A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 13
ESPELHO
Hunf
I work better under a Deadline
I work better under a Deadline
I pick an age when I'm gonna disappear
'Til then, I can try again
Until then, I can try again
(My Body's Made of Crushed Little Stars – Mitski)
Vishkar não se lembrava de que em qual idade percebera que a sua mãe era uma deusa venenosa, capaz de intoxicar o ar fresco ao seu redor quando estava por perto, como se drenasse a própria vivacidade das coisas, a simplicidade do mundo, confrangido o peito.
Ela se lembrava de quando aceitara esse fato, pois, no fim das contas, saber era diferente de aceitar.
Para os nobres, os amigos comerciais e líderes reais, a imperatriz Betthany era tida como uma mulher forte e respeitável. Uma monarca que nascera para triunfar. Contudo, entre os seus, ela era temida por outros motivos.
E era principalmente sobre os ombros estreitos da primogênita que Betthany testava o seu poder e autoridade com a desculpa costumeira de que a preparava para o trono, e que uma mãe sabia o que era melhor para uma filha. Essa era a resposta aceita pelo mundo. Pais sempre sabiam de tudo e os filhos, de nada. Ainda que tal sapiência atingisse algo vital como o coração, dava-se sempre a razão para os mais velhos.
"Eu a apresentarei hoje no jantar ao rei Theomedes. Ele vem de Akielos por conta de uma troca comercial e por diplomacia política. Essa é uma excelente oportunidade de conhecê-lo..."
Vishkar usava os cabelos compridos na época, caindo negros por suas costas nuas e por suas espáduas sardentas. Ela estava suada do treino exaustivo imposto pela mãe e de pés descalços. A menina contava, então, nove anos.
Betthany percorreu o olhar pela filha com um desagrado nem um pouco velado e a menina, adiantando-se, esfregou a poeira do pátio que lhe manchava o rosto.
"...Theomedes tem dois filhos. O mais velho não nos interessa porque é um bastardo, mas o mais novo, vejo-o se unindo a nós por meio de um casamento... Sabe o que isso significa, não?"
Vishkar moveu os seus olhos bicolores no rosto infantil e entreabriu a boca, com surpresa.
"Mamãe, o príncipe Damianos tem quatro anos! Theomedes não deve nem estar sonhando com um arranjo de casamento para ele ainda!"
Betthany usava uma túnica azul turquesa e tinha grossos colares envolvendo o seu pescoço delgado, assim como os seus pulsos. Os cabelos, muito negros, eram presos no alto da cabeça com um coque adornado de pérolas. Ela era uma mulher bonita, com uma constituição física equilibrada. Muitos diziam que Betthany era uma das mais belas da sua linhagem e vários poemas de Vask se debruçavam sobre a sua formosura desde que ela era criança.
Já Vishkar não se imaginava empavonando toda para dar um passeio no jardim do palácio, sob o sol a pino. O calor castigava com punhos raiados a todos. Contudo, Betthany, a imperatriz, parecia imune ao astro que alcançava o zênite, sustentando-se fria e inalcançável.
Betthany levou a mão ao peito, tocando o seu medalhão imperial de ouro maciço com a face de um leopardo. Dois minúsculos rubis eram olhos à espreita.
"Vishkar, esse tipo de arranjo despreza esse tipo de preocupação. Não importa que Damianos seja um menino ainda..." — a imperatriz dardejou o corpo da filha, que, automaticamente, cruzou os braços diante do peito, esperando pelo pior — "Você mesmo não cresceu tanto..."
Era comum em Vask, as meninas treinarem sem camisa até os dez anos. Fazia calor em Skarva naquela época do ano e o corpo nu replicava melhor o manejo de tonfa ensinado pela professora. Havia uma inocência pueril em crianças treinando só com as partes de baixo de suas vestes, que, basicamente, era uma calça larga com as bainhas dobradas e feitas de algodão cru.
Vishkar tinha o corpo com formas retas, os tornozelos e pulsos finos e o corpo estreito. O seu busto se mantinha reto e infantil. Isso não a incomodava, mas a expressão de Betthany fazia a menina acreditar que algo lhe faltava.
"...Bem, vista-se de acordo. A sua ama a ajudará a trajar a roupa de Estado, caso não se lembre mais de como usá-la..."
Depois, a imperatriz se afastou, cercada por seu séquito elegante de concubinos e cortesões. Abanando-se com um leque suntuoso de flores selvagens pintadas e tendo o sol refreado por uma sombrinha de seda que um escravo carregava próximo ao seu rosto, ela seguiu pelas lajotas, exalando beleza. Não era à toa que os poetas se esforçavam para colocar em palavras a sua graça. Betthany era a beleza que todos esperavam encontrar quando pensavam numa mulher sentada ao trono.
Sorem e Ishmael esperavam a pequena Vishkar do outro lado do pátio. Eles estavam com suas roupas de treino também e brandiam as suas tonfas, rodopiando-as com agilidade e as amparando no ar.
"O que ela queria?" — perguntou o rapaz de cabelos escuros e o corpo moreno com a cor do barro macio.
"Ela quer me apresentar ao rei de Akielos, Ishmael. Quer me empurrar para o príncipe."
Sorem pestanejou os seus olhos verdes.
"Damianos ou Kastor?"
Vishkar sorriu e provocou o primo, batendo de leve a sua tonfa de madeira na dele e produzindo um estalido morno.
"Damianos! Um pirralho que mal deve saber ainda que Vask existe. Não deve saber nem que ele mesmo existe..."
As três crianças se puseram a andar pelo pátio, contornando-o e observando as outras crianças soldadescas que praticavam os exercícios militares. Havia umas trinta delas, de diferentes idades, treinando o ataque e a defesa da luta vaskiana.
"Mas você quer se casar com o príncipe herdeiro?" — indagou Ishmael, o mais alto dos três, espreitando o rosto da menina com curiosidade.
Vishkar crispou os seus lábios.
"Akielons gostam de dominar!"
"Isso não é uma resposta."
"Isso é sim uma resposta, Ishmael. Ah, Sorem, a prima Somalia deve aparecer no jantar. Mamãe mencionou que os soldados da fronteira de Ver-Vassel tiveram uma folga e ela deve vir apresentar o seu relatório semestral a ela."
Sorem, que mirava absorto Ishmael, sorriu imediatamente, tendo os seus olhos brilhando ao dar um pulo no ar.
"Faz quanto tempo que não vê a sua mãe, Sorem?" — indagou Ishmael, fitando o outro menino.
"Faz quase sete meses."
As crianças permaneceram conversando e a interação se dissipou quando uma menina bateu com a sua tonfa de metal levemente no ombro da imperatriz herdeira.
Tratava-se de uma das garotas mais velhas que usavam o bustiê para se exercitar. A sua pele era negra e o seu cabelo estava preso em várias tranças compridas. Vishkar se aprumou ao ser abordada pela jovem que devia ser, no máximo, dois anos mais velha do que ela.
"Desistiu de treinar, Alteza?"
Vishkar sentiu um formigamento em seu couro cabeludo e o seu rosto ruborizou. Havia uma tensão em relação às suas mãos por não saber onde colocá-las. Subitamente, ela não queria ser abordada por uma das garotas mais velhas, tendo o rosto sujo e estando desleixada.
"Não... Eu vou voltar..."
Despedindo-se do primo Sorem e do amigo Ishmael, Vishkar correu de volta para o pátio, entrechocando a sua tonfa de madeira com a de um adversário da sua altura e peso. Os seus olhos, no entanto, não desgrudavam da jovem que a abordou e Vishkar deixou cair a tonfa no chão de serragem quando a menina lhe sorriu de longe com os dentes muito brancos.
Sorem se pôs a manejar a tonfa sozinho e Ishmael foi praticar com a professora da arte militar. Vez ou outra, o olhar de Ishmael se estendia até Vishkar, no entanto, que acenava para ele amigavelmente. E a atenção de Sorem se concentrava no menino de pele morena, alto e performando táticas avançadas.
Durante a noite, a imperatriz herdeira se permitiu ser banhada, perfumada e vestida por sua ama. Os seus cabelos foram artificialmente cacheados com ferro quente e presos em um penteado elegante com uma tiara de rubis. O seu corpo foi coberto com um vestido verde de seda sobreposto por várias camadas que a engoliam. Ao se olhar no espelho redondo de arabescos, Vishkar fez um som desagradável com a boca, deixando de lado o artefato cinzelado com marfim.
"Está linda, Alteza!"
"Estou parecendo uma idiota!"
"Não, não está. A sua mãe quer o melhor para você e você, como a imperatriz herdeira, deve aparecer fazendo jus ao seu nome no jantar... Você é a filha do império, menina."
"Não, Betthany quem é..."
Durante todo o jantar, Vishkar permaneceu cercada por nobres, sentada um pouco afastada da mãe, que conversava com o rei Theomedes e a comandante Somalia na mesa baixa circundada por almofadas confortáveis. O casal de leopardos de Skarva estava deitado ao lado da imperatriz e Jazel, o macho, apoiava a cabeça no colo da mulher, sorvendo os seus carinhos de unhas compridas.
Vishkar se entediava com as conversas e, de longe, avistando Ishmael e Sorem, revirou os olhos em um movimento de tédio. Os garotos riram. Depois, ela bocejou.
Sorem buscava ansiosamente o olhar de Somalia com a sua roupa simples de guerreira e os músculos à mostra. Mas ele não tinha sucesso em atrair a atenção da mãe. A mulher se fechava em conversas beligerantes, longe das crianças, pestanejando os olhos muito verdes da cor da grama ressecada e contraindo o maxilar com alguma indisposição.
Quando uma das concubinas mais jovens passou por Vishkar, que movia os pés com enfado, inevitavelmente, ela seguiu a moça com os olhos e ruborizou. Seu olhar bicolor se concentrou no rosto belo, na linha do pescoço e nos seios seminus da escrava. Ela sentiu uma estranha eletricidade passar por seu corpo e uma felicidade tão pessoal quanto o vibrar do coração. Ultimamente, Vishkar sentia isso muitas vezes. Parecia que algo secreto e rebelde germinava dentro de si.
Horas depois, no fim do jantar, Betthany, finalmente, chamou a filha para se sentar entre ela e o rei Theomedes. A menina usou com eficiência a sua aula de etiqueta, intercalando a sua fala com o akielon bem pronunciado. Os tópicos foram genéricos como nome, idade, olhos bonitos, palácio bonito. Um mundo ao redor opulento, apesar da feiura das estradas.
A menina tinha o olhar concentrado, contudo, no quíton vermelho do rei. Tintas e panos tingidos eram caros em Vask desde que ela se lembrava. Dizia-se que era por causa da guerra e do medo dos comerciantes de tecidos de transitarem pelas estradas cheias de saqueadores. Somente o interior do palácio era tão colorido, diziam.
Vishkar também observou o pingente de leão de Theomedes preso em seu quíton. Uma leoparda e um leão queriam se fundir, criando um reino de felinos? Animais assim se estranhavam ao bem da verdade. Mordiam-se e se arranhavam pelo melhor antílope ou até mesmo por um osso descarnado em tempos de seca.
Betthany se levantou das almofadas, então, deixando o rei e a menina a sós e fez um gesto tácito para Vishkar que nada tinha de tácito.
Nada havia sido combinado entre mãe e filha. Vishkar só sabia que a imperatriz antevia um arranjo com Akielos por meio do casamento de uma garota com os seios retos feito uma tábua e o de um garotinho que devia molhar ainda a cama, sentindo os primeiros sintomas da angústia de estar vivo.
A jovem se limitou, então, a ocupar o lugar da mãe, acarinhando a cabeça de Jazel, que bocejava, ostentando a sua língua rosada e os caninos pontiagudos feito estalactites muito alvas.
Vishkar achava que a conversa com o rei fosse se tornar entediante, mas ele a surpreendeu, falando da diferença dos treinos militares de Vask para Akielos e de como todos os meninos em Ios cresciam de espada na mão, assim como qualquer vaskiana que se prezasse.
"Eu não tenho uma filha. Mas a minha falecida rainha, Egeria, adoraria ter tido uma menina, após o nascimento de Damianos. É uma pena que os deuses não quiseram assim..." — declarou Theomedes, com pesar.
Vishkar levava um dos gomos das laranjas trazidas como presente de Akielos à boca e manchou com o caldo amarelo um pouco a gola de seu vestido.
"Devia continuar tentando, Majestade. O senhor tem uma amante e várias escravas pelo que ouvi dizer..."
Theomedes sorriu com a sinceridade da menina, erguendo os lábios abertamente num gesto muito parecido com o de Damen.
"Tem razão. Eu tenho uma amante e escravas. Mas Hypermenestra não pode mais ter filhos e não fui agraciado com mais crianças entre as escravas até onde eu sei. Então, me contento com o que os deuses me reservaram..."
"Tenho irmãos e irmã. Os gêmeos e Amaranta. Mas, raramente, os vejo. Eles moram no casarão da floresta..."
Vishkar, em um momento, estancou a sua fala e o seu olhar. Ela observou a jovem do treino que a abordara durante a tarde bela e toda encerrada em sedas douradas e azuis. A imperatriz herdeira a acompanhou brevemente com o olhar e só muito tempo depois, a menina percebeu que o rei estudava a sua atenção com alguma curiosidade.
Vishkar engoliu em seco. Betthany já havia a flagrado olhando meninas e mulheres e, apesar de ela não tocar no assunto, parecia não apreciar aquele hábito. Quando Vishkar elogiou, certa vez, a beleza estupenda de uma cortesã, a mãe lhe deixou falando sozinha.
"É uma jovem muito bonita..." — comentou Theomedes, olhando em direção à garota que passara — "Gosta dela?"
Vishkar olhou ao redor para ver se a mãe estava longe o suficiente e aquiesceu de um modo rápido, sem se questionar. Não precisava de tempo para responder a essa indagação.
"Você a olha como o meu filho Kastor observa as jovens do reino. E o que acha daquele menino ali?" — indagou Theomedes, referindo-se não a um dos concubinos de pele delicada, membros leitosos, rosto harmonioso e gestos sutis, mas a um soldado jovem com músculos à mostra, peito estufado, barba rente ao rosto e olhar vigoroso, arrancando suspiros de algumas nobres no salão.
Vishkar pestanejou, aproximando o seu rosto de Theomedes e perguntando:
"Não conta para a minha mãe?"
Num gesto divertido, Theomedes girou a mão fechada no canto de sua boca, como se a trancasse.
"Um segredo de Estado."
"Ele parece um búfalo."
Theomedes arqueou as sobrancelhas, soltando uma gargalhada espirituosa e tomando um gole de vinho.
"Um búfalo?"
"Sim, um búfalo procriador em exibição. Ele sim é bonito..." — complementou Vishkar, apontando para um concubino jovem com cachos ruivos, pele de porcelana e corpo andrógino— "Parece uma menina."
"Entendo, minha jovem. Entendo perfeitamente..." — comentou Theomedes, aquiescendo em meio ao salão estrepitoso com música e gargalhadas e se servindo de um caqui.
Nesse ínterim, após algum silêncio atípico e arrastado no Salão de Skarva em que o rei ria com Vishkar sobre outros assuntos banais, Betthany se pôs a dançar a dança típica de Vask enquanto os músicos sopravam as suas flautas de bambu.
A dança era algo que a imperatriz, de fato, fazia com maestria. Movendo o seu corpo, as suas mãos e sendo circundada por véus e rubis que adornavam o seu cabelo espesso e negro, a imperatriz roubou toda a atenção do Salão como se a tragasse para o seu corpo feito a fumaça de uma narguilé.
A cintura e quadris de Betthany se moviam sinuosamente ao som da canção e ela erguia as suas pernas muito brancas circundadas por tornezeleiras de ouro. Não era comum autoridades reais dançarem para os convidados em Vask. Era uma tarefa destinada aos concubinos entreter os nobres. Mas Betthany adorava receber atenção externa. Era como um alimento para ela. Ela precisava estar no centro sempre.
Vishkar pode ver o fio de desejo perpassar o olhar do rei de Akielos, que a ignorou nos próximos minutos. Vishkar era uma menina engraçadinha que fazia o rei Theomedes rir. Mas Betthany era uma mulher que governava um império e podia manipular o desejo dos homens ao seu favor. A filha, de alguma forma, precisava ser lembrada disso e, de alguma forma, a menina entendia que ela precisava se submeter à mãe. Nunca a sobrepujar.
Quando a dança cessou algum tempo depois, com aplausos acalorados e o ruído das pulseiras de moeda nos braços de Betthany tilintando, a imperatriz se reaproximou do rei Theomedes. O akielon ainda tinha um olhar fascinado e se desvelou em elogios para a imperatriz. Ela era o rubi de Vask; o sol; a mulher mais linda do império. Houve muitas palavras proferidas por Theomedes para a imperatriz, que fingia modéstia. Contudo, o homem não expôs a sua conversa com Vishkar, mantendo a discrição.
Ao fim da noite, Betthany soltou com uma delicadeza elegante sobre a mesa assuntos envolvendo casamento e a amizade entre os reinos. Theomedes coçou a sua barba, dizendo ao parecer se recuperar do transe no qual imergira:
"Meus filhos são muito jovens ainda para pensarem num matrimônio. Diferentemente de meu pai, tive a oportunidade de escolher Egeria para que ela se tornasse a minha rainha. Uni-me a ela não por imposição ou por simples atração, mas por amor. O mesmo aconteceu com Hypermenestra. Gostaria que os meus garotos tivessem a mesma satisfação minha. Casarem-se por amor. Se, futuramente, os caminhos deles e de sua bela menina se cruzarem, quem sabe o amor não floresce entre eles, Vossa Majestade Imperial? Agora, queiram me dar licença. Gostaria de me recolher cedo para poder contemplar na primeira hora do dia o lendário nascer do sol de Skarva, antes de partir em viagem. Boa noite!"
Era uma saída elegante da questão, mas Betthany, com um crispar contrariado dos seus lábios, fitou de um modo torvo a filha e a culpou depois pela esquiva do rei Theomedes.
"Tenho certeza de que você falou algo indevido!"
"Eu não falei nada!" — retrucou Vishkar, retirando o sapato de verniz e o atirando do outro lado do seu quarto.
"Você não tem recebido pretendentes ou propostas de casamento. Na sua idade, eu já tinha dezenas de pedidos, centenas deles!"
Vishkar atirou o outro sapato, após retirá-lo do pé.
"Ótimo! Na sua época, não estávamos em guerra! Que rei vai querer comprometer o seu herdeiro a puxar uma guerra que não é sua para si?! Quem vai querer atrair a guerra para o seu próprio reino?!"
Betthany contraiu a boca tingida de vermelho como se uma ferida se abrisse em seu rosto bonito. Seus olhos pestanejaram e a sua voz se alterou, recrudescendo a discussão.
"Como você é cruel! Mal-agradecida! A guerra trará riquezas e honra para Vask, mas você só sabe ficar aí não contribuindo com nada para a nação! Você não é como eu! Torgeir tem um filho que o apoia, que traz glória para Patras. Que eleva o seu nome! Ele já está noivo e dizem que ele é um exímio guerreiro. Deveria ser como ele!"
Estava demorando. Esse era um dos métodos rotineiros de Betthany causar dor em Vishkar. Compará-la com o príncipe herdeiro de Patras, conhecido por sua habilidade militar nas fronteiras. Um rapaz jovem; munido da admiração dos seus; imbuído do orgulho do pai; sem rosto e sem forma como um autêntico herói. A águia de Patras em todo o seu esplendor sobrevoando a terra.
"Eu sei lutar com a tonfa! A professora disse que eu tenho agilidade!" — as palavras de Vishkar saíram trêmulas, tentando lembrar a si mesma que possuía algum valor — "Eu posso lutar..."
"Isso não é o suficiente! O que acha que Torgeir faria com a sua tonfa de madeira? Ele a partiria ao meio, assim como você, com um único brandir de machado. Quando vai começar a lutar como uma guerreira?"
Vishkar sentiu o seu peito confranger de desgosto. Ela se sentiu mal por experimentar a familiar vontade de chorar. Levando a mão ao rosto, enxugou-o, antes que as lágrimas corressem.
"... E quando vai começar a agir como uma imperatriz de verdade? Pensa que eu não a vejo com o olhar obsceno sobre as escravas? Concubinas no império são para entretenimento. Sabe como é difícil para um reino de mulheres ser cercado por três Estados patriarcais? Uma mulher só é mais forte do que um homem, ela só é lembrada, quando o domina! Quando o tem entre as pernas ou sob uma espada! Você precisará de um imperador para lhe dar filhas e garantir a nossa linhagem! E precisamos acabar com Patras!"
Vishkar soluçou, aceitando a derrota na sua luta com o choro.
"Houve a imperatriz Nadine que se casou com uma amante..."
"A sua bisavó Nadine quase botou o império a perder. Ela teve somente uma filha por sorte. Uma vergonha para uma nação como Vask. A fertilidade é importante para uma imperatriz. Não vou deixar você destruir tudo o que construí, Vishkar..."
As palavras eram sequiosas, drenando qualquer sentimento do ambiente. Não vou deixar você destruir tudo o que construí. Não vou deixar você ser diferente de mim.
Vishkar soluçou, pensando que só se ela fosse desmontada, desmembrada, separada e refeita poderia ser como a mãe. Ou honrá-la. O seu choro alcançou uma nota maior.
"... Eu não sei por que ainda perco o meu tempo com você. Você não é digna do meu amor."
E Betthany partiu resoluta do quarto da filha com o queixo orgulhosos erguido, mas, antes que ela cruzasse a soleira da porta, a menina correu até a mãe, abraçando-a pela cintura. A mulher se manteve de costas, enrijecida e olhando um ponto indistinto.
"Me perdoa, mamãe. Desculpa pelas minhas palavras. Prometo lutar melhor. Prometo ser melhor do que o príncipe Torgeir..." — desabou Vishkar com a voz embargada.
Essa era a dinâmica. Vishkar ia ao seu limite, tentando discutir com a mãe e lutando por seu espaço de um círculo apertado dentro do qual tentava respirar, mas sempre quando Betthany a ameaçava deixar, a menina corria para fora do círculo, buscando, sedenta, o amplexo da mãe. E ela abria mão de tudo. Até mesmo do oxigênio ao seu redor.
Betthany disse, então, as palavras que silenciavam o choro de Vishkar, logo após um carinho seco. As palavras que a desmontavam.
"Pare de chorar. Você sabe que não é bonita quando chora. Não deixe Skarva descobrir que você é feia. E fraca. Ou estaremos perdidas."
No dia seguinte, Vishkar exigiu à professora de treino militar que ela começasse a praticar com a tonfa de metal. A menina experimentou o peso da arma, brandindo-a com alguma dificuldade, após vir treinando todos aqueles anos só com armas de madeira.
Do outro lado do pátio, Ishmael e Sorem viram Vishkar gritar de dor quando foi acertada com a tonfa no ombro e no flanco. Mas não a viram desistir. E não a viram desistir nos anos seguintes. Nem mesmo quando a tonfa acertou o seu rosto, ferindo-lhe o queixo e, depois, abrindo um corte no seu supercílio que precisou das plantas do doutor Higen para cicatrizar.
Quando completou catorze anos, Vishkar usava o cabelo muito comprido amarrado na nuca com uma fita de couro curtido. Ela não já mais deixava os seios nus e os cobria com uma blusa solta durante os treinos. E a jovem se movia com rapidez, defendendo os golpes de seus adversários e driblando os ataques com a leveza de uma dançarina. O mesmo êxito ela alcançava com a espada.
No decorrer dos anos, houve só o entrechoque de metal se içando no recinto e o arquejar da imperatriz herdeira forjando habilidade e músculos. De vez em quando, ela pulava em seu lugar para proporcionar impacto sobre os pés. E ela rodopiava a tonfa, amparando-a no ar para mais uma rodada, mesmo quando os outros já haviam atingido o seu limite.
Naquele verão do décimo quarto ano de Vishkar, a imperatriz e os cortesões foram vê-la no pátio de treinamento, sem que ela soubesse. E, talvez, parte de seu brilhantismo se devesse ao fato de não saber que a mãe a espreitava ao lado da comandante Somalia e de soldados como um píton adornado.
Vishkar se surpreendeu quando foi aplaudida, olhando por sobre o seu ombro. Ela só pode distinguir o rosto jubiloso de Somalia e a expressão seca de Betthany. Não era comum a sua mãe prestigiar os seus treinos. Quando criança, Vishkar sentia inveja das outras crianças que corriam para abraçar os pais, após vencerem uma disputa. Nem o imperador e nem a imperatriz eram afetuosos. Eles eram ásperos o tempo todo.
A jovem, apoiando a tonfa sobre o seu ombro como uma sombrinha, correu para perto dos visitantes.
"Somalia!" — gritou Vishkar, abraçando a comandante das tropas vaskianas — "Sorem precisa saber que está aqui!"
Betthany dardejou a filha, dizendo:
"Você parece mais satisfeita em encontrar Somalia do que a mim. Creio que não imagina o que a trouxe aqui..."
Não, Vishkar não sabia o motivo de Somalia ter ido para Skarva. A razão demorou para alcançá-la. Chegou no momento mais inoportuno. No instante em que Vishkar exercia aquela parte sua que a expressão azeda da mãe não conseguiu represar no decorrer dos anos.
Vishkar estava em seu quarto com Judy, a garota por quem era enamorada desde os nove. Fazia um ano que a imperatriz herdeira descobrira o que podia fazer com aquele seu desejo indômito que irrompia em marés. Com Judy, ela trocara o seu primeiro beijo.
Ela tocara o seio da jovem com as palmas das mãos e com os lábios. Tocara-a também em outra parte e fora tocada. Quando Betthany entrou no quarto, Vishkar tinha as suas pernas entrelaçadas nas de Judy e as duas garotas sorviam um prazer singular.
A porta do quarto se escancarou com um estrépito e a luz irrompeu de um candeeiro que era portado pela soldada da imperatriz. No colo, Betthany trazia a sua filha mais nova, Hannah, que nascera no último outono.
O gemido de Vishkar se contorceu em um grito e ela pulou da cama, cobrindo-se com o lençol enquanto praguejava. Judy fez o mesmo.
O olhar de Betthany se cravou intempestivo em Vishkar. Depois, em Judy, que era a filha de um nobre. A jovem não desviou o rosto e ergueu um pouco o queixo, desafiadora.
"Saia!"
Judy pestanejou e procurou o olhar de Vishkar, que, se sentindo pequena diante da expressão da mãe, ajudou a amante a juntar as roupas do chão antes de se retirar. O olhar de Judy procurou confirmação mais uma vez na expressão da imperatriz herdeira, que assentiu como se dissesse: "Deixa que eu sei lidar com ela. Ou pelo menos, acho que sei."
A bebê dormia no colo de Vishkar, que se adiantou pelo quarto após a saída de Judy, sentando-se, sem pedir permissão, na poltrona da filha. Vishkar ainda tinha o lençol ao redor do corpo e achou a cena demasiadamente insólita quando a mãe colocou o peito para fora e começou a amamentar a filha. A maternidade recente deixara a imperatriz um pouco abatida e a sua cintura ainda estava grossa pelo parto. A soldada permanecia parada, segurando a tocha, sem saber o que esperar.
Após quase um arrastado minuto, Betthany sacudiu o rosto com ar de reprovação.
"Você está dando um péssimo exemplo para a sua irmã..."
Vishkar não queria gritar, mas gritou. A sua mãe interrompera a sua foda com a sua amante em seu quarto e agora a censurava.
"E por que ela está aqui?! Por que vocês duas estão aqui? É o meu quarto!"
Betthany replicou com uma frieza áspera:
"Se Judy não fosse a filha de um nobre, eu a expulsaria do palácio..."
Vishkar se sentou na beirada da cama, segurando firmemente o lençol.
"Você tem um problema com o fato de eu gostar de mulheres..."
"Não seja tola! Já dormi com mulheres. Disponho de concubinas..."
A resposta pairou no ar sem uma conclusão clara. Se Betthany não tinha problema com o sexo lésbico, o seu problema com a filha era de outra natureza. Havia uma intuição em Vishkar, que ela não ousava verbalizar para si.
