A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 9
O RINGUE
I bet on losing dogs
I know they're losing and I'll pay for my place
By the ring
Where I'll be looking in their eyes when they're down
I'll be there on their side
I'm losing by their side
(I Bet On Losing Dogs – Mitski)
Laurent sentiu a corrente de sua coleira ser esticada para trás com força, fazendo-o se desequilibrar e cair sentado no chão de pedras rústicas. Nikandros havia o puxado enquanto Damianos avançava para o agressor akielon, detendo-o.
Damen segurou o braço do guardião do prostíbulo com a espada no alto. Experimentando o pulsar de músculos e de tendões, ele sentiu a força do agressor que o encarava com uma obstinação tenaz enquanto lutava pelo controle da lâmina.
Nikandros havia se postado diante de Laurent, que, por sua vez, apalpava a garganta enquanto tossia. O cachorro grande latiu para o kyros.
"Aqui!" — assoviou lorde Berenger, se colocando na frente de Ancel. Ele havia retirado lentamente um dos sapatos de seu pé e o sacudia, tentando atrair a atenção do cachorro. Depois, assoviou. — "Vem cá, amigo! Por aqui!"
O cão alternou o seu olhar de Nikandros para lorde Berenger.
Damen, finalmente, empurrou o seu adversário para trás e golpeou o seu estômago com o joelho, desarmando-o.
"Damianos, filho de Theomedes, seu desgraçado! Eu vou acabar com você!" — bramiu o homem, arquejante.
O cachorro latiu duas vezes.
"Berenger!" — murmurou Ancel com a voz esganiçada, segurando o braço de seu mestre— "O que devemos fazer?"
O cachorro deu um passo para a frente com a sua boca de dentes pontiagudos, mirando o sapato e o homem que o segurava.
"Não corra! Ele vai atacá-lo se o fizer! Fique atrás de mim!"
Nesse instante, Jean, o cocheiro, deixou a carruagem com uma garrafa de água em mãos, molhando o animal.
A garrafa de água bojuda que era utilizada para matar a sede dos cavalos foi apontada como uma arma. O cão sacudiu a sua cabeça e hesitou com um latido de protesto quando Jean ameaçou lhe molhar mais. Por fim, Jean, que era um homem de idade, encenou correr atrás do cachorro com a garrafa de cerâmica em sua direção, atirando água contra as pedras, e o cachorro debandou com o rabo e as orelhas baixas, correndo em direção aos mercados e tendo a correia arrastando no chão.
Podendo ir ajudar Damianos então, o kyros agarrou o guardião do prostíbulo por trás com uma chave de braço da luta akielon.
O processo demorou alguns arrastados segundos em que o kyros apertava o seu braço mais forte para o homem não emitir nenhum som.
Damem sacou, por fim, a espada curta para utilizá-la, mas antes que ele a enterrasse no homem, o guardião parou de se debater quando algo zumbiu o ar e lhe acertou em cheio no meio da cabeça.
Nikandros sentiu o corpo pesado do akielon amolecer em seu braço, após o silvo e o largou para que desfalecesse morto no chão. Seus olhos escuros estavam vítreos e inertes. De sua testa, brotava uma longa flecha veretiana.
Olhando ao redor, Damen procurou o local de onde havia sido atirada a flecha e, de cima do telhado de um dos altos sobrados do outro lado da rua, ele viu um homem lhes acenando perto de outro que lhe iluminava com um lampião.
"Lazar!" — disse Laurent, se erguendo do chão com a mão ainda apalpando o pescoço — "Ele é bom, não é?"
Ancel, que ajudava lorde Berenger a calçar o seu sapato, disse:
"Só gostaria que ele agisse um pouco antes de eu quase me mijar de pavor..."
"Se ele interferiu só agora, certamente, estava ocupado abatendo outros guardiões e os mantendo afastados de nós. É melhor sairmos daqui!"
Damen fitou o rosto do akielon morto estirado no chão enquanto Laurent se ajoelhava perto dele, revistando-lhe os bolsos da jaqueta e da calça.
Não havia nada lá, além de um rabisco infantil num pedaço de papel com duas estrelas mal desenhadas que Laurent ignorou.
"Achei que ele pudesse ter uma lista dos nomes dos frequentadores do prostíbulo... De fato, ele não era grande coisa..." — disse o veretiano, desistindo de achar algo que lhe fosse útil.
"Não podemos deixá-lo aqui. Me ajude, Nikandros..." — disse Damen, embainhando a sua espada.
Damianos e Nikandros arrastaram o corpo pesado do homem para um beco sem iluminação, próximo aos vasos bojudos de rendas francesas e dos canteiros de margarida. Quando eles retornaram para perto da carruagem, Jean já havia entregue a máscara de serpente para lorde Berenger que a tinha em seu rosto.
O cocheiro distribuiu as máscaras de leão para Damen e Nikandros então.
"E quanto a você e a Ancel?" — perguntou Damianos, checando o pescoço de Laurent e uma suave linha vermelha que lhe magoava agora a pele muito branca pelo arranco da coleira.
"Verossimilhança. Escravos não usaram máscaras no meu aniversário... Eles devem preferir os escravos bem expostos."
"Aquele homem o reconheceu mesmo com a pintura que Ancel fez." — comentou Nilkandros, observando-o pelas frestas de sua máscara leonina.
"Meus olhos me denunciaram..."
"Mantenha-os baixos. Evite olhar as pessoas nos olhos então..." — aconselhou Damen.
"Certo..."
O olhar de Laurent se deteve no kyros de Ios. Não de uma forma provocativa ou sarcástica. Não com a implicância rotineira que se estabelecia entre os dois. Mas com uma atenção genuína.
"É mais difícil do que pensei se movimentar com as correntes. Você me protegeu, Nikandros. Obrigado!"
Se não estivesse usando a máscara dourada, o desconcerto no rosto do kyros poderia ser percebido. Ele não estava acostumado com um rei veretiano lhe agradecendo. Ele ainda não se habituara totalmente a Laurent, desde que, após chorar a morte de Damen, reencontrara-o com um bracelete dourado no pulso há pouco mais de um ano atrás. O bracelete. O símbolo de submissão.
E as cicatrizes das chicotadas. O resultado da insubordinação.
Um pouco sem jeito, Nikandros retrucou:
"Prestei juramento às nações-irmãs, não é mesmo? Fiz somente o meu dever. É melhor nos apressarmos..."
Jean, o cocheiro, se despediu da comitiva, avisando que se reuniria aos soldados veretianos e akielons na rua dos mercados e viria correndo ao auxílio do grupo se eles precisassem bater em retirada.
Lorde Berenger enrolou na sua mão a corrente de Ancel enquanto Nikandros tomava a de Laurent. O rei veretiano havia despido a sua capa de veludo e a deixado na carruagem. Damen tocou em sua espádua pálida, vendo as suas formas belas expostas diante de todos ao se prepararem para a arena. Mais uma arena.
"Cuidem-se!" — falou Laurent por último — "E não ajam com nobreza ou decoro lá dentro. Os ratos que serviram ao meu tio nunca tiveram isso..."
Damen se adiantou até a entrada do prostíbulo, batendo com os nós dos dedos na porta três vezes conforme os aristocratas que chegaram antes deles haviam feito. Houve o barulho de uma movimentação no interior do casarão, antes que o ruído de madeira da pequena janela de correr na porta deslizasse para o lado como a tampa de um cacifo. Olhos verdes surgiram pela fresta da porta espreitando os visitantes anonimamente. Uma voz feminina perguntou:
"Senha?"
"Gafanhotos." — disse Damen, disfarçando o seu desprezo.
Houve uma segunda movimentação interna de se fechar a janelinha, acompanhada pelo ruído de ferrolhos metálicos correndo e de fechaduras sendo abertas uma a uma.
Uma mulher com roupas veretianas e cabelos escuros fez um gesto para que os visitantes entrassem. Ela moveu o seu rosto mascarado com ouro e serpentes em direção aos homens e aos escravos de estimação e se sentou com algum refinamento em um sofá de tom vermelho enquanto tinha um xale envolvendo os seus ombros.
Um homem passou diante da saleta com uma espada embainhada, espreitando os visitantes. Aparentemente, lá dentro, os guardiões também faziam a ronda.
"É a primeira vez que vocês vêm? Como souberam do nosso encontro?"
Damen e os outros se viam em uma antessala iluminada. Atrás do sofá da mulher, havia um amplo espelho de arabescos preso à parede e, por um breve segundo, os olhos de Laurent se ergueram, cravando-se com assombro em seu reflexo maquiado, antes de ele abrir a boca e voltar a baixar a cabeça.
Damen disse então:
"Venho de Aegina. Tenho um encontro marcado com alguém. Cheguei hoje em Arles. Estes são o meu sócio e o meu anfitrião de Varenne..."
O rosto dourado da mulher se deteve nas figuras de Nikandros e de lorde Berenger.
"Quem está servindo ao anfitrião de Varenne hoje?"
Ancel, empertigando-se, colocou a mão na cintura ao dizer:
"Eu estou..."
"O senhor de Varenne trocou de escravo?"
Ancel jogou os cabelos flamejantes para trás, deslizando a mão por seu peito, antes que lorde Berenger dissesse qualquer coisa.
"Fodo melhor do que o anterior."
A mulher soltou uma risada sonora como um glissando em uma sala vazia. Com os dedos compridos, ela tocou no cabelo vermelho de Ancel, após se levantar do seu assento e rodear os visitantes, inspecionando-os.
