A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 8
CÃES
Personagens
VERE
OS MORTOS
THEODORE, escravo do séquito de Auguste e seu amante. Irmão mais velho de Tharname
THARNAME, um dos garotos do Regente. Presente em Ios na execução do Regente
VELAINE, filho de cortesões e amigo de Auguste. Presente em Ios na execução do Regente
*Capítulo com referências aos side stories The Adventures of Charls, the Veretian Cloth Merchant e Pet, de C. , infelizmente, não publicados no Brasil, mas traduzidos generosamente por fãs da trilogia no Wattpad e Scribd.
Dezoito anos atrás
Theodore depositou a bandeja com chá, leite, mel, queijos macios e pão branco sobre a mesa do Quarto Real. No centro do amplo e suntuoso aposento, encontravam-se brinquedos espalhados, alguns cata-ventos de bordas coloridas, um pião, um cavalinho de pau, um mapa amassado e um filhote de cachorro derrubando um forte montado com blocos de madeira. Um rapaz e um menino tentavam impedir a demolição provocada pelo pastor de beauce com pelo negro e patas e focinho caramelos.
"Vossa Alteza, o lanche!" — anunciou Theodore.
"Segure ele, Theo!" — gritou Auguste, entre risos, quando o cachorro, eufórico, tentou fugir.
Sem muito jeito, Theodore segurou o cachorrinho por sob as patas, impedindo que ele seguisse pela porta aberta. O pastor de beauce, imediatamente, começou a se contorcer e a tentar morder de modo maroto a mão do criado. Depois, entoou um latido fino e sonoro.
Laurent, com quatro anos, gritou, movendo as mãozinhas rechonchudas enquanto andava até Theodore. O criado entregou o filhote de cachorro ao príncipe, vendo o menino sorrir e sacudir uma haste de madeira com um penacho para o animalzinho apanhar. O pastor, imediatamente, colocou-se nas duas patas traseiras, latindo e pulando.
Auguste se ergueu, então, em seus calcanhares e se antecipou até a bandeja, partindo um pedaço de pão ao meio e o mordendo.
"Theo, onde estão os meus pais?"
"O rei está ainda na sala de reunião com o seu tio e com o Conselho, Alteza. A rainha está na biblioteca..." — respondeu o criado, enchendo uma taça com chá e a outra com leite— depois, hesitando, o rapaz continuou — "O conselheiro Herode disse que queria a sua presença no próximo encontro..."
Auguste respirou fundo, respondendo:
"Herode está querendo que eu participe mais das negociações e assuntos políticos. Meu tio diz que sou muito jovem para isso, mas meu pai me quer lá e diz que preciso lidar com tudo como se já fosse o rei. Tenho certeza de que o Conselho, assim que puder, estará me empurrando para alguma cortesã..."
Theodore misturou um pouco de mel na taça de leite, franzindo o cenho.
"Vossa Alteza só tem dezesseis anos. Vossa Majestade, a rainha, diz que acha o príncipe Auguste ainda muito criança para o matrimônio..."
Laurent soltou uma risada quando o cachorrinho alcançou o penacho da haste e começou a lhe dar vigorosas patadas. Auguste também soltou uma gargalhada.
"Eu não sou criança..."
Theodore ofereceu a xícara de chá a Auguste, que havia se sentado sobre o carpete, mastigando ainda o pão branco que partira ao meio. O rapaz de cabelos castanhos e ondulados indagou:
"Vossa Alteza não tem interesse em cortejar ninguém no reino?"
Auguste se deteve por alguns segundos e, após um tempo, depois de engolir o alimento, retrucou:
"Eu ainda não esqueci Velaine, Theo..."
Theodore, o serviçal, fez um gesto de assentimento. Segundo ele ouvira, Velaine havia sido o melhor amigo de Auguste e os dois eram vistos sempre juntos nas aulas de dança e nos estudos de línguas estrangeiras. Todos acreditavam que o príncipe o cortejaria quando os dois alcançassem a idade, mas tudo se perdera há três anos quando um soldado cometera um crime hediondo contra Velaine, levando-o à morte.
Um silêncio se fez pesado no quarto onde Theodore colocava o leite sobre uma mesinha menor de madeira. Auguste pigarreou e chamou o irmão:
"Laurent, venha comer..."
O menino, obedecendo ao irmão, deixou a haste com o penacho sobre a poltrona e correu para a mesinha.
"Não temos pães de batata, Theodore?" — indagou Auguste, mudando de assunto.
"Sinto muito, Alteza. Não temos conseguido encontrar batatas no mercado por conta da guerra de Vask e de Patras, mas tentaremos amanhã de novo..."
Laurent, que, com os seus olhos muito azuis, acompanhava a conversa do irmão mais velho com o criado, apoiou as mãozinhas na cabeça de Auguste, falando com a sua voz infantil:
"Auguste cabeça de batata..."
Auguste abriu a sua boca e a fechou em seguida, num gesto muito parecido com o do irmão quando ele fosse mais velho. Depois, soltou uma gargalhada, apontando para a sua própria cabeça em concordância.
"Auguste cabeça de batata... O que faz de você um batatinha, seu danado!"
Laurent gritou, rindo, quando o irmão o abraçou no chão, fazendo cócegas em sua barriga.
"Vossa Alteza gosta muito de brincar com o pequeno Laurent, não é mesmo?" — comentou Theodore, vendo a interação dos irmãos da realeza.
Apesar da diferença de idade, os dois príncipes se davam muito bem. Auguste mimava o irmão menor e, às vezes, o levava até a cozinha, buscando algum doce ou uma fatia de bolo antes do jantar. Laurent, por sua vez, parecia venerar Auguste, andando sempre atrás dele e fazendo questão de mostrar para o irmão mais velho qualquer brinquedo novo que ganhasse.
Auguste, com o cabelo muito loiro um pouco despenteado pela brincadeira com Laurent, teve o pescoço envolvido pelo irmão que se pendurou em suas costas.
"Fui filho único por muito tempo e era um tédio, Theo. É bom ter um irmãozinho. Só espero que o Conselho não comece a querer prometer Laurent em casamento ou em cortejo, sendo ele tão criança ainda. Existem muitos espertalhões neste reino. Não vou querer um aventureiro idiota qualquer cortejando o meu irmão. E se for de um reino estrangeiro, precisa merecê-lo. Precisa ser o melhor partido. O melhor dos melhores."
Auguste conduziu Laurent até a sua mesinha e o menino, sentando-se na pequena cadeira, tomou um gole do leite com mel em sua taça. Depois, debruçando-se sobre o mapa aberto no chão, ele apontou o dedinho e falou sem um contexto específico.
"Akielos!"
Auguste engasgou com o chá, tossindo um pouco e batendo em seu próprio peito com a mão fechada. Depois, como se se explicasse para Theodore, disse:
"Ele está aprendendo o nome das nações e dos seus territórios..." — e, voltando-se para Laurent, acrescentou — "Akielos é uma nação inimiga, Laurent..."
Theodore mordeu os lábios, sufocando uma risada diante da inocência do príncipe mais jovem.
Auguste, voltando a morder outro pedaço de pão, refletiu em voz alta:
"Com que idade deve estar o filho de Theomedes de Akielos? Nove, dez? Deve ser um pirralho sem educação, mimado e insuportável..."
O pastor de beauce com pelo negro e patas e focinho caramelos se aproximou de Laurent e o menino, arrancando um pedaço do seu próprio pão, soltou-o no ar, sendo o alimento amparado pela bocarra escancarada do filhote de cachorro.
"O rei de Akielos tem outro filho, não é?" — indagou Theodore, dando continuidade à conversa.
Abaixando consideravelmente a sua voz para que Laurent não o ouvisse, Auguste murmurou por baixo da mão espalmada:
"Um bastardo..."
Theodore fez uma careta desagradável. Para os veretianos, a existência de filhos fora de um matrimônio legítimo e a própria palavra bastardo eram tabus sólidos e indigestos dentro de sua cultura. Auguste, fitando o serviçal que se mantinha parado, esperando que os príncipes terminassem de comer para levar a bandeja embora, indagou:
"Onde está Tharname, Theo? Não o tenho visto com você."
Sorrindo, o serviçal respondeu:
"Ele tem servido ao seu tio, Alteza..."
Auguste se deteve por um instante, após tomar um gole do seu chá. Franzindo um pouco o cenho, ele indagou:
"Ao meu tio?"
O criado assentiu, dizendo:
"Sim. Aparentemente, o seu tio não gostou do outro escravo e solicitou um mais jovem para lhe polir as fivelas, os botões e ilhós das roupas. Ele diz que os dedos pequenos de uma criança são mais habilidosos para deixar as suas coisas em ordem..."
Auguste, após um tempo pensativo, indagou:
"Com que idade está Tharname?"
"Com doze, Alteza. Três anos mais novo do que eu. Fico feliz que o meu irmão tenha se adequado bem à Arles."
Auguste sorriu, vendo Laurent mastigar o queijo.
"E você gosta daqui, Theo?"
O serviçal assentiu, sorrindo:
"Sim. Gosto muito de servir Vossa Alteza e ajudar com o pequeno príncipe Laurent..."
"Fico muito feliz também, Theo. Eu gosto bastante de conversar com você..."
Theodore ruborizou um pouco. Ele se sentia honrado por aqueles momentos em que o príncipe herdeiro de Vere conversava com ele.
Quando Theodore chegou à capital, o príncipe se mantinha muito tempo isolado e afastado dos jovens da sua idade. Depois, falando com outros criados, Theodore descobrira que Auguste se manteve muito tempo em um estado de melancolia pela morte prematura do jovem Velaine, interagindo com poucas pessoas fora os pais e o irmão. O luto do príncipe atravessava estações.
"Aprecio muito nossa interação também, Alteza..."
Auguste sorriu e fitou o jovem por um instante. Depois, desviou o olhar, mordendo uma fatia fina de queijo.
"E quanto a você, Theo? Está sendo cortejado por alguém? Algum nobre?"
O escravo desviou o seu olhar, ruborizando um pouco mais.
"Não, senhor. Vivo somente para servir Vossa Alteza."
O serviçal fez uma reverência cortês e viu Auguste fazer uma careta, após beber o chá.
"...Você podia paparicar mais o seu amo e trazer vinho quente ao invés de chá amargo, Theodore..."
Com um sorriso, o criado se justificou:
"A rainha Hennike disse que não quer que a Alteza e o rei tomem vinho antes do jantar e o chá é bom para o bom humor e boa disposição..."
"Você não sente falta do tempo em que você e Tharname trabalharam nas vinícolas de Belloy, Theo?"
"Às vezes, sim, Alteza. Mas os meus conhecimentos têm sido úteis nas adegas de Arles. Tenho ajudado no armazenamento de vinho e na sua conservação. E além do mais, a vida nos vinhedos era bastante dura. Depois que meu pai morreu e eu e Tharname ficamos sozinhos, foi difícil continuarmos por nossa própria conta. Fiquei muito grato quando o comerciante de escravos real nos apresentou a possibilidade de vir para Arles."
"Mesmo sob um contrato de escravo?"
"Sim, Alteza. Se não fosse por me tornar um escravo e vir servir em Arles, eu nunca teria conhecido Vossa Alteza e ainda estaria trabalhando por exaustivas horas nas vinícolas, sem conseguir cuidar direito de Tharname. Eu não quero deixar Arles e quero poder continuar servindo Vossa Alteza pelo tempo que me julgarem digno..."
Auguste, com um garfo, recolheu o queijo branco que Laurent havia deixado no canto do prato e o colocou diante dele de novo para que comesse. Depois, falou:
"Você é hábil nas adegas e na dança, Theo. Por favor, me ajude com aquele passo difícil que o meu professor de dança não para de dizer que não sei fazer direito..."
Theodore sorriu, falando:
"Ouvi dizer que o senhor Velaine era o melhor dançarino de toda Arles..."
Auguste se deteve com um olhar distante, cutucando um pedaço de pão em seu prato com o garfo.
"Ele era... E dizia sempre que eu deveria parar de pisar no pé dele quando dançávamos nos bailes da corte..."
O serviçal baixou o seu olhar. E Auguste sorriu quando viu Laurent mastigar a fatia de queijo que havia sido desprezada. Depois, o rapaz disse:
"...Podemos ensaiar a dança amanhã. Gosto de sua companhia, Theodore. E Laurent também gosta de você..."
Mastigando ainda, Laurent murmurou um confuso "Theodore cabeça de batata" com a sua voz infantil e a boca cheia. Os dois rapazes riram.
Auguste prosseguiu então:
"Havendo um casamento com uma cortesã ou não, você fará parte da minha comitiva, Theo." — declarou Auguste com uma voz resoluta, apontando o garfo para Theodore. Um rubor parecia tomar a pele muito pálida da bochecha do príncipe.
"Será uma honra, Alteza..." — respondeu Theodore, não conseguindo sustentar o olhar muito azul de Auguste sobre si. Seu coração estava batendo acelerado e o traindo.
Após um arrastado minuto em que se ouvia somente os murmúrios de Laurent conversando com o cachorro e o ruído de metal raspando louça, os dois jovens, finalmente, se olharam com os seus rostos um tanto corados.
Antes que pudessem dizer qualquer coisa, no entanto, um barulho se fez na porta e a rainha Hennike adentrou o aposento com alguns livros pesados junto ao corpo.
Theodore se antecipou em fazer uma mesura deferente perante a rainha.
Fitando os dois filhos, o criado e o cachorro com a língua para fora e com as mãos espalmadas para a frente, Hennike perguntou com um sorriso generoso:
"Atrapalho a diversão?"
Laurent, levantando-se imediatamente, correu para a rainha Hennike, abraçando as suas pernas e sendo erguido em seu colo.
"O que os meninos da minha vida andam fazendo?"
Auguste, parecendo muito orgulhoso de si mesmo, falou:
"Laurent já sabe os nomes das nações e das capitais, mamãe!"
Hennike, beijando a fronte do filho menor, falou:
"Tenho certeza que sim. Meu príncipe é tão inteligente... Mas se depender de seu irmão, Laurent, Auguste vai querer lhe ensinar tudo antes que os próprios professores lhe ensinem..." — e, depois, voltando-se para o filho mais velho, ela falou — "Achei que o seu pai e Herode haviam dito que queriam que você participasse da reunião de hoje..."
Auguste fitou a mãe com Laurent no colo. O menino levara o dedo à boca e tinha a mãozinha apoiada no seio de Hennike.
"Bom, eu vou na próxima vez, mãe. O meu tio diz que sou muito novo para as reuniões de Estado e que ainda não compreendo bem as questões de comércio..."
O olhar de Hennike, que sorria até então, se resfriou um pouco. No canto de sua boca, uma linha desagradável se desenhou.
"Ah, ele pensa isso? Interessante... Bom, quero que você participe da próxima reunião de qualquer forma, Auguste..."
