De volta ao momento presente, Miles tentou conciliar nos prováveis poucos minutos que tinha, até que Varang acordasse, o que seria sua vida daqui para frente. Tinha proteção e um abrigo em meio ao clã das cinzas, isso estava garantido, e conviver com a líder deles podia ter suas vantagens além de estar sob a proteção dela.
Começando pelo fato de ter alguém com quem compartilhar o leito, o que ele estranhou a princípio. Durante toda sua vida, seus relacionamentos foram extremamente passageiros, a não ser por Paz Socorro. Notou que era a segunda vez seguida que se lembrava dela dentro de dois dias, e assim, por consequência, em Spider. Havia uma pequena parte dele, no profundo da sua alma, se tivesse uma dada as condições do seu corpo atual, que desejava ter feito melhor por Paz.
Eles não conseguiram deixar de se envolver um com o outro mesmo no meio de uma guerra, e quando o dever chamou, como bons militares que eram, cumpriram com ele, sofrendo as consequências de sua perda. Outra parte dele se manifestou logo em seguida, o avisando que era uma perda de tempo se prender ao passado e o que tinha acontecido. O que estava feito, estava feito e não dava para trazê-la de volta. Agora, ele tinha ao menos a oportunidade de se vingar daquele que tinha causado tudo isso. Mas para chegar até Jake Sully de forma eficaz, havia passos que se cruzar até seu último objetivo, e um deles se chamava Varang. Agradá-la significava garantir seus aliados nativos, e com uma última decisão a tomar antes que a esposa acordasse, ele decidiu que se renderia às vontades dela.
Depois de tantos pensamentos abstratos, o velho militar acabou prestando mais atenção ao seu físico. Quando olhava para baixo, encontrando a pele azul e os músculos alongados, estava mais habituado agora do que nunca ao que era, ao menos fisicamente. Os tais músculos doíam e quando ele se virou para olhar para Varang outra vez, sentiu a dor no pescoço aumentar, como se tivesse dado um mau jeito.
Ouvindo murmúrios de reclamação, ela se revirou em sua posição, abriu os olhos lentamente, se lembrando da noite anterior em seu próprio tempo. Sua decisão de tornar o recombinante seu consorte tinha sido pensada há muito tempo e agora, como ela tinha deixado claro a ele, não voltaria atrás em sua palavra. Queria as táticas militares dele e também sua lealdade, o que ela não mediria esforços para obter.
Miles notou-a acordando e então se distraiu com a maneira elegante com que os músculos dela se esticavam e voltavam ao lugar ao terminar de se espreguiçar.
-Miles... - ela disse num cumprimento, abaixando a cabeça de forma solene, no que ele repetiu rapidamente em sinal de respeito - há algo errado?
-Não há nada errado, Varang - ele fez questão de despistar qualquer desconforto - aliás, agradeço por me ter aqui com você.
-Eu o escolhi e você me escolheu, são consequências de nossas ações - ela o relembrou - terei você aqui comigo de agora em diante.
-Eu só espero que não seja nessa caverna - ele resmungou de forma mal humorada, o que a fez redobrar a atenção nele.
-Então é isso que está errado - ela logo percebeu - não te agradou esse leito cerimonial, mas são costumes do meu povo, você faz parte dele agora, sendo meu consorte.
-Compreendo - ele respondeu distraidamente, não olhando diretamente para ela.
-Mas se o deixa feliz - Varang se aproximou, se ajoelhando na frente dele e segurando o rosto dele com as duas mãos, o simples toque não falhou em fazer Miles estremecer outra vez - esse não será nosso leito cotidiano, deixaremos esse lugar hoje... e você conhecerá seus aposentos permanentes.
-Gosto do som disso - ele sorriu satisfeito.
-É bom vê-lo sorrindo, Miles, quero que se sinta bem aqui, de verdade - ela assentiu, rindo um pouco - mas você não respondeu a minha pergunta por completo.
-O que quer dizer, Varang? - ele ficou genuinamente confuso, sentindo a mão dela deslizar para o lado de seu pescoço, o gesto o fez engolir em seco.
-Consigo te sentir tenso, está no mínimo dolorido, por dormir aqui, por isso reclamou, não é? - ela deduziu corretamente, tirando as mãos dele delicadamente.
-Leu meus pensamentos - ele disse com certo charme, segurando uma das mãos dela, aproveitando a proximidade e beijando a mão dela de forma diligente - eu já tive leitos nada confortáveis, mas esse, não chega perto, no entanto, tive como recompensa estar aqui com você.
O elogio a pegou de surpresa, o que a fez levantar as orelhas rapidamente e depois relaxá-las logo em seguida, Miles notou isso e considerou uma vitória.
-Já que eu lhe proporcionei uma recompensa sem saber, quero proporcionar outra agora, dessa vez, tendo consciência disso - ela apertou os ombros dele e se afastou.
