CAPÍTULO 11

CORAÇÃO

13 anos atrás

De manhã, logo após o desjejum de leite fresco, mel e pão quente com frutas secas, Laurent correu e bateu com os nós dos dedos na porta dos aposentos de Auguste. O menino carregava a sua bolsa carteiro de couro com livros e trajava vestes simples de estudante, apesar das botinhas engraxadas.

Ele se movera apressadamente pelos soldados armados, todos usando a libré da Guarda do Príncipe e fazendo um movimento cortês à passagem do membro da família real.

Houve o ruído de uma movimentação no interior dos aposentos de Auguste, após Laurent bater no quarto. Quem abriu o par de portas de bronze ornamentadas foi o criado.

"Theodore cabeça de batata!" — saudou o menino com alguma surpresa, vendo o rapaz endireitar o cinto sobre a calça apressadamente e amarrar os laços sobre a sua clavícula.

"Ah, príncipe batatinha!" — respondeu Theodore com uma reverência e um rubor em suas faces.

"Onde está o meu irmão?"

Theodore fez um movimento, abrindo mais a porta. As pesadas cortinas ainda estavam fechadas e a pouca luz que adentrava o recinto recaía na ampla cama envolta em tecidos suntuosos e madeira esculpida.

Laurent pode vislumbrar o corpo adormecido do irmão; as suas costas nuas muito pálidas e o pesado lençol cobrindo-o da cintura pra baixo.

Compreendendo a falta de jeito do menino, Theodore se antecipou, dizendo:

"Vou acordá-lo, Alteza!"

O criado caminhou até a cama e com os dedos tateou as costas de Auguste, sacudindo-o com uma delicadeza singular. Depois, sussurrou-lhe algo no ouvido.

Parecendo ainda estar dormindo, Auguste ergueu a mão e tocou o rosto de Theodore, lhe afagando os cabelos castanhos. Theodore pareceu desconcertado, fitando brevemente Laurent.

O menino, subitamente, sentiu-se deslocado no quarto do próprio irmão e se experimentou como o invasor perante uma estranha intimidade da qual não fazia parte.

Auguste esfregou com as mãos, então, o rosto sonolento pelo qual os seus cabelos muito claros caíam um pouco desalinhados. Seu olhar pairou sobre a figura recortada de Laurent parado à porta com a sua bolsa de estudante transversal.

"Batatinha!" — surpreendeu-se Auguste, erguendo o lençol até o queixo e quase despencando da cama — "O que faz aqui?!"

Laurent observou Theodore sentado à beira da cama e Auguste genuinamente desconcertado.

"Eu... eu vim desejar... boa sorte na apresentação de hoje..."

Houve um momento de renovado desconforto em que Laurent sentia cada vez mais que não devia estar lá. Auguste estava nervoso.

"... Bom, até logo..." — disse o menino, dando as costas para os aposentos, percebendo que o silêncio constrangedor se estenderia e ele mesmo não entendia por que estava desnorteado.

"Me espere no jardim! Encontro você em cinco minutos, Laurent!" — pediu Auguste, fazendo um gesto para Theodore, que se antecipou em fechar a porta com um cuidado deferente.

Laurent caminhou, então, até os arcos de pedra que desembocavam nas roseiras e permaneceu observando os criados varrerem as folhas caídas no espaço do jardim, entre as pérgulas com jasmins frondosos. Alguns cortesões caminhavam de braços dados, dando um passeio matinal logo após o desjejum. O cheiro da manhã era fresco e úmido.

Demorou algum tempo para Auguste surgir próximo aos arcos de pedra, vestindo as suas calças, as botas e um blusão simples de algodão cru em que os laços se mantinham desamarrados. Os soldados e os nobres lhe cumprimentaram com solenidade quando ele passou.

Auguste se sentou ao lado de Laurent em um banco de metal sob as vinhas.

"Achei que tivesse aula hoje..."

"A aula começa em meia hora. Vou pedir para o professor de vaskiano me ensinar hoje as palavras de batalha..."

Auguste franziu o cenho.

"É você que planeja as aulas ou o professor? Na minha época, eu não tinha escolha sobre o que aprenderia."

"Trata-se de um plano para ele me levar até o pátio de treinamento e eu poder ver a sua apresentação, cabeça de batata."

"Claro que é um dos seus estratagemas, batatinha. Quando vai parar de criar planos mirabolantes para burlar as regras e fazer o que bem entende?"

Um silêncio se fez, seguido pelos passos ritmados de alguns soldados enfardados que faziam a ronda matinal, portando lanças.

"Você tem medo de dormir sozinho no escuro? É por isso que Theodore dorme no seu quarto, Auguste?" — indagou Laurent, movendo a sua cabeça para fitar o irmão.

Laurent estranhara ver o criado de manhã no quarto do príncipe herdeiro, tendo o cabelo despenteado e a jaqueta esquecida no espaldar de uma cadeira. Laurent, quando pequeno, tivera uma ama que dormia em seu quarto, mas isso acontecera somente até os seis anos. Auguste estava com vinte e um.

Auguste assentiu.

"Exatamente! Sou um grande medroso e, por isso, Theo foi dormir comigo. Só peço que não conte para todos que sou um medroso..."

Laurent se voltou:

"Você não é medroso! Um tanto chato sim, mas nunca covarde. É corajoso! Vou fazer o possível para ver o seu treino de espadas. Mamãe disse que Herode e o nosso tio também estarão lá..."

Auguste acarinhou a cabeça do irmão, despenteando-o um pouco.

"Eu sou chato?"

"Bastante!" — respondeu Laurent, passando as mãos por seus cabelos desalinhados e os assentando.

"Aposto uma moeda de ouro que não vai conseguir convencer o velho Petrov a dar uma aula prática para você no pátio de treinamento..."

"Aposto uma moeda de ouro e uma corrida de cavalos no domingo que ele vai sim. Você já perdeu dinheiro antes comigo, cabeça de batata!" — concluiu Laurent, erguendo-se.

"Aceito a corrida de cavalos no domingo desde que não seja na primeira hora do dia e desde que me espere no Grande Salão, irmãozinho."

Depois que os dois príncipes se despediram, Laurent seguiu para a aula de vaskiano na torre oeste, da qual alguns jovens cortesões participavam. O professor era um homem de idade avançada.

Na aula, o mestre pedia que os seus pupilos fizessem frases com palavras que ele escrevera em um pedaço de papel e seriam sorteadas de dentro de um saco.

Vannes, que era uma nobre de catorze anos e já falava o vaskiano fluentemente, ajudava o tutor em algumas tarefas com as crianças. Ela era a única menina presente na sala de aula porque as turmas veretianas não eram mistas. Uma serva sua se mantinha à porta, respeitando o decoro de Vere.

Um dos garotos de pele morena que Laurent achava, particularmente, o garoto mais bonito entre os seus colegas, fitava Vannes sentada de pernas cruzadas. O seu olhar era interessado, a despeito da jovem não lhe retribuir qualquer atenção.

Os meninos, após sortearem a palavra do saco de pano que circulava pela sala de aula, tiveram um tempo para pensarem em sua frase.

"Ayaldir düynnödogir eŋ kooz güldör..." — falou o menino de pele morena, erguendo o papel com a palavra 'flor' escrita e o olhar inclinado ainda em direção à Vannes, que, por sua vez, girou os olhos nas órbitas— "A mulher é a flor mais bela do mundo..."

"Svolokztar talaadagınar çegirtkedey." — riu-se outro menino, erguendo a palavra escrita 'gafanhoto'— "Bastardos são como gafanhotos em uma plantação."

Houve um burburinho entre os alunos e algum enrubescer porque a palavra 'gafanhoto' não era um palavrão em Vere, mas a palavra 'bastardo' sim. Vannes fez uma careta de desgosto e virou a página do livro que lia.

Petrov, o professor que era vaskiano, não se doeu tanto pelo vocábulo inadequado.

Enquanto o professor indagava os outros alunos sobre as suas frases formuladas, Laurent viu o menino moreno perguntar ao outro em vaskiano bem baixinho:

"Emne'ge mynday dedaiŋ?" (Por que falou aquilo?)

"Antkenit bizor çoŋoygondo Vannes emes, seyn meni minesoiŋ. Aga turmuşka çıksalar dagı eç nerse almak emes. Al kiska, eşek jakşı köröt. Birov sen maga jagat." (Porque quando crescermos, você vai me montar e não a Vannes. Nem se se casasse com ela ia conseguir algo. Ela gosta de boceta, bestão! Mas eu gosto de você.)

"Zal na:i buzup jatat!" (Vai se foder!) — replicou o menino moreno, parecendo contrariado.

"Meni menen kelet!" (Vem junto comigo!) — sussurrou o outro.

Um forte rubor subiu pelas bochechas do menino moreno, que levou a mão à cabeça e a enterrou em um livro. Laurent franziu o cenho, entendendo cada palavra da conversa. Aqueles dois garotos falavam muitos palavrões durante a aula e, às vezes, faziam coisas com as mãos sob a mesa quando o professor não estava olhando.

A rainha não gostava que Laurent e Auguste fossem bocas sujas, apesar de ela o ser quando se aborrecia com Aleron, fazendo o rei fechar a porta para que os criados não a ouvissem.

Movendo-se com as mãos para trás, o tutor caminhou até a frente e, finalmente, indicou Laurent.

"Quer nos contar qual foi a palavra que sorteou, Alteza?"

Um silêncio se fez na sala porque, afinal, tratava-se do príncipe.

Laurent olhou com falsa inocência ao seu redor, girando o papel e mostrando a palavra "coração".

O menino pestanejou, então, os seus cílios claros e fingiu aturdimento.

"Senhor Petrov, eu não estou conseguindo formular a minha frase. Eu queria dizer 'Enfiar a espada no coração de alguém...'"

O professor ergueu o seu olhar castanho, surpreso.

"Uma frase simples, Laurent, mas, talvez, um pouco sombria para essa hora do dia. Pode tentar outra frase..."

Laurent baixou o seu olhar azul sob a atenção do tutor e de seus colegas. Depois, ergueu o rosto, fingindo algum desespero em sua expressão.

"Atirar uma flecha no coração de alguém... Professor, eu não consigo dizer isso também..."

O homem vaskiano passou a mão pelo seu rosto, indagando:

"Por que afinal quer enfiar algo no coração de alguém, Laurent? Tente outra frase!"

Laurent moveu os seus olhos.

"Que o meu coração seja o meu escudo..." — murmurou ele, fingindo desalento ao folhear as páginas do seu caderno — "Eu não estou sabendo as palavras! Eu não sei formular mais em vaskiano nem mesmo o poema favorito de minha mãe! Eu não sei nada!"

Do outro lado da sala, Vannes mordia os lábios, prevendo uma jogada de Laurent. Ela não sabia qual, mas aquela pestinha de nove anos sempre tinha uma jogada em mente.

O professor, expressando uma dose de preocupação, deu dois tapinhas no ombro do aluno.

"Calma, filho... Fale as palavras de que se lembra!"

"Svolokztar, meni em kiska..." (Bastardos, montar e boceta) — declarou Laurent com uma falsa expressão de derrota.

Uma explosão de risadas se fez na sala de aula e o professor enrubesceu intensamente diante dos alunos.

"Alteza, isso é..."

"Meu pai vai ficar aborrecido, senhor Petrov! Ele me fez aprender vaskiano para eu saber a linguagem militar e poder ser um embaixador do meu irmão. Será que a imperatriz vai declarar guerra a Vere se eu disser isso?"

Vannes tinha os olhos lacrimejando devido à vontade de rir. A sua mão se fechava na boca.

Petrov moveu o rosto com solenidade.

"Não pode dizer nunca essas palavras para a imperatriz Betthany, Alteza!"

Laurent moveu o seu rosto, fingindo estupidez. Muito cedo em sua vida, ele percebeu que alguém esperto podia se fingir de estúpido, mas nunca o contrário.

"Não?! Então, talvez eu tenha que fazer uma revisão das palavras militares."

"Laurent, isso é sério? Você é um dos nossos melhores alunos..."

O garoto coçou a sua cabeça loira.

"Tenho dificuldade de memorizar as palavras em sala de aula, professor. Talvez ao ar livre. Podemos fazer uma aula prática no pátio de treinamento? Lá, creio que haja muita inspiração militar. Espada, flecha e escudo... Por favor, me diga como é!"

Uma hora depois, quando Auguste adentrou o pátio da área leste, ele observou um grupo de crianças sentadas nos bancos de pedra. Entre os pequenos, estava o seu antigo professor de vaskiano, Petrov, e Laurent, com um olhar vitorioso ao apontar discretamente o indicador para a palma de sua mão onde cabia perfeitamente uma moeda de ouro.

Aleron e Hennike estavam sentados elegantemente em cadeiras de espaldar alto que foram trazidas. O rei, se antecipando em beijar a face do seu filho mais velho com uma adoração paternal, disse, gesticulando em direção a Laurent:

"O tutor de vaskiano falou que queria revisar algumas palavras e verbos de cunho militar em sua aula. Que o ar livre inspira o aprendizado dos pequenos. Achei uma ideia excelente! Petrov, de fato, é o melhor mestre de Vere! Convidei a todos para assistirem ao seu treino..."

Auguste sacudiu a cabeça, sentindo-se mais envergonhado diante das crianças do que diante do capitão da tropa de seu pai e dos soldados que o veriam.

Theodore, nesse instante, veio da cozinha, trazendo refresco de uva para as crianças e pães de damasco em uma bandeja redonda prateada.

O colega de Laurent, que perturbava o menino moreno, cutucou o seu flerte e murmurou baixinho em vaskiano:

"Hanzaadan:in süygön adamıt! Biz dal uşunday bolobuz!" (O amante do príncipe. Seremos exatamente assim, você e eu!)

O menino moreno ruborizou, mas não protestou quando o outro encostou a cabeça em seu ombro. Laurent franziu o cenho, estranhando aquelas palavras.

"Meu pai disse que Auguste gosta de mulheres e que se entorpeceu e dormiu com algumas patranas na campanha fora dos territórios de Vere há cinco anos atrás. Já o vi flertando com uma nobre de Acquitart."

"Pode ser que goste. Mas foi pelo jovem Velaine Levefre que ele sofreu tanto, segundo dizem. E, agora, vive grudado nesse escravo aí! Afinal, se o príncipe Auguste gosta tanto de mulheres, por que não se fala em tratados de casamento? Vere ainda não escolheu uma futura rainha."

"Meu pai disse que a imperatriz Betthany de Vask ofereceu a imperatriz herdeira Vishkar para uma aliança de casamento com Auguste."

O outro menino abafou uma risada de deboche.

"Vask está leiloando tudo o que tem para se manter na guerra. Quem vai querer uma aliança de casamento com uma nação do leste e ganhar de presente uma guerra com Patras? Vere não quer saber de Vask."

Laurent pestanejou, repassando as informações daquela conversa.

Theodore, amante de Auguste? Aqueles dois cabeças de batata? Os seus colegas estavam loucos. Eles só eram amigos.

Quando o mestre espadachim de Auguste chegou, ele trajava também a sua armadura e trazia a sua espada com a lâmina reluzente.

Laurent viu o seu tio, acompanhado do conselheiro Herode, sentar-se numa das cadeiras de espaldar alto e Hennike se mover com desconforto em seu assento. Petrov murmurava palavras em vaskiano como espada, luta, pátio de treinamento, armadura, nas quais Laurent apenas fingia interesse. Ele já conhecia todas.

As crianças se boquiabriram quando um soldado trouxe uma venda para Auguste que foi amarrada em seus olhos. Depois de vendado, Auguste brandiu a sua espada com habilidade sobre o ombro.

Laurent não imaginara que a luta de espadas de Auguste com o mestre espadachim se daria com os olhos vendados. Com um rosto transbordando orgulho, Aleron se voltou para trás, dizendo:

"Essa é uma tática que Auguste e o mestre dele desenvolveram sozinhos. Observem apenas!"

Herode, que movia a sua cabeça com aprovação, murmurou:

"Auguste, definitivamente, é a Estrela de Vere. Ele nasceu para ser rei e governar! As suas técnicas de combate são muito superiores."

O Regente, que ainda não era regente, sustentava um olhar ininterrupto nos movimentos de Auguste e no rosto de Hennike, que, por sua vez, ostentava um sorriso enviesado em sua direção.

O modo de Auguste se movimentar era correto, preciso e a sua defesa era impecável. O brandir da sua espada alternava entre a delicadeza de um florete e o peso de um machado. Era uma obra de arte o príncipe e o seu mestre se movimentando sob o sol, entrelaçando as lâminas de suas espadas em um tilintar metálico. A venda para Auguste era somente um impedimento sem importância, que, no máximo, o fazia inclinar um pouco o rosto, entreouvindo ruídos, sem perder o vigor de seus golpes.

O seu corpo se movia sem visão, mas pressentindo cada movimento. Atacando e defendendo. Conduzindo a sua forma pesada e reluzente de metal sob a luz.

Tap tap. O seu rabo de cavalo claro e comprido girando com o seu corpo, com os seus pés em meio ao vento. Tap tap.

A queda no chão e o rolar sobre a serragem. O levantar imediato. O tombar só ratificava ainda mais a ascensão do príncipe herdeiro no auge de seus vinte e um anos. O herói forjado sem erro em metal e coração.

O golpe final em que Auguste apenas tocou com a espada numa área vulnerável de seu mestre foi dado com uma explosão de palmas e gritos de aprovação. Laurent, boquiaberto, aplaudia o irmão como se o visse sob uma nova luz. O tio de Auguste, mais afastado, fazia o movimento discreto de congratulação, sem nem mesmo despir as luvas.

"BRAVO!" — disse Aleron, se levantando para abraçar o filho, com orgulho em cada canto das suas linhas de expressão — "Bravo, Auguste! Isso foi incrível!"