O rapaz, diante da expressão austera da mãe, justificou-se:
"Mas o meu tio tem boas ideias, mãe... Melhores do que as minhas."
"O seu tio não é o príncipe herdeiro e nem o rei, Auguste!" — retrucou Hennike com um tom de voz muito áspero e cortante.
Uma tensão se fez no ambiente. Theodore permaneceu com o rosto abaixado e Laurent alternava o seu olhar azul da mãe para o irmão. Auguste, que estava com o corpo um pouco rígido, finalmente assentiu:
"Certo, mãe."
Hennike, após respirar fundo, levou Laurent, então, de volta à sua cadeira pequena, colocando o menino sentado à mesa. Depois, acariciou a cabeça do filho mais velho, depositando um beijo suave em sua fronte num gesto de paz.
"Sei que gosta de ser o irmão mais velho de Laurent, Auguste, mas quando não o estiver sendo, quero que participe mais dos assuntos do reino, entendeu?"
Auguste pestanejou, assentindo. Depois de um momento de silêncio em que o rapaz parecia considerar se perguntava algo ou não à mãe, finalmente, ele falou:
"A senhora não gosta do meu tio?"
Hennike, que levava a taça de leite até Laurent, incentivando-o a acabar de tomá-lo, fitou o filho mais velho, estudando-o por alguns segundos.
Theodore viu o canto da boca da rainha se contrair de um modo que seria replicável por Laurent quando ele se tornasse adulto. Com uma voz resoluta, que não abria margem para mais perguntas, ela declarou:
"Não gostar não é bem a palavra..."
E, antes que Auguste dissesse mais qualquer coisa, Hennike se voltou para o serviçal, pedindo-lhe:
"Theodore, pode trazer o meu chá? Vou fazer hoje a refeição aqui com os príncipes. Quero ter uma conversa com Auguste também..."
"Como quiser, Vossa Majestade..." — respondeu Theodore com deferência e se adiantando até a porta dupla com arabescos dourados.
E o serviçal deixou os aposentos reais, vendo Auguste estudar ainda a expressão de sua mãe, tentando alcançar o seu mundo codificado, silencioso e circundado por intuições.
Hennike era de Kempt e uma das características que pesara ao seu favor no apoio do Conselho de Vere quando Aleron a escolhera como cônjuge fora justamente a sua inteligência, que arrancava não poucos elogios de seus mestres apenas, mas dos próprios conselheiros.
"É mais importante uma rainha inteligente para um reino do que uma rainha bela. É mais importante uma rainha generosa do que uma rainha com a mente aguda. Com lady Hennike, teremos as três virtudes. Ela é a melhor mulher para Aleron." — havia declarado Herode no discurso de noivado do rei e da futura rainha.
Sendo a única menina de nove irmãos, Hennike estava acostumada a se posicionar entre os homens e era hábil em reconhecer as suas intenções, os seus comportamentos, os seus meandros para alcançarem o que queriam. Ela era hábil com as palavras e sabia ouvi-las com profundidade. Todos em Arles amavam Hennike. Todo o Conselho apoiara a escolha de Aleron. Todos acharam que ela seria a melhor rainha para Vere.
Todos, exceto pelo irmão do rei.
O irmão do rei nunca suportara Hennike, apesar de jamais o ter declarado abertamente.
Ele a detestava como detestava a maioria das mulheres, mas mais ainda por ela ser tudo o que ele queria que uma mulher não fosse: fina, respeitada e inteligente. A rainha que discutia política com o rei e o Conselho em pé de igualdade.
Theodore, rumando para a cozinha, moveu-se pelos corredores labirínticos da ala real, nos quais pouco a pouco aprendia a se locomover. O rapaz se deteve em uma passagem, no entanto, ao atravessar o caminho que levava aos aposentos do irmão do rei.
Por um segundo breve, Theodore viu um menino deslizar para dentro de um quarto, usando roupas coloridas de dança, joias que tilintavam e maquiagem dourada excessiva nas partes nuas do corpo mirrado.
Foi só um vislumbre e, quando tentou ver o rosto do visitante, ele já havia escorregado para dentro do quarto, desaparecendo na penumbra copiosa.
Theodore se manteve olhando para a porta fechada, mas se afastou quando viu os membros do Conselho e o irmão do rei adentrando o corredor. A reunião havia terminado.
Theodore foi embora, então, apressando-se em ir atender ao pedido da rainha. Ele não reconheceu o próprio irmão, Tharname, sigilosamente arrumado e enfeitado para receber o seu amo em seu quarto.
O Regente, que ainda não era regente, era o mestre de Tharname de Belloy. O menino de doze anos que conhecia os vinhedos e, futuramente, quando o Regente fosse executado, visitaria a ele como um fantasma sob o sol fulgurante de Ios.
Tharname observaria, então, a cabeça do seu antigo mestre ser devorada por moscas e vermes enquanto dançava com os meninos, por diversão, e não para agradar aquele homem que, depois, o largou à própria sorte.
Não para o seu antigo amo que lhe tocou desde a primeira semana que pisou em Arles. Não para ele.
O irmão do rei.
(cut)
Tempo presente
Na sala de reunião, a primeira pessoa com quem Laurent conversou foi o com o batedor que cavalgara das florestas do norte até Arles. Ele era um homem ágil de cabelos lisos e despenteados e olhar esperto. Fazendo uma deferência perante o rei veretiano e Damen, o homem foi direto ao assunto.
"Majestade, trata-se de duas grandes carruagens cobertas e um grupo de dez homens que parecem atores de teatro e acrobatas. Nada mais do que eles e três carroças de boi. Não existem brasões ou bandeiras na comitiva, mas dificilmente eles podem estar planejando um ataque, dado o número reduzido da frota e a desordem dos viajantes..."
Laurent permaneceu um tempo em silêncio, movendo o seu olhar gélido. Depois, levou a mão ao queixo, espreitando o batedor.
"Teremos exibições artísticas em Arles, Belloy e Varenne?"
O homem assentiu, segurando o seu chapéu.
"Nossos mensageiros nos deixaram a par das comemorações de fim de inverno e início do plantio que acontecem todo o ano, Majestade. Vimos algumas comitivas circenses de várias regiões no caminho e é comum as estradas ficarem cheias nesse período. Pode ser que eles tenham usado as florestas como um atalho."
Quando o batedor foi dispensado, Laurent chamou alguns de seus guardas, pedindo que localizassem Jord. A ordem foi dada para haver inspeção de cada carroça que entrasse em Vere e que as fronteiras fossem reforçadas.
Damen permaneceu um tempo pensativo. Depois, falou:
"Três carroças, duas carruagens e dez homens. Ainda que haja pessoas escondidas nas carroças, invasores não passariam pela fronteira sem cavalos e espadas. Há milhares de homens bem armados na entrada de Arles e Varenne..."
Laurent analisou o mapa pregado na parede da sala de reunião. Sua atenção se deteve nas fronteiras de seu reino enquanto as analisava com as mãos para trás.
"Conseguimos tomar fortes com poucos homens, Damen. No entanto, de qualquer forma, não só Delfeur, mas Arran, Ravenel e Marlas estão sendo bem vigiadas. Só gostaria de saber, afinal, por que Patras e Vask estão rumando para o sul?"
Damen respirou fundo:
"Se Torgeir e Vishkar fossem inconsequentes o suficiente para nos atacarem daqui de dentro, após cercaram Vere, por mais que os seus soldados estivessem bem-preparados, eles estariam se arriscando muito, estando presos aqui..."
"Sim, Varenne e Barbin viriam com toda a sua cavalaria em nossa defesa em cinco ou seis dias. Temos os soldados e o armamento de Akielos e de Vere e eles estariam imprensados em um território que não conhecem tão bem. Mas por que seguem para o sul?"
"Enguerran descobriu algo mais?"
"Mandei um mensageiro para que ele cavalgasse dia e noite até os meus homens. Se não for descoberta as intenções da comitiva patrana e vaskiana, Enguerran e os outros abordarão a frota..."
Damen olhou para a mesa de carvalho, vendo o seu braço com o bracelete dourado apoiado.
"Acha mesmo que Torgeir e Vishkar querem uma guerra?"
Laurent se voltou com uma suave contração entre as suas sobrancelhas.
"Eu não sei, Damen. Mas não tínhamos uma armadilha de presentes; droga sendo colocada no vinho ou escravos se enforcando antes deles chegarem..."
Damen se manteve calado e quando ergueu o seu olhar, deparou-se com as retinas circundadas de azul de Laurent sobre si. Havia uma mancha cinzenta nelas.
"Você parecia gostar de Theodore..."
O veretiano, sentado em sua cadeira de espaldar alto, deu de ombros, desviando o seu olhar para um ponto-cego.
"Auguste e Theodore cabeças de batata..."
Damianos baixou o seu olhar, sabendo que a tristeza em Laurent não fazia caminhos óbvios. O rapaz de cabelos loiros deu de ombros novamente, dizendo:
"... Era como eu chamava aqueles dois. Theodore serviu Auguste e eu estava muitas vezes por perto quando eles conversavam. Eles passaram a dormir juntos depois que Auguste se tornou um adulto e eu só percebi isso muito tempo depois. Theodore era um escravo do meu irmão e sempre foi o seu favorito..."
Damen moveu o seu rosto, refletindo. A informação lhe causou alguma surpresa. Para o akielon, a imagem que se tinha de Auguste era do príncipe herdeiro como o sol de Vere. Quando Damen lutou com ele em Marlas, Auguste estava com vinte e cinco anos e era um homem, indubitavelmente, belo. Talvez Damen o imaginasse muitas vezes com um séquito de escravos exuberantes e arranjos de casamento com mulheres irresistíveis de Chasteigne.
Theodore, no entanto, parecia ser um homem que crescera na cozinha com aparência simples e gestos honestos. Possuía um rosto bonito, mas não lembrava em nada os escravos de estimação encantadores que Damianos vira sendo exibidos em Arles como joias raras dentro de estojos de veludo. A escolha de Auguste era inusitada.
Como se percebesse a surpresa de Damen, Laurent disse:
"... Meu irmão ficou muito triste quando o seu melhor amigo, Velaine, morreu de modo prematuro e ele se isolou por algum tempo. O Conselho e os meus pais trouxeram exibições e espetáculos de toda a Vere para tentarem melhorar o estado de ânimo do meu irmão. Mas nada surtiu efeito. Até que Theodore chegou e eles começaram a conversar. Em pouco tempo, os dois se tornaram amigos. As pessoas sempre faziam a ideia de Auguste como alguém inacessível e que demandava muito. Mas ele era um rapaz simples que só queria ser percebido como o garoto que era por baixo do título. Obviamente, Auguste não poderia se casar com Theodore, mas protelou ao máximo a possibilidade de um matrimônio com uma cortesã. Ele o teria mantido em seu séquito, mesmo se se casasse por determinação do Conselho..."
Damen apoiou o queixo em sua mão, não verbalizando o pensamento ruidoso. Auguste teria mantido Theodore em seu séquito se não houvesse sido morto por sua espada.
"... Sempre acreditei que Theodore gostava do meu irmão de um modo sincero. Ele nunca tentou barganhar um contrato de escravo favorito com Auguste, mesmo quando ele o propôs. Theodore gostava de trabalhar na cozinha e o fazia com boa vontade. Não foi planejado ele se afeiçoar ao príncipe herdeiro e se tornar o seu amante."
Damianos refletiu sobre a solidão dos príncipes herdeiros que já sentira em alguns momentos específicos em sua própria pele quando era muito jovem. Às vezes, ele não sabia se a afeição dos outros garotos da corte akielon por si era verdadeira ou se era sustentada apenas pelo fato de ele ser o futuro rei de Akielos. Damen crescera sem a sua mãe e confiou muitas vezes na sua ligação com o meio-irmão como um ponto seguro e inabalável. Mas Kastor era falso.
"O que aconteceu depois com Theodore?" — indagou Damen, não conseguindo dizer "...depois que Auguste morreu".
Laurent deu de ombros, tentando fingir naturalidade perante a dor.
"Eu tentei reunir os escravos da realeza ao meu redor, mas meu tio só deixou permanecerem aqueles que já me serviam. Todos do séquito dos meus pais e do meu irmão foram distribuídos entre os conselheiros e alguns cortesões. Theodore foi designado para atender Audin. Não foi tão ruim assim."
Damen se recordou de Laurent na cozinha, falando com familiaridade com Latifa e Theodore.
"Sinto muito pelo que aconteceu, Laurent..."
O rei de Vere respirou fundo e se manteve com a coluna ereta. Depois de alguns segundos, no entanto, ele arriou os ombros, parecendo aborrecido e abatido.
"No fim das contas, eu não pude proteger ninguém. Nem mesmo os cachorros que Auguste e meus pais adoravam. O Regente não gostava de animais e me disseram, na época, que os cães seriam doados para uma cortesã. Eu descobri só depois que os cachorros foram sacrificados nos fundos do palácio por um mercenário chamado Odilon. O Regente não poderia deixar viver algo tão belo e amado pelo rei Aleron. Nem mesmo os cães da realeza. Auguste estaria desapontado comigo se visse que só fiquei sentado, observando tudo acontecer..."
Damen retorquiu, levantando-se e abraçando Laurent. O veretiano permaneceu um pouco surpreso quando teve a sua cabeça envolvida, puxada para o peito do akielon.
"Você não ficou sentado, vendo tudo acontecer, Laurent. Kastor assassinou o meu pai diante dos meus olhos e eu só soube quando era tarde demais. Às vezes, a realidade é horrível demais e só conseguimos percebê-la depois. O importante é não se manter impassível quando se tem a oportunidade de lutar contra ela... Além do mais, você era só um menino..."
Laurent observou Damianos se sentar ao seu lado e pestanejou os seus cílios muito claros.
"Mas, Damianos, hoje eu sou um homem adulto e não vi Theodore querendo se amarrar numa viga para se matar quando o encontrei mais cedo. O que está acontecendo em Arles?"
Os dois homens se voltaram, nesse instante, quando ouviram batidas na porta. Eram o médico Paschal e Audin, mestre de Theodore, vestido agora propriamente e usando o medalhão do Conselho.
Ambos veretianos tomaram os seus lugares nos assentos vazios.
Após utilizar alguns termos médicos, Paschal, tocando em sua testa, declarou:
"A morte do escravo Theodore apresenta, de fato, sinais de enforcamento. Existem sulcos em sua garganta e escoriações de veias nas bordas do sulco. Ele morreu há menos de três horas... Não existem outras marcas visíveis em seu corpo. A corda usada era uma corda de armazenamento dos sacos de farinha bem resistente e é possível que ele tenha pulado de uma das muretas..."
Audin estava com os seus olhos cinzentos injetados e fungou enquanto ouvia o laudo de Paschal. Usou também um lenço de seda para assoar o nariz.
