para o aposento e o inspecionando como se o avaliasse.

"Como eu disse, aqui não é uma prisão. A imperatriz pode visitá-lo, desde que Afanas não seja conduzido para fora dos limites do palácio..."

"Certo..." — concordou a vaskiana, observando Laurent avaliar o jarro de leite e o leopardo recostado ao seu seio. Depois, o rapaz olhou pelas janelas e voltou a fitar o filhote até que permaneceu de pé, em silêncio, parado junto à poltrona.

"Majestade, o senhor quer segurá-lo?"

Damen se voltou para Laurent a tempo de vê-lo ruborizar como se a sua intenção houvesse sido descoberta por uma mãe que vê um outro filho rodeá-la enquanto amamenta o seu bebê. Com uma rispidez falsa, Laurent respondeu:

"Como poderia fazer isso? Eu nunca alimentei um leopardo!"

Kalina se ergueu, segurando Afanas e a mamadeira próxima ao corpo enquanto arriscava sorrir pela primeira vez.

"É fácil. É importante a conexão entre o leopardo e a realeza. Segure-o..."

Damen moveu os lábios com um riso nervoso quando viu um extremamente cuidadoso Laurent receber um gato que rugiu momentaneamente quando o leite lhe foi afastado e abocanhou o bico da chuquinha prontamente quando o veretiano a aproximou novamente de sua boca. Em seguida, Afanas enfiou as garras na jaqueta de Laurent, iniciando o seu movimento de patas.

Kalina fez uma carícia entre as orelhas do leopardo como se ele fosse uma criança e, com um encantamento, indicou a poltrona para que Laurent se sentasse.

"Estou fazendo direito...?" — perguntou Laurent, parecendo um tanto inseguro.

"Sim, sim! Está correto..."

Levou um tempo para que o rei de Vere ousasse erguer os seus olhos em direção a Damen e, quando o fez, suas bochechas, orelhas e pescoço estavam vermelhos. Damianos mordia os lábios, contendo o seu riso ao observar aquela parte privada e atenciosa de Laurent.

"Não quero ouvir uma palavra sua, Damen..." — falou Laurent em akielon quando Kalina foi trocar a água de Afanas.

"Você seria um bom pai..."

Enrubescendo ainda mais do que parecia possível, Laurent retorquiu enquanto encarava o filhote em seus braços.

"Estamos no cortejo e você já está pensando em filhos..."

"Não posso fantasiar também? Sabe que um príncipe nosso seria o sonho de um homem como eu. Ou uma princesa..."

Laurent respondeu, sem olhar para Damen:

"Não é comum nascerem meninas na minha linhagem. Minha mãe queria dar uma irmã para mim e para Auguste, mas ela veio de uma família de nove irmãos e, possivelmente, teríamos um outro irmãozinho se ela não tivesse adoecido. Creio que você seria um bom pai..."

"Tentaria sê-lo certamente..."

Os dois homens estavam com os rostos muito corados quando se fitaram e mergulharam num silêncio morno em que nenhum dos dois poderia quebrar. Aquela troca de palavras era muito ousada diante de todos os parâmetros que os circundavam.

Em Akielos e Vere, apesar da homossexualidade ser vivida plenamente, homens não se casavam, formavam família ou conversavam sobre essas coisas.

Damen se sentia desconfortável quando pensava que se resolvessem ter uma criança, ele ou Laurent teriam que fazer o caminho de uma linha reta e se aproximarem de uma mulher para dormir com ela. Também não lhe parecia nem um pouco certo criar um filho longe da presença da mãe se essa mulher quisesse participar da vida da criança.

Havia sempre a possibilidade dos dois poderem criar uma criança que não fosse deles, mas os akielons, por tradição, não aceitariam um rei sem o sangue real. Os kyroi rejeitaram Kastor, apenas por ele ser um filho bastardo de Theomedes. A possibilidade de um filho para Damen e Laurent parecia cercada de poréns difíceis de serem contornados. Isso, naturalmente, não impedia Damen de se sentir bobo quando aqueles pensamentos o achavam e ele se via cercado pela família que gostaria de ter.

Uma hora depois, quando deixaram o quarto e seguiam para o pátio de treinamento, Damen disse a Laurent:

"Vejo que você se afeiçoou rapidamente a Afanas..."

"Aquele leopardo furou a minha jaqueta e não para de repuxar os nós da minha roupa. Na verdade, ele é bem irritante..."

Damen deu um meio sorriso, esperando por mais.

"... Vou pedir que o levem de noite ao Quarto Real para que eu mesmo o alimente lá. Kalina disse que é importante ele se acostumar comigo. Talvez eu possa lhe ensinar alguma coisa..."

"Claro!"

(cut)

A arena de treinamento de Arles era um grande salão com painéis de madeira, serragem prensada no chão e um grosso tronco de madeira em uma extremidade do ambiente.

As tochas estavam apagadas e o espaço, fazendo uso da luz natural, ostentava armamentos pendurados; facas embainhadas e nuas; lanças cruzadas e espadas. Tridentes, escudos e elmos também eram alojados em um canto.

Um tronco com anéis entalhados e pintados havia sido erguido em uma extremidade mais afastada da sala de treinamento. Os alvos partiam de um círculo maior até alcançar um muito pequeno em seu centro, assim como os utilizados pelos arqueiros em suas práticas com o arco e flecha.

Laurent mostrou o seu lançamento de adagas para Damen e o veretiano, de fato, aprimorara ainda mais a sua técnica, acertando com precisão o núcleo. Damen o conduziu mais para trás a cada intervalo, aumentando ainda mais a distância entre o jovem e o tronco, até que o círculo central do alvo parecesse muito longe e embaçado.

Laurent estreitou o seu olhar azul e a sua concentração, sentindo dificuldade em focar ao mesmo tempo que segurava com firmeza o cabo de sua adaga de arabescos.

"É impossível acertar o alvo a essa distância..." — declarou o veretiano, após alcançar o terceiro círculo, cravando o gume metálico na madeira.

