A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 10
O GÂMBITO DO ESCRAVO
Will you let me, baby, lose
On losing dogs
I know they're losing and I'll pay for my place
By the ring
Where I'll be looking in their eyes when they're down
…I wanna feel it
I bet on losing dogs
I always want you when I'm finally fine
How you'd be over me looking in my eyes when I cum
Someone to watch me die
Someone to watch me die
I bet on losing dogs
(I Bet On Losing Dogs – Mitski)
*Alguns temas sensíveis e que provocam gatilhos estão presentes na trilogia original de O Príncipe Cativo, e, alguns desses tópicos delicados podem estar presentes aqui, não sendo a intenção da fanfic, de modo algum, naturalizar ou apoiar o indefensável. A presença de elementos indigestos compõe a história para deixar claro na narrativa com o que Laurent e Damen estão lutando e porque eles querem tanto matar e enterrar os antigos hábitos promovidos pelo Regente.
**Capítulo com referências ao side story Pet, de C S Pacat, infelizmente, não publicado no Brasil, mas traduzido generosamente por fãs da trilogia no Wattpad e Scribd. O nome Kato é um nome fictício para o escravo de lorde Rouart, cujo nome não era mencionado na obra.
Damen caminhou para fora das arquibancadas do ringue, sendo guiado pelo mensageiro vaskiano.
Não resistindo ao impulso, o rei akielon olhou para trás uma última vez e viu Laurent, disfarçado de escravo, ao lado de Nikandros.
Lorde Berenger e Ancel permaneciam leais, próximos ao rei. Damen precisava agir rápido para tirá-los dali.
Quando o akielon alcançou a entrada de portas duplas escancaradas, um grupo ruidoso que se demorava ali conversando com o animador do ringue passou por ele, exalando um forte odor de vinho. Um rapaz de pele leitosa, cabelos escuros e olhos violetas se voltou para trás, dando uma boa olhada em Damen.
Mais especificamente no bracelete dourado do akielon escapando pelo punho da jaqueta, antes do mestre de Toby lhe dar uma puxada na corrente e ele voltar a andar.
O caminho de retorno do prostíbulo se apresentava para Damianos tão decadente quanto o era quando o atravessara pela primeira vez. Até pior. Algumas pessoas fodiam agora em cantos da ampla sala e os corredores se mantinham barulhentos e arfantes como se as paredes estivessem vivas.
O mensageiro se voltou para trás, verificando se Damen o acompanhava, e o conduziu até uma porta lateral. A porta desembocava em uma outra sala em que pessoas fodiam em cantos escuros ou luminosos pelo lustre, e o homem lhe indicou uma escada pela qual subiriam.
Damen tentou memorizar o ambiente como fazia em campos de reconhecimento militar, mas desviou o olhar, enojado, quando se deparou com uma das crianças que vira antes, servindo a um homem no sofá.
Baixando a cabeça para fugir do horror da cena, Damianos percebeu o assoalho sob os seus pés com um único tapete próximo à escada. Era estranho aquela sala ser de tábuas enceradas enquanto outros aposentos eram acarpetados devido ao frio de Arles. A passadeira era de um vermelho vivo com cenas de caçada, javalis atravessados por lanças e frutas maduras pendendo de folhagens muito verdes.
Quem pensaria em colocar um tapete na descida da escada de um puteiro, proporcionando um escorregão para os clientes alcoolizados?
Certificando-se de que não era observado por seu guia vaskiano, Damen moveu a ponta da bota engraxada e tentou levantar o tapete discretamente. A forma retangular marcando o chão não se moveu. O tapete estava pregado ao chão. Pressionando o seu entorno com o pé, Damen sentiu o relevo de dobradiças. Havia algo ali embaixo. Talvez aquele fosse um alçapão, ocultando mais coisas aterradoras vivendo nas entranhas daquela casa.
Damen, finalmente, alcançou um aposento em que o mensageiro bateu com os nós dos dedos na porta. Entrando, o vaskiano anunciou:
"Senhor, o nosso fornecedor de Aegina!"
Dentro da sala, havia um refinamento que não alcançava os outros espaços. Um homem com a máscara de serpentes repousava muito calmo em um banco à frente de uma janela de vidro colorido e arabescos.
Havia candeeiros acesos, uma mesa de carvalho e um jarro bojudo de vinho sobre a mesa. As taças, no entanto, se mantinham emborcadas e intocadas. Um rapaz bonito de pele morena e cabelos escuros, sentado à mesa, contava moedas e as depositava dentro de um cacifo. As suas roupas eram alinhadas como a dos nobres veretianos, mas das suas orelhas desprendiam-se dois brincos de diamante pesados e havia algemas em seus pulsos.
Damianos fixou o seu olhar na figura sorumbática à janela, que voltou o seu rosto coberto.
"Ah, aí está ele! Obrigado! Pode chamar o chefe dos guardiões de escravos para mim, por favor? Pode levar também Kato, mensageiro."
"Pois não, senhor. Ei, Kato, o seu mestre está lá embaixo! Não sabe da maior!" — comentou o mensageiro, fazendo um movimento com o polegar.
O rapaz de pele brunete fechou a tampa do cacifo ruidosamente e ergueu os seus olhos escuros e preguiçosos para o mensageiro com algum mau-humor.
"Já não era sem tempo!" — respondeu ele, se levantando— "Qual é a maior?"
"Ele arrumou outro!"
"O que?!" — indagou o rapaz chamado Kato, estreitando o seu olhar e empalidecendo como se o seu sangue estivesse sendo drenado.
O homem com a máscara de serpentes fez um gesto impaciente, mas falou com uma voz educada:
"Podem me deixar a sós com o fornecedor e fofocarem sobre isso lá fora? E não se esqueçam do desenho. Levem-no!"
O escravo chamado Kato pegou, com demasiado cuidado, um papel com rabiscos largado sobre a mesa, enrolando-o num canudo e o guardando no seu bolso. Damen achou que o papel rabiscado havia sido obra de alguma das crianças do bordel. No desenho, havia uma casa grande com quatro bonecos palitos e um gato dentro. No lado de fora, um boneco isolado sobre uma montanha estava riscado com tanta força que o papel furara.
"Queira me desculpar..." — falou o homem veretiano com uma voz tranquila, dirigindo-se a Damianos quando os dois se viram a sós — "Por favor, sente-se!"
Damen viu o homem fazer um gesto para que ele se acomodasse na cadeira que Kato ocupava anteriormente. Antes, no entanto, ele teve o cuidado de guardar o cacifo dentro de um baú com chave.
"Espero que o senhor tenha feito uma boa viagem..."
Damen pestanejou, sentindo alguma familiaridade nos gestos do veretiano que se sentou diante dele.
"Sim. Meu sócio e o nosso anfitrião estão se divertindo no ringue..." — e, fingindo alguma surpresa, Damen tocou na máscara sobre o seu nariz reto — "Só estou estranhando um pouco isto!"
O homem espalmou as suas mãos com anéis de pedraria sobre a mesa.
"Uma lembrança da corte. Os bailes de máscara são muito apreciados em Arles. Achei que podíamos adotar essa temática para a festa de hoje, mas, pensando bem, é ideal para mantermos o anonimato..."
Damen assentiu, conduzindo a conversa.
"Os escravos que eu trouxe de navio estão ainda na propriedade do anfitrião e precisam ser inspecionados."
"O nosso guardião de escravos chefe cuidará deles pessoalmente. Ele é muito eficiente com a disciplina e tem mantido todos que atuam no prostíbulo em rédea curta. A adoção da planta damiana que ele introduziu na alimentação dos escravos tem se apresentado muito eficaz. Alguns escravos estão um pouco dispersos e sonolentos. Outros, estão se queixando de algumas dores e de náuseas, mas nada que comprometa o nosso funcionamento..."
"Entendo..." — retrucou Damen.
"O seu pagamento será feito amanhã sem demora. O mensageiro vaskiano trará o dinheiro... Vamos precisar de um novo fornecimento para o verão."
"Será uma honra servi-lo novamente, senhor..." — disse Damen, baixando o rosto coberto pela máscara de leão.
Damen não era bom naquelas jogadas inteligentes como Laurent era, mas ele não podia sair dali com um tapinha nas costas e de mãos vazias. Não quando eles estavam arriscando tanto e havia pessoas sofrendo atrozmente por causa daquele homem diante de si.
"É uma grande ideia o uso de damiana para os escravos indispostos e resistentes." — disse Damen.
"É, não é? O guardião de escravos chefe disse que a erva era fácil de se conseguir graças aos nossos negócios em Patras e, de fato, é. Mas o nosso líder está furioso por ela não ter surtido o efeito esperado na festa de aniversário de Laurent... Não foi dessa vez que conseguimos tirar o rei de Vere do trono, envergonhando-o diante de todos, mas há outras ideias. Nosso líder tem algo em vista..."
Damen sentiu o seu corpo enrijecer e, sem que percebesse, agiu como Laurent, que repetia as palavras, enfatizando o erro.
"Nosso líder tem algo em vista..."
O veretiano sorriu.