Laurent permaneceu um considerável tempo quieto antes de, sem meandros, se dirigir ao conselheiro:
"O senhor estava dormindo com ele..."
O homem ergueu as suas sobrancelhas ruivas, parecendo um pouco sem jeito, antes de assentir.
"Sim..."
"O que andou propondo de anormal ao seu escravo para que ele, subitamente, resolvesse se pendurar em uma viga e morrer?"
Audin pareceu desconcertado e ofendido.
"Não sou desses homens, Majestade! Todos os meus encontros com Theodore foram consensuais e eu o tratei com respeito. Ele se manteve muito tempo em luto por Auguste e fui o primeiro depois dele..."
Damianos e Laurent fitavam Audin enquanto Paschal baixou o rosto um pouco envergonhado pela intimidade da conversa. O rei de Vere estreitou o seu olhar que se resfriava novamente.
"Deve ter havido curiosidade, não? O que havia de especial no rapaz da cozinha que servia vinho e amassava pão para atrair a afeição do príncipe herdeiro de Vere...? O senhor não deve ter se contido em experimentá-lo para descobrir o que Auguste vira nele a ponto de rejeitar as alianças de casamento que queriam empurrá-lo goela abaixo, não é mesmo, conselheiro?"
Audin ruborizou ferozmente.
"Não, Majestade! Não foi assim! Theodore me servia e, quando não estava me atendendo, atuava na cozinha e no funcionamento do castelo como os outros escravos. Só dormimos juntos nos últimos anos. Muito tempo havia passado desde a morte de Auguste... Theodore era um homem atencioso, bem articulado e dócil. Era fácil se atrair por ele. E acho que ele estava tentando de algum modo esquecer Auguste. Seguir em frente... Sei que ele não me amava."
Laurent estudava o rosto do conselheiro com frieza, mas não parecia atribuir a ele uma responsabilidade real.
Damen, por outro lado, não gostava de Audin, mesmo que ele fosse um dos conselheiros que, algumas vezes, contestara as decisões do Regente, pelo que ele se lembrava. A imagem do homem oferecendo Nicaise para que o garoto fosse estuprado por ele no ringue sempre o atormentaria. Sempre o enojaria. O barrilzinho do peito de Nicaise subindo e descendo enquanto havia medo em seu rosto pálido.
"O que levou Theodore a se matar então?" — interrogou Laurent com impaciência.
Audin sacudiu o rosto.
"Eu não faço ideia! Theodore parecia bem. Um pouco ansioso com a libertação dos escravos e o fim dos contratos de Vere, pelo que pude perceber. Theodore não queria retornar para Belloy, depois que o irmão, Tharname, foi expulso de Arles e voltou para as vinícolas. Soube que aquele garoto se tornou um beberrão e se meteu em brigas até encontrar a punição na espada de um soldado. Mas eu garanti para Theodore que ele não teria que ir embora daqui. Ele poderia se tornar um serviçal."
Um silêncio se fez em que os três homens se entreolhavam. Paschal fitava os próprios joelhos, evitando contato visual.
"O senhor dormiu com Sorem de Ver-Tan. Percebi quando vi vocês dois juntos hoje de manhã. O seu escravo não poderia estar enciumado?" — declarou Damianos de um modo direto.
A informação pareceu pegar Laurent de surpresa. Audin olhou Damianos com algum rancor por ser exposto diante do rei.
"Os escravos lidam com essas questões de um modo diferente, apesar de não serem passivos e inertes como os escravos akielons, Exaltado! Theodore teria apoiado Auguste se ele se casasse com uma cortesã. Ele era feliz somente por ser cuidado e poder cuidar de um mestre..."
Laurent meneou o seu rosto.
"Nem sempre é assim com os escravos veretianos. Tenho certeza que Ancel arrancaria fora as bolas de qualquer escravo de estimação ou nobre que tentasse se aproximar de lorde Berenger. Mas o que mais me intriga nessa história toda é o fato do conselheiro Audin ter pulado na cama com um imperador de um reino que pode, neste exato momento, estar planejando uma guerra contra Vere..."
Audin tinha as bochechas muito vermelhas.
"Sorem é um homem que não tem o espírito combativo de Vask! Ele não puxou nada da mãe, Somalia, e me contou que, muitas vezes, servia de chacota na guerra. Vishkar e o antigo imperador, Ishmael, sim, eram as promessas de Skarva. Sorem, por outro lado, foi sempre um primo não combativo da imperatriz. Sim, eu dormi com ele! Ele parecia triste pelo desprezo da esposa e acabei o acolhendo em meu quarto. Eu o quis e ele aceitou as minhas investidas... E, não! Eu não acredito que Theodore se enforcaria por conta disso!"
Damen se manteve com o olhar fixo no homem e Audin sustentou o seu olhar por arrastados segundos, parecendo incomodado.
"Vossa Majestade de Akielos parece não confiar em mim!"
"Não, não confio. O senhor, há pouco mais de um ano, ofereceu Nicaise, um garoto, para que eu o estuprasse diante de várias pessoas porque o seu pau imundo precisava de um clímax. Agradeça ter Laurent do seu lado porque se dependesse de mim, conselheiro, o senhor teria a mesma sentença de Guion e do Regente..."
A aspereza das palavras de Damen foi tão atípica que Laurent se voltou para fitar o seu amante. O akielon, subitamente, recordou-se da sensação de ter uma corrente puxando a coleira e as algemas enquanto Audin lhe oferecia Nicaise parecendo aterrorizado e muito pequeno.
Audin fungou, contraindo o rosto demoradamente. Quando moveu os seus olhos, eles estavam úmidos e irritados.
"Certo, Exaltado! Me execute então! O senhor acha que o Regente não era pérfido com o Conselho também? Acha que ele não nos manipulava? Ele me mandou oferecer Nicaise porque, segundo ele, o garoto estava disposto a isso. Ele pediu que eu o levasse ao ringue e o oferecesse, caso não houvesse uma foda do escravo akielon. Se eu não aceitasse oferecer Nicaise, ele sugeriu que eu entregasse um dos meninos, filhos das escravas do meu séquito, que trabalham no estábulo. Ele nunca impunha. Ele falava e você sabia que não havia realmente uma escolha. Então, sim, eu ofereci o Nicaise, que pelo menos era um garoto prostituto e não uma criança virgem que foi criada longe da luxúria dos ringues. Eu fui vil e mereço o desprezo do rei de Akielos. Mas o rei de Vere teve misericórdia de mim e não me entregou ao mesmo destino de Guion, mesmo eu fazendo escolhas ruins e lutando só de modo discreto nas reuniões com o Regente. A penalidade por meus erros, eu entrego aos deuses no dia que chegar a minha hora. Mas se quiser antecipá-la, estou disposto..."
Laurent respirou fundo, após engolir em seco, falando entre dentes:
"Dispensados..."
Paschal se ergueu com a sua túnica clara de médico e fez uma reverência, antes de sair. Audin também se levantou com as suas roupas escuras e elegantes. Damen ainda o fitava de um modo implacável como um leão espreitando o movimento na selva.
"Você está errado, conselheiro Audin. Sempre há uma escolha. Podia se recusar a fazer o que o Regente lhe mandou fazer..."
Audin fungou novamente, sacudindo a cabeça.
"E no que isso ajudaria alguém, Damianos de Akielos? Se não fosse eu, ele mandaria qualquer outra pessoa fazer. Se não fosse Nicaise, seria outro menino. Vocês, akielons, são muito ingênuos. Acredita mesmo que me colocar abertamente contra o Regente, que, conforme soubemos depois, foi responsável pela morte do próprio irmão, traria algum benefício para o reino? Há mais de cinquenta escravos que dependem de mim, meu jovem, e nem todo veretiano quer foder com eles indiscriminadamente sem se importar. O Regente mataria um por um se eu não desviasse dele. Eu sou um estudioso. Não um soldado. Não um rei. E foi para tentar lidar com impasses que a rainha Hennike apoiou a minha entrada no Conselho. Eu só não pensei, na época, que seria tão difícil."
Damen baixou o seu olhar quando Audin deixou a sala.
Laurent fitou o akielon por alguns segundos em silêncio, antes de chamar um soldado e lhe dar instruções:
"Mande um serviçal lavar o corpo de Theodore e vesti-lo com roupas suntuosas. Ele deve ser enterrado com honra e dignidade até o fim do dia de hoje nas sepulturas dos homens que serviram à realeza. Coloque flores-de-lis em sua guirlanda. Desfralde a bandeira de luto no Salão Principal."
O soldado assentiu, esperando o gesto de dispensa de Laurent, mas ele não veio. O veretiano prosseguiu:
"...Avise a Jord que eu e Damianos vamos interrogar o traficante de escravos na masmorra norte. Precisamos de uma escolta e Jord deve seguir para a masmorra sul. Diga para ele agir conforme o nosso protocolo..."
"Certo, Majestade!"
"É só isso!" — declarou, por fim, Laurent, erguendo dois dedos e dispensando o guarda.
(cut)
A masmorra ao norte de Arles ficava a uma distância considerável do palácio e Damianos e Laurent precisaram de cavalos para chegarem até ela. Alguns soldados akielons fizeram parte da escolta.
O prédio alto era vigiado por guardas uniformizados, que bateram continência perante os reis e os acompanharam até a escadaria de pedra lavrada que descia até o subsolo.
A prisão se apresentava fria, lúgubre e não dispunha de janelas ou claraboias pelas quais poderia entrar alguma fresta de luz. Havia uma umidade densa no ar, goteiras e os cômodos, não muito largos, eram sujos e malcheirosos, devido aos penicos dos prisioneiros.
Pallas chegou a levar a mão ao nariz, parecendo propenso a vomitar com o ar fétido do lugar.
Damen viu uma ratazana gorda serpentear a bota envernizada de Laurent e um bicho escuro rastejar para um buraco, numa das paredes de pedra de onde se desprendia correntes pesadas. A morte parecia mais aprazível do que alguns míseros dias naquele lugar.
Os prisioneiros condenados, num último ato de revanche; de revolta; de retaliação, assoviavam para Laurent, dizendo-lhe palavras de depravação e impropérios:
"Puta do rei de Akielos! Fodeu com o assassino do próprio irmão... Chupa a minha rola, sua vadia traidora!"
Lazar, aborrecendo-se com a gritaria, brandiu a lâmina da espada contra as grades de uma cela em que um homem corpulento se sacudia, simulando com o seu corpo a foda com o rei de Vere e tirando o pau para fora enquanto gritava. Por muito pouco, o soldado veretiano não cortou os dedos do prisioneiro, que xingou um palavrão, jogando-se para trás.
Laurent parecia imune às provocações, mantendo o seu olhar gélido indiferente e, ao mesmo tempo, preguiçoso. A arrogância aristocrática era a sua armadura, mas Damianos, sentindo a sua pulsação se alterar, sacou também a sua espada, mirando os prisioneiros de modo ameaçador.
Havia candeeiros no ergástulo, mas um guarda abria caminho com uma tocha empunhada diante de si. Ele se deteve perante uma cela em que um homem bem-vestido estava sentado no chão com uma expressão transtornada. Correntes pendiam de seu pescoço e de seus pulsos.
"A que devo a honra?" — perguntou ele em akielon, com um tom sarcástico.
Foi com uma desagradável surpresa que Damen e os seus soldados descobriram que o traficante de escravos que vinha para Arles não se tratava de um nobre veretiano, mas sim de um akielon, que dadas as roupas veretianas caras, o cabelo bem cortado e a aparência limpa, certamente, gozava de bom nascimento.
"*O kyros de Aegina e o filho dele, *Alexon, são grandes aliados das nações-irmãs desde uma aventura minha e de Damen que não vem ao caso. Foram eles que me informaram que um traficante de escravos misterioso havia embarcado em um navio em Thrace e tentaria entrar em Vere, escondido. Eu soube, então, que o senhor tentaria vir para Arles para encher os ringues clandestinos de uma variedade étnica de escravos. Como o senhor se sente preso em um lugar tão aprazível quanto o cargueiro em que amontoou aquele bando de homens, mulheres e crianças por meses?"
Damen franziu o seu cenho com raiva:
"Como pode traficar pessoas, passando por cima da lei imposta no ano passado? A pena em Akielos para isso é a morte!"
"Ele sofrerá em Vere a pena que o rei de Akielos achar adequada." — garantiu Laurent.
O homem moveu os seus olhos escuros, fitando os reis e os soldados. Com um engasgo aborrecido, ele disse, franzindo as sobrancelhas espessas:
"Certo! O que querem que eu faça? Que eu me ajoelhe e me arrependa por algo? Eu não me arrependo! Aqui para as nações-irmãs!" — redarguiu o homem, cuspindo no chão.
Pallas brandiu a sua espada, batendo com força nas grades.
"Ofenda os reis de novo, seu rato akielon imundo, e eu corto a sua língua!"
O prisioneiro riu-se com um ar desafiador.
"Vocês não vão poder fazer nada contra mim enquanto eu não der informações, não é mesmo?"
Laurent permanecia com a sua frieza habitual, estudando o rosto do homem.
"Errado. Eu preciso somente de sua língua no lugar certo. Quanto ao resto do corpo, posso separá-lo ou retalhá-lo enquanto teima em se fingir de corajoso..."
"E o que quer que eu diga? Eu peguei alguns escravos recém-libertos ou aqueles que deixaram o treinamento no meio por ordem do rei e eu os soquei num navio para fazerem em outro lugar aquilo que sabem fazer de melhor. Foder! Juntei no pacote alguns filhos de vaskianos e patranos que migraram para Akielos na época da guerra. Alguns já foram testados no navio..."
"As pessoas que trouxe no cargueiro não conseguem se manter em pé e todos estão desnutridos, doentes ou machucados de uma forma inconcebível. Duas crianças, uma mulher e um homem morreram..."
O akielon deu de ombros.
"Ossos do ofício..."
Damen avançou para as grades, projetando a sua própria espada contra a cela. Pela primeira vez, o traficante recuou, parecendo um pouco aturdido ao constatar a fúria do rei de sua nação. Engolindo em seco, ele disse:
"...Exaltado, acha que o rei Theomedes concordaria com essa aliança? Acha que ele apoiaria que o seu filho herdeiro fodesse com malditos veretianos? Acha que ele apoiaria a abolição em um reino que foi todo erguido com a mão de obra escrava?"
Pestanejando, Damen respondeu:
"Eu não sei o que o meu pai pensaria a respeito das minhas escolhas, mas tenho certeza de que ele abominaria um verme como você..."
"A sua brincadeira, Exaltado, com esse pirralho de Vere levou centenas de negociantes de escravos e treinadores de prazer, homens que viviam da escravidão, à falência. Do que quer que vivamos? Seu irmão Kastor teria pelo menos pensado em nós, mesmo sendo um bastardo!"