Hennike também ostentava um olhar feliz quando beijou a face de Auguste, segurando o seu rosto entre as mãos de dedos compridos.

"Um autêntico futuro rei!"

Theodore se mantinha discreto e se limitou a sorrir com o rosto corado quando Auguste olhou em sua direção, logo após retirar a venda dos olhos.

Laurent se moveu até o irmão, então, após um tempo, deixando o seu tutor e os colegas conversando. Ele se dirigiu a Auguste, um pouco hesitante.

"Acho que te devo uma moeda de ouro, batatinha, e vou perder de novo para o seu cavalo no domingo!" — falou o rapaz com o seu rosto bonito. Fios de cabelo muito claros se desprendiam de seu rabo de cavalo comprido.

"Auguste, você é... incrível!"

Havia uma admiração genuína no olhar de Laurent. Ali, diante dele, estava o futuro rei de Vere e não mais o seu irmão desleixado, cabeça de batata e que não conseguia acordar cedo sem reclamar. Subitamente, Laurent percebia que eles não tinham a mesma idade e Auguste era um homem enquanto ele ainda era um menino.

Sorrindo, o rapaz se ajoelhou diante do irmão.

"Fico feliz que você tenha vindo, Laurent. Tendo a sua aprovação, podemos seguir com o nosso plano então?"

"Sim. Você vai ser o rei e eu vou ser o seu embaixador poliglota e esperto. Vamos dominar Akielos!"

"Certo!" — disse Auguste, piscando o olho— "Mas você tem se saído bem nos treinos de espada. Pelo menos, não vou ficar preocupado quando você tiver que ir ao estrangeiro estabelecer tratados."

Laurent se deteve por um segundo, observando o irmão.

"Como você consegue lutar sem enxergar?"

Auguste sorriu como se esperasse já a pergunta do menino.

"Com o coração, batatinha."

Laurent contraiu as suas sobrancelhas.

"Jürök?" — disse ele a palavra em vaskiano, apontando para o peito — "Como se luta com jürök?"

Auguste respirou fundo, ajustando a gola da roupa do seu irmão que se abrira quando ele correra.

"Você sabe que eu tive um grande amigo que morreu muito cedo, não sabe?"

Laurent assentiu.

"Velaine, não foi?"

Auguste fungou, ajustando a túnica do irmão e erguendo as retinas circundadas de azul.

"Sim. Eu o amei de verdade. Amei tanto que achei que não pudesse mais sentir tanto amor assim por mais ninguém..."

"Amou ele mais do que o papai e a mamãe? Mais do que a mim?"

"Amei ele de uma forma diferente, Laurent. Amei tanto que quando ele se foi, eu achei que uma parte minha houvesse ido junto..."
Laurent assentiu, vendo a esclera de Auguste se avermelhar sob o sol.

"Mas você conheceu Theodore..." — disse Laurent com uma compreensão que ele mesmo não julgava possuir. As palavras simplesmente saíram.

Auguste ruborizou, assentindo.

"Sim. O coração pode ser o ponto fraco de um homem, Laurent. Mas pode ser o seu ponto forte também. Quando eu me deixei morrer junto com Velaine, meu coração se tornou um peso e eu não conseguia sentir apreço nem por mim mesmo. Nem por nada. Mas, com o tempo, o meu coração se tornou leve novamente."

"Por causa de Theodore?" — indagou Laurent, erguendo as sobrancelhas.

Auguste sorriu.

"Por causa de mim mesmo, batatinha. Por eu me lembrar de que ainda estava vivo e que deveria seguir em frente... E por perceber que havia pessoas que dependiam do meu bem-estar. Isso, estranhamente, me deixou leve, apesar do peso do título de um príncipe herdeiro. Tão leve que o meu coração pode me guiar agora... Ele pode enxergar por mim e eu posso sentir amor por tudo ao meu redor."

Laurent moveu o seu rosto, parecendo não compreender.

"Como o seu coração pode guiá-lo?"

"Com o silêncio. E com a calma. Você pode procurá-lo dentro de você. Pode encontrar a sua sabedoria e poder com o coração. Pode enxergar as coisas de um modo... diferente."

"A minha mente me guia, Auguste! Ela é sábia. Ela fala comigo o tempo todo. Até mesmo quando estou dormindo."

"Um rei precisa de uma mente aguda para governar, batatinha. Mas ele precisa de um coração pulsante para dá-lo um pouco ao seu povo... Às vezes, o coração sabe mais do que a cabeça, irmãozinho. O meu mestre e eu pudemos comprovar isso por meio da esgrima."

Laurent sentiu o vento soprar em seus cabelos, desalinhando a sua franja. Com uma constatação, ele disse:

"Você nasceu para governar, Auguste. Eu não sou como você!"

Auguste colocou a mão no ombro do irmão.

"Somos irmãos, Laurent. Governaremos juntos. Precisarei da sua astúcia ao meu lado e conto com você. Seria assustador se eu não tivesse você, se estivesse sozinho..."

Laurent segurou a mão de Auguste.

"Creio que, como embaixador real, eu tenha que viajar bastante. Você deve me ver somente uma ou duas vezes ao ano porque eu vou estar enfurnado nas bibliotecas estudando mapas e em outros reinos, discutindo política."

Auguste sorriu, esticando a mão e tocando o peito do seu irmão.

"Eu vou lá te pentelhar, batatinha. Mas se a gente ficar muito tempo afastado, pode me ouvir aqui... Jürök. Aqui, eu vou estar sempre falando com você."

Laurent moveu o rosto, fitando os seus pais conversando com o professor de vaskiano. Herode se juntara ao grupo. Theodore recolhia as taças de refresco das crianças.

"Você ama Theodore?"

Auguste, ruborizando, baixou o seu olhar por um segundo, antes de erguê-lo e dizer, assentindo:

"Amo."

Laurent também assentiu, lembrando-se que Theodore estava ao lado de Auguste desde que ele se recordava.

"E Velaine?"

"Guardarei a lembrança dele para sempre no meu coração. Velaine foi alguém muito especial em minha vida, Laurent. Mas os vivos precisam seguir em frente. Você é ainda muito criança para entender, mas o amor sempre te encontra de uma forma ou de outra e você não deve fugir dele... Você não pode viver a vida, evitando a vida, Laurent."

"Auguste, você está ficando cafona!"

O príncipe herdeiro sorriu, erguendo-se sobre os seus calcanhares.

"Certo, Vossa Alteza malcriada! Vamos falar com o papai e com a mamãe!"

Auguste deu a mão para Laurent e os dois irmãos caminharam, cruzando o pátio. Laurent ainda olhou Auguste mais uma vez e disse:

"Você já cortejou mulheres patranas?"

Auguste fitou o irmão de volta:

"Quem te disse isso?"

"Cortejou ou não cortejou?"

"Algumas, sim."

"E Theodore no meio disso tudo?"

"Normalmente, eu prefiro estar com as garotas, mas Theo é especial. Isso mostra o quanto ele é diferente. E ele me entende quando... Bom, você é muito jovem ainda para lidar com esses assuntos."

"Você uma hora vai precisar se casar, Auguste..."

"Eu sei."

"Eu não vou me casar nunca. Você pode fazer herdeiros e governar e eu fico com os livros."

Auguste riu-se.

"Uma hora, você vai correr atrás das garotas também, batatinha."

Laurent girou os olhos nas órbitas, um tanto resistente. Depois, ele disse com uma renovada admiração, fitando o rosto do irmão entrecortado na luz do sol.

"Você é imbatível! É a pessoa mais forte que conheço! Ninguém pode derrotar você, Auguste!"

Auguste sacudiu o rosto com orgulho, dizendo:

"Creio que terei problemas se encontrar alguém que treine, usando o coração também... Os homens passionais são os mais perigosos."

Os dois irmãos se juntaram aos pais no instante em que o tio de Auguste e Laurent se aproximava de Aleron.

"Ah, aí está você, Auguste! Estava dizendo para Herode que você se tornou um guerreiro notável. Nem se parece com o rapaz debilitado e indisciplinado de pouco tempo atrás..." — disse o Regente, que ainda não era regente.

Hennike baixou o seu olhar como se saboreasse o gosto amargo das palavras e fitou o cunhado como se as cuspisse de volta.

"... Talvez você prefira permanecer no pátio de treinamento mais um pouco ao invés de participar da reunião. Creio que o melhor lugar para as suas habilidades seja justamente aqui..."

Hennike retrucou com um rosnado duro:

"Auguste é o príncipe herdeiro e não um soldado, meu cunhado! Ele estará onde o dever o chama. Talvez o senhor devesse permanecer no pátio e ele na reunião se julga aqui um lugar tão apropriado."

Houve um silêncio em que a dureza do olhar de Hennike descansava no seu cunhado. O homem a olhou de cima a baixo, forçando-se a sorrir quando, na verdade, a sua vontade era clara.

"Creio que entendeu mal as minhas palavras, Majestade..." — disse o homem com uma voz seca.

Auguste, ostentando alguma rigidez em seus movimentos também, disse:

"Meu tio, eu participarei da reunião e cumprirei com os meus deveres de hoje. Sabe que quero participar das negociações com Patras. E sabe que sou contra interferirmos na guerra deles com Vask."

O Regente, que ainda não era regente, retrucou:

"Mandar provisões para Patras é uma estratégia política refinada, meu sobrinho. Eu, como embaixador do seu pai, acredito que seja uma oportunidade de marcarmos nosso território em Ver-Vassel. Vask está por um fio há muito tempo."

"Ver-Vassel é um território vaskiano, meu tio, que sempre foi cordial conosco. Vask nunca nos atacou, mesmo sendo uma nação vizinha. Por que vamos dar munição para o seu inimigo agora?"

"Espera que observemos de fora, então, a guerra?"

"Espero que não interfiramos se isso significa tripudiar do lado mais fraco. Soubemos que os soldados de Vask estão lutando famintos em campo. Por que não ajudamos os dois lados então?"

"Sobrinho, você possui a teimosia dos reis..."

Hennike interveio com a sua voz mais seca do que nunca.

"Ele é um futuro rei e pode ser teimoso. E o senhor?"

Aleron e Herode intercederam na discussão breve de Hennike e do cunhado que se tornava cada vez mais comum. No fim, o homem, fingindo um tom magoado, disse:

"Tudo o que eu faço, Majestade, é pelo bem de Vere. Ninguém quer Aleron melhor do que eu. Ele é o meu irmão!"

"Ninguém o quer melhor do que o senhor..." — repetiu Hennike, estreitando o seu olhar azul.

Depois, o rei e a rainha se retiraram, dizendo que precisavam retornar ao palácio. Hennike estava preocupada com uma entrega de livros da biblioteca de Kempt que estava demorando mais do que o esperado. Alguns soldados recolhiam as espadas e arrumavam o pátio de treinamento. O professor Petrov e os alunos retornaram para a aula. Laurent voltou ao banco de pedra para buscar a sua bolsa de couro com os livros enquanto Auguste desapareceu com o seu mestre.

Quando Laurent atravessou o corredor mal iluminado da área norte, ele se deparou com o seu tio conversando com um mensageiro que o menino nunca vira antes.

O homem, na penumbra, disse em vaskiano:

"Kütkön adam Skarvadan keldi jana sizdi Belloydo kütüp jatat. Anı kaçan körösüŋ?" (A pessoa que espera já chegou de Skarva e o aguarda em Belloy. Quando o senhor irá ao seu encontro?)

"Tsɔî si gbɔna. Maɖo nya ɖe nye zɔhɛish." (Amanhã. Vou mandar avisarem o meu sócio.) — respondeu o irmão do rei, erguendo o seu olhar para o corredor com pouca luminosidade e se deparando com a figura entrecortada de Laurent.

Houve um momento de silêncio em que os únicos ruídos audíveis eram o barulho de espadas a alguma distância; o som de uma harpa; vozes e passos no chão de pedra. Também o canto dos pássaros que vinha dos jardins, os insetos e o latido de cachorros do quintal.

"Ah, Laurent..." — disse o homem, trocando um olhar tácito com o mensageiro e o dispensando — "Para onde está indo?"

"Vou voltar para a sala de aula. Tenho aula de História agora."

O tio colocou as mãos para trás, fitando o sobrinho.

"Certo. Estude bastante para se tornar um grande homem feito o seu irmão."

Laurent assentiu e se manteve diante do tio. O homem espreitou o sobrinho novamente, logo após espreitar o seu redor, e a qualidade do seu olhar se alterou.

"Com quantos anos você está, Laurent?"

"Com nove, tio..."

"Certo. Lembro de quando você ainda era um menininho. Sabia que a sua mãe fez questão de não aceitar visitas, fora Aleron e Auguste quando você nasceu e colocou guardas na porta do quarto dela dia e noite? Eu praticamente só conheci você com seis anos de idade."

Laurent sabia.

"Sim. Mamãe quase me perdeu no oitavo mês de gravidez e eu nasci prematuro. Ela ficou histérica, a ama Georgina disse..."

O tio se aproximou e a sua face foi tomada pela claridade do sol e pela penumbra do corredor.

"Sim. Mas você sobreviveu e se tornou um menino muito bonito..."

Laurent ruborizou, mexendo na alça da sua bolsa carteiro. Um formigamento lhe preencheu as faces.

"... Não precisa ficar tímido. Não há problema algum em um tio admirar a beleza de um sobrinho. Você é mais bonito até do que Auguste quando tinha a sua idade, sabia disso? Sua mãe não o ensinou a agradecer quando alguém lhe faz um elogio?"

Laurent afastou um inseto dos jardins que pousou em seu pescoço, afastando-o.

"Obrigado, tio."

O homem riu e deu um passo adiante. Somente um feixe de luz pálida repousava agora em sua face.

"Melhor assim. Escute, Laurent, já que nos encontramos, por que não falta hoje à aula de História e vem até o meu quarto para conversarmos...? São raros os momentos em que podemos desfrutar da companhia um do outro. Posso lhe ensinar História também. Contar sobre as minhas viagens. Sabia que eu já visitei os três outros reinos...?"

O menino ergueu o seu olhar, fitando o seu redor.

"Mamãe não gosta que eu falte aula, tio. E ela só me deixar ir ao Quarto Real."

"Podemos guardar esse segredo de Hennike. Creio que Aleron e Auguste ficariam aborrecidos também se soubessem que lhe dei um dia de folga. Você não quer que eles se chateiem comigo, não é mesmo...?" — disse o homem, se aproximando mais e o seu rosto foi tomado pelas sombras — "Um segredo de tio e sobrinho..."

Laurent estava parado em seu lugar. O seu coração se acelerou a ponto de doer e ele não entendeu o porquê. E, ainda sem entender o motivo, ele levou a mão ao peito.

"...Posso pedir aos criados que nos tragam alguns doces e refrescos. Sua mãe já deixa você beber vinho?"

Laurent sacudiu o rosto em um assertivo não.

"...Que tal experimentar vinho comigo então?"

O garoto sentiu um arrepio estranho atravessar o seu corpo quando o homem alto se abaixou diante dele. E o Regente, que ainda não era regente, tocou em sua franja com um gesto delicado. Depois, envolveu a sua nuca com uma mão um tanto pesada. Ele poderia puxar o rosto de Laurent para perto do seu a qualquer momento.

Os olhos azuis do Regente, que ainda não era regente, fitaram os olhos azuis do sobrinho e Laurent sentiu os seus músculos se contraírem. Ele apertou o seu punho porque o seu coração parecia querer gritar. E ele não sabia que sensatez havia em gritar perante o seu tio. Aquele era o irmão do seu pai. O embaixador real. O familiar que era para Aleron o que Laurent seria um dia para Auguste.

"Deus, como você é lindo! O filho de Aleron e de Hennike. Nós dois temos o mesmo sangue real correndo em nossas veias, sabia?" — murmurou o Regente, que ainda não era regente, com inveja, com vingança, com infelicidade, antevendo o prazer e sendo abjeto em seus pensamentos — "Nós dois somos príncipes..."

Nesse instante, passos foram ouvidos no corredor. Passos de botas e botinas. Vozes. O tio de Laurent se reergueu rapidamente e se afastou abruptamente do garoto.

Cruzando o corredor de quadrados de luz projetados pelo sol nas janelas, vinham Auguste e Vannes. Eles se detiveram no corredor mal iluminado, fitando o homem e o menino.

"Ah, aí está ele!" — disse a garota, fazendo um gesto de esticar a sua mão, como as tutoras faziam conduzindo as crianças — "Alteza, o professor mandou vir procurar por você!"

Auguste, ainda em sua armadura, franziu o cenho, olhando demoradamente o tio.

"Sobre o que estavam falando?"

"Sobre nada em especial, sobrinho. Estava apenas dizendo a Laurent que era importante ele estudar para se tornar um homem como o irmão." — replicou o tio de um modo tranquilo e sem transparecer qualquer emoção.

Laurent se antecipou e deu a mão para Vannes, que usava uma túnica de estudante e tinha os cabelos presos em uma longa trança.

Auguste encarou o homem e, depois, fitou diretamente o irmão.

"Certo. Vou acompanhar vocês até a sala de aula, Laurent e Vannes. Tio, o senhor não vai encontrar os conselheiros?"

"Sim. Peço licença..." — disse o homem, dando as costas para os sobrinhos e seguindo pelo corredor.

Laurent ainda se sentia desconfortável e o seu coração batia acelerado como batia quando acompanhava de longe os homens de seu pai em caçada em Chastillon.

Amiúde, uma passageira arritmia se abatia nele quando o menino se imaginava na posição do javali e não no lugar dos homens com lanças montados a cavalo, antevendo matança com cães uivando aos seus pés.

(cut)

A adaga atirada por Laurent atingiu o peito de Estienne com precisão na linha do coração, enterrando fundo o metal frio no órgão quente.

