Capítulo 13 – A verdade

Conseguir passar pela segunda tarefa e ainda terminar empatado em primeiro com Cedrico trouxe a Harry um alívio gigantesco, principalmente pelo fato de que não teria mais nada para decifrar e só aguardar a nova tarefa dentro de 3 meses. Snape seguia lhe dando reforço com os feitiços ajudando a deixá-los mais fortes e eficientes, Harry estava até mesmo impressionado com o que conseguia fazer com sua varinha, no entanto, essas aulas não se resumiam a apenas duelar com o mestre de poções conseguindo até mesmo desarmá-lo algumas vezes, mas também a ler muito e estudar demais. Os resultados, apesar de demorarem, acabaram aparecendo nas notas de seus trabalhos que melhoravam consideravelmente e até mesmo seu raciocínio ficou mais afiado. Hermione lhe deu os parabéns.

Parecia que todos os problemas haviam se resolvido, nem mesmo Malfoy mexia mais com ele, parecia inclusive que o sonserino o estava evitando, sempre caminhando no caminho contrário e procurando ficar longe.

Estava perfeito. Mais até, visto que parecia que Cedrico estava aparecendo em todos os lugares que estivesse e até lhe sorria e acenava algumas vezes causando em si aquele calor que agora já sabia identificar e lidar.

Nem mesmo lhe passava mais pela cabeça todos os pensamentos depressivos do começo do ano, nem se lembrava dos Dursley e sua violência, era um fato que pensaria apenas e unicamente quando tivesse que voltar para a casa deles.

- Posso te perguntar uma coisa? – Perguntou em uma noite de leitura silenciosa nos aposentos do mestre de poções.

- Sim. – Respondeu Snape sem levantar a cabeça de sua leitura.

- Quando as aulas acabam, você vai para algum lugar ou fica no castelo?

- Em sua maioria do tempo fico no castelo preparando o estoque de poções para o ano letivo seguinte, mas tenho minha casa que visito algumas vezes. Por que a pergunta? – Questionou erguendo o olhar e vendo o menino fitando os pés.

- Eu queria não voltar para os Dursleys. – Disse Harry dando um suspiro fundo como se o mero pensamento da pequena possibilidade de não voltar para a Rua dos Alfeneiros causasse uma saudade imensa em seu peito.

- Tenho certeza de que qualquer um preferiria ficar na escola ao invés de voltar para aqueles seres desprezíveis. – Em sua mente Snape via nitidamente o dia em que iria falar com os tios do menino, na hora certa.

- Eu queria ficar aqui. Hogwarts sempre foi o meu lar. Sei que Rony e Hermione não estariam aqui, mas eu teria o Hagrid e o Canino. – Disse Harry e então afastou o olhar rapidamente. – E teria você. Poderia ser legal.

Por um minuto Snape deixou sua imaginação correr solta pensando em Harry ao seu lado durante as férias de verão. Sem preocupações de estudos e sem alunos perturbando. Seria apenas ele e Harry, talvez até pudessem ir para sua casa, apesar de ser um lugar tão inóspito que teriam que trabalhar muito nela para deixá-la habitável para um adolescente. Sonhos, sonhos e sonhos, tudo em sua vida agora se resumia a sonhos.

- Você não iria querer passar o verão comigo, não sou uma companhia agradável.

- Eu gosto da sua companhia.

Um singelo sorriso apareceu levemente no lábio de Snape antes do mesmo retornar sua leitura que agora estava comprometida com vários pensamentos de possibilidades que antes não bateriam em sua mente, mas que agora reverberam com intensidade destruindo as paredes que construíra para exatamente não ter esse tipo de esperança.

- Está tarde. Preciso voltar. – Harry se levantou e guardou os materiais que estivera estudando na mochila e alguns livros que usara para pesquisa de volta na prateleira.

- Potter. – Chamou Snape quando o menino colocou a mochila nas costas. – Fique.

- Como assim?

- Durma aqui. – O pedido era pequeno, mas parecia complicado de sair de sua boca. O homem engoliu em seco e mexeu nervosamente os dedos das mãos. Seus olhos presos nos esmeraldas apenas aguardando a resposta.

