No meio da tarde, depois de um pouco de faxina básica no apartamento pequeno que precisava justamente de limpeza, Rafaela começou a se aprontar para seu evento. Naquele dia, ela tocaria num casamento nos arredores da cidade. Por um acaso, sabia que os noivos e sua família não eram de San Diego, mas queriam se casar ali justamente por causa da praia. Rafaela nunca entendeu o fascínio que as pessoas tinham por praia, nunca foi seu lugar preferido. A impressão que tinha era que não passava de um lugar quente e abafado cheio de gente. Podia ser divertido se refrescar no mar, mas não pagava o preço de ir para casa todo molhado e enrugado, com o aspecto de sal sob a pele. Ainda assim, tinha que ser grata a esse fascínio, afinal, era ele que lhe proporcionava um pouco de alegria hoje.
Não só isso, ao pensar no evento, lembrava automaticamente de Bradley e que seria bom ter sua companhia, ele era um bom homem que a queria por perto, ainda não sabia porque, não via que vantagem Bradley podia tirar da aproximação deles. Como ele tinha garantido anteriormente, ele não era um psicopata e o convívio com ele tinha provado que isso era bastante verdadeiro. Então, restava a Rafaela aceitar essa amizade e aproximação. Talvez algo que explicasse essa amizade fosse justamente o motivo que os unia no dia de hoje, seu interesse por música.
Sem mais divagar, Rafaela enviou para ele algumas informações sobre aonde iam e o que fariam, Rooster ficou empolgado, ao ver que ela tocaria toda a trilha do casamento, era ótimo ver Rafaela tocando ao vivo, sabia que isso era um fato desde que a tinha visto tocar na igreja.
Assim, no horário combinado, ele fez questão de dar mais uma carona à sua nova amiga. Ele deixou se inundar do sentimento inebriante de admirar como ela parecia bela e elegante mesmo no seu modo modesto de se vestir. Esperava não ter suspirado muito alto, ao vê-la esperando por ele.
Rafaela deu apenas um sorriso, entrou no carro e esperou que ele desse a partida.
-Oi? – Bradley puxou assunto primeiro, esperando que ela dissesse algo em troca.
-Ah oi, me desculpa – ela abaixou a cabeça, rindo de nervoso, acabando de perceber seu erro da vez – eu nem te disse oi, é que estou um pouco nervosa, eu ensaiei as músicas, mas achei tudo um pouco complicado, são músicas que não conheço direito e tive que escutar bastante, querendo ou não, tenho um certo medo de errar.
-Ah não se preocupe, eu sei que você vai se sair bem – ele deu de ombros, como um incentivo, otimista – além disso, você está acostumada a tocar para muitas pessoas.
-É, é verdade – ela assentiu, suspirando – e você? Como passou a semana?
-Ah... – ele estreitou as sobrancelhas de repente, nervoso, tentando esconder os sentimentos que ainda estava compreendendo – tudo normal, o mesmo de sempre, eu treinei com minha equipe/amigos, eles me perturbaram como sempre fazem e fomos pro bar da Penny depois de tudo.
-Penny... – Rafaela repetiu o nome por pura curiosidade, não aprovando muito a frequência que seu novo amigo e os amigos antigos dele iam ao tal lugar, além disso, Penny podia muito bem ser o nome da namorada dele, a mesma moça que o visitava no hotel.
-Ela é uma amiga, praticamente minha tia, está noiva do meu tio Maverick, o mesmo que eu falei da outra vez - ele associou um a outro para que ela entendesse melhor.
-Entendi, bom, eu continuei trabalhando no mesmo lugar onde você me conheceu - ela declarou sem muito ânimo - o que estou fazendo de diferente é tocar hoje.
-Que é claramente algo que você gosta muito - Bradley tomou a liberdade de comentar.
-É, tem razão, gosto mesmo - ela concordou quietamente.
Sem mais demora, eles chegaram ao local, um ponto no meio das praias de San Diego, devidamente arrumado para a ocasião. Rafaela agradeceu mentalmente pela cobertura que protegeria ela, o instrumento e os noivos de qualquer eventual chuva, infelizmente os convidados não teriam a mesma sorte, esperava que eles não precisassem sair correndo caso isso acontecesse.