Laurent, com a sua expressão impassível, interveio:
"Kastor seria esmagado e engolido pelo meu tio. E ele não me pareceu o tipo que se doeria pelo senhor!"
"Pelo menos, ele não era um abolicionista e não alteraria drasticamente as leis de Akielos... Laurent gosta de bancar o atiçador, mas Vere nem é mesmo uma nação tão escravocrata! Os serviçais e os escravos de estimação gozam de contratos!"
Laurent fez um ruído desagradável com os lábios.
"Eufemismos! Uma garantia de que um bando de pessoas miseráveis e analfabetas continuem trabalhando muito por um valor irrisório e sejam dispensadas quando perderem a serventia. No fim, a maioria ganha somente um teto temporário. Não vejo diferença entre a escravidão se temos um chefe de escravos, se todos chamam essas pessoas de escravos e se não há muitas escolhas."
O prisioneiro akielon fitou o rei de Vere e se voltou para Damen:
"Essas ideias vão acabar com o nosso reino, Exaltado! Eu trabalhei a vida inteira com escravos, assim como o meu pai. Não domino outros campos comerciais. Sabe o quanto de dinheiro perdi no último ano?"
Laurent estreitou o seu olhar frio.
"Devemos sentir pena do senhor então? Achei que o maior empecilho na abolição fossem os homens que não podem viver sem que alguém lhes coloque uma uva na boca ou que não conseguem uma foda sem ser por meio de um contrato. O senhor já pensou em caçar outra coisa para fazer? Aprender algo novo. Trabalhar duro ao invés de usar pessoas para isso? Gosta da ideia de foder ou ser fodido em um ringue? Vá o senhor, então, lutar nele!"
O prisioneiro akielon olhou para Laurent com aquela expressão que muitos que ansiavam poder bater no veretiano ostentavam.
"Eu não estou falando com você! Eu estava falando com o rei de Akielos!"
"Mas ele está falando com você! Responda com modos ao rei de Vere!" — interveio Damen.
"Damianos se tornou mesmo o cão de guarda desse veretiano aí! Prefere ele a alguém do seu povo...?"
"Prefiro! O senhor teve escolhas. Outras funções foram apresentadas aos antigos comerciantes de escravos por uma equipe treinada. Outras formas de comércio foram financiadas e estimuladas em Akielos. Há centenas de antigos comerciantes de escravos atuando agora como produtores e exportadores de metal, couro, olivas e frutas para Vere, Patras e Vask. Mas o senhor acha que amontoar pessoas num navio contra a vontade delas para que se prostituam clandestinamente numa terra estrangeira é a sua melhor opção. Vou permitir que Vere lhe aplique a pena máxima!"
"Podem fazer o que quiserem comigo! Não vou lhes dar nenhuma informação. É uma rede muito grande o comércio de escravos e tenho mulher e filhos para sustentar, que serão ameaçados se algo aqui der errado. Se eu ficar calado, eu morro. Se eu abrir o bico, no fim, morro de qualquer jeito, mas arrasto junto a minha família. Não precisa ser muito inteligente para fazer a conta."
Damen interveio:
"A sua sentença é imutável. Mas posso oferecer proteção à sua esposa e aos seus filhos."
O homem estudou o rosto do rei akielon por um tempo e redarguiu com deboche:
"O rei não conseguiu impedir que reuníssemos uns pobres coitados e os trouxesse para cá na calada da noite. Como vai impedir que a minha esposa e os meus filhos encontrem o mesmo destino? Desculpe, mas Akielos nos abandona à própria sorte."
Damen abriu a sua boca, mas foi Laurent quem falou:
"O responsável pela sua situação e de sua família é o senhor mesmo! O seu jogo mental de falsas culpas não surtirá efeito aqui. Mas devo lhe dizer que já fui torturado por um homem a mando do meu tio. O nome dele era Govart e as patadas e coices dele eram doloridos. A sua facada em meu ombro ainda repuxa até hoje, mas eu, particularmente, achei-o amador. No fim, eu quebrei uma cadeira na cabeça dele e ele morreu como o pobre diabo que era. Eu fiquei pensando durante muito tempo como ele poderia ter me feito titubear. Uma vez, o meu médico me disse que a testa e as pontas dos dedos são lugares que os homens sentem bastante dor e acho que são pontos interessantes para começarmos..." — a fala de Laurent era arrastada como se ele apenas refletisse em voz alta ou estivesse preguiçoso.
Lydos engoliu em seco, virando o rosto para fitar o rei de Vere.
"...Mas acho que podíamos prestar homenagem aos mortos e feridos e sobrecarregar os seus genitais como aqueles homens e mulheres no navio tiveram os seus invadidos e violentados. Que tal se o meu soldado enfiar a adaga dele no reto do senhor e girá-la? E se usarmos o bracelete de ouro de um escravo de estimação no pau do senhor e o sair puxando até Akielos de volta? Posso oferecê-lo para aquele amiguinho de cela também que estava fazendo gestos obscenos. Ele me quer, mas, no escuro e preso aqui por tanto tempo, ele não deve perceber a diferença. Desculpa, o senhor está ficando pálido? Quer que eu mande que busquem um copo d'água?"
A pálpebra sob o globo ocular do traficante akielon tremeu levemente. Ele falou entre dentes.
"Você é um rei doente!"
Laurent sorriu e Damen sentiu um arrepio percorrer a sua espinha.
"Ossos do ofício..."
Houve mais ameaças verbais de uma natureza tão mórbida que Pallas passou a mão pelo rosto. Lazar pestanejou, parecendo novamente ostentar uma ojeriza resignada. E, com a sua mente de serpente, Laurent fez com que o traficante akielon começasse a tremer, sem que fosse necessário encostar um dedo nele.
"Você só ladra, mas não morde! Não vai me colocar medo!" — arriscou o homem com a voz hesitante.
"Não me interrompa! Eu estava só tentando deixar o senhor disposto para o que está por vir. Pensei nesse instante em fazermos um ringue clandestino na própria Arles com os prisioneiros para entretenimento dos soldados. Tenho certeza de que o senhor mesmo poderá se alargar para o que está por vir... Quero vê-lo como se sai com aquele homem excitado ali." — e, estalando a boca em direção a outra cela do homem que simulara uma foda, Laurent acrescentou— "O pau dele é imenso. Parece uma tora de madeira empenada pela chuva. Como um homem nasce assim? Creio que seja até mesmo uma deformidade. O senhor está pálido! Tem certeza de que não quer que eu mande que lhe tragam um copo d'água? Ou uma garrafa talvez..."
Damen sabia que Laurent estava blefando. Laurent estava blefando, não estava? Havia uma tensão entre os soldados akielons que lidavam com o rei de Vere pela primeira vez e eram, agora, apresentados à sua sordidez e boca suja.
O traficante akielon respirou fundo e praguejou:
"Vai se foder, veretiano de merda!"
"Dispam-no! Vamos começar!"
O homem gritou quando um soldado veretiano girou a chave na fechadura da prisão e ele se encolheu em seu fundo, tentando lutar quando os homens despiram a sua jaqueta, arrebentando as costuras, os fios e os ilhoses. Damen mirou Laurent com nervosismo, com apreensão.
"O que está fazendo?" — murmurou o rei de Akielos.
"Espere..." — sussurrou Laurent com os braços cruzados e desviando o olhar também da cena.
O momento em que o homem gritava em plenos pulmões se prolongou até que ele levou um tapa do soldado para que se calasse. Ao invés de se silenciar, o prisioneiro berrou mais alto. Levou então um chute.
"Chega!" — declarou Damianos.
"Não! Ele observa isso ser feito com pessoas inocentes diariamente. Os soldados vão parar quando eu quiser que parem!"
"Não agimos assim em Akielos!"
Estreitando o seu olhar, Laurent retrucou:
"Lamento, mas estamos em Vere, nação-irmã!"
"LAURENT!" — gritou Damen com uma expressão irritada.
"Confie em mim!"
"Isso não está certo!"
Resoluto, Damen deu um passo adiante, pronto para intervir na situação que lhe embrulhava o estômago. Nesse instante, no entanto, em que o prisioneiro akielon tinha a sua blusa branca rasgada, ele gritou em pânico:
"Tirem a mão de mim! Eu falo!"
Laurent voltou os seus olhos preguiçosos, então, para o prisioneiro.
"Com os escravos, pode! Mas com o senhor, nem pensar, não é mesmo? Acha que alguém é feliz, sendo obrigado a foder contra a própria vontade? Se me fizer perder o meu tempo, vai ser arrastado para aquela cela..."
Então, com uma percepção desagradável, quando o rei de Vere se silenciou, ouviu-se alguns gemidos provenientes do calabouço em que o homem que simulara a foda com Laurent estava e que eram perceptíveis só agora que o akielon parara de gritar.
Aparentemente, o prisioneiro estava se masturbando, sem se importar com a presença dos soldados, e Damen constatou que não era impossível enlouquecer na masmorra de Arles. Lazar, incomodado com os sons, sacou a sua espada novamente e seguiu com passos firmes até a prisão.
"Cale-se, seu verme nojento! Quer que eu corte fora o seu pau?"
"Corte fora o pau do traficante akielon e jogue o homem aqui dentro! Ele não vai precisar dele comigo. Se não vai me dar a puta do rei, esse idiota serve para ser montado."
"Abra a boca para ofender o rei mais uma vez e enfio a minha espada em sua garganta!" — retorquiu Lazar, batendo com a lâmina nas grades de novo.
Ouviu-se, então, um engasgo irritado do prisioneiro, antes que ele começasse a gemer de novo, simulando a sua foda agora contra o colchão de palha no chão com truculência. A situação era constrangedora e agoniante. Principalmente para Damen que estava acostumado com as prisões em Akielos em que o voto de silêncio era imposto aos presidiários.
Laurent, por sua vez, parecia entediado com as suas pálpebras levemente baixas e se houvesse uma cadeira, possivelmente, ele teria se sentado nela com as pernas cruzadas e sorvido uma taça de água, a despeito da sujeira, violência e baixaria ao seu redor.
"Espera que eu implore para que comece a desembuchar? Ou quer que Lazar o empurre para aquele patife para ser montado até não conseguir mais nem mesmo rastejar? Confesso que essa ideia não me desagrada." — disse Laurent com a sua voz fria.
"Eu falo!" — berrou o homem com os olhos úmidos e aterrorizados.
Então, o traficante akielon falou...
Quando o homem terminou de vomitar a sua confissão, Laurent retrucou:
"É só isso? Se estiver me escondendo algo, eu vou trancá-lo eu mesmo num ringue com todos os meus soldados mais truculentos..."
"É só isso! É um esquema bem-organizado o tráfico de escravos. Não dizemos os nossos nomes e só sei que alguns mandachuvas são daqui de Arles e estarão na apresentação do ringue de hoje à noite."
Laurent fez um movimento de cabeça, que parecia assentimento ou enfado.
"Bem, creio que o seu conhecimento não seja o que eu esperava, mas deve servir para alguma coisa. Encerraremos por hoje. Passar bem..."
E era assim que Laurent encerrava os seus interrogatórios. Como se os prisioneiros fossem informantes abaixo da expectativa e da utilidade. Ironicamente, isso parecia irritá-los muito.
Quando Damen e Laurent deram a volta junto com Pallas, Lazar, Lydos e os outros soldados, o prisioneiro akielon chamou-lhes.
"Espere, Exaltado! Pode olhar pela minha família? Eles moram em Aegina. Tenho uma esposa, uma menina e um menino. Eles não têm mais ninguém. Por favor, intervenha por eles. Eles não têm culpa de nada..."
Damianos se deteve por alguns segundos e assentiu.
"Escreverei para *Heiron, kyros de Aegina, pedindo que lhes ofereça uma casa e algum trabalho em suas terras. Um mensageiro virá depois lhe pedir informações sobre eles."
Com um fio de voz, o homem declarou:
"Obrigado, Exaltado!"
Laurent, pestanejando os seus olhos muito azuis que se tornavam escuros como carvão na penumbra, disse:
"Despeça-se de sua família também e envie um recado pelo mensageiro. O senhor será executado em breve. Muito amor por sua esposa e por seus filhos e nenhuma compaixão por aquelas mulheres, homens e crianças que foram violados no navio não faz do senhor um homem com um coração. Mas sim um narcisista que só ama o que é seu. Adeus."
Quando os reis e os seus soldados atravessaram o caminho de volta do corredor, alguns presos que haviam escutado a conversa de Laurent com o traficante akielon na cela observaram o veretiano de um modo diferente. Não houve mais vaias, gritos, palavrões ou insultos. Somente o silêncio entrecortado pelo choramingar de ratazanas grávidas.
Todos olhavam o rei veretiano como se ele fosse uma maldição no invólucro de olhos azuis, cabelos loiros, pele sedosa e lábios rosados. Como se qualquer um que tentasse beijar Laurent pudesse cair morto no chão imediatamente ou ter uma espada atravessada em sua garganta por apenas cogitar fazer isso.
O prisioneiro que performara a sua foda com o rei de Vere contra as grades de sua cela chegou a recuar quando Laurent lhe lançou um olhar gélido, mantendo o seu semblante pálido e mortiço.
"Você! Levem-no lá para cima! Acho que o senhor ainda não aprendeu a lição dada nas outras vezes. Chego a desconfiar que goste das surras e de ser montado pelos meus soldados em sequência! Vere lhe mostrará novamente quem é a puta de Arles!"
Damianos engoliu em seco, vendo os soldados de Laurent se aproximarem da porta da cadeia, girando a chave na fechadura e escancarando-a. O homem se debateu quando foi arrastado para fora da cela aos empurrões. Ele mancava de uma perna.
Um prisioneiro magricelo e com a dentição um pouco comprometida pela falta de cuidado retrucou com os braços apoiados nas grades:
"Esse rei daí é pior do que o Regente. Devia calar a sua boca, Riquelme! Acho que você já está doido da cabeça de tanto ser montado e de tanto apanhar!"
A comitiva subiu os degraus pétreos e lodosos. Pallas xingou um palavrão em akielon quando um rato passou próximo aos seus pés expostos, calçados em sandálias de tira de couro curtido.
O prisioneiro se debateu, xingando Laurent e a monarquia com virulência. Também cuspiu e tentou se livrar das mãos dos guardas. Até que a porta pesada da masmorra foi fechada ruidosamente atrás de todos.
Damen demorou para concatenar o fato de os soldados veretianos soltarem o prisioneiro corpulento e careca, quando haviam deixado a masmorra, e do homem dobrar os seus joelhos diante de Laurent com deferência. Com um veretiano bem articulado e calmo, Riquelme falou:
"Vossa Majestade, desculpe pelas palavras! Espero ter podido servi-lo bem hoje..."