"Bem exótico como o senhor de Varenne gosta, mas o escravo anterior não vai gostar nada de saber disso, meu caro..." — riu-se ela, dando um tapinha no ombro de Berenger.
A mulher se virou, então, para Laurent, que fitava o tapete vermelho da antessala, sem erguer o rosto ainda.
"E a quem pertence esta beldade?"
"Ele está me servindo..." — adiantou-se Nikandros, percebendo um estremecimento em Damen e retirando a mão com unhas vermelhas da mulher do queixo de Laurent quando ela tentou erguê-lo — "Desculpe, não gosto que toquem nas minhas coisas..."
Houve alguma tensão e a mulher comentou com algum gracejo:
"Muitos tocarão nas suas coisas hoje, akielon." — retrucou ela, voltando a se sentar no sofá de um modo sensual e se dirigindo a Damen— "O encontro vai ser no último andar. Podem se divertir no ringue no fundo da casa enquanto esperam. Alguém vai ir buscá-los quando o mestre mandar chamar..."
Os cinco homens se retiraram, então, vendo a mulher se reclinar preguiçosamente em seu assento. Eles passaram pelo guardião com máscara de leão, acomodado agora em outro sofá e inspecionando a lâmina de sua espada.
Nikandros se assustou quando uma mulher bonita com os seios desnudos, vestindo somente uma anágua semitransparente, passou por ele, indo se sentar aos pés da recepcionista do prostíbulo.
O momento só não foi mais estranho do que quando um homem nu cruzou a frente da comitiva, parecendo alheio ao seu redor e se jogou em uma chaise longue sobre o colo de um homem mascarado que começou a lhe dedar sem se importar com as pessoas ao seu redor.
Eram os prostitutos do bordel servindo aos clientes e frequentadores do ringue.
Ancel não exagerara. Os prostíbulos de Vere eram bastante diferentes dos de Akielos. Obviamente, havia bordeis em Ios em que as coisas eram menos sofisticadas e mais explícitas, mas esses eram considerados degradantes e abaixo da dignidade de um príncipe ou de um kyros. Nobres akielons não fodiam em público em cima de sofás.
Uma outra mulher mascarada passou de braço dado com uma meretriz completamente nua, exceto por um penacho e um alfinete de pérola que trazia na cabeça.
Ela sorriu para o grupo e seus dedos longos se esticaram em direção a Laurent, apalpando-o em sua passagem e deslizando a mão pálida pelo seu tórax até a virilha. O veretiano parou, tendo o seu corpo tensionado.
"Ei!" — protestou Damianos.
Laurent pestanejou, sacudindo a cabeça, como se se forçasse a voltar a si.
"Não! Ignore! Vamos!"
Uma recepção semelhante se repetiu quando eles adentraram um longo corredor e um homem nu com máscara de águia passou por Ancel, batendo em sua bunda com uma mão pesada. O escravo de estimação apalpou o seu quadril, voltando-se para trás com chateação:
"Aaai! Seu miserável arrombado de bosta!"
Lorde Berenger fez menção de encarar o homem que se deteve no corredor com o maxilar contraído, mas foi impedido por Laurent, que ainda fitava o chão.
"Não reaja! Não podemos chamar a atenção e há guardiões aqui também!"
"Pelo menos, não nos revistaram e estamos com as nossas armas..." — murmurou Nikandros, muito baixo.
"Cortesões e nobres não tolerariam serem revistados por soldados, o que quer dizer que não somos os únicos aqui com armas!" — retrucou Laurent, movimentando discretamente a boca com um pragmatismo preocupante.
O extenso corredor tinha algumas cortinas de seda presas nas guarnições das portas, impedindo que o interior fosse visto e somente o gemido característico da foda fosse ouvido. Alguns homens, esperando para entrarem nos quartos, assoviaram para Laurent e Ancel quando eles passavam. Prostitutos sorriram, cochichando entre si e fitando Damen, Nikandros e lorde Berenger com interesse.
Havia bastante incenso sendo queimado sobre os aparadores, impedindo que o cheiro característico que vinha dos quartos se tornasse insuportável. Havia também alguns ambientes sem cortina e eles eram atordoantes.
O grupo viu uma mulher nua com uma máscara sobre o rosto e com as pernas abertas para a porta, sendo chupada por uma prostituta de cabelos cacheados e ruivos. Algumas pessoas se aglomeravam na porta, observando o ato enquanto bebiam vinho. Um homem com uma máscara de leopardo e proferindo palavras em vaskiano parecia conduzir uma aposta, jogando moedas no pé da cama.
"Faça ela gozar agora, ruiva! Tem mais um minuto! Estou apostando em você!" — disse ele, rindo, e forçando a cabeça da prostituta com truculência para que agisse mais rapidamente.
"Vask..." — murmurou Laurent com um tom sombrio, parecendo nauseado.
Dentro de outra porta exposta, dois homens fodiam. Um deles de quatro na cama e o outro o estocando por trás, de pé. Um terceiro homem de máscara despia a sua roupa, pronto a fazer parte do ato e experimentou o brandir de um chicote na palma de sua mão.
"Meu Deus, isso é..." — falou lorde Berenger, desviando a sua atenção e não conseguindo concluir o seu pensamento ao ver um homem gozando no rosto de outro no corredor, após estimular a si mesmo.
"É pior do que Sanpelier... Pelo menos, lá as cortinas eram para todos e havia pouca luz..." — murmurou Ancel, parecendo também um pouco aturdido.
Damen viu o jovem abandonado no chão que tinha os seus olhos grudentos e pegajosos agora, tocar o seu rosto e olhar o esperma do outro, movendo os seus dedos contra a luz. Ele parecia nem mesmo entender o que estava acontecendo ou onde estava. As suas retinas estavam desfocadas e a sua ereção se mantinha em sua virilha.
"Acho que algumas dessas pessoas estão drogadas..." — murmurou Damen, próximo a Laurent.
"Você acha?"
Eles viram outras cenas humilhantes de pessoas mascaradas de pé ao redor de um escravo deitado nu, masturbando-se sobre ele.
Também observaram um escravo andando de quatro ao ser puxado pela corrente por seu mestre, indo usar a sua boca em um cliente do outro lado do recinto enquanto mascarados se divertiam com a cena. As imagens se tornaram mais depravadas conforme os akielons e veretianos atravessaram o corredor e chegarem a uma outra sala com portas duplas escancaradas e entalhadas, com pesados ornamentos dourados.
O grupo fez uma parada abrupta quando uma porta lateral menor se abriu e dois meninos e uma menina atravessaram correndo o seu caminho, rumando para outro quarto. Laurent se tornou muito pálido, parecendo prender a respiração ao haver tensionado em seu lugar. Seu corpo era um epicentro de um desfalecer sombrio.
Damen se lembrou de quando vira Nicaise pela primeira vez no ringue de Arles sentado ao lado de Audin e, por ingenuidade, acreditara que se tratasse de um sobrinho do conselheiro. Talvez, se ele não tivesse visto e ouvido coisas que partiam o seu coração, acreditasse que aquelas três crianças que pareciam não ter mais do que dez anos fossem os filhos de algumas prostitutas do bordel. Mas Damen sabia que Vere não era ingênua e que a capital, especificamente, era uma cidade capaz de criar coisas bonitas para depois, destruí-las. Ele cuidaria para que a pena pelos responsáveis daquilo fosse a morte.
Laurent ainda se mantinha enrijecido, emitindo uma espécie de aura sombria como sempre emanava quando se deparava com fantasmas. Damen tocou os seus dedos, apertando-os e o incentivando a seguir em frente.
"Creio que as estacas de Akielos não serão suficientes para isso..." — murmurou Nikandros, fechando os olhos enojado e respirando fundo ao sentir a bile em sua garganta.
O kyros havia ouvido o discurso de Jord quando o Regente fora executado e um dos que batera com intensidade a sua lança no chão quente de Ios, evocando barbárie.
"Garanto que haverão de ser suficientes nem que eu tenha que fazer um caminho de estacas das florestas do norte até Isthima..." — retrucou Laurent, voltando a andar ao apertar de volta os dedos de Damianos.
Eles alcançaram o batente da grande porta dupla aberta.
Os gritos que vinham do lugar eram, talvez, os que alcançavam as ruelas. Havia uma plateia. Havia luta. Havia sofrimento. E havia o ser humano não o sendo.
Os cinco homens se detiveram na porta e Damen sentiu o seu estômago afundar até a tapeçaria vermelha com padrões geométricos em um reconhecimento doloroso. Laurent murmurou, erguendo o seu olhar azul cobalto enquanto Nikandros, ao seu lado, se mantinha petrificado.
"Chegamos ao ringue..."
(cut)
O salão estava cheio para o espetáculo e havia estrados com almofadas de seda organizados em padrões circulares como em um anfiteatro ao ar livre. Do chão, se desprendia uma série de argolas de ferro presas. O piso era pavimentado com pedra requintada e lajotas escorregadias e, no lugar, havia canteiros de flores, ciprestes, pérgulas e candeeiros acesos que traziam o cheiro de queimado.
Havia uma pulsação de excitação em cada pedaço do espaço ao ar livre. Damas e lordes com roupas suntuosas e com os rostos cobertos por máscaras sussurravam no ouvido de seus escravos de estimação envoltos em sedas e joias. Os escravos de estimação tinham a corrente dourada em seus pescoços presas ao aro do chão e seus rostos bonitos eram cobertos de pintura, assim como os rostos de Laurent e Ancel estavam.