"Não, não é..." — retorquiu Damen, erguendo a adaga sobre o seu ombro, estreitando a vista durante alguns arrastados segundos, antes de atirá-la no tronco com um movimento rápido, eficiente, fincando a sua ponta metálica no círculo menor talhado na madeira.

Laurent se manteve com os lábios entreabertos, fitando a adaga imobilizada e a postura firme de Damen.

"Tenho praticado com Lazar, que é bom no tiro com arco. Não treinamos a uma distância tão grande... A minha vista se embaça e a adaga perde força ao ser lançada..."

"Durante um segundo, a vista tenta se ajustar à distância e o seu corpo precisa estar preparado para esse momento. Se mantiver o seu braço e o seu quadril assim, conseguirá direcionar melhor o curso da adaga..."

Damianos tocou na cintura de Laurent, ajustando o seu corpo com um foco militar, parecendo um mestre que orienta um jovem discípulo a alcançar as notas mais altas no treinamento em pátios e ameias. Laurent o escutava e tentava ajustar a sua postura, esforçando-se para replicar a técnica do akielon. Por meia hora, os dois seguiram treinando o tiro ao alvo com adagas.

Depois, o akielon e o veretiano pegaram, cada um, uma espada da parede. Damen, gostando do peso da espada, ergueu-a e a brandiu algumas vezes, raspando a serragem do chão quando o metal alcançava o solo.

Laurent se manteve alongando o ombro, girando-o enquanto dava alguns pulos curtos, forçando os calcanhares a se acostumarem com o impacto do chão. Depois, ele jogou a bainha de sua espada longe na serragem, expondo a lâmina brilhante e polida.

Os dois homens gostavam da atividade física na qual podiam sentir o esforço de seus tendões. Era relaxante o movimento dos músculos enquanto os pensamentos eram desanuviados de suas mentes, concentrando-se somente em ajustes e posições rítmicas de combate, defesa e queda.

Damianos foi o primeiro a atacar com uma sequência de golpes bem defendidos por Laurent, que, por sua vez, deslizava com graça sobre o chão enquanto arrastava os pés. O veretiano fez o seu movimento conhecido de se mover para trás, após provocar o adversário com o toque de lâminas, incitando-o e recuando. Era a técnica de Laurent que enervara Govart quando o enfrentara, levando o brutamontes à derrota.

Durante algum tempo, o akielon deixou que o combate seguisse naquela direção, proporcionando algum aquecimento aos dois até que o ataque de Laurent, num átimo, se transformou em três movimentos consecutivos para a frente. A lâmina dele atingiu a de Damen com firmeza, içando um rangido de metal enquanto a força do ataque perpassava pulsos, ombros e mandíbulas.

Laurent deu um sorriso enviesado, mantendo o joelho levemente curvado para a frente como resquício do seu ataque defendido por Damianos.

"Ops..." — murmurou ele com a sua atenção de olhos gélidos desafiadores e, ao mesmo tempo, preguiçosos.

"Sua serpente!" — retrucou Damen, avançando para o oponente com toda a sua força, sabendo que, agora, poderia usar a sua combatividade como usaria com um adversário à altura.

Eles lutaram com honestidade.

O treino se estendeu longamente. O suor encharcou as raízes e as pontas dos cabelos dos dois homens e Laurent removera a jaqueta, utilizando somente uma blusa de algodão simples por baixo, que estava úmida. Gotículas brilhavam em sua tez e em seu pescoço.

Damianos, como era de hábito, despiu-se da cintura para cima, atirando a roupa em um canto de modo descuidado.

Damen e Laurent sentiam a queimação da carne, a pulsação do sangue, o calor do suor e o trabalho da musculatura que os deixariam dormentes no dia seguinte com uma languidez gostosa muito parecida com a do ato da foda. O ruído de metal rangia às vezes um tanto perto dos tímpanos e a sensação era de que ele reverberava pelo corpo, atordoando a percepção.

O rei de Akielos precisava reconhecer que Laurent havia melhorado muito. A sua estatura menor e a leveza lhe garantiam a graça e a agilidade de um exímio espadachim que não se intimidava pelo brandir da espada adversária e se curvava, abaixava-se e saltava quantas vezes fosse necessário, a fim de se manter em batalha ao fazer uso de todas as habilidades das quais o seu corpo dispunha.

Em um momento do treino, Laurent pulara sobre um dos bancos e escalara uma viga, fugindo das investidas do akielon e pulando atrás de suas costas.

Damianos, por outro lado, possuía uma constituição física mais encorpada e era bem mais forte. As suas investidas, muitas vezes, desequilibravam Laurent, fazendo-o dar dois ou três passos para trás quando defendia os ataques com a sua espada. Nesses instantes, os seus olhos se encontravam e o akielon podia ver o maxilar contraído de seu adversário, cravando os pés no chão e fazendo um grande esforço para empurrá-lo para longe.

Mas Laurent se recuperava bem e ainda fazia uso dos seus truques juvenis de atirar serragem nos olhos do oponente. Ele também atirou um elmo metálico em Damen que foi rebatido com a espada do akielon e rolara no chão.

"Cansado?" — indagou Damen, um pouco aborrecido, um pouco provocativo com aqueles subterfúgios que o rei de Vere trazia para os treinos. Truques, que, em uma luta real, Laurent, certamente, não se refrearia em utilizar.

O veretiano dobrou os punhos de sua blusa com um movimento um tanto másculo, deixando os seus pulsos livres enquanto tinha a espada cravada momentaneamente no chão. Havia agora um tom libertino em sua vestimenta de botões abertos e nas mechas grudadas em sua testa e pescoço.

"Me diga você, Damianos. Você se rende?"

"Me render? Eu ainda nem comecei, seu fedelho!"

Laurent sorriu, após respirar fundo e alongar o pescoço com um movimento sensual enquanto fitava os olhos de Damianos. Depois, ele retomou a espada e correu em direção a Damen, usando a sua velocidade e peso para fazê-lo recuar.