"... Você vai atuar na fronteira de Ver-Vassel sob o comando de Somalia."
O anúncio não abria espaço para muitas perguntas. Não era um questionamento. Era uma ordem.
"O que?! Quando?"
"Na próxima semana. Quando Somalia partir, você irá com ela."
Vishkar apertou os lençóis sob as suas mãos. Ela nunca imaginou que pudesse ser atirada do alto do prazer em um vale submerso de tensões. Ela serviria na guerra? Ela sempre soubera que esse era o esperado da imperatriz herdeira, mas achava que tinha mais tempo. Mais três ou quatro anos pelo menos.
Vishkar olhou para a irmã no colo da mãe.
Será que, em algum momento, ela já havia sido envolvida em uma manta, sendo protegida e nutrida por Betthany? Será que ela já havia sido acolhida daquela forma? Vishkar ouvira, certa vez, duas criadas comentando que Betthany enlouquecera quando dera a luz pela primeira vez porque Vishkar nascera fraca, causara uma dor implacável e viera ao mundo sem vontade de chorar. Fora preciso que Somalia se trancasse no quarto com Betthany e a acalmasse.
"... Há soldados bravos lutando em campo aberto e apagando o fogo que os patranos deixam em seu encalço. É exigido que o império dê o exemplo e coloque os seus na linha de frente também, assim como Patras faz..."
Vishkar engoliu em seco, repetindo atordoada:
"Na linha de frente..."
"Quero a cabeça de Torgeir antes do próximo verão. A guerra se estendeu mais do que deveria. Ouvi dizer que o rei está adoentado e somente Torgeir nos separa de Patras. Você deve rachar a sua cabeça com a tonfa e separá-la do pescoço com a espada, entendeu?"
Havia uma morbidez no modo que aquela mulher, ao amamentar a filha lhe incutindo vida, descrevia à outra filha um modo frio de infligir morte a um homem.
Aconteceu muito rápido o desdobramento daqueles dias. Quando Vishkar partiu, o povo nas cidades e mercados veio se despedir dela, ajoelhando-se sobre o chão e murmurando bênçãos, como louva-a-deus em fileiras.
Judy a beijou e lhe fez promessas. Sorem e Ishmael pareciam inconsoláveis.
Muito rapidamente, Vishkar se viu com a roupa escura dos soldados vaskianos, servindo sob o comando de Somalia nas tendas da fronteira de Ver-Vassel. O acampamento se estendia diante do forte bem equipado de Patras com centenas de barracas montadas.
Ao redor dos exércitos, havia planície, colinas, um rio com água limpa, a ruína de um casebre de pedra que fora uma capela no passado, a floresta e nada mais. Havia coiotes durante a noite e coelhos durante o dia. Havia dias em que o sol fustigava o corpo e o juízo dos soldados. E havia dias em que a chuva parecia que levaria tudo embora.
Alguns soldados vaskianos de Ver-Tan já haviam realizado incursões em Patras pelas florestas, queimando plantações; matando camponeses; saqueando o fornecimento da nação; confiscando cavalos, gados e ovelhas e intimidando com a morte os inimigos.
Patras não fizera diferente. Saqueava o país e estuprava homens e mulheres em Ver-Vassel ao realizar incursões sorrateiras pelas montanhas de Acquitart. Era uma luta de ódios equilibrados. As duas nações impunham a sua lógica de domínio, destruindo justamente aquilo que mais queriam conquistar.
A primeira vez que Vishkar viu Torgeir ao longe, ela se surpreendeu. Surpreendeu-se porque o imaginou como um herói de ombros largos, cabelos revoltos e olhar feroz e ele, de fato, era um pouco disso. Mas também era um pouco de algo que ela não sabia explicar.
Era estranho ver alguém de quem sempre se ouvira falar e que imaginara sob a luz de um candeeiro como um homem de braços fortes, belo e alto como ela jamais seria. Quantas vezes Vishkar não perdera para ele sob a comparação cruel da mãe? O seu julgamento pesado. Ele trazia glórias para Bazal e Vishkar nunca obtivera nenhuma. Torgeir era tudo e ela, nada.
A imperatriz herdeira o viu pela primeira vez do alto da colina costurando algo em um canto do riacho, cercado por seus homens.
Demorou para ela perceber que o gesto que ele fazia de mergulhar a mão no ar como se estivesse repuxando algo, fosse o de coser. Depois, ele levou um pedaço de linha até os dentes e a partiu.
Vishkar franziu o cenho. Ela nunca imaginou que fosse ver o futuro rei de Patras costurando, ao invés de abrindo o crânio de soldados com o machado. Vishkar ficou tão atordoada que sacudiu o rosto, achando que o calor da nova manhã a estava suscitando delírios.
Era uma luta estranha a da fronteira de Ver-Vassel. Vaskiano lutava contra patrano algumas vezes na semana. Havia feridos que eram tratados e mortos que eram queimados. Nenhum dos dois lados cedia ou recuava, mas os combates pareciam obedecer a uma regra, uma formalidade pré-estruturada como as leis de um jogo de tabuleiro.
"Quando lutaremos?" — perguntou Vishkar, com impaciência, vendo os soldados vaskianos tirarem um cochilo depois do almoço.
"Hoje não é dia. Depois de amanhã, entraremos em campo de batalha..." — explicou-lhe Somalia, polindo a sua armadura.
Vishkar moveu os seus olhos com mais impaciência.
"Minha mãe quer que a guerra acabe logo. Por que não os atacamos de surpresa durante a noite com flechas?"
"Já fizemos isso, Alteza." — disse um dos guardas que afiava a ponta de sua lança com pedra sabão.
"E o que aconteceu?"
"Eles nos atacaram três noites depois durante a noite. Morreram cinco do lado de lá e quatro do lado daqui. Vencemos essa."
Vishkar entreabriu a sua boca, sem entender:
"E depois?"
"E depois nada."
A vaskiana se largou sobre o chão de grama ressecada, sacudindo o rosto ao murmurar:
"Eu não entendo. Não tem lógica..."
"A guerra não tem lógica, Vishkar. Se veio aqui atrás disso, se ressentirá." — disse Somalia — "O campo de batalha aqui é como um espelho. Se você bater, eles batem de volta. Se você atacar durante a noite, eles atacam também. Se você gritar, eles gritam. E se você quiser usar a tarde para tirar um cochilo, eles também dormem..."
"Podíamos atacá-los, então, enquanto eles sesteiam de tarde..."
"Daí, eles nos atacarão amanhã depois do almoço..."
Vishkar jogou a sua tonfa no chão com irritação, fazendo os soldados olharem em sua direção.
"Há pessoas morrendo nas estradas, esperando pelo fim da guerra..."
Somalia se colocou de pé, dizendo ao atirar o seu peitoral de metal em um canto:
"Há homens morrendo aqui também, Vishkar. Viemos aqui para invadir a rota que leva a Bazal e, quando chegamos, Patras já estava armada até os dentes no forte. Matamos e morremos. Eles não cedem e nós não cedemos. Pode se enfurecer com isso; tentar atacá-los e cavar retaliações ou dormir um pouco para descansar e se preparar para o próximo combate."
Foi após essa indisposição com Somalia que Vishkar escolheu uma das opções. A sua mãe queria a cabeça do príncipe Torgeir. Isso colocaria um fim na guerra e deixaria Patras atordoada o suficiente para recuar. Isso traria honra e glórias para Vask. Para isso que ela fora enviada para servir ao exército. Para defender o seu reino e honrar o império.
De modo que, durante a madrugada em que as planícies estavam mergulhadas no silêncio entrecortado pela estridulação dos grilos, o som emitido por gafanhotos acasalando e o choro dos coiotes, Vishkar se moveu sob o céu estrelado, deixando a sua tenda.
Diziam que Torgeir tinha problemas para dormir durante a noite e ia até o riacho, acompanhar os seus escravos para que buscassem água limpa algumas vezes. Vishkar recebeu a informação com incredulidade. Por que o exército vaskiano estava tão apático e não elaborava uma emboscada?
Vishkar se manteve agachada na planície, esperando por uma movimentação próxima ao forte. Ela dispunha não apenas de sua tonfa, mas de sua espada curta. O tempo custou a passar até que ela viu Torgeir deixar o forte de pedra, acompanhando dois escravos e sendo flanqueado por dois soldados.
Vishkar era como o coiote, andando por trás do mato alto em vestes negras de cavalariço. Ela se esgueirou em silêncio, seguindo o séquito até o riacho.
Os dois escravos, após enrolarem as bainhas de suas túnicas e se agacharem no riacho, puseram-se a encher as suas ânforas com a água limpa. Os soldados se dispuseram a ajudá-los, contando causos e flertando com os jovens.
Torgeir, por sua vez, se sentou um pouco mais afastado sobre uma pedra que parecia conhecida sua, pondo-se a enfiar a agulha e a linha no objeto que costurava.
Vishkar moveu os seus pés descalços, sentindo o pinicar do mato e das pedras soltas nas solas dos seus pés. Ela se aproximou, empunhando a espada curta silenciosamente. Em um dos galhos, uma coruja de penas cinzentas se pôs a cantar.
Os soldados avançaram um pouco mais sobre o riacho, observando agora os peixes de escamas brilhantes escorregando entre as pedras, seixos e pés dos escravos. Um dos guardas se pôs a tentar pescar com uma lança o café da manhã que poderia ser comido com pão e grãos.
Torgeir costurava distraído e, talvez, fosse por achá-lo tão entretido no movimento de agulha e linha que Vishkar não se atentou ao graveto no qual pisou. Cleck!
O príncipe de Patras pareceu uma águia ao se alarmar, largando a costura sobre o chão e erguendo o seu braço para segurar o pulso de Vishkar em um movimento demasiadamente rápido e potente.
Durante alguns segundos, os olhos bicolores dela encararam as retinas castanhas dele e eles brigaram pelo porte da espada curta. Torgeir segurava o pulso da jovem, com o queixo contraído, lhe magoando a pele muito branca.
Os soldados e os escravos estavam de costas no riacho, alheios à briga que se desdobrava e, no instante em que Vishkar achava que o príncipe fosse gritar, ele torceu o seu pulso com tanta força que ela sentiu que ele ia se partir.
Torgeir a desarmou e no momento em que ela ia falar, ele fechou a mão em sua boca, silenciando-a. Guardando a espada em sua algibeira, ele fez um gesto com o dedo em riste diante dos lábios, reforçando o silêncio.
Vishkar franziu o cenho, observando os homens e escravos de costas no riacho e, em seguida, a boneca que Torgeir costurava caída no chão. Ele a arrastou para fora da beira do riacho até uma área afastada. O sol em breve nasceria e o céu estava pincelado de tons rosados e estrelas espaçadas. O ar estava úmido de orvalho. Em vaskiano, o patrano falou e a sua voz era firme:
"O que faz aqui?"
"Vim matar você, Torgeir, príncipe de Patras!" — respondeu sem meandros a imperatriz herdeira, apalpando o seu pulso com marcas avermelhadas.
O homem, que já passara dos vinte anos há um tempo, olhou Vishkar de cima a baixo com um ar divertido.
"Você é uma garota pequena. Achei que fosse mais assustadora, filha do império! É menor do que Tília, a minha irmã."
Vishkar semicerrou os seus olhos.
"Como sabe quem eu sou?"
"Vimos a sua comitiva chegando. Ouvimos boatos de que você viria servir, mas não pensei que fosse mandada ainda criança..."
"Não sou criança!" — replicou ela com azedume, erguendo a sua voz.
Torgeir fez um gesto para que ela falasse mais baixo.
"Estava ansioso para conhecer você!" — disse Torgeir, sorrindo.
A cena pareceu insólita para a vaskiana. Os dois eram inimigos de guerra, mas Torgeir não a tratava como uma inimiga. Ele lembrava os garotos mais impertinentes do seu treino de tonfa.
"Por quê?"
"Você e a sua linhagem são famosas em Patras. Um reino governado por imperatrizes! Vocês criam mesmo leopardos em Skarva?"
"Sim..." — respondeu Vishkar de um modo vago, sentindo um quê de irrealidade ao seu redor e com um senso estranho de que, por educação, devia perguntar algo também sobre Patras — "O que tanto você costura?"
Torgeir respondeu sem meandros.
"O boneco do meu filho. Vou ser pai no inverno."
Vishkar já ouvira falar das réplicas humanas cosidas em Patras para trazer bênçãos quando uma criança nascia ou estava ainda dentro do ventre da mãe.
"Você vai ser pai?!"
A resposta não foi obtida porque os soldados começaram a chamar por Torgeir. Vishkar ouviu o barulho metálico dos homens desembainhando as suas espadas. O príncipe patrano se inquietou, sussurrando:
"Volte para a sua tenda! O rio na madrugada pertence aos patranos. Vai haver desequilíbrio se os meus homens te acharem aqui. Agora, vá!"
Torgeir deu as costas para a jovem, mas antes, lembrou-se de tirar a sua espada curta da algibeira e devolver para ela, dizendo:
"Vá embora, Vishkar de Vask!"
A jovem estancou um pouco próximo às árvores, ouvindo a voz de Torgeir tranquilizando os seus homens. Ele se afastara porque ouvira um barulho, mas era só um filhote de coiote assustado.
Tomada ainda pela insensatez do que vivenciara, Vishkar correu de volta para o acampamento vaskiano, adentrando a sua tenda e permanecendo acordada durante a madrugada. No dia seguinte, ela levou uma dura de Somalia quando ela confessou à comandante o que fizera.
"Você quer trazer mais desgraça para a guerra?! Sabe que se matar Torgeir, nada vai melhorar? O exército dele não vai deixar de lutar e tomará a morte dele como um pretexto para invadir e trucidar os nossos soldados. Não deve se meter com ele..."
"Há soldados trucidados em outras fronteiras!"
"Sim, Vishkar! Existem soldados vaskianos morrendo aos montes e matando aos montes em outros lugares! Muitos se sentem mais vivos na guerra! Aqui, somos do jeito que você viu. Há leis! Pode não gostar delas, mas aqui você obedece a mim! Não vou tratar você como uma princesa, mas uma subalterna!"
"Somalia, por que não os atacamos? Você tem medo deles?"
A mulher se voltou com o seu olhar verde dardejando irritação sobre a jovem.
"Acha que todos os vaskianos e patranos gostam de estar numa guerra, Vishkar? Muitos dos homens e mulheres que estão aqui têm família e filhos os esperando em casa. Matar um príncipe de Patras é sacrificar qualquer possibilidade de paz. É um caminho sem volta, garota tola! Vai ver de perto amanhã o que é uma guerra e pode me dizer algo sobre o medo."
Somalia se afastava quando Vishkar se antecipou:
"Por que você vem mentindo nos relatórios entregues para a minha mãe? Ela acha que a guerra aqui está acirrada, que você matou centenas de patranos, mas tudo o que vejo é marasmo e regras!"
A mulher se voltou para fitar a jovem. Os seus cabelos muito escuros eram presos num coque e a sua pele muito branca estava castigada pelo sol. Havia uma cicatriz em seu rosto.
"Conte para a sua mãe, então, o que acontece aqui, Alteza! Conte para os nobres sedentos por glórias que estamos há anos em um impasse de uma guerra que eles mesmos cavaram, sem consultar nenhum de nós!"
"Torgeir vai ser pai, Somalia! Sabia disso? Ele pode ter um herdeiro para o seu reino, o que deixa a nossa luta mais difícil..."
A voz de Somalia parecia erigir uma barreira entre ela e a jovem a cada palavra. Durante todo o seu treino, Vishkar admirara a prima de sua mãe como uma comandante forte e implacável, mas a via agora imersa em um quase conluio com Patras. Somalia disse:
"Sim. Há alguns meses, Torgeir foi visitar a princesa Enone e ouvimos boatos de que ela estaria grávida em Bazal..."
"E então?"
"E então o que?"
"A nossa empreitada se torna mais difícil se ele encher a esposa dele de filhos reais feito um coelho disposto!"
"A sua mãe tem três filhas, Vishkar, fora os gêmeos. Deveria estar preocupada consigo mesma..."
A jovem contraiu as sobrancelhas.
"O que quer dizer com isso, Somalia?"
"Pense. Pense bem. Mas se não está preparada para pensar nisso ainda, durma. Depois, coma. E, em seguida, vá treinar com os soldados. Alguns novatos precisam praticar com a tonfa. Se ainda assim, nada disso te interessar, vá ajudar Gene com os cavalos..."
Assim se encerrou a discussão de Vishkar e Somalia. Mais tarde, enquanto alimentava os cavalos ao lado do cavalariço, a vaskiana ruminava as palavras proferidas pela parenta. Ela tinha duas irmãs e dois irmãos. As meninas eram filhas do imperador, o seu pai, e os meninos, filhos de um concubino.
Torgeir tinha os príncipes Torveld e Tília como irmãos reais, além de outros dois meninos criados no sul de Patras.
O que Somalia queria insinuar com aquela matemática?
A primeira luta da qual Vishkar participou aconteceu na manhã seguinte. Homens montados a cavalo irromperam pelas planícies, portando lanças e tremulando a bandeira com a águia de Patras. E os soldados vaskianos esperavam, armados, rodopiando espadas e tonfas, tendo teatralmente a bandeira de Vask em um estandarte levado por um arauto.
Vihskar se viu descendo a colina, gritando, sendo flanqueada por homens e mulheres de Vask. Ela se abaixou sob a espada do primeiro adversário e pulou sobre a lança do segundo. Em seguida, pulou sobre um terceiro homem que a jogou no chão e chutou o seu estômago. Ela sentiu o gosto ferroso do sangue em sua boca e cuspiu no chão, colocando-se de pé.
A sua tonfa se entrechocou com força contra a espada do soldado careca e os dois brigaram, arrastando os seus pés sobre a terra, avançando ou recuando. Eles se encararam e Vishkar bateu com força no pulso do homem com a sua arma quando ele brandiu a espada. Depois, defendeu o seu ataque, escorregando a tonfa até o cotovelo.
Ela era boa! A professora de treino militar e os seus companheiros diziam que ela era boa. Ela se movia com excelência!
Até que alguém gritou em patrano no meio da multidão de armaduras reluzentes, couro, lâminas e escudos. Alguém que colhera a mensagem proferida por uma boca vaskiana.
"É a imperatriz herdeira! Olha os olhos dela!"
Aos poucos, as palavras foram se ateando como fogo entre as pessoas e os homens e mulheres iam voltando as suas cabeças sobre os ombros para espreitarem a jovem que foi empurrada pelo soldado. A filha do império estava em campo.
O patrano com quem Vishkar lutava recuou, perguntando:
"Você é Vishkar de Vask?!"
A jovem aquiesceu, mantendo o seu queixo erguido e orgulhoso.
"Lute comigo!"
O homem se deteve e lhe deu as costas, retrucando:
"Vai pra casa, menina!"
Vishkar sentiu o olhar de desprezo dardejá-la em cheio em seu coração. Aquela indiferença lhe parecia familiar. Aquela indiferença lhe machucava a carne.
"Lute comigo!" — vociferou ela, empertigando-se.
O homem disse, voltando-se sobre o ombro.
"Não! O equilíbrio!"
"Lute comigo!" — ordenou Vishkar, girando a tonfa e berrando dessa vez.
"Não!"
Num ato impensado, sentindo as suas entranhas se revoltarem e um estranho zumbido se mover nos seus ouvidos, ela ergueu o braço e o desceu sobre a cabeça do patrano, gritando:
"Não me ignore! Olhe pra mim!"
A tonfa de metal pesado atingiu em cheio a têmpora do soldado e um ruído profundo e ósseo se elevou. Vishkar viu o homem se deter, erguendo a mão no ar debilmente enquanto a tonfa era afastada ensanguentada da cabeça dele. Ele tombou sobre o mato ressecado e do buraco que se abriu em sua cabeça, o sangue brotou.
Vishkar sentiu o impulso de largar a tonfa no chão. Mas, ao invés disso, ela se manteve paralisada, sentindo o seu estômago afundar. Até que ela se ajoelhou ao lado do homem, virando-o de barriga para cima. A sua boca estava ovalada e os seus olhos vítreos. A sua cabeça, rachada.
Um médico! Alguém devia chamar um médico e, como se despertasse de um transe, a vaskiana se viu, subitamente, cercada por homens e mulheres caídos e machucados. Havia homens brandindo espadas, avançando montados a cavalo. Havia uma outra hoste de homens apeando cavalos e correndo contra os vaskianos.
Vishkar se viu, entre os corpos, tentando proteger aquele morto. O seu morto. Talvez, ele não estivesse morto. Talvez tivesse só desmaiado com o impacto da tonfa, apesar do sangue que irrigava incessantemente a terra sequiosa de chuva.
Anos depois, Vishkar se lembraria do primeiro homem que matou como uma vítima de seu ato covarde. Ela acertara o patrano pelas costas quando acreditou que ele lhe julgara uma adversária não à altura.
O que ele pensou que ela fosse? Uma princesa debilitada que correria para o colo da mãe? Que soltaria gritinhos perante a sua carranca afrontada? Nunca se dava as costas para uma leoparda, ainda que ela fosse um filhote.
"Não me ignore! Olhe pra mim!"
Para quem Vishkar, de fato, gritara?
Matar não era um ato simples. Se a pessoa nutrisse alguma humanidade dentro de si, era necessário estar fora desse si para fazê-lo. Era preciso estar acometido pelo trauma ou pela loucura. Era necessário ter o corpo como uma casa vazia.
Ou então, apoiar-se em uma causa, um ideal, uma família, um amor para naturalizar a barbárie. Para se rasgar o peito de alguém e retirar a alma de dentro, atirando-a ao desconhecido.
Matar homens era o que se esperava de uma guerra. Vishkar arquejou, engolindo um soluço e tomando de volta a sua tonfa que estava abandonada ao seu lado. Alguns patranos a olhavam de soslaio. E alguns vaskianos também. Era a sua estreia no campo de batalho e ela, ajoelhada, velava o corpo do homem que matara.
Vishkar se manteve parada, observando os homens lutando ao seu redor. Torgeir! Ela precisava encontrar Torgeir! Acabar com Torgeir colocaria um fim à guerra. A guerra já se estendia por anos. Era para isso que ela viera servir ao exército da mãe. Para fazer o que Somalia e nenhum soldado vaskiano puderam fazer antes.
Ela distinguiu a cabeça de cabelos escuros de Torgeir movendo o seu machado entre os seus homens. E ela correu em sua direção, abatendo dois soldados patranos.
"Ei!" — gritou ela, rodopiando a sua tonfa com destreza.
Torgeir continuou se movendo entre os seus homens, alheio à voz estridente que se erguia.
"Lute comigo!"
Nada! Até que Vishkar pegou uma pedra do chão, experimentando o seu peso e, ao constatá-lo, ela a atirou em direção a Torgeir. O objeto atingiu as costas do patrano e quicou no chão, produzindo um ruído metálico e terroso. Dessa vez, Torgeir se voltou, procurando com o olhar a pedra e fitando Vishkar com olhos injetados rodopiando a sua tonfa.
O príncipe patrano não foi gentil como no dia anterior. Ele praguejou e se voltou, após cortar a garganta de um vaskiano. Vishkar se sobressaltou quando viu Torgeir sacudindo o machado com sangue, espirrando-o em seu peitoral.
Ela batia na altura do estômago do patrano. Torgeir sinalizara a sua baixa estatura quando a conhecera no dia anterior, mas Vishkar percebia melhor isso quando ele estava munido de um machado e não de agulha, linha e boneca.
"Você de novo?! O que quer, princesa do império?"
"Eu vou acabar com você!" — gritou ela, erguendo o seu dedo.
"Por que a sua prima Somalia não te coloca numa coleira, leoparda?"
"Como é?!"
Torgeir, nesse instante, voltou-se para brigar com uma das soldadas vaskianas que gritava e partia para cima dele com uma espada de lâmina brilhante. A mulher deslizou o seu olhar até a imperatriz herdeira e se fechou em um combate feroz com o príncipe patrano.
Vishkar foi acometida, então, novamente pela sensação de insensatez e irrealidade ao seu redor e se surpreendeu avançando até os dois combatentes e empurrando a soldada para longe. Colocando-se com o queixo erguido diante de Torgeir, ela vociferou:
"Lute comigo, cacete!"
A soldada a tentou tocar no ombro, mas teve a sua mão afastada. Alguns patranos e vaskianos se voltaram para observá-los.
Torgeir mirou a jovem diante de si, falando:
"Não mato crianças!"
"Pois vai ser morto por uma hoje. Ou está com medo, Alteza?" — provocou Vishkar, arreganhando os dentes como um felino.
O rei de Patras praguejou mais uma vez e atirou o machado sobre o chão, cravando-o na terra. Ele desembainhou a sua adaga e avançou para a garota. Vishkar bloqueou o seu ataque com a tonfa.
"Eu matei um homem! Um patrano imundo!" — gritou ela quando a sua tonfa se entrechocou com a adaga numa terceira vez.
"Sei que mulheres do império matam sem compaixão. Cadê a sua mãe, Vishkar?"
A fala de Torgeir fez palpitar um rancor estranho no peito da vaskiana e ela, dessa vez, manejou a tonfa, acertando a espádua na divisória da ombreira e do braço da armadura de Torgeir. O príncipe patrano gritou, falando:
"Achei que você fosse interessante, mas é uma tremenda de uma pentelha!"
Ele manejou a adaga e a feriu no flanco, arrancando um grito da jovem e fazendo com que o sangue manchasse a sua calça. Vishkar sentiu o metal lhe perfurando a carne e a dor que se seguiu a fez arquejar.
Torgeir achou que o gesto fosse o suficiente para fazer a garota desistir, mas ela, mancando, avançou sobre ele, munida da tonfa e lhe acertando novamente. Depois, Vishkar chutou a canela do patrano com uma ferocidade tão grande que uma ferida se abriu em sua perna. O príncipe gritou e parecendo mais raivoso, correu atrás dela.
Quando a alcançou, Torgeir puxou o rabo de cavalo de Vishkar e o rodou no dorso da mão como se fosse uma corrente, movendo a cabeça dela para trás.
"Eu não quero machucar você! Já chega!"
"Por que não?" — perguntou Vishkar, entre dentes.
"Porque somos a única coisa que impede o caos, garota estúpida! Você ainda não entendeu do que isso se trata?"
Não, Vishkar não entendia e quando Torgeir a soltou, a briga recomeçou até que os dois se encontrassem ainda vivos, mas sem fôlego. A vaskiana sentia em seu corpo os arranhões e os hematomas causados pela lâmina e cabo da adaga de Torgeir e o patrano sentia o cansaço pela insistência e pelos golpes de tonfa de Vishkar.
Foi Somalia que irrompeu entre os homens, colocando-se de pé diante de Vishkar como se ela fosse uma criança que arrumava confusão com o filho de algum nobre do reino. O ápice foi Somalia puxar a garota pela orelha.
"Sua peste! Eu disse que era para ficar longe dele!"
"Segura a sua prima, Somalia de Ver-Tan!" — disse Torgeir, levantando-se e apontando para a menina. Um soldado lhe serviu água de um odre enquanto ele enxugava o suor do rosto.
Havia briga entre os soldados ao redor, mas a maioria parara para observar a disputa que se dera entre Vishkar e Torgeir. Depois, tudo se encerrou e a vaskiana foi levada embora por Somalia para dentro de sua tenda.
Nos próximos combates, Vishkar voltou a puxar briga com Torgeir mais duas vezes e, nas duas vezes, ela foi admoestada pela prima de sua mãe. Na terceira ocasião, chegou a receber uma palmada de Somalia diante dos soldados.
"Por que ele não usa o machado comigo?" — aborreceu-se Vishkar, apalpando o seu quadril dolorido.
"Porque ele podia partir a sua cabeça ao meio! Você vai acabar desgraçando a todos nós."
"Eu vim para lutar! Não para ficar sentada, vendo as coisas acontecerem. A minha mãe serviu ao exército, antes de subir ao trono! Devo dar o exemplo como futura imperatriz!"