Ela então se posicionou, esperando apenas pela entrada dos padrinhos, do noivo e da noiva. Bradley se arranjou discretamente numa cadeira ali perto, fingindo ser um convidado, enquanto reorganizava os próprios pensamentos. Rafaela, por sua vez, se concentrava em sua tarefa, tocando as melodias ao fundo da entrada de cada um dos elementos do casamento.
Bradley não tinha muitas lembranças de ir a casamentos, nem quando era criança, nem agora que era adulto. Havia um sentimento de estranheza da parte dele sobre aquele universo, entendia o propósito daquilo tudo, duas pessoas que se amavam e tinham decidido passar o resto da vida juntos, mas não conseguia se ver num cenário como aquele. De repente, começou a projetar para si a possibilidade de se casar.
Primeiro, teria que encontrar uma esposa e segundo, teria que encarar a constante possibilidade de que poderia deixá-la viúva, exatamente como tinha acontecido com seu pai, essa era uma história que ele não gostaria de repetir. Claro, hoje em dia, a aviação estava muito mais segura, mas ainda assim, riscos existiam. No entanto, quando Bradley tinha sofrido um acidente durante uma missão há alguns anos atrás, um rápido pensamento passou pela sua cabeça, ele não tinha família que esperasse por ele, que se importasse com ele. Tinha Phoenix na época, mas tinha afastado Maverick, a única família que tinha restado depois de tudo. Era um paradoxo complexo demais para se resolver numa tarde de sábado em meio ao casamento de estranhos. Contudo, o piloto não podia evitar pensar em tudo isso.
Antes que qualquer consideração parecida com as de Rooster invadissem a mente de Rafaela, ela tratou de se concentrar na música, cada nota, cada melodia, como elas soavam ao seus ouvidos e reforçavam o sentimento presente na cerimônia, afinal, era para isso que ela estava sendo paga.
Com a cerimônia terminada, sem mais enrolação, liberaram o jantar com aperitivos e doces, era uma bela recompensa tanto para a tecladista da vez como o amigo que a acompanhava.
Foi só ai que Rafaela deixou o teclado e se sentou ao lado de Bradley outra vez.
-Então, como fui? - ela pediu por uma opinião.
-Foi ótima, eu posso dizer que das duas vezes que vi você tocar, dá pra ver o quanto é talentosa - ele garantiu mais uma vez, de forma simpática.
-Bom, você vive me elogiando, seria bom eu ver você tocar uma hora dessas, aposto que também é muito bom - ela incentivou.
-Ah não, não, é melhor não desafiar um piloto de caça, nós temos uma tendência a sermos arrogantes e nos provar o tempo todo - ele brincou, mas falando um pouco da verdade.
-Você não me parece assim - Rafaela comentou sinceramente.
-Isso porque você não me viu no meu elemento - ele acabou rindo - minha equipe pode muito bem discordar e falar do meu pior lado.
-Até agora eu não vi seu pior lado - Rafaela garantiu - mas talvez você tenha visto o meu.
-O que? Não, eu não acho - ele franziu as sobrancelhas, preocupado.
-Tem certeza? - ela não estava tão certa assim - eu fui grosseira com você por causa de uma pergunta simples.
-Eu sei, mas você se redimiu, eu disse que gostava de chocolate - Bradley esperava consertar a situação toda se lembrando disso.
-Tudo bem, é só que... - Rafaela suspirou - talvez seja uma conversa pra uma outra hora.
Rooster assentiu lentamente, conseguindo compreendê-la. Entendeu que seguir a sugestão dela de tocar um pouco seria uma ideia muito melhor para o momento.
Ele se levantou de repente, a surpreendendo. Rafaela viu para onde eles estava indo, em direção ao teclado.
-Espero não ter nenhum problema se eu tocar agora - ele quis ter certeza.
Rafaela apenas assentiu e esperou o que Bradley traria a seguir.
