Capítulo 10 – Vítima
- Harry, onde você vai todo dia no jantar?
- Já falei, Rony, eu tenho aulas de reforço com o professor Snape.
Hermione olhou de soslaio para Harry enquanto arrumava seus materiais na mochila e saiam da sala de feitiços. O amigo lhe dissera há semanas que continuaria com o reforço junto a Snape para confirmar se o professor tinha intensões ruins, visto que era Snape e eles sempre bateram de frente. No entanto, Harry nunca mais tocou no assunto e o reforço continuou, inclusive, pensou a amiga puxando na memória, Harry ficara mais tranquilo e até mesmo Snape se tornara mais tolerável em aula, inclusive com Neville, o que era curioso.
- Eu preciso ir na biblioteca para pegar um livro que esqueci. Rony, pode levar minha mochila para o salão comunal? E Harry, você pode vir comigo?
- Já está quase na hora do jantar. - Disse Rony. - Pega o livro amanhã.
- Não, preciso estudar essa noite. Nós encontramos você no grande salão.
Antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa Hermione o puxou e caminhou contra o fluxo de alunos até virar a uma esquina e então puxar o garoto para uma sala vazia.
- Hermione? - Questionou Harry erguendo a mão em clara confusão.
- Desculpe, mas não sabia como conseguir falar com você sozinho. - Disse a menina colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e olhando seriamente para o amigo. - Agora que passou o alvoroço da primeira tarefa, me fala, descobriu algo sobre Snape? Do por que ele estar querendo te ajudar? Você não falou mais nada e aliás o Rony está desconfiado, não seria legal contar a ele?
- Uau, respira Hermione. - Pediu Harry com os olhos arregalados e usando esse mínimo tempo para pensar na resposta. - Eu descobri algo sim, mas…
- O que?
- Eu quero contar aos dois juntos. Então hoje à noite quando todos já tiverem ido dormir, na sala comunal, aí eu conto.
Hermione franziu a testa para Harry, a grifinória estava desconfiada, mas respirou fundo e soltou os ombros.
- Tá bom. Vamos.
Apesar da promessa de que contaria e explicaria tudo para os amigos quando voltasse do reforço, Rony ainda mostrava-se muito desconfiado e por um momento imaginou que o amigo o seguiria até às masmorras. Por fim Hermione carregou o ruivo rumo o salão principal e Harry se escondeu sob a capa de invisibilidade caminhando-se para o corredor onde havia a porta escondida sob um quadro grande de flores. Em poucos minutos estava afastando a tapeçaria de corsa e encontrando Snape sentado em sua poltrona de sempre lendo um livro. Harry se perguntava se o professor tinha algum outro hobbie.
Assim como toda noite o professor fechou o livro e sem dizer nada dirigiu-se a mesa de jantar onde com um aceno de mão fez aparecer um mini banquete para os dois, então se sentou em uma ponta da mesa e Harry ao seu lado. O menino nem sabia dizer quando isso acontecera, seu lugar era na outra ponta da mesa na primeira vez que jantou ali. Snape serviu-se de pouca coisa como sempre, enquanto o menino, após muita insistência de sua parte, deixava seu prato com uma quantidade razoável para sua idade, o que aos poucos fazia seu corpo deixar o aspecto magricela para trás e trazia um ar saudável.
- O que foi? - Perguntou Snape vendo Harry brincar com a comida.
- Nada. - Respondeu Harry baixinho.
- Então não brinque com a comida. Se não quiser é só não comer.
- Eu quero. É que…
- O que?
- Queria te perguntar algo.
- Pensei que já havíamos passado dessa parte. Se tem algo que quer me perguntar, pergunte.
Harry largou os talheres e afastou o prato entrelaçando os dedos das mãos.
- Posso contar a Rony e Hermione sobre isso?
- Com isso você quer dizer nós?
- Sim.
Snape também abandonou os talheres e afastou o prato, igualmente entrelaçou os dedos e olhou para Harry franzindo a testa.
- Pensei que não quisesse que ninguém soubesse.
- No começo sim, principalmente porque estava com raiva do Rony, mas agora que voltamos a nos falar é estranho esconder algo assim dele e de Hermione. São meus melhores amigos.