"A sua mãe nunca serviu numa guerra e ela tinha vinte e quatro anos quando participou de uma expedição. Você maneja a tonfa melhor do que ela! Muito melhor! Sempre manejou! Mas não é para se tornar uma arma de guerra que quero que fique aqui, entende isso?"
Vishkar franziu o cenho. Sempre ouvira a mãe se gabar de sua habilidade militar excelente e precoce. Mas era estranho ter lhe assistido raríssimas vezes lutando. Em uma das ocasiões, Betthany chegara a derrubar a tonfa durante o movimento de girada da arma ao redor da cintura e punira severamente um concubino por tê-la supostamente distraído.
"Para que eu vim então, Somalia?"
"Para se tornar uma imperatriz de verdade. Acho que você precisa ver um pouco mais do mundo, menina tola! Ver o que está acontecendo na terra que governará um dia. Amanhã, eu e alguns soldados vamos cavalgar até a fronteira de Acquitart. Alguns patranos estão tentando forçar a entrada deles pelas montanhas novamente. A maioria é formada por mercenários pagos pelo rei. Homens broncos, dispostos a matar qualquer coisa que se mova. Eles fazem isso aqui parecer um paraíso. Talvez precise de um pouco de realidade para parar de almejar tanto a guerra..."
Nesse instante, um alarido se fez próximo à entrada do acampamento entre os soldados e alguém gritou:
"O príncipe Torgeir está aqui!"
Somalia contraiu as sobrancelhas e deixou a tenda, dando as costas para Vishkar. A menina a acompanhou, munida de sua tonfa e viu uma aglomeração de vaskianos ao redor de Torgeir. O príncipe estava flanqueado por seus soldados e o cavalariço de Vask, Gene, que tinha os fios da sua túnica desamarrados, os cabelos úmidos e um rubor em suas faces.
Ao lado de Gene, um soldado tinha a mão ao redor de sua cintura num gesto cuidadoso, os cabelos também molhados e um hematoma em seu queixo.
Torgeir juntou as palmas de suas mãos, cumprimentando os homens do acampamento quando se apresentou, seguindo a tradição de Vask.
"Boa noite, Somalia. Vim trazer o seu cavalariço. Ele estava no riacho com um dos meus homens e um dos guardas, quando os viu, tentou se forçar a ele. Houve uma briga e os meus dois soldados se atracaram por causa de Gene."
Somalia revirou os olhos nas órbitas, tendo as mãos na cintura. Os seus lábios eram repuxados para baixo como se estivessem presos a um anzol. Quando Gene passou por ela, unindo as mãos num pedido de desculpa, ela o ameaçou dar um cascudo.
"Eu juro que essas crianças ainda me enlouquecem! Gene, você foi trazido aqui para cuidar dos cavalos e não para ser montado por seu namorado patrano. Moleque infeliz!"
Torgeir olhou brevemente para Vishkar e voltou a se dirigir à Somalia:
"Não se preocupe com isso. Ele está assustado e o capitão da minha tropa intercedeu, antes que acontecesse o pior. Bom, vim por outro motivo também. Estamos com alguns pães feitos por nossos escravos. Queríamos saber se podemos fazer uma troca deles por batatas e coelhos."
Como se aquilo fosse uma prática comum, Somalia respondeu:
"Aceitamos os pães e uma porção de peixe."
"Feito." — declarou Torgeir, estalando os dedos e fazendo meia dúzia de escravos se revelar atrás de seus homens, carregando cestos de pães — "Alastor, diga para os guardas irem até a despensa separar alguns dos peixes salgados."
O escravo aquiesceu e se afastou enquanto Somalia dava ordens aos seus homens para providenciarem sacas de batata e a carne de coelho caçado há pouco.
Vishkar franziu o cenho, observando o escambo bem estruturado que parecia uma prática corriqueira entre os dois reinos. Mais tarde quando ela estivesse comendo o pão assado com uma crosta de peixe grelhado na brasa e ela interpelasse Somalia sobre a troca, a comandante diria:
"Como poderíamos viver na guerra, comendo batatas e coelhos por anos e anos? Nós nos ajudamos."
A palavra ajuda parecia deslocada e mal-empregada em um contexto beligerante delineado por dois reinos com sede de poder.
Antes de partir, Somalia, checando o cesto de peixes trazidos, perguntou ao príncipe herdeiro de Patras:
"O que houve com o soldado que tentou estuprar Gene?"
Torgeir se deteve, fitando brevemente os seus homens e os vaskianos.
"Seguimos o nosso acordo estabelecido com vocês. Vocês não violam os nossos e não violamos os seus. O soldado já foi punido severamente por tentar se forçar a um dos garotos de Vask. Ele já foi afastado do forte."
"Ótimo!" — respondeu Somalia laconicamente, dando a questão por encerrada.
Vishkar havia percebido no terceiro dia após a sua chegada que havia soldados de Vask fodendo com soldados patranos e vice-versa quando observou homens, durante a noite, deixando as suas tendas para irem assoviar como passarinhos próximo ao forte.
Seguindo um dos soldados de Vask sem ser notada, a jovem viu numa clareira da floresta, o homem se agarrar com um patrano junto às árvores e, enquanto baixava as calças, ele sussurrou num patrano quebrado e ofegante de desejo:
"Precisamos ser rápidos hoje. Deixei Teref fazendo a ronda no meu lugar. Me faça gozar com o seu pau."
Vishkar, no entanto, desconhecia as leis anti estupro estabelecidas entre o acampamento e o forte.
É como um espelho, dissera Somalia. A guerra naquela fronteira era como se fosse calcada em um tratado de paz tácito, aceitando somente algumas poucas mortes e homens feridos nos momentos esporádicos em que se travava um combate.
No dia seguinte, Vishkar cavalgou com Somalia e alguns homens em direção à Acquitart.
Na estrada, ela viu fogo em algumas plantações e casas de camponeses reduzidas a cinzas; pessoas maltrapilhas caminhando descalças; um homem queimando cadáveres numa pira funerária e outro, vasculhando com dedos ágeis os bolsos dos mortos e guardando em uma sacola as ninharias que encontrava. Havia também prostitutos seminus vivendo em tendas paupérrimas no pé da montanha ao lado do acampamento vaskiano. Ali, os putos encontravam clientes e alguma proteção para tudo o que possuíam que era, basicamente, as suas próprias existências.
O terreno que aqueles soldados vaskianos ocupavam era inóspito e o calor das pedras aquecidas era terrível quando o sol estava no meio do céu, açoitando a terra e os lagartos que deslizavam sobre ela. Os homens eram mal-encarados e emporcalhados.
Alguns se viraram para fitar Somalia e Vishkar com desconfiança quando elas apearam os seus cavalos e se apresentaram. A comandante se adiantou em dizer, envolvendo o ombro da parenta:
"Comandante da tropa da fronteira de Ver-Vassel, Somalia de Ver-Tan. Esta é a imperatriz herdeira. Qualquer coisa que acontecer com ela concederá ao malfeitor uma pena de morte imediata por minha própria espada com a benção do império, entenderam bem? Ninguém encosta na minha menina!"
Os soldados que fitavam a linha da curva do pescoço de Vishkar, as suas sardas, os seus cabelos escuros e a beleza de seus olhos bicolores recuaram, adiantando-se em fazer o gesto de juntar as mãos de Vask. Depois, limparam os seus rostos sujos de fuligem e se ajoelharam, temperando a garganta:
"Alteza, seja bem-vinda!"
Em seguida, Somalia perguntou com uma voz seca, passando um odre com água para a jovem ao seu lado:
"Qual é o cenário?"
"O pior, comandante Somalia. Os mercenários fizeram o massacre contra os camponeses e invadiram a propriedade de um nobre, matando-o e saqueando os seus bens. Sequestraram a sua esposa, os seus filhos e os seus escravos. Eles estão bem armados e parecem enfurecidos. O rei de Patras lhes prometeu terras e ouro. Eles não têm nada a perder."
Somalia assentiu e se voltou para Vishkar, que limpava o fio de água que escorria por sua boca com o dorso da mão.
"Vishkar, você vai lutar amanhã com a sua espada e não com a tonfa! Sei que é hábil, mas vamos praticar um pouco no pátio. Os mercenários não agirão como os homens de Torgeir. Precisamos expulsá-los de nosso território e libertar os prisioneiros, entendeu?"
A jovem aquiesceu e o capitão da tropa, parecendo constrangido em fitar o rosto nobre da filha do império, perguntou um pouco sem jeito ao limpar a poeira úmida de sua testa.
"Com que idade Vossa Alteza está?"
"Com catorze." — respondeu Vishkar.
O homem sorriu.
"A idade do meu filho. Faz três anos que não o vejo. Somos de Ver-Kindt."
"Não sente falta dele?"
"Muita." — confessou o homem, coçando a barba — "Mas, sendo uma criança ainda, prefiro que ele fique seguro ao lado da mãe. Eu luto e ele vive."
Vishkar franziu o cenho, sentindo o seu peito confranger com uma sensação confusa. Um ciúme pelas palavras do homem. Uma dor em uma parte sua reservada que ela temia mexer.
Sem dúvida, havia ciúme.
Inveja escura do menino sem rosto de Ver-Kindt pelo qual o pai lutava? Também.
Por quê?
Ciúme e inveja amargos pareciam um sabor destoante de uma guerra, mas, na verdade, eram o prato no qual ela era servida. O pão, a carne, a horta e o suco gástrico que corroía tudo em indigesta satisfação.
Mais tarde, Vishkar seguiu para o treino de espadas com Somalia. A comandante foi intensa na prática, brandindo a sua espada com destreza e, ao fim, embainhando a lâmina afiada, declarou com firmeza:
"Fique atrás de mim amanhã. Não faça nenhuma besteira, ouviu bem?"
Por fim, no dia seguinte, a imperatriz herdeira experimentou, finalmente, com a sua pele; com os seus ossos; com os seus sentidos atônitos; com os seus impulsos ainda um tanto infantis e o seu sangue, a guerra entre as duas nações que se arrastava há anos e que seria conduzida por outros tantos anos. A feiura que era o estandarte de toda guerra, proclamando glória enquanto pisa no crânio de sua população.
(cut)
Vishkar se viu em um campo aberto de pedras, céu limpo e chão árido, cercada por mercenários patranos. A hoste de homens cavalgava em seus cavalos, brandindo lanças que atravessavam num golpear preciso o peito úmido dos cavalos inimigos e dos soldados vaskianos.
As montarias dobravam as suas pernas, sendo abatidas no território inóspito e relinchando de dor. Os homens tombavam no chão com o rosto coberto de sangue e poeira, olhando para o sol.
Havia um grupo de soldados ao lado de Somalia, protegendo a imperatriz herdeira. Vishkar viu os homens de Vask entrechocarem as suas espadas com os machados dos patranos e ela estancou quando Somalia enfiou a sua lâmina em um homem de queixo protuberante, espirrando sangue no rosto da garota com um jato quente.
Havia carne esfolada, metal, bronze pelando ao sol, couro e feridas sendo abertas como sorrisos mórbidos. Havia órgãos sendo revelados e partes inteiras sendo subtraídas de formas inteiras.
Então, em meio à massa de dardos voando e entrechocar de metal, Vishkar viu um mercenário puxar uma das soldadas de seu cavalo, enfiando a lança no animal. Ele puxou a mulher pelo cabelo, em seguida, e bateu com a cabeça da vaskiana em um golpe certo numa das pedras pontudas do pé da montanha, antes que ela recuperasse a sua espada.
Como se fizesse parte de um ritual comum, o homem, fincando o seu machado no chão, pôs-se a abrir a calça por baixo das peles que trajava e colocou o pau para fora, erguendo a túnica da soldada e a rasgando no processo. Sendo cercado por seus homens, ele se pôs a estuprar a vaskiana em plena luz do dia, circundado pelo calor da batalha como se as ações se complementassem. Domínio e domínio. Sofrimento e sofrimento. Invasão e invasão.
Talvez as pessoas não fossem mais humanas e houvesse uma praga que se alimentava de sanidade. A morbidez era uma régua.
O ritmo do quadril do mercenário era violento e ele forçou a boca no rosto da vaskiana, arrancando-lhe um beijo imoral. Tocava-lhe os seios como se quisesse os arrancar fora.
Vishkar sentiu as suas pernas tremerem. Náusea. Ela experimentou a bile subir por sua garganta e antes que pudesse evitar, a jovem levantou a sua espada, sentindo os seus olhos arderem ao se desfazer do círculo estruturado por Somalia.
Vishkar correu até os homens, sentindo a armadura frouxa em seu corpo e tendo a respiração entrecortada e curta. O suor escorria por sua testa, apesar de ela se sentir gelada e haver já perdido a percepção do calor há algum tempo.
Ela brandiu a sua lâmina, cortando a mão de um dos patranos que erguia o seu machado. Depois, pulou sobre o outro mercenário, enfiando a espada em seu olho e sentindo mais sangue esguichar sobre si. Por último, ela correu, se desviando de outro homem ao mesmo tempo que ouvia Somalia gritar o seu nome.
Vishkar viu o patrano que estuprava a soldada se reerguer, fechando a sua calça com uma tranquilidade fria e retomar o machado fincado no solo árido. Ele bramiu, rodopiando a sua arma e partiu para cima da vaskiana, sem hesitar nem mesmo por um segundo.
Somalia tentou alcançar a imperatriz herdeira, mas foi interceptada por um dos homens empunhando um gigantesco escudo e portando uma clava que tinha em seus pregos enferrujados, pedaços de carne; resquícios de sangue e chumaços de cabelo. O homem sorriu para a comandante que se pôs a lutar, sem se intimidar.
Observando rapidamente Somalia, Vishkar constatou que a prima lutava como um animal selvagem, com dentes à mostra e um empunhar de espada rápido que furava a carne, cortava, perfurava e girava a folha de metal dentro do corpo. Ela possuía ossos grandes, quadris largos, panturrilhas e ombros com músculos à mostra que a faziam parecer uma extensão da montanha. A mulher examinava o inimigo com os seus olhos faiscantes da cor do mato ressecado e mirava não a clava, mas os dedos e o pulso do homem.
Bastava que ele não pudesse mais lutar. Sem mãos, ele não era nada.
A espada de Vishkar deteve o ataque do patrano, que tinha mãos grandes, calejadas e rudes segurando com firmeza o cabo de madeira do machado. Ele ergueu o instrumento e avançou para ela de novo. De novo. E de novo. Alvejando a sua vida com o mergulho da face afiada da arma e da cunha metálica. Até que a desarmou com um estrépito. A espada da garota girou no ar, arrastando-se em um círculo pelo chão seco.
Vishkar fez menção de correr, mas o seu cabelo comprido foi repuxado. O homem a ergueu com um braço enquanto ela se contorcia e a atirou no chão com uma violência incontida. Quando o mercenário se deitou sobre Vishkar, a sua voz se ergueu em um grito angustiado. Em algum lugar, ela escutava a espada de Somalia ressoar mais ansiosa.
Ele fedia a suor, sangue, vinho azedo e sexo. A sua barba espessa roçou no rosto da imperatriz herdeira e ela começou a gritar quando ele lambeu o seu rosto. Esticando os braços, a jovem procurou algo no chão enquanto o homem a forçava a abrir as pernas com joelhos brutos.
Vishkar escorregava as suas unhas pela terra, arquejando com uma ferocidade animal e sentindo aquelas mãos a comprimindo como se a estrangulasse. Subitamente, ela sentiu seus dedos alcançarem uma pedra. Sem pensar, Vishkar a apanhou e a deferiu contra a cabeça do homem duas, três vezes, fazendo-o gritar, mas não o afastando.
O homem ergueu a cabeça de Vishkar e bateu o seu crânio no chão. A imperatriz herdeira sentiu o mundo ao seu redor oscilar como se o seu corpo se decidisse se poderia prosseguir ou se cairia na escuridão. Ela ainda tentava afastá-lo com os seus braços finos, tendo o nariz entupido de sangue até que o mercenário alcançou o seu machado.
Vishkar viu, então, um raio prateado se desenhar muito rápido, absorvendo o raio fúlgido do sol e a cabeça do seu adversário ser arrancada, quicando no chão irregular, antes que ele desmoronasse sobre ela.
"Vishkar, filha, aqui! Venha..." — disse-lhe Somalia, retirando-a de debaixo do corpo do bárbaro e empurrando-o pesadamente para um lado.
Os dedos nus de Somalia enxugaram o sangue que escorria pelo nariz da garota. Ela segurou o rosto da jovem entre as mãos com um gesto maternal. E beijou a sua fronte num ato tranquilizador.
A desorientação de Vishkar demorou um minuto, mas dentro do seu corpo, pareceu catorze anos. A respiração entrecortada e curta da jovem fazia o seu peito estremecer. Ela olhou ao redor e se deparou com o homem da clava sem as duas mãos gritando em meio a cadáveres e sangue.
Vishkar havia urinado de medo em sua armadura.
Depois, ela recuperou a sua espada e partindo para o bárbaro que tentou estuprá-la, ela fincou a lâmina uma, duas, cinco, dez vezes em seu corpo grande, gritando. Separando membros. Perfurando a barriga.
Posteriormente, quando Vishkar se aproximou da soldada imóvel que o patrano havia arrancado do cavalo, constatou que havia sangue vivo ao redor do seu crânio. Ela estava morta e o seu cabelo comprido, empapuçado. A mulher morrera no instante em que o mercenário atirara a sua cabeça contra as pedras pontiagudas.
Era o seu cadáver que o homem violara. E o leve tremor que Vishkar vira da jovem sob o mercenário era o seu corpo convulsionando, antes de morrer.
Após isso, a luta prosseguiu como num pesadelo. Havia mais mercenários para serem abatidos. Havia mais feiura sob uma causa. Havia inúmeros patranos e Vishkar precisava se mover; precisava impedir que eles tomassem as tendas atrás de si e levassem mais pedaços de Vask.
A imperatriz herdeira se recordou do patrano que matara com a sua tonfa quase por um acidente enquanto abatia com intenção o segundo, o terceiro, o quarto homem. No décimo, ela perdeu a conta. A sua mãe dizia que aquilo honraria o império e aqueles homens pareciam merecedores da morte. Eles eram brutos, violentos e sanguinários. Inumanos. Eles nunca poderiam chegar em Skarva. Tinham que morrer.
Contava-se que os bárbaros haviam jurado ao rei levar as cabeças dos leopardos brancos reais do império para adornarem o salão de Bazal. E que as suas peles revestiriam o trono patrano como uma relíquia da humilhação de Vask.
Jazel, Nola e seus filhotes eram como irmãos para Vishkar. Filhos do império, dos deuses. Animais puros, sagrados que nunca deveriam ser tocados por aquelas mãos facínoras.
Vishkar pensou também nas meninas e meninos do pátio de treinamento brandindo ainda tonfas de madeira, sendo devorados por aqueles homens. Pensou em seus irmãos pequenos. Pensou em sua mãe com a bebê nos braços, amamentando-a. Pensou em Sorem e Ishmael que protegeriam Skarva como homens adultos protegem a sua família e o seu lar.
Ela precisava se colocar entre os patranos e o império. Afinal, nas tendas atrás de si, havia homens e mulheres vulneráveis também. Prostitutos que seriam montados até se partirem ao meio. Tudo seria varrido, moído e triturado com desesperança. O mundo era feio. E ela descobria isso agora.
Vishkar lutou quase até não se aguentar mais em pé. Ofegante e persistente, ela se movimentava. Estava tonta e sem forças. Mas prosseguiu.
No fim, a jovem olhou para Somalia, sentindo o seu pé escorregar no sangue, nos ossos esmigalhados e nos pedaços de órgãos espalhados pelo chão como coágulos muito grandes; como se patinasse dentro de um corpo humano.
Um soldado retrucou:
"Acho que ganhamos. Restam poucos."
Vishkar nunca se esqueceria de como vira Somalia com sangue até a altura dos cotovelos e no rosto, no pescoço, no peitoral de bronze. Sem perceber que aquele era o seu retrato também, ela sentia o cheiro férreo de sangue em seus cabelos, mãos e rosto, fundindo-se ao metal aquecido da armadura.
Quando foi se banhar numa tina de madeira do acampamento, Vishkar viu a água se tornar sangue também. E desde então, achou que sempre federia a sangue. E que o mundo não pararia mais de sangrar como se estivesse ferido com um golpe de lança e se arrastasse, trôpego, feito os cavalos coxos do campo de batalha.
Ela viu os vaskianos mutilados serem carregados em tapumes até a ala médica no pé da montanha. Viu os prostitutos das tendas trabalharem como enfermeiros, circundando ferimentos com ataduras e unguentos e embebedando homens com vinho para aguentarem a dor de terem seus membros amputados.
Depois, na manhã seguinte, uma pilha de corpos vaskianos foi organizada para ser atirada numa pira fúnebre feita com troncos recém cortados amarrados com cordas. O capitão de Ver-Kindt ateou o fogo com uma tocha, após declarar palavras de honra e fazer uma breve oração.
Entre os cadáveres, encontrava-se a jovem de cabelo preso na nuca com o crânio partido pelo mercenário que a estuprou e Vishkar viu quando o fogo alcançou o corpo frio e inerte, consumindo o rosto da soldada.
Naquela noite, Vishkar voltou da ala médica e se sentou em sua tenda, sacando a sua adaga. Sem elaborar muito a questão, ela cortou o seu cabelo de uma forma descuidada como a de um menino. Cortou-o na altura do queixo, jogando o restante das suas madeixas no fogo alto com um luto inexprimível e doloroso. As labaredas devoraram o rabo escuro como uma enguia se contorcendo no calor. Algo morreu.
Talvez fosse a infância. Talvez fosse ela mesma morrendo por dentro como aconteceria algumas vezes na vida. Talvez se tornar adulto fosse isso no fim das contas. Morrer pela primeira vez.
Depois disso, Vishkar não brigou mais com Somalia. Ela não falou mais de guerra. Quando apareceu com os cabelos tosquiados e a comandante perguntou o que acontecera, ela deu de ombros, sem responder.
Vihskar tinha catorze anos. Ela se recordou novamente que do mundo do palácio de Skarva; de sua cama; do sexo adolescente com Judy; do seu primeiro amor, ela fora atirada em uma guerra. Em um campo de ódio em que ela não apenas observava a atrocidade, mas era parte fundamental de seu mecanismo de fazer tombar.
De alguma forma, ela se recordou das palavras de Somalia, de Torgeir, do capitão vaskiano. Por que a sua mãe a havia enviado para a fronteira? Era esse o seu dote para o seu afeto? A cabeça de Torgeir?
Que mãe mandaria uma filha para uma guerra infinita? Uma filha de catorze anos com o corpo em desenvolvimento e que todos chamavam de criança porque tudo nela ainda se desdobrava. Uma menina que podia sofrer as maiores atrocidades indizíveis de um mundo feio. Tudo em troca de reconhecimento e afeto.
A partir daquele dia, Vishkar mergulhou em um silêncio imperturbável. Toda a vez que ela tentava falar, a sua língua e lábios pareciam inchados e no retorno para a antiga fronteira, mesmo quando Somalia tentou puxar conversa com ela, a jovem se manteve muito quieta, ouvindo somente a voz da parenta e os cascos dos cavalos seguindo para Ver-Vassel.
"Eu queria que você visse que a glória que disseram que deveria buscar não existe, Vishkar. Betthany e o rei de Patras têm muita ambição. Mas eles têm ambição porque não são eles que vão buscar o que desejam. A sua mãe é uma lutadora medíocre e manda que os outros morram para elevar o seu nome. O rei de Patras é um homem ganancioso para o qual nada nunca bastou. Um é o reflexo do outro. E nós somos o meio."
Houve outras lutas. Houve mais mortos. Vishkar voltou a matar e, algumas vezes, teve a sua vida equilibrada no fio de uma lâmina, quase podendo ver a morte a espreitando sobre o ombro da hoste inimiga.
Para tentar se esquecer do que fazia, ela começou a dormir com algumas escravas e escravos afeminados do acampamento, enterrando a dor com pás de prazer carnal e claudicante. Lá fora, ela ouvia o ruído das mulheres dos clãs que tocavam tambores e se juntavam algumas vezes à comitiva. Ouvia também as vozes dos soldados que entoavam canções entrecortadas pelo choro comprido dos coiotes.
Por alguns meses, o mundo da imperatriz herdeira se costurou dessa forma e, sem que ela percebesse, um ano transcorreu.
O mundo da fronteira seria lembrado nessa época como um borrão de sexo, violência, silêncio e melodia. Não havia glórias ali, exceto pela beleza do horizonte em que o sol se levantava e se punha diariamente, tingindo as planícies de cores vívidas e seguindo indiferente às perdas humanas.
(cut)
"Você é menor do que Tília, minha irmã, mas tem a ferocidade dela quando maneja aquela maldita tonfa..." — comentou Torgeir, mancando um pouco. Um dos soldados lhe acertara com uma tonfa no último confronto.
Vishkar estava sentada próximo ao riacho, batendo a cinza de um cigarro de palha que arrumara com um dos homens vaskianos. Fazia uma hora que havia amanhecido. Então, a imperatriz herdeira julgava que o córrego pertencia à Vask nesse período.
A jovem trajava só a combinação que vestia sob o uniforme, mas as suas roupas e os seus cabelos estavam molhados da água do riacho. Seu olhar espreitava o horizonte em que o sol despontava pálido e a poeira se erguia.
"...A minha irmã é surda. Nunca compreendi a linguagem dela, mas fazíamos mímica um para o outro e nos entendíamos. Ríamos um bocado juntos quando eu estava no palácio. O marido dela está servindo em Ver-Tan agora e é um bom sujeito. Tília cria dois escravos, cuja menina é surda e o menino entende a linguagem dela. Fico feliz que minha irmã não esteja sozinha em Bazal... Meu irmão Torveld também deve estar bastante ocupado."
O patrano se aproximou um pouco e se largou ao lado de Vishkar, que o espreitou durante um curto período, antes de aspirar fumaça e a exalar, jogando a cabeça para trás. Ela se cobriu com um xale de lã rústica também.
"...Torveld me escreveu e disse que o meu filho se parece com a minha esposa. Fiquei aliviado por isso. Sinto falta da minha mulher..."
Vishkar moveu os olhos cor de âmbar e cinzento de um modo seco e declarou laconicamente:
"Não vou foder com você, Torgeir. Gosto de mulheres e, nas raras vezes em que fico com homens, gosto dos concubinos afeminados. Você não faz o meu tipo. Melhor tentar algo com as escravas de Vask. Elas adorariam dar pra você..."
As suas palavras eram duras e Torgeir fitou a jovem por um tempo.
"Por que está sendo tão desagradável? Eu não estou querendo foder com você."
Vishkar esfregou os seus olhos. Havia um abandono no modo em que as suas roupas de baixo permaneciam molhadas e transparentes, revelando-se um pouco sob o xale. Torgeir evitava a olhar, espreitando o horizonte pincelado de cores.
"O que quer então?"
"Você mudou muito desde que chegou aqui. Já faz mais de um ano. No início, você me desafiava nos conflitos. Mas, atualmente, não temos nos encontrado no campo de batalha. Você luta bem, mas parece raivosa, tentando derrubar os meus homens, mesmo quando eles a evitam. Pare de machucá-los."
Vishkar assentiu, fungando:
"Você não lutaria comigo com o seu machado de qualquer jeito. Eu deveria ter encontrado uma outra forma de cortar a sua cabeça fora, mas há homens mais desprezíveis do que você. Então, você está na fila de espera..."
Torgeir disse:
"Soube que você e Somalia enfrentaram algumas vezes os mercenários contratados pelo meu pai. Eu sinto muito..."
Vishkar sacudiu o rosto, pestanejando com inconformidade.
"Não, não sente. O seu pai mandou homens que estupram mulheres, crianças e homens, sem piedade. Quando resgatamos, na primeira empreitada, a família do nobre que eles sequestraram, desde o filho de colo até a escrava mais idosa foram molestados da pior forma. Então, as suas desculpas não servem de nada, príncipe herdeiro! Você é o filho mais velho de um monstro! Conivente e alinhado à vontade dele. Poderia ter evitado se tentasse..."
Torgeir apoiou os cotovelos nos joelhos, aspirando o ar úmido da manhã.