Com um som confuso, caiu morto o bajulador que oferecia ao príncipe passividade e silêncio dez meses antes de Laurent se tornar um rei, justamente no instante em que o jovem queria, em alguma instância sua, defenestrar e xingar.

Rapidamente, os olhos de Estienne se tornaram vítreos e a espada que ele erguia caiu ruidosamente no chão. Estienne tombou enquanto lorde Berenger e Ancel se arrastavam para trás, perplexos.

O soldado que escoltava o antigo nobre da corte de Arles pareceu tão surpreso pela morte de seu mestre que deixou o cacifo que segurava cair no chão. Imediatamente, moedas de ouro e prata com o perfil cunhado de Laurent rolaram sobre a madeira, entoando um tilintar de metal. O soldado debandou, correndo, então, para o alçapão aberto no canto do ringue e sumindo em suas entranhas feito um verme na terra revirada.

Damen enfiou a espada em um guarda vaskiano, vendo Laurent se juntar a Jord e abater alguns soldados remanescentes. Havia um incontido orgulho pairando no olhar do rei de Akielos. Orgulho do homem que amava. Orgulho do homem que seguia como rei. Orgulho não era bem a palavra. Era possível ele se apaixonar por Laurent novamente?

Mesmo Nikandros, entrechocando a sua espada com a de um dos soldados, soltou um arquejar que parecia um ruído de alívio. De júbilo. Por muito pouco, os seus companheiros da noite, que não eram homens treinados no campo militar, não foram atravessados por uma espada. Lorde Berenger e Ancel estavam vivos. Era difícil não se apegar a eles. Era difícil não gostar daqueles benditos veretianos tão diferentes dos akielons.

Lorde Berenger, ainda sentado sobre o chão do ringue, tocou o rosto de Ancel, que se mantinha catatônico, fitando Estienne morto no chão.

"Você está bem? Ancel..."

"Berenger..." — choramingou Ancel, levando a mão ao rosto e sendo abraçado pelo mestre entre soluços— "Aquele desgraçado fofoqueiro do Estienne tentou nos matar... Aquele puto arrombado!"

Após algum aturdimento concedido a si mesmo, o cortesão veretiano retirou a sua jaqueta e se pôs a tentar apagar o fogo que se alastrava sobre as almofadas, puxando Ancel para o seu lado. Berenger precisava fazer algo racional e banal. Era vital para ele não desmoronar sob o peso da morte que o circundara. Um soldado veretiano, vendo-o, pôs-se a ajudá-lo.

A contenção dos jardins se deu com a chegada da tropa akielon, que realizou desarmamentos e prisões.

Nikandros pode, finalmente, se apoiar em uma parede, embainhando a sua espada e afrouxando os laços atravessando ilhós de sua roupa.

"Está tudo sob controle agora..." — arquejou ele.

Makedon, que adentrara os jardins, chutando tonfas com as suas sandálias de couro curtido, disse:

"Nunca pensei que em vez de lutar em um campo de batalha, teria que lutar num puteiro, prendendo nobres com os paus para fora; mulheres com peitos à mostra; putos e vaskianos com essas porras de tonfa que machucam um bocado... Me convide para o seu próximo aniversário, Laurent de Vere. A capital do seu país faz Ios parecer um templo de sacerdotes."

Damen correra para abraçar Laurent, antecipando-se em tocá-lo no estômago.

"Como está se sentindo?"

"Com dor."

O rei akielon puxou o rosto de Laurent para o seu peito e lhe beijou a fronte, sem se importar com as pessoas ao redor. Quando Damianos e Laurent se afastaram, Nikandros fez um gesto de cabeça para Laurent, que parecia ser um cumprimento respeitoso.

Lorde Berenger e Ancel caminharam até o rei de Vere e, juntos, dobraram os seus joelhos diante do monarca veretiano. Laurent fez o movimento dos seus dois dedos.

"Levantem-se! Eu nunca deveria ter dado uma segunda chance para Estienne. Ele não merecia piedade. De alguma forma, eu sou responsável por isso e pela situação em que coloquei vocês dois..."

A noite seguiu com os soldados veretianos e akielons reconhecendo o prostíbulo. Os guardas descobriram mais oito passagens secretas no andar térreo que desembocavam num armazém abandonado atrás dos mercados. Os escravos que se encontravam no subsolo foram trazidos para a superfície e o estado deles se apresentava cadavérico e doentio. Completamente inumano. Quatro já estavam mortos.

"Leve-os para Paschal. Vamos precisar de médicos e de boticários da cidade para ajudá-lo. Mande alguém buscá-los na primeira hora do dia." — dissera Laurent a um de seus homens.

A alimentação precária dos escravos era feita por um duto no segundo andar em que a comida era descida por uma corda em uma bandeja. Havia um salão de banho subterrâneo também em um estado degradante.

"Majestade, apreendemos seis cachorros com os guardiões de escravos que vigiavam a casa. Eles são bravos e estão com sinais de maus-tratos. O que faremos?" — indagou Pallas, com um pano encharcado de sangue envolvendo a sua mão.

"Vamos levá-los para o palácio. Os portões precisam de cachorros para vigiá-los. O treinador real pode cuidar deles..." — e, descansando o seu olhar na ferida de Pallas, Laurent acrescentou — "Você está dispensado por hoje. Vá para o palácio ver Paschal. É uma ordem."

O soldado akielon olhou para Damianos, esperando a sua anuência e quando o rei ergueu os seus dedos, ele obedeceu.

A operação seguiu por mais arrastadas horas. Os interrogatórios seriam longos e se dariam no dia seguinte. Estienne, o principal informante do lugar, estava morto e as informações contidas nele silenciadas com uma adaga.

Antes de partirem, Laurent se posicionou diante da mulher que os recebera na entrada do prostíbulo e do apresentador de ringue patrano, ambos algemados como os escravos.

Durand havia fugido com os seus companheiros e o escravo de estimação Toby, utilizando muito provavelmente alguma das passagens secretas. O homem que conduzira Damen até Estienne e o escravo chamado Kato que os delatara, também haviam desaparecido.

"Majestade..." — disse a mulher com olhos oblíquos de deboche.

"Cale a boca! Não lhe dei permissão para me dirigir a palavra."

Mas a mulher não se calou e, estreitando o seu olhar, disse:

"Vai mandar os seus homens me torturarem para arrancar confissões? Ou vai me tratar com a piedade que está tendo com os malditos escravos presos?"

Laurent se voltou para ela e retrucou:

"Vou tratá-la com a generosidade que merece. A senhora não é uma 'maldita' escrava. Vai lamentar por isso hoje."

A mulher engoliu em seco.

Damen franziu o cenho quando viu Laurent tocar no ombro de Huet, dizendo laconicamente:

"Sabe o que tem que fazer."

Huet fez um gesto de assentimento e saiu levando os prisioneiros embora.

Quando Damianos, Laurent, Nikandros, lorde Berenger e Ancel retornaram para o palácio na carruagem conduzida pelo velho cocheiro Jean, o céu não estava mais tão escuro e se coloria em um tom rosado, salpicado por poucas estrelas.

Ancel dormia com a cabeça apoiada no ombro de lorde Berenger, que, em silêncio, observava a paisagem do lado de fora, digerindo os acontecimentos da noite.

Nikandros se mantinha com a sua postura nobre, em silêncio. Laurent estava envolto na capa de Damen, que, por sua vez, segurava a sua mão e tinha marcas escuras em suas pálpebras. O cansaço se abatia sobre todos.

O grupo seguiu pelos corredores desertos quando alcançaram o palácio, rumando em um silêncio justificável. Havia muito para se pensar. Muito para se dizer. Mas em outro momento certamente.

Os caminhos que levavam aos aposentos se dividiam em um corredor e todos prosseguiriam para os seus respectivos quartos se não cruzassem o saguão em que os nobres vaskianos estavam hospedados e se deparassem com a imagem de Pari de Skarva e Sorem de Ver-Tan discutindo com os rostos muito próximos.

"Acha que pode vir para Vere e agir dessa forma, Pari? Quer que eu conte para Vishkar sobre o escorpião que ela acolheu como esposa? Você devia ter ficado em Skarva, seguindo com o seu dever!" — disse Sorem, trajando uma túnica de dormir.

"Você não devia desconfiar de mim! É detestável ter vindo se esgueirando de Skarva até aqui, Sorem! Vishkar está uma fera! Eu vim porque ela me ordenou! Se tentar fazer algo contra mim, não vou perdoá-lo, ouviu bem?"

"Acalme-se e meça as suas palavras, Pari! Você está descontrolada! Sabe que haverá consequências se agir dessa forma em Arles. Não se esqueça da sua lealdade ao império e não se esqueça de que você é só uma quarta esposa porque eu permiti que fosse!"

Damen, Laurent e os outros se mantinham parados, observando sem serem ainda percebidos pelos vaskianos que discutiam. A briga estava acalorada e, num momento de revolta, Pari ergueu o punho no ar para agredir o homem.

Ela não lhe daria uma bofetada, mas um soco. A raiva contorcia o seu rosto e parecia conseguir o impossível: tornar-lhe feia.

"Boa noite!" — interveio Laurent, se fazendo notar.

Pari segurou o seu punho no ar, em dúvida se batia em Sorem ou não. O homem se encolhia um pouco diante da mão fechada e fez um gesto solene para os reis de Vere e de Akielos quando a mulher, finalmente, se afastou, batendo o pé no chão.

Laurent prosseguiu com a sua fala impessoal:

"...Pouco me interessa o desentendimento de vocês dois, mas se vão prosseguir com baixarias, estou razoavelmente curioso em saber sobre o que tudo isso se trata."

Sorem e Pari se olhavam como se estivessem presos em algo. Um ódio mútuo. Um ódio secreto. A mulher ainda tinha o punho fechado ao lado do corpo.

Qual dos dois ia começar a falar primeiro não foi possível saber, visto que a imperatriz Vishkar surgiu atrás da comitiva de Laurent, dando um susto em Ancel com a sua voz forte. Ela tinha um cigarro entre os lábios e um jarro em suas mãos. Trajava roupas masculinas vaskianas.

"O que está acontecendo aqui?"

Laurent ergueu uma sobrancelha.

"Era exatamente o que eu estava me questionando."

Um novo silêncio se fez e foi Sorem que moveu o seu rosto com um gesto de desculpa, após fitar longamente os reis. Damen percebia a si mesmo e os outros com roupas inusitadas que chamavam alguma atenção.

"Me perdoe, Majestade. São desentendimentos familiares pouco importantes. Nada que mereça a sua atenção. Queiram me dar licença."

De cabeça baixa, Sorem partiu para o claustro que levava ao quarto de Audin, muito possivelmente, não querendo lidar com a imperatriz que o fitava agora com a expressão de um leopardo com fome.

Vishkar fez um gesto com o queixo para Pari se posicionar ao seu lado e dedicou alguma atenção ao conjunto que formava a comitiva de Damianos e de Laurent. Por fim, disse:

"Boa noite. Ou devo dizer, bom dia?"

"Passeando pelo meu reino como se fosse o seu palácio em Skarva, Vossa Majestade Imperial?"

A mulher tocou em seu queixo.

"Posso? Ou sou uma prisioneira feito o pequeno leopardo Afanas?" — e, erguendo o seu olhar para o kyros , ela disse — "Olá, Nikandros!"

O kyros de Ios, por um segundo, pareceu ruborizar, respondendo ao cumprimento da imperatriz do reino vizinho com quem ele tomara banho e que o instruíra como satisfazer a sua esposa.

"De onde vem?" — inquiriu Laurent, sem meandros.

"Fui até a delegação patrana buscar um pouco de vinho de cevada. Eu e Pari estamos nos divertindo um pouco..." — Vishkar se justificou.

Laurent deu um passo à frente, pondo fim ao encontro.

"Certo. Estamos com sono. Lorde Berenger, Ancel, estão dispensados. Obrigado por hoje."

O cortesão e o escravo de estimação fizeram uma reverência, se afastando. Ancel, no entanto, antes de partir, deu uma bela olhada em Pari de Skarva, dizendo:

"A senhora fode com vontade. Vi a senhora, Nikandros e Isander ontem. Nunca havia visto uma mulher foder com um homem, o que dirá com dois. A senhora deve ser a melhor de Vask. Mas eu sou o melhor de Vere."

Lorde Berenger levou a mão ao rosto, envolvendo, em seguida, a cintura do rapaz. Pelo menos, após o susto vivido, Ancel já voltara a ser o mesmo.

"Ancel, meu bem, vamos indo..."

Pari de Skarva fitou o escravo de estimação, talvez não entendendo o seu veretiano rápido e, em seguida, seu olhar azul pousou em Laurent.

"Sua Majestade está muito bonita! Por que está maquiado feito um escravo de Vere?"

Laurent respondeu com secura enquanto Vishkar o olhava de cima a baixo:

"Porque Damianos gosta de mim assim."

Damen arregalou os seus olhos, diante da menção ao seu nome e fitou Laurent com indignação. Mas se manteve calado, abaixando a cabeça.

Pari moveu o rosto bonito com alguma compreensão, dizendo:

"Ah, entendo..."

Vishkar deu uma tragada em seu cigarro e disse com um tom espirituoso.

"Vejo que não somos somente Pari e eu que perdemos o sono..."

Laurent redarguiu com rispidez.

"Vejo que perderá o sono também amanhã, após nos reunirmos, Vishkar. Meu mensageiro procurará a senhora e o rei Torgeir durante a manhã para lhes deixar a par da agenda. Nos reuniremos no fim da tarde para discutirmos um assunto de extrema importância política. Sugiro descansar para se preparar para o pior. Boa noite!"

Vishkar abriu a boca para indagar algo, mas Laurent já avançava pelo outro corredor, sendo seguido pelos akielons.

Quando os reis chegaram ao Quarto Real, Damen se sentou por um instante na poltrona de Laurent.

"Você vai expulsá-los do palácio?"

O veretiano despiu a capa que trajava, atirando-a em um canto.

"E cavar uma guerra política, acusando-os sem provas? Precisamos ouvir os relatos dos prisioneiros primeiro, mas Vask e Patras precisam se responsabilizar pelos escravos traficados de seu reino."

Damen apoiou os cotovelos em seus joelhos.

"Havia homens armados com tonfas, que são as mesmas utilizadas pelo exército vaskiano. O prostíbulo e o ringues era financiado por Vask..."

"Acusar a imperatriz de um crime assim, sem provas, acarreta problemas diplomáticos graves, Damianos. Uma ruptura com Vask é uma perda de rotas comerciais e tratados antigos sólidos..."

"Quem teria poder para investir ouro em algo tão ilícito em uma terra estrangeira? Devemos, então, permanecer passivos, dividindo o palácio com suspeitos em potencial...?"

Laurent sacudiu o rosto, aproximando-se da sacada de seu quarto.

"Não. Eu me aproximarei de Pari de Skarva amanhã e você, por segurança, do imperador. De alguma forma, acho que os dois são mais acessíveis do que aquela raposa da Vishkar..."

"Certo. Sondaremos, então, se o império possui algum tipo de envolvimento..."

Laurent pestanejou os seus olhos azuis.

"Sim... Porque, de alguma forma, isso me parece muito simples ainda. Homens vaskianos defendendo um chefe de prostíbulo..."

"Estienne dispunha de muitas informações."

"Estienne não merecia a atenção de um império, Damen..."

"Acha mesmo que é melhor não irmos atrás do nobre chamado Durand e tentar interrogar o escravo Toby?"

"Acho. Durand deve ter se escondido em algum canto feito um rato. Se mandarmos soldados e homens começarem a perguntar sobre ele, pode ser que ele suspeite de algo. Toby passou demasiadamente tempo comigo e com Nikandros e sabe de algo valioso. Mandarei alguém ir buscá-lo no ringue de Verona."

Os dois homens conversaram, então, com liberdade sobre os dados dos quais dispunham e que foram obtidos no decorrer da noite. Durante as suas narrativas, Laurent se sentou no braço da poltrona. Damen o observou por um tempo. O céu da madrugada estava completamente rosado agora.

"Você atirava sapatos em todos os homens que o cortejavam?"

Laurent deu de ombros.

"Naqueles que eram demasiadamente insistentes, sim. Eu disse não para Estienne desde sempre. Ele admirava a passividade em seus amantes e o poder nos seus governantes. Percebi muito claramente o arranjo dele destinado para mim. Além do mais, eu não o queria."

Damen segurou a mão de Laurent e a beijou.

"Eu não desejaria receber um sapato atirado em mim se eu o cortejasse..."

Em seguida, Damen tocou com as pontas dos dedos no brinco pesado que despontava do lóbulo de Laurent e sorriu.

"...Nunca pensei que o veria se passando por um prostituto novamente. Você e os seus disfarces..."

Laurent corou um pouco.

"Meus disfarces ainda funcionam. Eu usei um vestido para escapar de nossos inimigos na nossa empreitada há dois anos. Também me passei por um prostituto. E por um comerciante renomado."

"Uma história que os soldados akielons nunca esquecerão. Eles o acham desinibido, mas eu sei o quão comportado você é..."

Laurent cruzou as pernas.

"Você me subestima, Damen. Quando eu tinha dez anos, participei de um concurso de beleza com a turma das meninas da aula de vaskiano. Vannes e as outras garotas me maquiaram e eu vesti um vestido branco. Eu fiquei em primeiro lugar e não era porque eu era o príncipe, garanto a você. Nunca contei isso para os meus pais e Auguste nem sonharia que a menina que ele viu sendo coroada no jardim era eu!"

Os olhos de Damen se demoraram em Laurent, arregalando-se brevemente.

"O que foi?"

"Nada. Você só me surpreendeu de novo."

Damen apertou o tecido da roupa de Laurent e o envolveu com os seus braços, fechando os olhos. Depois, descansou a cabeça em seu colo.

"Só um pouco... Me deixa ficar assim só um pouco. Você é muito forte. O modo como lidou com tudo hoje. Todas aquelas pessoas que vimos sofrendo no prostíbulo, Laurent... Aquilo foi perturbador..."