- Entendo. - Disse Snape coçando o queixo e respirando fundo. - Potter, não foi apenas você que confessou algo de sua vida, eu…
- Mas eu jamais falaria nada de você. - Apressou-se a dizer postando a mão em cima da do professor. - Nunca. Eu nem mesmo vou falar sobre mim, eu só quero explicar a eles que eu confio em você e que me sinto bem aqui, além de que realmente você está me dando aulas de reforço.
Era perigoso, Snape sabia disso. Harry era um adolescente e para que ele deixasse escapar algo que ouvira de sua boca era muito fácil. No entanto, como poderia negar ao menino esse pedido? Harry era moldado conforme o que o rodeava e o cabeça de vento do Weasley e a irritante sabe tudo eram alicerces importantes sem a qual o garoto desabaria, vira acontecer há poucas semanas, suportaria vê-lo daquela forma novamente? A resposta era clara, não.
- Tudo bem, Potter, pode contar a seus amigos, mas não me exponha.
- Claro que não, professor.
Com um sorriso nos lábios, que Snape gostou de ver, Harry voltou a comer.
- Já conseguiu decifrar o ovo? - Perguntou Snape quando se sentaram em frente a lareira.
- Aínda não, mas estou trabalhando nisso. - Mentiu Harry sabendo muito bem que não mais abrira o ovo após a primeira tarefa. - Você tem alguma dica?
- Tenho. Use a cabeça. Posso te ajudar a melhorar sua performance nos feitiços e azarações, mas não vou fazer o seu trabalho.
- Não custava tentar. - Disse Harry afundando no sofá enquanto Snape dava um sorrisinho e voltava a sua atenção para o livro que estivera lendo.
Havia dias como aquele, em que ambos não faziam nada além de ficarem no mesmo ambiente. Snape sempre estava lendo e Harry por vezes lia alguma coisa da biblioteca particular do professor, em outras vezes apenas se esticava no sofá até adormecer. Nessas raras vezes em que adormecera enquanto via as labaredas da lareira, Snape sempre fechava seu livro e o observava ressonar até que chegasse a hora de acordá-lo para voltar a torre da Grifinória, no entanto, em uma dessas vezes ele apenas o cobriu e o deixou dormir até o outro dia.
Aquelas pequenas horas eram deles, apenas deles, e Snape desejava que jamais acabassem. Ele queria, mas sabia, mais do que sentia na marca que escurecia em seu braço que o tempo de calma e paz estava acabando, por isso naquele dia em que Harry dormia de boca aberta, tudo que queria era olhá-lo.
O sono ainda estava pesado quando Snape o acordou gentilmente mexendo em seus cabelos para que voltasse a torre da Grifinória. A sensação ali era tão boa que queria apenas continuar a dormir.
- Quer dormir aqui? - Perguntou Snape vendo o menino esfregando os olhos. Sabia que Harry não poderia, mas se pudesse já teria o mudado para seus aposentos apenas para tê-lo mais perto. - Pode ficar com a cama ao invés do sofá dessa vez.
- Não dá, prometi que conversaria com meus amigos hoje ainda.
- Tudo bem. - Disse o mestre de poções afastando a tapeçaria para dar espaço a ele.
Harry deu um sorriso sonolento e um aceno de cabeça antes de entrar na passagem e sumir de vista. Snape voltou-se para seus aposentos achando-o frio e solitário, adjetivos que jamais pensaria antes do menino começar a frequentá-lo.
O que mais Harry Potter mudaria em sua vida?
Quando o quadro da mulher gorda abriu passagem Harry encontrou Hermione debruçada sobre dois livros de aritmancia e Rony ao seu lado bocejando e brincando com o bonequinho em miniatura do Krum.
- E então? - Perguntou Rony despertando completamente.
- Espera.
Não demorou muito para que o último aluno fosse para os dormitórios. Harry ainda aguardou mais dois minutos para garantir que estavam mesmo sozinhos e apenas então virou-se para os amigos encontrando olhos curiosos.