Harry retribuiu o olhar e sentiu o quanto estava sendo difícil para o professor dizer aquilo. Todas as vezes em que dormira naqueles aposentos foram por simplesmente adormecer no sofá em meio a uma leitura ou por algum momento de fragilidade em que Snape o acolhera. Agora não era essa a situação, Snape estava pedindo claramente para que passasse a noite ali com ele, seus olhos mostravam uma saudade que ele jamais admitiria. Harry também estava com saudades, de uma forma que não conseguia entender e nem mesmo imaginaria que um dia viesse a acontecer. Silenciosamente balançou a cabeça e largou a mochila no chão novamente.

Dessa vez Harry convenceu o professor que iria dormir no sofá e não na cama, pois achava injusto ele dormir naquela cama enorme enquanto Snape se virava no sofá. O mestre de poções então lançou um feitiço para que o móvel ficasse mais largo e assim Harry tivesse mais conforto. O grifinório gostou do arranjo e após trocar de roupa no banheiro, voltou e se deitou cobrindo-se com a gostosa coberta que fora separada.

- Essa coberta é muito melhor do que a do dormitório.

- Claro que é, eu que comprei. Custou muito caro então evite babar muito nela.

- Eu não babo. – Disse Harry se aconchegando e já sentindo o sono chegando.

- Vou deixá-lo dormir. – Disse Snape após alguns minutos quando viu que o menino já estava quase dormindo.

- Não. Fica. – Pediu Harry quando Snape estava se levantando. Os olhos do grifinório estavam pesados, mas ainda assim lutou para deixá-los abertos. – Fica até eu dormir.

- Por quê?

O corpo confortável pela coberta e quentinho pela lareira o deixava grogue e sem filtros.

- Porque com você aqui os pesadelos não aparecem.

Os olhos de Harry estavam quase se fechando, mas mantiveram-se o mínimo aberto, o suficiente para ver Snape voltando a se sentar com as pernas cruzadas e os olhos fixos nele. Depois o inconsciente o envolveu.

Snape ficou ali apenas o observando por um tempo ainda, somente quando os primeiros roncos baixos saíram foi que ele se levantou, foi até o garoto, arrumou a coberta que havia caído um pouco, baixou a luz da lareira sem tirar o seu calor e então acariciou os cabelos revoltos antes de ir para seu quarto tirando a roupa ficando apenas com a calça do pijama e também se entregar ao inconsciente esquecendo-se de tomar a poção do sono sem sonhos.

Um inconsciente que o levou para locais perigosos em suas lembranças e mais ainda pelos medos que carregava em seu amago de um futuro de servidão àquele que o separaria do menino. As imagens que apareceram eram grotescas, sanguinolentas e diabólicas. Sua mente conhecia bem demais as consequências do retorno do Lord das Trevas e por isso projetava em seus olhos fechados a imagem que tanto temia.

- Não. Não o leve.

Harry, que acordara no meio da noite para ir ao banheiro, ouviu aquele barulho e com cuidado se aproximou do quarto do professor. Sua varinha estava fortemente segura em suas mãos e lançava uma luz fraca com que o menino se guiava no local até chegar a cama onde Snape se mexia e balbuciava.

- Não o leve, não. – Disse Snape ainda de olhos fechados. – Harry, Harry.

O menino paralisou por um segundo, Snape estava tendo um pesadelo com ele e chamava por seu nome. Meio sem saber o que fazer Harry se aproximou mais e tentou chamar o professor.

- Professor, professor, acorde.

Não adiantava, o homem estava ferrado no sono e preso naquele pesadelo.

- Por favor mestre. – Continuou a balbuciar. – Por favor, meu filho não, meu filho não.

Filho? Snape tinha um filho? Questionou-se Harry franzindo a testa.

- Meu filho não, não o leve, deixe o Harry em paz, não o mate. Não.

Agora Harry não sabia o que pensar. Snape estava sonhando que ele era seu filho e pedia por sua vida. Por um momento sentiu um arrombo de quentura em seu peito ao pensar que o homem sentia isso por ele, pois dentro de si sabia que havia um sentimento muito forte também, talvez até fraterno o suficiente para que Snape ocupasse um papel paterno para si, algo que era difícil de admitir, pois a imagem de Tiago era forte em sua vida, mas que aos poucos começava a ser constante. Ao pensar um pouco, podia até mesmo entender o professor sentir isso por si, uma vez que o homem era tão solitário quanto ele mesmo, com um passado cheio de traumas e violência assim como o seu. Talvez aquele professor que sempre fora ranzinza e amargurado estivera apenas no aguardo de alguém para suprir a necessidade de seu coração de ter com quem dividir sua história e assim sua vida. Esse alguém poderia ser Harry, e Harry sorriu pensando nisso.