O empunhar de espadas se estendeu até que Damen, após receber uma cotovelada bem forte de Laurent, segurasse o seu pulso, desarmando-o. A luta atingia o momento do clímax em que o veretiano deixava a sua raiva emergir e não se renderia facilmente. O seu próprio corpo se transformava em um tatear beligerante e insubmisso.

Laurent chutou também com as suas botas envernizadas a tíbia de Damen quando o akielon se antecipou, tentando afastar para longe a espada de Laurent no momento em que o desarmou.

Cerrando os dentes, xingando um palavrão em akielon e sentindo a dor se espalhar por sua perna, Damen alcançou Laurent pelo cós da calça com uma mão só, quando ele se pôs a correr, sabendo que o revide viria. O rei de Akielos, com um golpe de luta livre, derrubou o veretiano de costas no chão sobre a serragem.

Laurent gritou de dor ou de ira. E lá estava ele, que não gostava de perder, se contorcendo no chão, sendo imobilizado por Damen.

"Ainda não acabou. Eu preciso melhorar..."

Damen sentia os movimentos espasmódicos dos pulsos de Laurent, quando o segurou para que não se levantasse.

"Se começarmos a nos estapear e a nos batermos, não vai restar o que melhorar. Por hoje, chega... Você vai acabar abrindo o pulso como daquela outra vez."

"Como o seu braço consegue ter tanta força e tanta mira?"— indagou Laurent entre dentes, não desistindo de tentar se libertar.

"O seu ombro que foi acertado por Govard ainda o distrai."

"A cicatriz repuxa às vezes..."

Damen se manteve deitado sobre Laurent por alguns minutos, sentindo a combatividade dele se esvair momentaneamente até se reacender num lampejo de vingança quando dizia:

"Sai de cima de mim, Damianos!

"Acalme-se!"

Como sempre, era demorado Laurent voltar a si e Damen já se acostumara com aquela parte desagradável de seus treinos juntos em que Laurent resistia em aceitar a derrota. Os dois não se entregavam fácil. Tinham isso em comum. Mas ele aprendera a não deixar a coisa se estender tanto a ponto de saírem mancando, com hematomas e ter o seu cabelo irritantemente repuxado pelo veretiano.

A arena mexia com violências adormecidas ou anestesiadas.

Por fim, a respiração de Laurent foi se tornando menos oscilante e ofegante. Ele parou de lutar contra o corpo do rei de Akielos e se manteve parado dentro do seu abraço.

Damianos estava deitado sobre Laurent, que tinha as suas pernas afastadas. Vez ou outra quando Laurent movia os joelhos, o akielon paralisava os seus pés para não ser chutado. Agora, ele estava usando as suas técnicas da luta livre em que o veretiano também era competitivo e na qual também melhorava.

"Renda-se!"

"Vai se foder!"

Damen respirou fundo, girando os olhos nas órbitas, e esperou o tempo necessário.

Quando o corpo de Laurent se tornou lânguido, o suor dos dois já havia esfriado na pele e o tecido da roupa do veretiano estava gelado. Ele parou de resistir e Damen tocou-lhe uma mecha do cabelo.

"Você luta bem. É o oponente mais irritante e agressivo que já tive..."

"Um dia ainda arranco um olho seu!"

"Não, não vai. Renda-se!"

Laurent não respondeu e se manteve inerte, virando o rosto para o lado. Damen se curvou e lhe beijou a curva do pescoço próxima à orelha.

"Renda-se... Vamos encerrar por hoje."

Lauren moveu a sua cabeça, voltando o seu olhar azul para o akielon sobre ele. Sustentando o olhar de Damianos, ele pestanejou uma, duas vezes. Na terceira vez, ele fechou os olhos por um tempo maior e envolveu o corpo de Damen com as suas pernas.

O akielon pestanejou também, após mover os seus olhos brevemente para os lados, absorvendo a sensação de ter as suas virilhas encaixadas daquela forma.

"Tenho certeza de que você adora quando os nossos treinos finalizam dessa forma. Era assim que você fazia com Pietro?"

Laurent ainda tinha o olhar de Damen sustentado quando moveu suavemente a sua pélvis, arrancado um quase imperceptível gemido do akielon.

"Ainda vamos falar dele?"

"Naquela época, o que você faria?"

Damen observou o rosto pálido do rapaz e lhe tocou com a ponta do dedo os lábios úmidos e rosados.

"Eu arrancaria a roupa dele e o foderia o resto da manhã inteira aqui..."

Laurent engoliu em seco, passeando o seu olhar pelo rosto de Damianos até pousá-lo em sua boca.

"E se eu fosse ele? Como você faria comigo se eu ainda estivesse combativo?"

Damen franziu de um modo muito discreto o seu cenho. Aquela era uma pergunta que só podia ser feita por um veretiano. Ela atordoava e era labiríntica.

Os olhos escuros de Damianos inspecionaram também o rosto de Laurent, entrelaçando os seus dedos conforme a sua mão escapulia dos pulsos do veretiano.

"Eu o imobilizaria com a luta livre até que você pedisse que eu te fodesse..."

Houve um momento de hesitação de Laurent como se ele experimentasse a situação em seu próprio corpo. Como se imaginasse Damianos com um outro homem, anos atrás, mais jovem, mais afoito, tomado o seu amante guerreiro com aquela qualidade combativa da luta. Depois, imaginou o Damianos de hoje sendo agressivo em suas investidas e desaguando sobre ele.

Laurent respirou fundo e moveu novamente o seu quadril.

"E depois...?"

"Eu ia castigá-lo por ser tão temperamental e irritante."

"Como ia me punir?" — gemeu Laurent, movendo o seu quadril e deslizando a mão pelas costas do akielon.

"Com uns bons tapas nas suas coxas pra parar de ser boca suja. Pra parar de me mandar me foder sempre quando estamos perto de encerrar a luta..."