"Você superestima o poder que tenho sobre o meu pai. Ele queria trazer os mercenários para cá, mas eu não deixei. Brigamos. Estamos ainda brigados. Brigamos todas as vezes que nos falamos. Torveld sabe levá-lo melhor, mas eu me aborreço sempre com ele. Meu pai está desapontado comigo e eu não o suporto..."
Vishkar fitou o rosto do príncipe e bateu a guimba do cigarro, espalhando cinzas ao seu redor.
"O seu pai deve ter costurado aqueles bonecos de boa-sorte quando você nasceu e devia chamá-lo de Águia de Patras ainda quando estava na barriga de sua mãe. Devia ter alguma consideração pelo velho..."
Torgeir contraiu as sobrancelhas.
"Conheci o meu pai quando eu tinha já seis anos de idade e ele passou a maior parte da sua vida viajando pelo reino e aumentando as suas posses e poder. Ele não ligava tanto para a família assim. Chegou a culpar a minha mãe quando Tília nasceu por ela ser uma menina e por ela não poder escutar."
Vishkar tragou o cigarro e expeliu a fumaça.
"Estranho..."
"O que é estranho?"
"Eu cresci, achando você um tremendo filho da puta. A sua família toda para mim parecia um bando de cretinos, cuja única qualidade era lutar bem. A minha mãe sempre disse que você levava glórias para o seu reino e me fez jurar que levaria a sua cabeça numa sacola como presente para elevar o nome de Vask. Durante muito tempo, essa era a minha razão de vir servir ao exército..."
Torgeir ergueu as sobrancelhas.
"Ainda vai cortar a minha cabeça?"
"Vou. Mas não agora. Estou fumando e sem a minha espada comigo."
"Certo." — disse Torgeir, sorrindo — "Eu não ouvi coisas diferentes sobre a filha do império se quer saber. Meu pai acha as mulheres perigosas e traiçoeiras. Ele e a sua mãe nunca se deram bem."
"E o que você acha?"
"Acho você agressiva e ríspida, mas consigo lidar com isso..."
Vishkar fez um ruído de escárnio com a sua boca.
"Aposto que a sua esposa é uma donzela servil que só faz o que você manda..."
Torgeir soltou uma gargalhada, sacudindo o rosto.
"Existem garotas duronas também em Patras, Alteza. Minha esposa também não se dá bem com o meu pai e sempre diz o que pensa. Acho que se eu lhe der uma ordem, ela manda eu ir me foder."
Vishkar sorriu.
"Sente falta de Bazal?"
"Da minha família, sinto bastante. Sente falta de Skarva?"
"Dos meus amigos Ishmael e Sorem; da minha amante Judy; dos leopardos e dos pães de batata..."
Torgeir estudou o rosto da vaskiana.
"Não sente falta de sua mãe?"
Vishkar apagou a guimba de cigarro em uma pedra roliça e retrucou, sem alteração na voz:
"Claro. Sinto falta dela também. Sempre."
Um silêncio se fez por alguns minutos e Torgeir, após respirar fundo, se levantou e indagou:
"Já está voltando para o acampamento?"
"Vou ficar aqui mais um tempo..."
"Ótimo! Espere por mim..."
Vishkar franziu o cenho, movendo o rosto com estranheza. Após um ano inteiro na fronteira de Ver-Vassel, talvez ela estivesse mais habituada àquela estranha relação dos soldados patranos com os vaskianos em que se combatiam de tempos em tempos cada vez mais esporádicos; compartilhavam comida; fornicavam; jogavam conversa fora e inventavam jogos de tabuleiro e em campo aberto para fazer os dias passarem mais rápido.
Ela se mantinha silenciosa, movendo-se por aquela nova realidade que era a sua vida. Como um fantasma, ela se mexia pelo acampamento nos intervalos suaves das empreitadas em que ia para perto de Acquitart e celebrava a guerra com banhos de sangue.
"Voltei!" — anunciou Torgeir, trazendo algo consigo — "Aqui. Os escravos fizeram ontem para o jantar, mas acho que ainda está macio..."
Vishkar moveu o seu olhar bicolor até o guardanapo que o príncipe de Patras havia trazido envolvendo algo. Desembrulhando-o, ele revelou um pão de batata, cuja fragrância macia invadiu o olfato da jovem. Ela hesitou e ele entendendo a sua recusa, deu uma mordida no pão.
"Pode comer. Não tem nada nele. Só os ingredientes do pão e batatas..."
A vaskiana observou Torgeir mastigar. Ele possuía um queixo um tanto protuberante como alguns patranos tinham e o seu sorriso era generoso, principalmente quando mastigava. Vishkar notara isso na primeira vez que o vira, mas se censurou, acreditando que estava baixando a sua guarda.
Olhando de soslaio o rapaz, ela abocanhou o pão, sentindo o perfume que a remetia aos fornos de Skarva e aos jantares suntuosos em que os pães eram assados com carnes e ervas aromáticas. Mas também se lembrou de que aquilo fazia parte de um passado que parecia muito distante. Era irônico em Skarva todos comerem tão bem enquanto os camponeses estavam se virando até mesmo com lagartos assados e restos de comida.
"Obrigada..." — disse ela, a princípio, dando mordidas comedidas e, limpando os cantos da boca com o dorso da mão. Depois, ela começou a devorar o pão.
"Está bom?"
A jovem aquiesceu com a boca cheia e sorrindo.
"Ótimo..." — retribuiu ao sorriso Torgeir, fazendo um movimento de tocar a cabeça da jovem, mas Vishkar se afastou, receosa e alarmada. Rapidamente, ela levou a mão à tonfa ao seu lado.
O patrano recuou a sua mão, apoiando-a na relva e se desculpando. Um rubor envergonhado subiu por suas bochechas.
"Desculpe. Eu só fiquei feliz por vê-la sorrir. Você parecia muito abatida nos últimos meses e foi bom vê-la mais animada..."
Um silêncio desconfortável se fez em que Vishkar havia se afastado e o homem se mantinha rígido, achando que o seu corpo podia ser interpretado como uma ameaça. Ele fez menção de se levantar, então, batendo a poeira das palmas de suas mãos.
"... É melhor eu ir..."
Mas Vishkar ergueu os dedos, segurando o seu braço, dizendo em um murmúrio:
"Desculpa... Fique..."
Os pássaros da manhã já cantarolavam do alto das copas das árvores em uma melodia escandalosa.
Vishkar tinha o pão próximo à sua boca e engoliu em seco, antes de dizer num murmúrio:
"Eu quase fui estuprada em Acquitart."
Torgeir baixou o seu olhar com pesar e retrucou, parecendo lamentar.
"Eu sinto muito..."
"Somalia queria que eu visse a guerra de perto, mas isso foi algo que fugiu ao controle dela. Ela matou o mercenário antes que o pior acontecesse..."
"Que bom que ele está morto. Isso não acontecerá com você aqui, Alteza. Não escolhi estar numa guerra, mas se tenho que estar aqui, podemos estabelecer alguma honra pelo menos..."
Vishkar respirou fundo.
"A minha mãe me mandou para cá para eu elevar o nome de Vask. Depois que Somalia matou aquele homem, eu o trucidei com a minha espada. E depois, outro. E outro. E outro. Eu já perdi a conta daqueles que feri e matei. Betthany disse que isso traria honra e glória e eu fui fazendo, fazendo, fazendo, fazendo o que ela mandou..., mas aí percebi que cada vez mais fui me tornando vazia, vazia, cada vez mais vazia... E só nos momentos em que Vask e Patras fazem coisas idiotas juntos, eu pareço ficar inteira... Por que eu me sinto assim?"
Vishkar não soluçou, mas ela virou o seu rosto, enxugando uma lágrima rebelde com a palma de sua mão. Torgeir concedeu o tempo à jovem para se recompor. Depois, ele disse, olhando-a diretamente nos olhos.
"Nós, os herdeiros de Patras e de Vask, temos que nos manter firmes, entendeu? Se um de nós morrer em combate, a guerra se torna irreversível e haverá retaliações por todos os lados que podem contar com o apoio de Vere e de Akielos. Haverá mais mortes, mais matanças e mais vazio! Nós somos o equilíbrio, entendeu, Vishkar? Eu não escolhi estar aqui e, pelo que entendi, você também não teve opção."
A jovem se recordou de Somalia defendendo o príncipe e a censurando por tentar abater Torgeir.
"Mas os nossos reinos e os nossos pais são inimigos..." — disse Vishkar, sacudindo o rosto.
"E daí? Eu não quero que você morra. Eu não queria que ninguém tivesse que morrer..."
Vishkar tinha o rosto baixo e um sorriso se desenhou no canto dos seus lábios. Ouvir isso numa guerra era como ouvir a mais terna das declarações.
"Certo..."
A juventude de Torgeir se tornava evidente quando ele sorria e o patrano, mexendo o pé na relva, falou diante do horizonte de tons alaranjados e rosados que se diluíam no azul:
"Eu queria ser seu amigo. Quando eu era criança e estudava a cultura de Vask, queria ver os leopardos e visitar a floresta imperial. Dizem que o nascer do sol em Skarva é o mais belo dos quatro reinos e que todos acreditam no beijo do céu com a terra quando o observam. Nos poemas de Iságoras, há uma estrofe em que o poeta chora falando do amanhecer de Vask e eu queria poder experimentar isso pelo menos uma vez. Mas meu pai disse que era errado eu querer ir para Vask porque era um terreno inimigo e que a sua mãe me daria para os leopardos comerem..."
"Ela faria isso mesmo, mas eu não deixaria. A sua carne deve ser dura e Jazel e Nola só comem caças selecionadas. Já tenho três amigos em Skarva, mas você pode ser uma espécie de colega se pra você estiver tudo bem."
Torgeir moveu o seu rosto, sorrindo.
"Raffie!"
Vishkar o espreitou, sem compreender, contraindo as sobrancelhas. Torgeir disse:
"É a palavra que é o meio termo entre colega e amigo em patrano. Você vai ser a minha raffie de agora em diante, princesa do império. Em Patras, um amigo verdadeiro é como se fosse família. Mas isso já é um pouco demais para dois inimigos de guerra."
Vishkar fez um ruído com os lábios, antes de voltar a morder o pão e sentir os raios da manhã aquecendo o seu corpo.
(cut)
A partir desse dia, algumas vezes, Vishkar e Torgeir se reuniam para conversar no despontar da manhã quando a propriedade sobre o rio não era bem especificada. Ele bebia o vinho patrano e ela fumava o cigarro de palha dos soldados vaskianos, compartilhando-o com Torgeir algumas vezes. Os dois príncipes herdeiros conversavam sobre a boa vida de Bazal e de Skarva e sobre a vida insuficiente das fronteiras. Falavam sobre o tempo e as estações.
Os dois também falavam de táticas militares e comparavam com uma honestidade técnica, o manejar de suas armas. Algumas vezes, eles ensaiavam uma disputa enquanto trocavam notícias sobre os confrontos dos soldados patranos e vaskianos em outras regiões.
"O que vai querer fazer quando sentar em seu trono, Alteza?" — perguntava Vishkar, girando a sua tonfa e simulando um ataque contra o machado de Torgeir.
Ela havia crescido pouco naquele segundo ano e parecia mais magra até do que quando chegou. Mas os olhos de Vishkar estavam mais adultos e a sua fala, menos agitada ou silenciosa. Seu rosto perdia pouco a pouco nas maçãs e no queixo o arredondamento infantil. Seus dedos se tornaram compridos e calejados.
"Vou ajudar o meu povo. Meu irmão disse que a fome atingiu muitas cidades e que muitas casas foram queimadas. Você?"
"Minha mãe é jovem e deve governar por muitos anos ainda. Eu quero viajar quando tudo isso passar. Vou viajar com Judy, Ishmael e Sorem..."
"Para onde?"
"Para todas as nações vizinhas. Quero ver o mundo inteiro. Quero conhecer Vere, que é aliada de Vask e a distante Akielos com as suas praias circundadas de areia e mármore."
Torgeir sorriu, brandindo o seu machado.
"Patras tem cidades bonitas também quando não está em guerra."
"Seu pai manda cortarem a minha cabeça se me vir passeando por lá com três vaskianos a tira colo, Torgeir." — riu-se Vishkar — "Aliás, Sorem e Ishmael vêm para Ver-Vassel."
"Seu primo e amigo? Quando eles vêm?"
"No próximo verão. Eles me escreveram, dizendo que os dois foram designados para o exército. Sorem está atuando já há um tempo junto ao embaixador de Skarva. Ele fala patrano melhor do que eu. Ishmael começou a atuar na Guarda Imperial, mas foi aconselhado a vir para cá. Somalia vai buscá-los em Skarva."
Torgeir assentiu, dizendo com uma honestidade camarada:
"Vou sentir a sua falta, Vishkar. Você vai ficar grudada agora neles e não vai perder mais o seu tempo comigo."
Vishkar riu-se, batendo com a ponta da sua tonfa no cabo do machado de Torgeir.
"Sou a sua raffie ainda. Vai gostar deles."
Quando Sorem e Ishmael chegaram ao acampamento, o sol estava alto no céu, o solo árido, a grama queimada e a temporada de estio deixara a maior parte dos soldados desidratados e claudicantes. Não houvera combates na semana e os homens se entretiveram com as diversões soldadescas de jogarem malhas, disputarem corridas a cavalo ou a pé e praticarem o lançamento de dardos.
A disputa da tina fora, então, inventada pelo cavalariço Gene. Na ausência de Somalia, ele e outros soldados arrastaram a grande bacia de madeira dos fundos do acampamento em que se encontrava a área de banho e encheram a cuba com água do rio.
Inicialmente, a competição fora travada entre os soldados vaskianos, que, seminus, tentavam retirar os seus oponentes para fora da banheira em uma luta corporal. Vencia aquele que permanecesse por último na água.
Os soldados patranos observaram o torneio de longe, levando à boca canecas de vinho e apostando entre si nos vaskianos que pareciam mais propensos a persistirem naquela luta de um a um. No fim, quando o guarda de Patras que fora flagrado com Gene tomou parte na brincadeira, a disputa se ampliou entre vaskianos e patranos.
E a diversão estival se estendeu por vários dias. No fim, a água se tornara lamacenta e suja, mas os homens pareciam não se importar com esse fator e riam, independente de vencerem ou perderem.
No encerrar de uma tarde em que Vishkar, deixando a sua posição de lado, resolveu participar da disputa, os homens patranos entoaram vivas, incentivando o príncipe herdeiro de sua nação a tomar parte também.
Torgeir relutou com um sorriso contido, mas, Vishkar, alongando-se com os seus membros finos e roupas leves, provocou-lhe:
"Ele tem medo de ser derrubado pelo império em uma tina..."
Houve vaias provocativas dos vaskianos. O príncipe de Patras, passando o seu odre para um dos seus soldados, retrucou, adiantando-se em despir a sua bota:
"Jogo você e seus homens para fora dessa cuba como se fossem gravetos, sua fedelha!"
Os patranos riram-se e os vaskianos vaiaram.
"Um a um?" — chamou-lhe Vishkar, correndo para a tina com os seus membros nus e fazendo os vaskianos rirem.
Pouco a pouco, ela se entrosara com os soldados do acampamento que, durante toda a vida, tiveram uma visão da corte imperial de Skarva como o centro de poder do país, cercado por nobres, leopardos e imperatrizes ligadas aos deuses. Mas havia aquela imperatriz herdeira que lutava com eles ombro a ombro e era uma garota comum, que comia a mesma comida caçada na planície e dormia no mesmo chão de terra que aqueles homens broncos dormiam.
"Vai se arrepender por essa, filha do império!"
Quando Vishkar e Torgeir se puseram a lutar dentro da tina, os soldados ao redor dos dois pareciam enlouquecidos e vibrantes. As vivas em patrano se misturavam com as palavras de incentivo de Vask. As apostas correram com ninharias do acampamento e do forte porque poucos agora dispunham de ouro. O prêmio máximo era um espelho de bronze que já passara por várias mãos.
"Derrube-a, Majestade!"
"Pule nele, Vossa Majestade Imperial!"
Torgeir, indubitavelmente, era mais forte e mais alto do que a imperatriz herdeira, mas Vishkar usava a sua agilidade e pouco tamanho para fazê-lo escorregar dentro da banheira. Em poucos minutos, os dois estavam com arranhões pelos braços e ofegantes, apesar de sorrirem.
Numa das vezes, Vishkar se aproveitou de um escorregão do patrano para tentar empurrá-lo para fora da cuba, mas ele recuperou o seu equilíbrio. Depois, quando ele tentou a segurar pelo ombro, ela o mordeu. No fim, ele conseguiu imobilizá-la e tentou arrastá-la para a borda, ouvindo os gritos dos seus homens. Para evitar que fosse arranhado ou chutado, Torgeir ergueu a jovem sobre a cabeça, apoiando-a em suas mãos como se fosse uma saca de farinha.
Os vaskianos erguiam os seus braços como se fossem cadeirinhas, preparando-se para amparar Vishkar quando fosse atirada.
"Jogue-a aqui, Majestade! Não machuque a nossa futura imperatriz. Ela é uma mulher sagrada e os deuses vão lhe punir..."
E, enquanto os soldados patranos faziam coro, pedindo que Torgeir a jogasse, ele foi acometido por uma crise de riso, assim como Vishkar, que se agarrava a ele para não ser atirada.
Foi nesse instante que Somalia, Sorem e Ishmael chegaram.
Após apearem os seus cavalos, os dois rapazes vaskianos tinham os olhos fixos na sua amiga, vendo-a dentro de uma tina não com qualquer patrano, mas com aquele que os soldados chamavam de Majestade de Patras. Ishmael tinha a boca entreaberta e foi Sorem que conseguiu murmurar, caminhando por entre os vaskianos do acampamento:
"O que está havendo aqui? Vishkar!" — gritou ele.
Nesse instante, os homens patranos e vaskianos se voltaram e Vishkar, abrindo um sorriso maior em seu rosto, gritou de volta:
"SOREM! ISHMAEL!"
Torgeir a desceu e ela, correndo encharcada da cabeça aos pés com água enlameada, alcançou Sorem, que permanecia confuso. Os braços da jovem envolveram o pescoço do primo. Sorem estava mais alto e a sua pele parecia quase translúcida sob o sol. Os seus cabelos escuros se mantinham um pouco compridos e muito alinhados. Ele cheirava bem e usava roupas limpas.
Afastando-a um pouco, ele disse:
"O que está acontecendo aqui?"
Vishkar não o respondeu e se adiantou até Ishmael, que a ergueu do chão em um abraço prolongado. Ele segurou o rosto da jovem em suas mãos e a admirou por um segundo. Ishmael se tornara muito alto e o tom escuro dos seus olhos pareciam belos sob o sol em sua pele oliva.
Torgeir deixara a cuba e vestia as suas roupas secas, sendo ajudado por um escravo. Somalia se adiantou, dizendo ao acenar para os seus homens:
"Vejo que o acampamento está em ordem..."
"Sim, não houve problemas..." — respondeu Vishkar, abraçando também a prima de sua mãe por trás e apoiando o rosto sorridente em suas costas.
Demorou um tempo para que Sorem e Ishmael compreendessem as leis do acampamento e, assim como Vishkar no início, eles se mostraram enervados com aquela dinâmica camarada e pacífica de vizinhos que se davam bem, ao invés de inimigos que queriam se depredar.
"Vimos pessoas morrendo de fome perto de Ver-Tan e você se diverte aqui com esses patranos, prima..." — censurou-lhe Sorem.
"Como pode confiar neles, Vishkar?" — interpelou-a Ishmael.
A imperatriz herdeira conservava em si a sua paciência. Fazia muito tempo que ela não via os seus amigos e queria saber das novidades de Skarva. Por meio de Sorem e Ishmael, Vishkar soubera que a sua mãe tivera um menino na primavera e que Judy fazia agora parte da tropa nacional de Skarva.
O antigo embaixador estava adoentado e Sorem atuava mais ao norte de Ver-Vassel, tentando recolher algum apoio financeiro de Varenne e tentando cavar alguma simpatia do rei Aleron. Ishmael o acompanhara em sua empreitada algumas vezes.
"Acha que Vere vai nos ajudar de alguma forma?" — indagou Vishkar a Sorem, servindo-o com chá frio de trigo doado por Patras.
Sorem, tomando um gole de chá do odre, respondeu com uma expressão de desânimo:
"Não sei, prima. O rei parece de alguma forma simpatizar mais com a causa de Patras, apesar da amizade dele com Vask. Mas continuaremos tentando..."
Ishmael observou Vishkar e um rubor subiu por suas bochechas.
"Você tá diferente..."
"Por causa do cabelo?" — indagou a jovem, sorrindo e levando a mão aos fios escuros que mantivera curtos.
"Não, não é só isso..."
Sorem, que amassava uma pasta em um pilão, declarou:
"Atuei como auxiliar de médico em Skarva por um tempo. O doutor Higen me ensinou bastante coisa. Quer que eu faça esses arranhões sumirem, Vishkar?"
A jovem deu de ombros, dizendo:
"Não me importo com eles, mas pode fazer o seu feitiço. Alguns homens precisam de medicamentos no acampamento..."
Sorem e Ishmael trocaram um olhar. Ishmael perguntou então:
"Por que estava se divertindo com o príncipe Torgeir?"
Vishkar teve o seu sorriso fenecendo ao sentir a pasta verde do pilão de Sorem tocar o ferimento em seu joelho. Um frescor frio se espalhou pela sua pele.
"Ele não é o que eu imaginava que ele fosse. Vão gostar dele..."
"Ele é o inimigo, Vishkar!"
"Não, o pai dele é o inimigo."
"Ele é o inimigo. Por acaso, você está fodendo com ele?" — indagou Ishmael, cruzando os braços.
Vishkar fez um ruído com os lábios, dizendo:
"Acha que o sexo é a única coisa que liga duas pessoas, meu amigo? Você não sabe de nada..."
"Sei melhor do que ninguém que sexo não é tudo, Vishkar. Mas há algo forte entre você e o príncipe Torgeir. Não gosto disso..."
Os meses seguintes seguiram com a adaptação de Sorem e de Ishmael no acampamento de Ver-Vassel, que se deu fácil em alguns aspectos, mas difícil em outros. Rapidamente, os dois rapazes assimilaram as regras e tarefas estabelecidas no quartel, mas se moveram com estranheza no primeiro combate, tendo somente alguns hematomas e derrubando com ferimentos os patranos.
Vishkar sentia que olhava para o seu próprio reflexo quando viu, certa manhã, Sorem se enfurecer com a mãe, Somalia, vociferando:
"Achei que você fosse uma soldada assustadora! Os homens e mulheres falam de você em Skarva com temor! Pensei que estivessem aqui combatendo patranos e não descansando enquanto o império está ameaçado! Vocês têm espalhado boatos mentirosos!"
Somalia tinha os braços cruzados e pestanejou os seus olhos verdes com enfado. Quantas vezes ela já tivera que lidar com aquela mesma reação durante todos aqueles anos? Diante do silêncio erigido, Sorem atirou a sua tonfa no chão e seguiu para dentro da sua tenda, indócil. Só quando já escurecia, a comandante foi ao encontro do filho, agachando-se ao lado dele que estava deitado em sua cama de palha.
"Sorem, nem tudo é o que parece. E além do mais, você nunca foi um amante da guerra..."
"Não, eu nunca fui! Mas suportei a guerra e a sua ausência, achando que estivesse fazendo algo de grandioso ao invés de instaurar essa camaradagem com Patras. Sabia que isso soa como uma traição ao império, mãe? Meu pai morreu em Ver-Tan, acreditando na causa!"
"Seu pai atuou numa das fronteiras mais tumultuadas que é a da nossa terra, Sorem, mas aqui as coisas são como está vendo. Acha que estou traindo o império por não cortar a cabeça de Torgeir? Ótimo! Corra para Skarva e conte para Betthany o que se passa então. Se matarmos o príncipe herdeiro, Patras atacará com tudo e Akielos ou Vere podem se juntar à causa. Quer mais destruição?"
Sorem se curvou sobre o mapa esticado ao seu lado no chão de terra da tenda. Ele se apoiou em seu cotovelo, puxando para perto de si o lampião e iluminando o seu rosto bonito de olhos verdes, que sob a luz caíam para o âmbar.
"Estamos tentando conseguir uma aliança com Vere. E se Vere patrocinar Vask, mãe? A imperatriz vai atacar Patras com tudo o que temos. É com isso o que ela sonha! O que vai dizer para esses homens?"
"Skarva está muito longe e as fronteiras são cuidadas por nós, Sorem. Se formos obrigados a invadir Bazal, espero que possamos fazer isso sem derramar um rio de sangue em nosso encalço. Podemos instaurar um acordo com Patras. O rei é uma pessoa reativa e com a qual não teríamos diálogo, mas Torgeir e o irmão podem ser mais acessíveis. Quando houve uma assembleia real, muitos de nós fomos contra a guerra. Eu fui contra! Betthany quis viver os sonhos de domínio das mulheres que vieram antes dela, assim como o rei de Patras queria viver a causa ditada por seus antepassados! Não se avança, andando para trás! Mas os dois são governantes limitados, incapazes de criar algo novo e preferem regurgitar o passado."
"Mãe, eu quero que esse inferno acabe logo! E é claro que não vou para Skarva bajular a imperatriz, dedurando-a. Betthany está desesperada por uma aliança com alguma nação. Há boatos de que o seu juízo está abalado, após a última gravidez..."
"O juízo dela nunca foi o dos melhores. Para ela, os filhos tinham que obedecer a uma perfeição incompreensível. É injusto uma mulher como ela poder ser mãe. Sabe por que ela mandou a própria filha para a guerra, não sabe?"
"Sei. Algumas pessoas comentam na corte. Ishmael e eu soubemos no dia em que ela foi enviada para cá. Vishkar sabe?"
Somalia estava agachada ainda, parecendo um leopardo.
"Acredito que ela suspeite, mas não vai falar uma palavra sobre isso. Bom, preciso do seu apoio, Sorem. Posso contar com você?" — indagou Somalia, envolvendo o pescoço do rapaz e lhe dando um beijo estalado no rosto.
"Estou feliz em vir para Ver-Vassel e reencontrá-la, mãe, mas acho que, durante esse tempo, vou atuar na ala médica ao invés do campo de batalha. Creio que tenha mais utilidade ajudando as pessoas do que batendo em soldados com tonfas. Pode contar comigo nisso..."
"Fico feliz que tenha estudado com o doutor Higen e se tornado um homem instruído que não se apoie na espada para viver. Algumas mulheres aqui precisam de chás contraceptivos se puder ajudá-las. Precisaremos de pessoas como você para reconstruir Vask quando a paz chegar."
"Estarei aqui, mãe." — disse o rapaz. Depois, levantando-se, ele abriu um pouco a tenda para ouvir a estridulação noturna dos insetos — "Há bastante gafanhotos por aqui e cascas de árvore na floresta. O doutor Higen me ensinou a preparar unguentos capazes de deixar nossos soldados de pé e fortes. Farei o meu melhor."
"Estou certa disso. Cuide dos meus homens e de Vishkar. Eles vão precisar de você quando a imperatriz herdeira retornar para o reino e se casar com o jovem Ishmael."
Sorem, de pé, permaneceu fitando a mãe por um tempo. O seu corpo era alongado e a sua túnica se mantinha limpa e alinhada. Ele sorriu, dizendo:
"Você seria uma melhor governante do que Betthany, mãe."
Somalia sacudiu o rosto.
"Eu não estava na linha de sucessão, mesmo sendo prima de Betthany, filho. E eu nunca sonhei com o império, Sorem, permanecendo feliz somente em atuar na Guarda Real. A nossa relação de primas sempre foi tensa. Betthany me admirava por causa do meu desempenho militar e me odiava pelo mesmo motivo. Ela odiava o que queriam que ela fosse, mas não conseguia deixar de sê-lo. Quando a guerra estourou, ela tratou de se livrar de mim o mais rápido que pode. Betthany sempre usou o seu poder para tirar do caminho o que não estava de acordo com a sua ambição."