- Rony, a Hermione já sabe o começo, então vou resumir. McGonagall mandou eu ter aulas de reforços toda noite com Snape, devido minhas notas. Eu concordei porque não tinha como dizer não, mas eu não queria, a princípio. - Harry respirou fundo e começou a sentir as amarras que ele mesmo colocara nesse segredo, irem se soltando aos pouquinhos. - Tudo começou a mudar quando jantei no escritório do professor na primeira vez. Ele me encontrou em uma sala vazia, eu não estava bem. - Ao olhar para os amigos, sabia que havia certos detalhes que continuariam em segredo, um segredo que apenas Snape saberia. - Ele me chamou para o escritório e conjurou a refeição, e ficamos em silêncio. Eu gostei, não havia ninguém me olhando torto, nem cochichando sobre mim, me julgando, nem havia você Rony, de cara virada para mim. - O ruivo ficou vermelho e olhou constrangido para Harry que sustentou o olhar, podem ter voltado a amizade, mas aquele episódio sempre seria uma ferida aberta entre os dois e Harry deixava isso bem claro. - Então depois desse dia, o professor permitiu, se eu quisesse, jantar em seu escritório. Eu só queria paz nessa hora, e encontrei. Depois do jantar eu realmente fazia um reforço, mas dessa vez para me preparar para a primeira tarefa do torneio. Snape estava muito interessado em me ajudar.
- Mas não pensou que ele estivesse querendo algo de você? Não é do feitio do Snape ajudar alguém, muito menos um grifinório, e ainda mais você.
- Sim, pensei isso também. Até comentei com a Hermione e chegamos à conclusão de que iria seguir e tentar descobrir a intenção dele.
- Você descobriu Harry? Ele realmente tinha alguma intenção ruim?
- Acontece que não.
Harry viu a expressão confusa dos amigos e se lembrou dele mesmo confuso quando essa relação estranha começou a fazer parte de sua vida.
- Tem certeza, cara? É o Snape, é o mais sonserino dos sonserinos. Ele já fez muita coisa ruim com você.
- Eu sei, eu sei. Mas agora é diferente, tem algo diferente eu sei e eu gostei. Talvez esse reforço tenha sido bom porque ele pôde me conhecer um pouco mais e eu conhecê-lo também.
- Então você acha que pode confiar nele? - Perguntou Hermione.
- Acho.
- Não sei cara. - Disse Rony largando o corpo no sofá. - Eu não confiaria nele.
- Vocês não precisam confiar nele. Precisam confiar em mim.
Rony respirou fundo e olhou para Hermione que virou-se para Harry e sorriu dizendo que confiavam nele. Harry agradeceu e sentiu alívio em pelo menos agora seus amigos saberem e de certa forma entenderem o motivo do seu sumiço nos jantares e nas noites. Possivelmente outros alunos também tinham esse questionamento, mas eles não importavam, apenas Rony e Hermione. Ao se deitar sentou-se bem e até feliz poderia dizer.
Uma felicidade que aos poucos foi diminuindo conforme ouvia a professora McGonagall falar do baile de inverno.
- Estou animada, um baile será muito bom, dançar, curtir. - Disse Hermione enquanto iam de uma aula para outra. - Quem vocês irão convidar?
A menina parou diante dos dois e Harry percebeu um leve brilho em seus olhos ambares quando virou-se para Rony. No entanto não ouviu a resposta do amigo, uma vez que um grupo de alunos vinha caminhando do outro lado do corredor, entre eles estavam Cho Chang e Cedrico Diggory conversando animados um com o outro. Harry mordeu o lábio ao sentir um comichão no estômago. Só parou de olhar os dois juntos quando Hermione saiu furiosa pelo corredor.
- O que aconteceu? - Perguntou confuso.
- Não sei, ela é doida cara. Perguntou com quem eu ia no baile, eu disse com alguém bonita e que talvez chamasse aquela lufana que é artilheira do time. Aí ela fechou a cara e saiu brava. Eu não entendo essas meninas.
- É, realmente não entende. - Disse Harry dando um tapinha nas costas do amigo e achando que ele não era a melhor pessoa para explicar os motivos de Hermione, Rony deveria entender sozinho. - Vamos, não quero me atrasar.
- Ué, Snape não é seu amiguinho agora?
- Fala baixo. - Ralhou quando um grupo da Sonserina passou perto. - Podemos estar nos dando bem, mas se eu atrasar perco pontos do mesmo jeito. Snape não é do tipo que favorece amigos.
- A não ser que sejam sonserinos. - Completou Rony.