O veretiano respirou fundo, acarinhando os cabelos escuros de Damianos.

"Aquilo é Arles se refestelando na podridão deixada pelo meu tio..." — disse o veretiano, detendo-se um pouco em seu afago — "Você gostou de matar Adrastus?"

Damianos ergueu a sua cabeça diante da menção ao nome do antigo chefe dos guardiões de escravos de Ios que traíra o seu reino.

"Não posso mentir para você. Foi muito prazeroso quando senti o pescoço dele quebrando sob a minha mão..." — declarou Damen, permitindo-se uma honestidade lúgubre.

Laurent assentiu e, levantando-se, declarou:

"Foi um prazer matar Estienne também, apesar de eu ter perdido o meu principal informante. Mas eu devia alguma gratidão a lorde Berenger por se arriscar e a Ancel por lutar no ringue em meu lugar..."

Damen, com os olhos fechados, apoiou a cabeça no espaldar da poltrona.

"Vou fingir acreditar que não teria protegido os dois, mesmo que não devesse a eles coisa alguma. Você não ficaria observando lorde Berenger e Ancel serem mortos..."

Laurent se pôs a remover os brincos das orelhas com a elegância de uma cortesã que volta de uma festa.

O olhar de Damen se demorou nele. Havia ainda uma pergunta que ele queria fazer ao veretiano. Estiennne mencionara um homem íntimo da rainha Hennike. Mas o akielon não encontrava forma de perguntar a Laurent se a mãe dele dava a volta no pai, sem soar ofensivo.

Um tanto sem jeito, Damen começou:

"Laurent, por um acaso, havia algum homem que fosse próximo à rainha Hennike e pela qual o seu pai tenha se sentido enciumado a ponto de pensar em romper o noivado dele com Kempt?"

Laurent se voltou, fitando Damen e perguntando com impessoalidade, sem meandros:

"Você quer saber se a minha mãe passava o meu pai para trás?"

Damen assentiu ainda sem jeito.

"Não, Damen. A minha mãe era fiel ao meu pai, assim como o meu pai não andava atrás de outras mulheres. Aonde quer chegar?"

Damen contou o que ouvira no prostíbulo e Laurent deu de ombros com uma curva desagradável no canto dos lábios.

"Isso são calúnias! A minha mãe era próxima de todo o Conselho, dos nobres e dos escravos porque ela era generosa e atuante na vida política de Vere. Nunca houve mácula dessa espécie entre os meus pais até onde eu sei. Essa pessoa que está querendo me tirar do trono anda a tecer calúnias da mesma espécie que teceram ao nosso respeito, Damen! Podiam pelo menos deixar os meus pais descansarem em paz!"

Damen assentiu, desfazendo os nós de sua jaqueta veretiana.

"Bom. Vamos tomar um banho para nos prepararmos para dormir. Em breve, amanhecerá."

Por um momento, Laurent se manteve fitando Damen que o observou em silêncio.

"... E eu atiraria sim um sapato em você também se insistisse em se aproximar de mim, caso as coisas fossem diferentes entre nós dois, Damianos, mas não tão diferentes a ponto de o Regente ainda existir."

Damen moveu a sua cabeça para a frente, fixando o seu olhar.

"Por quê?"

"Porque o meu tio sempre mantinha um olho nas suas coisas. Ele destruiria qualquer um que conquistasse a minha afeição. Me manter isolado fazia parte do seu plano pérfido. Ele o teria matado."

Damen sustentou o olhar de Laurent com a sua expressão sonolenta.

"Você nunca foi a coisa dele, Laurent, mas, nesse caso, haveria de ser um prazer para mim quebrar o pescoço do seu tio também. E, dessa vez, você veria de perto como um bárbaro do sul mata."

Laurent pestanejou. Um brilho mortiço atravessou as suas retinas envoltas em um azul cinzento. Um sorriso tremeluziu no canto dos seus lábios.

"Vamos para o banho."

Na banheira de louça, de alguma forma, Laurent sentiu que a água quente removendo a pintura e os cheiros do prostíbulo de seu corpo lhe libertavam das imagens atordoantes que presenciara durante a noite. Damen se permitiu relaxar sob a água perfumada sendo escoada por seus membros, enxaguando o cheiro de incenso, de suor e de sangue de sua pele.

Damianos massageou a pele da barriga de Laurent, que se arroxeara pelo golpe de tonfa, fazendo o veretiano gemer um pouco de dor.

Quando estavam limpos e deitados na cama de Laurent, Damen mantinha um braço ao redor do veretiano enquanto o rapaz repousava com a cabeça em seu ombro. Laurent se moveu um pouco, ouvindo o canto dos pássaros matinais que sobrevoavam os jardins, anunciando a manhã. O quarto se mantinha escuro, no entanto, devido às pesadas cortinas fechadas.

"Não consegue dormir?"

Laurent mergulhou o rosto no peito de Damen e disse, sem meandros.

"Beijei um escravo de estimação..."

Damen, que fazia uma carícia nas madeixas úmidas de Laurent, deteve-se e, com a ponta do dedo, ergueu o rosto do veretiano, após longos segundos de intensidade comprimindo o silêncio, assim como o ar aprisionado em bexigas. Laurent estava com um forte rubor em suas bochechas.

"Por que fez isso?"

"Porque se eu não beijasse Toby, Durand e os outros iam perceber que estávamos fingindo."

Damen permaneceu rígido com algum desconforto. Ele tinha os seus olhos escuros na penumbra fixos no rosto de Laurent.

Laurent baixou o seu olhar e prosseguiu.

"...Mas foi estranho... Não era você."

Damianos permaneceu quieto.

Laurent sentiu sob o seu rosto que o ritmo do coração do akielon se alterara e ele perguntou, então, se experimentando bobo e exposto. O rosto queimando.

"... Você beijou alguém diferente de mim, desde Ravenel?"

Damen respondeu sem meandros também.

"Eu só beijo você, Laurent."

O veretiano apertou a túnica de Damen. O akielon disse, então, com uma voz firme:

"...Não beije mais ninguém. Beije só a mim, entendeu?"

As palavras saíram sem que Damiamos pudesse evitá-las. Havia uma fragilidade evidente no seu pedido, apesar da forma imperativa e Laurent constatou que apreciava aquelas palavras.

"Não beijarei. Eu prometo."

Um silêncio se fez em que Damen pigarreou e se manteve muito quieto. Laurent ergueu, então, o seu rosto, perguntando:

"Eu posso beijar você agora?"

Damen mantinha o braço ao redor do ombro do rapaz.

"Claro."

O veretiano se apoiou sobre o seu cotovelo e a lembrança de Toby o beijando lhe voltou à memória. Aquele fora um beijo desgraçadamente erotizado de um escravo de estimação habituado àquilo. O rapaz de Belloy era um escravo de prazer e ele sabia apertar os nós necessários com a sua língua experiente. Laurent não apreciara a experiência, mas almejava poder aprender algo. Como Damianos responderia a um beijo daqueles?

Laurent encostou os seus lábios nos de Damianos e o beijo a princípio foi delicado e rápido, antes de suas bocas se afastarem. Depois, o rei veretiano beijou novamente o amante, demorando-se um pouco mais e deixou a sua língua tocar a língua de Damen antes de se afastar. A sua língua lambeu a do akielon como o fogo lambe o oxigênio ao redor. Isso foi erótico também.

Por fim, Laurent beijou o akielon de verdade e ele sentiu Damen envolver a sua cintura. As suas bocas se mantinham abertas e o beijo foi conduzido com a depravação de um beijo que era melhor se trocado na privacidade do quarto de um casal. Laurent replicou o beijo que Toby lhe dera. Damen se moveu um pouco sob Laurent e quando eles se afastaram, o akielon murmurou um pouco surpreso e um pouco arquejante em seu ouvido:

"Nossa! O que foi isso?"

"Não se mexa!"

Laurent voltou a beijar Damen com renovada volúpia e se prolongou, sentindo a ponta da língua de Damianos massagear a sua. Laurent sentiu Damen envolveu o seu corpo, fazendo movimentos alusivos com o seu quadril. Laurent se posicionou, então, sobre ele, segurando-lhe os pulsos.

"Eu disse para não se mexer."

Os beijos, após um tempo, transformaram-se em uma doce tortura em que Laurent, com um rubor que se espalhava não apenas pelo seu rosto, mas pelo seu pescoço e ombros muito brancos sentiu a ereção de Damen contra a sua e ele gemeu com a sua boca contra a do akielon.

"O que está fazendo, Laurent? Está me deixando louco assim..." — gemeu Damianos na língua de Akielos, movendo o seu quadril e estocando contra o amante sob a roupa de dormir.

Laurent suspirou, murmurando em akielon também.

"Vou beijá-lo embaixo..."

Damen deslizou o dedo pelos lábios rosados de Laurent, inserindo-o brevemente em sua boca. O veretiano iniciou com os seus lábios, então, uma trilha de delicadas carícias que se concentraram na virilha de Damen. O veretiano desceu a calça do pijama do amante, sem mesuras.

Ele enterrou a sua cabeça na pélvis de Damianos, fazendo os movimentos que ele sabia que o amante apreciava. Ele sentiu as mãos delicadas de Damen em seu cabelo e ele se sentiu incendiar.

Laurent não entendia por que se sentia tão excitado ultimamente. Talvez fosse porque ele e Damen haviam se reencontrado há poucos dias. Talvez fosse porque sentia falta de Damen estocando dentro de seu corpo.

Talvez fosse porque estar tão envolvido com um amante fosse, em última instância, ter os pensamentos desalinhados; a febre e a volúpia de depender do corpo do outro como se o próprio corpo só existisse onde era tocado e estimulado. Laurent ansiava aquele explodir e se extinguir em estrelas esmagadas e arfantes que pairavam ao seu redor feito poeira.

Laurent moveu a sua língua, a sua boca, excitando-se ao sentir a mão de Damen sobre a sua cabeça. Ele queria que ele lhe montasse. Que o preenchesse com o seu pau pulsante. Queria que ele gozasse dentro de seu corpo, despejando todo o seu desejo e interior nele. Queria que Damen o fizesse desmaiar de tanto prazer como o fizera na última vez que foderam em Delfeur, antes de ficarem afastados por um longo mês.

Ele queria Damianos apaixonadamente.

Laurent sentiu o carinho em sua cabeça cessar, mas prosseguiu com o movimento dos seus lábios. Ele ouviu a respiração pesada de Damen, ansiando por mais, misturando-se ao ruído dos pássaros. Às primeiras movimentações matinais do palácio de carroças e sinos.

A ereção de Damen excitou Laurent a um ponto insustentável. Ele mesmo precisava que as coisas seguissem na direção de satisfazer aquele desejo indômito que o assolava mais e mais. Há dois anos, diziam com escárnio que ele era o príncipe frígido de Vere.

Mas eles não sabiam agora que Laurent ardia e incendiava naquela instância de si mesmo feito fogo em um candeeiro. Que o seu corpo desejava com abandono Damen o moldando e o invadindo com a penetração.

"Damen, me fode!" — gemeu Laurent, com um murmúrio ansioso, erguendo o seu rosto e fitando o amante.

O akielon se mantinha deitado sobre as suas costas e não se moveu quando Laurent o chamou. A sua respiração se matinha ritmada. Os seus olhos estavam pesadamente fechados.

Laurent se boquiabriu quando constatou que Damen caíra no sono enquanto ele o chupava. Ruborizando agora por uma vergonha diferente da anterior, Laurent se deitou do lado do akielon com uma expressão carrancuda. E puxou o lençol para se cobrir com um olhar contrariado.

Damianos dormira profundamente durante o sexo e, de certa forma, aquela enxurrada de água fria era como um sapato atirado. Um sapato não. Uma sandália de couro curtido akielon.

Laurent se moveu na cama, remoendo ainda uma frustração cretina e fechou os olhos, ouvindo o latido de cachorros há alguma distância.

Ele adormeceu, permitindo se sentir exausto e se viu dentro de um sonho. Laurent estava nas trilhas de caça de sanglier das florestas de Arles, cercado pelo ruído de vozes, cascos de cavalo, trompas e cães uivando.

Laurent sentia a sua montaria oscilar sob o seu peso, movendo as suas quartelas de um modo trôpego. A égua baia tinha espuma escorrendo pela boca e transpirava arquejante.

Laurent apeou o seu cavalo e tocou na crina do animal, sentindo a sua respiração ofegante e o suor em seu pelo.

O veretiano, ainda príncipe, estava caçando javalis com Torveld e os nobres da capital. Laurent tentava conduzir a sua negociação para que os escravos akielons fossem levados para Patras. A sua montaria demonstrava sinais de abatimento desde cedo e quando ela tombou, Laurent teve a certeza de que o animal havia sido envenenado.

O rapaz se ajoelhou próximo a égua, observando os seus olhos escuros e úmidos se fecharem e se ergueu de um pulo quando viu pessoas se aproximando, rindo e falando alto. Entre eles, estava Govard com uma lança afiada na mão, gritando:

"Achamos ele! Vamos caçá-lo! Peguem-no!"

Laurent, vendo-se desarmado e cercado por figuras difusas entre as silhuetas da floresta, disparou pela trilha entre as árvores, serpenteando raízes grossas e seixos, escutando o ruído de cavalos o perseguindo e o rosnar de cães uivando em seu encalço.

"Vamos pegar você, princesa!" — riu-se Govart, parecendo estar a uma distância muito curta.

Laurent passou por uma clareira e ele se deparou com a estrutura de portas duplas isolada no meio da névoa, no meio do nada. As portas ostentavam entalhes de bronze e ornamentos pesados na madeira maciça. Atrás do portal, ouvia-se batidas vigorosas, nervosas.

Tomando distância, caminhando para trás, Laurent tropeçou e, com um escorregão, caiu num fosso pouco iluminado, cheirando a urina, sangue, erva, comida estragada e suor. Havia pessoas que se moviam ao seu lado como fantasmas presos em um alçapão, tilintando correntes de metal.

Laurent olhou para a abertura no teto e viu terra sendo jogada por um movimento de pás rudes. Govart e os cortesões o estavam enterrando.

"Me deixem sair!" — gritou Laurent com a voz de um menino.

Govart riu-se, dizendo:

"Você foi executado em Ios! Damianos de Akielos não impediu o seu julgamento. Ele não se importa com você! Você está morto!"

Laurent gritou, enfiando as unhas nas paredes de terra. Ele se voltou para trás quando sentiu uma mão pesada em sua nuca em meio a escuridão, dizendo-lhe:

"Temos o mesmo sangue, sobrinho. Nós dois somos príncipes!"

Com um grito estrangulado, Laurent acordou na cama, sentindo que emergia do fundo de um rio com destroços. Ele estava ofegante e com a testa úmida.

O Quarto Real se mantinha escuro, mas a manhã já parecia alta. Damen dormia ainda ao lado de Laurent, mantendo o braço ao redor da sua cintura.

Esse era, claro, outro motivo para Laurent preferir fazer amor com Damen a dormir. Os pesadelos lhe atormentavam há muitos anos, fazendo-o desde sempre ter um sono leve e inquieto.

Eles não melhoraram nos últimos dois anos.

Levantando-se, Laurent deixou o leito de um modo resoluto. Quando Damianos acordou, horas depois, relaxado e descansado, Laurent não estava mais no quarto.

(cut)

Damen não se sentia menos deslocado na capital de Vere do que se sentira quando fora levado para lá como um escravo.

Laurent era o rei daquele reino e daquela corte e, quando ele não estava por perto, o akielon se experimentava fora do seu elemento com o seu quíton, a sua aparência do sul e os seus gestos característicos. Ali, ele era o rei Damianos. Um monarca de uma nação estrangeira que até muito pouco tempo atrás, era encarada como uma terra sem cultura, rudimentar e bárbara.

E, não menos ruim do que isso, Damen sempre seria lembrado ali pelo que ocorrera em Marlas. E o fato de Laurent estar unido a ele era escandaloso demais entre os nobres da capital, pairando no silêncio entrecortado. O nome de Auguste se mantinha velado na boca dos cortesões, já que ninguém ousaria tocar no assunto do rei que dormia com o assassino do próprio irmão e desfilava com ele pela capital feito um jovem apaixonado.

Entre outros fatores, era por isso que Damen e Laurent se sentiam melhores em Delpha ou em Ios. Lá, em muitos aspectos, eles não se sentiam questionados sobre o que era privado e fossilizado.

Damen, após deixar o Quarto Real, seguiu, então, para a ala em que os seus soldados estavam hospedados e encontrou Pallas com uma atadura nova ao redor do seu ferimento embebida em sálvia e unguentos. Os soldados akielons batiam com os pés em seus calcanhares numa deferência militar quando o seu rei passou por eles. Lazar, que deixava o quarto de Pallas com os fios dos ilhós da sua camisa desamarrados e um cigarro de palha entre os lábios, fez uma mesura solene também diante de Damen.

A despeito da noite tumultuada do dia anterior, os homens estavam bem e haviam sofrido apenas ferimentos leves. Makedon foi visto conversando com Loyse sob um arco de pedra, rindo ao parecer que os dois compartilhavam entre si uma piada bastante engraçada. A cortesã fitava Makedon com olhos não preguiçosos.

Damen esperava sinceramente que o general não se esquecesse do tabu veretiano e de como o escândalo da senhora de Fortaine se deitar com um akielon do norte poderia colocá-la numa situação difícil perante os outros nobres e o seu séquito.

Nikandros ainda dormia durante o seu dia de folga, após ter fodido com Pari de Skarva e Isander uma noite inteira e ter lutado bravamente contra os guardas do prostíbulo no dia seguinte. Era melhor que ele descansasse.

Quando Damen atravessava os jardins, ele viu de longe Ancel pendurado nas costas de lorde Berenger, que o erguia para que ele pudesse alcançar uma cereja do galho de uma árvore.

