Nos dias que se seguiram, Kimberly começou a se queixar de dor nas costas. O treinador Schmidt pediu que ela fizesse algumas radiografias. Encontraram uma antiga fratura que sofreu anos atrás em seus primeiros dias como ranger. Então o treinador, restringiu seu treinamento para o solo, diminuindo os saltos até verificar se as dores diminuíram. Além de incluir duas sessões de fisioterapia diárias que alteraram drasticamente os horários da garota. Agora, ela tinha as manhãs livres, porém raramente chegava no quarto antes das onze da noite. Até mesmo Susan tinha dificuldade em encontrá-la.
Logo em sua primeira manhã livre, Kimberly recebeu uma ligação de sua mãe.
- Alô mamãe!
- Kimberly Ann Hart você me jurou que estava bem! O seu treinador acabou de me ligar contando que você estava sentindo dores e por isso diminuiu a frequência dos treinamentos. Por quê não me disse que estava doente Kimberly?
- Calma mãe, eu não estou doente. Só as minhas costas estão doendo um pouco. Já passei pelo médico e ele acha que estarei bem em breve.
- Ah, Kimberly porque não me disse isso antes. É por isso que você quer que eu vá aí não é? Sabe que pode abandonar o treinamento e vir para casa quando quiser, não é querida?
- Aí mamãe... eu não quero deixar o treinamento. Mas se for necessário, eu nem sei para onde ir? Aisha e os pais se mudaram e não posso voltar para Alameda dos Anjos. Papai não é uma opção e você está em outro continente. Precisamos conversar sozinhas sobre isso.
- Ah, Kimberly eu sinto muito. Eu já comprei a passagem, mas talvez eu possa remarcar para ir mais cedo.
- Não tem problema mamãe, só faltam alguns dias até o meu aniversário. Quem sabe até lá as dores já não passaram?
- Eu sempre posso falar com o seu pai.
- Mamãe, você sabe que não dá para morar lá. A nova esposa dele é odiosa, o máximo que podemos esperar dele são os cheques e cartões postais.
Carol ficou em silêncio um pouco na linha.
- Eu nem sei o que dizer filha.
- Não se preocupe com nada agora mamãe. Eu vou fazer fisioterapia e ir me tratando. Eu não quero desistir do PanGlobal. Se tudo correr bem, eu já estarei melhor em alguns dias... e se eu não estiver discutiremos as possibilidades pessoalmente.
- Quando a minha menininha ficou tão sensata?
- Já vou fazer 17 anos.
- Ok Kimberly, mas prometa se cuidar muito bem nos próximos dias. Vou ligar com mais frequência.
- Não se preocupe mamãe, eu já estou me cuidando bem.
- Tchau Kimberly.
- Tchau mamãe!
Kimberly suspirou colocando o telefone no gancho. Pousando uma das mãos na barriga ela murmurou:
- Ah, minha pequena garça. Espero que ainda não consiga entender nada. A temporada de mentiras apenas começou...
Querido Tommy
As coisas aqui na Flórida estão frenéticas. Além das aulas e o treinamento, estou tendo que fazer fisioterapia por causa de uma dor nas costas. Nada sério, espero, mas não tenho tempo para nada.
Para ajudar as minhas notas de matemática estão péssimas... um dos garotos da equipe masculina está me ajudando. Só por milagre não vou levar bomba nessa matéria.
Estou enviando o seu presente já. Espero que goste... ainda não recebi nada.
Saudades
Kimberly
Susan entrou no quarto, entusiasmada quando Kim selava a carta. Ela trazia nas mãos dois milkshakes entregando um para amiga comentou:
- Carta para o Tommy?
Kimberly tomou um longo gole e murmurou:
- Sim... nossa Susan está uma delícia, obrigada.
- Agradeceu a ele pelo presente?
Kimberly pegou a pelúcia na cama e a acariciou, o primeiro presente chegara dois dias antes. Era uma garça rosa de pelúcia linda. Sorrindo inocentemente para a amiga ela respondeu:
- Claro... estou mandando o dele também?
- Sério o quê é?
Kimberly retirou do saco e mostrou para a amiga. Era um casaco branco com um bordado de tigre dourado do lado.
- Que lindo! Mas pensei que você estava procurando um dragão.
Kimberly riu e disse:
- Eu simplesmente não consegui resistir a esse casaco. Eu adoro o Tommy de branco. Mas pode guardar um segredo?
- Claro.
Kimberly abriu a gaveta e mostrou para a amiga uma caixinha.
- O que é?
- Pode abrir.
Susan abriu cuidadosamente...
- Uau!
Era um relógio de bolso prateado que reluzia de tão novo. Gravado na frente estava o desenho de um falcão e na parte de trás um dragão, abrindo o relógio o fundo continha um dragão com os ponteiros parecendo garras.
- Eu sei que relógio de bolso é um pouco antiquado... mas eu estava passando pelo centro esses dias e vi o trabalho desse senhor. Ele me disse que podia fazer três faces com os animais preferidos do Tommy. Achei que ia ficar exagerado e horroroso mas...