Porém o sorriso diminuiu um pouco quando Snape que estava deitado de costas virou-se deixando suas costas expostas aos olhos do menino. Harry se aproximou apontando a varinha na direção da marca que ele tinha logo abaixo das homoplatas e até virou a cabeça percebendo a semelhança com a sua. Sua testa franziu pensando nessa coincidência, mas logo o pensamento se foi uma vez que Snape voltara a falar, dessa vez com mais ênfase e, para surpresa de Harry, com medo.

- Harry! Larga meu filho, não o mate, mate a mim. Mestre, por favor, me mate. Não mate meu filho, Harry!

- Professor. Está tudo bem. – Disse Harry colocando a mão em seu braço constatando que ele tremia.

Apesar de sempre ter um sono leve e estar preparado para qualquer eventualidade, naquele momento Snape estava tão ferrado no inconsciente e tão dentro de seu pesadelo que nem mesmo o toque do menino o acordou, seus chamados não o fizeram retornar, no entanto aos poucos, conforme Harry o chamava fazendo sua voz entrar por seus ouvidos, o professor foi respirando mais fundo e ritmado.

Harry percebeu como Snape começou a se acalmar e continuou ao seu lado dizendo que estava tudo bem, que estava ali com ele, que ficaria tudo bem. O menino sabia muito bem o que era ser atormentado por um pesadelo, sentir-se no inferno de sua mente sem conseguir sair vendo as piores coisas que poderia imaginar, ele sabia a sensação e por isso apenas se aproximou e com cuidado passou a mão pelos cabelos negros o afastando do rosto suado. Sua mão pegou a dele apertando-o de leve enquanto a outra seguia fazendo um carinho singelo em sua cabeça.

- Está tudo bem, professor, vai ficar tudo bem, o Harry está aqui, não vou a lugar algum.

- Harry, filho. – Sussurrou Snape puxando a mão presa a sua para seu peito onde Harry pode sentir o coração pulsando fortemente.

O menino se sentou na beirada da cama e seguiu com a tarefa de acalmá-lo até que nenhuma outra palavra saia da boca de Snape e sua mão afrouxara-se soltando a dele. Snape voltara a dormir. Harry ainda demorou mais alguns minutos apenas o observando e pensando qual era o pesadelo que fizera aquele homem sempre tão centrado ficar desesperado daquela forma. Quando sentiu que ele estava ferrado no sono novamente, saiu devagar do quarto e voltou para o sofá, porém não havia mais sono algum, apenas dúvidas.

Depois de algumas horas em que o sono não mais apareceu, o dia amanheceu e a porta do quarto se abriu. Snape saiu já devidamente vestido com sua calça preta, o sapato combinando e a camisa branca abotoada até o pescoço escondendo seu corpo onde ontem Harry vira a marca em suas costas.

- Pensei que ainda estivesse dormindo. – Comentou Snape pegando seu sobretudo no cabideiro ao lado da porta.

- Acordei a pouco. – Mentiu Harry. - Eu vou indo, quero tomar um banho antes de ir para o café da manhã. Dormir ao lado de uma lareira é gostoso, mas as vezes é bem suado também. Dormiu bem?

- O suficiente. – Mentiu Snape que se lembrava nitidamente das imagens que invadiram seu inconsciente. No entanto o mestre não se recordava de Harry ter estado em seu quarto o acalmando e o fazendo voltar a dormir.

Harry balançou a cabeça e então pegou sua mochila, despediu-se rapidamente e saiu pela tapeçaria da corsa. Sua mente completamente embaralhada. Quando saiu no corredor começou a andar mais rápido, precisava falar com alguém, esperava que Hermione já estivesse acordada.

- Diário noturno. – Disse para a mulher gorda que estava bocejando.

- É muito cedo ainda sabia? – Disse a mulher antes de abrir o quadro e permitir a entrada do menino.

Por sorte Hermione estava descendo as escadas que levavam aos dormitórios e vinha sozinha.

- Harry? Onde estava?

- Dormi nos aposentos do Snape. – Disse baixinho, mesmo com o salão comunal vazio. – Ele pediu. Eu já dormi lá várias vezes, não foi nada demais. – Completou quando a menina franziu a testa. – Escuta, preciso falar uma coisa com você.