Outros escravos, com as costelas evidentes e os membros muito finos, serviam os mascarados, carregando bandejas de prata cheias de refrescos, vinho, doces e frutas cristalizadas.
Foi Laurent quem fez o movimento de adentrar o espaço porque os outros estavam aturdidos, fitando aquela exibição. Alguns rostos se voltaram na direção do grupo, conforme ele caminhava entre as pessoas.
Damen e os outros avançaram por uma fileira da arquibancada e Ancel respirou com impaciência quando outras mãos deslizaram pelo seu corpo e por Laurent com movimentos avaliativos e invasivos. Damen, parecendo incomodado, esbarrou de propósito na mão erguida de um homem que apalpava os veretianos como se fossem maçãs em um mercado.
Do ringue, um treinador de escravos com o sotaque de Patras e a máscara de águia, anunciou:
"Temos duas oferendas de dois digníssimos lordes hoje. Façam as suas apostas!"
Damen fez um gesto para que eles se acomodassem em um espaço um tanto reservado, rodeado por almofadas e jarros de cerâmica. Apesar da friagem da noite, o ar era denso e estava calor ali devido à excitação e aos candeeiros a óleo.
Dois escravos de estimação sem as correntes, mas com o colar e os braceletes dourados se alongavam cada um no canto de um ringue. Um era branco como mármore. O outro, moreno como a terra.
"Representando Akielos e Vere, temos uma beldade do sul de Kesus e outra, do norte de Ladehors! Como será que os dois se enfrentarão?" — gritou o homem do centro do ringue, fazendo um aceno para que as pessoas começassem uma espécie de contagem regressiva.
Na arquibancada da frente, havia alguns homens que pareciam fazer parte de um grupo de amigos, inalando profundamente algo de um cachimbo fino e comprido que se enrolava em uma das extremidades. Eles tinham os olhos semicerrados enquanto os seus escravos de estimação usavam as suas bocas neles num ato nem um pouco discreto de devassidão. Alguns deslizavam os paus por seus rostos.
O cheiro adocicado de chalis não demorou a alcançar os sentidos de Damen e de Laurent e os dois homens trocaram um olhar tácito. Damen acreditava que a volúpia que vira em Arles quando o Regente governava sobre a capital era o ápice da decadência, mas aquele lugar, em muitos aspectos, alcançava graus piores e inumanos. No chão, havia resquícios escorregadios de prazer. O rei de Akielos estava enojado. Laurent, Nikandros e lorde Berenger pareciam também abatidos e tolhidos.
Mesmo Ancel, que parecia sempre confiante e sem melindres, perdera muito da sua vivacidade e se sentara em um canto com os joelhos apertados diante do corpo como se se defendesse de algo.
"Prendam-nos..." — murmurou ele numa voz vazia para lorde Berenger e Nikandros, indicando as argolas no chão em que as correntes deviam ser atreladas.
A luta se iniciou no ringue e o escravo com a pele oliva avançou para o escravo menor de pele pálida, trêmulo e com tornozelos finos. O loiro estava aterrorizado e nem de longe excitado e chegou a dar dois passo para trás, escorregando no chão. O ringue estava úmido e untado por conta das fodas dos lutadores que os antecederam. Nobres gargalharam.
Damen julgou que o rapaz akielon não parecia com um dos antigos escravos de prazer que eram treinados em seu reino, cujo padrão era a submissão, a delicadeza e o decoro. Ele parecia mais um gladiador com o corpo jovem e forte alcançando o auge da sua beleza. O veretiano de membros finos não tinha chance contra ele.
Olhando outros escravos de estimação akielons ao redor, Damen constatou que aquela, talvez, fosse alguma moda veretiana.
Um escravo muito magro e seminu caminhava entre as pessoas, atendendo-as, após elas erguerem as mãos no ar. Damen viu uma dama erguer um pedaço de papel, fazendo a sua aposta e colocá-la no saco de pano que o escravo trazia. Outro homem o chamou e, após fazer a sua aposta, puxou o rapaz para lhe roubar um beijo na boca.
"Vou vomitar." — murmurou Nikandros, respirando fundo e virando o rosto coberto.
A luta do ringue foi previsível. Rapidamente, o akielon, mais forte, dominou o escravo veretiano e o submeteu, montando-o. O rapaz loiro tentou se desvencilhar até o momento em que pareceu ceder. Ele se manteve com o rosto baixo quando o adversário se moveu dentro dele com alguma truculência.
"Vitória de Akielos! Parece que o destino de Vere é ser montada por Akielos! Que nem o rei é montado por Damianos!" — anunciou o homem com a máscara de Patras.
Algumas gargalhadas se ergueram na plateia misturadas a algumas vaias. O mestre do escravo veretiano se levantou de um assento próximo ao ringue, atirando longe um copo e fazendo um gesto obsceno que foi respondido pelo dono do escravo akielon. Rapidamente, eles começaram a se agredir até serem apartados por um homem forte que parecia o guardião que vigiava o lado de fora.
"Vou foder o seu escravo com força, akielon!" — vociferou o mestre veretiano, tocando em seu próprio pau e sendo forçado a voltar para o seu lugar.
Na plateia, outras pessoas gritavam palavras de incentivo para que o escravo akielon finalizasse o seu ato de foder o veretiano. Um dos nobres sentados na frente de Damen riu-se, dizendo:
"Aposto que Damianos de Akielos fode Laurent de Vere com medo de parti-lo ao meio. E aposto que aquela puta fria só dá para o akielon uma vez ao ano, no escuro e coberto dos pés à cabeça feito uma virgem." — e depois, gritou em plenos pulmões — "Vai, Damianos! Acaba com ele!"
A plateia explodiu em uma risada colateral.
O desconforto que alcançou os cinco espiões foi triste e brutal. Laurent baixou o seu olhar enquanto Nikandros observou Damen, pronto para agir se ele resolvesse sacar a sua espada e matar o nobre sentado à sua frente. O rei de Akielos, no entanto, não se descontrolou. Ele não podia sair da linha traçada por Laurent e precisava proceder com astúcia em Arles. Ele sabia que não seria uma missão fácil. Arles pegava mais uma coisa bela e a atirava num canto, transformando-a em feiura e degradação. Havia um padrão também naquilo.
Lorde Berenger disse, fungando:
"Isso é degradante..."
Um escravo passou por eles com o olhar submisso e Damen pode ver algumas escoriações nos ombros e costas do rapaz, parecendo que ele havia apanhado há não muito tempo. Ele lhes ofereceu refrescos adocicados de uva e Damianos aceitou um copo de cerâmica, disposto a checar algo que lhe ocorreu. Ele observou a solução, fazendo movimentos circulares com o copo até ver a erva granulada da planta damiana na superfície.
Laurent observou Damen descartar o refresco e, novamente, os dois trocaram um olhar tácito.
Laurent se matinha reclinado a uma almofada, observando discretamente o ambiente como se estivesse tentando resolver um cálculo matemático. Como se inspecionasse cada pessoa. Como se introjetasse aquele mundo alquebrado, decrépito, apodrecido e tentasse sintetizar os elementos, procurando por padrões e encadeamento. O ringue era o núcleo, mas havia uma membrana de pessoas ricas e bem-nascidas que o odiavam por lhes proibir a existência daquele centro ruidoso e lascivo no qual injetavam dinheiro e do qual recebiam, num fluxo contínuo e atemporal, mais dinheiro. A submissão era lucrativa.
Laurent pestanejou, retirando-se de seus devaneios quando um mensageiro com a máscara de leopardo se aproximou do grupo.
"O mestre os espera no andar de cima. Queiram me acompanhar."
Damen, levantando-se e agindo conforme o plano, disse:
"Meu sócio e o nosso anfitrião preferem ficar usufruindo do ringue. Eu vou sozinho..."
O mensageiro se antecipou até lorde Berenger, lhe dando um tapinha nas costas como se o conhecesse, ao falar com o seu sotaque vaskiano:
"O senhor fez um trabalho excelente os trazendo até aqui! Mal posso esperar para ver a carga trazida de Aegina. Tenho certeza de que o senhor já fez o reconhecimento pessoal dos escravos..."
Lorde Berenger hesitou por um segundo, mas respondeu, forçando um pouco o sotaque de Varenne ao modo que se lembrava que lorde Rouart falava.
"Naturalmente. Acho que gostarão bastante deles."
O mensageiro, por trás das frestas dos olhos de leopardo, observou demoradamente Ancel.
"Não está com Kato?"
Lorde Berenger tentou disfarçar o fato de que ele não fazia a mínima ideia de quem era Kato. O homem apontou, então, para Ancel com um movimento de cabeça:
"Onde arrumou essa beleza?"
"Em um prostíbulo em Varenne..." — mentiu lorde Berenger, com alguma tensão.
"Deveria ir falar com Kato. Ele ficará com ciúme. Sabe como ele é temperamental e se tornou exigente, principalmente depois de dá-lo tanto poder. Mas esse aí é bem bonito. Mal posso esperar para experimentá-lo..."
A atenção do homem, depois, recaiu em Laurent, que se mantinha de cabeça baixa, escondendo os seus olhos gélidos e enojados.
"E esse loiro aí...? Qual é o seu nome, lindeza?" — perguntou ele, esticando a mão para acariciar o cabelo de Laurent como faria com um animal.
Damen se antecipou, num gesto impensado, puxando o homem pelo braço e dizendo com inquietação:
"Preciso que me leve ao seu mestre imediatamente. Pode fazer isso ao invés de ficar flertando com os escravos de estimação do meu anfitrião e do meu sócio?"