Harry não respondeu, mas concordou mentalmente. Esse era um ponto que o incomodava. Snape se mostrava diferente quando estavam apenas os dois, mas quando estavam na sala era outra coisa. Era como se aquela pessoa na sala de aula fosse uma casca que ele esculpiu minuciosamente e que precisava manter erguida para que ninguém visse sua verdade por baixo. E uma das coisas que o homem fazia, como sempre fizera, era favorecer sonserinos como Malfoy. Malfoy que fora chamado pelo professor ao final da aula causando um incomodo estranho e confuso em Harry quando acompanhou os amigos para fora da sala vendo o loiro se aproximar da mesa do mestre de poções.
- Vamos logo que minha barriga está até roncando. - Disse Rony.
- É, vamos.
Os dias foram passando e o incomodo no interior de Harry continuava. Ele tentava não deixar aquelas coisas o incomodar, mas parecia que a cada dia que tentava ignorá-las, elas ficavam mais intensas. Primeiro eram as provas do final de ano que estavam cada vez mais perto. Tá certo que dessa vez Harry estava mais seguro para fazê-las uma vez que o próprio Snape estava ajudando após o jantar e possivelmente conseguisse uma nota razoável. Segundo que o baile estava chegando e ainda não tinha um par. Nem sabia quem convidaria, ainda estava tentando entender o motivo de seu coração pular fora do peito toda vez que via o mesmo grupinho de lufanos andando junto, não havia espaço em sua cabeça para o fato de que não tinha um par.
Foi em um dia razoavelmente frio que Harry estava andando sozinho no corredor indo para a passagem secreta, pensando na pessoa que realmente queria convidar e tentando entender o porquê queria convidar, quando sentiu um par de mãos o empurrar com força para dentro de uma sala de aula. O ato foi tão bruto que Harry caiu no chão usando as mãos para se proteger, pôde sentir o ardor dos arranhões, sua varinha quicou ao seu lado.
- Pega a varinha dele.
Aquela voz, aquela maldita voz. Amaldiçoou-se por estar tão distraído ao ponto de esquecer a capa de invisibilidade.
- O que você quer Malfoy? - Rosnou Harry se levantando e limpando as mãos uma na outra sentindo a dor de seus ferimentos.
- Eu disse que um dia te pegaria. - Disse Malfoy sorrindo de canto ao guardar a varinha do grifinório no cós do jeans. - Aposto que está se achando o máximo agora que ganhou a primeira tarefa e metade da escola voltou a te bajular.
- Se falar mal de você pelas suas costas é bajular, pode ficar com a bajulação, aposto que você adoraria que mais alguém além de seus brutamontes aqui falassem de você, pelo menos teria alguma relevância.
- Ora seu merdinha! - Ralhou o loiro indicando com a cabeça o que Crabbe e Goyle deveriam fazer.
Harry se debateu e tentou fugir, uma vez que lutar com os dois era insano por ser metade de um deles. Os sonserinos o seguraram com uma força descomunal.
- Vai Malfoy, bate. Seu merda covarde. Só consegue porque estão me segurando, duvido que conseguiria me encarar sozinho.
O soco desferido pelo sonserino foi forte e acertou seu estômago em cheio expelindo seu ar completamente. Antes mesmo de conseguir se recuperar sentiu o sangue jorrar de seu nariz pelo soco em sua cara.
- Você disse que não bateria na cara, Draco. - Disse Crabbe.
- É, mas não resisti. Continue segurando, eu tô gostando muito disso aqui. – Disse puxando os cabelos de Harry e o encarando. – Eu não preciso de honra, apenas preciso conseguir o que eu quero.
Harry queria dizer alguma coisa, mas só conseguia rir, o que deixava Malfoy mais e mais irritado desferindo soco atrás de soco em seu rosto. O sonserino não sabia que aquilo era algo rotineiro quando estava com seus parentes, Duda amava bater nele e ver seu rosto sangrando, era praticamente um hobbie dele com seus amiguinhos do bairro. Aquilo então não era novidade para Harry.
- Cansei, troca comigo Goyle e dá uma lição bem dada nele.
O grifinório estava tão mole que foi fácil Malfoy segurar seu corpo, ainda que não tivesse a força do outro sonserino.
- Mas não mais na cara, esse rostinho vai ficar apenas com as marcas da minha mão. - Disse segurando o queixo ensanguentado de Harry.
Goyle concordou e socou com força umas três vezes no estômago do menino tirando seu ar. Foi apenas quando Harry desmaiou que Malfoy o largou de qualquer forma no chão jogando sua varinha perto da mão mole do menino.