"Você só repetiu o que aqueles prisioneiros gritam dia e noite, Riquelme. Verossimilhança é importante. Graças a você, conseguimos o que precisávamos..."
Damen estava com a boca aberta, assim como os seus soldados. Pallas parecia querer se beliscar, não acreditando no que via e tendo a espada ainda em sua mão. Riquelme, com um sorriso gentil, adiantou-se até Lazar, batendo em seu ombro de um modo camarada. O soldado veretiano tocou a mão do homem com um sorriso afável.
"Lazar entende de verossimilhança. Quase me arrancou os dedos fora, meu jovem..."
Passando a mão desajeitadamente por sua nuca, o soldado se desculpou:
"Tive uma noite intensa, amigo, e acho que me distraí. Perdoe-me. Não vai se repetir..."
Em síntese, Riquelme era um ex-escudeiro contratado por Laurent para que fizesse aquela cena diária de xingá-lo, receber uma represália e ser escoltado para fora da masmorra. Enquanto ofereciam para ele um copo d'água no andar de cima, os prisioneiros acreditavam que o homem estava sendo brutalizado das formas mais inomináveis por um séquito de guardas. O fato de ele ter atuado um tempo no teatro de rua veretiano era um ponto a seu favor. A sua truculência aparente fazia com que os outros prisioneiros acabassem confessando os seus crimes, temendo serem trancados numa sala com Riquelme. Mas o verdadeiro Riquelme sorria de modo manso e possuía gestos honestos. Até mesmo paternais.
"Como está a sua família?" — indagou Laurent, fazendo um gesto para que um soldado retirasse um saquinho de pano de dentro de uma gaveta do gabinete.
"Estão bem, Majestade! Minha menina tem gostado muito das aulas de leitura e escrita do palácio..."
"Ótimo!" — redarguiu Laurent, abrindo o saco, contando as moedas e as entregando ao homem — "Mande um olá para Georgina. Ela era uma das amas mais gentis da comitiva de minha mãe..."
"Certo! Muito obrigado, Majestade!" — respondeu Riquelme com deferência— "O senhor deseja que eu permaneça mais um tempo na cela?"
"Não há necessidade. Darlan está lá embaixo e poderá ajudar os soldados, caso haja necessidade de uma outra performance. Vá para casa ficar com a sua família..."
Quando se preparavam para montar em seus cavalos de volta para o palácio, Damen fitou Laurent com curiosidade. Os seus homens também olhavam de longe o veretiano com uma admiração velada.
"O que foi?"
"Nada. Você sempre me surpreende. Não sei por que isso ainda me surpreende..."
"E você ainda desconfia dos meus métodos. De alguma forma, a sua desconfiança me surpreende também, Damianos..."
Damen meneou o seu rosto.
"Precisei lidar durante muito tempo com a mente que você usa contra os seus adversários, Laurent. E eu havia esquecido como era estar em Arles!"
"Bem-vindo à adorável capital! Estamos bem longe da boa vida de Ios, não é mesmo?"
"A esposa de Riquelme serviu à sua mãe..."
"Sim! E Riquelme ao meu pai! Eles me servem agora que o Regente caiu e puderam voltar para Arles, depois de terem sido expulsos da capital como cachorros escorraçados. Meu tio pegou os melhores homens da Guarda Real para si, mas foi esperto o suficiente para afastar os que eram demasiadamente leais a Aleron. Bom, é mais fácil pagar alguém para assustar os outros do que perder o meu tempo e o tempo dos meus homens com sessões longas de tortura. Os prisioneiros recebem a sua pena em dias ou são transportados para a prisão em Marches. Eles não ficam tempo o suficiente para desmascararem os meus truques."
Damen ainda fitava Laurent.
"Você não mandaria estuprar aquele traficante ainda que o odeie..."
"Não. Eu ia deixar que o jogassem dentro da cela de Riquelme e se ele não desmaiasse de medo ou se borrasse, certamente, ia falar nesse momento... Acha que é só Akielos que cria novos serviços, Damen? Criei uma ocupação formidável em que homens ganham moedas de ouro fazendo o que muitos dariam a vida para fazer. O trabalho dos sonhos para os meus inimigos. Me xingar, colocar o pau para fora e gemer, entoando o meu nome. Eu costumo chamar Riquelme de 'ilusionista das masmorras'."
"O ilusionista é você, meu amor. Aquilo me embrulhou o estômago de verdade."
Laurent estudou o rosto de Damen.
"E isso também vai de encontro ao que esperava..."
"Você que vai de encontro e, ao mesmo tempo, ao encontro de tudo o que eu espero, Laurent. E é isso que me fascina em você..."
Um rubor subiu pelo rosto de Damen quando ele desviou o seu olhar, mas Laurent, sem se importar, puxou o rosto do akielon de volta e lhe depositou um beijo rápido nos lábios, colocando-se na ponta dos pés. A cena foi de uma doçura profunda e, por um momento, os dois reis eram somente dois homens enamorados.
Os soldados veretianos e akielons que observavam a cena deram um riso discreto ou desviaram o seu olhar ao verem os dois monarcas se beijando. Todos, naturalmente, sabiam do envolvimento de Damianos de Akielos e de Laurent de Vere, mas os dois reis eram reservados com a sua intimidade.
Damen teve o seu inconfundível sorriso tácito sendo trocado com Laurent enquanto ele olhava ao redor, sem se importar, de fato, se eram observados ou não.
"O que vamos fazer agora?" — perguntou Damen depois.
Laurent montou em seu cavalo encilhado, deslizando a mão docemente pela crina do animal num gesto de carinho.
"Acha que Nikandros, Ancel e lorde Berenger já acordaram depois da foda memorável de ontem? Vamos precisar conversar sobre os ringues!"
(cut)
Havia uma excitação soldadesca entre os guardas akielons potencializada por estarem servindo ao seu jovem rei em uma viagem ao estrangeiro. Muitos daqueles soldados nunca haviam saído de Akielos e observavam a todos os costumes da corte de Vere com surpresa, desconfiança ou fascínio.
Uma das diferenças culturais mais marcantes se dava quando os akielons deixavam os banhos nus, abraçados, e eram parados nos corredores por soldados veretianos escandalizados que se antecipavam em cobri-los com qualquer tecido que tivessem às mãos.
Havia também os quítons que faziam os veretianos virarem a cabeça quando observavam um soldado akielon mais atraente passando pelos corredores. Muitos assoviavam, parecendo aturdidos e abobados quando uma coxa bronzeada ou as costas nuas se revelavam, a despeito do frio que ainda fazia na capital.
Havia também o tabu veretiano de homens e mulheres não poderem fornicar fora de um matrimônio. Quando a situação dos banhos se dera com três mulheres akielons que deixaram os salões, exibindo os seus corpos nus pelos claustros, os guardas veretianos, após permaneceram petrificados por meio minuto, puseram-se a gritar terrivelmente.
Quando os soldados de Akielos foram ver do que se tratava o alvoroço, os veretianos, temendo o tabu, pareciam que iam se atirar pela janela.
Makedon e Lydos tiveram uma crise de riso tão grande na ocasião que os seus olhos chegaram a lacrimejar. Depois, quando eles tentaram contar a história para os outros, o comandante do exército do norte disse, levando a mão ao estômago, ofegando para concluir a sua narrativa:
"A porra desses veretianos ainda me mata. Eles devem ter pesadelos terríveis à noite com bocetas querendo engoli-los."
Em outra ocasião, quando um soldado akielon piscou para uma cortesã veretiana, deixando a mulher ruborizada e atônita, recebeu uma dura de Aktis que disse:
"O rei disse para nenhum homem seu se assanhar para o lado das veretianas, podendo receber uma punição grave! Elas são proibidas!"
O guarda akielon passou a mão pelo rosto, vendo um cortesão de cabelos castanhos e olhos cor de mel lhe sorrir enquanto se sentava em um banco do caramanchão.
"Não me diga que os homens nos são proibidos também, Aktis..."
"Com moderação, pode interagir com eles..."
"Graças aos deuses! Nunca vi tanta gente bonita quanto esses benditos veretianos!" — declarou o soldado, esfregando as mãos e partindo imediatamente em direção ao nobre no caramanchão.
A foda em público, sem dúvida, era algo também muito distante do que os akielons conheciam e, apesar de todos terem usufruído dela devido ao vinho com a erva damiana distribuído no Grande Salão, algum escárnio recaiu principalmente sobre o kyros de Ios.
Nikandros havia executado demasiadamente bem a sua função e os homens de Akielos assoviavam para ele de um modo brincalhão. Alguns cortesões veretianos o fitavam com um rubor em suas bochechas, seduzidos pela performance que haviam presenciado.
Damen sabia que Nikandros estava prestes a entrar na sala de reunião, antes mesmo que ele o fizesse. Um soldado akielon gritou no corredor:
"Honrou o nosso nome com força, kyros de Ios!"
Um soldado veretiano, por outro lado, disse em um tom mais baixo, em algum lugar próximo à entrada da sala.
"Que pau formidável!"
Laurent mordeu os lábios, engolindo qualquer vislumbre de riso quando Nikandros adentrou a sala de reunião, parecendo esbaforido e com um rubor em suas faces. Damen se antecipou em pedir que um serviçal lhe oferecesse um copo d'água. Era a primeira vez que ele via Nikandros desde o jantar.
Lorde Berenger e Ancel já se encontravam no aposento, cada um sentado em uma cadeira de espaldar alto. O cortesão mantinha a sua postura, mas o escravo de estimação bocejava, parecendo afetado ainda pelos efeitos da noite anterior.
"Aí está ele! Você montou em um homem e numa mulher em público como se tivesse nascido para isso." — comentou Ancel, observando Nikandros massagear as suas têmporas.
"Por favor, já ouvi o suficiente desde que acordei. Não estou aqui para isso..." — respondeu Nikandros no seu veretiano bem articulado.
"No fim das contas, a foda entre homens e mulheres é sexy também. A minha parte favorita foi quando o kyros alternou entre estocar Pari de Skarva e Isander ao mesmo tempo..."
Nikandros se debruçou sobre a mesa, levando as mãos ao rosto.
"Ancel, meu anjo, se contenha..." — cutucou lorde Berenger o escravo de estimação, que ostentava uma expressão marota.
Laurent moveu os seus olhos azuis em direção ao kyros de Ios.
"Saí antes dessa parte. Ficou na dúvida de quem era melhor foder, Nikandros?"
O kyros ainda parecia envergonhado, mas ergueu o seu rosto ruborizado com uma determinação corajosa.
"Eu me excedi! Quando recordei dos acontecimentos hoje de manhã, mal acreditei no que aconteceu."
Damianos trocou um olhar tácito com Laurent. Fora Paschal a quem consultaram, eles mantinham a descoberta do uso da erva damiana sob sigilo enquanto investigavam ainda sobre ela e quem estaria por trás do ato de misturá-la ao vinho.
"Você está bem, Nikandros?" — indagou Damen.
"Sim, Exaltado! No fim, a imperatriz Vishkar foi bastante atenciosa e me conduziu bem sobre como satisfazer a sua consorte."
"Ela, além de se banhar com você e Isander, bebeu vinho também?" — perguntou Laurent diretamente.
Nikandros sacudiu o seu rosto.
"Não. Ela disse que não apreciava tanto o vinho de Vere, mas incentivou que eu e Isander bebêssemos..."
"Claro..." — declarou Laurent com uma expressão carrancuda e seca.
Depois, Laurent demorou o seu olhar quando ele viu o kyros de Ios observar por sobre o seu ombro no instante em que um serviçal adentrou a sala de reunião com uma bandeja com pão fresco de batata e chá com mel, juntando-se ao outro serviçal que lhes servia água.
"Dei folga a Isander pelos seus préstimos. Ele não vai vir hoje." — anunciou Laurent, parecendo adivinhar as intenções do kyros.
"Ah... Não estava esperando por ele..."
"O senhor devolveu o meu serviçal só ainda há pouco. Soube que dormiram juntos em seu quarto. Dê-lhe algum descanso..."
"Não é isso..." — adiantou-se Nikandros com chateação, mas tendo um rubor em seu rosto.
Uma batida se fez na porta, antes que Jord entrasse, fazendo uma deferência perante os reis.
"... Creio que estejamos completos. Podemos começar a reunião..." — determinou Laurent com a pose reclinada e requintada em sua cadeira de espaldar alto.
Laurent começou a narrar sobre o que se sucedera na prisão de Arles e sobre a apreensão do traficante de escravos akielon nos subúrbios de Marches. Surpreendendo Damen, Jord também trazia informações valiosas.
Aparentemente, entre os homens que viajavam com o traficante de escravos, encontrava-se um sócio akielon seu que se achava retido nas masmorras do sul e um nobre de Varenne que seria o anfitrião deles em Arles. Jord os havia interrogado com eficiência.
"Quando eles ouviram as ameaças que Abel gritava de dentro da sua cela, vomitaram toda a verdade. O ringue clandestino, de fato, conforme confessou o traficante da prisão norte, se encontra atrás dos mercados, na rua das margaridas, e há uma senha para se entrar. O nobre de Varenne a tinha." — informou Jord.
"Minhas suspeitas estavam corretas?" — indagou Laurent.
"Sim, Majestade! Tratava-se de lorde *Rouart!"
A informação atordoou visivelmente Ancel e lorde Berenger, que se entreolharam demoradamente. Laurent, por outro lado, não pareceu admirado.
"Aquele porco escravocrata sempre foi um adorador dos ringues mesmo. Quando ele me jurou lealdade em Marlas, parecia que havia engolido uma foice de tão rígido que estava. Era questão de tempo até ele tentar me apunhalar. Bom, lorde Berenger e Ancel sabem agora que não os trouxe aqui somente para serem entretidos com as investigações bem-sucedidas dos meus homens."
Lorde Berenger pigarreou com alguma tensão, antes que estática e silêncio preenchessem o ambiente. Assentindo como se se deparasse com uma lembrança distante e desagradável, o cortesão disse:
"Conheci Ancel na propriedade de lorde Rouart, em Sanpelier. Ele era o anfitrião do entretenimento da noite e gostava dos ringues performados em sua casa. Disputei com ele o lance por Ancel."
Com um assentimento despreocupado, Laurent disse:
"O senhor nunca gostou dos ringues..."
"Não, Majestade, sempre os odiei na verdade. Mas havia uma pressão para que os aristocratas comungassem dos prazeres promovidos pela corte e pela regência como sabe. O Regente desconfiava daqueles que não se entorpeciam em suas orgias. Havia desconfiança por eu ter os bens dos quais dispunha e nunca haver tomado um escravo de estimação. Antes disso, houve falatórios por eu não frequentar os ringues. Lorde Fontainelles foi acusado de manter um relacionamento com uma cortesã de onze anos de Toutaine e tê-la deixado morrer grávida somente por não querer participar desse circo de horrores e contestar o Regente. Era mentira. Lorde Fontainelles era um bom homem e nunca se envolveu com nenhuma criança ou teve um filho bastardo."