Os olhos de Sorem se tornaram sombrios, antes que ele movesse o rosto, esticando os seus dedos muito brancos para Somalia.
"Estou feliz por estarmos juntos novamente, mãe. Ainda que não concorde inteiramente com o que se passa aqui na fronteira, ficarei ao seu lado..."
Os dias prosseguiram então. Na primeira vez em que Sorem e Ishmael viram Vishkar conversando com Torgeir na beira do rio, um estranhamento se fez entre amigos antigos e novos. Na segunda vez, também. E na terceira.
O comentário jocoso de Torgeir, vendo Vishkar e Sorem sentados juntos sob o sol de que a família imperial tinha a mesma cara uns dos outros e que pareciam um bando de espelho ambulante fez o vaskiano se irritar e ir para a tenda trabalhar em seus unguentos.
Na quarta tentativa, Ishmael e Sorem se sentaram junto com os dois herdeiros e deram um dos últimos passos em direção aos hábitos do acampamento.
Sorem, abrindo-se um pouco mais, espreitava Torgeir com olhos verdes intensos e praticou com ele o seu patrano límpido e sonoro. Ishmael, um pouco mais desconfiado, se sentou entre o príncipe herdeiro e a amiga, permanecendo mais tempo em silêncio do que falando.
Quando eles partiram, Torgeir comentou:
"Ishmael gosta de você. Ele tem ciúme de mim..."
Vishkar assentiu, apoiando os seus cotovelos no chão.
"Eu sei. Eu vou me casar com ele quando herdar o império. Prometemos isso um ao outro quando tínhamos doze anos, após a minha mãe tentar me empurrar para o príncipe herdeiro de Vere e de Kempt e eles esnobarem Vask."
A jovem falou aquilo com naturalidade, antes de se espreguiçar e se deitar na relva. Torgeir ergueu as sobrancelhas.
"O que? E o seu gosto por mulheres?"
Vishkar revirou os olhos nas órbitas.
"Vou me casar com mulheres também, mesmo a minha mãe dizendo que eu não deveria. Podemos casar mais de uma vez em Vask, mas eu preciso de um bom homem para ser o pai das minhas filhas. Ishmael é o meu amigo e ele será um bom imperador. Não gosto dele de um modo amoroso e ele sabe disso, mas se eu tenho que me casar com um homem, deve ser ele."
Torgeir contraiu a boca com uma expressão divertida.
"A poligamia safada de Vask..."
"Não há safadeza. Ele vai poder dormir com homens e mulheres se assim o desejar também. Pode até me deixar ver e eu posso dizer para os seus amantes do que ele gosta na cama..."
Torgeir, que bebia de um odre, cuspiu um pouco do líquido, limpando em seguida o fio de água com o dorso da mão.
"Que estranho..."
"Por que estranho? Não preferiria que se um homem tocasse a sua esposa, tratasse-a com dignidade e a satisfizesse?"
"Preferia que um homem não tocasse em Enone se houver essa opção..."
"Como é a sua esposa?"
Torgeir respirou fundo.
"Ela é a mulher mais adorável do mundo. Eu a amo de verdade, mas ela ficou enciumada quando soube de você. Levei um dia inteiro, tentando convencê-la de que a nossa relação é de outra natureza..."
"E ela acreditou?"
"Acreditou desconfiando como a maioria das mulheres faz. Se algum dia alcançarmos a paz, quero que vocês duas se conheçam."
Vishkar deu um sorriso enviesado.
"A sua princesa não deve temer a mim. Você que deve me temer, raffie. Sou suscetível à mulheres adoráveis, caso não saiba..."
Torgeir deslizou o seu olhar até a jovem e retrucou com mau-humor:
"Vai se foder, Vishkar! Isso me faria travar uma guerra real com você..."
"Não seja conservador, Torgeir! Aposto que você montou em vários escravos e escravas aqui na fronteira durante tanto tempo longe de casa. Sua esposa não se incomoda com eles?"
"Não vou falar com você sobre isso..."
"Por que não?"
"Não é da sua conta, fedelha..."
"Ah, conta vai..."
"Não..."
"Conta!" — pediu Vishkar, cutucando o ombro de Torgeir que havia retirado de sua sacola de pano outro boneco e se pôs a coser as mãozinhas rechonchudas do brinquedo. A sua agulha mergulhou na costura e se ergueu presa à linha.
O príncipe herdeiro havia ido até Bazal sete meses atrás e se demorara lá uma semana. Um arauto lhe trouxera a notícia de que a sua esposa estava grávida novamente. Vishkar zombou de Torgeir, dizendo que a Águia de Patras não errava uma.
"Minha mãe deve estar enfurecida. Nenhuma cabeça à vista do príncipe Torgeir, mas outro filhote de águia está a caminho... Vida longa às aves de rapina, Majestade!"
(cut)
Nos quatro anos seguintes, a vida se costurou com idas e vindas de Somalia, Ishmael e Sorem ao norte e de Torgeir à Bazal.
Fazia muito tempo que Vishkar não encontrava com a sua mãe e a sua lembrança da imperatriz era ainda a de uma mulher viçosa caminhando por lajotas, sob o sol fulguroso, adornada de joias e com os olhos contornados de kajal. Havia vezes em que Betthany reforçava a sua ligação com os deuses, sendo trazida para o convívio de seu séquito em um trono carregado por escravos com o sangue da terra e os músculos brilhando sob o calor.
Mas Somalia dissera para Vishkar que Betthany havia engordado muito, após o último parto e o seu coração se mostrava fraco, assim como as suas articulações. Ela permanecia muito tempo dentro do palácio, abatida e tomando medicações. Fios prateados eram vastos agora na cortina negra de seus cabelos.
Betthany não escrevia para a filha, mas lhe enviava mensagens por Somalia e Sorem ainda, indagando sobre a cabeça de Torgeir. Tentando evitar a mãe, Vishkar não retornou ao palácio nenhuma vez.
Foi estranho quando a jovem percebeu naqueles anos que estava adaptada demais à vida do acampamento como se aquele fosse o seu novo reino, a sua nova casa, a sua nova corte, a sua nova família.
Ishmael se passara a dar melhor com Torgeir e, ocasionalmente, era possível até ver os dois pescando juntos no horário diplomático do rio. A ida do jovem vaskiano à uma missão contra os mercenários alterara a sua forma de observar o príncipe de Patras, assim como a percepção de Vishkar mudara.
Na primavera do aniversário de Somalia, alguns homens vaskianos se reuniram ao redor do fogo e os soldados de Patras participaram da celebração. Quando Torgeir se aproximou, trazendo a bebida patrana em uma garrafa bojuda de cerâmica, a clareza das relações travadas ali se tornou evidente.
As mortes, talvez, não fossem mais toleradas nos combates de Ver-Vassel. Somente feridos. A animosidade entre as duas nações estava se tornando impraticável e quase patética.
Não houve oposição quanto aos patranos se reunirem à comemoração e alguns escravos de Patras se puseram a atender aos vaskianos. Vishkar, Sorem e Ishmael não eram mais crianças e bebiam com os homens, ouvindo suas histórias de combates e piadas torpes.
Havia uma camaradagem honesta estabelecida e um escravo muito pálido e de gestos comedidos acendeu o cigarro de palha de Vishkar, ao lado de uma jovem de cabelos cacheados castanhos. Outros escravos pareciam interessados em Ishmael e Sorem e se desvelavam em cuidados, conversando com eles e os servindo com as lascas de peixe da fogueira.
Quando um dos escravos de prazer levou um pedaço de pão à boca de Vishkar, ela lhe sussurrou algo em seu ouvido e o rapaz ruborizou. Depois, ela foi servida pela jovem.
No fim, quando Somalia se retirou com alguns homens para a sua tenda, após beber o suficiente da bebida de Patras, Vishkar indagou, fitando Torgeir:
"Vamos instaurar uma troca com Patras?"
Em um canto próximo ao fogo, Ishmael era bajulado por uma linda escrava de cabelos escuros e olhos claros. Sorem beijava um escravo patrano e deslizava a mão por sob a sua roupa. Outros soldados também se divertiam.
Torgeir, que afastava a caneca de lata de seus lábios, retrucou:
"É o aniversário da comandante Somalia e creio que os escravos de Patras estejam dispostos. Não é fácil para eles permanecerem também na fronteira. Eles sentem falta das festas e dos jantares de Bazal..."
Vishkar sorriu, pestanejando os seus olhos bicolores. Ela olhou para o canto, mordendo os lábios e fitando de cima a baixo a escrava que a servia. Depois, despiu a parte de cima de sua túnica, jogando-a para o escravo afeminado.
"Podemos fazer como alguns nobres fazem com seus escravos de estimação em Vere e foder ao ar livre?"
Os soldados riram e Torgeir espreitou a jovem por alguns segundos. Havia uma profundidade em seu olhar. Ela estava com as suas espáduas nuas, tendo o corpo coberto por uma blusa solta, que revelava as suas sardas e os hematomas e cicatrizes de guerra nos braços. Também revelava o contorno do seu seio intumescido.
"Leve-os para a sua tenda, menina..."
Vishkar meneou o seu rosto e indagou, sentindo o álcool alterá-la:
"Já fodeu com uma vaskiana, Torgeir?"
O patrano percebeu que Ishmael, Sorem e alguns homens prestavam atenção na conversa.
"Já. Antes de vir para cá."
Vishkar assentiu, dizendo:
"Os escravos são os dicionários de cama da fronteira. Não me admira o seu vaskiano ser tão fluente. Posso lhe mandar uma de nossas escravas dispostas. Ou um escravo talvez..."
Torgeir sacudiu o rosto, dizendo:
"Estou bem. Vá se divertir, Vishkar."
Vishkar se ergueu, então, sussurrando algo no ouvido da escrava, que sorriu, recolhendo a garrafa bojuda de vinho, ao lado do rapaz afeminado. A imperatriz herdeira fitou, então, o rosto de Torgeir, inclinando a sua cabeça. E Torgeir a olhou de volta, ruborizando um pouco.
"Não sou mais criança. Faço coisas que não acreditaria..."
Sorem, mais adiante, subia sobre o escravo e Ishmael espreitou Vishkar enquanto a jovem ao seu lado mergulhava o rosto em seu pescoço e mordiscava a sua orelha.
"... Tem certeza de que não quer uma vaskiana? Não é de bom tom recusar um presente de Vask."
Torgeir desviou o olhar.
"Tenho. Não sou o aniversariante para ser presenteado."
Vishkar, então, partiu, sendo flanqueada pela escrava de cabelos cacheados e pelo escravo de beleza feminina. Quando estavam próximos à tenda, a imperatriz herdeira, parecendo alcoolizada e claudicante, beijou a boca do escravo.
Torgeir ainda a espreitava. Também Ishmael. E mesmo Sorem observava a imperatriz herdeira por sobre o ombro do homem com o qual estava abraçado.
Quando ela sumiu na tenda com os escravos, os olhares inquisitivos dos dois vaskianos dardejaram o príncipe herdeiro de Patras. Havia uma pergunta pairando no ar. Qual era a fronteira dentro da fronteira?
O príncipe e a imperatriz eram vistos sempre juntos em várias horas do dia. Aquela relação também se tornava porosa e dúbia?
Quando se estava solitário e esquecido num maldito fim de mundo por anos, era comum os afetos se fundirem e se comunicarem uns com os outros, bagunçando-se e se confundindo. Era comum se contestar a ordem e a civilização, agarrando-se a qualquer gesto afetuoso como se fosse necessário dá-lo a carne para sacramentá-lo à realidade.
A guerra era solitária e, às vezes, enlouquecia-se, pensando-se na morte dos governos, das hierarquias, de reis e impérios. O sexo era anarquia.
No decorrer da noite, vaskianos se entrelaçaram em patranos e Sorem desapareceu com o escravo em sua tenda. Também Ishmael, que não podendo estar com quem desejava, cedeu aos encantos da escrava de cabelos escuros e olhos claros, levando-a para a sua barraca. Gene desaparecera há muito com o seu amante patrano.
O capitão do forte, que bebia a cerveja patrana ao lado de Torgeir, perguntou ao príncipe sem meandros:
"A filha do império queria foder com Vossa Alteza. Por que não se deitou com ela? Vocês estão sempre juntos..."
Torgeir tomou um gole da sua caneca de lata, replicando:
"Eu não faço o tipo dela e ela não quer dormir comigo de verdade. Ela só se sente sozinha e quer companhia."
O capitão riu-se.
"Vaskianos são polígamos e dizem que o fogo das mulheres de Vask é grande. Aposto que ia gostar de montar a filha do império. Ouvi dizer que ela prefere mulheres, mas alguns escravos afeminados a satisfazem também. Dizem que a boceta dela tem o gosto dos deuses imperiais. Não me importaria de chupá-la e ser abençoado..."
"Fique longe dela." — retrucou Torgeir, contraindo o canto da boca — "Esse é um benefício dado somente aos escravos. Não quero saber de meus homens enroscados na imperatriz herdeira de Vask. Isso traria discussões e desarmonia para o nosso forte."
O capitão assentiu, dizendo:
"Nem mesmo Vossa Alteza pode se dar a esse luxo? Os seus soldados não contestariam as decisões tomadas pelo príncipe Torgeir. Nesse fim de mundo, os herdeiros podem fechar os seus olhos e serem somente um homem e uma mulher pelo menos uma vez. Não haveria julgamentos..."
Torgeir franziu o cenho, bebendo o restante da sua bebida.
"Vishkar se tornou uma bela mulher, mas preciso que ela seja minha amiga, não minha amante..."
O capitão contraiu as sobrancelhas enquanto Torgeir se erguia para se retirar.
"Por quê?"
Torgeir respirou fundo, observando a tenda distante.
"Não sei. Talvez eu também me sinta sozinho e precise de companhia..."
Assim, sem se tocarem do modo que amantes se tocam, o príncipe e a imperatriz herdeira seguiram com as suas conversas rotineiras à beira do rio, intercaladas pelos treinos em que Vishkar se exercitava, combatendo o machado do patrano com duas tonfas, próximo à floresta.
Torgeir nunca questionou Vishkar sobre o seu convite velado de ele ir para a sua cama e nem ela o indagou sobre a sua recusa clara.
Mas, de alguma forma, essa intimidade não consolidada parecera instaurar uma intimidade ainda mais profunda entre o patrano e a vaskiana. O tempo em que passavam juntos aumentou e Vishkar esperava, ansiosa, o retorno de Torgeir quando ele partia para a capital. Depois, os dois riam-se, inteirando-se das novidades.
Havia um lisonjeio em uma futura imperatriz que preferia mulheres chamar um príncipe para a sua cama, assim como havia adulo em um homem recusar aquilo que inferiam que ele desejava extrair de uma mulher com quem passava horas a sós.
Mais uma expectativa agonizava, antes de morrer enquanto os dois herdeiros se tornavam um pouco mais imunes. Não eram inimigos. E nem amantes.
Amantes podiam ser alvos fáceis e adivinháveis em uma guerra, mas raffies eram escorregadios como uma tina cheia de água lamacenta.
O que era o gostar sem necessidade?
Esse sentimento podia ter a força de um machado e de uma tonfa se entrechocando ou a fragilidade de um graveto seco sendo partido.
(cut)
Torgeir, após a sua última ida à Bazal, voltara de lá abatido e taciturno. Vishkar fora encontrar com ele nas ruínas da casinha de pedra durante uma tarde chuvosa. O lugar tinha o cheiro de pedras molhadas, terra, mato e havia teias de aranha em um canto carcomido do teto com insetos enrolados em seda branca.
"O que houve?" — perguntou a jovem, estudando o rosto do príncipe.
"A minha irmã Tília faleceu..." — retrucou o patrano com os olhos vermelhos.
Vihskar respirou fundo, largando-se em um canto do chão forrado com um tecido de lã que haviam trazido do forte até lá.
"Eu sinto muito..." — murmurou a jovem.
Torgeir se sentou ao lado dela sobre a manta, parecendo genuinamente triste.
"Torveld disse que Tília ficou muito deprimida após a perda do marido perto da fronteira e adoeceu."
Torgeir também narrou para Vishkar sobre o estado deplorável das cidades vizinhas à Bazal e sobre a miserabilidade vista nos habitantes de Patras que encontrou no caminho. Havia uma preocupação honesta em seu semblante, aprofundando as rugas prematuras que se formavam em sua testa, quando declarou com um tom sombrio:
"No ritmo que as coisas vão, restará muito pouco de Patras para se defender ou se conquistar..."
Depois, Torgeir disse, observando a chuva cair sobre uma carcaça de lareira com a sua cornija de tijolo e reboco lutando bravamente contra a erosão:
"... Meu irmão está tentando ajudar as pessoas, apesar do meu pai querer empregar o ouro na guerra. O rei está doente, velho, alterado, mas me jogou na cara que não quer morrer sem ver Patras vencedora."
Vishkar aquiesceu.
"Ainda podemos seguir o plano de implorar de joelhos aos nossos pais que desistam dessa guerra infame..."
"Acha que funcionará com a sua mãe?"
"Nunca. Funcionará com o seu pai?"
"Não. Ele não desistirá jamais. Meu pai está desesperado porque alguns mercenários não têm seguido os seus comandos e vêm ordenado saques dentro da própria Patras, sob as ordens de um chefe que os uniu num clã. Eu o alertei, dizendo que os mercenários são homens sem honra, indignos de confiança, oportunistas, mas meu pai não me ouviu na época. De modo que..."
Torgeir hesitou, fechando os olhos pesadamente. Vishkar, por sua vez, pestanejou os seus olhos bicolores.
"... De modo que ele fez um tratado com Vere. Ele prometeu Ver-Vassel para Vere se ganhar a guerra... O rei Aleron concordou em financiar a causa de meu pai, dando provisões para Patras em troca de sua lealdade..."
A expressão de Vishkar se tornou sombria.
"...Isso significa que Ver-Tan vai ser atacada com tudo o que temos..."
A vaskiana se pôs de pé, parecendo atordoada. Depois, ela levou a mão à cabeça, antes de avançar para Torgeir.
"Vere se voltou contra Vask?! Patras conseguiu um aliado?! Por que você não tentou impedir o seu pai, Torgeir?! Ele vai massacrar o meu povo!"
Torgeir retrucou de dentes cerrados:
"Eu tentei impedi-lo, Vishkar! E ele me enxotou do palácio em retaliação. Queria me enviar para Acquitart porque disse que sou inútil aqui e voltei para o forte contra a vontade dele! Eu não pude nem acompanhar o funeral da minha irmã! Estou aqui só! Sem o apoio do rei! Entende isso? Meu pai vai fazer as coisas do jeito dele! Torveld tentou intervir também e foi ameaçado! Mandei a minha esposa e os meus filhos para a propriedade dos pais dela porque tenho medo de que meu pai se volte contra eles e os use na guerra. Ele é um homem ambicioso demais, implacável demais!"
Vishkar tinha os lábios entreabertos e uma palidez se abatia sobre o seu rosto castigado pelo sol. Ela parecia perdida e assustada. Torgeir voltou a falar:
"... Escute. É possível que os arautos de sua mãe já a tenham informado da situação atual. Desde o início, eu não vim para as fronteiras só para obedecer às ordens do meu pai. Vim para fazer alianças no campo de batalha enquanto meu irmão trava alianças diplomáticas na corte. Eu fiz alianças com os capitães e comandantes das outras fronteiras. Eles me apoiam como herdeiro e temos mais camaradagem aqui do que eles já tiveram com o meu pai a vida toda em Bazal. Eu vou cavalgar amanhã até Ver-Tan e tentar convencer as tropas a não agirem sem a minha autorização..."
"Como vai fazer isso?"
"Como meu pai faz, Vishkar. Prometendo-lhes terras e ouro quando a guerra terminar. Prometendo-lhes asilo político para os seus familiares em outras nações. Eles vão precisar recomeçar com as suas famílias em algum lugar quando esse pesadelo passar."
Vishkar moveu o seu rosto.
"Torgeir, você pode ser declarado um traidor por estar agindo contra as ordens do seu pai!"
"Creio que sim, mas não há mais o que fazer! Brigamos feio e rompemos. Meu pai vive a guerra em sua mente, mas nós a vivemos no forte e com o povo diariamente. Posso tentar instaurar um lugar de acordos e regras em Ver-Tan como conseguimos implantar um modelo aqui em Ver-Vassel."
"Acha que conseguirá convencê-los?"
"Posso tentar... Isso evitaria um massacre..."
Um silêncio se fez no casebre em ruínas e o barulho das gotas era ouvido caindo sobre o batente e sobre uma pilastra rachada.
"O massacre permitiria que Patras tomasse Ver-Tan e forçasse a entrada até Skarva. Patras tomaria a capital..."
A voz de Vishkar era hesitante e um lampejo escuro de desconfiança perpassou as suas pupilas. Havia medo e insegurança em seu timbre. Torgeir pareceu perceber a mudança da qualidade do ar e retrucou:
"Certo, raffie. Pode continuar desconfiando de mim o quanto quiser, mesmo se eu for enforcado como um traidor do meu reino. Isso nos impede de nos tornarmos denisy, amigos, ou pastan, irmãos. Mas depois que parar de ver um inimigo em mim, quero que deixe Somalia avisada. Deve haver mudanças no acampamento em breve quando Betthany souber de tudo. Conte para ela o que lhe falei!"
Vishkar baixou o seu rosto um tanto ruborizado. Sua atenção se concentrou nos veios da madeira de uma porta abandonada. Um escorpião correra para debaixo de algumas folhas.
"Você volta de Ver-Tan?"
"Volto. Com boas notícias, espero..." — declarou o patrano, fazendo menção de se levantar. A mão da imperatriz herdeira segurou o seu braço, no entanto, detendo-o.
"Me desculpe. Eu...eu não quis. Eu confio em você... Me desculpe."
Novo silêncio. E, dessa vez, Vishkar, timidamente, apoiou a cabeça no ombro de Torgeir, que após uma expressão dura em que expressava a sua mágoa, afagou-lhe os cabelos úmidos.
"Se eu quisesse agir como o meu pai, se eu quisesse ser desleal nessa disputa, Vishkar, eu teria agido assim há muito tempo atrás."
"Certo, Torgeir. Por favor, me perdoe, raffie. Eu só fiquei fora de mim. Não quero que você morra. E não quero que o meu povo também morra..." — murmurou a imperatriz herdeira.
Torgeir respirou fundo.
"A guerra está chegando ao seu extremo, Vishkar... Precisamos começar a pensar como será daqui para a frente..."
Conforme o príncipe de Patras havia previsto, houve mudanças no acampamento, após Torgeir partir com alguns soldados seus para a fronteira de Ver-Tan. Arautos vaskianos vieram para o quartel, a mando do império, ratificar notícias e instaurar desígnios.
A alteração mais severa se dera semanas depois com a chegada de um novo comandante nomeado por Betthany para Ver-Vassel, acompanhado de alguns soldados seus que vieram de Skarva. Somalia seria realojada na fronteira de Ver-Tan.
Andon, o novo comandante, era um homem jovem, bonito, de cabelos claros e olhos cor de mel, mas uma expressão austera e glacial. Quase de repugnância contida. De perto quem o servia, eram o soldado Nabsib e a escrava Mircela, que foram trazidos da corte de Skarva com ele e tinham o sotaque da capital. Outros soldados o flanqueavam lealmente.
Não foi necessário Somalia e Vishkar conviverem com Andon mais do que um dia para compreenderem a sua índole. Ele era um homem da guerra, frio, autoritário e que olhava a todos como se não estivessem lá. Nabsib falava com ele somente o estritamente necessário e a sua escrava de prazer, uma jovem de cabelos ruivos e sardas, tinha hematomas em seu queixo, braços e andava devagar e de cabeça baixa.
"Fui enviado aqui pela imperatriz Betthany para trazer algum resultado substancial, após tantos anos de inércia na fronteira. A partir de hoje, atuarei como comandante, tendo sido nomeado pelo império..." — disse ele, após reunir os soldados diante do acampamento enquanto transitava por eles — "Somalia deve partir amanhã de manhã." — determinou Andon, apoiando a sua mão enluvada no ombro da vaskiana, que permaneceu sentindo aquele toque desagradável muito tempo depois da mão ser retirada.
Durante a noite, Somalia e Vishkar foram à tenda de Andon e encontraram Nabsib vigiando a entrada com uma expressão indigesta. De dentro da cabana, se ouvia o ruído inconfundível de foda truculenta e gemidos dolorosos, seguidos de um estalo e um palavrão.
Nabsib entrou na tenda, se anunciando ao seu chefe e Mircela foi vista sob Andon, que a fodia na cama de palha sem lençóis.
Vishkar se indignou quando constatou que os lábios da jovem estavam partidos e o seu rosto, avermelhado. Ela já ouvira falar de homens que gostavam de abusar das escravas, infligindo a elas dor.
"Sua estúpida!" — dissera Andon, pouco antes do soldado e das duas mulheres entrarem em sua tenda, erguendo a mão com anéis.
Andon não pareceu se envergonhar de seu ato, mas a jovem de cabelos ruivos parecia querer desaparecer atrás das suas madeixas.
"Precisamos falar com o senhor sobre o acampamento..." — anunciou-se Somalia.
O homem girou os olhos nas órbitas e ordenou com rispidez para a sua escrava, levantando-se de sobre ela.
"Saia!"
Mircela se ergueu, sem nada dizer, e juntou as suas roupas do chão, retirando-se da tenda. Antes, no entanto, Vishkar se antecipou até a jovem, tocando em seus lábios feridos com um lenço. Os olhos azuis e úmidos da escrava fitaram os olhos da imperatriz herdeira, dizendo timidamente palavras de agradecimento em vaskiano. Vishkar constatou que a escrava deveria ter a sua idade quando chegara ao acampamento. Catorze ou quinze. E ela entendeu por que ela não andava, mas praticamente se arrastava.
"Não batemos em nossos escravos, Andon!" — disse Vishkar com secura enquanto o homem se colocava de pé, exibindo sem vergonha alguma o seu corpo nu e o seu pau ainda ereto.
Havia intimidação naquele ato.
"Queira me perdoar, Alteza, mas a escrava é minha e eu faço o que quiser com ela. Não estamos em Skarva."
Somalia interveio então:
"Não, não estamos em Skarva, mas existem regras aqui no acampamento para as coisas não entrarem em colapso. Preciso partir amanhã, tendo certeza de que você e a imperatriz herdeira entraram em um consenso."
Vishkar viu o homem se sentar em uma cadeira de espaldar alto, ainda sem as suas roupas e, se sentindo aborrecida por aquela afronta, a vaskiana tomou uma manta de pele de sobre a mesa e lhe atirou com ferocidade:
"Cubra-se! Com quem acha que está falando?!"
O homem ergueu os seus olhos com preguiça e a imperatriz herdeira constatou que havia algo de familiar nele. Algo que a irritava atrozmente. Enquanto vestia a sua pele, o homem retrucou:
"Esqueci-me de lhe dar uma notícia de pesar, Alteza. O seu pai, o imperador, faleceu no último inverno devido a um resfriado infeliz. Sinto muito por isso. Tenho servido à imperatriz nos campos de batalha e na cama há algum tempo. Nós nos casaremos, após eu enxotar os patranos de Ver-Vassel. Esse é o meu dote para Betthany de Vask: a limpeza de sua fronteira. Não tentem me impedir de deixar a mulher mais importante de Vask feliz, Somalia e Vishkar. Farei as coisas aqui do meu jeito e com o consentimento do império!"
Vishkar pestanejou. O seu pai estava morto? Fazia muito tempo que ela não o via e o imperador passava mais tempo com os seus irmãos menores e em reuniões políticas de Vask do que em sua companhia durante o tempo em que a jovem morou no palácio, mas a notícia a pegou de jeito. Subitamente, Vishkar percebeu a quem Andon lembrava. Havia a empáfia de Betthany em cada centímetro dele.
A imperatriz herdeira interveio com irritação:
"A fronteira daqui é uma das mais pacíficas de Vask! Somalia impediu que os patranos invadissem essa região..."
Andon aquiesceu com o rosto, tendo apoiado o pulso no braço de sua cadeira.