Depois, já com porte da cereja, o escravo beijou profundamente o seu mestre na boca, tendo a sua cintura estreita timidamente envolvida por lorde Berenger naquele balanço que se dava entre os dois de exibição exacerbada e discrição excessiva.

Os dois homens acenaram para Damianos, amigavelmente, e alguns nobres se voltaram com alguma curiosidade, com alguma desconfiança, ruminando sobre o arranjo de um cortesão e um prostituto se dirigirem com informalidade ao rei de um país exótico. De agirem como amigos perante o rei Damianos. O amante de Laurent. Um dos governantes das nações-irmãs. O assassino de Auguste.

"Onde está o seu mestre?" — perguntou Damianos a Isander quando o viu em um dos corredores, seguindo para a cozinha ao lado de Latifa, que tinha o seu olhar de coelho fitando ininterruptamente o rei akielon.

Isander, fazendo uma deferência solene, respondeu:

"O rei foi praticar no pátio de treinamento e, depois, foi andar a cavalo."

Damen franziu o cenho.

"Andar a cavalo? Mas ele está com o estômago machucado! Sabe me informar se ele foi ver Paschal? Ele comeu algo no café da manhã pelo menos?"

"Sim, Exaltado! Ele visitou Paschal e tomou um copo de leite com mel e comeu uma fatia de pão de batata."

"Certo. Obrigado."

O akielon permaneceu um tempo nos jardins, sentindo o vento fresco primaveril e o recinto tomado pelo perfume verde das vinhas. Havia coisas para serem feitas. Interrogatórios para serem conduzidos.

Ele observou, de longe, o chefe da Guarda Imperial vaskiana, Nabsib, caminhar com um grupo de soldados e, com alguma agitação, apontar em uma direção contrária, antes de sumir sob um arco de pedra. Ele viu o conselheiro Chelaut parecer procurar também por Laurent e sumir em um corredor.

Quando Laurent surgiu no jardim, Damen o viu entrecortado no cenário de pérgulas, fontes, sol e roseiras.

Ele trajava a sua roupa de montaria. Estava vestido em um sobretudo preto sobre a blusa de seda branca e rendada. A sua calça bastante justa era cargo e as botas lustrosas chegavam até os seus joelhos. Os seus cabelos estavam engolidos por um chapéu de aba com uma fina corrente dourada pendia sob o seu queixo. Ele brandia um fino chicote nas mãos enluvadas e Damen pode sentir a agitação ao seu redor.

De seus vinte e dois anos, Laurent atingia ápices de sua beleza e forma física e a roupa de montaria veretiana lhe favorecia em todos os aspectos. Damianos prendeu a respiração com a visão de seu jovem amante e percebeu com um estremecimento ao seu redor que muitos olhares do jardim se cravavam em Laurent como flechas encontrando um alvo.

Os soldados não podiam assoviar para o rei sem serem desrespeitosos e não podiam lhe dizer palavras alusivas, mas podiam o admirar de longe, portando as suas lanças. Podiam desejá-lo com expressões famintas, deslizando o olhar pelo corpo bem talhado envolto em uma roupa de montaria que mexeria com os sentidos fetichistas do homem mais resiliente.

"Boa tarde." — disse Laurent, aproximando-se de Damen e produzindo sombra sobre o seu corpo sentado num banco— "Isander disse que estava me procurando."

Damianos olhou ao redor, sentindo que todos o fitavam agora enquanto os soldados veretianos pensavam que ele era um filho da mãe akielon sortudo por ser o único capaz de cortejar a Estrela de Vere no seu auge.

Damen era homem e sabia o pensamento canalha que atravessava a mente dos outros homens. Laurent estava com roupa de montaria, mas a inclinação de todos era de montá-lo. O rei podia usar o chicote se isso deixasse a sua personalidade espinhosa mais à vontade. Talvez aqueles homens todos até gostassem do julgo do seu brandir impiedoso. Plaft, pleft!

A bota de montaria de Laurent se apoiaria na nuca de um daqueles homens ajoelhado no chão e o rei usufruiria do pobre coitado como um móvel, um mero alicerce para calçar o seu sapato melhor. Alguém não digno de atenção suficiente. Objetificá-lo-ia.

"Não se mexa!" — diria o rei de Vere na sua voz ríspida e imperativa de jovem arrogante que precisava de uns bons tapas quando o homem ajoelhado sob si se movesse um pouco.

Mas o homem ajoelhado não bateria em Laurent. Ao invés disso, ele se curvaria mais, beijando o bico da bota engraxada que lhe era oferecido. E obedeceria quando Laurent o mandasse chupá-lo, sem lhe oferecer qualquer intenção de retribuição ou carinho. O rei veretiano apenas abriria a sua calça e o mandaria fazer felação com a indiferença de um mestre que ordena que o seu criado vá buscar vinho.

"Laurent, eu sou o seu escravo..." — diria a voz, após sentir o prazer do jovem explodir em seus lábios e em si mesmo. O seu pau latejaria, ansioso e sem recompensa.

"Damen!" — chamou-lhe novamente Laurent no jardim, parecendo que não era a primeira vez que o fazia. Um inseto pousou rapidamente em seu ombro e se deslocou para uma flor.

"Boa tarde." — gaguejou o akielon, sacudindo a cabeça para emergir dos seus pensamentos que o deixavam vermelho nas maçãs do rosto e em instâncias de seu ego— "Está se sentindo melhor de seu ferimento?"

"Meu estômago está ainda um pouco dolorido, mas Paschal me deu uma medicação."

Damen não perguntou se havia sido uma maldita sálvia.

"Aproveitou a sua cavalgada?"

"Não tanto quanto eu gostaria." — declarou o veretiano, batendo com o chicote suavemente em sua bota e torcendo um canto de sua boca.

Depois, ele apoiou os cotovelos no espaldar do banco, fitando Damen em silêncio.

Damianos colocou a mão sobre o joelho de Laurent de uma forma possessiva quando um nobre passou por eles e tropeçou no chão de lajotas no instante em que o seu olhar cruzou com o do rei veretiano.

"O que aconteceu ontem? Eu acordei e você já havia ido embora."

"Não se lembra?"

"Não. Lembro que começamos a nos tocar e eu despertei somente hoje de manhã. Acho que fui vencido pelo cansaço."

Laurent assentiu, fitando algo do outro lado do jardim que o fez desviar o rosto do olhar de Damen ainda que nada de diferente surgisse daquela direção.

"Esqueça isso. Há muito com o que nos preocuparmos hoje."

Um soldado cochichou com o outro, observando com olhos desejosos o rei. Se Laurent não estivesse tão acima dele, aquele jovem guarda teria colhões o suficiente para arriscar um gracejo. Damianos encarou o homem com uma expressão carrancuda até que o guarda desviasse o seu olhar e desse meia-volta para fazer a sua ronda em outro lugar.

Damen tocou no rosto de Laurent com a ponta do dedo e o moveu para si.

"Está muito bonito hoje, meu amor. Todos perderam o fôlego quando você chegou. O olhar de todos está sobre você."

Os dois homens se detiveram quando dois cortesões passaram por eles, olhando para Laurent com um atrevimento deliberado. Um deles chegou a lançar um sorriso enviesado para o rei. O tesão vencia a prudência, arredando-a para um canto feito um móvel sem serventia. O desejo era perigoso e excitante.

Damen prossegui então:

"... Creio que todos agora nesse jardim queiram dormir com você."

"Ah, é?" — indagou Laurent, afastando o rosto do toque de Damen e se pondo a afrouxar a luva de uma de suas mãos com a mordedura delicada de seus dentes. Ele não parecia dar importância. Nem para as palavras de Damen e nem para os olhares mais vorazes que se renovavam — "E você?"

Damianos não respondeu. Ele só fitou o veretiano dos pés à cabeça, permitindo que a sua atração fosse transparecida por seu olhar. Muito semelhante ao olhar que ele lhe reservava quando despia a sua roupa. Laurent puxava as pontas dos dedos da luva uma a uma com o desinteresse de alguém que respira. No fim, ele a retirou, largando-a sobre o banco como mais um item sem importância adicionado à pilha.

"Você sempre gostou de provocar aqueles que não podem revidar. Como esses pobres homens aqui que morreriam por minha espada ou pela sua se ousassem encostar em você. Mas eu posso tocá-lo, Laurent de Vere. Com a sua anuência e o seu próprio prazer. Peça!" —disse Damen, tomando o rosto do veretiano em sua mão.

Os dois homens se fitaram por prolongados segundos e o veretiano hesitou diante daquelas retinas escuras, adultas que pareciam atravessar a sua substância. Damen o olhou novamente como se o despisse.

"Me beije, Damen." — sussurrou Laurent, após engolir em seco ao erguer o seu olhar azul.

Havia uma hesitação quase infantil em Laurent. Quase como se ele brincasse de cutucar um leão e, finalmente, houvesse o despertado, sem saber o que faria em seguida.

O treino, a cavalgada no sol e Damianos lhe faziam esquecer de pesadelos sem substância com o qual Laurent não podia lidar. O sexo com o amante se tornava para ele uma prece que o arredava de uma época em que não havia tantas escolhas ou esperanças.

Sexo para Laurent sempre fora algo que lhe incutia distanciamento e frieza. Mas com Damen era diferente. Em Damen, às vezes, ele queria mergulhar.

E desaparecer.

Varrer os sonhos e lembranças ruins para o subsolo. Para um fosso.

Laurent ruborizou e ia dizer algo a mais, mas Damianos, sem se importar com o seu entorno, curvou-se e beijou o rei de Vere na boca. Beijou-o de verdade. Ele não era nobre o suficiente para lidar com o ciúme de um modo resiliente e despreocupado. Com Laurent, ele se sentia muitas vezes um adolescente e de um modo infantil, ele queria lembrar àqueles homens cobiçosos que quem cortejava Laurent era só ele.

Ele desejava Laurent até o último fio de cabelo dourado e só ele podia tocá-lo.

O veretiano, de início, manteve-se casto sob o beijo, mas ele afastou os seus lábios quando constatou que Damen não faria aquilo de um modo discreto. Eles estavam em um caramanchão. Ele sabia que Damianos não apreciava demonstrações públicas de prazer, mas ele se surpreendeu quando sentiu o akielon apertar a sua cintura e puxar a sua perna para o seu colo.

O que permanecera inacabado na noite anterior pairava entre os dois. Laurent olhou ao redor quando sentiu Damen mergulhar o rosto em seu pescoço e lhe morder o lóbulo da orelha.

Céus, estava acontecendo! Eles iam foder no caramanchão assim como os nobres apaixonados que não podiam se conter faziam? Laurent voltou a olhar ao redor com um sorriso nervoso ao ver alguns soldados e cortesões os espreitando discretamente. O rei akielon deslizou a mão por sua coxa.

Por seu quadril!

Não, eles iam retornar para o quarto, mas Laurent ia aproveitar mais daquele momento singular em que era a paixão dos dois se incendiando sem controle. No quarto, ele ia ser suspenso pelo akielon, tendo as pernas envoltas em sua cintura.

Laurent gostaria de foder de quatro. Ser estocado com alguma rudeza. Sentir os dedos de Damianos lhe penetrando em direção ao seu umbigo enquanto sussurrava em seu ouvido: "Gosta assim?"

Seria da mesma forma que havia acontecido quando os dois se despediram em Delpha. Ou Delfeur, cacete. Não importava.

"Damen..." — gemeu Laurent, deslizando a mão pelas costas do akielon, por dentro da gola de seu quíton— "Damen, isso é tão bom..."

"Majestade!" — murmurou alguém com uma voz profunda, após pigarrear. Sombras haviam sido derramadas sobre Damen e Laurent há um tempo, mas os dois não haviam percebido.

Laurent ergueu o seu olhar azul, disposto a responder de modo atravessado a qualquer pessoa que ousasse lhes interromper. Mas tratava-se do conselheiro Herode, apoiando-se em seu cedro de ouro como se fosse um cajado. E também Audin, Jeurre, Chelaut e Mathe com os rostos um tanto vermelhos. Todos com roupas solenes e usando os seus medalhões como membros do Conselho.

"Conselheiros!" — disse Laurent, se afastando de Damen abruptamente e fazendo menção de ficar de pé até perceber que não podia ficar de pé, sem cavar outro constrangimento para si mesmo. Ele cruzou, então, as pernas — "O que fazem aqui?"

Herode pigarreou mais uma vez e disse, fazendo um gesto de cumprimento para Damen:

"Estávamos o procurando desde cedo. Podemos conversar com Vossa Majestade na sala de reuniões do Conselho?"

Damen se sentia aliviado por usar o quíton discreto até perceber que Mathe olhava com a boca aberta para a sua virilha, parecendo um tanto chocado. A sua ereção era evidente e completa. O seu pau era imenso. Damianos também cruzou as pernas diante dos olhos aquosos do veretiano que, em choque, lembravam um pouco os do próprio Laurent.

"Certo. Damianos e eu estaremos lá em alguns minutos quando..." — com o rosto vermelho, Laurent fez um movimento oblíquo de seus olhos.

Jeurre ergueu a sua mão, dizendo:

"Perfeitamente, Majestade. Mas, se não se importa, é um assunto relacionado somente à Vere e que não tange a Akielos. Queremos falar com Vossa Majestade a sós."

Laurent contraiu as suas sobrancelhas.

"Eu me importo. Sei que devem querer falar comigo sobre a operação de ontem que mandei lhes deixarem a par hoje de manhã. Não existem segredos entre mim e Damianos. Ele fez parte da investigação e se os seus homens akielons não tivessem participado da atividade no prostíbulo, não teríamos sido tão eficientes..."

Audin interveio com as suas mãos para a frente, deslizando o seu olhar brevemente de onde Damen estava sentado e concentrando a sua atenção no rei de Vere.

"Entendemos, Majestade, mas há coisas que devem ser tratadas somente entre o rei e o Conselho."

Mathe, observando a cena, disse um pouco timidamente:

"Eu não tenho problemas com o rei de Akielos fazer parte da reunião. Akielos é a nossa nação-irmã agora."

"Mathe, por favor, não nos conteste!" — interveio Chelaut. — "Já discutimos esse assunto."

Laurent sustentou o seu olhar azul contestador e ia replicar algo quando Damen tomou a sua mão e a beijou de um modo apaziguador.

"Meu rei, é melhor conversar a sós com os conselheiros. Participarei da reunião com Vask e com Patras. Aproveitarei o início da tarde para descansar. Não se preocupe comigo."

Laurent se voltou para fitar Damianos, com uma expressão aborrecida. Damen estava sendo conciliador, mas ele não apreciava o modo como os seus apoiadores afastavam o akielon das questões políticas, sendo que a abolição de escravos e o desmantelamento dos ringues ilegais era algo ligado diretamente a Akielos. Depois de alguns segundos, Laurent assentiu com um movimento de cabeça.

"Estarei na sala de reunião em alguns minutos."

"Ótimo, Majestade. Nós o aguardaremos então. Com licença." — declarou Herode, fazendo uma mesura solene.

Laurent apoiou os cotovelos em seus joelhos, observando os conselheiros se distanciarem e receberem em seu percurso cumprimentos respeitosos dos soldados e dos nobres até desaparecerem sob os arcos de pedra.

"Eu teria fôlego para insistir um pouco mais na sua presença..."

Damen passou a mão pelas costas de Laurent, dizendo:

"Eu sei que poderia ir tão longe a ponto de eviscerar os conselheiros com as suas palavras. Não vale a pena, Laurent. Você é o rei de Vere e eles são o Conselho. É melhor ter uma relação bem estabelecida com eles, ao invés de brigar, assim como tento manter a harmonia com os kyroi."

"Nikandros é o seu kyros e ele é seu amigo. Não consigo imaginar vocês dois discutindo por algo."

Damen deslizou um dedo por sua testa, recordando das vezes em que ele e Nikandros discordaram justamente por causa das atitudes e decisões tomadas por Laurent.

"Na verdade, temos as nossas rusgas também. Governar um reino e satisfazer a todos não é tão simples. Satisfazer a si mesmo nesse processo é ainda mais difícil."

Laurent apoiou os seus braços esticados no espaldar do banco de metal.

"Herode foi um grande amigo do meu pai. Ele admirava profundamente Auguste; os seus ideais; o seu brilho e, algumas vezes, acho que ele não está tão satisfeito com a segunda opção sentada no trono. Afinal, eu fui criado para ser um embaixador e não um rei."

"Você não é a segunda opção, Laurent. Você sempre vai fazer com eficiência e excelência tudo o que lhe for designado."

Houve um momento de silêncio entrecortado pelo ruído das pequenas atividades do jardim. Um ruído de insetos entre as folhagens.

"Por que acha que Theodore utilizou damiana no vinho, Laurent?" — indagou Damen, mudando de assunto ao ver de longe um escravo servindo bebida ao seu amo.

Laurent respondeu:

"Cavalguei um tempo meditando sobre isso. Creio que a abolição para muitos escravos represente o risco constante da perda de um contrato e o abandono de muitos à própria sorte. Às vezes, eu me pergunto se foi a tomada de decisão certa o intuito da libertação, visto que mesmo entre aqueles que usam as correntes, parece haver os que não apreciam tanto a liberdade. Theodore queria desmoralizar Vere diante de Vask e de Patras...?"

"Não o conheci, mas na cozinha, ele não pareceu demonstrar nenhuma animosidade em relação a você."

"A culpa, então, após a tomada de uma má escolha o acometeu e o fez se matar? Theodore não era uma alma beligerante. Há alguém que pode ter agido por trás dele..."

Damen assentiu, aproximado o seu rosto de Laurent.

"Audin era o mestre dele."

"Sei onde quer chegar, Damianos. Isso também passou pela minha cabeça."