"É curioso, não? Aqui, já vimos homens surrarem os outros por conta de alguns cálices de vinho com damiana. Já vimos tentativas de estupro, traições e brigas serem fomentadas nas noites mais agitadas por conta da erva. Por isso, temos os soldados. No entanto, na corte, a erva agiu com a suavidade de um beijo delicado. Não me admira. Laurent sempre foi muito inteligente e sabe virar as situações ao seu favor... Tenho certeza de que ele percebeu o que estava acontecendo..."
Havia quase uma admiração solene nas palavras do homem mascarado. A atenção de Damen se intensificou. Ele reconhecia os seus gestos polidos. Os seus pulsos finos. A sua voz aguda e pausada. De onde?
"O senhor fala com admiração do rei de Vere..."
O homem tocou em seu rosto, ajustando a máscara sobre o nariz adunco, parecendo um tanto tímido.
"Eu o admirei até que não houvesse mais o que admirar. Ele dormiu com o assassino do próprio irmão e agiu como um príncipe mimado, mal-agradecido e egoísta. Vi o que fizeram com o Regente em Ios! Laurent permaneceu feliz, vendo o tio ser morto ao lado do seu amante akielon. Parecia um bárbaro ao lado daquele homem desprezível. A que ponto baixo a Estrela de Vere chegou..."
Damen contraiu os dedos sobre os joelhos, apertando as suas juntas.
"O senhor parecia admirar muito o Regente."
"Ele era um homem forte e deu muitas chances ao sobrinho..."
Por muito pouco, Damen não deixou um ruído de escárnio sair de sua boca. Ao invés disso, ele voltou o seu rosto para a janela. O Regente oferecera a Laurent somente muitas chances de ser morto.
"... Laurent se deitou com o bárbaro akielon, iludido pelo pau de um brutamontes. Foi aí que Laurent foi manipulado por aquele homem e, depois, quis implantar a abolição de escravos em Vere, contrariando os tratados anteriores do Regente."
"Vejo que não gosta de akielons..." — retrucou Damen, voltando os seus olhos para o homem. Os seus olhos escuros e mortiços nas frestas de leão.
O homem deu de ombros.
"Nada contra akielons, mas o rei Damianos especificamente. Laurent o colocou como escravo em um ringue para ser estuprado de tanto que o odiava. Mandou lhe surrarem quase até a morte. E o humilhou em um caramanchão. Por que ele se sujeitaria a se deitar com o assassino de Auguste em uma tenda suja em uma campanha em Delfeur? Só posso pensar que Laurent foi iludido ou agiu perfidamente."
Damen sorriu, corrigindo o homem mentalmente. Ele e Laurent fizeram amor pela primeira vez em um forte em Ravenel. Em seguida, em Karthas. Depois, numa estalagem à beira da estrada em Mellos. Semanas depois, quando Damen já se recuperara do ferimento causado por Kastor, em Ios. Nessa ocasião, Laurent se movera sobre ele com desespero na sua cama de estrado de mármore, jogando a cabeça para trás, entrelaçando os seus dedos nos dele.
Laurent era um luzeiro em fogo. O luzeiro. E o fogo. E Damen era a semiconsciência que testemunhava ele raiar sobre tudo o que poderia tocar e incendiar.
Damianos poderia morrer de felicidade naquela ocasião, ciente de que aquele amor era algo além de seus sonhos mais ambiciosos. O amor era belo sob todas as circunstâncias. Mesmo que tivesse se iniciado em uma tenda suja em Delpha, seria bonito e perene. Ainda assim, seriam dois reis se amando e queimando até as cinzas.
"O senhor foi próximo a Laurent de Vere..." — disse Damen, sem meandros. O reconhecimento do homem contornava as bordas de seu cérebro.
O veretiano passou os dedos pelos cabelos castanhos, dizendo:
"Alguns de nós fomos da corte como o senhor deve saber. Laurent sempre foi obstinado e sempre desobedeceu ao tio. Eu ofereci a minha mão quando ele mais precisou. Eu ofereci os meus cuidados; a minha casa em Marches para ele relaxar de viagem quando retornasse; a minha simpatia pouco antes dele partir para o sul, mas ele se mostrou irredutível e quando ascendeu ao trono, me enxotou do palácio..."
Damen queria murmurar um 'bem-feito' ao perceber uma discreta mágoa nas palavras do homem.
Laurent, a Estrela de Vere, não precisava de cuidados, uma casa de repouso ou a porra da simpatia de ninguém quando foi obrigado pelo tio a servir na fronteira e teve a sua vida na mira da espada do Regente. Ele precisava de soldados, armas, apoiadores e financiamento para fazer o que deveria ser feito. Ver aquele homem dizer que oferecera a mão para Laurent era como ver um idiota oferecendo uma pinça para uma pantera.
Entrelaçando os dedos diante do rosto, Damen disse:
"O senhor tinha afeição pelo rei de Vere. Ouvi dizer que a beleza dele é impressionante..."
O homem retirou do seu bolso um lenço espalhafatoso de seda e enxugou as mãos.
"Um homem pode se deixar levar pelo encantamento arrebatador, meu senhor. Laurent é o homem mais belo de toda Arles. Eu o amei durante muito tempo e tentei cortejá-lo, mas ele sempre recusou as minhas investidas. No início, com palavras delicadas. Depois, com estupidez, azedume e cara feia. Quando tentei me despedir dele em seu quarto no último dia, antes que ele partisse para Delfeur, ele mandou que um soldado apontasse a espada para mim e ameaçou me amarrar na cruz. Depois, me atirou um sapato quando eu já estava indo embora. Imagine como me senti..."
Damen mordeu os lábios, sufocando uma risada ao imaginar o mesmo homem que oferecera a pinça para a pantera tentando lhe arrancar as unhas com ela. Era um milagre ele ainda estar vivo. Deveria estar satisfeito só por isso. Damen nem sempre seguira a cartilha de Laurent, mas pelo menos, ele fora menos atrevido. Laurent nunca lhe atirara um sapato.
"Lamento, meu senhor..." — mentiu Damen, quase não conseguindo manter a voz porque estava com vontade de rir.
Ali, diante dele, estava um homem apaixonado que não oferecera uma moeda de ouro sequer para a empreitada de Laurent, mas investira tudo numa última tentativa de conquistar um príncipe tão desprotegido quanto uma víbora, batendo em seu quarto num dos seus possíveis momentos de mau-humor predatório ou de leitura concentrada. Era de foder.
"... De qualquer forma, o senhor fez um trabalho impressionante aqui. Creio que aprecie bastante o ringue..." — comentou Damen, estudando os movimentos do veretiano ao sondá-lo.
O homem dobrou o seu lenço de seda com um movimento metódico e o levou até o bolso de sua jaqueta de veludo suntuosa.
"Na verdade, aqui é bastante diferente do ringue da corte. Havia um pouco mais de... sofisticação em Arles. Não aprecio tanto como as coisas são conduzidas aqui, mas se quisermos o apoio dos comerciantes aborrecidos com as nações-irmãs; os que não estão dispostos a abdicarem dos escravos de estimação e os criadores e vendedores de escravos desempregados, precisamos tornar as coisas mais palatáveis. Mais populares se é que me entende. A fusão do ringue ao prostíbulo daqui foi uma ideia inteligente do nosso estrategista vaskiano... "
"Entendo..." — pestanejou Damen — "E quando será o golpe de misericórdia nas nações-irmãs?"
"Em breve. É um plano bem elaborado..." — disse o homem.
"E qual é o plano?"
O veretiano mexeu em sua máscara, ajustando-a novamente sobre o nariz adunco.
"Isso, não posso lhe dizer, meu senhor. O nosso sigilo tem mantido as coisas sob controle. Os nossos ringues desmantelados pela investigação de Laurent têm concedido poucas confissões porque, de fato, a discrição mantém as informações retidas. Por sua segurança, é melhor não entrarmos nesse mérito..."
Damen insistiu.
"Entendo. Mas espero que compreenda a nossa ansiedade, meu senhor. Estamos todos temendo a abolição de escravos em Vere e precisamos nos agarrar a alguma esperança."
A máscara de serpentes assentiu.
"Tenha paciência. O nosso líder nos assegurou que fará o que tem que ser feito e nos dará o que nos garantiu."
Damen se manteve um tempo parado.
"Ele está aqui hoje à noite?"
"Não. Mas tenha fé nele. Ele goza de boa reputação e é bem conectado. Dizem que ele era íntimo mesmo da rainha Hennike, tamanha a sua lábia e persuasão."
Damen franziu o cenho por trás da máscara de ouro.
"Íntimo?"
"Sim. Dizem que Aleron chegou a pensar em romper o seu noivado com a falecida rainha por conta dessa ligação estranha entre Hennike e o nosso homem ..."
Damen tinha toda a sua concentração no veretiano.
"Eles eram amantes?!"
"Não tenho certeza disso, meu senhor, mas dizem que a rainha tinha uma estima notória pelo nosso líder, mas mais do que isso não sei dizer. É melhor mudarmos de assunto de qualquer forma."
Havia um atordoamento em Damen e ele se questionava se Laurent saberia quem seria essa pessoa íntima de sua mãe.
"Certo..." — replicou Damen, percebendo que já extraíra o melhor que podia daquele lugar e, fazendo um movimento para se levantar, acrescentou — "Bom, se estamos conversados sobre a inspeção de amanhã, devo voltar para o meu sócio e o meu anfitrião. Quero aproveitar a vinda para Vere e desfrutar do ringue..."