"Tenho plena confiança no trabalho de Somalia de Ver-Tan. É por isso que ela foi mandada para a sua terra natal e poderá fazer melhor ainda lá. Depois de amanhã, invadiremos o forte de Patras durante a noite. Pegaremos os patranos de surpresa e confiscaremos as suas posses. Darei aos soldados os direcionamentos amanhã. Agora, se me permitem..." — declarou Andon como se as dispensasse.
Somalia segurou o braço de Vishkar que, por sua vez, arreganhou os dentes para ele como um felino acuado.
"Insolente! Não se esqueça que eu sou a imperatriz herdeira, Andon! Você é só um cacete que fode a minha mãe quando ela se lembra de que se pode gozar fora de uma guerra. Não tente passar por cima de mim e Somalia porque eu esmago você!"
O homem sustentou o seu olhar gelado, mas uma ruga se desenhou em sua fronte. Antes que se retirasse, Vishkar se voltou para ele, vociferando:
"E eu reclamo Mircela para mim! Não batemos em escravos nem em Skarva e nem em qualquer fim de mundo de Vask. Se quer tanto bater em alguém e bancar o valente, tente bater em mim, Andon! Eu quebro a sua cara à base de tonfa, puto de imperatriz; caralho ambulante; prostituto de bosta..."
Quando deixaram a tenda, Nabsib as olhou com curiosidade, voltando-se sobre os seus calcanhares para fitar as duas mulheres, antes de se postar novamente diante da tenda de Andon. Mais adiante, Somalia declarou:
"Não há jeito. Terei que ir. Sabe o que tem que fazer, não sabe?"
"Sim..." — disse Vishkar, aquiescendo e seguindo para o rio.
Torgeir havia retornado no dia anterior. Ele conseguira uma aliança com os homens de Ver-Tan e os patranos se mostraram dispostos a agirem com honra na fronteira, desde que Somalia fosse a comandante que lidasse com eles. A recomendação do príncipe e as promessas os animaram.
Vishkar, alcançando Torgeir próximo ao riacho, contou para ele sobre o plano de ataque ao forte mencionado por Andon. O príncipe patrano contraiu as sobrancelhas, dizendo:
"Somalia estará longe. Ela faz parte do equilíbrio da nossa fronteira e a única pessoa que os meus homens respeitarão fora ela, é você. Sabe o que tem que fazer, não sabe...?"
Sim, Vishkar sabia.
No dia seguinte, durante a despedida, Somalia abraçou Vishkar. De longe, os homens patranos as observavam do seu forte, caminhando pelas ameias como chacais à espreita.
A comandante seguiria com Sorem para Ver-Tan onde lá os conhecimentos médicos do rapaz poderiam ser mais necessários do que na fronteira de Ver-Vassel. Ishmael também partiria junto. Vishkar implorou que ele, como o soldado habilidoso que era, escoltasse a comitiva. Eles não se despediram de Andon.
Gene chorou, deslizando a mão pela crina do cavalo da comandante que era como uma mãe para ele e para os soldados mais jovens. Ishmael fungava, montado em seu corcel. Vishkar, caminhando ao lado de Somalia e dos amigos, disse, soluçando:
"Sigam as regras. É um espelho. A guerra é um espelho. Nos vemos antes do inverno... Por favor, cuidem-se. Cuidem-se, Somalia, Sorem e Ishmael... Eu... eu amo vocês."
Sorem se voltou sobre a sua sela, entrelaçando os dedos nos da prima e dizendo:
"Cuide-se, Vishkar! Meus pensamentos estarão em você. Todos os dias..."
Durante o momento em que Somalia e a sua comitiva passaram perto do forte patrano, ouviu-se o barulho de homens batendo os pés no chão e as palmas de suas mãos. Houve o alarido de machados golpeando escudos levemente como os patranos faziam em homenagem aos grandes soldados. Torgeir se mantinha na ameia, observando Somalia de Ver-Tan partir. Alguém soprou a trompa. Os homens gritaram o seu nome. Havia respeito e admiração no encalço da ex-comandante.
Ela era a guerreira que mantivera a ordem por anos naquele fim de mundo torturado pela seca e pela chuva. Houvera mortos e feridos porque, afinal, era uma guerra. Mas houvera também cortesia e camaradagem porque eles eram seres humanos no fim das contas. A humanidade prevaleceu naquela região.
No dia anterior, Torgeir havia dito para Vishkar:
"Somalia é uma grande mulher. Quando cheguei à fronteira, eu também queria fazer guerra feito uma criança mimada e birrenta e ela me ensinou a paz. Ela ensinou a paz para todos esses soldados. É a melhor pessoa que conheço. Somalia ensinará a paz agora em Ver-Tan, assim como ensinou a paz para a futura imperatriz de Vask."
Vishkar, com os olhos vermelhos, murmurou, levando a mão ao coração. A partida da comandante doía-lhe.
"Somalia é a minha mãe, Torgeir. Ela me deixou fingir por anos que eu era a sua filha enquanto ela era uma grande mãe para todos nós. Só agora, percebo o espaço que isso ocupou aqui dentro de mim. Nunca havia percebido até então como parecia faltar um pedaço meu em mim mesma."
Durante a noite, após a partida triste de Somalia, o acampamento afundou no silêncio melancólico e Vishkar se pôs a fumar o seu cigarro de palha em sua tenda. Mircela se apresentara, acreditando que os seus serviços de escrava de prazer seriam exigidos pela imperatriz herdeira, mas Vishkar somente lhe perguntara mais informações sobre Skarva e sobre o falecimento do imperador.
"Ele teve uma morte tranquila, segundo o que ouvimos, Alteza." — disse Mircela, apoiando a sua cabeça no colo de Vishkar— "O imperador faleceu dormindo. Os seus irmãos permanecem em Skarva, exceto pelos gêmeos que foram mandados para o extremo norte de Ver-Vassel..."
Vihskar franziu o cenho.
"Para o extremo norte de Ver-Vassel? Por quê?"
"Vossa Majestade Imperial disse que eles poderiam ficar na casa de um nobre e aprender a arte da escrita e da música lá."
Vishkar tragou a fumaça e a expeliu no ar.
"Eles têm doze anos. Deveriam ficar em Skarva. Temos professores de música e arte excelentes na capital!"
Mircela esticou o seu braço e acariciou a panturrilha da imperatriz herdeira.
"Alteza, quer que eu faça algo para satisfazê-la? A senhorita é muito misericordiosa por reclamar a minha posse ao meu antigo mestre. Permita-me demonstrar a minha gratidão..."
Desde que soubera que Vishkar a tomara de Andon, Mircela parecia muito disposta e sorridente. A imperatriz herdeira insistiu que as duas permanecessem somente conversando, mas a uma altura, ela cedeu aos encantos da jovem. Ela começou a beijar a boca de Mircela em que sardas marrons pontilhavam o seu sorriso. Depois, a afastou, falando:
"Você é muito garota ainda. Vamos parar por aqui por hoje. Podemos só conversar nas próximas noites, tudo bem? Ninguém mais encostará em você contra a sua vontade."
"Mas se for da minha vontade, Vossa Alteza me toca?"
Mircela voltou a apoiar a sua cabeça com doçura no colo de Vishkar e a jovem, com um rubor em suas bochechas, acarinhou-lhe os cabelos espessos e ruivos. Um arrepio perpassou a sua nuca e ela reconheceu aquele sentimento que não experimentava desde Judy serpentear o seu coração.
Vishkar ficara sabendo que Mircela, quando criança, atuava em um circo itinerante de Skarva, fazendo acrobacias para uma plateia razoável, mas quando os seus pais morreram, a menina fora vendida como escrava. Mircela fez um movimento para demonstrar as suas habilidades para a imperatriz, dando uma cambalhota para trás e depois, equilibrou uma laranja em seu nariz enquanto se erguia num pé só.
Nesse ínterim, um alarido se fez entre as tendas, entrecortando a noite escura como um rasgo e Gene se revelou na cabana da imperatriz herdeira, gritando:
"Alteza, Alteza, precisa interceder!"
Vishkar, colocando-se de pé, indagou:
"O que houve?!"
"Andon capturou um dos escravos jovens de Patras que foi no rio pegar água e quer estuprá-lo com os seus soldados! Ele o trouxe para o acampamento!"
Vishkar praguejou e pegou a sua espada, próxima à entrada da tenda, correndo atrás de Gene. Mircela os acompanhou.
Quando alcançou a entrada do acampamento, Vishkar viu Andon flanqueado por seis homens seus, trazendo um rapaz com a túnica de Patras sendo puxado por uma corda em seu pescoço. O escravo estava com um hematoma em seu rosto e na boca e tinha os membros trêmulos. Seus cabelos castanhos estavam despenteados por cascudos que levara. Vishkar o conhecia de vista. Ele era um escravo de cozinha do forte e não um escravo de prazer. Era ainda mais jovem do que Mircela.
"Soltem-no!" — declarou Vishkar, empunhando a sua espada.
Os soldados que riam, alisando o rosto do rapaz e mexendo em seus cabelos, detiveram-se perante a ordem da imperatriz herdeira, mas Andon não se intimidou.
"Alteza!" — disse ele de um modo um tanto debochado — "Veja o animal patrano que caçamos. Ele não é lá essas coisas, mas para montar pelo menos serve depois de você ter roubado a minha escrava..."
O homem fitou Mircela, que engoliu em seco e deu um passo para trás.
"Eu mandei soltá-lo! Ele é um escravo de Patras e não estupramos neste acampamento..." — vociferou a jovem, aumentando o seu tom.
Andon fitou a espada de Vishkar. Alguns outros soldados do acampamento haviam se aproximado, ouvindo a gritaria.
"Acho que não é você quem dá as ordens por aqui, Alteza! Aqui, você é uma soldada subalterna sob o meu comando..."
"Não, aqui é o meu reino também. Solte-o!" — repetiu Vishkar.
Girando os olhos nas órbitas, Andon fez um movimento para que o seu soldado ignorasse a imperatriz herdeira e arrastasse o escravo para dentro da tenda. Com olhos hesitantes no início, mas com um riso de escárnio a seguir, o soldado repuxou a corda do escravo, empurrando-o adiante com um chute.
Foi um movimento bastante rápido. Vishkar enfiou a espada no coração do homem e retirou a lâmina de seu peito, pingando sangue sobre o solo árido. Os outros homens de Andon deram um passo para trás e o próprio comandante pareceu hesitar. Por fim, ele disse com o seu olhar fixo nas retinas bicolores da jovem:
"Vossa Alteza acabou de matar um soldado de Vask por preteri-lo a um escravo de Patras... Não posso puni-la por causa de sua posição, mas amanhã, depois do combate, será mandada embora do acampamento para a fronteira de Acquitart, Vishkar de Vask."
Um burburinho se fez entre os homens até que eles ergueram as suas vozes em claro protesto. Vishkar, no entanto, mantinha-se impassível, empunhando a sua espada, encarando Andon.
"...Não ouviu o que eu disse?"
"Ouvi. E não tenho mais nada a perder. Se não soltar o escravo, matarei outro soldado seu. E outro. E outro. Não restará nenhum de seus homens aqui. Somente você. A não ser que queira me enfrentar também e tombar..."
Andon estudou os movimentos da jovem, observando a sua lâmina e o seu rosto resoluto. No fim, ele fez um gesto para que o seu soldado soltasse a corda do escravo e caminhou com passos calmos até o rapaz.
"A imperatriz Betthany saberá de sua conduta, Alteza. Ela havia me dito que você era difícil, mas não imaginei que seria algo que merecesse muito a nossa atenção. A senhorita parece se doer muito pelos patranos, não?"
Andon se adiantou por trás do escravo com um movimento resoluto e, num átimo, girou o queixo do patrano em direção ao ombro, quebrando o seu pescoço. Houve somente um momento em que o rapaz olhou para Vishkar e, com os olhos vítreos, caiu de joelhos, tombando morto. O ruído da morte era um estrépito que arrepiou o pelo da nuca de todos os presentes.
Vishkar, perplexa, tonta, avançou para Andon, mas um de seus soldados a interceptou com a espada e outros três a cercaram. A jovem se pôs a lutar até que Andon apontou uma adaga para Mircela, após puxá-la para perto, fechando a mão em seus cabelos.
"Tentei ser compassivo com você, Vishkar, mas não vale a pena. Está presa, Alteza. E se resistir, terei que matar outro escravo ou alguns de seus homens..."
Os vaskianos do acampamento protestaram e uma briga dos homens de Andon se fez com os homens que serviam à comandante Somalia. Quando um soldado apontou a espada para Gene, Vishkar cedeu, após xingar um palavrão. O seu olho amarelo e o olho cinzento faiscavam.
"Certo! Não reajam! Eu me rendo..."
Vishkar foi empurrada com mãos rudes pelos homens de Andon e, no caminho, ela viu o soldado Nabsib. Os seus olhos escuros se demoraram nos seus e ele fez um movimento de cabeça sutil, tocando levemente o cabo de sua espada.
A imperatriz herdeira foi amarrada em uma tenda que servia de depósito para armas quebradas, lanças, escudos oxidados e dardos partidos. Os seus pés foram imobilizados com cordas bem amarradas, assim como os seus pulsos finos. A sua boca foi silenciada com uma mordaça suja e ela foi esquecida lá durante toda a noite e também durante toda a manhã.
De tarde, um soldado de Andon lhe trouxe água e a jovem imaginou que os homens dele deviam estar vigiando-a dia e noite para que nenhum dos soldados de Somalia ou escravo se aproximasse dela. Vishkar sabia que o ataque ao forte aconteceria naquela noite. Torgeir estava avisado. Torgeir o deteria.
Vishkar não sabia, no entanto, como a morte do escravo podia afetar o equilíbrio da fronteira. Ela torcia para que os homens patranos abatessem Andon e seus capangas com crueldade e barbárie.
Durante a noite, houve movimentação entre as tendas: o ruído de metal; passos; caixas sendo abertas com chutes; cavalos resfolegando. Ouviu-se a voz de soldados em um momento e, com ojeriza, Vishkar escutou a voz de Andon. A noite estava estranhamente silenciosa, sem o choro dos coiotes e o ruído dos grilos e gafanhotos.
Vishkar se mantinha no escuro e ninguém foi a ver. Seus pulsos estavam feridos e cortados pelos movimentos bruscos que ela fez sob a corda, tentando se libertar. Somente quando a imperatriz herdeira ouviu gritos distantes na planície, a cortina da tenda se abriu e alguém se apresentou. Tratava-se de Mircela, Gene e Nabsib.
O soldado de Andon desembainhou a sua adaga e cortou as cordas dos pulsos e tornozelos de Vishkar. A jovem cuspiu a mordaça e tossiu durante alguns segundos. Mircela a passou um odre com água.
"Alteza, perdão, só conseguimos chegar aqui agora! A sua cabana estava sendo vigiada durante todo o dia."
Vishkar fitou o rosto de Nabsib com desconfiança. Ele era um rapaz jovem e, segundo ouvira, um dos guarda-costas de Andon com exímia habilidade militar. Era uma surpresa ele se encontrar lá. Percebendo o olhar questionador da imperatriz herdeira, Nabsib baixou o seu rosto com deferência.
"Alteza, estou aqui para servi-la. Fui designado pela imperatriz para servir Andon, mas não concordo com os seus métodos. Ele traiu o império, indo contra Vossa Alteza..."
Mircela, assentindo com os seus olhos claros, concordou:
"Nabsib é um bom homem, Alteza. Foi ele que nos disse que estava aqui..."
Ouviu-se um outro grito distante.
"O que está havendo?" — indagou Vishkar.
"Andon vai tentar tomar o forte de Patras hoje."
Vishkar retrucou:
"Preciso da minha espada..."
Gene se antecipou, entregando o artefato de metal para a imperatriz herdeira, desembrulhando-o de um tecido de lã crua.
"Consegui roubá-la da tenda de Andon quando o confronto começou..."
Nabsib tinha uma expressão dura quando falou:
"Se Andon vencer, ele declarará vitória sobre Patras e tomará o forte deles, sendo nomeado senhor dele. Você será mandada de volta para Skarva e será julgada como uma traidora do império, Alteza. Eles vão arrancar a cabeça do príncipe Torgeir e a mandarão para Bazal como uma afronta ao seu pai. A guerra se tornará o pior do que vimos até então com Vere mandando seus próprios soldados nos atacar. Vere está unida a Patras e cessou o fornecimento de alimentos para nós. É por isso que a imperatriz está tão desesperada para vencer. Mas essa atitude não tornará as coisas melhores..."
"Pode ser que Patras acabe com Andon. Torgeir é forte e não perderia para aquele puto desgraçado." — respondeu Vishkar.
Nabsib insistiu.
"Se Torgeir vencer, Betthany acusará o príncipe de Patras de abater alguém do império e isso acabará com qualquer tentativa de paz. Mesmo que Torgeir se ajoelhasse pedindo perdão, toda a sua linhagem seria caçada e culpada pela morte de um dos seres ligados aos deuses de Vask. Betthany tentaria forçar uma proximidade com Akielos, após isso, pedindo compaixão aos akielons e o rei Theomedes, sabendo que sua arqui-inimiga Vere está de conluio com Patras, talvez tomasse partido na guerra..."
"Andon é só o amante da minha mãe. Ele não é da realeza!" — retrucou Vishkar — "Não é grande coisa ele morrer..."
Nabsib fechou os olhos como se tomasse coragem para dizer:
"Não, ele não é grande coisa. Mas Vossa Alteza é."
Vishkar sentiu as suas entranhas afundarem até o chão e a verdade indizível que morava em seu coração há algum tempo, adentrou a tenda também implacável e terrível. Nabsib prosseguiu:
"...Vossa Alteza é uma mulher inteligente. Sabe por que foi enviada para cá..."
A voz da imperatriz herdeira saiu seca, como se tudo que ela guardasse dentro de si houvesse fossilizado naqueles anos.
"Minha mãe queria que eu tentasse matar Torgeir porque isso enfraqueceria o rei de Patras. Mas se isso não desse certo, Torgeir poderia me matar e Betthany poderia dizer ao mundo que uma filha do império foi abatida, tentando conquistar aliados para a sua campanha. Ela tem outras filhas para manter a sua linhagem imperial. Eu não faria falta..."
Um silêncio se fez na tenda e Gene parecia perplexo. Nabsib prosseguiu:
"A sua mãe a mandou como um presente para ser abatido por Torgeir. Ela escreveu para ele, desafiando-o a enfrentá-la quando tinha catorze anos, Alteza. Ouvimos boatos em Skarva. Muitos se rebelaram contra ela. Ninguém manda um filho tão jovem para a guerra. Quem entrega um filho assim ao inimigo...? Uma criança do império, dos deuses!"
Vishkar se recordou de Torgeir há anos atrás, sabendo de sua chegada no acampamento. A sua proximidade. O modo como ele se colocou contra o pai que queria também sangue e barbárie sendo derramados no solo sequioso das fronteiras. Se ele tivesse a intenção de agir de um modo desleal, teria agido assim há muito tempo.
"Ela escreveu para Torgeir... Como sabe que eu seria morta hoje se Andon perdesse a guerra, Nabsib?" — indagou a vaskiana, com uma voz trêmula.
"Porque eu fui o homem designado para assassiná-la, Alteza. Sob as ordens da imperatriz. Por isso não estou no combate. Diríamos que Torgeir mandou um de seus soldados aqui e a assassinou. Fui orientado a usar um machado em sua cabeça para dar mais verossimilhança. Outros soldados de Andon seguirão o plano se eu falhar ou deserdar."
"E por que está se rebelando?"— indagou Vishkar com um fio de voz. O horror a aturdia.
"Porque eu jurei servir ao império e Vossa Alteza é o império que acredito! Vi como trata o seu povo!"
Mircela tocou, então, no pulso marcado de Vishkar, sentindo a sua tensão.
"Alteza, sabe o que precisa fazer..."
Aquelas eram as palavras proferidas por Somalia, por Torgeir e agora por aquela jovem que fora, inúmeras vezes, montada por Andon que lhe batia por diversão e fazia parte de um complô. Vishkar brandiu a sua espada e pediu a ajuda de Gene e Mircela para vestir a sua armadura.
Chegara a hora.
Depois de ser preparada, Vishkar correu até a entrada do forte.
A luta ali havia sido feroz. Os patranos haviam usado flechas para acertar alguns dos soldados de cima de suas ameias, mas Andon mandara os seus homens utilizarem cordas para tentarem escalar as pedras maciças do forte.
Alguns patranos partiram para o campo, montados em seus cavalos e portando lanças. O aviso de Vishkar ajudara os patranos a não serem pegos desprevenidos e eles travavam a luta com os vaskianos, brandindo machados e escudos.
Gene tocou a trompa quando Vishkar chegou munida de sua espada. Os soldados se voltaram para olhá-la e Andon, que enfiava a sua lança friamente em um soldado, praguejou.
"Afastem-se, patranos! Essa luta é do império de Vask!"
Andon, sacudindo o sangue de sua lâmina, retrucou:
"A sua traição será lembrada como uma ferida em Vask, Vishkar!"
"A sua traição não será lembrada, Andon. Você não é ninguém. É só um puto barato que come a minha mãe."
Torgeir, que lutava com um vaskiano do exército de Andon, enfiou o seu machado no homem quando ele tentou se aproveitar da sua distração.
"Vai se arrepender dessas palavras, menina! Vai morrer diante de seus homens. Quem a ajudou será enforcado. Patras e a sua empáfia, Vishkar, cairão como já deveriam ter caído há muito tempo."
Quando as espadas dos dois se entrechocaram, houve o ruído frio de metal e os pés dos dois tentando conquistar território sobre a terra. Ele era bom no manejo da arma e deve ter matado muitos homens com os seus golpes capazes e firmes. Ele examinava a sua inimiga com os olhos faiscantes, procurando antever a movimentação de seus músculos e tendões a fim de saber de onde o golpe viria.
A sua lâmina mergulhava com habilidade, encostando em pontos metálicos da armadura, a fim de deslizar o seu caminho até as partes nuas. Mas Vishkar estava no acampamento há muitos anos.
Ela já estivera perto da morte muitas vezes, trajando o seu manto escuro ou sendo alvejada por sua foice. Ela já lutara contra quase todos aqueles homens e os mercenários. Ela treinava com Torgeir, que manuseava o seu machado como se fosse agulha e linha num movimento rápido de mãos. Andon morreria.
Quando ele tentou enfiar a lâmina em sua garganta, Vishkar chutou a areia seca da fronteira que também era sua amiga e na qual germinara. A terra se elevou, anuviando a vista de Andon, que levou a mão ao rosto. A poeira soprada de Vask o cegou.
Arquejante, após a longa luta, Vishkar enfiou a espada na traqueia de Andon, fazendo com que sangue esguichasse em seu peitoral. Os olhos cor de mel e vítreos do homem se detiveram em seu rosto sorridente, antes de desfalecer, convulsionando.
Depois, Vishkar avançou para ele, cruzando os dedos no cabo de sua espada para atingi-lo mortalmente, antes de erguer a lâmina no ar. Ao seu fundo, ela ouvia os gritos felizes dos soldados vaskianos e patranos.
Torgeir voltara a brandir o seu machado, alvejando os soldados de Andon. E, dessa vez, os soldados vaskianos, que haviam servido Somalia e agora serviriam Vishkar, se puseram a lutar contra os seus.
Vishkar enterrou a espada o mais fundo que pode, enterrando algo dentro de si mesma também muito fundo. Havia um luto também em si. Ela enterrava Betthany e parte do seu império. A sua imagem. O seu conceito. A sua figura caminhando pelas lajotas do palácio de Skarva, reluzente e alquebrada.
A mãe que não ama as filhas e o feminino que não ama as mulheres.
O passado. Os antepassados. Os mortos.
O mercenário que a tentou estuprar no pé da montanha e apodrecia há anos sob a terra, insignificante e sem honra. O olhar de Betthany. A ausência dele. O seu desprezo.
Morto.
No fim, era tudo sobre se executar os mortos. Mas a imperatriz herdeira só entenderia isso muitos anos depois.
Ao fim, quando os soldados de Andon foram abatidos e alguns poucos se renderam, a imperatriz herdeira caminhou pelos vaskianos e patranos, dizendo:
"Me declaro comandante do acampamento de Ver-Vassel pelo poder concedido pelos deuses e pelo império! O combate com Patras está encerrado! Enviaremos um pedaço de Andon como um aviso para Betthany. Creio que a minha mãe gostará de uma lembrança do seu puto favorito."
Do outro lado das fileiras de homens, Vishkar viu Torgeir com sangue até os cotovelos, unir as palmas de suas mãos no cumprimento característico de Vask.
Anos depois, Vishkar e Torgeir se perguntariam como Betthany teria reagido em Skarva com o recebimento do pau de Andon dentro de uma caixa. Em um bilhete, estava escrito com a letra de Vishkar:
'Você tem os seus homens entre as suas pernas. E eu os tenho sob a minha espada. Fique longe da minha fronteira, sua vadia.'
(cut)
Após a morte de Andon, houve a ruptura da imperatriz herdeira com o império de Vask e houve homens que foram enviados para o acampamento, em nome de Betthany, para dominarem a região sul de Ver-Vassel.
Então, em nome de Vishkar, os homens das tendas e os homens do forte foram abatendo os visitantes um por um.
Tonfas, espadas e machados eram brandidos com o intuito de se manter a estranha paz instaurada naquele pedaço de chão que separava duas nações e, simultaneamente, as unia.
Nesse cenário, os soldados enviados de Skarva ruíam, subtraindo os apoiadores da imperatriz. Ou, então, se rendiam, aumentando os seguidores de Vishkar.
Por meio dos homens enviados, foi sabido que o novo capitão da Guarda Imperial de Skarva se tratava do irmão mais velho de Andon e que a única coisa que o impedia de marchar até a fronteira para cortar a cabeça de Vishkar, se devia ao seu compromisso de servir à imperatriz como chefe no exército e como concubino na cama, assim como Andon o fizera.
"Puto morto, puto posto..." — ironizou Vishkar, erguendo as sobrancelhas, após ouvir o relato de um dos soldados rendidos junto a Nabsib.
Diante de um dos últimos exércitos que abatera, Vishkar, com os cabelos ainda curtos como os de um cavalariço e úmidos pela chuva, ajoelhara-se diante de um dos arautos, colocando a mão em seu ombro num gesto quase apaziguador.
"O senhor se rende?"
O homem, fitando a imperatriz herdeira e movendo os seus olhos até a figura compacta e reluzente dos soldados atrás dela, aquiesceu.
"...Ótimo!"
O arauto aceitou o odre com água que uma soldada lhe ofereceu.
"Skarva está rachada, Majestade. Alguns homens seguem com Betthany, mas outros desconfiam de suas intenções de ter enviado a filha herdeira com catorze anos para a fronteira anos atrás e com o seu desespero em conseguir uma aliança. Muitos em Skarva estão passando fome e a insatisfação é grande entre o povo. No entanto, Majestade, o seu conluio com Patras não melhora a sua imagem..."
Vishkar se manteve com o cotovelo apoiado em seu joelho, observando o rosto enrugado do homem.
"Eu não tenho conluio algum com Patras. Tenho uma relação com os homens do forte e com o príncipe Torgeir. Isso não mudará. O que as minhas irmãs pensam da situação do império?"
"A princesa Hannah é muito criança para entender o que se passa, mas a princesa Amaranta segue apoiando a senhorita, principalmente com as pressões que Betthany vem colocando no pequeno Fausto, querendo que ele a suceda."
"O império é governado por mulheres desde os tempos mais remotos. Minha mãe está louca. Amaranta deveria subir ao trono se eu não o fizesse. Mas entendo que a imperatriz possuiu sempre uma predileção nada saudável pelos homens..." — retrucou Vishkar, pestanejando os seus olhos bicolores.
"O relacionamento da princesa Amaranta com a sua mãe não é o dos melhores, Majestade. Tudo se tornou pior desde que os gêmeos morreram. Sua irmã culpa Betthany por retirá-los do palácio..."
Vishkar arregalou os seus olhos e piscou com algum nervosismo.
"Os gêmeos morreram?! O que houve com eles?!"
O arauto pigarreou com algum pesar.