- Fala. – Os olhos da menina despertaram imediatamente.

- Eu tenho uma marca nas costas, parece uma pecinha de quebra cabeça, fica abaixo das homoplatas.

- Sim, eu já vi.

- Já viu, quando? – Perguntou Harry surpreso.

- Ora essa Harry, já faz quatro anos que somos amigos, já vi você se trocando antes. Mas o que tem a sua marca?

- Eu vi uma marca idêntica nas costas do Snape, mesmo desenho, mesmo local. É possível duas pessoas que não tem o mesmo sangue ter a mesma marca?

- Acho que eu preciso te confessar uma coisa. – Disse Hermione franzindo o rosto de forma culpada.

- O que foi?

- Desde que você me contou sobre a relação de você e o Snape eu fiquei muito intrigada, principalmente quando você disse que se sentia muito bem ao lado dele e mais ainda quando disse que estava sentindo mais afeto por ele do que por Sirius.

- Não disse exatamente assim. Eu amo o Sirius, é meu padrinho.

- Mas foi o que quis dizer, Harry e você sabe que sim. Sirius é maravilhoso e sempre terá um lugar imenso no seu coração, mas ele não está aqui, não está ao seu lado dia a dia como o Snape está e quando você comentou que ele tinha uma marca parecida com a sua eu comecei a pesquisar sobre marcas.

- E o que descobriu?

Hermione apertou os lábios e fugiu o olhar do amigo, colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e se sentou no sofá em frente a lareira chamando Harry para se sentar ao seu lado.

- Harry, marcas de nascença são hereditárias e únicas, não tem como alguém sem o mesmo sangue ter uma marca igual a de outra pessoa. Passa de pai para filho.

- Mas meu pai é Tiago Potter, todos sabem disso. Minha mãe nunca esteve com Snape. Nunca.

- Não tenho uma outra explicação, eu procurei em todos os livros que falavam sobre isso. Até perguntei para o professor Flitwick, fingi que era porque tinha visto em um livro e fiquei curiosa, ele nem desconfiou.

- Não teria porquê. – Comentou Harry largando o corpo no sofá. – Não pode ser verdade, Hermione. Não pode.

- Mas, Harry, você gosta do Snape, não gosta?

- Sim, mas é diferente ter a pessoa como uma figura paterna e ela ser de fato seu pai. Quer dizer que toda minha vida foi uma mentira?

- Não, claro que não.

- E se eu sou o filho dele, por que ele não me criou? O que houve? Ele não me quis e me deu para outra pessoa?

- Harry, você está pensando demais, não faça isso com você.

- O que quer que eu faça Hermione?

- Fale com Snape.

- Acha que ele sabe?

- Bom, eu estranhei muito ele ter mudado tanto com você. Talvez seja isso, talvez ele tenha descoberto agora e está tentando se aproximar. Talvez ele não soubesse antes.

- Então durante todo esse tempo ele está mentindo para mim. – Disse Harry com raiva nas palavras.

- Só tem um jeito de você descobrir isso Harry. Conversa com ele.

Harry ia dizer algo, mas o barulho de portas se abrindo nos dormitórios o calou. Rapidamente o salão comunal se encheu de alunos sonolentos ainda de pijama.

- Não conte para ninguém, nem para o Rony. – Sussurrou Harry antes de subir para o dormitório onde se enfiou na cama, fechou as cortinas e se pôs a pensar.

Conversar com ele.

Conversar era o que Harry não queria, na verdade ele não queria nem mesmo ver o professor. Sentia-se traído, enganado e completamente confuso, pois nutria um sentimento intenso pelo homem e sua raiva fazia esses sentimentos gritarem em seu peito. Se prendia a esperança de ser apenas um engano, mas algo em seu amago dizia que era verdade e por isso não voltou mais aos aposentos do professor, nem mesmo o olhava direito nas aulas e nas refeições. Precisava de tempo, de distância e coragem para fazer o que deveria fazer que era ir conversar com ele como Hermione tantas vezes lhe dissera nas semanas seguintes.