"Damen..."

Laurent gemeu e sentiu a ereção do homem tocar a sua. Ele deixou que Damen puxasse as suas pernas mais para cima e movimentasse o seu corpo como se o penetrasse, tomado também pela lascívia de suas próprias palavras.

Damianos beijou Laurent com uma força indômita e o veretiano se sentiu apertar com mãos ansiosas, que desciam por seu corpo como se estivessem famintas.

"Você deve estar com muita vontade de meter, já que não fizemos isso muitas vezes desde que você voltou. Gostou da diversão que o proporcionei na noite passada?" — murmurou Laurent com a boca próxima de Damianos.

A qualidade do olhar do rei de Akielos se tornou mais sombria quando ele estocou com um movimento único, sendo impedido somente por suas roupas, de penetrar Laurent com força. Atormentou-o a reminiscência da última noite em que após ser chupado por Laurent, ele finalizara o ato em sua entrada, esporrando-o do lado de fora e só o tateando daquele modo cuidadoso quando a sua vontade era ir cada vez mais fundo, tomando-o como ansiava. Possuindo-o como imaginara tantas vezes naquele mês que passaram afastados.

"Sua putinha manipuladora..." — xingou Damen em akielon, tomado por uma vontade genuína de fazer o que confessara querer fazer com Laurent. Seria delicioso estocar nele enquanto descesse a mão em suas coxas.

Laurent deixou que uma respiração arfada se transformasse numa risada curta, um glissando sutil em sua voz, enquanto ele fitava o homem sobre si com um renovado interesse. Os dois se encararam por alguns segundos. Laurent fechou os olhos, movendo o seu corpo e sentindo a respiração, o peso quente de Damianos como parte de si mesmo.

"Eu sou..." — arfou ele.

"Mas é só minha..."

"Só sua, Damianos... Eu só abro as pernas pra você." — balbuciou Laurent com os olhos fechados, arfando e saboreando o formigamento em seu corpo quando o akielon mergulhou o rosto em seu pescoço nu, deslizando os seus lábios até a linha de seu pomo de adão.

"Abre as pernas pro seu escravo então, Alteza..."— murmurou Damen, tocando lentamente os joelhos do rapaz e os afastando completamente no chão.

O veretiano gemeu com desespero e envolveu o akielon com braços ansiosos, estando muito febril e excitado. Ele chamou o nome do amante uma, duas vezes.

"Damen, me fode! Por favor, me fode..."

Por um momento, Laurent se deixou ser beijado e manipulado com lascívia por Damianos e os seus murmúrios se tornavam mais agudos enquanto ele deslizava as suas pernas revestidas em botas envernizadas pelos flancos do homem que se movimentava sobre si.

Os dois pareciam desesperados demais para se fundirem e, ao mesmo tempo, pareciam preguiçosos para tirarem as roupas que os separavam da entrega. Mas o akielon fez um movimento, puxando a blusa de Laurent e o rapaz sorriu com uma ansiedade nervosa, pressentindo que o amante, de fato, arrancaria a sua roupa quando a costura se abriu e um botão pulou no chão.

Até que houve um ruído na sala ao lado.

Os soldados haviam sido impedidos de entrarem no átrio e vigiavam a porta para que ninguém interrompesse os treinos com espada dos reis das nações-irmãs. Mas no aposento vizinho, eram armazenadas as lanças, espadas curtas e escudos de alguns guardas. Aparentemente, alguém entrara lá para trocar uma lança quebrada, atirando-a num canto e a substituindo por outra. Houve em seguida um barulho da porta se batendo e uma breve fala entre dois homens.

Damen se deteve, fitando Laurent e a qualidade do seu olhar mudou conforme ele sacudiu o rosto como se despertasse de um transe. Laurent não protestou quando parou de ser beijado e nem encurtou a distância entre eles, mas pareceu um pouco inquieto com o afastamento súbito.

O rei de Akielos passou os dedos por seus olhos, ruborizando ferozmente. Depois, ele beijou a fronte de Laurent, que recebeu o gesto com alguma confusão.

"Desculpa... Eu... Eu não devia falar assim com você."

"Eu não me importo..."

"Mas eu me importo. Vamos parar por aqui."

Laurent abriu a boca em um gesto contrariado. E, da mesma forma contrariada, a fechou.

Damen conhecia os processos de Laurent e não queria forçá-lo adiante do que era permitido. Além do mais, havia boatos que percorriam a boca dos veretianos que não viam com bons olhos a irmandade de Vere e de Akielos e, inevitavelmente, haviam chegado aos ouvidos de Damianos por seus espiões mensageiros que circulavam entre o povo.

"O akielon o corrompeu. Achei que ele fosse frígido. Todos veretianos devem engolir os akielons nojentos agora porque esse rei gosta de dar para um bárbaro assassino do sul. O rei Aleron e o príncipe Auguste teriam vergonha dele..."

Damen jurara a si mesmo que se descobrisse quem fomentava semelhantes comentários nos mercados veretianos, teria que lidar com o julgo de sua espada impiedosamente. Era injusto Laurent viver sob a égide tóxica daquele falatório que abusava dele novamente. Damen conseguia não se importar quando o atacavam, mas detestava quando o alvo era Laurent. De alguma forma, o rei de Akielos queria protegê-lo.

O rei de Vere, deitado de costas ainda sobre a serragem do pátio de treinamento, respeitou a alteração de Damen e finalizou a disputa com a sua arma secreta.

Puxando da algibeira de sua calça a adaga de arabescos, ele encostou a ponta do gume metálico no ombro de Damianos. O ombro sem a cicatriz proporcionada por Auguste.

"Eu não me rendo. Você se rende?"

Damen moveu os olhos em direção à faca, voltando-se para o olhar vívido de Laurent. Os dois ainda estavam duros e com as suas pernas entrelaçadas, mas agora havia uma faca encostando na pele brilhosa do akielon.