Laurent contraiu as sobrancelhas.
"Estou ciente. O meu tio nunca poderia perdoar Fontainelles por ser um apoiador de meu pai e ter sugerido a entrega da regência ao Conselho ao invés dele na Assembleia, após a morte de Aleron. As calúnias inventadas pelo meu tio são, no mínimo, irônicas. Me falem mais sobre Rouart..."
"Ele é um homem que se refestelava com notório prazer nas diversões que ele mesmo promovia e não aceitava perder. Precisei dar um grande lance por Ancel para que o dissuadisse de possuí-lo depois que Ancel cometeu uma afronta contra ele. Lorde Rouart era um grande frequentador dos ringues e bordéis. Também era um apoiador ferrenho do Regente..."
Laurent olhou para cima.
"Às vezes, eu me pergunto quanto de dinheiro foi desviado da Coroa para que o meu tio comprasse pessoas e recompensasse aqueles que o serviam bem. Rouart, em cinco anos, se tornou riquíssimo."
Ancel piscou. Ele tinha os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo alto ao estilo de Pari de Skarva e de seus lóbulos se despendiam pedras preciosas brilhantes circundadas por ouro. O rapaz falou então:
"Rouart possuía um séquito e desprezava Vossa Majestade. Entreouvi algumas palavras dele no jardim durante a ocasião em que visitei a sua casa. Ele dizia que o Regente tinha a audácia que faltava a Aleron e que o príncipe herdeiro era fraco. Ele gostava de escravos exóticos. Havia uma criatura irritante que era o seu escravo de estimação e que venci no ringue. Foi nele que eu montei e em quem gozei na cara aliás..."
Um cutucão preciso de lorde Berenger fez Ancel pular e dar um gritinho de protesto.
"Mas que inferno, Berenger! Estou só respondendo às perguntas do rei! Eu também humilhei Rouart no ringue e foi quase como ter um orgasmo múltiplo na cara daquele velho sem-vergonha, diga-se de passagem..."
"Ele vai sentir falta de sua humilhação quando descobrir a pena que o espera..." — retrucou Laurent.
Damen, após mirar o rei veretiano, deslizou o seu olhar pelos presentes na sala e indagou:
"O que tem em mente, Laurent? Está planejando uma inspeção no bordel? Espera que nossos homens invadam o lugar e prendam os envolvidos...?"
Laurent pareceu repassar as suas palavras, antes de declarar:
"Novamente, preciso relembrá-lo, Damianos, que os métodos akielons são diferentes dos métodos veretianos. Se agirmos dessa maneira aberta, os ratos que estão infiltrados aqui em Arles continuarão incólumes e continuaremos descobrindo uma pista ou outra. Temos a fonte e o canal de que precisamos. O traficante akielon disse que o mandante é alguém aqui de dentro e que quer nada mais nada menos do que me varrer do trono. Eu miro na cabeça e não nos pés. Quero prender e punir todos!"
Nikandros, que se mantinha calado até então, indagou:
"O que espera de nós?"
"Não é óbvio, meu caro kyros de Ios? Não precisamos de soldados arrombando a porta de um bordel e prendendo putos, mestres e escravos de estimação. Precisamos de informações e nomes. Temos aqui exatamente os dois akielons mais habilidosos com a espada que conheço e um nobre com o sotaque de Varenne..."
Nikandros parecia não acompanhar ainda o raciocínio de Laurent, ao contrário de Damen que ainda tinha vívida em sua memória a recordação de Laurent fugindo de uma cidade, trajando um vestido; invadindo o território inimigo com as roupas de seu adversário e sendo o primo de Charls algumas vezes. O rei de Akielos sabia aonde ele queria chegar e a sua suspeita se constatou.
"Quer que eu e Damianos nos disfarçamos como os traficantes de escravos e lorde Berenger como o anfitrião para entrarmos no prostíbulo? É muito arriscado... Isso é muito diferente do modo como nós, akielons, lidamos com esse tipo de coisa. Não sei se posso aceitar isso!"
Laurent girou os olhos nas órbitas.
"Você tem se mostrado mais teimoso do que Makedon há um ano atrás, Nikandros. Estamos tentando desmantelar um tráfico de escravos entre Akielos e Vere. Acreditou mesmo que não seria arriscado...? Os meus homens e os de Damen, se ele concordar em me seguir, estarão de prontidão nos mercados, preparados para invadirem se algo der errado..."
Jord assentiu, ratificando as palavras do rei. Lorde Berenger possuía um olhar atento à discussão.
"Eu posso ajudar no que precisar, Majestade. Vi o estado lamentável dos escravos transportados clandestinamente há três meses, quando pediu que eu os realojasse em Varenne. Aquilo é desumano. Contem comigo para o que precisarem." — declarou lorde Berenger enquanto o olhar vicejante de Ancel se demorava em seu rosto, parecendo em parte orgulhoso, em parte temeroso.
Damen disse:
"Estou familiarizado com os seus planos, Laurent. Poderei fazer isso enquanto você e os soldados permanecem nos mercados..."
Laurent hesitou por um segundo, dizendo:
"Acha mesmo que eu colocaria você e os outros na linha de frente enquanto eu me esconderia atrás dos meus homens? Eu irei com vocês, Damen..."
Nikandros fitou Laurent e perguntou:
"Não é perigoso eles desconfiarem de mais um nobre veretiano entre os visitantes? Além disso, você é o rei! Todos conhecem a sua cara! Seu rosto está cunhado nas moedas de Vere!"
Laurent pestanejou com o seu olhar preguiçoso e requintado.
"Você tem razão, mas creio que ninguém suspeitará de um escravo de estimação."
Damen moveu o seu rosto de modo tão abrupto que foi um milagre ele não torcer o pescoço.
"NÃO!"
"Já está decidido, Damianos! Você participará de uma reunião agendada com os mandachuvas dessa sociedade secreta. Lorde Berenger será o anfitrião e Nikandros, o seu sócio que precisará ser entretido. O que pode entreter mais esses patifes do que os prostitutos de Vere? Eu serei o escravo de estimação de Nikandros."
O kyros de Ios levou a mão à cabeça, parecendo desolado e sobrecarregado.
"Quando vai parar de me demandar coisas, Laurent?!"
"Não quero que me foda. Só que finja ter algum mínimo interesse em mim. Fingirei também que o desejo."
"Tenho somente interesse no modo como você maquina essas coisas. Utiliza o cálculo frio ou a criatividade exacerbada e doentia?"
"Os dois, naturalmente!"
Damen tinha uma expressão carrancuda ainda e um rubor em suas faces.
"Podemos discutir melhor essa parte do plano!"
"Não há discussão, Damianos! Eu não vou deixar que vocês sigam sozinhos. E temos que proteger lorde Berenger. Nós três poderemos agir se houver necessidade..."
Damen pestanejou com um pesar contrariado. Um silêncio se fez no recinto até que ele foi quebrado por Ancel.
Respirando fundo enquanto erguia a mão no ar, o rapaz falou:
"Há uma falha no plano, Majestade. O rei de Akielos e o kyros de Ios não estão familiarizados com os costumes boêmios veretianos. E a Vossa Majestade e Berenger sempre sentiram ojeriza pelos bordéis e ringues de Arles..." — hesitando perante o olhar seco de Laurent, Ancel prosseguiu — "... Vocês precisam de um prostituto de verdade para guiá-los."
A compreensão das palavras de Ancel vieram acompanhadas pelo protesto de lorde Berenger, que tomou rapidamente a mão do escravo de estimação.
"Você não vai! Eu não vou permitir, Ancel! É arriscado!"
Girando o seu rosto e o seu rabo de cavalo com fios vermelhos em brasas, Ancel vociferou com algum rancor:
"Eu vou ainda que não queira! Você se oferece para correr riscos sem me consultar e não quer que eu vá junto?! Você é tudo o que eu tenho, Berenger! Espera que eu fique jantando e tomando vinho no Grande Salão enquanto sei que você participa de uma operação militar perigosa? Você não sabe nem mesmo segurar uma espada para se defender! Creio que me saia melhor do que você, enfiando uma faca no ouvido de alguém. Me levem, Vossa Majestade! Se não me permitirem, juro que vou para o puteiro sozinho me oferecer como prostituto, apenas para estar lá com vocês hoje à noite!"
A determinação de Ancel atraiu a atenção de todos na sala. O rapaz respirava pesadamente com as narinas pequenas levemente dilatadas devido a sua pulsação alterada. Havia uma bravura indômita em sua postura que Damen admirou.
Laurent declarou, tendo o seu olhar suavizado:
"Não haverá necessidade disso. Vou precisar de sua lealdade e experiência, Ancel, para o que está por vir. Lorde Berenger, permita que ele nos acompanhe. Ele será útil. Juro pelo meu reino que se alguém tentar causar algum mal a ele, eu mesmo darei cabo dessa pessoa."
Quando a reunião foi encerrada, Damen também olhava Laurent com algum rancor enquanto mantinha os dedos entrelaçados sobre a mesa de carvalho. Ancel, antes de sair de braço dado com lorde Berenger, fez uma reverência para os reis e declarou com o olhar um tanto melancólico.
"Sinto muito por Theodore, Majestade. Soubemos mais cedo. Não o conheci profundamente, mas quando eu conversava com os outros escravos para tentar conseguir informações para Berenger sobre o Regente, ele era sempre gentil e nos servia leite e bolo. Ele me tratava bem e estava acima das disputas dos escravos por contratos. Parecia que ele só queria... deixar os outros felizes..."
Laurent assentiu, fungando:
"Certo. Obrigado."
Ancel pestanejou os seus cílios que Damen só reparava agora que eram ruivos também. Parecendo olhar para uma lembrança distante, o rapaz prosseguiu:
"...Ele dizia que Vossa Majestade estava ficando cada vez mais parecido com o seu irmão. Que ele o viu no Grande Salão se pondo contra o Regente e que era como ver o príncipe Auguste com vinte anos de novo..."
Laurent baixou o seu olhar, desviando o rosto e Damen teve a certeza de que aquela informação fugia a qualquer cálculo do rei. Ele havia sido pego de surpresa. As palavras de Theodore, amante de Auguste, mexeram com Laurent.
Aquele era um resquício ainda da família de Laurent da qual só restaram as pessoas que os amaram. Escravos que o Regente não executara porque os colocava abaixo dos cachorros. Homens e mulheres desacreditados e sorteados entre cortesões como mobílias em um galpão. Perdedores que o Regente não queria.
Laurent assentiu como se escapasse da mão ansiosa da tristeza e cruzou os braços se defendendo de si mesmo.
Antes de sair, Ancel ainda disse:
"... Seja lá quem causou um mal tão grande ao pobre Theodore, fazendo-o se pendurar em uma viga, faça ele pagar, Majestade..."
No silêncio em que se deu, Laurent assentiu quando se encontrava a sós com Damen:
"Eu farei..."
(cut)
Damen, definitivamente, não gostava muito das roupas veretianas. Ele sentia que os tecidos apertavam o seu tórax, ombros, bíceps e costas. Havia os laços que transpassavam ilhoses e com os quais ele era impaciente, apesar de ser cuidadoso quando vestia ou despia Laurent. Os cadarços faziam-no querer cortá-los com uma tesoura afiada quando se encontravam em seu corpo, roçando em sua pele.
A blusa de seda lhe pinicava o peito e as botas envernizadas eram uma tortura, assim como as calças justas. Damen sentia que havia um corpete de gesso ao redor do seu corpo e a sua vontade era esmigalhá-lo com uma espada.
O rei de Akielos se encontrava nos aposentos reais, após Laurent haver alimentado Afanas e usado um bastão com um penacho na ponta ao brincar demoradamente com o filhote de leopardo.
Um serviçal havia sido mandado até Torgeir e Vishkar, avisando que os reis das nações-irmãs estavam envolvidos com os procedimentos do enterro de Theodore e que não compareceriam ao jantar. Em resposta, Patras e Vask haviam mandado flores para o sepultamento do escravo veretiano.
Damen moveu o seu peito, estufando-o e o encolhendo com um desânimo que beirava o desespero. Estava frio, mas ele se sentia cozinhando dentro da indumentária veretiana. O akielon apoiou a mão na cornija da lareira com o seu olhar pousando sobre o boneco com roupas de príncipe com o qual Torgeir presenteara Laurent.
Após os soldados inspecionarem o objeto, nada de suspeito havia sido encontrado nele e, agora, o boneco adornava a lareira de Laurent, com os seus cabelos de linhas amarelas e palavras nobres escritas em etiquetas ao redor de seu corpinho de pano.
Damen se recordou, então, que havia ainda dois preciosos presentes para serem entregues a Laurent num momento mais oportuno. Um deles se encontrava ainda na estrada. Outro, em uma caixa pequena no interior do seu baú.
Um barulho se fez na porta do cômodo adjacente de banhos e Damianos se voltou para fitar Laurent, que retornava. O seu queixo se arriou imediatamente e um rubor violento subiu pelas suas faces, assim como um formigamento nas partes em que a roupa lhe apertava.
Laurent se recostou à porta com as mãos para trás enquanto o akielon lhe avaliava a indumentária. A pele leitosa do veretiano estava praticamente toda exposta. Havia a parte de cima de uma blusa de seda dourada e outro tecido com franja que lhe envolvia o quadril estreito. Mas a sua barriga estava um pouco exposta, assim como as pernas e os braços pálidos.
Havia uma grinalda de rubis em sua cabeça de madeixas loiras e brincos se desprendendo de seus lóbulos. Havia colares e pulseiras de serpentes ao redor de seus pulsos se emaranhando no bracelete das nações-irmãs. Laurent havia se maquiado e os seus olhos azuis estavam envoltos em um tom esfumaçado de dourado, assim como os seus lábios estavam tingidos de vermelho sangue. A sua beleza, em muitos aspectos, chegava a ser perturbadora.
Laurent estava vestido como uma meretriz. Ele poderia se passar facilmente como o rapaz prostituto mais caro de toda a Vere. Talvez mesmo das quatro nações. Damen ainda estava paralisado, fitando a imagem de seu amante, que não se parecia mais com o rei de Vere.
"Pela sua reação, creio que o disfarce cumpra ao propósito..."
Damen, sacudindo o rosto para emergir de seu devaneio, adiantou-se até a cama, pegando a capa de veludo negro que tinha sobre o colchão e colocando-a sobre os ombros de Laurent.
"Aqui. Não precisa circular entre os soldados assim..."
Laurent pestanejou, vendo Damen cobrir o seu corpo.
"Não gosta de mim assim?"
Damen contraiu um canto de sua boca.
"Só não quero que os soldados o olhem de outra forma..."
"Todos no prostíbulo vão me ver. Está com ciúmes?"