Demorou três semanas para que Snape finalmente o obrigasse a ficar depois da aula. O mestre de poções não imaginava o que havia acontecido para que Harry ficasse tão distante de repente. Sabia que não era por ele estar ocupado com as aulas, uma vez que os professores comentaram que suas últimas notas diminuíram comparado com as que vinha tirando nas tarefas, poderia ser por algum assunto pessoal como sua paixão por Cedrico Diggory, mas viu o garoto conversando com o lufano em certa ocasião e parecia estar tudo bem. No fim constatou que havia algo consigo e por isso no final de uma aula de poção onde os alunos precisavam engarrafar uma poção consideravelmente simples e aguardar sua nota, o professor segurou a de Harry por último, liberando os alunos um por um e deixando o grifinório sentado em sua carteira.

- Potter, se aproxime. – Ordenou após bloquear e silenciar a sala.

O menino crispou os lábios descontente, então se levantou, colocou a mochila nas costas e se aproximou da mesa de Snape.

- Sim, professor.

- Pode me dizer por qual motivo não quer falar comigo?

- Não há nada, professor. Posso ir?

- Não.

- Não pode me prender aqui.

- Posso sim e vou até que me diga o que aconteceu.

- Não aconteceu nada. – Disse Harry novamente porém agora com um toque de raiva em sua voz.

- Você nem consegue olhar para mim, senhor Potter.

- Talvez porque devesse me chamar de senhor Snape!

Aquela frase pegou Snape tão de surpresa que ele nem mesmo teve uma reação, apenas franziu a testa, abriu a boca sem dizer uma palavra e olhou para Harry que agora estava o encarando com ferocidade.

- É verdade? Você é meu pai biológico?

Agora os olhos de Snape se fecharam devagar e o ar saiu de seu peito.

- Potter, de onde tirou essa idéia?

- Eu vi sua marca enquanto você estava tendo um pesadelo naquela noite. É uma marca de nascença, exatamente igual a minha. – O menino cerrou os lábios e aguardou, mas o professor nada disse. - Diz que é mentira. – Pediu se aproximando da mesa do professor.

- Não posso. – Sussurrou Snape. – Harry, eu não posso. –

Snape se levantou da cadeira e tentou se aproximar do menino, mas Harry deu um passo para trás se afastando dele. Havia lágrimas em seus olhos e raiva em seu peito. Snape estava claramente lhe dizendo que sua descoberta era verdade. Que ele era seu pai e não Thiago Potter.

- É mentira. Meu pai é Thiago Potter.

- Sinto muito. Não era para você descobrir, não agora, não assim.

- Então quando?! – Perguntou Harry alterado. – Você mudou completamente comigo esse ano. Você sabe desde o começo do ano letivo não é? E não me contou.

- Sim. – Respondeu entendendo que deveria ser o mais sincero possível com o menino, ele merecia a verdade. – Eu queria entender primeiro o que era essa informação, queria conhecer você e que você me conhecesse também. Eu iria contar, no momento certo.

- Então você mentiu para mim, durante todo esse tempo. – Acusou jogando as mãos para cima e se afastando mais ainda.

- Potter...

- Não quero ouvir você! – Gritou apontando o dedo para o peito de Snape. - Não quero saber de você. Você não é meu pai. MEU PAI É THIAGO POTTER!

Harry saiu exalando raiva e desfazendo os feitiços postos pelo professor tamanho era o nível de magia que saia de seu corpo. Snape levou as mãos a testa e baixou a cabeça. Sabia que os sentimentos de ambos estavam intensos e que aquele desejo fraternal estava gritando em seus poros indicando a urgência em contar a verdade. No entanto, jamais imaginou que seria daquele jeito, imaginou ele mesmo contar de forma calma com todos os detalhes desde o início.

Não era para ser assim.

Fora após aquele dia que Snape percebera com clareza o quanto sua vida mudara completamente desde que Dumbledore recitara o feitiço que confirmou sua paternidade, pois o simples fato de que Harry estava furioso consigo o fazia sentir-se péssimo. Ao contrário das famílias que conviviam todos os dias juntos e por isso momentos tensos como aqueles eram de fatos apenas momentos passageiros, Snape não tivera esses anos de convívio com Harry. Não faziam nem mesmo seis meses que soubera a verdade. A lacuna da história era enorme e ainda estava aberta, por isso não sabia o que fazer. Não havia o luxo de apenas aguardar que a raiva do menino passasse e que tudo voltasse ao normal.

Nada voltaria ao normal.

Harry não tinha motivos para se prender ao sangue que compartilhavam. O menino sempre fora órfão, por anos viveu sozinho com tios que o maltratavam e tinha consigo um caso de ódio compartilhado. Nada era motivo forte para que o garoto voltasse a sequer olhar para Snape que sabia que não tinha o direito de exigir que Harry lhe desse atenção. Harry não lhe devia nada.