"Como quiser, meu senhor. Aproveite a estadia e não se meta com os apostadores. Eles se tornam violentos quando perdem..."
Damen assentiu, erguendo-se de sua cadeira de espaldar alto. Nesse instante, um barulho se fez na porta e um homem se anunciou com um forte sotaque akielon:
"Mandou me chamar, mestre?"
O veretiano se voltou para o homem com máscara de leão que adentrava o recinto. Ao contrário dos outros, ele trajava um quíton simples cor de marfim.
"Ah, aí está você, chefe dos guardiões de escravos. Nosso fornecedor akielon já está se retirando..."
O homem por trás da máscara de leão fez uma reverência para cumprimentar Damen e uma familiaridade ainda mais forte do que a do veretiano alcançou o rei akielon.
"Seja bem-vindo, senhor." —disse o homem com a máscara de leão, na língua akielon.
A voz dele. O timbre. Os gestos...
"... Com quantos escravos lidaremos agora?"
"Com oitenta." — respondeu o veretiano — "Você precisará rumar para a casa do anfitrião amanhã fazer o reconhecimento e a contagem..."
"Certo. Espero que o conterrâneo tenha feito uma boa viagem de Aegina até aqui..." — falou o homem em akielon, dirigindo-se diretamente a Damen— "A ideia de usarem o navio até Vere ao invés de seguirem pelas estradas e despertarem a atenção dos soldados akielons e veretianos foi minha... Uma experiência do passado útil para o embarque e desembarque de escravos valiosos..."
Damen sentiu um arrepio percorrer a sua espinha. O reconhecimento.
"A viagem de navio foi agradável, senhor guardião. Obrigado por sua dica preciosa..." — respondeu Damen secamente. Um músculo de sua mandíbula se contraiu.
Por uma fração de segundos, o exame da voz forte vinculada à altura de Damen; ao seu físico notável; ao nariz reto; à pele azeitonada pareceram atravessar o guardião akielon, que, em uma outra vida, mandara que acorrentassem o príncipe herdeiro legítimo de Akielos e lhe batera no rosto. Dando um passo para trás, o homem murmurou, gaguejando e falando em veretiano:
"O senhor não tem o sotaque de Aegina..."
Pelas frestas da máscara, os dois olhos escuros de Damianos se fincaram no homem diante de si enquanto o veretiano parecia confuso.
"...Tem o sotaque de Ios... É a voz de Damianos de Akielos! GUARDAS!"
O homem chamou pelos seus soldados duas, três vezes.
O veretiano, tomado pelas palavras do guardião de escravos chefe, afastou-se, andando para trás como se um ninho de vespas tivesse sido aberto. Seus olhos percorreram Damen novamente e um choque pareceu recair sobre ele! A agnição! Dirigindo-se à porta, o veretiano se pôs a gritar também, chamando pelos guardas do prostíbulo.
O movimento de Damen foi rápido. Ele avançou para o guardião e, enquanto o segurava pelo quíton, arrancou a sua máscara com mãos rudes. O artefato voou para longe, sendo arrastado no chão.
"Adrastus! Eu sabia que ainda o encontraria vivo! Eu soube em Ios, no ano passado, que Jokaste havia mentido sobre a sua morte para Kastor. Que ela mandou que você se escondesse em Isthima e ela forjou o seu assassinato! Um homem de minha confiança disse tê-lo visto por suas terras!"
O homem de confiança era o pai de Pallas, um nobre da região. Damen inferiu que a única razão de Jokaste ter alertado e mandado Adrastus se esconder teria sido manter uma outra testemunha viva do golpe de Kastor, caso fosse necessária. Ou então, Adrastus, suspeitando das reais intenções de Jokaste, a chantageara.
"GUARDAS!" — gritou o veretiano, olhando para trás e debandando ao perceber a luta dos dois akielons. Ele se lançou no corredor, fugindo.
Damen recebeu uma tentativa de soco de Adrastus e o rei de Akielos passou a língua pela parte interna dos lábios, sentindo o gosto de sangue.
"Você ainda bate como um pederasta alimentado a leite, Adrastus!"
O guardião de escravos fez menção de fugir e Damen o puxou pelo quíton com uma mão pesada, atirando-o sobre a mesa de carvalho. Depois, tomou uma cadeira de espaldar alto e a usou para manter a porta fechada, apoiando-a contra a maçaneta dourada de arabescos.
No corredor, um grupo de soldados se aproximava, empurrando prostitutos e nobres que se acotovelavam com a confusão. O veretiano já desaparecera de vista.
Adrastus se encolheu covardemente quando viu que Damen se trancara na sala com ele. O rei akielon movimentou os seus ombros largos, alheio às batidas na porta. A sensação do guardião de escravos era a de estar preso numa jaula com um leão.
O homem gritou quando Damen o levantou com um braço pela garganta.
"O que eles vão tentar fazer contra Laurent? O que eles vão tentar fazer contra as nações-irmãs?"
Adrastus se engasgou, tendo os seus pés retirados do chão e levando a mão ao pescoço, parecendo sufocar.
Damen o manteve um tempo no ar, observando os seus olhos arregalados. Depois, ele jogou o homem contra a mesa e voltou a segurar a sua garganta, ordenando com impaciência:
"Fala!"
Havia uma estratégia estabelecida por Laurent para Damen e os outros irem colher informações no prostíbulo e a discrição fazia parte dela.
Havia o plano de sondarem os mandachuvas daquele esquema, antes que, de alguma forma, eles conseguissem escapar.
Mas as coisas haviam saído de controle e Damianos fora reconhecido. Damen agiria, então, do seu jeito. Uma conversa de akielon para akielon.
"EU NÃO SEI!" — esbravejou Adrastus, ofegante.
"Você veio correndo pra cá que nem um rato quando o seu rei Kastor, que quis se livrar de você na primeira oportunidade, caiu. Então, se juntou a essa gente. Achei que não havia mais níveis pra descer, Adrastus..."
"Aqui, guardiões de escravos ainda têm valor! Eu procurei por Jokaste, mas ela sumiu no mundo! Eu precisava recomeçar em algum lugar! Não podia viver em Akielos, após a sua coroação!"
"Você se uniu a alguns outros ratos de um navio que afundou e, juntos, fundaram uma latrina!"
O homem engoliu em seco.
"...Eu quero nomes!" — falou Damen com rispidez.
O homem, parecendo respirar com dificuldade, olhou em direção à porta com a mão ainda no pescoço. Alguém forçava a entrada, mas Damianos parecia não se importar.
"Berenger e Vannes!" — disse Adrastus, movendo o seu rosto com um olhar desafiador, o queixo erguido— "E o seu querido kyros de Ios, Nikandros!"
Damen franziu o cenho, sentindo tanta raiva a ponto de um gosto amargo chegar até a sua garganta. Adrastus já aprendera a viver em Arles, tentando jogar os reis de encontro aos seus apoiadores mais fiéis.
Nikandros e Berenger eram leais como cães.
E quanto a Vannes, ela gostava dos ringues. Era uma falha de caráter. E ela era sincera o suficiente para expor isso para Laurent quando ele falou pela primeira vez de abolição.
No entanto, Laurent lhe contara que Vannes protegeu muitas pessoas de sua facção do Regente e a sua cabeça foi posta a prêmio no dia em que ela se apresentou à comitiva de Laurent, dobrando o seu joelho e murmurando: "Estou aqui, Alteza".
"Mentira!" — declarou Damen, dando um soco com vontade em Adrastus.
O homem caiu no chão e tocou em sua mandíbula, verificando se ela não se partira. Sangue vivo tingia agora os seus dentes.
Quando Damianos avançou para ele novamente, Adrastus ergueu as mãos diante de si, falando:
"Eu não sei o que eles vão fazer para tirar o rei de Vere do trono, mas sei que colocaram uma erva no vinho durante o aniversário de Laurent para que houvesse briga, confusão e caos. Para que ele fosse desmoralizado. Para que daqui a nove meses a corte seja povoada por bastardos. Todos dizem que Laurent de Vere é muito jovem e não tem o verniz do irmão e do pai. Que só quer a abolição de escravos porque abre as pernas pra você, Damianos! Que é a puta preferida do rei de Akielos!"
Damen avançou para Adrastus e ele recuou quando recebeu uma bofetada forte, que tentou impedir com os seus braços.
"Se falar assim de Laurent de novo, vai ser a última coisa que vai fazer, Adrastus! Quem colocou a erva no vinho?"
O homem levou a mão ao pescoço quando Damen o apertou.
"Um escravo..."
"Que escravo...?"
"Um que trabalha na cozinha e veio de Belloy. Não sei o nome dele, mas dizem que ele era o escravo preferido do príncipe Auguste..."
Damen se deteve, pensando em Theodore.
"Quem o mandou fazer isso?"
"Isso, eu não sei! Eu fui trazido aqui pelos guardiões de escravos e um comerciante. Eu não sei quem mexe as peças em Arles!"
"Eu quero os nomes dos envolvidos!"
"EU NÃO SEI! MUITOS VERETIANOS USAM NOMES FALSOS! VASKIANOS TAMBÉM! NOMES DE ESTRELA, INSETOS OU SEI LÁ O QUÊ!"