Damen assentiu e, após algum silêncio, Laurent lhe deu um tapinha na coxa e se levantou.

"Preciso ir falar com o Conselho. Eles estarão presentes na reunião com Vask e com Patras. Naturalmente, Audin também."

Damen assentiu.

"Estarei o observando."

Laurent olhou ao seu redor, antes de depositar um beijo rápido no rosto de Damen. Logo em seguida, ele se moveu com um rubor em suas faces, olhando para trás com um sorriso tácito. Havia uma movimentação jovial nos gestos do veretiano quando ele partiu e Damen apalpou a sua face, sorrindo também.

Algumas cabeças se voltaram quando Laurent cruzou o pátio, belo e reluzente. A Estrela de Vere em seu fulgor radiante. Em seu esplendor máximo. O homem mais bonito e encantador de todo o norte, Damen tinha plena certeza disso.

Damianos levou as mãos à cabeça quando se viu sozinho, com algum desalento. Ele precisava retornar para o seu eixo como um rei mais velho e experiente do que Laurent. Ele o havia posto em constrangimento diante do Conselho por causa da sua demonstração de afeto atabalhoada. Isso era uma falha sua.

Damen, às vezes, perdia o controle. Em Delpha, antes de Laurent vir para Arles, quando ele e o veretiano fizeram amor nos banhos, após uma noite intensa em que já haviam exagerado, ocorrera um acidente. Damen estimulava os dois, tendo Laurent sentado e se movendo sobre si. Os paus dos dois homens permaneciam unidos enquanto os dedos hábeis do akielon subiam e desciam naquele frottagedelicioso.

Damen, deitado de costas no chão de lajotas quentes, sentia o calor e o desejo o arrastando até o clímax. Laurent, em seu gozo, gemeu com um choramingar masculino, jovem, prazeroso que foi o suficiente para levar Damen ao seu ápice também.

Ele se recordava de segurar a cintura de Laurent e se sentir extasiado e esgotado sobre o piso aquecido envolto em vapor. O líquido perolado dos dois, quente feito sangue, escorria pelos dedos e barriga de Damen. O rosto de Laurent estava vermelho como permanecia após um dia de sol. Até que Damen sentiu o peso de Laurent desfalecer sobre si.

A princípio, o akielon beijou a cabeça do amante, sem forças, achando que ele apenas repousava sobre si. Mas, depois, ele se sobressaltou, constatando que o rei de Vere havia desmaiado.

Deu-se, então, uma correria constrangedora em que Damianos envolveu o corpo de Laurent numa toalha e exigiu aos soldados que fossem correndo buscar Paschal.

Quando o médico tocou a fronte quente e pálida de Laurent e levou sais até o seu nariz para que ele despertasse, Paschal olhou para um seminu Damen com uma expressão terrível de censura.

"Será que vocês dois não podem ir com calma?! O rei já havia ido me ver hoje de manhã e eu o havia receitado repouso. Ele é só um garoto ainda de vinte e um anos que está começando a fazer isso com um amante agora, mas você é macaco velho! Um homem experiente, Exaltado! Vivido! Seja mais responsável!"

Damen se encolheu, ruborizando diante do sermão do médico como um cachorro admoestado.

"Não era a minha intenção..."

Não fazia sentido Damen dizer que Laurent quem começara a brincadeira, divertindo-se em ensaboar o rei akielon e o provocando com palavras como: "Me toque aqui... Isso é tão bom... Não, não pare... Chegue mais perto."

No fim, fora Damen quem permitiu que as coisas fossem tão longe.

Paschal prosseguiu:

"Vai acabar matando o rei de Vere de tanto montá-lo! No fim das contas, vai ser bom vocês dois ficarem um tempo afastados. Nada de sexo hoje e amanhã!"

Damen engolira em seco, não sabendo se era possível um homem morrer daquilo, mas na ocasião, ele prometera a si mesmo ser mais cuidadoso no futuro. Ele gostaria de ser mais delicado com Laurent, sem se deixar levar por seu desejo e por sua necessidade desajeitada de carícias.

Damen se levantou do banco de metal do jardim e se pôs a caminhar um pouco. O almoço estava sendo servido no Grande Salão e ele podia pedir mesmo a um criado que lhe servisse a refeição nos aposentos reais, mas ele estava sem fome.

Havia a trilha que levava aos pomares e hortas nos fundos do palácio, mas Damen optou pelo caminho do jardim geométrico de ciprestes, fontes, flores-de-lis e esculturas verdes.

Após alguns longos minutos de caminhada distraída e ritmada, o akielon se voltou quando ouviu um ruído de graveto sendo pisado no chão logo atrás de si. Ele se posicionou com um impulso defensivo, mas se deteve ao se deparar com Sorem de Ver-Tan, o imperador de Vask.

O homem trajava roupas veretianas, sem a jaqueta e tinha os seus cabelos escuros bem penteados. A blusa branca com ilhós semiabertos lhe dava um ar libertino. As suas mãos se ergueram diante de si num gesto apaziguador.

"Exaltado, desculpe-me! Não queria alarmá-lo. Estava dando um passeio perto do lago e o vi passar."

Damen se conteve, fazendo um gesto solene perante o imperador.

"Queira me perdoar, Majestade imperial. Um impulso militar."

"Tudo bem. Um rei deve estar sempre preparado. Posso me juntar ao seu passeio? Não tenho me saído muito bem me entrosando com a corte de Vere."

Damen assentiu e o vaskiano se pôs a caminhar ao seu lado, com as mãos para trás, observando a paisagem e, ocasionalmente, analisando alguma flor desabrochada ou algum inseto sobrevoando as folhagens. Os seus olhos verdes se tornavam belos sob a luz solar, alcançando um tom de âmbar igual ao olho solitário da imperatriz.

"Você parece bem entrosado, já que está trajando roupas veretianas." — comentou Damen, analisando Sorem por um instante.

O homem sorriu.

"São do conselheiro Audin. Ele me permitiu usá-las e quis experimentá-las por achar que essa formalidade tem lá o seu charme. O corte é bem bonito, mas aquela jaqueta é um tormento para um vaskiano acostumado com túnicas como eu."

Damen se recordou de Nikandros no dia anterior, parecendo à beira das lágrimas com a jaqueta justa.

"De fato, é uma moda bem singular a de Vere." — sorriu Damen— "Por outro lado, já tive a oportunidade de usar roupas vaskianas. Me senti mais exposto do que com o quíton."

"Ah, sim." — riu-se o imperador— "Roupas de verão costumam ser muito reveladoras em Vask. Tratando-se dos concubinos, o corte é ainda menor."

"Vejo que o senhor e o conselheiro estão muito próximos." — comentou Damen, disposto a começar a investigação do imperador designada por Laurent.

Sorem, com as mãos para trás ainda, serpenteou os ciprestes, observando os chafarizes com esculturas de mármore.

"O conselheiro Audin é um bom homem. Vishkar e Pari se mantém distantes de mim e não sou bem-vindo entre os seus apoiadores vaskianos. Um homem como eu se torna suscetível ao carinho."

Damen observou Sorem de cima a baixo:

"Nunca me contou ao certo por que tentou me alertar no dia da festa de aniversário de Laurent sobre o presente dado pela imperatriz."

Sorem de Ver-Tan deu de ombros, passando por nobres que caminhavam de braços dados.

"Como lhe disse, eu não quero Vask envolvida em uma guerra, Exaltado! Vishkar e eu crescemos juntos. Somos primos no fim das contas. Fomos melhores amigos durante toda a nossa infância. Ela nem sempre foi essa mulher combativa e astuta. Vishkar costumava ser uma menina doce e ingênua. Brincávamos, dizendo que dominaríamos Patras um dia porque éramos inocentes. Até que fomos para a guerra e tudo mudou. Ela mudou muito, tentando agradar a mãe. E eu mudei diante de tanto horror. É assustador pensar que hoje em dia mal nos falamos."

Damen assentiu, recordando-se de como ele quando criança admirava Kastor e de como o enaltecia como um irmão mais velho sábio e forte, em quem se espelhava. E de como a decepção com o seu meio-irmão se dera de um modo irreversível e brutal.

"Me pergunto como se deu o casamento entre você e a imperatriz." — comentou Damen, após um tempo.

Sorem não favoreceu o akielon com a vista do seu rosto e respondeu, olhando para o outro lado.

"Foi um casamento protocolar por parentesco e conveniência, mas se tem curiosidade em saber se o consumamos, digo-lhe que sim."

Damen não perguntou mais, ainda que não conseguisse visualizar como o arranjo de um homem que parecia gostar de homens podia se fazer com uma mulher que parecia gostar muito de mulheres. Tampouco, ele perguntaria se Sorem foi montado pela imperatriz.

"Soube por um soldado vaskiano que a sua mãe, Somalia de Ver-Tan, foi morta por envenenar a água do exército patrano..." — disse Damen, mudando de assunto.

Os olhos de Sorem se tornaram muito escuros e ele baixou o rosto, parecendo triste. Um desgosto perpassou o seu semblante.

"Apesar da minha mãe ser muito diferente de mim e ter sido uma exímia guerreira na guerra, essa história não é cem por cento confiável, Exaltado. Na época da morte da minha mãe, Vishkar foi promovida à comandante das tropas de Ver-Vassel. Vishkar nunca perdoou a ajuda dada pelo rei Aleron às tropas de Patras e o culpou por promover instabilidade à guerra. Patras tinha o envenenamento dos soldados entalado na garganta, assim como Vask tinha a morte da minha mãe. No entanto, de alguma forma, Vishkar e Torgeir

aceitaram um tratado de paz proposto por Torveld e os dois baixaram as armas."

Damen fitou o rosto do homem ao seu lado.

"Vishkar e Torgeir parecem muito... próximos."

Sorem baixou consideravelmente a voz, olhando ao redor.

"Houve boatos de que enquanto estavam na fronteira, os dois se encontravam escondidos. Os soldados fingiam que não viam, fechavam os olhos, mas os dois permaneciam muitas horas juntos nas planícies. Um escândalo para uma herdeira tão jovem e um príncipe, cuja esposa dava à luz a dois filhos em Bazal. Um escândalo para dois reinos inimigos."

Damen contraiu as suas sobrancelhas.

"Vishkar e Torgeir? Ela não parece ser o tipo de mulher que gosta de homens como ele..."

Sorem sorriu.

"De fato. Ela prefere homens como eu ou como o rei de Vere, mas quem manda nas questões do coração, Exaltado? De qualquer forma, ela nunca me contou o que houve, de fato, naqueles dias de guerra..."

Damen assentiu, entendendo o ponto ao qual Sorem tentava chegar.

"Haverá uma reunião no fim da tarde."

"Um encontro de reis. Não estou autorizado a participar do acordo que pretendem fazer, mas torço pelo melhor..."

Damen ousou um pouco mais:

"O que sabe sobre os ringues clandestinos?"

Sorem olhou ao redor, tendo uma expressão dura transpassando o seu rosto. A sua mandíbula se contraiu.

"Exaltado, onde quer chegar?"

"No ponto em que soldados vaskianos com tonfas e escravos vaskianos são trazidos para Vere, sendo custeados com dinheiro de Vask para atuarem em prostíbulos e ringues ilegais... Subitamente, parece que para onde nós nos viramos em Vere, vemos... Vask..."

Sorem desviou o seu rosto quando um nobre passou por eles e ele fez um gesto de cabeça educado.

"Exaltado, acha que Vask...?"

"Eu não acho nada. Não trabalho com conjecturas, mas com fatos. O responsável por isso será encontrado e punido."

Sorem estava muito pálido e fechou os olhos por um tempo. Depois, ele os abriu e respirou fundo, parecendo tomar coragem para falar.

"Por acaso, está desconfiando de Vishkar, Exaltado? A imperatriz é uma mulher com uma personalidade forte e governa um reino escravocrata, mas não seria capaz disso... O que ela lucraria com o financiamento ilegal dos ringues?"

"Não há suspeitos, Sorem. Todos são inocentes até que haja provas."

Um silêncio desconfortável se fez, antes que o imperador dissesse:

"Certo, mas se vai desconfiar da minha esposa, Exaltado, desconfie de Torgeir primeiro. Ele está aborrecido com os protestos em seu reino e não está disposto a ceder em relação aos escravos..."

Damen e Sorem se detiveram quando dois soldados vaskianos com tonfas em suas cinturas, que pareciam fiscalizar algo no jardim, se aproximaram deles. Na verdade, eles pareciam procurar pelo imperador porque a sua busca parecia encerrada.

"Exaltado, Majestade Imperial..." — cumprimentaram os dois guardas com as mãos unidas.

Um dos soldados olhou para o rosto de Sorem, dizendo em vaskiano:

"A imperatriz pediu que escoltássemos o senhor, Sorem de Ver-Tan, até o Salão Principal para o almoço."

Sorem pestanejou, dizendo com alguma hesitação:

"Eu já comi. Obrigado, Rasmud. Estou trocando algumas ideias com o rei de Akielos."

O soldado olhou do rosto de um homem para o outro.

"Certo, Majestade Imperial. Nesse caso, permita-nos acompanhá-lo em seu passeio."

"Até quando Vishkar vai me vigiar?"

"Trata-se de zelo, Majestade." — respondeu um dos homens com alguma deferência.

"Façam como quiserem."

Sorem se pôs a voltar a caminhar ao lado de Damen e disse:

"Se importa se conversarmos em akielon, ao invés do veretiano, Exaltado?"

"Nunca perco a oportunidade de falar em minha própria língua. Meu vaskiano é muito raso e não me arriscaria a ferir os seus ouvidos. Você também domina o patrano?"

"Sim." — respondeu o homem em patrano— "A educação em Skarva é muito rigorosa para a família imperial. Eu estudei para ser um embaixador, mas queria mesmo atuar como médico na guerra."

"O senhor é como Laurent. Um homem inteligente e poliglota."

"Fico lisonjeado. A mente superior do rei de Vere é famosa mesmo em Vask. Assim como a sua beleza."

Damen, caminhando ao lado de Sorem, voltou-se sobre o seu ombro, constatando que os dois soldados vaskianos os seguiam a uma curta distância.

"Qual é o propósito disso afinal?"

"Vishkar gosta de manter o controle sobre todos em seu reino. Apesar de me desprezar, ainda sou o esposo dela. Alguns podem tomar a ideia errada ao me verem caminhando a sós com o rei de Akielos."

Damen sorriu de um modo enviesado.

"Achei que a poligamia em Vask fosse algo natural."

"Ah, e é! Mas algum ciúme sempre se mantém e, por conta disso, dispomos de algumas regras. É traição se o cônjuge tem um relacionamento com alguém e o esconde de seu parceiro amoroso. Um ato completamente escandaloso. Estou aqui, num jardim calmo, em companhia de um belo homem e a minha senhora não faz ideia. A sua fama é grande também em Vask, Exaltado, com o perdão da palavra... Sabemos que a virilidade e a diversidade são valorizadas em Akielos."

"Sim."

"Então, Akielos deve entender o tédio de se ter uma vida monogâmica e a necessidade dos costumes polígamos de Vask."

"Me surpreende a minha fama alcançar Vask, principalmente quando me tornei um rei reservado e cortejo apenas um único homem, que é o rei deste jardim e deste palácio. A monogamia não me entedia. Me cativa, na verdade."

Sorem desviou o seu olhar.

"Entendo. Bem, você faz o meu tipo, Damianos. Nunca dormi com um akielon, mas tenho curiosidade. Eu me atrairia pelo senhor se estivesse disponível, mas longe de mim querer interferir em qualquer coisa entre as nações-irmãs. Tenho um pouco de medo de Laurent de Vere e prezo por minha vida..."

Damianos ruborizou um pouco.

"Muitas pessoas têm um justificado medo de Laurent."

Sorem sorriu e Damen o avaliou de um modo breve. Damen tinha uma preferência natural pelo cabelo claro, mas ele apreciava o tom de pele quase da mesma brancura do algodão de Sorem e os seus olhos em um tom de verde amarelado que não se via em Akielos.

Mas Damianos não se sentia atraído pelo imperador.

"Além do mais..." — prosseguiu Sorem— "Não sou do tipo de homem que seduz os seus alvos de interesse em um jardim a céu aberto, sob o sol."

"Prefere uma festa com vinho e dança como fez com o conselheiro Audin?"

"Sou suscetível à gentileza. E acho que a melhor intimidade é aquela que se dá entre dois homens num quarto com portas e janelas fechadas à luz do fogo mortiço de um candeeiro..."

Houve um silêncio irregular e Sorem se deteve, com as mãos para trás, diante de duas flores brancas que desabrochavam da mesma haste no jardim. Sorem as observou de perto.

"Ora ora, esse tipo de flor é bastante raro. São as mesmas do poema de Iságoras. Aqui há duas. Como se diz em Vask, as bênçãos vêm em dobro..."

Damen desviou o seu olhar pelas pétalas brancas perfumadas no enorme jardim em que alguns insetos sobrevoavam.

"Só as bênçãos?"

"As desgraças também, mas, sinceramente, não gosto muito dessa parte, Damianos. Procuro ser positivo..." — sorriu Sorem, erguendo a vista para um inseto verde serpenteando as pétalas brancas, antes de alçar voo.

Damen viu os soldados atrás de Sorem sussurrarem alguma coisa entre si. O imperador declarou então:

"... É melhor eu voltar. Vou procurar algum entretenimento no palácio e dar uma folga para os soldados. Mas é sempre bom trocar algumas palavras com o rei de Akielos."

"Eu o acompanho. Vou retornar para os meus aposentos e esperar por Laurent neles."

Damen constatou que precisava também ficar a sós com os seus pensamentos.

Os homens caminharam, então, pela curva que os conduzia ao palácio.

"Por que deu Afanas para Laurent? Achei que os leopardos fossem sagrados em Vask..."