No entanto, cada vez que se olhava no espelho e via a marca negra aparecer mais claramente em sua pele indicando que a força de Voldemort estava voltando, Snape sentia a urgência em poder ter cada segundo de sua vida gasta junto ao filho.

Era nisso que pensava enquanto passava o dedo pelo braço esquerdo por cima da manga apertada do sobretudo e perdia-se em pensamento sentado diante da mesa do diretor que apenas o observava.

- Severus? – Chamou Dumbledore vendo o professor se aprumar na cadeira largando o braço. – Você está péssimo, meu rapaz.

Snape bufou, mas a verdade era que o professor não conseguia mais ter uma única noite de sono boa, pois os pesadelos sempre voltavam, nem mesmo a poção do Sono sem Sonhos fazia efeito, assim que o inconsciente o arrastava para o fundo de seus devaneios ele via a imagem clara de olhos vermelhos e mãos esqueléticas com unhas afiadas agarrando Harry e o levando para longe, e por mais que corresse, desferisse feitiços e gritasse, ele nunca conseguia chegar a tempo. Ao acordar encontrava-se sozinho, suado com tremor no corpo e a imagem do menino gritando chamando por ele sem conseguir sua ajuda. Todo esse estresse o deixava com olheiras fundas e pele mais pálida do que o normal, além de mais magro devido estar se alimentando muito mal.

- Precisa conversar com ele, tentar novamente.

- Que serventia teria tentar novamente?

- Ele gosta de você.

- Eu sei, mas isso não tira o fato de que ele não me quer como pai e está certo em não querer. A vida inteira o pai de Harry Potter fora Thiago, um herói para ele, ainda que fosse um babaca. O menino construiu sua verdade baseado nessa mentira. Ele ficará melhor sem mim.

- Não acho. – Disse Dumbledore calmamente olhando Snape por cima do oclinhos de meia lua. – Vocês não conseguem enxergar o quanto essa proximidade tem ajudado a vida de ambos. Harry precisa de você, Severus, ele confiou em você de bom grado, entregou a inocência de sua fragilidade que não é mostrada nem mesmo para seus fiéis amigos em suas mãos. Isso não é pouca coisa e não é algo que simplesmente se esqueça ou se anule. Tudo que Harry sente por você ainda está lá dentro germinando, ele só precisa encontrar esses sentimentos e trazê-los para a superfície. Da mesma forma que você, o homem mais fechado e introspectivo que conheço, dotado de um controle mental brilhante, abriu-se para Harry derrubando seus próprios muros. Você dividiu sua história, seu tempo e seus momentos. Atrevo-me a dizer que até mesmo deixara que o menino visse talvez um sorriso que eu mesmo nunca vi. Você descobriu o que é amar, amar de verdade, não um sentimento de culpa que o carrega para a escuridão de um lago fundo e sim o amor puro que te trás para cima emergindo onde o ar puro pode enchê-lo com a esperança. Não há como retornar tudo isso para uma caixinha e simplesmente esquecê-la, são sentimentos profundos, intensos. Harry tem um sentimento fraterno muito grande por você e se quer saber, meu garoto, ele é mais forte do que se você contasse a ele, pois esse sentimento nasceu de uma escolha própria, ele te escolheu como pai. Isso não muda de um dia para o outro, pois essa escolha é eterna e está fincada no coração dele.

As palavras de Dumbledore, recitadas por sua voz baixa e calma acompanhada pelos olhos azuis intensos fez com que Snape finalmente desarmasse suas defesas e simplesmente se afundasse na cadeira que estava levando a mão ao rosto tapando os olhos. Os sentimentos pesavam em seu peito, a dor da rejeição do menino trazia um frio incomensurável, um gelo que penetrava em sua pele e não ia embora nunca.

Dumbledore tinha razão, o amava, amava aquele menino como jamais soubera que fosse possível. O queria perto de si o suficiente para saber se estava bem, se precisava de algo. Queria e sentia a necessidade de suprir os anos de traumas que passara ao lado dos tios.

Precisava dele, precisava de Harry, precisava de seu filho ao seu lado. Mesmo que possivelmente fosse por pouco tempo.

- Como? – Perguntou baixinho.