Damianos espreitou o rosto do homem arquejante, amedrontado e branco como mármore. Irritando-se, ele o empurrou para longe.
"Guarde as minhas palavras, Adrastus! Laurent viverá por muitos ano rei de Vere, quer queiram, quer não! E eu estarei ao lado dele quando ele partir cada corrente de cada escravo deste reino!"
"Você foi domesticado por ele, sabia? No fim das contas, você veio para Vere e se tornou o escravo de alcova do príncipe herdeiro, Damianos. Só faz o que ele manda, abanando o rabo feito um cachorro. Theomedes deve estar se revirando no túmulo!" — retrucou Adrastus, apalpando o seu pescoço.
"Não ouse falar o nome do meu pai! Você o traiu!" — explodiu Damen, sentindo uma onda quente de raiva em seu peito.
O rei akielon respirou de modo curto, parecendo um touro se preparando para atacar. A sua vontade era a de atirar Adrastus pela janela, mas ele precisava lidar com coisas mais importantes. A porta fechada pela cadeira parecia que iria ser arrebentada a qualquer momento.
Então, o rei de Akielos deu as costas para Adrastus, caminhando poucos passos, até sentir que o homem avançava para ele, munido de um punhal que ele retirou de sob a mesa, preso em uma viga. Ele o atacaria pelas costas como o covarde que ainda o era e que nunca havia tentado deixar de ser. Damen se voltou, segurando o pulso de Adrastus no ar, sem muita dificuldade.
"Eu devia tê-lo matado, Damianos, ao invés de ouvir aquela vagabunda da Jokaste e tê-lo mandado para Vere!"
"De fato! Era a única forma de me impedir de fazer o que vou fazer agora!"
A paciência do rei akielon já se esgotara.
Damen chorara como um garoto de dez anos, sentado em um corredor deserto do palácio na última vez que visitara o seu pai enfermo no leito. O homem forte que venerava se tornara um corpo cansado, abatido e que não conseguia mais falar direito ou organizar os pensamentos, preso em uma época em que Damen, de fato, tinha dez anos e corria descalço pelo palácio, comendo damascos.
Theomedes estava tão fraco que o filho poderia carregá-lo nos braços. Somente a sua mão se mantinha pesada sobre a sua cabeça.
Damen deu um forte soco em Adrastus, não medindo, dessa vez, a sua força. A mandíbula do homem deve ter ficado em frangalhos.
"Essa é pelo meu pai!" — vociferou Damianos, sentindo os seus olhos queimarem.
O rei akielon ergueu o homem do chão e o atirou contra a parede com toda a sua força, sem se importar com o estrago que aquilo faria com o corpo do guardião, mesmo quando Adrastus gritou.
Damen se recordou de Erasmus sendo violado por Govart em um jardim cercado por caramanchões, pérgulas e jasmins-manga. A sua perna com uma marca em brasa quente. Todos os outros escravos haviam sido estuprados até não aguentarem mais no navio. O rosto humilhado de Erasmus ao ser tocado sob a túnica com brutalidade por Govart enquanto Damen estava amarrado e não podia intervir o assombraria até o último dia de sua vida.
"Isso é pelo meu povo!"
Adrastus tentou fugir cambaleante e fraco, mas foi capturado novamente de costas pelo seu quíton. Damen apoiou a mão na cabeça do homem e no seu ombro, ajustando o movimento que faria.
O rei de Akielos se recordou de si mesmo no banho de escravos no seu palácio, sendo lavado pela água quente trazida por aquedutos para que fosse acorrentado e exposto para Guion. A morte do pai ainda em carne-viva em seu coração. A traição de Kastor partindo esse mesmo coração fraco. E o seu destino se apresentando horrível e brutal diante de si.
"E essa é por mim!"
Houve um forte estalo quando Damen girou a cabeça de Adrastus, quebrando o seu pescoço. Foi um movimento rápido, letal, assassino. O rei akielon se permitiu ser o bárbaro que diziam ser. E ele se sentiu bem o sendo.
O guardião de escravos caiu de joelhos e desfaleceu sem vida no chão acarpetado no instante em que a porta foi arrebentada e outros guardiões do prostíbulo avançavam pelo recinto, portando espadas e lanças.
Damen sacou, então, a sua espada curta.
Definitivamente, Laurent ficaria aborrecido por Damianos não ter seguido o seu plano. Não havia o que fazer. O akielon seguiria, então, fazendo as coisas do seu jeito.
(cut)
Toby se despia de um lado do ringue enquanto Ancel fazia questão de colocar as suas amadas joias no bolso de Berenger, parecendo temeroso de que elas desaparecessem no meio da luta. Depois, ele se pôs a despir as poucas roupas de seda verde que trajava, assim como a estola de pele castanha, apoiando-as no braço esticado de Berenger, que cada vez mais se assemelhava a um cabideiro.
A plateia assoviou implacavelmente quando Toby e Ancel se apresentaram completamente nus. Ancel acenou para o público, jogando os seus cabelos vermelhos para trás. Ele parecia se divertir com a comoção ao seu redor. Com desenvoltura, ele moveu as mãos, tentando conquistar o apoio das pessoas.
"Aplausos! Aplausos, porra!"
Nikandros afastou os olhos, demonstrando respeito pelo escravo de estimação, ainda que ele agora pulasse no ringue e jogasse beijos para homens desconhecidos que o aplaudiam. Toby o fitava de cima a baixo com uma inveja árida, constatando que Ancel, de fato, era ruivo.
Com um rubor nas bochechas, lorde Berenger, segurando ainda as roupas de Ancel, disse quando o kyros de Ios o fitou:
"Não pense muito a respeito..."
"Sim. Já percebi que isso é quase o segredo de se viver bem em Vere..."
"Ancel gosta da atenção externa, diferentemente de mim. A personalidade dele é única..."
Nikandros desviou o seu olhar para o ringue e viu Ancel, completamente nu, dando uma estrelinha perfeita na arena e levando o público ao delírio. De fato, Laurent não faria aquilo.
"Ele é leal. É tudo o que um homem precisa encontrar em outro homem." — disse Laurent, aproximando-se do ringue e fazendo um gesto para que Ancel viesse até ele.
O rei veretiano sussurrou algo no ouvido de Ancel, o que parecia ser algum tipo de instrução. O escravo de estimação veretiano fitou Toby com a boca torcida e, depois, assentiu.
Ancel e Toby, então, se ajoelharam com os braços em torno um do outro, e o organizador patrano ergueu a echarpe vermelha. Então, a soltou e ela flutuou até o chão.
Era uma imagem singular o enlace dos corpos alongados, esbeltos e pálidos de Toby e Ancel.
Foi Toby quem fez o primeiro movimento brusco, interceptado por Ancel. Um confronto arquejante se iniciou, então, diante dos sons da plateia.
Toby tentou levar Ancel até o chão, mas o rapaz de cabelos ruivos lhe deferiu uma bofetada impiedosa que foi aplaudida pela plateia. Toby bufou, então, e se pendurou no cabelo de Ancel, fazendo-o gritar.
"Seu provinciano bruto e invejoso! Solta o meu cabelo! Solta! Solta, cacete!" — gritou de dor Ancel, enfiando as unhas nas bochechas de Toby, que não resistiu e o largou.
O mestre veretiano de Toby moveu o seu rosto, falando com lorde Berenger:
"Esses dois parecem que querem mais se matar do que foder! Não estão nem gemendo..."
De fato. Houve cotoveladas, rasteiras e até mesmo dentadas de Ancel quando Toby lhe apertou o pau.
O público parecia se divertir com a luta.
"Você não pode me montar, seu puto miserável!" — arfou Toby quando Ancel, finalmente, deslizou para cima dele, forçando-o a abrir as pernas com os joelhos. O seu braço estava sobre a nuca do rapaz.
O golpe era sofisticado. Nikandros considerou que Ancel poderia ser promissor na luta livre akielon, desde que ele lutasse com alguém do seu mesmo tamanho e peso.
"Tarde demais, seu provinciano fedendo a vinho barato!" — vociferou Ancel, num último gesto, forçando Toby a se abrir totalmente.
A plateia gritou e Ancel sentiu o seu pulso acelerado quando ele empurrou o rosto de Toby no chão escorregadio de pau-rosa. Depois, Ancel se curvou sobre o rapaz, sussurrando:
"Onde posso encontrá-lo?"
O escravo de estimação se sobressaltou sob Ancel, mas foi empurrado de volta contra o chão. Com uma voz de escárnio, Toby falou:
"Ainda nem me fodeu e já se apaixonou, baby?"
"Não é pra mim. É pra ele, baby!" — sussurrou Ancel na orelha de Toby, mordiscando-a para dar verossimilhança.
Os dois escravos de estimação fitaram Laurent, entre Nikandros e lorde Berenger, observando-os do outro lado do ringue.
Toby gritou quando Ancel lhe deu um vigoroso tapa na bunda e a plateia riu. Ancel voltou a sussurrar:
"O ringue vai cair hoje, mas se seu mestre, por um milagre, conseguir escapar, precisaremos de algo para te localizar. Responde logo, infeliz!"
"Estarei em Barbin dentro de quinze dias. Meu mestre vai visitar o ringue de Verona. O nome do meu mestre é Durand."