Damen, ruborizando, fechou o nó da capa de Laurent.
"Sabe que sim. Ainda não concordo com essa parte do plano..."
"Você daria um lance por mim se eu fosse um puto?"
O rei akielon ergueu o seu olhar para fitar as retinas preguiçosas de Laurent. Da sua pele fresca, emanava um perfume maravilhoso de lavanda fina.
"Eu o arremataria nem que fosse a última coisa que fizesse, Laurent. Você é o homem mais estonteante do mundo."
Com um sorriso enviesado e parecendo muito satisfeito consigo mesmo, Laurent deixou que Damen o cobrisse. Depois, ele deslizou os dedos pelos laços da jaqueta do akielon, desfazendo-os e amarrando-os novamente. Como se se explicasse, Damen disse:
"Estou desacostumado com as roupas veretianas, após usar quítons diariamente. Elas me limitam o movimento..."
"Pedi roupas do seu tamanho. Se parasse de se mexer dentro delas, poderia até dizer que você está belo também."
Damen deslizou o dedo pelo pingente de rubi da tiara de Laurent que pendia sobre a sua fronte.
"Pode me dizer isso de novo quando eu estiver de quíton ou sem ele..."
Os dois homens trocaram um olhar enquanto Laurent amarrava as roupas de Damen. Havia um sorriso travesso em seu rosto. Damen respondia ao sorriso com um carinho na cabeça do veretiano.
"Certo. Me lembrarei disso..." — declarou Laurent.
Damen pestanejou, após respirar fundo. Seu olhar alcançou alguma profundidade e ele ergueu com a ponta do dedo o queixo de Laurent.
"Prometa-me que se cuidará."
O veretiano sorriu, abrindo uma parte do tecido que lhe cobria a virilha, revelando numa bainha de couro discreta a sua adaga de arabescos.
"Prometo. Jure que se cuidará também..." — disse Laurent.
Damen assentiu, mostrando a espada curta em seu cinto. Quando Laurent terminou de fechar a jaqueta do amante, ele tamborilou os dedos no bracelete do rei de Akielos, produzindo um tilintar das suas unhas pintadas de vermelho contra o metal amarelo.
"Esconda-o. Cuide para que ninguém o perceba..."
"Certo..." — respondeu Damen, puxando a manga de sua blusa de babados e a jaqueta para que engolissem o bracelete, tirando-o de vista.
Os dois reis se encontrariam com Nikandros, lorde Berenger e Ancel nos fundos do palácio, após serem escoltados pelos soldados veretianos por caminhos reservados do castelo aos quais somente Laurent, como rei, possuía acesso.
Quando chegaram ao jardim dos fundos cercado por arbustos verdes, ciprestes e pinheiros podados em uma padronização geométrica, havia uma clareira e uma carruagem de rodas raiadas atrelada a dois vigorosos cavalos pretos da raça Trait Percheron.
O cavalariço deslizava a mão pela crina do animal, alisando o seu pelo enquanto os guardas seguravam próximos às esculturas alvas e fantasmagóricas, candeeiros a óleo.
No instante em que Damen se deparou com Nikandros, andando de um lado para o outro no saguão com piso pavimentado de pedra castelo, ele teve a certeza de que o kyros de Ios levava muito a sério a sua lealdade e seria, muito provavelmente, o seu amigo pela vida toda.
Ele também trajava roupas da nobreza veretiana e se a indumentária incomodava Damen, que estava um pouco mais acostumado com ela, para o kyros, elas pareciam uma punição severa. Nikandros se movimentava com alguma dificuldade dentro de camisa de seda, jaqueta e calças justas, parecendo mesmo sentir dor enquanto se coçava.
Trocando um olhar tácito com o rei de Akielos, Nikandros ergueu as sobrancelhas, levantando o braço de onde se dependuravam inúmeros fios desamarrados.
"Eu juro que quase deserdei vestindo essas roupas malditas! Para que serve essa laçarada infeliz? A minha serva akielon não sabia o que fazer com isso e por muito pouco não os cortei fora..."
Laurent fitou os fios da roupa com um olhar seco.
"Sendo um escravo de estimação, eu não acompanharia um mestre bruto que não soubesse se apresentar propriamente em um evento..." — e, gesticulando para um serviçal que estava prostrado ao lado da carruagem, Laurent pediu ao homem para que fechasse os nós da roupa do kyros.
Nikandros revirou os olhos.
"Não haveria verossimilhança se fôssemos usando quítons, já que não estamos fingindo ser outra coisa senão akielons? Não faz sentido essa tapeçaria revestindo um akielon!" — resmungou o kyros, esticando o veludo verde, as fivelas de granada e as pequenas fileiras franzidas costuradas com requinte.
Laurent sacudiu a cabeça.
"O traficante de escravos e o seu sócio eram dois alpinistas sociais que gostavam de ostentar os costumes de Vere. Trate de parecer feliz nas suas roupas. Aprume-se!"
Damen interveio com gentileza, quando Nikandros, fitando Laurent com irritação, inclinou a cabeça com um sorriso de raiva.
"Não são roupas confortáveis como as que estamos acostumados, Nikandros, mas descobri há algum tempo que respirar pelo diafragma conforme Haemon nos forçava a fazer nos treinos de espada ajuda um pouco a suportá-las."
Tentando animar o kyros a acompanhá-lo, Damianos levou uma mão ao abdômen e a outra, ao peito, inspirando e expirando o ar. Nikandros, parecendo familiarizado com a prática, replicou-a por alguns minutos.
Laurent fitava os dois homens com alguma curiosidade e, ao término do exercício, não só Nikandros, mas o próprio Damen parecia mais à vontade dentro da indumentária.
O momento foi seguido pela chegada de lorde Berenger, que trajava roupas suntuosas de um azul escuro quase preto e tinha o seu braço envolvido por Ancel. Se os akielons pareciam desconfortáveis em seu disfarce, Ancel parecia exuberante e completamente satisfeito com o seu vestuário.
Ele não havia tido o cuidado de se cobrir com uma capa igual a Laurent, apesar do frio de início de primavera que fazia.
As roupas de Ancel eram de seda da cor da pedra peridoto em um tom de verde vibrante. Sobre os ombros nus, ele trazia uma estola de pele castanha finíssima. Em seus cabelos soltos e ruivos, havia uma teia de esmeraldas que se repetia na gargantilha, braceletes e tornozeleiras. As suas coxas muito brancas estavam expostas e em seu rosto belo, a maquiagem era excessiva. Ele trazia um pequeno baú de madeira com madrepérolas como se fosse uma bolsa.
Os soldados veretianos e o cavalariço, com muito esforço, resistiram ao impulso de assoviarem para Ancel, que sorria, parecendo pleno enquanto acenava para as pessoas como uma celebridade.
Nikandros fitou o jovem e Damen quase pode ler os pensamentos do kyros. Aquele conjunto era belo e sofisticado para o gosto de Vere, mas excessivo para os costumes da aristocracia akielon que preferia um pescoço e uma nuca nua à mostra, um quíton de trançados complexos com um corte reto e algumas joias no tom discreto da prata e do ouro sem pedraria.
Laurent deslizou o seu olhar por Ancel.
"Você se esforçou bastante..."
O jovem jogou o seu cabelo ruivo para trás, antes de se dobrar para ajustar a tornozeleira enquanto o tecido ao redor da sua virilha ainda era mais encurtado e os soldados ao redor pareciam prestes a lamberem os beiços.
"Como a monarquia não apoia mais a exibição de escravos de estimação, não quis ser cafona, andando assim pela corte e tenho me exibido somente para lorde Berenger em nosso quarto. Mas havendo um evento no horizonte, não seria plausível eu parecer discreto e sóbrio. Os bordeis e os ringues não são a corte."
"Podemos ir então?" — indagou Damen, constatando que Laurent não exagerara em sua indumentária reveladora.
O rei de Vere estalou os dedos para um serviçal, que se antecipou em retirar uma caixa grande de dentro da carruagem.
"Falta uma coisa ainda..."
Quando Laurent abriu o conteúdo do invólucro, Damen contraiu as sobrancelhas, reconhecendo cada centímetro do artefato; a quantidade de argolas; o peso do metal; o cheiro frio do ouro contra a pele.
Ele também se recordou da coleira rude precisando ser ajustada em uma parte específica da garganta durante o sono para não incomodar; das algemas que suavam em seu pulso e, com alguma dor, da sensação de ser puxado contra a vontade pela corrente para lugares inóspitos de Arles. Aquele conjunto era o símbolo da escravidão e luxúria de Vere. Seres humanos sendo manuseados como animais em correias.
"Coloque em mim!" — ordenou Laurent, sendo atendido pelo escravo liberto que era o seu serviçal. O rapaz parecia hesitante com a ação inusitada de utilizar a corrente em seu rei.
Para Damen, o gesto não era novo. Com dedos hábeis, o serviçal prendeu um aro no bracelete que Laurent já utilizava e que era o símbolo das nações-irmãs. Depois, ele fechou com um estalo o outro bracelete no outro pulso de Laurent.
"Há necessidade disso?" — indagou Damen, desviando o olhar com desconforto e um regurgitar do passado em seu peito.
"Você estava lá quando interrogamos o traficante de escravos, Damianos. Ele mencionou que havia entre os envolvidos uma réplica afetiva dos costumes promovidos pelo Regente. Naturalmente, não se esqueceriam desse..."
Ao lado de Laurent, Ancel parecia também hesitante e, com uma expressão tensa, deixou que o serviçal, quando terminou com o rei, colocasse nele também o artefato. Berenger pesou em sua mão a corrente, parecendo enojado ao devolvê-la para o serviçal. Ancel disse enquanto o criado fechava a coleira em seu pescoço:
"Lorde Berenger nunca me obrigou a usar isto. E os comerciantes que me tiveram antes dele não dispunham de dinheiro para gastarem em uma coisa dessas ainda que eles tentassem imitar as práticas da aristocracia..."
Laurent disse, então, apontando para trás do seu próprio pescoço:
"Muitos têm usado correntes de ferro pintadas de ouro para parecerem ostensivas nos ringues segundo o que descobrimos. Há uma manobra na nuca dessas duas coleiras para, no caso de perigo, o aro precisar ser arrebentado, nos libertando. O mesmo se aplica nos braceletes. Lorde Berenger e Nikandros devem somente entortar o aro assim para ele se partir..."
Damen acompanhava a explicação dada por Laurent, mas ergueu o seu olhar ao perceber que Nikandros o fitava ininterruptamente.
Havia um ar agitado e carrancudo no semblante do kyros que não parecia mais ter a ver com o desconforto de suas roupas. Damen entendeu a raiz de sua chateação quando captou o akielon deslizar o seu olhar da coleira de Laurent para o pescoço de Damianos.
Para Damen, era como ver uma parte sua no espelho. Era como se a sua própria consciência se personificasse. Nikandros estava aborrecido por concluir que o seu rei havia utilizado aquela corrente também.
Por repassar em sua mente novamente a história da criação das nações-irmãs. Tudo se iniciara quando Damianos sofreu um golpe de Estado e foi levado para Vere como um escravo. A narrativa era representada pelas companhias de teatro nas estradas de Akielos e de Vere. Ele fora o escravo do príncipe que amargava ainda a perda do irmão.
O olhar do kyros se demorou depois em Laurent como se ele tivesse sido obrigado a tomar um remédio amargo.
Percebendo a tensão, Damen puxou Nikandros para um canto, a fim de lhe falar a sós.
"Sei que não engole muitas das atitudes de Laurent, Nikandros, mas preciso ter certeza de que ele estará seguro ao seu lado e de que vai protegê-lo..."
"Ele o fez usar aquilo e o tratou como um animal de exibição, Exaltado! Como um cão da realeza!"
"Fez. Ele fez coisas muito piores e mesmo eu senti vontade de torcer o pescoço dele muitas vezes enquanto fui um escravo em Arles. Mas tudo mudou! Laurent é fie meu rei, Nikandros. Eu o amo. Eu o escolho. Pode entender isso? Pode cumprir as minhas ordens? Se não puder, vou designar outro homem para que vá em seu lugar!"
Nikandros respirou fundo com uma expressão contrariada.
"Já aceitei há algum tempo que você é louco de amores por ele, Damianos, e isso não é algo passageiro. Mas, às vezes, é difícil perdoá-lo!"
"Eu já o perdoei, Nikandros. E tento me perdoar diariamente pelo que eu tirei dele, dando tudo o que posso lhe dar para aplacar o seu sofrimento de alguma forma. Você não é só o kyros de Ios. É o meu amigo. Preciso ter certeza de que cuidará do que me é mais precioso. Laurent não costuma pedir por ajuda. Olhe por ele, mesmo ele parecendo ter tudo sob controle..."
Nikandros, após alguns segundos, assentiu, apertando os olhos.
"É claro que vou servir a você, Damianos. Eu cuidarei do rei de Vere. Cuide-se também..." — declarou o kyros, revelando a espada curta no cinto, sob a sua capa de viagem.
Quando o grupo se encontrava na carruagem puxada por cavalos e com assentos e cortinas de veludo, houve um longo momento de silêncio em que só se ouvia o trepidar do coche, o som das rodas girando sobre a estrada e dos cavalos fungando fumaça na noite escura.
Laurent percebeu, então, o olhar insistente de Ancel vez ou outra se demorando nele.
"Você está admirando a minha beleza?"
Ancel sorriu de um modo enviesado.
"Estou somente constatando que Vossa Majestade nunca esteve em um prostíbulo..."
Com os dedos tamborilando sobre as pernas cruzadas, Laurent respondeu:
"Está enganado. Na verdade, já estive em um com o adorável rei de Akielos quando estávamos tentando fugir da perseguição obcecada do meu tio..."
"Mas o rei nunca dormiu com uma prostituta."
"Creio que nem você."
"A sua maquiagem é comedida como a de um jovem aristocrata tentando parecer um prostituto..."
"Curiosamente, exatamente o que eu sou! Me pergunto se há como melhorar os meus esforços..."
Ancel, sorrindo, abriu o pequeno baú que tinha em seu colo, revelando ruge, pó de arroz e tintas no seu interior.
"Trouxe comigo para o caso de precisar retocar a minha maquiagem. Posso, Majestade?"
A viagem se transformou, então, na imagem de um jovem maquiando outro. Damen trocou de lugar com Ancel, que se espalhou ao lado do rei veretiano com o seu baú e os seus itens.
Com um pedaço de tecido delicado, Ancel espalhava o pó branco sobre a pele de Laurent. Sem lorde Berenger ao lado do escravo de estimação para cutucá-lo, Ancel verbalizava o seu pensamento livremente.
"Vossa Majestade é tão bela! Faria certamente fortuna em um puteiro..."
"Mesmo tendo gelo correndo nas minhas veias e entre as minhas pernas...?"
"Há quem goste do inverno..."