O vaskiano observou a mão pesada de Damen envolvendo o seu braço e hesitou. Parecendo se recompor ao puxar a sua jaqueta, o homem declarou de um modo formal:
"Claro! Os akielons são impacientes e não gostam de conversa fiada. Claro! Queira me acompanhar! E os senhores, por favor, apreciem o ringue..." — ele fez um gesto solene para lorde Berenger, demorando o seu olhar um pouco na sua figura ao dizer, tomando-lhe ainda por lorde Rouart — "O senhor emagreceu! Aposto que dois escravos de estimação devam trazer os seus sacrifícios..."
Damianos acompanhou, então, o mensageiro, mas não hesitou ao impulso de olhar para trás, vendo Laurent sentado ao lado de Nikandros enquanto Ancel envolvia ainda as pernas com os braços ao lado de lorde Berenger.
Laurent e Nikandros eram habilidosos com a espada e eram capazes de lutar bem se alguém os ameaçasse. Lorde Berenger e Ancel não possuíam treinamento militar e eram completamente vulneráveis naquele espaço.
Seu coração apertou ao ver dois outros escravos de estimação subindo ao ringue. Ele precisava ser rápido para tirá-los de lá.
Os planos de Laurent sempre eram bem calculados ao extremo. Mas o mundo decrépito que os circundava era o caos e o akielon não sabia o quanto de lógica humana funcionava naquela realidade em que homens não agiam como homens. Nem como animais. Nem como nada que pensasse, sentisse, amasse ou nutrisse alguma fé. Aquela era a arena dos mortos de alma em que a congruência humana poderia fracassar.
(cut)
No instante em que Damianos se retirava, um grupo barulhento de nobres e seus escravos de estimação que haviam adentrado o recinto, caminharam entre as pessoas até tomarem o espaço vazio ao lado de Nikandros. Eles se esparramaram entre as almofadas de seda e, rapidamente, começaram a se servir de vinho.
Todos usavam roupas veretianas e, pelo sotaque, Laurent identificou que eles deveriam ser de Belloy. Os escravos de estimação faziam massagens nos homens e os acarinhavam sem pudor.
Um dos veretianos possuía uma risada profunda e dizia ao outro:
"Eu disse que não estávamos atrasados. O melhor acontece no fim da noite. Não poderia viajar para Arles sem perder as atrações da capital..."
Depois, ele pegou a mão de um dos escravos e a levou até o volume em sua calça. Um momento constrangedor se fez em que o homem fitava Laurent e Ancel enquanto era acariciado. Com uma risada, ele moveu o seu rosto de serpentes, dirigindo-se a Nikandros e lorde Berenger:
"Ei, qual é o problema de seus escravos de estimação? Eles se sentam só aí com vocês dois, trocando ideias sobre a luta e a noite? Vocês parecem tristonhos. Querem um dos meus?"
Um silêncio se fez, antes que Nikandros mentisse, replicando em veretiano:
"Acabamos de chegar de viagem..."
"Ah, um akielon!" — disse o homem, levantando o copo ao não deixar passar desapercebido o sotaque do kyros— "De qual parte de Akielos?"
"Aegina!" — mentiu Nikandros.
"Bom, seja bem-vindo! Apesar dessa patacoada de nações-irmãs e do brutamonte de Akielos e do puto de Vere serem duas desgraças para os nossos reinos, aqui somos amigos. Temos interesses em comum..."
Laurent, que estava sentado próximo de Nikandros, sentiu a tensão percorrer o corpo do kyros ao ouvir o veretiano falar mal do seu rei Damianos. Se não estivesse ali como um espião, o akielon sacaria a sua espada e a enfiaria na garganta do homem de Belloy.
"E você?" — disse o homem, se dirigindo para lorde Berenger.
"Varenne." — respondeu o cortesão, laconicamente.
"Varenne... Já estive lá. Os ringues de lá são excelentes! Mas é lá a propriedade e vilarejo daquele estrume do lorde Berenger, puxa-saco do rei!"
Ancel deslizou o seu olhar brevemente até lorde Berenger e baixou o rosto. Berenger deu continuidade à conversa:
"Sim. Não gosto também de lorde Berenger..." — mentiu o veretiano.
O homem, se inclinando um pouco para o lado, disse em tom conspirador:
"Berenger ficou na facção do príncipe, mesmo quando o Regente rumou para Ios. Soube que foi uma confusão dos diabos quando o Regente partiu e todos os seguidores do príncipe sabiam que morreriam se o Regente retornasse rei. Aquela vagabunda da Vannes organizou uma fuga de suas escravas e ofereceu a sua propriedade em Acquitart, perto das montanhas de Vask, para Berenger e os outros apoiadores do príncipe se esconderem se as coisas dessem errado."
Lorde Berenger permaneceu um tempo em silêncio.
Ele se recordava do mensageiro de lady Vannes lhe trazendo a notícia de que o príncipe Laurent havia sido feito prisioneiro em Ios e que seria julgado pelo Conselho por falsos crimes. Após isso, sem demora, Berenger acordou Ancel no início da noite, dizendo:
"Vou mandá-lo para Acquitart com os outros na primeira hora do dia. Os apoiadores do príncipe serão mortos quando o Regente retornar e for declarado rei!"
"E você?" — indagou o escravo, cobrindo-se com um xale de seda finíssima.
"Eu ficarei aqui para ajudar os outros. Ancel, haverá perseguições e mortes por todos os lados se o príncipe Laurent for executado. Eu serei perseguido por tudo o que fiz por sua campanha. Meus familiares e criados em Varenne serão todos feitos prisioneiros em retaliação..."
Ancel fechou os olhos, abraçando os seus joelhos sobre a cama como o faria futuramente no ringue da rua das margaridas.
"Eu não vou!"
"Ancel!"
"Eu não vou sem você! Quero ficar ao seu lado!" — falou o rapaz de forma resoluta.
"ME OBEDEÇA!"
"NÃO!" — vociferou o escravo de estimação, se colocando de pé — "O príncipe está preso! Não morto! Tivemos esperança durante todo esse tempo, Berenger! Ele tem um exército! O rei de Akielos está ao lado dele!"
"O que espera conseguir aqui, Ancel? Vai esperar para ver o Regente me castigar? Vai esperar para me ver morrer? Você é jovem e pode ainda..."
"NÃO DIGA ISSO!" — vociferou Ancel com os olhos úmidos — "EU TAMBÉM APOSTEI TUDO NO PRÍNCIPE! EU TAMBÉM SOU A PORRA DE UM VERETIANO! EU NÃO VOU SEM O SENHOR! EU NÃO VOU PERDÊ-LO!" — gritou Ancel, atirando um vaso de cerâmica que tinha na cabeceira da cama no chão. Depois, levou a mão à cabeça, permitindo se sentir tonto e frustrado pelos fatos.
Lorde Berenger, fechando os olhos, sentou-se no colchão com abandono.
"Eu nunca fui um homem corajoso feito você, Ancel..."
"O senhor é! O senhor é o homem mais corajoso que conheço... E leal. Ninguém nunca cuidou de mim como o senhor cuidou. Não vou abandoná-lo." — disse Ancel, segurando a mão do mestre e a beijando.
"Você poderia vender as joias que lhe dei e recomeçar, Ancel. Vannes disse que estava vendo com o embaixador Torveld a possibilidade de realojamento dos escravos do séquito de Laurent em Patras. Você poderia ser feliz em Bazal! Há bastante luxo lá! Os patranos tratam bem os seus escravos."
Ancel contraiu o canto da boca como se estivesse entediado.
"Ainda vamos fingir que estou aqui só pelo ouro e que você me tem só porque é o que se espera de um homem solteiro? Esses últimos meses não foram os meses de um contrato, Berenger..."
"Não, não foram. Por isso, eu não aguentaria ver você... Eu não quero que nada de ruim aconteça com você..." — disse lorde Berenger, virando o rosto e enxugando os seus olhos.
"Ai, Berenger... Só espero que me deixem pelo menos usar as minhas joias se me executarem. Quero ser lembrado como o traidor do Regente mais bonito..." — disse Ancel, com um sorriso à luz mortiça da sala.
"Não fale isso, Ancel... Eu nunca sei... Eu nunca sei como responder às coisas que você diz..."
"Não precisa responder. Podemos só dizer um para o outro o que nos resta..."
Lorde Berenger se voltou para o jovem ao seu lado, tomando o seu rosto entre as mãos e beijando a sua fronte pálida. Ele hesitou, lembrando-se de todas as vezes que foi elevado por seus poemas, sonhando com o amor, sonhando com o sublime, e como permanecera completamente sem reação quando, finalmente, o amor se apresentara diante dele. O amor não era como ele imaginara. O amor fugia ao cálculo e à poesia. Remexia chãos e telhados.
Quantos poemas, lorde Berenger sabia de cor e, agora, todos lhe fugiam. Ele se lembrava somente da primeira vez que vira Ancel, em Sanpelier, antes de ele entrar no ringue. O jovem de olhar verde observando por sobre o seu ombro algo na luz mortiça. A flor mais bela do jardim.
"Você é o meu grande amor, Ancel... Eu sou feliz só por ter podido sentir o que sinto ao seu lado. Eu o amo com todo o meu coração."
Ancel pestanejou os seus olhos vicejantes, deslizando o seu dedo pelo canto do olho.