"E são. Pensei que havia deixado claro que, com esse gesto, qualquer perturbação da parte de Vishkar não seria possível. Ela nunca atacaria um lugar em que os seus preciosos leopardos estivessem... São como filhos para ela."

"O senhor me confunde, imperador. Foi capaz de um gesto tão ousado como doar um leopardo do seu próprio reino para Laurent, a fim de evitar uma guerra incitada pela imperatriz, mas reluta em desconfiar que o império está envolvido com o tráfico de escravos."

Sorem pestanejou.

"Eu amo a minha esposa, Exaltado. Talvez não do modo apaixonado que muitos casais amam os seus parceiros, mas com dedicação. Lhe impedindo de dar passos errados e sendo seu amigo ainda que ela recuse a minha amizade. Vishkar foi a minha melhor companhia durante muito tempo. Me recuso a acreditar que ela seria capaz de algo tão atroz, assim como ela seria incapaz de fazer qualquer coisa contra mim, apesar de me detestar muitas vezes."

Damen observou os soldados que os seguiam, sem ter muita certeza disso.

Os homens adentraram o palácio, passando pelo jardim menor de lajotas, caramanchões, pérgulas e jasmins-manga. Do Salão Principal, Damen sentiu o cheiro de carnes temperadas envoltas em folhas de uva; faisão com maçãs; aves recheadas com passas e cozidas no leite. Temperos e pimenta em profusão. A comida do sul. O perfume gostoso invadia os jardins que estavam praticamente vazios.

Seguindo pelos corredores que levavam aos quartos dos nobres, eles viram alguns escravos passeando pelos saguões, levando a comida de seus mestres que preferiam fazer a refeição em privado em seus aposentos. Damen rumava para o Quarto Real quando um criado, vindo da direção contrária, pareceu se distrair com os dois homens e tropeçou nos seus sapatos, derrubando vinho em Sorem e nele.

A jarra de cerâmica bojuda fez um malabarismo sobre a bandeja de prata e a bebida violeta entornou em um grande jato sobre o quíton de Damen e sobre a blusa de seda de Sorem.

Os soldados que os escoltavam pareceram confusos e o escravo se pôs imediatamente de joelhos no chão, tecendo apologias feito um coelho assustado.

"Majestades, por favor, perdoem-me."

Sorem pestanejou, tendo a maior parte do vinho entornado em sua roupa alinhada. Tirando a blusa de dentro da calça e a sacudindo, ele riu:

"Por favor, levante-se. Foi somente um ato de distração."

O escravo, com olhos assustados, ergueu-se e olhou para Damianos de um modo desolado, antes de baixar a cabeça. O akielon fez, então, o seu movimento de dedos.

"Não se preocupe com isso..."

O escravo, pedindo repetidas desculpas para se retirar, afastou-se após recolher a jarra do chão, levando-a vazia sobre a bandeja de prata. Antes, ele retirou um tecido de suas vestes e se curvou, enxugando o piso.

"Você está encharcado." — disse Damen, observando a imensa mancha de vinho na blusa veretiana do imperador.

"Sim. Creio que terei que permanecer um tempo assim até o conselheiro Audin retornar para o seu quarto..." — Sorem não parecia aborrecido com a sua situação. Ao invés disso, ele parecia se divertir feito um garoto que levara um banho.

Damen estava com o quíton também manchado e se deteve, olhando para os guardas vaskianos atrás de si. Depois, o seu olhar se depositou em Sorem, que pestanejou os seus olhos verdes.

"Espere aqui."

Damianos entrou no Quarto Real, fechando a porta atrás de si. Ele despiu o quíton e o atirou em um canto. Depois, vestiu outro, retirando-o de dentro do baú de madeira e o colocando, após enxugar o vinho de seu corpo com uma toalha.

Damen procurou entre as poucas roupas veretianas das quais dispunha alguma camisa que pudesse servir em Sorem. Ela, certamente, ficaria enorme nele e o engoliria, mas era melhor do que andar embebido em vinho pelo palácio.

Abrindo a porta, Damen encontrou Sorem parado ainda, esperando-o. Os soldados vaskianos se mantinham atrás dele, muito quietos.

"Use isto. Deve ficar grande em você, mas é melhor do que nada."

O imperador agradeceu com um sorriso surpreso e um erguer de sobrancelhas, pondo-se a desfazer os nós de seus pulsos e de sua gola. Por fim, ele despiu a sua camisa manchada de vinho e a atirou para o soldado vaskiano chamado Rasmud, dizendo:

"Para guardar de lembrança, já que você me segue aonde quer que eu vá feito um menino apaixonado, doçura." — disse Sorem de um modo descontraído, arrancando um sorriso de Damen e deixando o soldado que apanhara a sua blusa, muito vermelho.

Damen deslizou rapidamente o olhar pelo corpo de Sorem e percebeu que a sua pele sob a blusa era ainda mais branca e macia. Havia veias azuladas em seu pescoço e um aro metálico preso a um de seus mamilos rosados.

Ele era um homem de estrutura óssea estreita, mas havia uma musculatura definida em suas espaduas e abdômen.

Damen franziu o cenho, percebendo marcas arroxeadas no braço do homem e ele se recordou de Pari erguendo o seu punho no ar. Contudo, Damen desviou o olhar quando Sorem ergueu os seus, no instante em que ele cobria os seus ombros com a blusa cedida pelo akielon.

"Sabe, Damianos, há um fetiche no meu país com os homens do sul. Muitos os têm como bárbaros e rudes. Muitos desejam serem montados por eles em um gesto depravado de selvageria." — o imperador exalava uma febre de suas pupilas vicejantes erguidas.

"E...?" — indagou Damen, tendo o rosto do homem próximo ao seu.

"E... vejo agora que você não é assim. É um homem gentil."

Damen pestanejou.

"Devo me sentir mal por não atender às expectativas do seu povo?"

Sorem sorriu.

"Aí que está. Não. Porque você atende às minhas. Eu gosto de gentileza, se esqueceu?"

Damen ruborizou, mas respondeu com secura:

"Não me diga esse tipo de coisa, Vossa Majestade Imperial e não entenda mal a minha boa educação. Sou um homem comprometido com Laurent de Vere. Para mim, só existe um homem!"

O imperador assentiu com um sorriso enviesado.

Nesse instante, barulhos de passos irromperam no corredor. Solas de botas, vozes, altivez. Sem que fosse esperado, Laurent surgiu com Afanas em seu colo, tendo uma fina corrente ao redor do pescoço do felino. Os conselheiros Herode, Chelaut e Mathe o acompanhavam e eles conversavam sobre algum tópico que foi interrompido de modo brusco.

"Damen!"

Damianos, instintivamente, afastou-se de Sorem. Uma imagem de distância fria e difícil se sobrepôs em Laurent. Ele se empertigou em uma postura severa e ereta com a graça impessoal desde os olhos azuis distantes às maçãs do rosto arrogantes.

Os conselheiros olharam a cena também com uma atenção descrente e Damen entendeu a estranheza da situação. Ele estava com o imperador de uma nação estrangeira parado à porta de seu quarto, com a camisa aberta e falando próximo ao seu rosto. Uma mente pérfida julgaria que ele deixava o Quarto Real.

"O imperador sujou a sua camisa com vinho e lhe emprestei uma minha." — explicou-se, rapidamente, Damen, sentindo um arrepio diante da expressão de Laurent.

Sorem se pôs também a explicar, sorrindo.

"Sim. O rei de Akielos foi muito gentil."

Laurent lançou ao imperador vaskiano um olhar singular. Assassino. O mesmo que reservava para os treinos com adagas.

"O conselheiro Audin já deixou a reunião. Vá se trocar em seu quarto." — disse ele, rispidamente.

O imperador fez o seu gesto característico de juntar as mãos em um cumprimento, após engolir em seco, tendo o seu sorriso resiliente abalado.

"Majestades." — disse ele, partindo com os soldados vaskianos em seu encalço.

Os três conselheiros, percebendo, talvez, o arquear das sobrancelhas pálidas de Laurent que eram como o prelúdio da erupção de um vulcão (um vulcão de gelo), despediram-se também, parecendo um pouco constrangidos.

Afanas brincava com os babados da camisa de montaria de Laurent e parecia indiferente à declaração de guerra que se daria. O rei de Vere pestanejou os seus olhos azuis, medindo Damen dos pés à cabeça.

"Trocou de quíton?"

"Sim. Um escravo derramou vinho em nós dois. Eu entrei e troquei de roupa e, quando terminei, lhe emprestei uma camisa."

Laurent se manteve muito rígido com uma expressão indefinida no rosto.

"...O que foi?"

"Sorem estava com o rosto quase grudado ao seu..."

Damen girou os olhos nas órbitas.

"Ah, por favor, Laurent. Acha que eu ia trazer alguém para o nosso quarto?"

"Pelo que vejo, trouxe!"

"Ele se manteve na porta enquanto eu entrei. Pode interrogar os guardas vaskianos se pairam dúvidas sobre a minha conduta."

"Para mim, sempre foi abominável a ideia de sair interrogando pessoas a respeito da fidelidade de um homem. Para min, essa ideia continua sendo abominável." — declarou Laurent com um erguer orgulhoso de seu queixo.

Damen engoliu em seco, sentindo-se culpado sem o sê-lo.

"Ótimo! Então não pergunte. Confie em mim!"

Laurent teve a sua mão mordida pelo pequeno leopardo em seu colo, mas não reagiu. Seu olhar se mantinha cravado em Damianos.

"Sorem está interessado em você!"

Damen moveu o seu rosto.

"Sim, parece estar! Mas eu não estou." — e, baixando o tom, ele complementou — "Eu estava seguindo as suas instruções. Pediu que eu tentasse descobrir algo com ele."

"Não o mandei quase beijá-lo."

Damen arqueou o seu lábio superior com um ruído de deboche.

"Hunf, não sou tão fácil assim para beijar qualquer um quando estou em missão."

As palavras simplesmente saíram e Laurent pareceu tontear por alguns segundos com a aspereza delas. Damen se arrependeu do que falou no instante seguinte. Com um pesar autopunitivo, ele fechou os olhos.

"De príncipe frígido a rei fácil. Você é incoerente, Damianos, mas obrigado por essa." — retorquiu Laurent, sem alteração em sua voz.

"Nunca lhe chamei assim. Desculpe. Eu não queria..."

"Queria sim! Talvez preferisse que uma espada atravessasse a mim, Nikandros, lorde Berenger e Ancel se eu não beijasse Toby. Pelo menos, teria o seu orgulho masculino akielon imaculado."

"Não, não preferia! Desculpe-me, Laurent. Esqueça o imperador. Ele não é importante."

Laurent virou o seu rosto e acomodou Afanas em seu colo.

"Descanse. Temos assuntos para resolver no fim da tarde."

"Aonde você vai?"

"Encontrar com Pari de Skarva."

Damen contraiu as suas sobrancelhas.

"Espere. Não prefere conversar sobre o que aconteceu?"

"Não aconteceu nada, não é mesmo?" — Laurent estava gelado e Damen sentiu o impacto como um déjà vu.

"Não. Onde vai procurar pela quarta esposa?"

"No pátio de treinamento ao ar livre da ala leste. Ou esperava que fosse em nosso quarto?"

Damen fitou Laurent de cima a baixo e viu o felino em seu colo bocejar. Havia um outro felino de grande porte com olhar de gelo que era mais assustador e, na doçura das carícias, Damen havia se esquecido de sua ferocidade.

"Como tem certeza de que ela estará lá? Mandou alguém segui-la?"

"Não seja tolo. Este é o meu reino, Damianos. Mandei chamá-la."

(cut)

Laurent sustentara a sua rigidez, evitando uma discussão mais profunda com Damen. Ele era escorregadio e astuto e sabia escapar das situações adversas com trapaça e arrogância. Ele era bom nisso. Era bom em esconder o que sentia. Porque, sinceramente, ele estava com muita raiva e, em seu íntimo, espinafrar o seu amante ao ponto da evisceração pública era algo que ele poderia fazer. Ele sentiria até prazer nisso. Ele era bom nisso.

Mas depois, certamente, ele experimentaria remorso porque ferir Damianos era como ferir a si mesmo. A prerrogativa de um amante, da qual o akielon estava se servindo agora. Então, era melhor Laurent estrangular as suas emoções e se cercar das barreiras confortáveis de si mesmo. Era acolhedor se esconder e afundar em seu orgulho para não morrer de ciúme.

Não é que ele nunca tenha experimentado o gosto amargo do ciúme antes. Na verdade, sentia-o muito como um condimento desagradável que acompanhava o sabor das delícias do amor.

Quando Laurent vira na primeira vez Damianos e Pallas se enroscando nus nos jogos esportivos numa luta corporal oleosa, ele sentiu que o seu coração se inquietava. Os rostos sorridentes; a troca de afagos cúmplices, após a vitória ser declarada para o rei de Akielos; os jogos de garotos. O modo como Damen parecia inserido em seu mundo, em seus hábitos, na sua cultura, a qual Laurent, subitamente, percebia que conhecia pouco porque a simplificara a vida toda para tornar o seu ódio por akielons mais fácil.

Isso evidenciava a sua falta.

Ele sentira ciúme também de Nikandros quando ele puxara Damen para uma sala privada e lhe questionara sobre as marcas de chicote em suas costas, após despir o seu quíton. Laurent, na ocasião, seguira o kyros com a deliberação dos que não conseguem se conter e se deparara com ele, apontando as falhas de Laurent para o seu rei. Como era possível Damen amar um monstro insensível? Havia um povo inteiro que venerava Damen, que o amava. Laurent era só um cabelo loiro que estava se demorando demais e que destruía coisas.

Por fim, Jokaste... Jokaste por quem Damianos chorara as suas mágoas para Laurent em Nesson... Um réptil belo com quem Damen experimentara algo que pertencia somente aos dois.

Não é que o imperador de Vask pudesse fazer frente a Laurent ou ele acreditasse, de fato, que ele e Damianos estavam em vias de foderem, mas a reunião com o Conselho fora difícil e Laurent se sentia exposto e ferido. Até quando Damen lhe concederia exclusividade? Reis akielons dispunham de amantes.

"Deveria cogitar estabelecer um tratado de noivado pelo menos, Majestade." — dissera Chelaut durante o encontro com o Conselho— "Entendemos o seu forte vínculo com Damianos de Akielos, mas não pode se casar com ele. Precisa de uma esposa."

"Eu não preciso de uma esposa. Não estou pensando nisso agora. Há mais coisas em Vere com que devo me preocupar."

"Um rei precisa pensar em seu casamento. E o rei de Akielos? Ele já está quase com vinte e sete anos. É a idade ideal para um jovem rei se casar. Os akielons têm uma cultura patriarcal enraizada que cobra herdeiros do seu rei. Theomedes teve Egeria e Hypermenestra que lhe garantiram dois filhos homens."

"Uma esposa teria sido o suficiente. Veja o problema que uma amante e um bastardo trouxeram para o antigo rei..." — disse Laurent, referindo-se com sarcasmo a Kastor.

"Um tempo afastados para resolverem essas questões matrimoniais e de herdeiros seria aconselhável, Majestade. Por um curto período apenas." — disse o conselheiro Jeurre.

"Por nem um minuto sequer! Damianos e eu seguiremos juntos pelo tempo que nós dois acharmos apropriado. Enquanto ele me quiser, estarei ao lado dele. E se ele não quiser tomar amantes para si, não serei eu que o incentivarei."

"Majestade, não acha que está tentando colocar Damianos de Akielos no lugar do seu falecido irmão Auguste?" — indagara Jeurre com a beligerância de um brandir de espada.

Mathe arregalara os seus olhos azuis, constatando que uma linha dura havia sido cruzada.

"Jeurre, não diga isso..."

"Você começou a fazer parte do Conselho, após Guion ter sido feito prisioneiro, Mathe, e não observou de perto a relação dos dois príncipes. Laurent seguia Auguste aonde quer que ele fosse e Auguste, quando muito jovem, protelava todos os deveres dele para estar perto do irmão. Quando eu olho para a forma como Laurent se tornou dependente de Damianos, parece que estou olhando para uma imagem do passado. Ele parece uma criança e não um rei."

Laurent, num momento raro em que os seus olhos ardiam, pareceu prender a respiração. O seu peito arfou e ele contraiu as sobrancelhas com raiva.

"Isso foi cruel, conselheiro! Não sei se me sinto mais indignado por macular a memória de meu irmão, sexualizando a nossa relação ou por tornar incestuosa a minha proximidade com o meu amante..."

Herode ergueu a sua mão enrugada.

"Cale-se, Jeurre, não aborreça o rei com essas fofocas!"

"Deixe que ele fale, Herode! Acha que me tornei dependente de Damen, conselheiro Jeurre? Bom, é verdade! Talvez seja o processo natural de alguém que encontra ajuda no lugar em que menos espera. Damianos colocou a vida dele a prêmio ao meu lado em Ios enquanto o senhor bajulava o meu tio que fodia com meninos e que não precisava de ninguém. Só de poder. Então, sim, o meu homem vai sentar ao meu lado no trono e governar junto comigo o que temos!"

Laurent, carregando ainda Afanas em seu colo, atravessou o jardim, indiferente aos gestos deferentes que ia recebendo no caminho dos nobres, soldados e escravos ou aos olhares cobiçosos que ainda o perseguiam na sua roupa de montaria. Ele rumou, então, para o pátio de treinamento.

Laurent se sentia sufocar um pouco dentro de sua pele e de seus ossos. Dependente. Quando ele mudara tanto? Quando passou para o estágio de um homem que não se permitia o prazer para o processo de alguém que dependia dele? Ele era o príncipe frígido de Vere que os conselheiros olhavam anteriormente como uma criatura incivilizada e perigosa, mas agora era admoestado por sua paixão febril. Quando o ciúme se tornou um medo?