O diretor não o respondeu, pois a resposta que o mestre de poções esperava estava nesse exato momento batendo na porta. Com um aceno de mão Dumbledore abriu a porta e aguardou o aluno entrar. No momento que Harry pisou no escritório Snape se ergueu e foi até a janela olhando para fora. Precisava respirar e se recompor.

- Chamou, diretor?

- Sim Harry, chamei. Por favor sente-se. – Pediu indicando a cadeira ao lado da que Snape estivera ocupando.

Harry olhou para Snape e então para o diretor entendendo que fora colocado em uma armadilha, mas não podia contestar o diretor, por isso apenas assentiu e se aproximou sentando-se na cadeira indicada.

- Severus. – Chamou o diretor.

Snape pigarreou, ergueu a cabeça e aprumou a postura antes de se virar e sentar-se. Evitou olhar para o menino.

- Ótimo. Meus dois garotos, acredito que precisam conversar. Conversar eu digo, não gritar ou acusar, conversar. Ouvir o que o outro tem a dizer, entender e então, apenas então tomar uma decisão.

- E se eu não quiser ouvir? – Perguntou Harry.

- Acho importante você ouvir toda a história, Harry. Você não sabe o que aconteceu e todos os fatos precisam ser colocados à mesa. Eu vou deixá-los sozinhos.

Dumbledore se ergueu e saiu por uma portinha na parte de trás do escritório, possivelmente levaria aos aposentos particulares do diretor. Harry viu a porta se fechar e então sentiu o silêncio opressor do local, nem mesmo Fawkes emitia qualquer som. Até mesmo o tic tac do relógio na parede parecia ter parado. Somente depois de muitos minutos quietos é que a voz de um deles se fez ser ouvida.

- Como aconteceu? – Perguntou Harry com os olhos fixos no tinteiro em cima da mesa. – Como você e minha mãe... Ela traiu meu pai?

- Não. – Respondeu Snape respirando fundo e olhando para o menino. Ao olhá-lo, ainda que ele não retribuísse o olhar, parecia que uma força nascia dentro de seu corpo, era a hora da verdade e ele estava pronto para contar tudo que Harry quisesse. – Eles se separaram por alguns meses, durante a primeira guerra bruxa, no entanto, ninguém sabia, pois os dois eram figuras importantes na luta contra o Lord das Trevas e uma ruptura diminuiria as forças e crenças de quem lutava.

- E por que você? Havia Sirius e Lupin, provavelmente outros homens que conhecia, por que você?

- Me pergunto isso até hoje. Possivelmente porque eu fui a primeira pessoa do mundo bruxo que ela conheceu, ainda criança. Nós éramos amigos, passávamos horas conversando, eu contava tudo que conhecia do mundo bruxo, ela escutava com atenção. Quando eu aparecia machucado pelas mãos de Thobias, ela cuidava de mim. Na escola, ainda que fossemos de casas diferentes, ela continuava a conversar comigo. Talvez ela estivesse procurando essa amizade de infância, alguém que não fossem os melhores amigos de Thiago Potter.

- Então você sabia que ela estava grávida?

- Sim, eu soube. Mas as coisas não aconteceram como está pensando, Harry. Ela me procurou, dormimos juntos, três semanas depois ela me disse que estava grávida, mas que havia perdido o bebê e que por isso não podia mais me ver. Ela voltou para o Potter, um tempo depois se casou e eu soube que ela teria um filho dele. Eu estava machucado, eu a amava.

- Amava? – Questionou Harry finalmente o olhando.

- Sim, eu amava e amei por muitos anos após isso. Quando soube que ela havia se casado com Potter e teria um filho, nem mesmo fiz as contas, jamais imaginei que Lily seria capaz de mentir para mim daquela forma.

- Eu sou a cara do meu pai, muitos falam a mesma coisa, eu não me pareço em nada com você.

- Há magias muito antigas e poderosas, pouco conhecidas que podem fazer esse tipo de modificação no bebê ainda no ventre da mãe. – Explicou enquanto olhava para o rosto do menino vendo Thiago Potter em suas feições, um fato que aprendera a conviver e agora não imaginava mais Harry com nenhum outro rosto se não aquele. – Eram magias usadas na época em que havia escravidão no país, muitos séculos atrás. Muitas escravas eram usadas por seus senhores e engravidavam, para que a criança não nascesse com as feições parecidas com seus senhores, aqueles que eram dotados de magia usavam esse encantamento e ninguém descobria seus bastardos. Essa prática foi abolida muito tempo depois. Lily era uma bruxa exemplar, muito parecida com sua amiga, a senhorita Granger, ela tinha sede de conhecimento e um poder mágico enorme. Provavelmente não foi difícil ela achar esse feitiço e usá-lo para que você ficasse com as feições do Potter.