"Eu também o amo, mesmo achando a sua obsessão por Iságoras e a sua paixão por cavalos enfadonhas, Berenger. Nunca fui do tipo que perde, mas se perdermos, estarei ao seu lado. Até o fim."
"Ancel, se o príncipe Laurent morrer..."
"Se ele morrer... Mas e se ele viver, Berenger?"
Houve a troca de olhar tácita entre os dois homens. Houve a madrugada mais longa da vida de lorde Berenger e houve, nas horas avançadas do dia seguinte, o segundo mensageiro que partira do sul há dias, alcançando o palácio de Arles. Ancel se mantinha sentado nos jardins com a cabeça encostada no ombro do seu mestre, assim como um séquito de cortesões, escravos e serviçais de Laurent. Os homens do príncipe. Os seus cães fieis que não debandariam.
O mensageiro, que cavalgara dias sem descanso, apeou o seu cavalo e trouxe o papel dentro de um aro duro de metal com uma pedra entalhada. O símbolo da estrela. O sinete de Laurent de Vere.
Desenrolando o canudo, ele leu para os presentes, após pigarrear:
"O Regente de Vere foi feito prisioneiro em Ios pelo príncipe herdeiro Laurent e pelo Conselho. Ele será julgado e se a sua traição for comprovada, a morte do Regente será a morte pública de um traidor e a sua cabeça será exibida nos portões do palácio de Akielos, para que todos a vejam! O que sobrar dele não será enterrado. A sua carcaça jamais tocará o mesmo solo em que Aleron, Hennike e Auguste repousam. O nome do Regente não deverá ser apagado dos registros de família e constará neles como matador de príncipes e de reis. Vere não se lembrará dele, mas sim do que ele fez e do que foi feito dele. Tudo o que pertence ao Regente será destruído, queimado ou feito em pedaços. Todos que o seguiram são prisioneiros políticos do rei Laurent agora e serão julgados conforme as leis de Vere. O exército da realeza se aproxima, neste momento, dos muros de Arles. As bandeiras da estrela serão desfraldadas no Grande Salão. Quem machucar ou encostar em qualquer pessoa do seu séquito será executado como o Regente. Vida longa ao rei!"
No jardim cercado por ciprestes, roseiras e fontes com esculturas de mármore, Ancel ainda tinha o seu xale de dormir sobre os ombros e viu lorde Berenger desmoronar sobre um banco de pedra, levando a mão ao rosto. Toda a tensão de horas sendo sentida, agora, por seu corpo. As olheiras pela noite em claro muito vívidas e profundas.
As pessoas que compunham o séquito de Laurent se abraçavam e Ancel envolveu a cabeça do seu mestre, puxando-a para o seu peito, sentindo os seus joelhos tremerem.
Havia entre os seguidores de Laurent e Damen aqueles que lutavam bravamente com espadas e exércitos, matando homens e conquistando fortes. Abrindo caminho na linha de frente. Mas também havia os que lutavam com armas mais sutis, atravessando a noite escura e apostando em perdedores. Perdendo junto com eles até que vencessem. Os que permaneceram. Os remanescentes. Lorde Berenger e Ancel eram dessa categoria.
Na arquibancada do ringue da rua das margaridas, o veretiano desconhecido que puxava assunto com lorde Berenger e Nikandros continuou a falar:
"Recentemente, soube que lorde Berenger acolheu alguns escravos resgatados em suas terras em Varenne. Se eu encontrasse Berenger na minha frente, faria questão de lhe dar uma surra bem dada... Ei, tem certeza que não há nada de errado com os seus escravos? Eles parecem dois cadáveres..." — disse o homem, se voltando para a frente e bebendo mais vinho.
"Eles estão bem..." — disse Nikandros, pondo fim à conversa.
Laurent trocou um olhar tácito com Ancel, sentindo a atenção dos outros homens e dos seus escravos de estimação sobre si. Praticamente, todos os escravos de estimação nas arquibancadas estavam entretendo de alguma forma os seus senhores e senhoras.
Entendendo o que devia ser feito, Ancel deslizou a mão para a calça de um surpreso lorde Berenger. E Laurent, fazendo uso da capa de viagem de Nikandros sobre a sua mão, tocou-o não no pau, mas na sua coxa, fazendo movimentos alusivos.
O kyros de Ios, dando um pulo no seu assento, olhou para os lados, sussurrando em akielon para Laurent:
"O que diabos está fazendo?"
"Não se mexa! Não vou tocá-lo de verdade! Nossos vizinhos estão desconfiados."
Nikandros se mexeu com desconforto:
"Que merda, L.!"
"Fique quieto! Acaricie a minha cabeça como lorde Berenger está fazendo com Ancel. Você está parecendo uma estátua."
Nikandros revirou os olhos pelas frestas da sua máscara e depositou a sua mão na cabeça de Laurent. Ela era pesada e parecia uma pá. Não havia carinho. Somente a existência dela na cabeça loira de Laurent.
O veretiano suspeitava há muito que Nikandros sentia uma nulidade total de atração por sua pessoa. Quando o kyros de Ios lhe ensinara a luta livre em Ios, Laurent sabia que era comum os lutadores praticarem nus e uma ereção ou outra se tornava comum por conta dos movimentos corporais. Nessas horas, os atletas se afastavam e tomavam água ou molhavam as nucas.
Mas com Nikandros, Laurent não vira isso acontecer. O kyros passou a lutar com uma tanga depois que o veretiano insistiu em praticar o esporte, trajando as suas roupas de ilhós e laços. Não houvera ereção. Somente impaciência e golpes rápidos. Se colocassem os dois juntos numa sala trancada pela eternidade, eles brigariam para sempre. O kyros, notoriamente,não sentia atração nenhuma por Laurent e isso, de alguma forma, deixava o rei veretiano à vontade. Muitos queriam foder o rei de Vere e especulavam ainda sobre a sua frigidez. Mas Nikandros não via Laurent como alguém sexual e havia algo de acolhedor nisso. Ele era um lugar seguro.
Nikandros parecia um cunhado mais velho mal-humorado e irritadiço. Ele estava pouco a pouco desenvolvendo a mente de touro velho de Makedon. Seria insuportável quando Nikandros fosse ainda mais velho e Laurent e Damen fossem passar o verão em Ios. Nikandros se tornaria rabugento e, em todas as conversas, somente Damianos teria razão. Laurent não saberia de nada de Akielos porque aprendera tudo em livros e não vivera a sua infância lá. Seria um inferno. Mas Nikandros, sem dúvida, estaria lá.
"A sua mão parece um saco de farinha em minha cabeça..." — disse Laurent, incomodado com o peso.
Nikandros respirou fundo e bateu na cabeça de Laurent com três pesados tapinhas.
"Melhorou?"
"Não... Vejo que ainda me odeia..."
"Ora, o que quer que eu faça...?"
"Quero que me acaricie ao invés de me surrar com essa pata de leão. Despreza tanto assim ainda a minha relação com D.?"
Nikandros retirou a sua mão com aborrecimento.
"Só não gosto de tudo o que fez ele passar! D. é um bom homem!"
"Eu sei disso! Sei que lhe causei sofrimento, mas lhe proporcionei também muitas alegrias. Quebramos uma cama em Delfeur enquanto eu o fazia feliz!"
"Ora, L., pare de me dizer essas coisas! Não gosto dos seus métodos veretianos! Não gostei também de como agiu ontem!"
"Ainda vamos falar sobre isso?! Você aproveitou cada segundo com S. e I. e diz que não gostou dos meus métodos?! Você ficou aborrecido por eu lhe dar exatamente o que queria!"
Ao lado deles, o homem veretiano sussurrou algo no ouvido de um dos escravos de estimação, que olhava em direção ao grupo de Laurent ininterruptamente. O rapaz era um jovem de pele muito branca e cabelos escuros. Ele se ergueu, fazendo uma reverência para o seu mestre e veio se sentar ao lado de Laurent. Dirigiu-se, então, a Nikandros com uma mesura:
"Meu mestre me enviou para servir ao senhor. Vocês parecem estar discutindo. O escravo é um novato?"
Nikandros se deteve um instante, vendo o jovem seminu sentar ao lado de Laurent e levando, sem mesuras, a mão com uma pulseira luva de ouro cravejada de turmalinas ao seu pau. O kyros segurou o pulso do jovem, dizendo:
"Meu escravo e eu temos opiniões diferentes, mas não há necessidade disso..."
"Não gosta de sentir prazer assim, mestre?"
"Ah, ele gosta sim..." — disse Laurent com alguma ironia, recordando-se da experiência sexual adolescente que o kyros e Damianos viveram juntos quando eram muito jovens.
"Eu demoro um pouco para começar a me divertir..." — mentiu Nikandros, afastando novamente a insistente mão do escravo de estimação.
"Posso usar a boca se preferir. Posso me sentar em seu colo também. Ou então, o senhor deveria beber uma taça de vinho ou um refresco... "— e, olhando para Laurent, o rapaz sorriu, demorando o seu olhar no pulso do outro veretiano.
Intuindo que a sua falta de encaixe com Nikandros era algo notório até mesmo para um cego, Laurent mentiu:
"Eu fui treinado com os métodos akielons. Meu mestre se atrai pela submissão e pelo recato..." — mentiu Laurent.
"Entendo... Você é muito belo. Deve ter obtido um bom contrato..." — disse o escravo de estimação — "Meu nome é Toby. Meu mestre é um sovino e o meu contrato é um desastre. Ele só pensa em montar e em vinho. Até a porra do meu mestre cheira a vinho. Você é de Arles?"