"Me rendo naturalmente. Você poderia cravar essa adaga em minha cabeça..."

"Ou no seu olho. Eu o avisei."

Damianos assentiu, levantando-se e esticando o braço para ajudar Laurent a se erguer também. Uma estranha timidez se fizera entre os dois homens porque o akielon julgava que fora desrespeitoso dizer o que ele dissera para Laurent e o veretiano, por sua vez, acreditava que Damen não gostava dele naquele estado mais depravado.

Com acanhamento, os dois se voltaram de costas. Laurent começou a desenrolar os punhos de sua camisa, abotoando-os nos pulsos e se sentindo desconfortável com as questões de sexo como não se sentia há um tempo. E Damen evitou o olhar do amante, vestindo a parte de cima da sua camisa que havia atirado num canto, após enxugar o seu corpo com uma toalha.

Laurent se voltou para trás quando começou a amarrar os fechos da sua jaqueta em um corpete justo e observou as costas marcadas de Damen serem cobertas com suas roupas, sem nenhuma palavra.

Reunindo alguma coragem, Laurent se postou ao lado de Damen, erguendo o seu braço em que os fios permaneciam desamarrados e pendurados.

"Não vai me ajudar?"

"Claro!"— respondeu Damen, voltando-se prontamente para o veretiano e se pondo a fazer nós e laços em sequência.

Ruborizando e evitando ainda o olhar de Damen, Laurent falou sobre o que não tinha a ver com a sua indumentária:

"Eu não tenho muita experiência. Tudo o que, de fato, vale a pena nesse setor aprendi com você..."

Damen o olhou brevemente, assentindo:

"Eu sei, Laurent. Eu que não devia passar dos limites..."

O veretiano franziu o cenho.

"Que limites?"

Damen respirou fundo, prosseguindo com o seu trabalho manual em sequência de fechar nós.

"Os limites que ficaram claros desde a primeira vez que fizemos amor em Ravenel."

Laurent puxou o braço em protesto.

"Como assim?! Você se limita quando está comigo?"

Damen baixou o seu olhar, retomando pacientemente o braço do outro homem.

"Não. Eu nunca fui tão eu mesmo com ninguém como eu sou com você. Mas você não é um escravo, um guerreiro sedento por combates, um prostituto ou uma foda de uma taverna. Você é o meu rei, Laurent. E eu o respeito..."

O veretiano ruborizou e baixou o seu olhar também, se sentindo um pouco confuso.

A comunicação entre os dois costumava ser fluida, mas, de alguma forma, ela parecia agora emperrada e tensa. O rei de Vere sabia quando Damen passara a ser ainda mais comedido com as suas carícias e palavras.

Fora após o Encontro dos Reis.

Laurent agradeceu quando Damen acabou de ajudá-lo e, após bater a serragem de sua roupa, disse em um murmúrio:

"Eu amo você, Damianos..."

"Eu também amo você, Laurent. Com toda a minha alma..."

Laurent sorriu quando Damen lhe beijou o dorso da mão e os dois deixaram o pátio de treinamento com os dedos entrelaçados. Damianos ainda o beijou na fronte, dizendo:

"Vamos para o palácio?"

Laurent assentiu e os dois seguiram, caminhando pelo espaço aberto, vendo os guardas veretianos, em sequência no caminho, prestarem respeito a eles com reverências bem coordenadas.

Quando os dois homens chegaram ao outro lado do átrio, ouviu-se uma comoção de vozes rasgando o silêncio do sol pálido da manhã. Vozes vaskianas e patranas se eriçavam, misturando-se e sobrepondo-se ao canto dos pássaros que vinha da floresta.

Um soldado que cumpria a sua função se adiantou a responder ao olhar inquisidor de Laurent.

"Os patranos e os vaskianos estão treinando juntos na área leste, Majestade. No espaço reservado aos visitantes..."

"Quem está lá?"

"O rei de Patras e a imperatriz de Vask. Também a consorte dela e alguns homens dos dois reinos."

O rei de Vere trocou um olhar tácito com Damianos ao declarar, puxando-o para o caminho oposto ao que levava ao palácio:

"Ótimo! Vamos visitá-los!"

O pátio da área leste era ao ar livre e dispunha também de bancos e troncos. Mas não havia armas disponíveis e os visitantes mesmos traziam o artefato bélico que usariam.

Havia no grupo uma camaradagem soldadesca em que guardas patranos e vaskisnos pareciam se conhecer e se dar bem, assim como os homens de Damen interagiam bem com os homens de Laurent.

Alguns soldados tomavam vinho com os cotovelos apoiados no ombro do outro. Eles vibravam empolgados e exultantes, mas foram se silenciando, aprumando-se e abrindo espaço conforme os reis de Vere e de Akielos adentravam a arquibancada do ringue improvisado.

Damen e Laurent entenderam os gritos eufóricos dos homens quando constataram quem estava a lutar.

No centro do pátio, Torgeir e Vishkar se movimentavam, brandindo respectivamente o machado e a tonfa. Os dois trajavam roupas frescas de treino e, a julgar pelas manchas escuras nelas e pela umidade de seus cabelos, os dois estavam lá há um tempo considerável.

Num canto do ringue, encontrava-se Pari de Skarva, parecendo nem um pouco exausta pela noite anterior. Ela vestia as suas roupas de guerreira dos clãs e sussurrava orientações no ouvido de sua esposa, rindo com os vaskianos e parecendo se divertir com eles ao entoar um bater de pés no chão.

Damen estudou os movimentos dos líderes das duas nações. Torgeir girava o cabo de seu machado pesado como se ele fosse uma baliza leve e parecendo não temer a ponta afiada de sua extremidade. Já Vishkar performava a rotação da tonfa com pegada na ponta, manuseando-a como se ela fosse uma extensão de seu próprio corpo.