Damen, Nikandros e lorde Berenger estavam sentados defronte a Laurent e Ancel e acompanhavam a conversa dos dois veretianos em silêncio.
"Acredito que você tenha acumulado muitas riquezas, Ancel..." — declarou Laurent, após quase um minuto em que o rapaz, com a ponta do dedo, coloria de um tom mais intenso de vermelho os lábios do rei.
"De fato. Eu era um alpinista social. Era o que sempre procurava saber todas as noites em que trabalhei em Sanpelier. Quem era o cliente mais rico... Eu sou o melhor puto de Vere e era fácil lidar com todos aqueles homens endinheirados..."
Laurent pestanejou os seus olhos azuis, após a carruagem dobrar em uma esquina.
"E o que o fazia ser o melhor prostituto de Vere?"
"Saber o que um homem rico quer."
"E o que um homem rico quer?"
"Além de uma foda acima das expectativas? Alguém que o faça acreditar valer mais do que realmente vale. Não foi difícil. A maioria dos homens não era lá essas coisas... Além disso, eles queriam ter o que mais ninguém pudesse ter. A escassez é a glande de um homem que tem muito. Ele precisa acreditar ser exclusivo; precisa entrar em um buraco que ninguém mais tem acesso, mesmo o espelho lhe evidenciando diariamente que é imbecil, limitado e ordinário feito um pano de chão puído..."
Laurent fechou os seus olhos preguiçosos quando Ancel chegou até eles com os seus dedos salpicados de pó dourado.
"O que é uma foda além das expectativas?"
Ancel deu de ombros, com o olhar concentrado nas pálpebras de Laurent.
"Alguém que os faça acreditar que precisa do pau deles mais do que qualquer outra coisa no mundo para gozar..."
"Estou perguntando sobre você."
Damen pigarreou um pouco incomodado com a intimidade da conversa e viu Nikandros fingir que prestava atenção em algo fora das janelas embaçadas de vidro colorido da carruagem. Na noite escura.
Para surpresa do rei de Akielos, lorde Berenger, que era veretiano, parecia um pouco sem graça também com a honestidade do diálogo.
"Ah, eu...?" — hesitou Ancel, descansando a mão em sua coxa nua, antes de voltar a favorecer o rei com os seus cuidados e atenção— "Uma foda em que eu possa estar lá..."
Houve um rubor subindo pelo rosto de Ancel e seus olhos verdes se tornaram úmidos quando ele pestanejou.
"... Ossos do ofício. Havia uma manobra para eu servir todos aqueles homens. Algumas vezes, eu me imaginava como uma cadeira ou um candeeiro do quarto e estava ocupado sendo eles enquanto não era eu mesmo. Depois de um tempo, você se acostuma a fazer isso enquanto está sendo fodido. Há os momentos também em que os homens colocam você de bruços e fingem que você é outra pessoa. Nessas horas, você precisa ser a pessoa que não aceitou se sujeitar ao que está fazendo e ocupar o seu lugar. Mas existem também os momentos em que os homens, após fodê-lo, o empurram da cama com o pé e, ainda assim, você precisa agradá-los, abanando o rabo quando voltam solicitando os seus préstimos no dia seguinte..."
O silêncio que se fez na carruagem para Damen pareceu da mesma substância das roupas veretianas que o asfixiavam e o apertavam.
Laurent desviou o olhar para a janela da carruagem, talvez com algum decoro, talvez com alguma dor. Sem fitar ainda Ancel, ele murmurou:
"Eu sei como... Eu sinto muito..."
Ancel fungou, fechando a sua caixa de madeira envernizada com madrepérola. Damen viu lorde Berenger fitar Ancel com olhos úmidos, atentos também.
"Não sinta, Majestade. Isso faz parte do passado." — respondeu o jovem veretiano.
Depois, Ancel sorriu de um modo convencido, tamborilando os dedos sobre o baú pequeno em seu colo.
"... Acabei com você, Vossa Majestade! Agora, ninguém vai pensar que se trata de um príncipe ou um aristocrata passando-se por um escravo. Você parece que foi um puto a vida toda."
"Certo. Obrigado."
Damen trocou um olhar com Laurent e o achou irreconhecível. Ele sabia que o veretiano não gostava de pinturas e, particularmente, elas não o agradavam tanto também. Mas era Laurent com uma máscara de cores, lábios rubis e o seu olhar penetrante por baixo daquelas camadas de camuflagem.
A viagem prosseguiu pela noite enevoada e quando a carruagem diminuiu a sua velocidade até o cocheiro puxar as rédeas dos cavalos, parando-os, Nikandros estreitou o seu olhar para ver algo na noite escura pelas vidraças, sem sucesso.
Somente quando desceram os degraus acarpetados da escada do coche, eles puderam ver que se encontravam numa rua larga de pedras lavradas e com canteiros de margarida. Ancel xingou um palavrão feio quando pisou numa poça de água por acidente e foi ajudado por lorde Berenger a ter os seus sapatos enxutos.
Os candeeiros da ruela estavam acesos e se ouvia risos a alguma distância, vindo de alguma janela aberta.
"Estamos no lugar certo?" — perguntou Nikandros, olhando ao redor e caminhando até a esquina para se deparar com uma rua de comércio vazia e com barracas desmontadas.
"O lugar é este!" — declarou Laurent, deslizando o seu olhar azul por portas de estabelecimentos fechadas e sem nenhuma marca de tinta vermelha que apontasse o recinto como um prostíbulo.
Damen também deu uma volta, checando as ruelas ao redor adornadas com jarros bojudos de renda francesa com algumas folhas envelhecidas.
Houve, então, o ruído da sineta de uma carruagem vindo da esquina contrária acompanhada das batidas de cascos. Os cavalos que puxavam o coche relincharam quando foram obrigados pelo boleeiro a pararem, trotando e resfolegando fumaça na friagem da noite.
As rodas raiadas estacionaram e demorou um tempo para que a porta se abrisse. Do interior da carruagem, um homem desceu, acompanhado de outro. Os dois estavam trajando as roupas alinhadas da corte de Arles e olharam sem muito interesse a comitiva de Laurent a uma considerável distância.
"Me ocorre outra falha nesse plano..." — sussurrou Ancel, após engolir em seco — "Se existem nobres de Arles nesse puteiro, o que os impedirá de reconhecerem os rostos do rei Damianos, de Berenger e mesmo o meu...?"
A constatação de Ancel não era desprezível.
"Não há falhas..." — retorquiu Laurent, secamente.
O grupo viu os homens que haviam descido da carruagem olharem em sua direção, parecendo demorarem a sua atenção na figura de Ancel com o corpo à mostra.
"... Há distrações demais para que pensem em algo além de seus próprios paus..." — comentou Laurent com enfado — "Mas há algo mais. Não escolhi o dia de hoje para nos infiltrarmos por acaso."
Damen estava com o capuz de sua capa repuxado até a cabeça e ele se surpreendeu quando os homens fizeram um gesto em direção aos seus próprios rostos os cobrindo com outros rostos. Um arrepio percorreu a sua espinha quando ele constatou que reconhecia aquela máscara. Já havia a visto. Já havia a usado. Eram as máscaras douradas que foram distribuídas no jantar de aniversário de Laurent.
Abraçados, os dois homens caminharam até um dos sobrados discretos, batendo três vezes na porta e, enquanto esperavam resposta, ergueram as máscaras um pouco mais acima do nariz para se beijarem na boca. Depois, eles trocaram algumas palavras com alguém que abriu a porta e sumiram num interior iluminado e barulhento.
"Bom, pelo menos sabemos agora como podemos entrar..." — declarou Nikandros.
"Eles estão usando as máscaras de Arles!" — comentou Damen com alguma irritação.
Laurent pestanejou.
"Eles tentam imitar os costumes da corte. Jord havia comentado comigo que Rouart estava com uma máscara de serpentes quando foi preso, mesmo não tendo sido convidado para a minha festa. Creio que alguém do palácio tenha lhes fornecido algumas máscaras quando souberam que o meu aniversário seria com essa temática..."
Com as sobrancelhas franzidas, Damen murmurou com uma constatação mórbida:
"É como se estivessem espelhando a corte de Arles nos prostíbulos."
Laurent se aproximou, então, da sua carruagem em que o cocheiro se mantinha em sua poltrona, aguardando ordens enquanto o coche que havia trazido os dois homens partia, trepidando na estrada ao entoar a sineta.
"Jean, me veja as máscaras que pedi que guardasse dentro do cacifo. Vou realmente precisar delas."
O cocheiro assentiu e se ouviu o barulho de uma caixa de metal sendo aberta e remexida.
Novas risadas foram trazidas pelo vento de dentro de algum dos sobrados. Um grito também se elevou.
"Não estou gostando nada deste lugar..."
"Não se preocupe, Damen. Ninguém vai nos reconhecer..." — sussurrou Laurent.
Nesse instante, um ruído sólido se fez próximo às rodas traseiras da carruagem, na penumbra. Um ruído pesado, seguido de uma presença pesada. A qualidade do ar pareceu ser roubada e um arrepio foi sentido. Havia o resfolegar de outro animal, além dos cavalos.
"Quem são vocês?" — perguntou uma voz rouca em veretiano com um sotaque carregado akielon.
Tratava-se de um homem de pele cor de oliva com cabelos escuros encaracolados e olhos grandes. Ele também era grande, chegando a ser maior do que Damen e Nikandros. O homem trazia um cachorro corpulento pela coleira, que arreganhou os dentes quando seu amo sacou a espada. De onde ele surgira? Subitamente, ele parecia haver se materializado atrás deles.
"O que fazem aqui?"
O seu olhar se concentrava em Laurent e Nikandros, que se antecipou em segurar a corrente pendente do veretiano.
"Viemos para o ringue..."
"Ah, é? E por que estão aqui fora há tanto tempo, desobedecendo as nossas regras? Quem são vocês?"
Ocorreu a Damen que aquele era algum tipo de vigia do prostíbulo e que fazia a ronda pelas ruelas ao redor, impedindo que curiosos e desconhecidos se aproximassem do lugar. Eles estavam lá parados há pelo menos uns dez minutos e, subitamente, a despreocupação dos aristocratas que haviam descido da carruagem se fazia clara. Um leão de chácara guardava o lugar.
"O nosso nome é sigiloso!" — interveio Damen, dando um passo para a frente e deixando a penumbra para trás.
"Não para mim, idiota! O guardião cuida da lista! O guardião..."
O homem se deteve em sua fala e os seus olhos escuros se arregalaram como pires recaídos em Damen. A luz do fogo dos candeeiros os fazia parecer derretidos e liquefatos como se fossem bile. Mas a sua pele morena parecia pálida e, subitamente, a sua garganta parecia estrangulada. Ele abriu a boca para dizer algo, mas somente um som estranho foi produzido no lugar das palavras.
Então, o seu gesto revelou um pouco mais das suas intenções.
O guardião brandiu a sua espada com a lâmina brilhante, dizendo com um gaguejar nervoso.
"Exaltado! Damianos, filho de Theomedes!"
Houve alguns segundos em que todos pareciam gelados e mortos em um corpo vivo. Lorde Berenger segurou a mão de Ancel e Nikandros tocou em sua algibeira.
"Muitos dizem que me pareço com ele..." — arriscou Damen, erguendo as suas mãos no ar quando a espada foi curvada em sua direção.
"Exaltado, eu reconheceria você em qualquer lugar! Eu estive entre o povo na sua coroação. Eu estive entre o povo quando executou o Regente de Vere ao lado daquele lixo veretiano que é o rei daqui. E eu estive entre o povo quando anunciou a abolição dos escravos e largou os treinadores de escravos à própria sorte..."
Damen sentiu o seu peito oscilar enquanto o homem o encarava com um misto do respeito que o ensinaram a sentir pelo monarca de seu país e do ódio que sentia por ele a despeito de todo o resto.
"... O que me faz crer que se precisa do rei de Vere ao seu lado para tomar todas as decisões de Akielos agora, não poderia estar aqui sem ele. Eu sabia que conhecia o seu rosto, mesmo com toda essa pintura, Laurent de Vere. Esses olhos pedantes não me enganam!"
A espada do homem se movimentou em direção a Laurent, após ele soltar a coleira do cachorro.
"Não é o rei de Vere, idiota! É um prostituto de Arles que visito quando Laurent está aborrecido comigo! Os dois são muito parecidos!" — mentiu Damen em uma tentativa nervosa.
"Espera que eu acredite nisso? Damianos de Akielos afundará a própria nação por conta de uma foda. Sinceramente, nunca achei o rei de Vere grande coisa... Magrinho demais, aguado demais, frio demais com aquela postura e arrogância de bosta. Completamente sem sal para o gosto akielon e deve abrir as pernas feito um virgem recatado e melindroso..."
Damen deu mais um passo à frente quando o homem deslizou a espada por uma mecha de cabelo de Laurent, que o fitava como se fosse mordê-lo.
O cachorro rosnou quando Nikandros fez um movimento.
"Você extravasa a sua insatisfação com as nações-irmãs, fazendo alianças com veretianos e vindo servi-los na capital como um cão obediente. É patético e, sinceramente, o senhor não me parece também grande coisa..." — disse Laurent com a sua fala arrastada e fazendo o olhar do homem se alterar pela vontade de lhe dar uma bofetada.
"A libertação dos escravos é uma piada! O que vocês acham que são? Dois reis atiçadores?! Não, vocês são a porra de dois aristocratas mimados que nunca se levantaram na primeira hora do dia e trabalharam duro de sol a sol... Nunca foram trabalhadores incansáveis pelos seus reinos!"
"Tampouco o senhor o foi usando os seus escravos para ganharem dinheiro, suarem, sentirem dor e cansaço em seu lugar!"
O homem movimentou a sua espada com raiva e Damen deu mais um passo à frente.
"Não ouse encostar nele!" — rosnou o rei de Akielos entre dentes.
O homem tinha o cachorro grande solto da coleira rosnando para as pessoas diante de si com a saliva escorrendo por suas gengivas. Havia alguns cortes em seu focinho e ele parecia aguardar uma voz de comando para atacar.
Coçando o queixo enquanto Laurent observava a lâmina da espada deslizar até a sua garganta exposta, o homem disse:
"Faz muito tempo que a minha vontade é enfiar uma espada no coração do Exaltado. Vou poder fazer isso hoje, dando cabo de Laurent de Vere e, ao mesmo tempo, trabalhando por minha causa. Nações-irmãs, não é? Grande bosta!"
Quando o akielon projetou a sua espada em direção a Laurent com uma resolução sombria, Ancel gritou, levando a mão à boca. E Damen partiu para cima do homem, após trocar um olhar apreensivo com Nikandros.
Uma nova onda de risadas se fez ouvir, vinda do sobrado.
E também um outro grito rasgou o breu álgido da rua.