- Ficou absurdamente lindo. – Susan passava a mão nos contornos das gravações.
- Inacreditável não é? Ficou lindo!
- Você não vai mandar? – Indagou ela devolvendo o relógio.
- Não... acho melhor entregar pessoalmente. Imagina se isso se perde.
- Verdade... foi muito caro?
- Um pouco, mas valeu cada centavo.
- Alguma ideia de quando vão voltar a se ver?
Kimberly guardou novamente o relógio no estojo e murmurou:
- Talvez no próximo ano. Mas não sei... sinceramente, não tenho a mínima ideia de quando poderei retornar a Alameda dos Anjos.
- Como estão as suas costas?
- Melhor, sinto mais elas aqui no quarto que nos treinos. Mas o treinador faz questão que eu pegue leve.
Susan levantou-se e pegou as mãos da Kimberly.
- Você vai ficar boa logo e vamos subir no pódio juntas.
Kimberly deixou escorrer uma lágrima e respondeu:
- Digo mais Susan, ainda vamos para as olimpíadas juntas.
As duas garotas se abraçaram rindo.
Querida Kimberly
Estou morrendo de saudades. Parece que faz tanto tempo que nos falamos.
Fiquei preocupado com a sua última carta. Você sempre treinou e lutou tanto e nunca te vi reclamar das costas. Precisa se cuidar mais, beautiful.
Que estranho não ter recebido meu outro presente. Espero que não tenha se perdido, acho que você vai gostar. Eu gostei muito do casaco, o pessoal até estranhou me ver de branco.
Junto a essa carta está o seu presente de aniversário. Espere até o seu aniversário para abrir. Achei esse medalhão em um antiquário, foi impossível olhar para ele e não lembrar de você. Ele abre sim, mas tem um pequeno truque. Não vou te contar como abrir agora, na próxima vez que nos encontrarmos eu te mostro.
Está muito difícil sair da Alameda dos Anjos agora para ir aí. Tenho trabalho extra quase todo dia. Mas assim que possível vou pegar um avião. Já tenho dinheiro suficiente para a passagem.
Estou com muita saudades Kimberly.
Com amor
Tommy
Kimberly amassou a carta e a arremessou na cama. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro no quarto. Sua vontade era gritar, pegar o telefone e ligar para o Tommy agora, mas ela sabia que não podia. A angústia à oprimia, seu desejo era ignorar todo o seu senso de sobrevivência e se teletransportar para Alameda dos Anjos imediatamente.
Relembrando as palavras da carta ela tentava se acalmar. Respirando fundo e colocando as mãos sobre o ventre ela se sentou. Cuidadosamente, pegou a carta amassada e o presente embrulhado e guardou em sua mesinha de cabeceira. Trancando-os bem. Depois, ela tentaria desamassá-la e a guardaria cuidadosamente junto às outras.
Agora, ela não podia se dar ao luxo de sentir. Precisava esquecer seus sentimentos e ignorar suas emoções. Trancá-las junto à última carta de Tommy, afinal, ela sabia que ele não escreveria mais. Não depois de receber a carta que ela escrevera pela manhã. Kimberly conhecia seu namorado muito bem. Ela sabia exatamente cada palavra usar para feri-lo e para evitar que ele a procurasse.
Ela respirou aliviada pela carta já estar pronta, por maior que fosse sua força de vontade. Ela tremia e não conseguiria escrever mais hoje. Juntando a coragem que ainda possuía ela releu a carta antes de colocá-la no envelope.
Querido Tommy
Está indo tudo bem aqui na Flórida, o treinador Schmidt está me preparando para a competição.
Tommy, esta é a carta mais difícil que eu já tive que escrever. Você sempre foi meu melhor amigo e de algum jeito você é como um irmão... Mas aconteceu uma coisa comigo que eu não sei explicar. É uma coisa maravilhosa e dolorosa ao mesmo tempo.
Tommy eu conheci outra pessoa.
Tommy sabe que eu nunca faria nada para magoar você, mas eu acho que eu encontrei a pessoa que eu procurava. Ele é maravilhoso, gentil e carinhoso como você. Seria tudo perfeito se não tivesse que te magoar. Mas eu tenho que seguir meu coração.
Sempre vou me importar com você.
Por favor, me perdoe!
Kimberly
Fechando o envelope, Kimberly a endereçou para o Ernie. Por mais dolorosa que fosse a carta, não seria uma boa ideia que a Sra. Oliver a pegasse primeiro.
Sabia que cada palavra reavivaria a insegurança que Tommy sempre sentira sobre a relação deles. Afinal, ele esperará meses antes de convidá-la para um encontro porque duvidava que ela gostasse dele. Achava que sua preocupação e seus sentimentos por ele eram iguais aos que sentia por Jason, Billy e Zack. Agora, ao compará-lo a um irmão, como ela se referia aos outros rangers, iria reacender a dúvida e despertar os ciúmes ao dizer que encontrará outra pessoa.
- A Carta perfeita com a minha melhor mentira. – murmurou Kimberly tocando a barriga. – Espero que algum dia vocês possam me perdoar...