-Desse jeito, eu vou lhe dever muitos favores - ele comentou, de bom humor, mas um tanto preocupado.
-Você já me deve um favor dentro do nosso acordo, em breve você me pagará colocando suas habilidades em prática, mas por ora, se quiser me retribuir de alguma forma, siga meu comando, novamente - ela propôs, sorrindo de lado ao terminar de falar.
-Como quiser, Olo'eyktan - a curiosidade fez Quaritch aceitar fosse lá o que estava por vir.
Sem aviso prévio, ela segurou a mão dele e o puxou para fora da caverna. Mesmo dolorido e um tanto sonolento, ele tinha admitir que o dia raiando lá fora, embora envolto pela fumaça dos vulcões que circundavam a ilha, parecia convidativo.
Deram alguns passos, sem soltarem das mãos um do outro, o que Miles julgou como estranhamente reconfortante. Tinha que admitir que, havia um lado dele que tinha sentido a falta de uma companhia feminina, e ter Varang ali era realmente excelente, fazia bem a ele de alguma forma.
-Para onde está me levando? - questionou ele, desconfiado.
-Não seja impaciente, marido - ela rebateu, sem parar a caminhada, o obrigando a apenas acompanhar.
Chegaram então onde ela queria. O terreno se estendia até onde os olhos podiam ver, com a cor escura características do chão da terra do clã das cinzas. Estava coberto de poças de água borbulhantes, e mais próximo dali, uma cachoeira de água fervente. Surpreendentemente, havia plantas num tom de vermelho florescente crescendo por perto.
Varang então finalmente soltou da mão dele, se aproximando das plantas. Colheu a seiva brilhante de dentro delas, mostrando as palmas das mãos para Quaritch.
-São raízes das cinzas, servem para nos limpar - ela explicou, enquanto o cheiro agradável chamou a atenção dele e ele farejou a substância gosmenta nas mãos dela - não poderíamos começar o dia sem nos banhar.
-Então é isso que significa tudo isso, é uma boa pedida - Miles riu satisfeito - só tem um porém, Olo'eyktan, só de olhar pra água dá pra sentir me queimando, não tem como eu entrar nisso.
-Sim, sua pele pode ser bonita, mas ainda assim é da floresta - ela elogiou com ressalvas - é claro que eu esqueci de mencionar que a seiva também protege sua pele delicada, venha, se renda ao meu toque, eu prometo que será bom se banhar.
-Sendo assim - ele deu de ombros, tentando relaxar um pouco.
Varang se aproximou dele dessa vez, de forma delicada e cuidadosa, lambuzando seus braços e pernas com seiva. Com um empurrão leve para baixo nos ombros dele, ela pediu em silêncio que o marido se abaixasse um pouco, para que ela conseguisse alcançar melhor seu pescoço e cabeça.
Sentindo a tensão nas costas dele, Varang se prolongou ali com uma massagem, apertava seus ombros e espalhava a seiva, até seu trabalho terminar.
-Faço o mesmo por mim, Miles - ela pediu ao ouvido dele.
Ele molhou as mãos com a seiva e passou pelos braços e pernas de Varang. No ventre dela, deixou suas mãos apertarem sua cintura levemente, o que a fez sorrir com o toque. A líder do clã das cinzas constatou que gostava quando o marido a segurava pela cintura.
Assim que estavam prontos para entrar na água, Varang segurou a mão de Miles e juntos colocaram os pés ali, sentindo a temperatura e o movimento da água contra sua pele. Os dois fatores colaborando para que o casal finalmente relaxasse.
Sentaram-se um do lado do outro, Miles chegou a fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás, sentindo-se relaxado, mas sentindo falta de Varang mais próxima dele.
Percebendo estar em um território neutro em que podia tomar iniciativa para algum gesto sem esperar um comando dela, ele se aproximou sem aviso, envolvendo os ombros dela com um braço e segurando os quadris dela com o outro. Varang não se opôs, apenas olhou para ele e se deixou levar. Quaritch depositou a esposa em seu colo com delicadeza, enquanto ela repousou as mãos sobre o peito dele, sem deixar de olhá-lo, chegando a sorrir, satisfeita com suas ações.
-Pode me ter em seus braços assim quando quiser, apreciei o gesto - Varang deixou sua opinião clara em voz alta.
-Obrigado, Olo'eyktan - ele se aproximou mais do rosto dela, com as testas quase se tocando - e obrigado por me trazer até aqui, era tudo que eu precisava.
-Fico feliz de estarmos nos entendendo - ela sorriu outra vez, passando um dedo na orelha direita dele.
Para Miles, faltava apenas um beijo ao cenário, e dessa vez, ele não hesitou em beijar a esposa de forma firme, e admitindo a si mesmo, ao menos um pouco apaixonada.