"Certo. Eu não vou te foder. Não porque não possa, mas porque você não faz o meu tipo..."
"Você também não faz o meu!"
"Ótimo! A gente vai encenar isso e se não os fizer acreditar, enfio aquele candeeiro em chamas no seu rabo, entendeu...?"
"Ora, seu...!"
A multidão entrou em erupção quando Ancel deu mais dois tapas nas coxas de Toby.
"Relaxa aí para eu meter, Toby! Além de mau perdedor é mau puto?"
"Foda ele, ruivo!" — gritou alguém na multidão.
A posição em que se encontravam era perfeita não somente no quesito de encaixe, mas, sim, pela forma em que podiam simular uma foda quente no ringue, criando a ilusão de realidade.
Havia pontos-cegos na arena. Ancel observara que algumas fodas tinham pouca iluminação e a visão era comprometida. Ele vira em Sanpelier putos quando eram obrigados a foderem entre si para deleitarem algum cliente, pouparem uns aos outros, parecendo cansados de agirem como animais no cio.
O melhor prostituto de Vere era o prostituto que melhor sabia mentir. E Ancel conquistara este posto.
Ancel fechou os olhos enquanto deslizou a mão pelo seu pau, estimulando-se um pouco mais e gemendo quando fingiu empurrar o pênis na entrada de Toby.
Toby encenou, então, xingando um palavrão e batendo com a palma da mão no chão liso. Depois, ele gemeu. Os dois escravos de estimação deixaram sons de desejo deliberadamente saírem de suas gargantas. Sons rítmicos, teatrais que concentravam a atenção de toda a arquibancada com os olhos famintos presos neles, desejando-os até os ossos.
Lorde Berenger baixou o seu olhar, assim como Nikandros, que sentia os movimentos dos dois homens e os seus choros de prazer alcançarem a multidão. Laurent estava impassível e com o olhar fixo na cena.
Ancel se mantinha estimulando atrás de Toby numa distância tão curta da sua entrada que todos acreditavam que ele estava o fodendo. Os movimentos dos quadris de Toby e a forma como ele começou a se estimular também, após puxar para si o quadril de Ancel, alcançando-o por trás, tornou tudo mais crível.
"Aquele putinho está se divertindo bastante. Vou perder dinheiro, mas isso vale cada moeda..." — disse o mestre de Toby para um de seus companheiros.
Ancel piscou para lorde Berenger quando os seus olhares se cruzaram. O rapaz buscou na visão do mestre, a lembrança dele lhe chupando deliciosamente na noite passada quando finalmente deixaram o Salão Principal na festa de aniversário do rei e se recolheram aos seus aposentos.
Lorde Berenger era tímido em suas carícias. Parecia um homem romântico e comportado que se permitia fazer mais do que julgara a si mesmo capaz de fazer com um amante. Mas quando ele se entregava, se deixava levar. E Ancel adorava a forma como ele fazia amor porque era totalmente diferente de como era feito em Sanpelier.
Na noite passada, talvez embalado pelo vinho, lorde Berenger estava tomando várias liberdades. Ancel se surpreendeu quando Berenger começara a tocá-lo no Grande Salão por baixo da roupa, parecendo um adolescente confiado e exibido. E, quando Ancel fechou a porta do seu quarto atrás de si, após os dois se acariciarem longamente no Salão, lorde Berenger mergulhou o rosto na virilha de Ancel, despindo-o e apertando-o contra a porta. Lorde Berenger o chupou até o fim, deixando as pernas de Ancel trêmulas e o seu peito arfante.
Fora bom. Fora muito bom. Era sempre bom quando lorde Berenger lhe proporcionava aquele prazer indômito. Ele lhe fazia isso muitas vezes. Desde que na primeira vez em que eles dormiram juntos, com um rosto ruborizado pela constatação da vasta experiência de Ancel, Berenger perguntou um pouco tímido:
"Tem algo que você nunca tenha feito...?"
Com a sua autoconfiança um pouco vacilante e não concedendo a visão de seu rosto para Berenger, Ancel respondeu:
"Nunca fui chupado. Os homens gostam muito que façam isso neles, mas não gostam de fazer. Principalmente com um puto. Mas não se preocupe. Creio que tudo o que fizemos hoje já seja demais para você, Berenger. Não vou me ofender só por não gostar de chupar um prostituto de ringue também..."
Ancel se surpreendeu quando viu Berenger voltar a lhe beijar e descer o rosto sob o lençol. Antes, no entanto, ele murmurou num dos momentos libertinos seus:
"Serei o seu primeiro então. Precisamos dar um jeito nisso já que você é o melhor de Vere..."
E, na ocasião, Ancel ruborizou, apertando os lençóis e os cabelos castanhos de Berenger que enterrava o rosto em sua virilha. Ele não acreditava que o seu mestre comportado e que lia Iságoras podia usar a boca daquele jeito. Pelo visto, não fora somente Ancel que prestara atenção às instruções do príncipe herdeiro quando ele o orientou no caramanchão para que fizesse o seu escravo akielon gozar.
No ringue, um outro som deixou os lábios de Ancel, muito mais crível do que qualquer outro e o espetáculo parecia estar se aproximando de seu ápice. Ancel tinha em suas reminiscências a lembrança da primeira e última noite em que ele e Berenger fizeram amor. Os gemidos que os escravos de estimação estavam fazendo haviam mudado de qualidade e o ritmo parecia alcançar as franjas do clímax. Toby mordeu os lábios, xingando outro palavrão e teve o seu corpo estremecendo, após o seu anúncio arfante. Ele gozou no ringue sobre o chão.
Ancel, fechando os olhos brevemente ao ter o prazer genuíno alcançando o seu corpo, ainda fingia penetrar Toby quando o girou, deitando o jovem arquejante sobre as suas costas no ringue escorregadio.
Ancel subiu sobre Toby e apontou o seu pênis para baixo com uma mão e gozou por todo o rosto do escravo, deixando a sua franja de fios escuros úmida e os seus cílios grudentos e pegajosos.
As arquibancadas explodiram em um conjunto de aplausos, gritos e sons de aprovação. Toby deslizou a mão por seu rosto e Ancel se afastou porque viu ele fechar o punho e tentar acertá-lo pelo lado.
Na entrada do jardim, próximo a uma pérgula, alguém observava Ancel ser declarado o vencedor. Se tratava de Kato, o escravo de estimação brunete do verdadeiro lorde Rouart. Ele moveu o rosto, acompanhando Ancel com o seu olhar e tendo ainda os diamantes pendendo de seus lóbulos.
Com um ar afrontado, o rapaz levou as mãos à cintura. Ele já enfrentara Ancel antes em um ringue em Sanpelier quando o ruivo tentara lhe tomar lorde Rouart. E da mesma forma, o escravo de estimação ejaculara em seu rosto num gesto depravado enquanto provocava lorde Rouart, tentando obter um lance. Kato não se esqueceria nunca. Ele odiava Ancel e pensara muitas vezes em como poderia arrancar o seu olho verde e usar como um broche.
No ringue, um criado trouxe uma toalha para Ancel e outra para Toby. Afastado, lorde Berenger ajudou Ancel a se vestir novamente enquanto Toby enxugava o seu rosto, recebendo os mimos desajeitados de seu mestre bêbado.
"Aquilo foi..." — cochichou Berenger com um olhar indecifrável.
"Uma mentira. Ancel não encostou em Toby." — declarou Laurent.
Nikandros moveu o seu rosto, surpreso.
"Não foi de verdade?"
"Não. Os dois se estimularam até ejacularem. Eles só se tocaram para se estapearem..." — disse Laurent com o seu olhar preguiçoso como se o fato fosse óbvio.
Berenger espreitou Ancel com alguma surpresa enquanto o escravo de estimação sorria, orgulhoso.
"Algo que qualquer prostituto de Sanpelier sabe fazer também. Fingir! Não se preocupe, meu amado Berenger. Me mantenho casto e fiel ao senhor..." — e, aproximando-se de Laurent, Ancel sussurrou — "Consegui o que desejava, Majestade..."
"Ótimo! Vamos procurar D. e sair deste inferno!"
Kato, neste instante, contornava a arquibancada, procurando o mensageiro vaskiano que fora lhe buscar no andar superior. Os seus olhos ainda fixos em Ancel.
A comitiva de Laurent caminhou em direção à porta, mas foi interceptada pelo mestre de Toby e seus companheiros.
"Ei, aonde vocês vão?"
"Embora!" — respondeu Nikandros rispidamente — "Me deixe passar!"
O homem fitou os seus companheiros, parecendo confuso.
"O senhor não leu as nossas regras? Não sabe ler?"
"Ora, seu... Saia da minha frente!" — disse Nikandros, sentindo a sua impaciência começar a entrar em erupção.
"Queremos foder o escravo ruivo e o loiro ali! Não sabia que é proibido deixar a casa antes do dia raiar, meu senhor? Temos depois dos ringues, o banquete. Todos os escravos de estimação são repartidos entre o público. Não acha que seria um pouco injusto voltarmos para casa sem nada, após toda essa exibição de nossos garotos?"
"O que?!"
