Apesar das saudades de casa, Kimberly não se arrependia por ter deixado Alameda dos Anjos para treinar para o Pan Global com o treinador Schmitt. A estrutura que o ele oferecia a seus atletas era inacreditável, o ginásio muito bem equipado, a equipe competente e amigável. Ao invés de ir a um colégio, as garotas tinham aulas com professoras particulares e dormiam no alojamento ao lado do ginásio.
Não eram todas as adolescentes que conseguiam adaptar-se à rotina. Era preciso comer, beber, respirar e principalmente amar a ginástica. Kimberly amava o esporte e sentia o espírito da garça em seu corpo todas as vezes que subia nos aparelhos. Por isso, nos dias seguintes à sua conversa com Zordon e Dulcea, ela praticou exaustivamente. Sua mente e corpo pensando em cada detalhe do futuro. Enquanto, seu corpo girava no ar, sua mente montou um quebra-cabeças para conseguir colocar seu plano em ação.
Uma das desvantagens de seu alojamento era a falta de privacidade, algumas garotas podiam pagar para ter seu próprio quarto. Mas esse não era o seu caso, nunca ligara muito para isso até agora. Susan, sua companheira de quarto, era divertida e amigável, mas agora, tudo seria tão mais simples se pudesse ficar sozinha. Foi com um suspiro de resignação que ela apertou a secretária eletrônica do seu quarto para ver se tinha novas mensagens.
Beep
- Oie! Aqui é Susan e Kimberly não estamos no quarto agora. Deixe o seu recado. Ele é muito importante para nós.
Beep
- Hey Beautiful! Minha mãe avisou que você ligou ontem à noite quando eu não estava. Desculpe, mas eu tive que ficar até mais tarde no Ernie com o pessoal. As coisas estão agitadas. Estou morrendo de saudades.
Beep
- Kimberly, sou eu de novo Tommy. Esqueci de te avisar na última ligação. Já enviei o seu presente. Eu sei que ainda falta um mês para o seu aniversário... mas fiquei com medo de esquecer e não chegar a tempo. Me liga!
Beep
Kimberly não conseguiu evitar um sorriso antes de apagar as mensagens.
- Seu namorado é muito fofo Kimberly – comentou a loira animada sentando-se na cama. – Ele já esta enviando o presente do dia dos namorados, falta quase um mês.
- Ele tem péssima memória. Então, já enviou um dos presentes.
A menina arregalou os olhos e perguntou:
- Ele manda mais de um?
- Eu faço aniversário no dia dos namorados. Então, ele sempre me dá dois presentes, mas lembrou de enviar só um – era impossível não sorrir ao pensar em Tommy. - Pode apostar que ele vai ligar de novo para avisar que enviou o outro.
- Sério? – a ex-ranger rosa balançou a cabeça afirmativamente. – Nossa, ele tem um irmão para me apresentar?
- Não, ele é filho único – Kimberly riu.
- Pena. – a loira se levantou. – Bom, eu vou tomar banho, assim você vai ter privacidade para ligar de volta para ele.
- Imagina Susan, não precisa.
- Precisa sim, vocês nunca tem tempo para conversar. E eu estou fedendo. – rindo ela saindo do quarto.
O sorriso instantaneamente deixou os lábios de Kimberly. Ela sentou-se ao lado do telefone e começou uma ligação.
- Alô!
- Oie Stefan, aqui é a Kimberly, será que eu poderia falar um momento com a minha mãe.
- Ah, claro Kimberly só um instante.
- Olá querida, nossa que saudades! Tudo bem com você?
- Oi, mamãe. Desculpe, eu tenho ligado pouco...
Carol riu e disse:
- Imagine querida, eu sei que você gasta todo o seu limite para falar com Tommy na Alameda dos Anjos. Mamãe tem que se contentar com as cartas.
A garota riu e murmurou:
- Você percebeu?
- Claro, mas me conte. Tudo bem com você? E o treinamento. Está precisando de alguma coisa?
- Calma mãe, tudo bem com o treinamento. Mamãe... eu precisava conversar com você pessoalmente. Será que você não poderia vir para cá no meu aniversário?
- Algum problema Kimberly?
- Eu prefiro conversar pessoalmente com você Não precisa me dar nada de aniversário, eu só quero que você venha aqui.
- Bom, se pode esperar um mês acho que não é tão urgente... – disse Carol em voz baixa. – Preciso ficar preocupada Kimberly?
- Não mamãe, está tudo sob controle. Eu só preciso de você aqui.
- Seu pai e eu pretendiamos fazer uma festa de aniversário para você na Alameda dos Anjos e te dar a passagem de presente. – comentou Carol. – Agora acabou a surpresa, podemos nos falar lá?
- Não mãe. Eu não posso deixar os treinos e nada de festa. Será que você não poderia vir sozinha?
- Kimberly Ann Hart! Está tudo bem mesmo? Acho melhor eu ir agora.
- Tudo conforme o planejado... – suspirou Kimberly. – Eu só preciso falar com você e não vou ter tempo livre antes do meu aniversário.
- Tudo bem. Vou marcar a minha passagem e passar uma semana com você, certo?
- Perfeito! Mas por favor, só você. Você sabe que eu gosto do Stefan, mas estou sentindo falta de passar um tempo só com a minha mãe?
- Ok, Kimberly! E o Tommy tudo bem com vocês?
Kimberly sorriu ao falar:
- Está sim, ele acabou de me deixar uma mensagem falando que já enviou o meu presente.