Damen conhecia por alto as duas modalidades de luta, apesar de não ter familiaridade com o porte de machado ou de tonfa. Aparentemente, a arma empunhada por Torgeir possuía uma letalidade maior por poder, facilmente, ser enterrada na cara de um oponente. No entanto, a tonfa de metal, que era basicamente um cassetete fino com uma haste perpendicular, caso acertasse a têmpora de um inimigo com demasiada força, podia não apenas desacordá-lo, mas matá-lo.

Com um gesto respeitoso, um soldado patrano e uma das guardas de Vishkar cederam o banco em que estavam estatelados para Damen e Laurent se sentarem. Outro soldado se antecipou em enxugar um pedaço da madeira em que vinho havia sido derramado.

Como de costume, Damen se sentou com a sua coluna ereta e Laurent com as suas pernas cruzadas, acompanhando o movimento dos corpos do rei e da imperatriz.

Ao serem percebidos pelos dois e por Pari de Skarva, Damianos e Laurent receberam os cumprimentos característicos de cada nação, antes que Torgeir e Vishkar voltassem a se encarar e partissem um para cima do outro com armas em punho.

Era uma luta bonita de se ver. Torgeir manuseava o machado como se ele fosse um punhal, mas, na verdade, era uma arma pesada e rude. Ele o girava, zumbindo o ar e, às vezes, utilizava o cabo para se defender do ataque da imperatriz. Vishkar, por outro lado, empregava o bastão da tonfa para deferir golpes e, rapidamente, deslizava-o até o antebraço para se defender do contra-ataque de Torgeir.

Apreciando a arte militar como apreciavam, Damen e Laurent dedicaram a sua atenção ao treino, não chegando a participar dos gritos exaltados dos soldados, mas compartilhando de uma reação ou outra de movimentar as mãos, franzir o cenho ou cerrar os dentes quando o combate chegava num ponto mais crítico.

Laurent, com a sua postura elegante, tendo os dedos entrelaçados em torno da perna cruzada, falou em vaskiano com o soldado Gene, que estava sentado no chão.

"Por que eles estão lutando?"

O soldado de Skarva, parecendo um pouco desconfiado pelo rei de Vere lhe dirigir a palavra e, demonstrando ao mesmo tempo, um encantamento pelo pestanejar de olhos azuis, falou como se não fosse o mesmo homem que na noite anterior ameaçara Laurent.

"Vossa Majestade Imperial e o rei Torgeir sempre disputam quando se reencontram. É uma tradição deles desde que se enfrentaram nas fronteiras durante a guerra."

O olhar de Laurent se demorou em Torgeir usando o cabo do machado para acertar o estômago de Vishkar e a jogar para trás.

"Onde os dois atuaram mesmo?" — indagou Laurent com uma falsa inocência, rapidamente percebida por Damen, mas nunca sequer sonhada pelo soldado.

"Em Ver-Vassel. Nós permanecemos nas tendas e Patras, no forte. Por longos anos, as duas nações mediram força nessa fronteira. A imperatriz Vishkar se tornou a comandante da tropa quando Somalia foi para Ver-Tan. Eu tinha a idade dela na época e me lembro de tudo."

O soldado parecia empolgado em falar da guerra que o seu povo atravessara. Havia um brilho apaixonado em seu olhar.

Damen viu Vishkar bater com a tonfa no queixo de Torgeir, arrancando sangue dele e o fazendo praguejar.

"Ah, sim, Somalia... A prima de Betthany e mãe do imperador? E como Somalia de Ver-Tan morreu mesmo?" — indagou Laurent, fingindo interesse na luta ao deslizar o seu olhar para a dança combativa, mas voltando a sua atenção azulada novamente para o homem.

"Com o abatimento da tropa pelo envenenamento dos patranos em Ver-Tan..." — respondeu o soldado.

Laurent moveu o seu olhar rapidamente e Damen virou também a sua cabeça para o homem, sem a discrição em obter respostas performada por Laurent.

"Envenenamento em Ver-Tan...?"

O homem engoliu em seco, parecendo um pouco desconcertado. Parecia se justificar antes de qualquer coisa.

"Era a guerra, Majestade de Vere. Acusaram a comandante Somalia de envenenar o poço dos patranos e matar os soldados."

Um silêncio se instaurou entrecortado pelo bramir de homens que saudavam o movimento de Vishkar de segurar o pulso de Torgeir armado com o machado e torcê-lo, desarmando-o.

"O punho do leopardo!" — vibraram os vaskianos em euforia.

Gene, franzindo o rosto contra o vento forte que soprou, prosseguiu:

"Metade da tropa de Patras morreu tossindo sangue e bile na fronteira... Então, Patras, em vingança, mandou o seu exército e os mercenários em peso atacarem o exército vaskiano. Somalia foi abatida e a fronteira ruiu. Mas eu não..."

"Gene!" — interveio a voz dura de um soldado. Damen o reconheceu como Nabsib, o chefe da Guarda vaskiana, que vigiava o imperador — "Está no seu turno de verificar se a nossa comitiva precisa de algo. Vá e não importune os reis das nações-irmãs!"

O soldado chamado Gene, que estava sentado no chão em uma posição descansada e com uma garrafa bojuda diante de si, vendo Nabsib, rapidamente, colocou-se de pé e fez uma continência respeitosa, parecendo atarantado quando se afastou com passos apressados.

Laurent e Nabsib se fitaram por um segundo. O chefe da Guarda vaskiana parecia ter os olhos um pouco fundos e Damen percebeu algumas mordidas no seu pescoço nu. Ele se lembrou, então, que vira o homem bebendo com Aktis na noite passada, sentado na escadaria de pedra.

"Eu estava tendo uma boa conversa com o seu soldado. Você me atrapalhou..." — disparou Laurent, sem meandros para Nabsib em seu vaskiano fluente.

Nabsib fitou os reis das nações-irmãs, erguendo uma sobrancelha discretamente.

"Queiram me desculpar, mas temos deveres junto à nossa imperatriz. Gene era necessário. Mas se quer saber de algo, pode me perguntar, Majestade..."