"Ora, não me diga que está apaixonado por seu escravo, meu caro akielon! É proibido sentimentalismos no ringue. É proibido falar do que acontece aqui para qualquer pessoa. É proibido dizer 'não'. E, principalmente, é proibido guardar um escravo só para si. Escravos devem ser obediente e estão aqui para serem fodidos!"
Nikandros se deteve, sentindo o seu corpo ficar tonto de náusea. Subitamente, aquele ambiente orgástico e decadente parecia insuportável para ele. Ele não era Damianos. Ele não aprendera a sobreviver na Arles inóspita. Ele era um kyros que, assim como Damen, tivera bastante experiências sexuais, mas nenhuma delas era algo parecido com pegar um bando de jovens acorrentados e reparti-los para serem estuprados. Aquele homem teria que matá-lo para tocar em Laurent ou Ancel.
No fundo da arquibancada, Kato encontrou o mensageiro vaskiano e bateu em seu ombro. O homem se voltou com a máscara de leopardo e os gestos desinteressados.
"Ah, já falou com o seu amo?" — e, baixando consideravelmente a voz, sussurrou— "Lorde Rouart..."
"Não. Eu quero saber o que ele está fazendo aqui!" — perguntou Kato, apontando para Ancel.
O mensageiro olhou para o escravo de estimação de cabelos ruivos, o seu mestre de Varenne, o escravo loiro e o sócio akielon do fornecedor de escravos.
"Ele é o novo animal de estimação do seu mestre. Eu falei que Rouart tinha voltado de viagem com uma nova beldade..."
"O quê?" — sobressaltou-se Kato — "Rouart o comprou? Mas ele foi envergonhado num ringue de Sanpelier por aquele puto! Aquele puto foi comprado por lorde Berenger de Varenne!"
O mensageiro olhou para o grupo, fitando Ancel com a mão no ombro do homem de Varenne.
"Devia tirar satisfação de Rouart então, Kato! Ele está lá com a mão na cintura do puto ruivo. Parece um cachorrinho apaixonado..."
Kato fitou o grupo próximo à porta e viu o akielon dar um empurrão no homem diante de si. Os dois pareciam estar discutindo. O escravo de estimação ruivo foi colocado às costas do seu mestre com máscara de serpentes de forma protetora.
"Aquele ali não é Rouart, imbecil!"
O mensageiro fitou o grupo por alguns segundos demoradamente. Um alvoroço parecia se fazer na sala contígua. Alguém gritava.
"Como pode ter certeza?"
"Porque eu fodo com ele!"
O vaskiano sentiu as suas entranhas afundarem com a revelação. Ele se lembrou de admirar a exuberância do fornecedor akielon e de seu sócio. Ele se lembrou de achar que Rouart parecia mais magro e jovial sob a máscara de serpentes.
E aqueles escravos de estimação pareciam bem cuidados demais em comparação aos outros escravos maltratados. Chamavam a atenção feito sapatos lustrosos e engraxados ao lado de tamancos velhos expostos numa vitrine.
"GUARDAS! ELES SÃO INTRUSOS! DETENHAM-NOS!"
Havia uma dúzia de guardas próximos ao ringue.
Todo o público voltou a sua cabeça para o mensageiro. Laurent, Nikandros, lorde Berenger e Ancel também. O mestre de Toby diante deles deu um passo trôpego para trás.
Então, quando um dos guardiões de escravos partiu para cima de Nikandros, o kyros desembainhou a sua espada curta, feliz por poder usá-la.
Laurent também se sentiu feliz por poder erguer o seu rosto e envolver a corrente do seu pulso ao redor do pescoço do homem que tentou avançar para lorde Berenger, achando que ele era o outro elemento perigoso da comitiva. Laurent enforcou o guardião o fazendo se engasgar e babar.
Houve gritos e uma correria de homens com as calças abertas ou abaixadas disparando pelas portas escancaradas. Nobres com os seios nus como as mulheres akielons faziam nos dias muito quentes fugiram. Escravos de estimação com as correntes arrastando no chão pareciam perdidos. Gritos. Prostitutos seminus se encolhiam abraçados, tentando se proteger com bandejas de prata redondas sobre as cabeças quando alguns guardiões atiraram itens na direção do séquito invasor.
"Quebre a coleira de Ancel!" — disse Laurent, dirigindo-se a lorde Berenger.
O cortesão veretiano procedeu como Laurent o instruiu e, aproveitando-se da confusão, partiu a corrente de Ancel com um estalo, deixando-o somente com o colar e os braceletes.
Ancel correu até a parede de tijolos próxima ao ringue e se armou com uma tocha acesa no instante em que o homem que Laurent enforcava caía desacordado no chão.
Durand arrastou Toby pela corrente para fora da confusão e atravessou a porta dupla, sem olhar para trás. Laurent viu o escravo de Belloy que tinha uma informação valiosa desaparecer na multidão agitada.
O rei de Vere manteve o seu rosto erguido quando alguém da multidão gritou, ao atravessar a sala adjacente.
"DAMIANOS DE AKIELOS ESTÁ AQUI!"
Os guardiões de escravos pareciam confusos com o que acontecia até que o olhar de um deles se demorou na figura loira e pálida de pé próxima ao ringue. Vestido como um prostituto, mas exalando agora o seu olhar requintado e severo ao lutar como um guerreiro. Se Damianos estava num ringue de Arles, isso significava que... Afinal, eles eram os reis das nações-irmãs, não é mesmo? Apontando o dedo trêmulo, o homem gritou:
"LAURENT DE VEREI!"
Houve um momento de surpresa silenciosa até que as pessoas repetiram a informação, atônitas. Laurent viu um homem avançar para ele, sendo detido com uma chave de braço de Nikandros. O kyros segurou o homem e o rei veretiano usou a sua adaga de arabescos nele fatalmente.
Houve uma nova comoção na sala contígua de portas duplas até que um guardião de escravos voou pelo espaço das arquibancadas, tendo sido arremessado por alguém e caindo sobre almofadas desordenadas.
Entre gritos, confusão e pessoas se amontoando, revelou-se Damen. Não com a sua espada curta, mas com a espada pesada que tomara de alguém, quando descera abrindo caminho do andar superior até ali.
Apontando a espada para Laurent, ele ordenou, dirigindo-se a Nikandros.
"Quebre a corrente do rei de Vere!"
(cut)
No palácio, Ancel costumava entreter alguns cortesões com o seu número de bastões em chamas no qual os rodopiava diante de uma plateia com habilidade e elegância, apanhando-os em pleno voo. Ele não hesitou em utilizar a tocha metálica em brasas da qual se munira, queimando um dos guardiões de escravos quando ele tentou avançar para o seu amo.
"Atrás de mim, Berenger!" — disse o escravo de estimação, movendo-se enquanto o cortesão acompanhava os seus passos feito uma sombra.
O agressor avançou para Ancel mais uma vez e teve a manga de sua jaqueta incendiada.
Damen e Laurent duelavam com outros homens, tentando abrir caminho entre as pessoas. O rei de Akielos se voltou sobre o seu ombro, orientando Nikandros:
"A trompa!"
Daquela distância, não se sabia se o som podia chegar até os soldados que se mantinham nos telhados dos sobrados vizinhos e nas ruelas dos mercados. Mas Nikandros, de qualquer forma, após enterrar a sua espada curta em um nobre que tentou lhe acertar, empurrando-o para longe, retirou o artefato da algibeira da sua capa e soprou a trompa como fazia em campo de batalha.
O som rasgou o céu negro da noite, erguendo-se acima de todos os gritos e ruídos desordenados. À distância, um cachorro latiu e um tempo se estendeu em que Nikandros enfiou a sua espada na garganta de um homem.
Laurent se apropriou da lança de um de seus agressores. Ele ia pedir para Nikandros entoar a trompa akielon novamente até que eles escutaram, então, o barulho de fogos de artifício.
Os explosivos remanescentes da festa de aniversário de Laurent se ergueram no céu escuro, abrindo-se em flores coloridas. Era o sinal de Lazar. As tropas foram avisadas.
Damen percebeu que aqueles homens que os enfrentavam agora não se tratava mais apenas de guardiões de escravos truculentos, mas de soldados com treinamento militar. Damen se desviou quando uma tonfa tentou atingir o seu flanco. Uma tonfa vaskiana.
"Precisamos sair daqui!" — declarou lorde Berenger, quebrando uma cadeira nas costas de um homem que tentou desarmar Ancel.
Damen, brandindo a sua espada, voltou-se sobre o ombro, dizendo para Laurent:
"Já tenho o que precisa! Já sei quem é o chefe deste ringue e obtive algumas informações. Você já atirou um sapato em algum nobre confiado que insistiu em cortejá-lo, apesar das suas recusas, não é mesmo?"
O rei de Vere, enfiando a lança em um homem com uma tonfa, respondeu:
"Em alguns! Já atirei uma jarra de refresco também!"
Damen não esperava por aquela resposta, mas, de alguma forma, aquilo não o surpreendia.
"Um pretendente que foi ao seu quarto quando você foi mandado para a fronteira pelo Regente. Um que lhe ofereceu a casa dele em Marches para repousar quando voltasse de campanha..."
Laurent se manteve quieto, lutando e, com uma surpresa incrédula, quase subestimando o seu inimigo, disse:
"Ele?!"
"Quem é ele?"
"Estienne!"
"Estienne?!"