- Ele é um bom rapaz. – murmurou Carol.
- É sim. Agora eu preciso desligar mãe. Promete que vem para o meu aniversário? Eu não vou poder mais ligar esse mês.
- Prometo sim filha, mas você jura que não tem nada de errado no treinamento?
- As coisas estão diferentes mãe, mas eu estou bem.
- Tudo bem querida. Se cuide! Eu te ligo assim que conseguir marcar a passagem.
- Obrigada mãe, eu te amo!
- Também te amo querida. Tchau.
Kimberly suspirou e desligou o telefone. Olhou para o relógio e murmurou:
- Quase dez minutos... é eu definitivamente não tenho mais limite para falar no telefone esse mês.
Trim… trim…
O telefone tocou assustando-a. Levando a mão ao coração ela atendeu.
- Mamãe?
- Hum… Kim sou eu o Tommy.
As mãos de Kimberly tremeram um pouco, mas ela respirou fundo e respondeu rapidamente.
- Oie Tommy. Desculpe, eu estava falando com a minha mãe e pensei que ela tinha ligado de volta para perguntar alguma coisa.
- Ah, então é por isso que estava ocupado. Que bom te encontrar em casa, pensei que não conseguiria falar com você hoje de novo. Estou com saudades.
- Eu também… - suspirou Kimberly. - Mas com os treinamentos e a escola nunca estou em casa. As coisas também andaram agitadas por aí, não é?
- Demais, você está sozinha no quarto?
- Sim, Susan está no banho – aproveitando o momento ela exclamou. – Nem acreditei quando a Aisha me ligou contando que se mudou para África.
- Sim uma loucura… mas voltar a ser criança foi mais doido ainda. Conseguiram sentir alguma agitação aí?
- Nada… o feitiço foi perfeito ninguém se lembra de nada. Eu mesma só tenho ligeiras lembranças de ter achado os aparelhos de ginástica altos. Mas acredito que a maioria das pessoas não percebeu que vivemos quase um mês como crianças. - Kimberly não conseguiu evitar uma risada cristalina.
- Que bom. Aqui as coisas são bem mais complicadas. Você e a Aisha não estão mais na cidade, Billy sem poderes é tudo muito estranho. Eu estou usando vermelho…
Kimberly riu e falou:
- Que pena que eu não estou aí. Adoraria te levar ao shopping.
- Kat e a Tanya me levaram. A minha mãe simplesmente não entendeu a mudança radical.
- Hum… - murmurou Kimberly.
- Algum problema?
- Não, nada… só gostaria de estar aí. Tommy eu preciso te avisar que eu tive uma emergência e precisei ligar para a minha mãe. Não vou poder ligar mais esse mês. Só posso enviar cartas.
- Algum problema Kim?
- Não, só tive algumas dores nas costas e precisava da autorização dela para alguns exames?
- Se machucou?
- Não… talvez seja o excesso de treinamento. Mas o médico daqui já examinou e não viu nada. Como não posso usar medicação por causa dos jogos, ele pediu alguns exames.
- Kimberly… você tem que se cuidar.
- Tommy, eu nunca me cuidei tanto.
- Ok, eu vou ver com minha mãe para ver se eu posso ligar mais. Nesse horário te encontro em casa?
- Sim, quase sempre já estou em casa. Prometo que vou escrever também.
- Vou esperar ansioso. Mas sempre que for algo importante ou sobre os rangers envie para o Ernie. A minha mãe ainda tem mania de abrir as minhas cartas.
- Às vezes eu não entendo a sua mãe… ela me conhece há séculos.
- Nem eu… vai ver acha que você vai me escrever pedindo para nos mudarmos para o México ou falando que está grávida. Inacreditável né?
Kimberly arregalando os olhos murmurou:
- Imaginação fértil né?
- Ela sabe que escondemos algo, mas é melhor pensar algo assim do que saber a verdade.
- A culpa é sua. Você é um péssimo mentiroso…
- Não gosto de mentir e você também não pode falar nada. Suas desculpas eram péssimas, não sei como a sua mãe nunca desconfiou
- Eu nunca menti para a minha mãe, só omiti alguns detalhes. Então, ela sempre acreditou em mim.
- E quem duvidaria da minha Kim?
- Zordon?
- Jamais!
- Kim eu esqueci de enviar um dos presentes. Vou enviar amanhã.
- Não precisa se preocupar Tommy, eu ainda nem consegui comprar o seu. Falta um mês.
- Mesmo assim, eu preciso aproveitar enquanto não há muitos ataques.
A porta abriu e Susan entrou cantarolando.
- Aí desculpe Kimberly! Pensei que já tinha terminado.
- Imagina Susan, nós falamos demais mesmo.
Voltando ao telefone ela disse.
- Preciso desligar. Já está tarde e preciso de um banho.
- Bons sonhos Beautiful e lembre-se que eu te amo.
- Também te amo Tommy…
Murmurou Kimberly desligando o telefone.
A loira suspirou e girou no ar pulando na cama.
- Desculpe por ouvir o final, mas juro que a minha inveja é boa e não mata.
- Imagina Susan. Desculpe por monopolizar o telefone. Vou para o banho.
A aura de animação desapareceu do rosto de Kimberly quando ela saiu do quarto. No banho ela finalmente permitiu que as lágrimas rolassem misturando-se com a água. Aquele telefonema foi sua despedida.