Laurent moveu o rosto para a frente com uma expressão entediada e resoluta.

"Não, não quero falar com o senhor..."

Nabsib, medindo Laurent dos pés à cabeça, se manteve parado por um instante e Damen sabia que ele pensava que Laurent era um fedelho malcriado, a despeito de ser o monarca de uma nação. Depois, fazendo uma reverência, o homem se afastou e foi se sentar ao lado de Pari de Skarva, com as pernas dobradas para a frente.

Damianos e Laurent não falariam sobre o que Gene lhes dissera diante dos soldados vaskianos e patranos e se mantiveram em silêncio, observando o combate.

A luta finalizou quando Vishkar aproveitou uma queda de Torgeir e pressionou o bastão da tonfa em seu pescoço, pedindo que ele se rendesse. O rei de Patras fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas quando Vishkar se distraiu, ele beliscou o anel metálico em seu umbigo, levando um forte tapa no ombro como resposta.

"Seu puto desgraçado!" — xingou a imperatriz enquanto o homem soltava uma risada espirituosa.

Os dois foram aplaudidos efusivamente por suas comitivas e Damen e Laurent, finalmente, se aproximaram deles. Os corpos do patrano e da vaskiana pareciam exauridos e ofegantes pelo treino árduo.

"Ora ora, fomos prestigiados por Akielos e Vere! A que devemos a honra?" — perguntou Torgeir, sendo ajudado a se vestir por um escravo de belos olhos escuros e cabelos castanhos até os ombros.

"Damianos e eu estávamos treinando em outro pátio e fomos atraídos pela comoção."

Vishkar era ajudada a vestir a túnica sobre a malha leve por Pari. Movendo o seu olhar bicolor e rápido em direção aos homens, ela disse:

"Não vi a Majestade de Vere e a Majestade de Akielos desde o espetáculo de ontem à noite, após o jantar..."

Laurent respondeu:

"Fomos para os aposentos reais lidar com outro espetáculo..."

Havia uma tensão no ar. Naturalmente, Laurent e Damen não perguntariam se os dois monarcas haviam derramado damiana no vinho.

"...Eu e Damen nos retiramos já que no Salão todos fodiam em público como se estivessem em seus quartos." — finalizou o veretiano, erguendo uma sobrancelha.

"Pelo visto, Vere não muda os seus hábitos." — disse Vishkar.

"Tampouco Vask..."— retrucou Laurent.

"O que quer dizer?"

Torgeir pigarreou, talvez um pouco sem jeito. Damen viu Laurent pestanejar com impessoalidade e replicar:

"A poligamia de Vask. Sempre vai me intrigar! Inclusive a sua."

Vishkar respondeu, passando o braço pela cintura de Pari.

"Eu tenho quatro cônjuges, duas filhas amadas, os leopardos, o exército e centenas de concubinos. Tenho um reino com milhares de pessoas que precisam ser alimentadas, cuidadas e lideradas diariamente. Seria injusto administrar também o prazer daqueles que amo."

Laurent, após alguns segundos pensativo, perguntou para Pari:

"A senhora tratou com dignidade o meu serviçal?"

"Pergunte a ele..." — disse ela, rindo — "Creio que Isander tenha gostado de estar comigo, mas se demorou bastante também nos braços de Nikandros."

Laurent pareceu apertar os lábios brevemente, antes de replicar com algo que Damen sabia que dialogava com a implicância que o veretiano tinha com o kyros de Ios:

"O que a senhora viu em Nikandros?"

Pari tocou o queixo, parecendo pensativa.

"Ele é um homem espontâneo e que não tenta dominar aquilo pelo que se atrai. Gosto disso. Os akielons são bons de cama, mas tenho que dizer que abati dois deles. Acordei cedo, mas Nikandros e Isander ainda estão dormindo e enroscados pelo que ouvi dizer..."

Damen passou a mão pelo pescoço um pouco sem jeito quando ouviu algumas risadas dos vaskianos. Laurent fitou a mulher de cima a baixo.

"A senhora parece realizada..."

De fato, Pari estava ainda mais bonita com uma luz diferente em seus olhos e em sua pele bronzeada pelo sol primaveril do treino. Ela disse, afastando-se enquanto apertava o elástico de seu rabo de cavalo:

"Creio que nós, vaskianas, sejamos eficientes. Gozei várias vezes e fiz os seus homens gozarem. O seu reino foi fertilizado, Majestade. Que os deuses abençoem Vere com muitas colheitas..."

Laurent se deteve, movendo os olhos com uma expressão gélida e indiferente.

"Creio que bênçãos foram o que não faltaram às minhas plantações. Todos foderam na minha corte ontem como se não houvesse um hoje..."

Torgeir, que acabava de se vestir, ajustando o cinto em sua cintura, replicou com secura, certificando-se que o seu escravo e os seus homens estavam longe, ao dizer:

"Se eu não confiasse nas nações-irmãs, eu diria que algum estimulante foi dado àquelas pessoas na festa de ontem e isso seria o suficiente para se iniciar uma averiguação..."

Os quatro líderes se entreolharam, circundados por uma tensão adiposa e Laurent retrucou, inclinando o rosto com algum desaforo.

"Iniciar uma averiguação..."

Torgeir ia dizer mais algo, mas foi interrompido por um alarido entre alguns homens que abriam caminho para que soldados irrompessem.

Do grupo de pessoas, surgiu o guarda vaskiano chamado Gene, próximo a um soldado patrano; Jord e Aktis. Aparentemente, os quatro estavam em ronda e traziam notícias. Seus rostos estavam tensos e sérios. Foi Jord quem falou:

"Depressa, Majestade! Na horta, atrás da cozinha!"

(cut)

Quando Damen e Laurent chegaram ao campo nos fundos do palácio, já havia guardas, escravos e alguns cortesões ao redor do corpo que se encontrava pendurado entre os pomares, depósitos e as hortaliças que despontavam frescas do chão.