"Quando eles foram levados ao norte de Ver-Vassel, a carruagem em que estavam foi saqueada por ladrões oportunistas. Certamente, não sabiam que se tratava de duas crianças do império. Os dois foram abatidos. Uma perda lastimável! Eu sinto muito, Majestade..."
Vishkar se recordava dos dois meninos como duas figuras de extrema beleza em que o beijo do céu e da terra era evidente. Eles tinham a pele morena, os cabelos escuros e o olhar claro. As duas crianças andavam sempre juntas e tinham a voz melodiosa, que todos diziam que poderia cantar os feitos de Vask um dia.
Levando a mão ao rosto, Vishkar sentiu que a notícia da morte dos irmãos a afetava terrivelmente. Com essa informação, a jovem encerrou o interrogatório do arauto naquele dia.
Meses depois, após mais algumas tentativas frustradas, Betthany parou, finalmente, de enviar homens para dominar o sul de Ver-Vassel e foi sabido que ela se esforçava para esconder das outras nações a guerra civil que se desdobrava em suas terras. Um império rachado suscitava desconfiança em qualquer nação que quisesse oferecer uma aliança. Mãe e filha se estranhavam e lutavam. Isso era uma perna quebrada de Vask.
Então, Vishkar e seus homens seguiram esquecidos por algum tempo com combates praticamente abandonados com os soldados do forte de Patras, até que, semanas depois, o início do fim começou.
Chovia forte quando três mensageiros de Patras chegaram pelas colinas, adentrando o forte patrano em cavalos ágeis e encharcados durante a primeira hora do dia. Houve uma movimentação nervosa nas ameias do forte de homens envoltos em capas escuras.
Durante a madrugada, foi Gene que trouxe a informação para a imperatriz herdeira, que dormia em sua cama de palha, tendo um pouco mais afastada, em uma cama montada, Mircela adormecida.
"Majestade, Patras está levantando acampamento! Os homens de Torgeir estão partindo..." — desembuchou Gene, ofegando devido à corrida que travara do forte até a tenda.
Vishkar se levantou da cama, vestindo a sua túnica e, sentindo contra as costas nuas a friagem do alvorecer. Não demorou muito para que as notícias trazidas pelos mensageiros patranos alcançassem também Vask.
Um dos batedores do acampamento chegou, escoltando um mensageiro de Ver-Tan, que vinha com um ferimento na cabeça e a fala nervosa. Ele tinha olhos assustados e trazia o selo de Ver-Tan em uma carta escrita por Somalia.
O homem hesitou, antes de dizer com os olhos vermelhos de morte:
"Somalia de Ver-Tan está morta, Majestade! O exército patrano, apoiado pelos mercenários contratados pelo rei de Patras, a assassinou junto com os seus soldados. Foi um massacre. A comandante lutou bravamente, mas eram muitos homens. Consegui escapar para lhe trazer a sua última mensagem, mas remanchei o suficiente para ver à distância o estrago que se deu. Não sobrou nada do acampamento, Majestade. Perdemos Ver-Tan..."
Com mãos trêmulas, Vishkar abriu o papel úmido, amassado nas pontas e com marcas de dedos redigido por Somalia semanas atrás. A sua caligrafia estava apressada e algumas palavras pareciam incompreensíveis.
Vishkar constatou que a sua prima escrevera a mensagem quando, muito possivelmente, o ataque já havia começado no acampamento.
Querida Vishkar,
As negociações aqui falharam. Durante algum tempo, no entanto, conseguimos replicar o modelo de Ver-Vassel.
Nós estávamos vivendo à base de batatas e vinho devido ao racionamento do império, mas os patranos nos ajudaram, dividindo conosco a sua comida. Eles seguiram as ordens de Torgeir.
Todavia, houve um desequilíbrio premeditado.
Costumávamos compartilhar alimentos, cobertores e água quando ela se tornava escassa e, no mês passado, cedemos um de nossos poços para os soldados patranos, visto que a água deles se tornou insalubre por alguma razão desconhecida.
Os primeiros a sentirem os efeitos foram os cavalos, que tonteavam e cuspiam sangue no feno até convulsionarem.
Depois, os cachorros, que andavam trôpegos e morriam do nada com a boca cheia de saliva e sangue. Os soldados patranos morreram logo a seguir. Vimos eles vomitarem sangue, após reclamarem de uma secura em que não paravam de pedir por mais água. Eles suavam e sentiam o coração palpitar acelerado e a respiração lhes faltar. Havia tremores e febre. Delírio mental. Não há dúvida de que a água do nosso poço foi envenenada.
Os homens de Patras se sentiram traídos ao descobrirem sobre a água com veneno e me culparam pelo poço adulterado. Eles querem retaliação. O rei mandou os mercenários virem ajudá-los. Vere também está aqui.
Receio que o nosso acampamento não resistirá, Vishkar, e eles conseguirão invadir Vask. Não se preocupe em me vingar. Vá para Skarva reencontrar os seus apoiadores, antes que a capital seja tomada.
Ontem, enviei Sorem para Skarva e designei Ishmael para escoltá-lo. Os dois a amam e ficarão ao seu lado no momento em que precisar enfrentar Betthany. Cuidem um dos outros. Sejam amigos sempre. Sejam como irmãos.
Diga aos homens que fui eu que a traí e envenenei o poço, Vishkar. Se desvincule de mim. Não me importo com o meu nome. Nunca me importei. Não podemos nos indispor com Torgeir e seus homens. Alguém quer destruir o que construímos em Ver-Vassel e não podemos deixar que isso aconteça. Há uma esperança de paz e espero ter podido ensinar isso a você, leoparda de Vask, e à águia de Patras.
Você é a filha que nunca tive. Seria uma honra servir à Vossa Majestade imperial se em outra vida pudéssemos voltar juntas para casa e celebrar a paz, contemplando o nascer de um novo dia. Viva por mim, Vishkar.
Vida longa ao império!
A carta não estava assinada, mas era inconfundivelmente a letra de Somalia e as suas palavras. Vihskar sentiu o choro em sua garganta estrangulado e os seus olhos arderam como se estivessem cheios de areia.
Gene, Mircela, Nabsib e os outros homens esperavam por seu comando e não por sua dor. Com a voz trêmula, a imperatriz declarou:
"Ver-Tan caiu! As negociações falharam. Patras está em Vask. Os homens da fronteira leste devem retardar os mercenários por um tempo, mas precisamos partir imediatamente. Se a capital for tomada, não haverá mais volta."
Houve uma correria de homens levantando acampamento e dobrando cobertores e barracas. Roupas foram enroladas de qualquer jeito e dispostas em trouxas.
Gene se pôs a encilhar os cavalos, sendo ajudado por Mircela, que vinha lhe auxiliando a cuidar dos animais há algum tempo. Houve o ruído de metal sendo empunhado e as labaredas das fogueiras sendo apagadas. Houve escravos fechando em baús os alimentos dos quais ainda dispunham. Houve carroças, sendo atreladas à montaria.
Vishkar viu alguns homens partirem do forte de Patras em grupos, seguidos por carroças puxadas por bois e cavalos. Havia um desespero aparente também entre os patranos e Vishkar esperou que Torgeir a procurasse em meio àquela confusão.
Ele sabia do que acontecera? Ele deixava o seu posto e partiria para Bazal? Para Ver-Tan? Certamente, Torgeir sabia que Vask também estava abandonando a fronteira.
O que significava um terreno em que a paz se sustentara e outro, no qual as barreiras tombaram? Como aquilo era sentido pelo príncipe herdeiro da nação que, agora, estava em vantagem na guerra?
Nabsib foi quem informou a Vishkar, horas depois, que Torgeir partira, sendo flanqueado por seus homens. Erguendo os seus olhos bicolores e sentindo um confranger estranho em seu peito, a jovem indagou:
"Torgeir deixou alguma mensagem para mim?"
"Não, Majestade."
Vishkar assentiu, sentindo uma dor que se empilhava no peito junto à morte de Somalia feito um corpo pesado, mas nada disse.
Quando partiram, a vaskiana, montada em seu cavalo, voltou-se para ver a fronteira que fora o seu lar durante aqueles oito anos.
Ela observou os contornos das colinas, as gotas de chuva em poças abertas no solo, que, no verão, era seco. As árvores da floresta e o riacho no qual ela tentara matar Torgeir pela primeira vez. A orla sobre a qual eles conversavam e o príncipe de Patras costurava os bonecos para o bom nascimento dos seus filhos. A planície em que ela e Somalia praticavam com a tonfa. As ruínas da casinha em que Mircela, recentemente, vinha lhe ensinando acrobacias circenses com os seus membros longos e delicados feito os de um cisne.
Vishkar fitou o horizonte cinzento e o forte de Patras que se distanciava. Ela ainda tinha em si a estridulação dos grilos, os gafanhotos e o choro dos coiotes como se fizessem parte dos seus ossos.
Ali, germinara a própria vida de Vishkar. E o novo império.
A viagem de volta para Skarva foi longa e, conforme seguiam mais para o norte, o frio se tornava mais pungente. Os vaskianos vestiram as suas mantas de pele e Mircela e Gene colocavam cobertores grossos sobre os lombos dos cavalos durante a noite enquanto os animais resfolegavam a fumaça densa do ar gelado.
No caminho, a comitiva de Vishkar soube pelos camponeses que possuíam conhecidos em Lys e Varenne que a rainha Hennike de Vere falecera e que um burburinho se formava de uma possibilidade de confronto entre Vere e Akielos por causa de Delfeur. Havia o príncipe herdeiro Auguste que estava com quase vinte e cinco anos. Ele, talvez, pudesse estender uma mão para Vask se Kempt ainda seguisse apoiando os veretianos.
Quando o séquito serpenteava as sombras discretas das montanhas, Vishkar enviou uma carta à tropa nacional de Vask endereçada à nova comandante designada, cujo nome ela soubera graças a um dos arautos rendidos de Betthany.
Após algumas semanas, o mensageiro retornou, cavalgando com pressa em sua montaria até alcançar a carruagem na qual Vishkar viajava consultando o mapa de sua nação. Nevava e o cavalo castanho sacudiu a sua cabeça, jogando os flocos de sua crina sobre o ar.
O mensageiro havia trazido a resposta da comandante nacional da tropa de Vask e, após ler o conteúdo da carta, a imperatriz beijou o papel, sorrindo.
Mircela espreitou a sua mestra com nítido ciúme quando soube que se tratava de uma correspondência enviada por Judy, namorada de adolescência da imperatriz herdeira.
"O que ela diz?" — indagou a escrava com olhos magoados.
"Judy nos apoiará na entrada em Skarva e na tomada do palácio. Não esperava nada diferente dela. Judy odiava a minha mãe e Betthany nos deve uma foda."
Mircela, que observava atentamente Vishkar e conhecia as histórias sobre Judy, disse:
"Judy pode odiar a imperatriz Betthany com certeza, mas não é esse sentimento que a move."
Vishkar permaneceu um tempo pensativa. Depois, indagou, dobrando a carta:
"Você conheceu o irmão de Andon?"
Mircela aquiesceu com olhos sombrios.
"Sim, de vista. Antony é feito do mesmo estrume que forjou Andon. Ele gosta de abusar dos escravos, mas tem um exército armado e luta bem. Teremos problemas se o enfrentarmos..."
Vishkar sorriu e observou Mircela dos pés à cabeça, dizendo após alguns segundos:
"Creio que precisarei de uma de suas roupas de seda de escrava, Mircela, uma peruca e tinta escura. Aliás, nunca a perguntei isso diretamente, mas creio que este seja o momento mais oportuno. O quanto está disposta a arriscar pelo império?"
"Por você, tudo, Vossa Majestade Imperial."
Vishkar estendeu a sua mão e tocou o cabelo ruivo e muito comprido da sua escrava.
"Está disposta a abrir mão disso aqui também?"
A jovem aquiesceu com o seu rosto belo.
"Cabelos crescem de novo, Majestade. Se o que a separa do trono é este cabelo, você terá Vask antes do fim do inverno e eu serei fiel aos deuses por toda a eternidade."
(cut)
Vishkar beijou com lábios sorridentes a boca de Mircela, antes que Nabsib as levasse até o salão de Skarva. Havia um rubor nas bochechas da escrava, quando Vishkar deslizou o dedo por sua face, dizendo:
"Mantenha o olhar baixo. Creio que a cor dos meus olhos seja o único ponto perigoso desse plano. Faça Antony acreditar que conseguiu me quebrar. O puto vai gostar disso."
Nabsib cumpriu a sua parte no arranjo, prendendo os pulsos delicados de Mircela atrás das suas costas com cordas enquanto Vishkar caminhava ao seu lado.
Antony os esperava no Salão Principal em que, anos atrás, Vishkar fora apresentada ao rei Theomedes. Os leopardos de Vask se mantinham acorrentados ao trono e bem mais velhos. Estavam magros e com as costelas à mostra, assim como a maioria dos guardas, dos concubinos e da população vaskiana. Havia insenso de estoraque e de maracujá sendo queimado no recinto, que, possivelmente, era utilizado para acalmar os grandes felinos que, com as suas peles flácidas, passavam fome.
Nas estradas, foram vistos muitos prostitutos, comerciantes maltrapilhos e até mesmo crianças viciadas em narguilé e na erva que era misturada ao tabaco. Diziam que o entorpecimento ajudava os vaskianos a se esquecerem dos estômagos vazios e do frio. Vask estava morrendo.
Nabsib se abaixou com um joelho apoiado no chão de tapeçaria enquanto Vishkar se curvou com os dois braços esticados no piso em uma deferência dos escravos.
"Trouxemos a imperatriz herdeira para ser julgada pelo império, comandante. Ela tentou entrar escondida em Skarva, senhor, mas a Guarda Nacional a rendeu..."
Antony tinha os tons claros semelhantes aos do irmão, mas o seu rosto era mais quadrado e o seu maxilar contraiu um músculo.
Mircela se mantinha de pé com as suas mantas de viagem. Os cabelos haviam sido cortados até a altura do queixo e escurecidos com henna e kohl para parecerem pretos mesmo sob a luz dos candeeiros. A jovem se mantinha de cabeça baixa e discreta, seguindo as instruções de Vishkar.
Nabsib, estrecortando o silêncio, declarou:
"...Ela tem se mantido muito quieta, após a morte de Somalia de Ver-Tan. Está de luto e parece ter se entregado a uma tristeza profunda..."
Antony se levantou da cadeira de espaldar alto em que se sentava e caminhou em direção aos visitantes.
"Nabsib, você serviu ao meu irmão e retorna mais de um ano depois ao palácio. Assim como essa escrava dele... Você traiu Andon?"
Antony deslizou o seu olhar frio até Vishkar, que se mantinha com a peruca ruiva feita com os cabelos cortados de Mircela. As suas vestes eram reveladoras com seda rosa deslizando por seu corpo e expondo braços nus e pernas muito brancas a despeito da friagem e da neve que caía em Skarva. Os hematomas de guerra não precisaram ser camuflados porque Mircela os tinha também devido às surras de Andon.
Nabsib se explicou:
"Fui feito prisioneiro, após a morte de Andon, senhor. Mas mal podia esperar para retornar ao império. Eu trouxe Vishkar de Skarva por retaliação ao que ela fez a Andon e a mim. A escrava vem a servindo de boa vontade. Pensei que a quisesse já que ela pertenceu ao seu irmão..."
O homem se deteve, fitando com alguma curiosidade Vishkar sob as roupas de escrava. Ela tinha o cuidado de manter o seu rosto discreto por trás da cortina de fios ruivos. Os seus olhos podiam entregá-la mortalmente.
Antony se adiantou, então, até Mircela vestida como a imperatriz herdeira.
"Ouvi dizer que você era pequena, mas não pensei que tanto. Achei que você fosse algo especial por ter matado o meu irmão, mas você é só uma mulher querendo se passar por um homem. Não tem talento para ser uma soldada, muito menos uma imperatriz. A sua mãe já me deu a permissão meses atrás. Vamos acabar logo com isso..."
Antony sacou a sua espada da bainha e Vishkar tocou, com ansiedade, o braço de Nabsib. Mircela se manteve com o rosto baixo, engolindo em seco diante da lâmina. Nabsib interveio, então, com a voz empostada:
"Comandante, a imperatriz herdeira perdeu o gosto pela vida e será fácil abatê-la. Mas se ela morrer aqui, o seu destino se manterá desconhecido. Apesar de ser uma traidora, ela tem o sangue do império e muitos homens e mulheres a seguem. É necessário chamar um sacerdote para desfazer o seu vínculo com o império, seguindo os preceitos dos antigos e a executar em demonstração pública, erguendo a sua cabeça nas muralhas. Matar uma mulher do império na obscuridade, sem acalmar os deuses e o povo, pode trazer desgraça para o nosso reino..."
Antony sacudiu a cabeça com desdém.
"Não sou um homem supersticioso, Nabsib..."
"O senhor não, mas muitos vaskianos o são. Eu mesmo pedi perdão aos deuses quando tive que arrastar Vishkar até aqui..."
Antony pareceu refletir por um segundo e Vishkar tinha o corpo enrijecido, assim como Mircela. Por fim, o homem fez um gesto para um de seus soldados, dizendo:
"Prendam-na na torre norte. Ninguém deve encostar nela porque não quero que os deuses nos punam ou que os sacerdotes nos amaldiçoem. Mas vigiem-na e não deixem ninguém se aproximar do calabouço!"
Um homem fechou a mão ao redor do braço delgado de Mircela e a saiu levando, parecendo um pouco incerto se cairia morto ali ou não pela afronta ao império e aos deuses. Depois, Antony tocou no cabelo ruivo de Vishkar, afastando-o do seu ombro estreito. A jovem se manteve com a sua cabeça baixa.
"Você traiu o meu irmão, sua vagabunda. Tudo para dormir com uma mulher condenada do império. Tudo por uma boceta. Vou ensinar você a gostar de homens novamente, sua puta. Vocês, mulheres, nunca são confiáveis." — e, se dirigindo para um outro guarda, declarou — "Leve-a para o meu quarto."
Por fim, Antony parou diante de Nabsib que sustentava a sua postura deferente.
"Você fez bem em trazê-las, Nabsib. Mas vai ficar sob vigilância dos meus homens até eu ter certeza de que lado você está. Dispensado."
Após uma mesura solene, o soldado vaskiano se retirou do Salão Principal, murmurando entre dentes, muito baixo:
"Movitɔ!" (Idiota!)
Chegando aos aposentos do chefe da Guarda Imperial, Vishkar constatou com algum desprezo que Antony ocupava o lugar que um dia fora o seu quarto. Havia a lareira acesa consumindo com estrépito a lenha recém-cortada em meio ao fogo. Havia os lençóis limpos um tanto desarrumados sobre a cama de dosséis com madeira entalhada. Havia a tapeçaria de sois e luas se tocando e de leopardos em meio às florestas.
Havia narguilé e vinho sobre a mesa de tampo escuro e um lampião que iluminava parcialmente o quarto.
Vishkar achou que Antony se demoraria muito e que a esqueceria ali até ser tomado pelo ímpeto de foder como se o ato fosse uma necessidade fisiológica semelhante a urinar ou beber água. Mas ele não se demorou.
O homem chegou ao quarto e a jovem se mantinha ajoelhada e de cabeça baixa, a despeito do frio intenso que fazia. Ele a olhou durante algum tempo, deixando o candelabro aceso que trazia sobre uma cômoda. Aproximando-se da jovem, ele tocou em seu rosto e lhe apertou o seio. Vishkar se forçou a não soltar um gemido de protesto.
"Você é bonita. Entendo o meu irmão ter querido levá-la para a fronteira." — disse Antony, pondo-se a desabotoar a sua túnica — "Estou dormindo com a imperatriz. Tenho poder o suficiente para cortar a sua cabeça junto com a da sua amante amanhã se tentar algo. Se morder o meu pau ou apertá-lo eu, quebro a sua cara com aquele candelabro ali, ouviu bem?"
Vishkar assentiu.
"Ótimo!" — declarou o homem, levantando a jovem pela alça da roupa e a atirando na cama— "O que sabe fazer de diferente que vale a pena deixá-la viva depois de montá-la? Tenho vários escravos sob o meu comando."
Vishkar, com o olhar baixo, murmurou num fio de voz deferente:
"Sei fazer acrobacias..."
O homem, que desabotoava os punhos de sua roupa, retrucou com rispidez:
"Lembro que o meu irmão a comprou de um circo. Acrobacias não me interessam..."
"Posso tentar impressioná-lo, mestre?"
O homem retirou o seu cinto e o atirou num canto com um estrépito de metal e couro. Depois, sentou-se na cama, retrucando:
"Se não me impressionar, vou dá-la para os meus homens depois de fodê-la, garota. Eles vão fazer fila para meter um por um em você. Vou deixá-los montarem você quando estiverem entediados ou baterem nesse seu rostinho quando estiverem aborrecidos, sua vaca. É o que merece por apoiar a mulher que matou o meu irmão."
Vishkar, sob o disfarce de Mircela, assentiu. A peruca com os cabelos ruivos da escrava estava bem presa à sua cabeça e suportaria o truque. A jovem, após fazer um cumprimento circense, se pendurou em uma das sedas que se desprendiam das cortinas, rodopiando perante o homem. Ela ergueu a sua perna esguia, revelando mais de seu corpo.
Houve um estremecimento e a qualidade do ar mudou quando Antony viu a jovem se colocar de ponta cabeça, amarrando-se nos tecidos. Ela sorriu e ele a espreitou quando ela deu uma cambalhota para trás fascinante e rodopiou até ele, enrolada em sedas.
Antony segurou a cintura da jovem, dizendo:
"Ora, ora... O meu irmão sempre teve bom gosto. Uma escrava bem treinada. Você fode tão bem quanto faz piruetas?"
"Melhor..."
"Espero que me diga, depois, sua putinha, como é ter o pau de um homem de verdade na sua vagina após tanto tempo, ao invés de ter os dedos de uma imperatriz escorraçada do próprio palácio."
Vishkar se forçou a sorrir, meneando o seu rosto e, pendurada à cortina ainda, embalou-se para trás, tomando impulso uma vez, duas vezes. Até que, na terceira, pulou sobre o homem sentado. As suas pernas se fecharam em seu pescoço e o derrubaram no chão.
Antony tentou gritar, mas Vishkar pressionou com força o seu pescoço com as pernas, fazendo-o estapear as suas coxas.
"Mulheres não são confiáveis, se lembra, seu imbecil? Eu matei o seu irmão e, agora, vou matá-lo também! Você ascendeu em Skarva, se pondo entre as pernas de uma imperatriz e vai tombar entre as pernas de outra. Qual é a sensação de morrer com uma boceta no meio da sua cara...?"
Vishkar viu Antony sustentar os olhos arregalados e expelir saliva em suas pernas quando o ar lhe faltou e tossiu. Agora, as retinas bicolores da imperatriz eram evidentes, tremeluzindo à luz do fogo. O vaskiano tossiu novamente, sendo sufocado.
"...E a propósito, só pra constar, dedos são incríveis. Mande lembranças minhas para o puto do seu irmão, movitɔ..."
Com um contrair dos músculos, a jovem virou de um modo preciso os seus joelhos e o barulho inconfundível se fez de algo se partindo. Antony desfaleceu com os olhos vítreos e inerte. Morto.
Somalia havia ensinado à Vishkar a tática de quebrar o encaixe do pescoço de alguém daquele modo no segundo ano da imperatriz herdeira na fronteira de Ver-Vassel. Para o caso de um outro mercenário patrano tentar encostar na jovem novamente.
No quarto, enquanto se reerguia do chão, Vishkar ouviu o barulho da trompa ressoando na entrada central do palácio. A jovem correu até a janela, arfando:
"Bem a tempo..."
A Guarda Nacional, comandada por Judy, chegava à Skarva em peso. O capitão da Guarda Real estava morto e seria fácil convencer os outros soldados a se renderem. Vishkar tinha Vask.
(cut)
Ela atirou a peruca com fios vermelhos em um canto quando se apresentou para Ishmael, que abrira os portões para os homens de Judy, tendo sido informado semanas antes da sigilosa invasão por seu mensageiro. Os dois amigos se abraçaram demoradamente.
Após isso, a namorada de adolescência se apresentou diante de Vishkar.
Judy havia se tornado uma mulher alta e forte. Os seus cabelos escuros e cacheados se mantinham até os ombros e os seus grandes olhos castanhos avermelhados estavam contornados de kajal. Ela usava o uniforme com a libré do império.
"Majestade!" — declarou Judy, fazendo uma mesura com um sorriso enviesado — "Estou aqui para servi-la."
"Ahn..." — retrucou Vishkar, sentindo o arrepio familiar em sua medula. Judy estava linda e, subitamente, aquelas tardes em que elas fodiam em seu quarto, após os treinos, retornaram vivazes e saudosas.
Os beijos cálidos. O toque macio.
Ishmael pigarreou.
Foco.
"...Ah, sim... Judy, preciso que liberte Mircela que está presa na torre norte e encontre Nabsib. Eles são leais a mim. Mande também um soldado para que busque os meus homens que se encontram na estrada oeste, próximo às montanhas, esperando pelo meu sinal. Está frio. Leve casacos extras para eles..."
"Certo, Majestade..."
Ishmael disse, então, contraindo as sobrancelhas:
"Vishkar, temos um problema. Os homens que tomaram Ver-Tan estão seguindo para cá pela estrada leste. Não demorará para que eles cheguem em Skarva. São os mercenários do rei de Patras e dizem que os clãs se uniram. Resistiremos, mas é um exército grande e muitos dos nossos estão adoentados, desnutridos e sem armamento. O que faremos?"
Vishkar aquiesceu, lembrando-se de Torgeir. Desde que levantaram acampamento, ela não tivera notícias do príncipe herdeiro de Patras. O seu coração doía quando ela se recordava do seu rosto mastigando o pão de batata na beira do riacho. Ela se lembrava ainda da conversa que tiveram dentro da casa em ruínas em que teias de aranha e escorpiões os circundavam.
Qual caminho Torgeir escolhera?
"Lutaremos, Ishmael! Não vou deixar os mercenários dominarem a capital. Mande abrirem a despensa real e os escravos prepararem uma refeição com sustância para os soldados. Onde está Sorem?" — indagou Vishkar, sacudindo o rosto para espantar a melancolia.
"Com Betthany. Ela está de cama e é Sorem quem a vem atendendo depois que o doutor Higen faleceu no surto de gripe. Precisa falar com a sua mãe..."
Vishkar quase havia esquecido daquele detalhe, que, na verdade, era o todo alquebrado.
Não foi necessário que ela combatesse os homens que se mantinham com lanças no corredor e diante dos aposentos de portas duplas com arabescos do quarto de Betthany. Os guardas já haviam se rendido.
Quando empurrou a porta do Quarto Real, Vishkar quase não reconheceu a mulher que tinha diante de si.
Betthany se apresentava pesada e roliça, com o rosto inchado e os cabelos brancos sobre o leito. Havia rugas ao redor de sua boca e em suas faces, mas o seu olhar ainda era faiscante e traiçoeiro. Da sua pele, exalava um cheiro rançoso como se fizesse muitos dias que ela não se banhasse.
A mulher usava um sobretudo pesado por sobre a camisola. Seu braço com a mão cheia de manchas e teias de veias estava esntendido, devolvendo um cálice vazio para Sorem. O rapaz se mantinha de pé ao lado da doente.
Sobre a mesa de madeira, havia uma narguilé e insenso sendo queimado. Também, o medalhão imperial de Vask e ouro foram esquecidos ali.
Betthany observou a filha com a sua expressão mordaz de desprezo e, por um momento, Vishkar se sentiu como a criança que era quando fora, amiúde, dardejada por decepção. Com nove anos e com um corpo liso e infantil, a menina era alvejada pela própria mãe, temendo que a sua autoestima fosse golpeada com chutes até se partir de um modo irreversível.
Vishkar, contudo, não tinha mais nove anos. Ela era uma mulher adulta e feita. Ajustada ao seu próprio molde e forjada no mundo real.
"Aí está você..." — murmurou Betthany com um entreabrir de lábios repleto de desgosto.