Laurent assentiu. Algo na sinceridade do rapaz lhe lembrava Ancel.
"...Eu sou de Belloy. Nasci e fui criado nos vinhedos. Meu mestre me achou lá porque é um beberrão e se pudesse, bebia vinho do próprio alambique pela eternidade. Ele me viu trabalhando e montou em mim entre as parreiras. Ele gostou de mim. Depois disso, ele ofereceu um contrato para a minha mãe e cá estou eu. Isso foi há três anos."
O rapaz não devia ter mais do que dezoito.
Toby tentou deslizar novamente a mão para o pau de Nikandros e, novamente, foi impedido. Depois, ele tentou puxar a mão do kyros para o seu pau, sem sucesso. Por fim, o escravo esticou o seu pé com uma tornozeleira de dedos de safira pela coxa do kyros que o deteve.
"Você já frequentou a corte?" — indagou Toby e, antes que Laurent dissesse algo, ele emendou — "Um dos trabalhadores do lagar da vinícola, Tharname, veio de Arles. Ele serviu à realeza."
Toby voltou o seu rosto para o ringue, vendo um escravo de estimação derrubar o outro. Ele sorriu junto com a plateia. Depois, ele voltou o seu olhar violeta para Laurent, que ainda o fitava.
"Eu nunca estive na corte. Quem é Tharname?" — indagou Laurent, fingindo desinteresse, mas sentindo um choque em seu corpo pela menção inusitada ao nome do irmão de Theodore. Será que ele e Toby estavam falando da mesma pessoa? Tharname não era um nome comum em Vere.
"Achei que você, sendo de Arles, talvez pudesse conhecê-lo, mas é estupidez minha porque Arles é enorme..."
"Esse tal de Tharname também foi comprado como um escravo de estimação por seu mestre?" — perguntou Laurent, sondando Toby e se fingindo de bobo.
O rapaz revirou os olhos nas órbitas.
"Tharname deu a sorte grande! E também o azar grande! Ele foi o garoto de alcova do Regente..."
Laurent se voltou com alguma surpresa e usou o seu autocontrole para não erguer os seus olhos.
"O garoto de alcova do Regente..."
Toby se acomodou em uma almofada como alguém que conta uma fofoca.
"E o irmão dele, Theodore, foi o escravo de prazer do príncipe Auguste. Eles serviram à família real e foram mimados. Aprenderam até a ler e a escrever porque a rainha gostava deles. Nunca conheci Theodore. Só Tharname. Ele era um beberrão como o meu mestre. Às vezes, amanhecia bêbado nas tavernas e quando se irritava, gritava com os outros, xingava todos e quebrava coisas. Eu gostava dele, apesar de ele ser de difícil trato. Ele me ajudava no trabalho da plantação quando estava sóbrio, mas arrumou briga com um soldado um dia e foi morto..."
Laurent ouvia tudo e sentia o olhar de Nikandros alternando entre a conversa e o seu entorno, como um guarda alerta.
"Se ele serviu o Regente, por que voltou para os vinhedos?"
"Porque ele foi acusado de roubo e mandado embora do palácio! O Regente gostava de garotos pequenos e Tharname cresceu. O rei Aleron não mandava embora os seus escravos. Então, como o Regente não queria mais Tharname por perto, ele colocou em suas coisas um anel seu e o fez ser expulso do palácio. Roubos não são tolerados na corte. Ele mal se despediu do irmão, antes de ser enfiado numa carroça de volta para Belloy..."
Laurent era muito criança na época para se lembrar desses detalhes. Ele se recordava de muito pouco. Talvez de ver Theodore chorando copiosamente em algum lugar e de Auguste tê-lo consolado. Se lembrava também de Theodore mencionar com amargura Tharname nas conversas com Auguste.
Audin havia dito que Tharname morrera em Belloy e que se tornara um beberrão. Mas Laurent não sabia que o seu tio havia molestado o garoto. Possivelmente, nem Theodore e Auguste faziam ideia. Havia muitas coisas que Laurent não sabia. O matador de príncipes fazia o que se esperava dele há muito tempo. Ele matava mesmo antes de Laurent nascer. Eram tantos príncipes mortos que podiam lotar a cidade de Ios.
Toby fez uma careta, observando o escravo no ringue escorregar sobre o outro, parecendo sentir dor. Depois, ele avaliou novamente Laurent, dizendo:
"Tharname disse que sabia de um segredo do Regente que ninguém mais sabia. Segundo ele, o Regente e um apoiador dele fariam algo terrível contra a realeza. Tharname tinha medo do Regente e desse apoiador. Por isso, ele ficou de bico calado quando foi acusado de roubo..."
Laurent depositou o seu olhar azul adstringente sobre Toby, dizendo:
"Dizem aqui em Arles que o Regente mandou matar o rei Aleron e trabalhou para a morte do príncipe herdeiro Auguste..."
Toby virou o seu rosto, com os olhos violetas ainda fixos no ringue.
"Antes disso! O que o Regente fez de errado e Tharname sabia foi antes do rei Aleron e do príncipe Auguste morrerem em Marlas..."
Laurent pestanejou, com um apóstrofo no canto dos lábios que fugiu ao seu controle.
"O que ele fez?"
Toby deu de ombros, voltando a sua atenção para Laurent.
"Quem sabe? Tharname está morto." — depois, detendo-se por alguns segundos, o escravo disse — "Você é loiro como dizem que o rei de Vere é. E o seu mestre tem a pele oliva e os cabelos escuros como Damianos de Akielos. Muitos mestres veretianos gostam de escravos akielons agora por causa da história de como os dois reis se apaixonaram e de como o rei de Akielos serviu Laurent de Vere. Akielons estão na moda. Adoraria foder com vocês dois." — disse Toby.
Nikandros pigarreou.
"Seu mestre pode não gostar..."
"Meu mestre não se importa. Aqui é o ringue. Posso chupar o pau do seu escravo de estimação, mestre akielon?"
"Não, não pode."
O rapaz moveu o seu olhar em direção a Laurent, torcendo a boca.
"O seu mestre é chato..."
"Ele é um bom mestre. Você gosta de ser um escravo, Toby?"
"É melhor do que a vida nos vinhedos. O Regente aumentou os impostos na época em que trabalhei lá e dobrou a meta da produção de vinho para nós, empregados. Trabalhávamos de sol a sol. Antes, eu achava que ser um escravo de estimação poderia ser algo ruim, mas, agora que os contratos de escravos podem ser extinguidos, tenho medo de terminar na penúria e meu mestre se livrar de mim. A minha mãe tinha outras cinco bocas para alimentar e acho que ela não gostaria que eu voltasse para Belloy. Meu mestre diz que a abolição de escravos será prejudicial para nós, escravos. E que a alforria afundará Vere."
"A alforria afundará Vere..." — repetiu Laurent de um modo seco.
Toby sorriu, olhando para o seu mestre que lhe acenou.
"Sobre o que estão falando?!" — gritou o homem veretiano de seu lugar, parecendo bastante alcoolizado — "Entretenha-os, Toby! Você não insistiu para se juntar a eles? Fodam de uma vez!"
Toby pestanejou, trocando um olhar significativo com Laurent enquanto o mestre veretiano e os seus companheiros elevavam risadas sem classe.
"Estamos falando sobre o futuro, mestre!" — declarou Toby com um olhar fixo em Laurent e, em seguida, baixando consideravelmente a voz— "Meu mestre está bem otimista sobre os planos de tomada do poder em Arles e diz que podemos morar na corte se tudo der certo. Eu gostaria de conhecer a corte..."
Laurent pestanejou:
"Quer ir para a corte?"
"Sim." — falou Toby, prontamente — "Eu, a minha mãe e os meus irmãos. Não sei como seria para eles a vida sob o regime da estrela gêmea, no entanto..."
Laurent franziu o cenho e, antes que conseguisse evitar, ele ergueu os seus olhos azuis.
"Estrela gêmea? O que é isso?"
Toby declinou o seu rosto diante do olhar firme de Laurent com deferência, não controlando também as suas reações.
"Dizem que é o Regente. Nos ringues, comentam que o irmão de Aleron ainda está vivo e que tem a sua própria corte aqui em Arles... E que ele quer caçar o rei Laurent como caçava os javalis em Chastillon."
Laurent franziu o cenho, dizendo com secura:
"Bobagem! Todos sabem que o Regente caiu em Ios."
Toby pestanejou com um sorriso enviesado. E, após um breve momento, disse:
"Tharname me contava que o Regente o visitava nos seus pesadelos, mesmo quando ele havia voltado para Belloy e o irmão do rei residia na capital. O coitado do Tharname mijava na cama que nem um garotinho, apesar de ser um homem feito. Tharname me contava as histórias das vezes em que ele servia o Regente. Ele tinha medo que, mesmo estando longe, o Regente o achasse. Tharname, quando estava bêbado e choroso, falava tudo... "
"Por que, afinal, pediu para o seu mestre para nos servir?"— soltou Laurent.
Toby moveu os lábios num murmúrio, após demorar o seu olhar no bracelete das nações-irmãs. Lentamente, o escravo ergueu os seus olhos, cravando-os no rosto de Laurent com um gesto cheio de significado.
"Não pude deixar passar a chance. Tenho esperado por ela." — e, olhando para o ringue em que um escravo menor deu uma rasteira num outro com o dobro do seu tamanho, tombando-o, ele acrescentou — "O que é um escravo sem esperança? Certa vez, eu vi a comitiva das nações-irmãs passando por Belloy. Vi o rei Laurent e o rei Damianos de perto entre a multidão. Desde então, tenho esperado vê-los de perto novamente."