- E se ele contar a alguém?
- Eu conheço o Potter, ele não vai contar. É orgulhoso demais para isso. - Comentou o loiro ao sair da sala trancando a porta com um feitiço.
Depois de trinta minutos de atraso de Harry, Snape saiu de seus aposentos e foi para o grande salão pensando que o garoto talvez tenha ido para lá querendo jantar com os amigos dessa vez. No entanto ao chegar as portas do local imediatamente percebeu que ele não estava ali. Estranhando esse fato caminhou-se até diante de Hermione e Rony que pararam de comer na mesma hora e olharam confusos para o professor.
- Senhorita Granger, preciso falar com o senhor Potter. Por um acaso sabe onde ele está?
- Pensamos que estivesse no reforço, professor. - Respondeu Hermione baixinho para que não escutassem - Ele disse que ia para lá. Ele não foi?
Snape não se dignou a responder a Grifinória, apenas girou nos calcanhares e saiu do grande salão. Iria procurá-lo em cada canto daquele castelo. Algo lhe dizia que ele não estava bem e isso o preocupava.
O Lufano caminhava distraído pelo corredor, sua mente presa no segredo do ovo que acabara de descobrir, demorara tanto naquele banho que atrasou-se para o jantar, mas pelo menos estava muito cheiroso depois de nadar naquela piscina cheia de sais de banhos. Seus pés travavam um caminho certo para o grande salão, mas de repente um barulhinho o fez estacar. Foi quase inaudível de tão baixo, mas ele conseguiu ouvir, um gemido vindo da sala onde acabara de parar a porta.
- Tem alguém aí? - Perguntou girando a maçaneta e vendo que estava trancada. - Oi, está tudo bem? - Perguntou colocando o ouvido na porta e novamente ouvindo um gemido.
Por um momento pensou em arrombar a porta pensando que alguém poderia estar precisando de ajuda, mas não dava para ouvir muito bem o que acontecia do outro lado da porta, e se fosse um casal se divertindo? Por um momento hesitou e deu um passo para trás, mas no momento seguinte Pirraça atravessou a porta e sorriu antes de dizer as palavras que fez o rapaz sacar a varinha.
- Sangue, muito sangue. - Disse o Poltergeist antes de sorrir.
A porta então foi arrombada e ele pôde ver o corpo jogado ao chão, imediatamente correu até ele o virando com cuidado e olhando para Harry com os olhos assustados.
- Quem fez isso com você, Harry?
Harry abriu a frestinha do olho que conseguiu em meio ao inchaço e viu quem o segurava nos braços.
- Cedrico. - Chamou com dificuldade erguendo a mão para tocar em seu rosto.
- Sou eu Harry, está tudo bem. Eu vou chamar madame Pomfrey.
O Lufano ia se levantando quando sentiu sua capa ser segurada pela mão fraca de Harry. Ao olhar viu que ele falava baixinho. Ajeolhou-se e aproximou seu rosto do dele para ouvir.
- Snape, chama só o Snape.
- Snape?
- Por favor.
- Está bem.
Cedrico saiu da sala em disparada pelo castelo em direção às masmorras uma vez que o professor não era mais visto jantando no grande salão. O avistou no final do corredor das masmorras, sua capa esvoaçando atrás de si, seus passos eram duros, ele parecia irritado.
- Professor Snape! - Gritou chamando a atenção do professor
- Senhor Diggory, estou ocupado, não tenho tempo para sei lá o que quiser. Procure a diretora da sua casa.
- É o Harry Potter senhor.
A menção do nome de Harry fez com que olhasse firmemente para o menino. O viu com olhos arregalados e assustados, algo acontecera. Sem medir seus atos segurou o garoto fortemente pelo braço.
- Onde ele está?
- Em uma sala sem uso no primeiro andar, a terceira porta da esquerda após a escada.
- Volte para o grande salão, senhor Diggory, e seja lá o que viu, não conte a ninguém.
- Mas, professor…
- Obedeça, senhor Diggory ou quer que um monitor chefe perca pontos de sua casa?
- Sim senhor. - Disse a contragosto dando as costas.