"Aqui estou eu..."
Sorem espreitou o rosto da amiga e, deixando o lado da imperatriz, correu para abraçá-la. Os olhos frios da mulher os fitaram e ela sibilou um ruído de desdém.
"O que ela tem?" — indagou Vishkar, ignorando a mãe e se dirigindo a Sorem.
"Uma doença em seu coração..."
Sorem ainda tinha os braços ao redor de Vishkar quando Betthany disse com amargura:
"Você matou o meu amante."
"Matei." — retorquiu Vishkar, sem alterar a voz — "Os seus dois amantes na verdade. Os seus outros putos espalhados por Skarva e os concubinos que a serviram não vieram lhe prestar lealdade, me desafiando. Você não é importante o suficiente."
Betthany entreabriu os seus lábios, revelando os dentes um tanto amarelados com um sibilar desagradável.
"Menina insolente! Você nunca me trouxe orgulho! Sempre foi estranha demais, arredia demais, sem atributos e sem habilidade alguma! É uma víbora que criei no meu reino e gerei do meu ventre... Você nunca soube o que é liderar um império..."
Vishkar se aproximou da cama.
"E você nunca soube o que é ser uma mãe. A única razão para gerar tantos filhos é porque a maternidade lhe garantiu poder. Não há diferença entre nós e os seus amantes. Você usou a todos para conseguir o que queria e não tinha capacidade de conquistar. Você queria anexar Patras como um grande feito seu, mas, no fim, só arrastou Vask para a miséria e para a fome. Não obteve sucesso em absolutamente nada porque você é uma pessoa vil, mesquinha e incapaz."
"Cale-se, sua cretina! Eu devia ter dado um fim em você antes. Um fim em você quando nasceu!"
"Você tentou, desafiando Torgeir a me matar, mas nem isso conseguiu fazer. Qual é a sensação de ter vivido uma vida inteira e não ter conseguido ser bem-sucedida em nada?"
Betthany praguejou e as duas mulheres se fitaram com mágoas palpáveis.
"Você nunca foi o que eu queria que você fosse!" — vociferou Betthany, erguendo o seu dedo em riste.
"Você me usou!"
"Usei! E você me deve muito por eu ter dado a você uma chance! Eu queria que você desaparecesse em Ver-Vassel e não consegui isso!"
"Sim. Com catorze anos na fronteira, você queria que eu desaparecesse! E eu também quis desaparecer durante algum tempo, mas quando me lembrava de você neste palácio, sentada no trono, eu entendia que eu precisava existir!"
Sorem segurou o pulso da amiga, puxando-a para trás.
"Chega, Vishkar! A sua mãe está muito doente..."
Betthany riu-se, movendo os cabelos brancos que desciam sinuosos por seu rosto abatido.
"Dizem que os mercenários são homens cruéis e brutos. Sabe que eles estão a caminho de Skarva, não sabe? Que eles têm o consentimento do rei para matarem, saquearem e estuprarem tanto quanto quiserem. O que vai fazer, filha do império?"
Vihkar fitou a mãe, sentindo o ódio de anos em sua garganta.
"Sei bem como os mercenários agem. Essa é a sua praga para mim?"
"É o legado que deixo pra você, sua vadia. Um reino destruído com homens viciados em narguilé e passando fome. Um cofre quase vazio e mercenários a caminho. Queria tanto o trono? Agora, ele é seu..."
"A sua vida sempre foi de destruição. Não poderia ser diferente os seus momentos finais, Betthany. Vai acompanhar da sacada de seu quarto os patranos invadindo a nossa nação?"
"Não, sua idiota. Você vai acompanhar. Eu não estarei mais aqui..."
Vishkar olhou para Sorem e o rapaz apontou para o cálice vazio sobre a mesinha de madeira.
"Eu atuei como um médico, Vishkar. Foi um ato de misericórdia. Ela estava sentindo muita dor e teria, no máximo, mais alguns dias de vida. A medicação vai fazê-la dormir daqui a pouco e ela não acordará mais..."
Vishkar observou o frasco da medicação sobre a mesa novamente e deu as costas para Betthany, sem nada dizer. Ela não merecia palavras, mágoa, rancor ou ira. Não havia mais nada para ser dito. Betthany, no entanto, insistiu:
"Quer saber por que eu nunca lhe tive amor?"
Vishkar se manteve de costas e se reteve por um único segundo. Houve um momento em sua vida que aquela resposta valeria cada minuto a mais gasto naquele quarto, mas a verdade se revelava nos filhos negligenciados; no povo maltratado; nos leopardos com costelas à mostra; na empreitada de guerra ambiciosa demais e nas rachaduras do palácio. Nos homens que se vendiam à Betthany por algum poder naquele universo feminino, que também podia depredar mulheres.
Incapacidade era a resposta.
"Não, eu não quero saber. Como eu disse, você não é importante o suficiente, Betthany. Pouco me importa as suas razões. Vask a deixa hoje da pior forma que poderia deixá-la. Sozinha consigo mesma. Longa vida ao novo império!"
Vishkar, então, partiu, batendo a porta atrás de si, deixando o círculo imaginário.
Era assim que se rompia com um passado de sofrimentos fomentados por um ser narcisista e cruel.
Você dava as costas para ele e seguia adiante.
Sem olhar para trás e sem se forçar a relativizar o que era ignóbil e lesivo.
Afinal de contas, isso também era alforria.
E que os deuses abençoassem todos os seres que deixassem de ser cativos e se tornassem deuses de suas próprias histórias.
(cut)
Sorem foi designado para ser enviado para o norte de Ver-Vassel às pressas como embaixador. Ele devia tentar estabelecer um contato com o rei Aleron e o príncipe Auguste, implorando por uma renovação do tratado de amizade entre Vask e Vere.
Não havia o que se fazer porque por milhares de pessoas valia a pena dobrar os joelhos sobre o chão e implorar. Ainda que Patras tivesse garantido Ver-Vassel à Vere, talvez, a misericórdia tocasse um reino que perdera, recentemente, a sua rainha.
Os irmãos de Vishkar, os nobres, Mircela, os concubinos e os outros escravos foram levados para o casarão na floresta, assim como os leopardos, que foram soltos no bosque sagrado.
"Somente homens e mulheres que podem lutar devem permanecer no palácio, senhores!" — declarara Judy, dando ordens para um escravo levar um casal de cortesões e suas crianças para o casarão.
Ishmael e Nabsib distribuíram instruções e desfraldaram a bandeira de Vask no palácio, brandindo as suas lanças no chão ao gritarem para os soldados:
"Lutaremos pela imperatriz Vishkar de Vask, descendente dos deuses; filha do império; o beijo do céu e da terra; a irmã que ama o seu povo e luta por ele! Vida longa ao nosso reino, soldados! Combateremos até o fim! Por Vask!"
Quando todos os civis já haviam sido removidos para o abrigo e os homens ocupavam os seus postos, Ishmael encontrou Vishkar sentada em seu trono, solitária. Ela estava pensativa com a sua armadura e os cabelos curtos caídos pelo rosto. Os seus dedos deslizavam pelo entalhe do trono e o seu cigarro de palha se mantinha aceso em seus lábios.
O rapaz se deteve e fez uma deferência, antes de se apresentar.
"Majestade, todos os homens e mulheres do palácio que não lutam já se encontram em segurança no casarão. E os soldados já estão em seus postos..."
Vishkar contraiu o canto de seus lábios, dizendo:
"Você não pode me chamar de Majestade. Você é o meu amigo, Ishmael."
"Você é a imperatriz agora, Vishkar. A mulher que descende dos deuses..."
"Todos nós somos deuses e bestas, Ishmael. Eu, os nobres, os escravos, os soldados e até mesmo Betthany. As duas entidades sopram dentro de nós quando nascemos e arrastamos os dois de lá para cá durante toda a vida. E é graças aos dois que estamos aqui de uma forma ou de outra. Torgeir tinha um lado espiritual e o vi conversando algumas vezes com Somalia sobre esses assuntos. Talvez ele estivesse certo..."
Ishmael permaneceu refletindo sobre as palavras até que Vishkar disse:
"...Sente comigo um pouco..."
O rapaz hesitou por um segundo, mas caminhou, se sentando no degrau da escada de mármore. Vishkar se ergueu do trono e se acomodou ao lado dele com o cigarro entre os dedos.
"...É estranho ter que permanecer neste salão, esperando que os outros lutem por mim ao invés de lutar por meu povo..."
Ishmael tocou-lhe as mãos pálidas, sentindo-as geladas.
"Você é a imperatriz agora. Vai precisar negociar com os mercenários se falharmos, Vishkar. Colocar os seus termos..."
Vishkar moveu os seus olhos bicolores, que brilhavam sob a luz do candeeiro. Ela deu uma tragada em seu cigarro e expeliu a fumaça, jogando a cabeça para trás.
"Os mercenários dos clãs são homens broncos e com fome de destruição, Ishmael. Você os conheceu em Acquitart. Vou implorar pela vida de meus irmãos, dos leopardos, dos concubinos e dos nobres. Vou implorar para que o nosso povo não seja morto, estuprado, surrado e humilhado. E vou colocar a minha vida nas mãos deles. O que vier depois disso está sob a vontade dos deuses e das bestas..."
O rapaz moveu os seus olhos aquosos como nanquim sob a luz do candeeiro.
"E Torgeir?"
Vishkar voltou o seu rosto para o lado oposto, não concedendo a visão do seu semblante ao amigo.
"Não sei. Ele partiu de Ver-Vassel, após a tomada de Ver-Tan sem falar comigo."
Ishmael respirou fundo.
"Entende que os homens estão dizendo que ele, talvez, tenha a abandonado quando soube que Patras conseguiu invadir Vask? Que talvez ele nos tenha iludido ou que, no mínimo, não conseguiu se voltar contra o seu próprio povo e o seu pai?"
A imperatriz se lembrou do seu raffie a erguendo na tina entre as risadas dos soldados no verão e, subitamente, no salão frio do inverno de Vask, aquela lembrança pareceu um sonho distante. O seu peito doeu. Doeu tão fundo que ela quase gritou.
"Se ele partiu, não nos resta nada a fazer. Eu confiei em Torgeir. Com todo o meu coração, assim como Somalia acreditou nele. Impedimos durante quase uma década que Ver-Vassel fosse tomada. Torgeir não cortou a minha cabeça e eu não cortei a dele. Talvez a nossa amizade possa ir só até esse ponto. Vou me lembrar com doçura da vida nas fronteiras até a hora em que morrer, apesar de tudo. Fico feliz que você tenha estado lá comigo. Fomos tão felizes, Ishmael..."
Ishmael fungou, experimentando o medo em seus ossos, sentindo a dor, antevendo a saudade da vida. Ele se recordou do tempo em que ele e Vishkar corriam pelas planícies, tendo o vento fresco acariciando as suas peles úmidas. Vishkar tocou a nuca do rapaz, afagando-lhe enquanto ele tremia, sacudindo os ombros.
"Não chore, Ishmael. Preciso que seja forte..."
"Eu te amo, Vishkar!" — confessou o rapaz, após fechar os olhos e tomar coragem — "Desde que éramos crianças. Eu sempre te amei..."
Vishkar assentiu, enxugando os olhos e fungando também.
"Eu sei. Eu também te amo. Como um amigo, Ishmael. Mas se eu tivesse reinado aqui, certamente, teria que me casar e ter filhos. E seria com você. Você seria o imperador. Porque você é bom, honesto e leal. Sempre soube que seria você, mesmo antes de lhe prometer isso..."
O rapaz, tendo lágrimas em seus olhos, apoiou a cabeça no ombro ossudo da imperatriz. Vishkar prosseguiu, dizendo:
"...Muitos não entendem a poligamia do nosso povo e a nossa forma de amar. Mas eu lhe digo qual é a veia pela qual corre os afetos em Vask. É a lealdade, Ishmael. Eu sempre achei a amizade um sentimento tão bonito. Ela não pede nada em troca. Ela somente sente. O corpo muda e se acaba. Os afetos migram. O desejo fenece. Mas a lealdade é como se lutasse contra o tempo. Se eu envelhecesse, gostaria de envelhecer ao seu lado. E se eu tivesse filhos, gostaria que tivessem o seu sangue..."
Ishmael ergueu o seu rosto úmido de lágrimas e Vishkar, compreendendo que, talvez, aquele fosse o último gesto de carinho que podia ter com o rapaz que a amara durante toda uma vida, curvou-se e o beijou nos lábios. Foi um beijo curto, suave, amigável. Mas o rosto do rapaz se iluminou e ele entrelaçou os seus dedos nos dela.
Houve um ruído próximo à entrada e Sorem se revelou, chegando ao Salão. O rapaz se anunciou com um olhar fixo e uma expressão muito séria no seu rosto em que a luz e a sombra do candeeiro tremeluziam. Ele deslizava o seu olhar da cor do mato em chamas pelo rosto da imperatriz até a face de Ishmael.
Vishkar disse, erguendo-se:
"Sorem, você precisa partir logo para Ver-Vassel! Antes que os patranos cheguem."
O rapaz pestanejou, dizendo ao desviar o olhar para um canto do salão atrás dos seus amigos:
"O cocheiro disse que vamos aproveitar a noite para nos retirarmos do reino, sem chamar muita atenção. Eu só queria desejar a vocês dois... boa-sorte..."
Sorem abraçou Ishmael e deu um beijo na face de Vishkar em despedida.
Quando ele dava as costas, Vishkar o chamou. A imperatriz se apressou em retirar do pescoço o pesado medalhão imperial e, sem hesitar, colocou-o no pescoço de Sorem.
"Aqui. Guarde-o para mim. Não quero que os mercenários toquem nele. Quando nos reencontrarmos, você pode me devolvê-lo e, se falharmos, dê ele para Amaranta."
Houve um silêncio em que Vishkar se mantinha de pé diante do primo naquele salão vazio e soturno com sombras tremeluzindo, mesas arredadas e a ameaça de morte.
Uma curvatura muito breve se desenhou no canto dos lábios de Sorem. E, de modo breve, Ishmael franziu o cenho até que Sorem abraçasse a imperatriz novamente, sussurrando próximo ao seu ouvido:
"Estarei em viagem, rezando aos deuses por nossa vitória. Vida longa ao novo império, Vishkar!"
(cut)
Começou ainda durante a noite. Houve o ressoar da trompa, avisando que os mercenários haviam entrado na cidade. Depois, houve o ruído de trompa, avisando que eles haviam derrubado os portões.
Pela rapidez com que os acontecimentos se sucediam, Vishkar percebeu que os homens dos clãs estavam bem armados. O restante se dava como em Acquitart. Houve gritos de ira, de dor e de algo mais. Ruídos indecifráveis, relinchar de cavalos e o barulho de cascos. Houve fúria se chocando contra fúria. Fileiras de homens com os dentes à mostra, invadindo e retendo.
Para a imperatriz, permanecer no Grande Salão esperando era pior do que qualquer combate do qual participara. Havia guardas na porta que a defenderiam se os homens munidos de seus machados alcançassem o interior do palácio.
Havia uma impotência nefasta em se ouvir a ameaça chegar aos poucos como um maremoto, uma tempestade ou uma devastação. Os mercenários tomaram os jardins e, entre as vozes, Vishkar distinguiu ordens em patrano como: "Mate-o"; "Segure-o" e "Acerte aquele".
Seu coração se apertou. Ishmael, Judy e Nabsib eram excelentes no combate e, sem dúvida, seriam empecilhos para os mercenários. Nisso, havia glória e temor. Eles seriam caçados por serem oponentes à altura. "Mate-o"; "Segure-o" e "Acerte aquele".
Ela pensou nos seus homens da fronteira que moviam os braços, formando uma cadeira para ampará-la quando ela ia ser atirada de uma tina por Torgeir. E de como ela se sentira mais inteira nesse assento do que jamais se sentiria no trono carregado por escravos de Betthany.
Vishkar, agora, queria poder mover os seus braços e amparar Vask inteira.
A trompa ressoou uma terceira vez e Vishkar sabia que os homens tomaram os corredores. Mas quando a trompa ressoou uma quarta vez, ela não compreendeu do que se tratava.
Das janelas embaçadas do Grande Salão, não era possível se ver o exterior dos jardins. Quando Vishkar aproximava o lampião da vidraça, havia somente escuridão e a vaskiana podia ver o seu reflexo.
Havia o rosto de uma mulher que a encarava de volta com olhos bicolores. Havia os seus cabelos tosquiados desde o seu primeiro ano na fronteira quando sentira a guerra. Havia olheiras fundas. Ela se tornara uma mulher no ventre beligerante e amigável das fronteiras.
A trompa ressoou uma quinta vez e Vishkar se voltou para a porta, contraindo as sobrancelhas. Ela se adiantou até o trono e empunhou a sua espada, desembainhando-a.
Os gritos no corredor se tornaram mais altos e impositivos.
"Mate-o!". "Segure-o!". "Acerte aquele!"
Quase uma hora depois, a imperatriz ouviu as vozes dos guardas postados na porta e o seu peito estremeceu. Vishkar murmurou uma oração de um só verso, entregando a sua vida e Vask à misericórdia dos deuses. Ela se lembrou do mercenário partindo a cabeça da soldada na fronteira e afastou o medo para o lado.
Seu povo precisava dela inteira, como uma membrana os protegendo da barbárie. Como precisou dela em Acquitart matando mercenários para que eles não alcançassem o acampamento e todos terminassem com a cabeça rachada e os joelhos afastados sob a besta.
As vozes em patrano se misturavam às vozes vaskianas.
"Ela está lá dentro! Abra a porta agora! Abra!"
Vishkar ergueu a espada e fitou a entrada, esperando pelo fim da guerra. Ela terminaria de qualquer forma. Ali onde começara. No Salão Principal com a declaração de guerra de Betthany à Patras. Com as palavras de rendição de Vishkar para os mercenários.
Tudo acabaria com ela.
Então, a porta se escancarou com um movimento brusco e Vishkar foi tomada por uma surpresa tão grande que a lâmina quase escorregou de sua mão. De pé, flanqueado por seis homens, ela viu Torgeir.
A jovem entreabriu os lábios, sentindo os seus olhos arderem. O patrano estava segurando o seu machado com a cunha metálica gotejando sangue. Até os seus cotovelos, ele estava com os braços banhados de sangue como se tivesse lavado os membros num rio vermelho. Os dois se fitaram como se vissem diante de um espelho.
O patrano murmurou então:
"Raffie..."
E Vishkar viu Gene surgir ao lado de Torgeir, gritando para um outro soldado:
"A imperatriz está bem! Esta área está livre dos mercenários. Vamos seguir para a outra ala! Rápido!"
Vishkar tinha a boca entreaberta ainda como se o ar fugisse dos seus pulmões e a luz de entendimento se fez. A trompa ressoara cinco vezes. Quando o exército que ela deixou no pé da montanha alcançou o palácio foi o quarto retumbar e a quinta vez, quando Torgeir e seus homens se juntaram à guerra, sendo trazidos pelos soldados que confiaram também nele. Homens como Gene. Homens da fronteira.
A jovem permaneceu estática e foi Torgeir que correu para ela, após atirar o seu machado em um canto, a fim de não transmitir a mensagem errada.
Ele abraçou Vishkar, sentindo o metal de suas armaduras se chocarem. Tocando o rosto ossudo da vaskiana com os seus dedos calejados, ele murmurou:
"Desculpe, eu precisei partir de Ver-Vassel, mas vim assim que pude, depois de saber que os mercenários queriam tomar o seu palácio. Cavalgamos dia e noite para chegar aqui a tempo. Usamos a rota de Ver-Tan..."
Vishkar começou a soluçar, se sentindo vulnerável como não se permitiu sentir quase durante uma década.
"Senti medo..." — replicou ela, chorando.
"Medo dos mercenários?"
"Medo de que não tivesse sido real Ver-Vassel, a nossa fronteira, a gente...'
Vishkar tinha os olhos encharcados e as escleras de Torgeir também se avermelhavam. Ele disse:
"Eu parti porque os arautos reais estavam me observando. Os mercenários se tornaram um clã forte, independente e meu pai, quando tentou lidar com eles, foi morto pelo líder. O maldito enfiou um punhal no coração do rei de Patras. Se eu me comunicasse com você, após o que houve em Ver-Tan, pareceria uma traição aos olhos dos apoiadores de meu pai. Eu precisei correr para Bazal para reclamar o meu trono e angariar aliados. Porque, sem o trono, eu não poderia ajudar nem o meu povo e nem o seu..."
Vishkar se antecipou em dizer com a voz embargada:
"Não foi Somalia que envenenou a água!"
Torgeir aquiesceu com um olhar injetado.
"Eu sei! Eu nunca acreditei que tivesse sido ela!"
Vishkar disse:
"O que está acontecendo lá fora?"
"Seus homens e os meus estão matando os mercenários. Um a um como matamos os homens de Andon e de Betthany em Ver-Vassel. Alguns já começaram a bater em retirada..."
"E depois?'
Torgeir sorriu, colocando a mão no queixo da jovem.
"E depois, você se ergue. Eu sou a águia de Patras. E você, agora, é a leoparda de Vask!"
A jovem enxugou os olhos com as costas das mãos, sem sucesso, soluçando.
"Nossos reinos são inimigos há muito tempo. Eu não quero ser a sua inimiga, raffie... Eu nunca quis!"
"O meu pai e Betthany estão mortos. Podemos governar como quisermos..."
O peito de Vishkar oscilou.
"Como quisermos?"
"Como quisermos. Estamos livres agora, Vishkar! Somos só eu e você. Podemos fazer as coisas do nosso jeito."
"Como em Ver-Vassel?"
"Como na fronteira de Ver-Vassel. Como no nosso reino." — declarou Torgeir, beijando a mão da vaskiana enquanto os seus dedos estavam entrelaçados.
Vishkar desabou, então, chorando livremente contra o peito do patrano. Torgeir lhe afagou os cabelos lisos.
"Pode chorar. Sei que quer fazer isso há muito tempo..."
A derrota dos mercenários no palácio de Skarva se deu nas próximas horas e quando Vishkar deixou o Grande Salão, ela constatou os resquícios da destruição e luta deixadas nos caminhos do palácio.
Ela viu Nabsib se movendo com o seu corpo alongado, dando ordens. Viu Judy, com a sua tonfa, inspecionando os caídos. Viu Ishmael, passando por ela e dando tapinhas no ombro de Torgeir com um alívio honesto.
Os patranos de Bazal usavam a libré da Guarda Real e os soldados tinham as suas armaduras reluzentes. O ar estava gelado e a neve ainda caía. Em breve, amanheceria.
Envolta em uma manta de pele, Vishkar se sentou em um banco de pedra do jardim. Torgeir, ao seu lado, pôs-se a desembrulhar algo de dentro de um tecido e o entregou à jovem com um rubor em suas faces.
"Fiz quando estava vindo para cá. Releve as costuras frouxas. Foram dias corridos."
Abrindo o tecido, Vishkar se deparou com uma boneca de pano com a pele branca e os cabelos com linhas escuras. Os seus olhos eram feitos de um botão cinza e o outro amarelo. Ao redor do seu corpo, havia faixas coloridas com frases vaskianas, dizendo:
"Vida longa ao império, Raffie."
Vishkar olhou para o rosto de Torgeir e o viu sorrindo com o seu sorriso generoso e o queixo protubetante.
"Nunca tive uma boneca. Obrigada..."
"Não é só uma boneca. É a minha oração aos deuses para que a protejam. Uma nova governante é mãe e filha de uma nação."
Vishkar assentiu, apertando mais a sua réplica contra o peito.
"Eu sei..."
Havia cheiro de fumaça e o odor inconfundível e férreo de sangue derramado nas lajotas e na neve. Engolindo em seco, Vishkar disse:
"Não sobrou muito para se ver do palácio. A minha mãe deixou que Vask afundasse completamente em quase uma década..."
Torgeir coçou o queixo.
"Patras não está muito melhor. Mas creio que, se vamos agir como nas fronteiras, ajudaremos um ao outro a se reerguer. Me entregue alguns coelhos e eu lhe dou alguns peixes..."
Vishkar sorriu e comentou, observando as sombras dos jardins se clarearem:
"Como lidará com Vere e a promessa de ceder Ver-Vassel a Aleron?"
"Do modo simples. Meu pai prometeu Ver-Vassel se Patras ganhasse a guerra. Mas não ganhamos. Precisamos assinar um tratado de paz mútuo, Vishkar. Torveld, o meu irmão, elaborou um plano. Ele pensou em um casamento entre nossos reinos já que posso ter uma segunda esposa e você ainda não tem um imperador, mas sei que não é isso o que queremos. Precisamos de um tratado de amizade pétreo. Isso anula a obrigação de doar Ver-Vassel para Aleron e deixa o meu reino somente devedor de lealdade à Vere..."
"Sinto muito..."
"Isso é tão ruim quanto os fortes em Aegina que perdemos quando Torveld pediu asilo político para a minha família e para alguns patranos a Theomedes. Ouvi dizer que Akielos está se fortalecendo e os kyroi estão rumando com os seus exércitos para Ios. Há boatos de uma guerra entre os akielons e os veretianos se formando pela tomada de Delfur. A nossa guerra se encerra aqui, mas outra parece estar para começar."
Vishkar disse então:
"Soube por meio da carta escrita por Somalia que Vere esteve na fronteira de Ver-Tan quando os mercenários invadiram a estrada de Vask..."
O olhar de Torgeir se tornou sombrio e ele contraiu as sobrancelhas.
"Vere?!"
Vishkair aquiesceu e o homem replicou:
"...Os homens de Aleron não passaram por Bazal. Essa informação é estranha, mas corrobora para uma suspeita minha. Eu soube que os mercenários receberam ouro de alguém para incendiarem casas em Patras e culparem Vask. Você teve também a sensação de que havia outros interferindo em nossa luta?"
Vishkar torceu o canto de sua boca num movimento que, involuntariamente, lembrava Betthany e retrucou:
"Se nós morrêssemos mal tivéssemos subido ao trono, quem lucraria com isso? É como se o plano da imperatriz de ganhar ou ganhar me enviando para Ver-Vassel tivesse inspirado outros planos macabros..."
Torgeir semicerrou os seus olhos, tendo manchas escuras ao redor deles. Seu nervo óptico tremeu.
"Creio que haja um inimigo de outra nação nas sombras. A destruição nas estradas de Patras; o envenenamento da água de Ver-Tan; o assassinato de Somalia; a rebelião dos mercenários... Tudo me soa suspeito. Precisaremos lidar com isso em algum momento. Mas não quero pensar nisso por hoje, Vishkar... Quero poder conhecer a paz."
Vishkar assentiu e os dois permaneceram calados, observando o sol nascendo no horizonte de Skarva. Ele era pálido por conta do inverno e gelado. Flocos de neve caiam sobre os dois monarcas e havia um monte deles no cabelo castanho de Torgeir que estava preso atrás da nuca em um coque.
O sol alongou os seus dedos raiados, revelando-se aos poucos e elevando o seu brilho pálido e quente sobre as lajotas e nos troncos nus das árvores.
Torgeir fechou os olhos por um segundo, absorvendo a sensação do sol em seu rosto e vendo o astro ascender até o céu. O canto dos pássaros se elevou como uma melodia, anunciando a nova manhã.
O sol, então, se ergueu completamente e o ar se tornou um pouco mais morno. O horizonte se preencheu de um tom róseo e alaranjado e, nas pupilas sorridentes de Vishkar, o brilho se tornava escuro como a terra e vibrante como o céu.
Vishkar se mantinha envolta em sua manta e abraçando os joelhos. Torgeir, com os cotovelos apoiados no espaldar do banco de pedra, murmurou então:
"Iságoras estava certo. Sempre esteve. O nascer do sol mais belo é o de Skarva seguido pelo da fronteira. Ele é o mesmo que nasce e se põe em Patras, mas tinge o céu de Vask de um modo diferente. Somalia dizia que a guerra era um espelho. Creio que a paz não seja diferente."
Vishkar encarou os fragmentos de poeira pairando na nesga de sol.
"Estou exausta. Quero agora poder sempre ter dias de sol assim."
"Vamos descansar, raffie."