- Meu pai nunca soube?

- Ninguém sabia.

- Quando você descobriu?

- No dia do acidente no meu escritório, quando precisei te dar um banho para tirar o líquido, eu vi a sua marca. Uma marca que só pode ser passada de forma hereditária. Consultei Dumbledore e fizemos o feitiço de revelação em você. A pessoa que poderia ter uma ligação familiar com você era eu, e a ligação era real. Ali eu descobri que o filho que Lilian esperava não morreu, ele estava na minha frente. O menino que eu sempre odiei por me lembrar o homem que fazia brincadeiras terríveis comigo na escola e que no fim teve o amor da menina que eu amava, era o meu filho.

- Por que não desfez o feitiço?

- Porque não seria certo. Ainda que o que Lilian fizera não fosse certo, pois ela tirou a sua verdadeira identidade, você cresceu com essa imagem, você é assim, essa é a sua identidade é como você se vê, retirar isso de você não seria apenas errado, seria cruel.

- Por que não me contou antes?

- Porque eu tive medo. – Harry franziu a testa, jamais imaginara Snape com medo.

- Medo?

- Sim, medo. Medo porque a partir do momento que eu soube, algo aconteceu, eu senti coisas que jamais senti antes e jamais imaginei que pudesse sentir em algum momento da minha vida. E quanto mais passávamos tempo juntos, conversávamos e virávamos amigos, mais eu sabia que a verdade o distanciaria de mim e eu não queria você longe de mim. Você foi a única coisa boa que aconteceu na minha vida, Harry.

Harry sentiu a garganta queimar e seus olhos arderem, pois tudo que o homem disse era o mesmo que estava sentindo. Sua cabeça estava muito confusa.

- Como posso acreditar em você?

Sem tirar os olhos de Harry, Snape colocou a mão no bolso e tirou de lá um vidrinho que Harry conhecia muito bem, usara algumas vezes quando começara as aulas de reforço para que pudesse contar facilmente o que estava passando e sentindo. O vidro foi aberto e ao contrário do que sempre fizera nas aulas e usar o conta gotas, Snape virou o vidrinho em sua boca tomando todo o seu conteúdo. Harry arregalou os olhos, estava diante de Snape que não poderia de forma alguma mentir para si.

- O que você disse é verdade? – Perguntou o encarando.

- Sim, tudo é verdade.

- Você quer que eu seja seu filho?

- Quero.

- Por que?

- Porque eu aprendi a amar você, quero proteger você, quero passar tempo com você. Minha vida sempre foi vazia e você a preencheu, os pesadelos vão embora quando você está perto. Eu quero muito ser um pai para você.

Harry não esperava por aquelas palavras, sem esperar lágrimas vieram aos seus olhos, pois aquilo que Snape sentia era o que ele sentia também. Por trás da máscara de ódio que usava nas últimas semanas havia um sentimento muito forte por ele. Foi com Snape que seus pesadelos diminuíram, foi com o professor que conseguiu falar sobre sua infância e os maus tratos de seus tios, foi com ele que sentiu-se mais forte e confiante em sua própria magia, foi com ele que sentiu que poderia ter um pai. Os sentimentos eram tão fortes que nem mesmo percebera quando levou suas mãos aos olhos tapando-os e impedindo de ver que Snape se aproximara ajoelhando-se a sua frente e o puxando para um abraço. Um abraço que retribuiu apertando-o forte. Queria dizer que amava Snape também, queria dizer que o queria como pai. Queria dizer, mas as palavras não saiam.

- Não posso. – Disse se afastando dos braços do professor. – Não consigo.

- Por favor, Harry. – Sussurrou Snape.

- Olha, eu gosto de você também tá. Mas está tudo confuso para mim. Eu preciso de um tempo. Me dá um tempo está bem. Eu tenho que ir embora.

Harry saiu do escritório e assim que a porta se fechou Snape se sentou de volta na cadeira e levou a mão a testa.

- O problema é que eu não tenho muito tempo. – Sussurrou para o nada recebendo de volta um lamento triste de Fawkes.