Laurent se encerrou em silêncio.
Toby havia o reconhecido e barganhava em meio àquela conversa codificada. Toby era um escravo de estimação no ringue e o que ele queria era muito claro. Uma corda para poder escalar para fora do fosso em troca de um possível segredo.
Havia um estranho encadear entre os irmãos mortos Theodore e Tharname e o modo como algo secreto relacionado a eles surgia diante de um ringue como se fosse um fantasma. Havia uma morbidez naquela réplica da corte do Regente se proliferar nas sombras de Vere.
E havia a não-coincidência de um escravo que sabia demais se aproximar de Laurent, expondo-se em um insinuar de palavras.
Toby voltou a sua atenção para a luta demoradamente e, por fim, disse para Nikandros, como se a coragem que reunira para negociar tivesse se extinguido.
"Se o senhor não precisa da minha companhia, vou voltar para o meu mestre... Não há nada mais para eu fazer aqui..."
Laurent trocou um olhar com Nikandros e, se colocando sobre os joelhos, lhe sussurrou no ouvido:
"Traga o mestre dele até aqui. Vamos seguir conforme o plano e tentar descobrir algo de útil com os frequentadores do lugar..."
Nikandros agiu de um modo assertivo e eficiente. Ele ergueu os dedos, pedindo vinho a uma escrava com uma bandeja de prata e fez um gesto, solicitando que a mulher servisse o mestre de Toby.
"O senhor bebe comigo?"
O homem com a máscara de serpentes fez um gesto entusiasmado e bateu no ombro dos seus companheiros, levantando-se meio trôpego para dar alguns passos e se esparramar nas almofadas ao lado de Nikandros.
"Ora, por que não?" — disse o homem, esticando a sua taça para que a escrava a enchesse de vinho da jarra.
Depois, ele tomou um prolongado gole do copo enquanto acariciava sem mesuras, o seio nu da escrava, que olhou para o lado com incômodo, apesar de não reagir.
"Aposto que vocês, akielons, fodem dia e noite com mulheres. Aqui em Vere é tabu, apesar de alguns veretianos ignorarem o fato e as foderem. Creio que a minha mão, no entanto, não engravidará essa beldade..." — ele desceu a mão entre as pernas da mulher e depois a dispensou com um gesto.
Nikandros constatou que precisaria de estômago para lidar com o mestre de Toby. Ia ser difícil.
"...Eu já visitei Akielos. O que está achando de Vere?" — indagou o homem.
"Eu conheço pouco de Vere. Me fale mais daqui..." — respondeu Nikandros.
"Não há o que falar. É o que está vendo. Temos um pirralho no poder e Damianos de Akielos ao seu lado. Por essa, os apoiadores do Regente não esperavam. É preciso ser feito de gelo para fornicar com o assassino do próprio irmão. Muitos veretianos odeiam Laurent."
Nikandros observou o rei veretiano com a sua cabeça baixa, fitando o chão.
"Muitos akielons não apoiaram também a criação das nações-irmãs..." — declarou Nikandros.
O mestre de Toby tomou outro longo gole de sua taça.
"É como Vask e Patras há um tempo atrás. Todos queriam que eles se matassem, mas, do nada, no fim da guerra, surgiram com um tratado de paz idiota. Aleron havia mandado suprimentos para Patras para ajudá-los na guerra, depois que o Regente insistiu muito. Havia um olho de Vere na possibilidade de conseguir Ver-Vassel para si quando Torgeir ganhasse, mas o melhor que Vere conseguiu foi a retomada do fornecimento de batatas e um olhar enviesado constante da imperatriz."
"Patras e Vask estão instaladas em Arles..." — disse Nikandros, escolhendo as suas palavras.
"Sim. O rei abriu o seu palácio para Vask e não faz nem ideia de que é Vask que está financiando a sua derrocada..."
Laurent resistiu ao impulso de erguer os olhos para o kyros e Nikandros de descê-los até o rei.
"Vask...?"
"Ora, não sabia, meu amigo? Vask tem bancado até mesmo o vinho que entornamos aqui. Tem mandado alguns de seus concubinos também. E está conseguindo levar os ringues até Patras... O rei é muito imaturo por confiar em Vask, que envenenou a água dos soldados inimigos na guerra..."
Nikandros permaneceu um tempo quieto como se algo lhe ocorresse. Depois, sacudindo a cabeça, perguntou:
"A imperatriz está por trás disso tudo...?"
"Bom, não dizemos nomes, meu amigo. Mas nunca se deve confiar nas mulheres. Era o que o Regente dizia. Quem está lá infiltrado na corte nos prometeu que derruba o rei antes de que qualquer outra lei abolicionista seja aprovada. Além do mais, Torgeir não gosta de akielons por causa da tomada de seus fortes em Aegina na época da guerra de Patras com Vask, como deve saber. Ele não ia com a cara de Theomedes. No fundo, ele deve ter detestado o conluio de Vere com Akielos e a possibilidade de perder os seus escravos dos campos de cevada. Em outras palavras, o rei Laurent está com duas cobras em casa..."
O olhar de Nikandros estava sombrio.
"Theomedes tomou os fortes e, em troca, acolheu patranos em suas terras."
"Theomedes se aproveitou da fragilidade de Patras e lhe impôs uma troca nem um pouco justa. Um rei não esquece." — o homem deu uma risada, vendo uma cena de foda no ringue e se voltou para Nikandros — "De onde mesmo disse que o senhor era?"
"De Aegina!" — respondeu Nikandros de um modo vago.
"O senhor não tem o sotaque de Aegina. Tem o jeito de falar de Ios."
Nikandros se deteve com alguma inquietação, pigarreando:
"Morei algum tempo em Ios..."
O mestre de Toby olhou, então, o seu escravo e o cutucou com o pé.
"Ei, você morreu também? Podemos ver alguma atividade aí? Não está aqui para bater papo, Toby! Por que não fode logo esse loirinho aí?"
Toby ergueu o seu rosto, parecendo se animar com a ideia. Laurent mantinha o seu rosto baixo, organizando tudo o que escutara nos compartimentos intricados de seu cérebro.
Vask estava financiando os ringues. Alguém estava tentando derrubá-lo do trono, antes que a abolição fosse declarada. Torgeir guardava mágoa de Akielos. O Regente fizera algo terrível, antes do conflito de Vere e de Akielos em Marlas. Tharname sabia o que o Regente fizera, mas estava morto. Contudo, o segredo talvez ainda seguisse vivo. Ponto.
Laurent se sobressaltou quando sentiu a mão de Toby em sua coxa.
O kyros de Ios se inquietou.
"Não creio que seja interessante para mim ver o meu escravo com o seu, meu senhor..."
O homem estalou a boca, aplaudindo o fim da partida no ringue com a vitória de um rapaz vaskiano e acariciou o seu escravo.
"Meu senhor akielon, aqui não há decoro. Meu escravo pode ensinar o seu a servi-lo melhor, assim como o ruivo bonito ali está servindo o seu mestre..."
Nikandros olhou para o lado e viu que Ancel havia se sentado no colo de Berenger para tentar disfarçar a falta de ereção do seu mestre, que parecia ainda tolhido e assustado. Ancel se forçou a sorrir, tentando passar alguma credibilidade.
"Não há necessidade..." — argumentou Nikandros.
"Qual é o seu problema?"
"Não há problema algum comigo!" — respondeu o kyros, evidenciando alguma impaciência.
"O senhor traz um escravo bonito para a nossa sociedade para jogar conversa fora?"
"Não posso?"
"O senhor é brocha ou o quê? Nunca esteve num ringue antes? Quais ringues já frequentou? O senhor não parece inteirado das normas da nossa casa e parece ter medo de tocar no seu escravo! Por quê?!"
Nikandros titubeou. E os companheiros do homem olharam em sua direção.
"Posso beijar Toby!" — antecipou-se Laurent de um modo abrupto com o olhar ainda baixo.
O mestre de Toby estava desconfiado daquele distanciamento entre Laurent e Nikandros. A falta de intimidade entre os dois e a superproteção do kyros estavam levantando suspeitas e chamando a atenção.
Toby sorriu com entusiasmo e Nikandros olhou para os lados, torcendo para que Damen voltasse logo. As coisas estavam começando a sair de controle.
O mestre veretiano se animou.
"Viu, meu senhor? O seu escravo, talvez, prefira o tipo do meu escravo. Eles estão se dando bem. Beije-o, Toby! Espero poder ver um beijo de língua decente pelo menos..."
Laurent ergueu brevemente o seu olhar para Toby. O escravo era um rapaz muito bonito e com olhos violetas. Sua boca era bem desenhada e havia algumas sardas em suas faces.
O rei veretiano, quando pensava em beijar, lembrava-se de Ravenel. Lá, ele e Damen se beijaram pela primeira vez e o seu autocontrole oscilou e despencou por sobre a ameia no chão duro de pedra, partindo-se para sempre.
Laurent respirou fundo como alguém que realiza um mergulho e avançou para Toby. O beijo não foi desagradável como ele temeu que fosse, mas a sensação era estranha. Aquilo era como trair Damen.