Laurent levou, momentaneamente, a mão ao estômago, parecendo acometido por um choque terrível quando se deparou com o corpo.

Demorou alguns segundos para que Damianos o reconhecesse, apesar da imagem em algum lugar do seu cérebro estar ainda muito fresca. Torgeir, Vishkar e Pari, acompanhados de seus homens, fitaram com horror o cadáver pendurado por uma corda transpassada em uma viga.

O homem franzino estava com a cabeça arriada como se somente estivesse adormecido. Em sua tez, caíam fios de cabelo ondulados e castanhos. Ele trajava não as roupas suntuosas dos escravos de estimação, mas a indumentária simples do grupo que trabalhava na cozinha. O seu avental de juta ainda guardava resquícios de farinha branca e açúcar do momento em que ele fora ajudar Latifa a rechear os pães com uvas secas.

"Theodore!" — gritou o conselheiro Audin, levando a mão à boca quando surgiu do meio dos cortesões — "O que aconteceu?!"

Audin havia trocado as suas roupas de dormir e parecia genuinamente abalado, levando a mão ao coração. Latifa começou a chorar ruidosamente, esfregando as mãos no rosto e foi consolada por uma serva idosa da comitiva de Laurent.

"O que houve?!" — indagou Laurent, finalmente, para os seus homens. O seu rosto estava lívido e os seus lábios tremiam.

"Nós ouvimos alguns escravos gritando e viemos ver, Majestade. Quando chegamos, Theodore já estava enforcado na viga..."

Audin, que ainda estava inconsolável, bramiu:

"Ele é um dos escravos que serve ao Conselho! Theodore não faria isso!"

"Isolem a área e mandem todos saírem! Digam para Paschal que venha imediatamente. Chamem mais homens e mandem que o desçam da viga!" — ordenou Laurent a Jord e aos outros soldados veretianos que se concentravam no local.

Damen se voltou para Aktis, declarando:

"Aktis, reúna os meus homens e peça que ajudem os guardas de Laurent no que eles precisarem..."

"Sim, Exaltado!" — assentiu o akielon, disparando pelo portal de pedra.

Houve uma movimentação dos soldados veretianos para afastarem os presentes. Quando se retiraram, o rei Torgeir sacudiu o rosto, balbuciando uma oração na língua patrana. E Vishkar se virou para Laurent, como se fosse dizer algo, mas no fim, se silenciou.

Os homens foram eficientes em cumprir as ordens de Laurent. Damen percebeu o veretiano trêmulo ao seu lado, fitando o corpo do escravo chamado Theodore que estava pendurado ainda na viga.

Damen tocou o seu ombro, dizendo:

"Eu lamento, Laurent..."

"Eu o conheço desde que eu era criança. Ele serviu Auguste. Ele era... o escravo do meu irmão! Mais do que isso! Theodore foi o amante de Auguste..."

Damen foi pego de surpresa pela revelação e olhou novamente o homem que deveria ser apenas alguns anos mais velho do que ele. Pestanejando os seus olhos escuros, Damen apertou o ombro de Laurent com mais força.

"Sinto muito... Ele parecia ser o tipo de pessoa que...?"

"Não que eu soubesse..." — respondeu Laurent — "Ele vive aqui há muitos anos desde que veio com o irmão de Belloy... Ele gostava daqui e era bem tratado pelo conselheiro Audin. Theodore não era um escravo de prazer. Ele só cuidava dos afazeres diários..."

Laurent parecia ter a sombra de engrenagens se movendo silenciosamente em sua mente, fazendo com que meneasse levemente o seu rosto. A sua concentração se deteve, no entanto, em Jord, que permanecia parado próximo a um pomar, fitando-o.

"Jord, achei que houvesse lhe dado uma ordem!"

"Perdão, Majestade! Eu não queria falar na frente das nações visitantes..."

Laurent espreitou o outro veretiano com atenção e fez um movimento para que ele seguisse para um canto, junto com Damen.

"O que houve?"

"Prendemos o traficante de escravos que descobrimos que vinha para Arles."

Damen fitou a expressão dura de Laurent. A contração desagradável de sua mandíbula. O tráfico de escravos era uma questão rotineira que Vere e Akielos vinham enfrentando desde que os discursos de abolição e a proibição de ringues começaram a ser promovidos em Arles.

Com uma voz seca, o rei de Vere declarou:

"Ótimo. Vou querer interrogá-lo."

Jord se manteve com o seu olhar inquieto. Havia mais. Ele estava tenso.

"Majestade, um dos nossos batedores registrou também a movimentação de uma comitiva próximo às montanhas na floresta..."

Laurent moveu o seu rosto com surpresa.

"Saqueadores?!"

"Não, Majestade. É um grupo com carregamentos pesados. Suspeitamos de alguma transação ilegal. Solicito a sua permissão para enviarmos alguns homens para averiguar a comitiva."

Laurent moveu os seus olhos azuis como se uma luz de compreensão nervosa o alcançasse.

"Movimentações rumando para o sul com a comitiva de Patras e de Vask que se subdividiu... Movimentações ao norte de Arles... Estão cercando Vere?!"

A constatação de Laurent arrancou um olhar sobressaltado de Jord. Damen sentiu o seu estômago se revirar. Antes que alguém falasse, Laurent moveu a sua mão peremptória, dando outra ordem:

"Traga o batedor à sala de reunião imediatamente! E vigiem as nações visitantes! Quero ser informado de tudo!"

Jord partiu, acatando a ordem. Damen trocou um olhar tácito e nervoso com Laurent, antes de dizer:

"Vou reunir os meus homens e encontrar Nikandros e Makedon!"

Laurent tinha o seu olhar pálido deslizando ainda do cadáver de Theodore, que era removido, para o rosto preocupado de Damen.

"Damianos, Patras e Vask podem estar cercando Vere para planejarem um ataque!"

"Eles não vão conseguir invadir as fronteiras, Laurent! Elas estão bem defendidas."

"Eles não precisam disso! Eles já estão aqui!"