Snape caminhou com pressa subindo de dois em dois degraus até chegar a sala que o Lufano indicou. Pirraça estava a porta, mas não disse nada, ele sabia muito bem com quais professores poderia brincar e Snape não era um deles. O professor abriu a porta e seus olhos se arregalaram com o que viu. Nem em mil anos saberia explicar o sentimento que sentiu no instante que olhou para o rosto ensanguentado do menino, era um misto de preocupação, com impotência e sentimento de falha. Aquele corpo que mal respirava era seu filho, o sangue na pele dele era o seu sangue. Era sua obrigação protegê-lo e, no entanto, ali estava ele espancado.
- Filho. - Sussurrou pela primeira vez ao ajoelhar-se diante dele e acariciar seus cabelos. - Quem fez isso com você?
Harry não respondeu, apenas agarrou com força a mão de Snape e então desmaiou. O alarme para o término do jantar tocaria em alguns minutos, por isso Snape segurou o filho firmemente em seus braços e saiu da sala encontrando o corredor vazio, caminhou-se para a passagem secreta e de lá para seus aposentos onde o colocou devagar no sofá. Rapidamente foi até seu laboratório particular pegar algumas poções importantes e então voltou ao lado dele. Com um pano e unguento começou a limpar o sangue do seu rosto e com um aceno de varinha consertar o que estava quebrado ou aberto. Aos poucos o rosto dele voltava ao seu normal, então passou a varinha pelo corpo do avaliando o estrago. Encontrou três costelas quebradas e uma hemorragia interna. Snape ergueu um pouco a cabeça dele e deixou o líquido da poção descer por sua garganta. Não demorou muito para ver o resultado da poção e dos feitiços, a cor da pele antes pálida agora trazia um rosado leve. Os ferimentos fechados sumiam deixando o rosto como era antes, sem marcas e evidências daquele crime. Ao passar a varinha novamente detectou que a hemorragia cessara e as costelas estavam em seus devidos lugares. Mas somente quando Harry, ainda adormecido, respirou fundo que ele mesmo pode deixar o ar voltar aos seus pulmões.
Com cuidado retirou os sapatos, a capa e colocou um travesseiro embaixo de sua cabeça deixando-o dormir ali mesmo no sofá enquanto ainda ajoelhado ao seu lado acariciava seus cabelos o observando respirar sentindo em seu peito um ardor enorme que não sabia nomear. Seria amor? Talvez um dia descobrisse o nome, agora só sabia que era forte demais.
- Ah, garoto. Se eu pudesse te contar. – Disse baixinho segurando a mão de Harry e levando até seu rosto. Snape fechou os olhos e respirou fundo tentando entender todos os novos sentimentos paternos que cresciam em si. - Preciso saber quem fez isso a você. – Disse sabendo que seus próximos atos deveriam ser bem cuidadosos.
Ler a mente de uma pessoa desacordada não era algo fácil, pelo menos para alguém que não tivesse o estudo e experiência de Snape. O mestre de poções era um exímio oclumente e legilimente, precisou se aperfeiçoar no ano em que virara espião para Dumbledore ao lado de Voldemort. Sabia que entrar dessa forma na mente de Harry era uma invasão de sua privacidade, mas a raiva e o desespero que sentiu quando o viu espancado e jogado naquela sala sobressaia a qualquer ética. Era seu filho e aquele ato jamais ficaria impune.
- Legilimente. - Recitou apontando a varinha para a testa de Harry. O garoto se mexeu um pouco, mas seguiu dormindo.
A leitura da mente não era exatamente como visitar uma lembrança, o legilimente poderia sentir o que aquela certa imagem trouxera para a pessoa, por isso sentiu o tédio em meio a aula, a preocupação dele quanto as provas, irritação com os amigos brigando um com o outro, paixão e vergonha ao avistar outro aluno no corredor e então raiva ao ser jogado no chão junto com indiferença por ver seu agressor. O sangue de Snape subiu ao ver os olhos cinzas de Draco enquanto o sonserino mandava segurar Harry. Então veio o sentimento mais confuso, aceitação, Harry estava aceitando o fato de que seria espancado. Usando um pouco mais de força em sua magia conseguiu ler o que o menino pensava naquela hora e decidiu que a visita para os Dursley precisaria ser adiantada, uma vez que aceitou os socos desferido, pois já passara por isso antes, mais de uma vez. Depois, quando já estava largado no chão veio a paixão novamente ao ver o monitor chefe chamar seu nome e depois a sensação de segurança quando ele mesmo apareceu para socorrer o menino.