Damen se lembrava do aristocrata de menor importância da facção de Laurent.
Agora que a revelação lhe era dada, os gestos comedidos, bem-educados, a fala elegante lhe remeteu diretamente ao homem que estivera no ringue de Arles quando Damen derrotou Govart; estivera no Salão quando o Regente punira Laurent por haver mandado chicotear o escravo akielon e observara de perto as interações de Damianos e do príncipe herdeiro veretiano no palácio de Vere.
Estienne também havia soltado um gritinho quando acariciou Damen em um lugar impróprio, levando um tapa na mão do escravo akielon. Ele parecera parvo e inofensivo para Damianos nessa ocasião.
No entanto, quando estavam em Karthas, Estienne, como um dignitário, tentou intervir pela rendição de Laurent junto a um arauto enviado pelo Regente, pedindo que o príncipe herdeiro se submetesse a um julgamento em Ios, respondendo por falsos crimes.
Damianos não pode deixar de notar a forma como Estienne olhava Laurent, vendo-o não mais como um sobrinho rebelde sendo repreendido em um Grande Salão por seu tio, mas sim como um rei relaxado em seu trono, com uma perna esticada e um pulso apoiado elegantemente no braço de madeira. Ao seu lado, estava aquele que Estienne acreditava ser um escravo bárbaro e sem cultura, mas se revelava como o rei de Akielos.
Damen se regozijara de Laurent ser o único veretiano em um salão cheio de akielons. E viu o espanto nos olhos de Estienne que observava o seu príncipe como uma flor-de-lis delicada florescendo entre pedregulhos. Se Damianos soubesse das tentativas de cortejo de Estienne naquela época, diria:
"Era disso que ele precisava, seu idiota! De lealdade. De fé. De alguém que o visse como um homem crescido. Não de um nobre que o quisesse interditado e obediente em uma casa em Marches. Não de um fracote que achasse que Laurent ficaria feliz em passar das mãos do tio para as mãos de um nobre que botava as suas ilusões e dinheiro onde o poder residia e não na verdade."
Damen cortou a mão de um homem que segurou o ombro de Laurent com a facilidade de alguém que parte um queijo.
"Arranquei algumas informações dele, mas acho que ainda podemos descobrir algo mais. Desculpa não poder dar continuidade ao seu plano, Majestade!"
Laurent tomou a espada do homem que tombara, brandindo-a no ar para testá-la.
"Meu querido Exaltado, você está arruinando os meus planos desde que nos conhecemos. Você arruína tanto os meus planos que já incluo o seu jeito de fazer as coisas como variáveis das coisas que arquiteto. Você chegou na hora certa!"
Damen se moveu, fitando o veretiano que se movimentava atrás dele. Havia um sorriso largo e sincero nos seus lábios.
"Então, já esperava por mim?"
Nikandros, tendo há muito perdido a sua máscara, assim como Berenger, pigarreou, desviando-se de uma bandeja que lhe foi atirada.
"Talvez devêssemos fazer uma pausa só para vocês dois namorarem..."
Damen se desviou de uma jarra de vinho atirada nele que manchou de violeta a parede de tijolos.
"Vamos tentar encontrar Estienne! Pode ser que ele tenha fugido, mas, sabendo como ajo, talvez temesse que os meus homens o interceptassem. Deve haver uma outra forma de se sair desta casa..." — disse Laurent.
A comitiva avançou pela porta dupla, lutando até que o recinto se esvaziasse com desertores ou mortos. Havia homens caídos, vinho, frutas amassadas, máscaras quebradas e o sangue empapuçando o chão. Ancel ainda estava munido de sua tocha e se postou ao lado, iluminando o caminho e tendo a mão dada a Berenger.
No corredor, ainda havia gritos, mas não mais pessoas fodendo em cantos. Os exércitos de Vere e o de Akielos já haviam invadido a casa com uma prontidão notável.
Damen viu Lydos rasgar a cortina de um dos quartos com a sua espada e ser mal-recebido por alguém com um machado dentro. Um dos soldados veretianos de Laurent duelava com um vaskiano munido de uma tonfa. Saindo de uma das salas sem cortina, eles viram Jord com a sua espada em punho.
"Vossa Majestade!" — disse o veretiano.
"Jord, como está a saída da casa?" — indagou Laurent.
"Uma confusão controlada, Majestade. Makedon e Huet abateram alguns guardiões de escravos e Pallas apreendeu os seus cães. Os nossos exércitos estão realizando as prisões."
Laurent observou o seu entorno, apontando para lorde Berenger e Ancel com o queixo.
"Cuide deles! Mantenha-os próximos ao ringue. Lá está mais seguro do que aqui!"
"E vocês?" — perguntou o veretiano.
"Eu, Damen e Nikandros precisamos verificar algo. Procure Estienne que foi da minha facção entre as pessoas. Ele é o chefe que montou este ringue!"
Jord fez um gesto de assentimento e, com a sua espada em punho, escoltou lorde Berenger e Ancel para o lado oposto.
Damen disse:
"Na sala contígua, há um alçapão com um tapete pregado em cima. Talvez, seja uma rota de fuga..."
Os três rumaram para a sala adjacente que estava praticamente vazia, exceto por dois ou três escravos encolhidos em um canto, abraçados e trêmulos como coelhos prontos para serem abatidos.
Damen se antecipou até o tapete, enfiando a lâmina sobre ele e o rasgando, repuxando-o até que a passadeira fosse removida do assoalho. De fato, havia um alçapão quadrado e com dobradiças enferrujadas ali.
Laurent, ajoelhando-se, utilizou a sua adaga para forçar a dobradiça e Damen forçou a abertura do alçapão com a sua espada.
Imediatamente, quando a porta de madeira foi escancarada, um cheiro fétido exalou da abertura, infectando o ambiente. O cheiro misturado de dejetos, comida azeda, sangue, roupas sujas, bebida, erva e lixo era insuportável.
Nikandros, levando a mão ao nariz, aproximou o seu rosto, munido de um candeeiro que pegara de um aparador. Havia uma escada grudada em uma parede que descia para as profundezas.
Iluminando o espaço, o kyros murmurou nervoso, observando o interior:
"Algo está se movendo lá embaixo..." — disse ele, estreitando a vista.
"Por favor, não nos machuque!" — gritou uma voz feminina em vaskiano.
"O que se passa aí embaixo?" — indagou Damen, debruçado, usando o seu vaskiano aperfeiçoado por Laurent.
"Moramos aqui..." — respondeu um menino em patrano — "Todos nós."
Laurent moveu os seus olhos gélidos, parecendo por um momento sobrecarregado e nauseado. Ele parecia que surtaria ao se deparar com os escravos traficados aprisionados naquele alçapão, vivendo sob a terra em um lugar escuro e imundo como vermes. Ele se inflamaria, alcançando o limite já ultrapassado por Damen e Nikandros. O limite excedido até mesmo por Berenger e Ancel, que quebravam cadeiras e queimavam soldados. A irritação de Laurent só não explodiu virulenta porque ele precisou se desviar rapidamente de uma lança que lhe foi atirada.
Enquanto estavam inspecionando o alçapão, cinco homens se posicionaram na escada, escoltando Estienne. Ele ainda usava a sua máscara de serpentes e pareceu por um segundo aturdido ao se deparar com Laurent trajando roupas de escravo de estimação. Estienne reconheceu-o com uma vibração estranha.
Quantas vezes Estienne não se imaginara vendo o príncipe herdeiro daquele jeito em seus sonhos mais ousados, deitado em sua cama?
Afinal, o poder era para homens implacáveis como o Regente e não para segundas opções belas e deliciosamente rejeitadas por seu próprio povo como o era Laurent há dois anos. Em uma fantasia bárbara, Estienne desejara o futuro rei subserviente em sua cama. Agradando-o. Dependendo dele de alguma forma.
"Olá, Estienne!" — declarou Laurent, sem meandros — "Tentando a vida de negociante, após ser expulso da corte e ter os seus bens e títulos confiscados? O meu erro foi não o matar como matei o seu modelo, o Regente!"
O veretiano se deteve. Damen reparou que ele segurava sob o braço o cacifo no qual o escravo chamado Kato guardava grandes quantidades de dinheiro. Ele, provavelmente, retornara para o aposento superior para buscar a caixa que deixara no baú.
Estienne, após alguns segundos de relutância, retirou a máscara, atirando-a longe.
"Olá, Laurent!"
"Renda-se!"
"Não respondo a um rei que se emporcalha com um bárbaro! Damianos matou o seu irmão! Era disso que gostava? De um brutamonte que enfiou a espada em Auguste enfiando o pau dele em você? Por isso que me recusou?"
Laurent respondeu com uma voz fria como o gelo pontiagudo.
"Quer saber quando resolvi me 'emporcalhar', Estienne? Quando resolvi botar a morte de meu irmão de lado e me abrir para o rei de Akielos? Foi em Karthas! Logo após você levar aquela mensagem patética do meu tio, parecendo o seu bom escravo. Eu já havia aberto as pernas para Damianos antes, mas naquele dia, fiz, decidido a fazer quantas vezes mais quisesse. Foi gostoso! Gozamos quase juntos! Eu nunca havia conhecido um homem de verdade até então. O akielon me foi mais leal do que alguns homens do meu próprio povo. Mais leal do que vermes feito você, que preferem viver à sombra de um tirano..."