O escravo era um perito e, rapidamente, avançou sobre a boca de Laurent, massageando a sua língua, forçando-o a abrir mais a sua boca com depravação. Depois, Toby envolveu a nuca de Laurent e se curvou sobre ele, guiando as línguas dos dois para fora das bocas enquanto tateava o cabelo claro revestido por joias. Toby movimentou a posição do beijo para que os seus mestres os vissem.
Nikandros fechou os olhos, incomodado. O homem ao seu lado estava exultante e aplaudiu quando os dois escravos de estimação se afastaram.
"Até que enfim alguma ação! É excitante vê-los juntos! Meu caro, eu estava refletindo enquanto os dois se beijavam que podemos fazer um arranjo ainda melhor. O que acha de colocarmos os dois no ringue?"
Nikandros, rapidamente, puxou a corrente de Laurent, forçando-o a se levantar e a se sentar ao seu lado. O veretiano estava com o corpo enrijecido e o azul dos seus olhos coagularam. Nikandros gelou.
"Não!" — declarou o kyros — "Meu escravo não sobe no ringue!"
Toby moveu o seu rosto, fitando Laurent e Nikandros. Havia alguma curiosidade em seu olhar.
"Todos os escravos de estimação devem subir no ringue. Não leu os termos de nossa sociedade secreta, meu senhor? Por que está resguardando tanto o seu escravo? Ele é feito de ouro? É virgem? É frígido como o rei?"
"Ele não vai subir no ringue!" — falou mais alto Nikandros, levando a mão à algibeira onde se encontrava a sua espada curta. Algumas pessoas na frente se voltaram para trás.
Laurent segurou o braço do kyros e o mestre de Toby os olhou com desconfiança. Foi lorde Berenger que, se colocando de pé, interveio de um modo diplomático:
"Podemos discutir isso entre nós? Perdoe o meu amigo akielon, meu senhor. Ele é um pouco rude com as palavras quando se sente contrariado..."
O homem assentiu, puxando Toby pela corrente ao girá-la no pulso.
"Certo. Explique para ele o nosso ajuste para que entenda. Não guardamos escravos para nós aqui e não fazemos uso de escravos intocados. Akielons parecem ter dificuldade em entender acordos..."
Laurent ainda se mantinha atrás de Nikandros e, discretamente, limpou a sua boca com o dorso da mão.
Berenguer, se aproximando com Ancel ao seu lado, cochichou:
"Os companheiros dele estão olhando para nós. O que faremos?"
"Precisamos sair daqui!" — declarou Nikandros.
"Não! Damen ainda está obtendo informações. Se sairmos agora, todos podem ficar desconfiados! Os nossos esforços não terão valido de nada!" — retrucou Laurent, muito baixo.
"Podemos inventar uma desculpa e sair discretamente. Já descobrimos alguma coisa. Posso procurar Damen no andar de cima..."
"Não!"
"O que quer então, Laurent? Vai subir no ringue? Não viu o que acontece no fim da luta?" — irritou-se Nikandros ainda cochichando.
"Posso vencer Toby!"
"Não tenho dúvida disso! Mas vai querer foder com Toby diante de todos? Não nos damos bem, Laurent, mas não acho que você mereça se sujeitar dessa forma!"
Laurent fechou os olhos e o seu semblante de desgosto era evidente. Aquilo parecia fugir ao seu cálculo e a tensão do que lhe era exigido parecia incomodá-lo. Ele moveu rapidamente os olhos baixos, tentando encontrar alguma solução entre as gavetas do seu cérebro, mas estava com o corpo rígido, encurralado em algo que não previra.
"Droga, eu vou!" — disse Laurent com uma determinação derrotada e sombria. Depois, com um sorriso contrariado de resignação, ele murmurou— "Então é assim que pagarei pelos meus erros?"
Certa vez, Laurent assistira a Damianos no ringue com Govart, sem piedade, ansiando pelo pior. E, agora, ele era puxado para o ringue pelo ir e vir das coisas, sem piedade, tendo em seu horizonte também o pior. A vida era um espelho cruelmente justo e letal.
"Não, Majestade, eu vou!" — interveio Ancel, num sussurro agitado.
O rapaz de cabelos flamejantes, que se mantinha calado até então, deu um passo à frente.
"... Estou um pouco mais familiarizado com arranjos assim. Posso derrotar aquele escravo. Posso fazer o que esperam de mim..."
Lorde Berenger fitou o rosto de Ancel e segurou o seu pulso:
"Ancel, não!"
"Confie em mim! Não podemos deixar o rei passar por isso. Vi ele com Nikandros e com aquele escravo. Ele está tremendo só de pensar na ideia. Esses homens vão acabar percebendo quem ele é e nos matando!"
"Mas você vai...?"
"Só preciso encenar, meu amo! Não preciso fazer de verdade. Confie em mim!"
"Tem certeza de que pode fazer isso sem se machucar?" — indagou Nikandros.
"Posso! Eu sou a porra de um veretiano e sou o melhor puto de toda Vere. Quando eu disse que vinha para ajudar, não estava mentindo. Isso aqui para mim é fácil!"
Lorde Berenger tocou no ombro do rapaz.
"Você não é mais um prostituto, Ancel."
"Confie em mim, Berenger!"
"O que devo fazer então, meu anjo?!"
"Fique ao meu lado no ringue. Aposte em mim. E me compre um colar de rubis com o que ganharmos nas apostas!"
O mestre de Toby fez um movimento, chamando o grupo:
"A luta já terminou! Podemos anunciar os dois?"
Nikandros se voltou para lorde Berenger.
"Tenho a sua anuência?"
"Não. Mas Ancel é a pessoa mais astuta que conheço. Eu confio nele como não confio em ninguém! Apostaria todos os meus bens nele!"
Ancel pestanejou os seus olhos verdes, ruborizando um pouco diante de seu mestre.
"Você já me viu em um ringue, Berenger. Esse homem vai se arrepender de ter mexido conosco!"
Laurent observava Ancel com uma curiosidade profunda. Como se tentasse compreendê-lo. Como se não o compreendesse em absoluto. Como se todo Ancel fosse uma cultura diferente e inexplorada feito uma gema bruta.
"Por que está se oferecendo?" — perguntou Laurent.
"Já me ofereci para servi-lo no caramanchão do palácio há dois anos atrás, Majestade."
"Você queria chamar a minha atenção na ocasião para ascender na corte... O que deseja agora?"
"O senhor queria machucar o seu escravo com a língua dos outros! Todos os cortesões achavam que o senhor o odiava, mas percebi naquele dia que o arranjo entre vocês dois era muito mais complexo. Assim como o meu com Berenger era um enigma. Desculpe, mas não era a sua atenção que eu desejava de verdade, Majestade..." — disse Ancel, erguendo o seu olhar para lorde Berenger — "Mas por hoje, só quero que possamos sair daqui vivos. Confiem em mim! Me anuncie, kyros bonitão!"
Assentindo, Nikandros disse para o mestre de Toby:
"O meu anfitrião quer que o seu escravo vá. O meu ainda precisa de treinamento..."
Ancel deu um passo à frente, jogando os seus cabelos vermelhos para trás enquanto o olhar do mestre de Toby e de seus acompanhantes se concentravam nele. Nas suas formas expostas adornadas por joias. No seu sorriso confiante capaz de derreter bronze.
Cutucando Toby, o mestre perguntou:
"Esse aí é bem bonito também. Pode fodê-lo?"
Toby olhou para Ancel de cima a baixo com algum desprezo. Visivelmente, ele preferia Laurent.
"Ele até que é atraente. Acho que serve para montar."
Ancel abriu a boca com indignação.
"Vai sonhando, seu provinciano fedendo a vinho! Seu sotaque caipira dói nos meus ouvidos! Seus gemidos devem ser uma piada!"
Os homens ao redor aplaudiram a troca de farpas entre os dois.
Toby colocou a mão na cintura também, parecendo ultrajado.
"Melhor cheirar a vinho do que cheirar a extrato de beterraba e cenoura para tingir essa juba aí. Aposto que embaixo, você não é ruivo!" — respondeu Toby com maus modos.
Ancel avançou para o rapaz.
"Seu bastardo ignorante de Belloy! Sou ruivo até o último fio de cabelo. É uma pena não poder constatar isso porque o meu pau vai estar enterrado nessa sua bunda magricela!"
Toby arrancou para cima de Ancel com os punhos fechados, mas teve a corrente repuxada por seu mestre. Os homens se divertiam enquanto Berenger, Nikandros e Laurent tinham a boca aberta.
"Será divertido ver um confronto desses dois aí! Sim, coloquemos eles no ringue!"
Algumas vozes exaltadas se ergueram e Ancel, olhando por cima do seu ombro para os outros espiões, piscou um de seus olhos verdes.
"Ele vai dar conta disso." — constatou Nikandros.
Um dos escravos de estimação correu até o mascarado do ringue e lhe sussurrou algo no ouvido. O homem se curvou para escutar o escravo, assentindo ao movimentar a cabeça. Depois, erguendo a sua voz alta, ele anunciou:
"Teremos a luta com uma beldade de Belloy com cabelos da cor do azeviche e olhos de safira. E uma segunda beldade de Sanpelier, com os cabelos da cor do fogo e olhos de esmeralda. Queiram se apresentar no ringue, os escravos e os mestres para começarmos as apostas!"
Uma onda de aplausos e gritos entusiasmados foram ouvidos nas arquibancadas de almofadas de seda, clamando por sexo e barbárie. Ancel, Berenger, Laurent e Nikandros sentiram os pelos das suas nucas se arrepiarem como se uma lâmina afiada deslizasse por elas.