Quando saiu da mente de Harry precisou de um tempo para organizar sua mente, seus olhos estavam arregalados e gelados, seus dentes cerrados. Sua mente fervilhava, sua vontade era ir agora mesmo no salão comunal da Sonserina e pegar Draco pelo pescoço e apertar até que os olhos ficassem vermelhos e estourados, não interessava se era um aluno menor de idade e nem se era o filho de Lucius. Seus dedos se fecharam com força na varinha, pois sabia que não poderia fazer aquilo, ainda que desejasse muito. Respirando fundo aproximou-se dele e postou seus lábios na testa em cima da cicatriz em raio.
- Mas se fosse outra pessoa, eu prometo a você, filho, eu o mataria com minhas próprias mãos. – Sussurrou dando um beijo e então se afastando apenas o bastante para se sentar na poltrona ao lado e ficar velando o sono de Harry.
No dia seguinte seu corpo estava dolorido e sua cabeça latejava, mas fora isso estava bem, muito melhor do que já estivera em qualquer momento em que fora espancado antes. Parecia até milagre conseguir se espreguiçar. Ao abrir os olhos percebeu que estava nos aposentos do professor Snape. Franziu a testa por um momento tentando se lembrar do que acontecera e quando as lembranças chegaram a sua mente levou a mão ao rosto esperando encontrar ferimentos, mas a pele estava lisa como sempre fora, quase no mesmo instante suas bochechas avermelharam ao se lembrar dos dedos tocando o rosto de Cedrico quando o lufano foi ajudá-lo. Talvez precisasse se explicar para ele, para que não pensasse outra coisa.
- Como está se sentindo? – Harry levantou a cabeça e viu Snape se aproximando com um copo que estendeu para si antes de se sentar ao seu lado.
- Estou bem, obrigado.
- Quer me contar o que houve?
As imagens eram muito claras em sua mente, conseguia se lembrar nitidamente de Malfoy sorrindo ao lhe socar.
- Quem fez aquilo com você? – Perguntou Snape.
- Ninguém. – Respondeu o menino tomando a poção de um gole só e limpando a boca com a manga da camisa. – Não foi ninguém.
- Olhe pra mim. – Ordenou o mais velho. – Não precisa mentir, você foi uma vítima de violência, o culpado tem que pagar pelo que fez. Me fala quem foi.
Harry sabia, no fundo sabia que não era sua culpa, mas algo o impedia de dizer o nome de Malfoy, fosse realmente o orgulho em não deixar descobrirem que foi subjugado daquela forma, fosse simplesmente a vergonha, ele não conseguia dizer.
Mesmo sabendo quem tinha feito aquilo ao menino, queria dar a chance dele poder lhe contar, mas Harry apenas balançou a cabeça e sussurrou que não podia antes de virar o rosto escondendo-o. Snape pegou o copo da mão dele colocando-o na mesa de centro, então sentou mais perto e puxou o menino para se deitar de novo, dessa vez com a cabeça em seu colo. Com um aceno de varinha puxou a coberta sobre o corpo dele, postou então uma mão em seu braço e com a outra acariciou os cabelos rebeldes como tanto gostava de fazer. Por alguns minutos ambos ficaram em silêncio. Harry recebia o carinho nos cabelos de muito bom grado, aos poucos Snape tornara-se não apenas uma figura de segurança, mas uma figura de afeto onde buscava o carinho que jamais tivera em vida sem nem saber que Snape depositava em Harry todo o desejo de ser um pai muito melhor do que o dele fora, dando ao menino o que nunca recebera.
- Você me chamou de filho. – Disse Harry baixinho virando-se para olhar para cima, diretamente para os olhos negros. – Por quê?
"Porque você é meu filho" A frase veio na ponta da língua, mas Snape não a disse, apenas olhou para o menino já sonolento novamente e deu um breve e pequeno sorriso.
- Não gostou?
- Achei estranho, mas... – Interrompeu enquanto se virava com o rosto virado para a barriga de Snape e as costas para a lareira. - ... não foi ruim.
O sorriso nos lábios sonserinos se estendeu de uma forma que jamais fizeram, nem mesmo o fogo da lareira poderia esquentar seu coração como aquela frase dita por seu filho que agora dormia, acalentado e protegido por seu pai.