Havia algo de depravado em Laurent, com aquela voz e rosto indiferentes, dizendo aquelas coisas. Havia deliberada maldade nas palavras do veretiano. Subitamente, a sua impaciência, o seu nojo daquela casa parecia entrar em erupção com a descoberta de escravos vivendo em condições desumanas sob o prostíbulo. Tudo colapsava com a visão de Estienne, que era o dono daquele lugar. Laurent, então, o eviscerava com palavras porque, à distância, era o que ele podia fazer.
Estienne tremia.
"Eu era apaixonado por você, Laurent de Vere!"
"Era? Você se juntou ao meu tio! Você o havia passado a lista dos meus apoiadores e informado a ele sobre as nossas movimentações. Você agiu feito um covarde contra os poucos que ficaram do meu lado! Algumas dúzias de pessoas que o Regente não via nenhum talento porque ele acreditou que tomou os melhores para si. Mas os melhores sempre estiveram comigo! Não você, claro! Você é a exceção. A falha. O erro."
"Os seus puxa-sacos da corte, Berenger e Vannes, fizeram questão de me denunciar!"
"Berenger e Vannes me foram leais! Por isso, fiz questão de te expulsar do palácio e confiscar os seus títulos! Não preciso do seu amor doentio, Estienne! Devia tê-lo decapitado também em Ios!"
"Nesse caso, vai ser um prazer quando o seu trono for tomado de você, Laurent de Vere!" — vociferou Estienne, fazendo um movimento para que os guardas atacassem o veretiano e os akielons.
Os homens que avançaram sob a ordem de Estienne eram homens bem treinados. Talvez, pertencessem mesmo à comitiva de Estienne, pois a qualidade da luta mudou um pouco. Os soldados não brandiam desesperadamente mais as suas espadas. Havia luta de verdade. Havia o ruído de metal se entrechocando e procurando pontos fracos.
Sendo escoltado por dois soldados, Estienne passou por sobre o alçapão quando um dos guardas chutou a porta para que se fechasse com um estrépito, e rumou para a saída.
"Ele está fugindo!" — gritou Damen, contendo a espada de um homem com a sua.
Laurent empurrou com o pé um guarda que foi jogado na sua direção e, desviando-se, correu pela porta atrás de Estienne.
Nikandros enfiou a espada no estômago de um dos soldados e, com a sua chave de braço, puxou outro para baixo. Damen encerrou a sua luta, cortando o seu adversário letalmente, da mesma forma que enfiou a espada no homem que Nikandros segurava.
Os dois akielons dispararam pela porta e olharam na direção dos corredores em que os guardas veretianos e akielons pareciam dominar o caos. E, voltando-se para as portas duplas que levavam ao jardim, ouviram uma comoção.
"Por aqui!"
A configuração do espaço do ringue e da arquibancada estava diferente do modo que a haviam deixado minutos atrás. Jord duelava com um soldado vaskiano, assim como os homens sob o seu comando.
De onde haviam vindo aqueles soldados com armadura completa?
A resposta veio quando Damen e Nikandros constataram a existência de um outro alçapão aberto no canto do ringue. Aparentemente, havia uma saída ali também e soldados treinados vinham escoltar Estienne e proteger o seu negócio escuso e lucrativo, usando a passagem secreta ligada a algum outro lugar.
Os homens brandiam as suas tonfas e os veretianos, visivelmente atordoados, tentavam lhes prever o movimento militar desconhecido.
Laurent duelava com um homem com tonfa e cambaleou quando foi acertado no seu estômago em cheio. Depois, impediu com a sua espada outro ataque, arfando. Seu pulso foi seguro e ele foi desarmado com um giro que lhe era familiar.
Estienne, ainda sendo escoltado por seus homens, caminhava com passos apressados até o ringue. Ele tentaria fugir pela passagem secreta, mas se deteve quando o seu caminho foi obstruído.
Lorde Berenger e Ancel tentaram detê-lo, tendo diante de si cada um, uma tocha acesa.
Entrementes, alguns soldados vaskianos se voltaram para Damianos e Nikandros ao preverem a intenção dos dois akielons de alcançarem o ringue.
Foi um movimento rápido o do soldado de Estienne de desarmar Ancel com a espada, fazendo-o largar a tocha com um grito. Estienne puxou, então, o rapaz pelo cabelo flamejante.
"Olá, Berenger! Você ainda sustenta esse puto barato? Achei que ele já havia o chutado por um homem com mais ouro! Ele era fácil e dava em cima de todos os nobres da corte, sabia?"
Lorde Berenger tinha o rosto lívido e colocou a mão diante de si.
"Não o machuque!"
"Você continua sendo um puxa-saco de Laurent! Não sabe do ódio que senti de você e de Vannes quando me delataram!"
Lorde Berenger teve a sua tocha tomada pelo soldado de Estienne e o fogo que derrubaram da mão de Ancel começava a lamber alguns tecidos e almofadas de seda sobre o chão.
"Você nos entregou, Estienne! Todas as nossas movimentações discretas foram contadas para o Regente!" — disse lorde Berenger— "O Regente mataria cada homem, mulher ou criança que apoiasse o príncipe legítimo! Você delatou Nicaise quando ele tentou doar as joias dele para ajudar na campanha! Para ajudar Laurent!"
"Eu não sabia que o Regente faria aquilo com ele!"
"Mas continuou do lado do Regente, mesmo depois que ele fez!"
Lorde Berenger trocou um olhar com Ancel, que fazia uma careta de dor ao ter o seu cabelo da nuca repuxado. A qualidade do olhar de Estienne perdia a sua contenção e parecia mais agressiva. Ele não podia lutar com Laurent ou Damianos. Mas podia lhes ferir de alguma forma. Podia ferir Berenger e Ancel.
"Solte ele!" — falou lorde Berenger, com uma voz imperativa.
Estienne entregou o cacifo para o soldado e lhe pediu a espada.
Empurrando Ancel contra o chão, ele disse:
"Você sempre se doeu pelos escravos, Berenger! Você sempre foi um abolicionista! Como vai ser a dor de ter o seu escravo favorito morto diante de você?"
Ancel ergueu os seus olhos verdes úmidos.
Damen e Nikandros estavam muito distantes do ringue, sendo impedidos de chegarem perto por soldados. Laurent, com a mão no estômago em que sofrera um golpe de tonfa, sentia uma dor profunda.
"Não faça isso, Estienne!" — implorou Berenger.
Ancel tentou se levantar, rastejando, mas Estienne voltou a puxar o seu cabelo, forçando-o contra o chão. Sem pensar nas consequências, Berenger correu para Ancel, envolvendo-o em seus braços.
"Não o machuque!" — implorou Berenger com os olhos vermelhos e uma voz tão profunda que o coração de Ancel doeu— "Ele não tem nada a ver com isso! O seu problema é comigo!"
O nobre veretiano e o escravo se apresentavam envolvidos no chão em um abraço enquanto Estienne estava com a espada em sua mão. Berenger protegia Ancel com o seu corpo, puxando a sua cabeça para o peito.
Laurent enfiou um pedaço de lança no homem com tonfa diante de si e viu o que se passava no ringue com uma clareza sombria.
"Esse puto era um espião seu! Você sempre gostou de Iságoras, Berenger! Sempre foi um romântico. Sempre gostou de poemas de amor e todos riam de você, achando que morreria virgem e sozinho, recitando poesia para os cavalos. Hoje, vou providenciar para que você e essa cadela que você fode morram juntos romanticamente..."
Berenger sentia o corpo trêmulo de Ancel em seus braços. O seu rosto bonito escondido em seu peito, sob a sua cabeça e mãos protetoras. O cortesão veretiano viu a lâmina da espada de Estienne ser erguida.
Damen e Nikandros percebiam o que ia acontecer e tentavam resumir a luta, sendo ainda impedidos de avançarem pelos soldados. Eles gritaram e tentaram empurrar os homens diante de si.
Laurent sacou, então, a sua adaga de arabescos da bainha sob a faixa de seda em sua virilha. Ele estava no ponto crítico. No ponto em que a sua vista se embaçava um pouco.
Berenger se mantinha paralisado, pronto para proteger Ancel do golpe de espada de Estienne. Mas a espada atravessaria os dois mortalmente como carnes em um espeto.
"Não devia nunca ter saído de Varenne, trazendo essa cadelinha, Berenger. Não devia nunca ter vindo para a corte abanar o rabo para Laurent e seus ideais escandalosos. Adeus!"
Laurent, talvez, estivesse longe, mas ele precisava agir. Ele precisava ganhar. Ainda que perdesse.
Estienne segurava a espada pelo cabo, erguendo a lâmina no ar. E ele desceria o seu braço como um jarro caindo do alto de uma ameia.
A vista de Laurent, então, se ajustou por uma fração de segundos e, após um inspirar curto de ar, Laurent atirou a sua adaga em direção ao núcleo.
Ele não podia arriscar. A adaga deveria perfurar o círculo menor do tronco. O erro seria a perda.
Então, no ringue de madeira em que garotos fodiam e eram fodidos todos os dias, em que escravos eram abatidos e apostados, gotejou sangue fresco, quente e amargo. E o tempo talhou com o ruído de metal.