Laurent se recordava que na primeira vez que ele e Damen fizeram amor em Ravenel, ele sentiu uma estranheza de si para consigo mesmo. O que o fazia diferente naquele instante dos soldados que o rodeavam no forte? Com que idade aqueles homens haviam feito sexo pela primeira vez? Quantas vezes o fizeram? Eles gostaram de suas experiências ou simplesmente passaram por elas? Eles percebiam que o príncipe de Vere estava diferente?

Laurent sempre achara que já havia feito sexo antes, mas o que experimentara precocemente não podia ser chamado de sexo, assim como o que fizera com Damianos de Akielos não podia ser chamado só de sexo. Ele fora de um extremo a outro.

O mundo continuava a se mover. As pedras, as árvores e o céu estavam no mesmo lugar. Mas quando ele e Damen trocaram um único olhar, ele percebeu que o seu mundo estava remexido e em erosão como as ruínas de Marlas. Isso foi assustador.

No pátio de treinamento, Pari de Skarva esperava Laurent, sentada em um banco de pedra. Ela trajava as suas roupas de guerreira e preparava uma narguilé. Isander se mantinha de pé com uma bandeja de prata redonda, servindo refresco para a vaskiana.

A mulher moveu o seu rosto bonito em direção ao rei de Vere e se ergueu, fazendo uma deferência. Isander baixou a sua cabeça solenemente.

"Boa tarde, Pari de Skarva. Fico feliz que tenha respondido ao meu convite." — declarou Laurent.

Pari sorriu e o seu olhar muito azul se depositou no leopardo. Sorrindo, ela estendeu a mão para fazer um carinho entre as suas orelhas.

"Afanas bebê, como está?" — disse ela em vaskiano.

O felino pareceu reconhecer a quarta esposa e, após um rosnado suave, pôs-se a tentar alcançar com a pata gorda as franjas de sua pulseira de couro.

"Kalina me disse que havia o levado para passear na floresta quando a senhora e Vishkar foram vê-lo."

Pari sorriu e recebeu Afanas em seu colo quando Laurent o passou para ela. A mulher dedicou renovados carinhos ao felino enquanto ele lambia a sua mão.

"Obrigada por trazê-lo. Kalina nos contou que Afanas está já comendo carne crua, mas tem um fraco por carnes assadas na manteiga. A leoparda mãe dele também é assim." — depois, ela ergueu o seu olhar para Isander — "Estava agradecendo ao seu serviçal pela dedicação daquele dia."

Laurent respondeu com o seu vaskiano fluente e com a sua língua nativa de sarcasmo:

"Fico feliz que o meu criado a tenha feito gozar no dia do meu aniversário."

"Podia se juntar a nós, Majestade. Mas acho que o senhor não faz esse tipo..."

Laurent fez um movimento com as mãos.

"De fato, não faço. A senhora preferiu o kyros ou Isander?"

Pari levou a mão ao queixo, pensativa.

"Os dois têm o seu charme. Um era um homem muito experiente e o outro, um novato. Apreciei os dois, mas acredito que eles tenham preferido um ao outro do que a mim."

Laurent fitou a mulher diante de si de cima a baixo.

"A senhora é tão bela. E os dois gostam de mulheres. Creio que esteja equivocada."

"O desejo possui vida própria, Majestade. É misterioso."

"E a senhora prefere os dois ou a imperatriz?" — disse Laurent ainda em vaskiano, erguendo o seu olhar para Isander e o devolvendo com um sorriso enviesado para Pari — "Cá entre nós..."

Pari moveu o seu rosto, sorrindo ainda.

"Eu prefiro Vishkar a qualquer homem ou mulher no mundo todo."

"Uma resposta segura..."

"A verdade é sempre o mais seguro."

Pari devolveu Afanas para Laurent e ele o entregou para Isander o levar de volta até Kalina. O felino, com as suas manchas negras, rosnou baixinho em protesto.

O escravo se retirou, fazendo uma mesura e deixando sobre um outro banco de pedra a bandeja com refresco.

"O que está fazendo?" — perguntou Laurent com o seu olhar se demorando na narguilé.

"Ah, isso..." — disse Pari, voltando ao seu trabalho com o artefato — "É uma espécie de cachimbo comum entre o povo vaskiano, utilizado para fumar tabaco flavorizado com especiarias. A fumaça passa pela água antes de chegar à boca. Coloquei um pouco de licor vaskiano na base."

Laurent observou Pari misturar tabaco preparado previamente e separado em um pires no fornilho. Depois, ela cobriu o fornilho com um pedaço de papel com pequenos furos, erguendo os seus olhos azuis para o veretiano que prestava atenção em seus movimentos.

"...Quando procurar entre os presentes dados por Vask, verá que o meu foi uma narguilé de ouro para Vossa Majestade. Vishkar o achou um tanto vulgar, mas eu sou uma mulher do povo que se casou com o império e não uma nobre."

Laurent acompanhou Pari encaixar a bandeja coletora de cinzas sobre o corpo do artefato e posicionar o fornilho em cima de tudo, vedando bem o encaixe.

"Eu recebi muitos presentes. Desculpe por não ter ainda verificado o seu, quarta esposa. Mas obrigado de qualquer forma."

O processo seguiu em que Pari preparou longamente o carvão seguro em um tenaz sobre o fogo.

"Sobre o que Vossa Majestade queria conversar comigo?" — perguntou ela com delicadeza.

Laurent sustentou o seu olhar distante e despiu a sua cabeça do chapéu de abas e corrente que ainda tinha da montaria.

"Creio que sobre o que se sucedeu no meu aniversário primeiramente. Não sei se um pedido de desculpas é adequado por sua exposição, visto que pareceu gostar tanto de Nikandros e de Isander."

Pari meneou o seu rosto.

"Os akielons foram atenciosos e me fizeram gozar. Nós, guerreiras vaskianas, não temos medo ou vergonha do sexo."

Laurent observou os três carvões se tornarem alaranjados sobre o fornilho com o tenaz.

"Como consegue fazer sexo diante de sua esposa?" — indagou Laurent, sem ter a sua voz alterada.

Pari deu de ombros.

"Fazemos assim em Vask. É bem excitante na verdade. Já vi Vishkar com outras mulheres. Depois, replicamos o que vimos quando fazemos amor e é bem prazeroso."

Laurent ergueu discretamente a sua sobrancelha e sentiu em seu peito o ciúme por ver Damen conversando com o imperador diante da porta de seu quarto. Se ele visse Damen montando Sorem de Ver-Tan, ele atiraria a sua adaga na bunda branca daquele puto sem vergonha de Vask.

"Já viu a imperatriz montando Sorem de Ver-Tan?" — perguntou o rei, com acidez.

Pari ergueu o seu olhar azul e deu um sorriso enviesado.

"Digamos que o encaixe entre os dois não seja tão recorrente."

Laurent contraiu o canto da boca com desdém, dizendo:

"Claro... Se fosse um homem, ele compareceria."

Laurent observou Pari deixar o fornilho esquentar e acrescentar algo mais dentro da narguilé.

"O que é isso?"

"Uma erva de Vask para relaxar os músculos e a mente. Algumas mulheres as fumam nas tribos, após a caçada ou antes do sexo."

"Eu não vou fumar isso."

Pari assentiu.

"Fique à vontade, Majestade. Na verdade, foi um arranjo que fiz para mim mesma. Vishkar está em nosso quarto conversando com Torgeir e o rei de Patras não gosta do cheiro da narguilé. Não quis o incomodar, mas aproveitei a oportunidade para fazer isso enquanto conversávamos."

Laurent perguntou, então, sem meandros:

"Como você foi parar em Skarva, sendo uma mulher da tribo de Halvik?"

Pari se deteve por um segundo.

"Achei que houvesse deixado claro em sua festa que esse é um assunto indigesto, Majestade."

Laurent tamborilou os dedos em seus joelhos.

"Vamos colocar assim, minha querida. Na reunião do fim da tarde de hoje, vai ser aberta uma investigação contra Vask e Patras por causa dos ringues ilegais que estão sendo instaurados no meu reino. Todos sob o meu teto se tornam automaticamente suspeitos. E uma guerreira que se torna uma prostituta para depois se tornar uma concubina e, ainda após isso, uma esposa imperial me intriga. Você é uma alpinista social ou uma espiã?"

Pari voltou o seu rosto com uma expressão surpresa. Depois, lentamente, ela levou o bucal da narguilé à boca e puxou a fumaça pela mangueira. De seus lábios entreabertos, após um tempo, a bruma esbranquiçada se espiralou diante de seu rosto.

"Quem lhe informou que eu fui uma prostituta? Eu não costumo me envolver nas decisões políticas do império, mas posso lhe afirmar que Vishkar não gostaria de ver os seus concubinos fazendo em um ringue o que ouvimos que a corte de Vere aprecia muito."

Laurent observou a mulher por um tempo. Ela disse então:

"...Vim de Skarva porque a minha mãe adoeceu. Ela havia deixado o clã para se unir a um homem que, anos depois, a abandonou num prostíbulo. Eu tinha uma irmã pequena e ela insistiu que queria ver a nossa mãe uma última vez. Então, fomos para a capital..."

"E...?"

"E a nossa mãe morreu e não pudemos fazer nada sobre isso. Não pudemos voltar para o clã também. Trabalhei um tempo no bordel no qual a minha mãe morava em Skarva, protegendo os prostitutos do lugar de homens impertinentes e cruéis. Nunca me deitei com ninguém por ouro. Pouco depois, conheci o imperador e ele viu valor nas minhas habilidades. Ele me adotou para a sua guarda."

Pari se deteve, dando uma outra tragada na narguilé.

"E o que houve?" — indagou Laurent.

"Vishkar me conheceu e nos apaixonamos. O resto, como dizem, é história. Ela me deu o título de Skarva porque as mulheres do clã são nômades."

"Por que despreza o imperador?"

Pari pestanejou os seus olhos azuis, erguendo a cabeça para tragar a fumaça.

"Porque ele é um homem desprezível e fraco."

Laurent contraiu as suas sobrancelhas.

"Apenas por isso?"

"Quem quer ser amiga de alguém desprezível e fraco, Majestade?"

O veretiano estudou os movimentos da mulher por alguns segundos.

"Onde está a sua irmã?"

"Nimue é uma menina de treze anos hoje em dia. Faz muito tempo que não nos vemos e ela mora perto das montanhas. Espero poder reencontrá-la em breve." — respondeu a quarta esposa, sorrindo.

Laurent fitou a narguilé por um tempo, tendo a fumaça alcançando os seus sentidos. Era um perfume doce e não de todo desagradável. Ele perguntou, então, sem meandros a respeito da informação que Loyse obtivera.

"De onde a senhora conhece Guion?"

Neste momento, Pari estancou no ato de ir levar o bucal até os seus lábios afastados e um desconforto passou por seu rosto.

"Guion?"

"Sei que conhece o conselheiro que me traiu. De onde?"

"É um interrogatório, Majestade?" — perguntou Pari, arqueando as sobrancelhas.

Laurent moveu as mãos ao seu redor com alguma impaciência.

"Desculpe, dei a entender que era outra coisa? Achou que eu ia marcar um encontro com a senhora, longe da imperatriz e de seu exército para falar de amenidades e tabaco?"

Pari levou a mão ao queixo.

"Posso responder à sua pergunta se eu puder lhe perguntar, em seguida, algo também."

"Desculpe, não barganho em meu próprio reino."

Pari respirou fundo.

"Sabe que vou contar sobre tudo o que falarmos aqui para Vishkar depois, não sabe?"

"Estou contando com isso! Por favor, quarta esposa, não me desaponte."

A mulher tragou a fumaça e passou a língua pelos seus lábios de um modo sedutor.

"Guion frequentava o prostíbulo que eu protegia. Ele era o embaixador de Vere em Akielos, mas, às vezes, com a anuência do Regente, fazia uma estendida até Skarva no caminho de volta à Vere. Ele gostava de foder em três. Havia dois prostitutos que eram os seus preferidos. Gêmeos. Gêmeos são muito comuns em Vask, mas exóticos para as outras nações. Ele importunou os gêmeos até não aguentarem mais e um dia machucou um dos garotos por querer forçá-lo a fazer algo que ele não queria fazer. Dei uma surra em Guion por ser tão insistente."

Laurent sacudiu o rosto.

"Acredita se eu disser que com a esposa Guion parecia ser um homem idiota e cansado?"

Pari deu de ombros.

"Ele era um idiota. Por isso, fiquei feliz quando soube que ele morreu. Espero que ele tenha sofrido bastante..."

"Ah, ele sofreu... Todos que apoiaram o Regente, sabendo de suas falcatruas contra mim foram executados em praça pública com bandas, fartura e rapapés..."

Pari sorveu um pouco de fumaça e a expeliu, sorrindo.

Um silêncio se fez e Laurent olhou a mulher com curiosidade. Ela usava um bustiê de couro com ilhós e cadarços e calças folgadas. Sua barriga exposta era rígida e havia um aro metálico em seu umbigo.

"Faça a sua pergunta. Se eu tiver vontade de responder, responderei. Se for algo estúpido, acho que podemos encerrar o nosso encontro."

Pari assentiu com as mãos apoiadas atrás de si, jogando o corpo para trás.

"Por que Vossa Majestade está triste?"

Laurent foi pego de surpresa. Ele abriu a boca e a fechou um pouco aturdido. Depois, respondeu com rispidez:

"É uma pergunta estúpida."

Pari fez o movimento característico de Vask de unir as palmas das mãos diante de si.

"Lamento. Não pude deixar de reparar na dor de seus olhos, Majestade. Via no prostíbulo de Skarva muita aflição em alguns clientes. Vi pessoas chorando enquanto eram fodidas ou querendo fazer outras chorarem. Vi de tudo, mas, talvez, eu esteja enganada..."

Laurent se deteve, fitando a mulher voltar a tragar a narguilé com um movimento despreocupado e relaxado. Havia algo que o rei veretiano ainda queria perguntar. Ele experimentou a questão com algum rubor em suas bochechas. Depois, baixou o olhar, antes de erguê-lo, hesitante.

"Majestade?" — indagou Pari, vendo que o veretiano ainda não se levantara para se retirar, como havia anunciado que faria.

Laurent disse então:

"Onde aprendeu a foder daquele jeito?"

Pari havia tragado muita fumaça e deu uma curta tossida antes de falar.

"Perdão?"

"Desculpe, mas a senhora fode como uma puta. Nunca havia visto uma mulher sendo montada. Nikandros e Isander estavam excitados como dois touros. O que fez para deixá-los tão dispostos daquele jeito?"

Laurent suspeitava que o criado e o kyros haviam consumido damiana também no vinho servido nos banhos, mas a disposição dos três era mais vibrante do que qualquer outra coisa no Salão.

Pari levou a mão ao rosto.

"Desculpe, Majestade, me dê um minuto, sim?"

Houve alguns segundos em que Laurent permaneceu ruborizado e Pari fumava em silêncio. A vaskiana se pôs a falar então:

"...Eu estava excitada com a ideia e eles também. Nos deixamos levar. Isander é ingênuo, mas o kyros fode também feito um puto. Não quero levar os créditos sozinha..."

Laurent ergueu as sobrancelhas, recordando-se de Nikandros.

"Nikandros um puto? Hunf, pois veja só... É que, às vezes, é difícil se saber o que um amante quer..."

Pari pestanejou, meneando o seu rosto para fitar melhor a expressão do rei de Vere.

"Majestade, o senhor é um homem muito belo e, certamente, já dispôs de muitos amantes."

Laurent cruzou as suas pernas de um modo relaxado.

"Fico aliviado por saber que a minha fama de príncipe frígido não ultrapassou as montanhas e chegou até Vask."

"Frígido? Mas o senhor é amante do rei Damianos!"

"Sim, mas ele foi... o primeiro."

Pari moveu os seus cílios compridos e claros com alguma surpresa.

"Entendo... Lhe falta experiência então... e algum relaxamento..." — Pari estendeu o bucal da narguilé até Laurent, oferecendo-o.

"Eu não me interesso por tabaco, bebida e ervas..."

"Então, não experimente... Mas dizem que esta erva é boa para o desejo sexual, abatimento e elimina até mesmo maus presságios e sonhos ruins."

"Me dê aqui."

Nas duas primeiras tentativas, Laurent tossiu com a fumaça da narguilé, mas na terceira vez, o seu exalar de fumaça foi adequado. Ele sentiu o gosto de licor, especiarias e fogo preencher a sua garganta e aquecer o seu esôfago até a altura do coração. Depois, ele se sentiu tonto como se os seus pés fossem tirados do chão.

"A primeira vez é a melhor, não é mesmo?" — disse Pari, sorrindo e revelando os seus dentes com um distanciamento entre os incisivos.

"Acho que a imperatriz e Nikandros não gostariam de ouvir isso, mas Isander, talvez, concordasse..." — disse Laurent, sem saber por que sentia uma ligeira vontade de rir.

A quarta esposa mexeu em seu cabelo muito claro, prendendo-o em um rabo igual o das guerreiras do clã.

"Quer saber o que satisfaz um homem, Majestade? Pergunte a si mesmo primeiro. O senhor é um homem..."

Laurent assentiu, antes de se curvar para tragar a narguilé de novo. Ele inspirou, expirou e sorriu.

"Não sou um homem como os outros..."

O veretiano e a vaskiana continuaram conversando e Laurent se descobriu gostando da narguilé. Subitamente, a sua raiva e sua chateação se dissolviam junto com a fumaça e o que os conselheiros haviam o apontado parecia muito descabido. Damen com Sorem na porta do seu quarto. Que piada! Damen dormindo durante o sexo e lhe tocando como se tivesse medo de parti-lo ao meio. Uma grande piada!

"Eu quero que Damianos me tome o tempo todo... Como posso ter me tornado a puta de Vere em pouco mais de um ano?" — disse Laurent, rindo de verdade e sendo acompanhado por Pari.

Ele sacudia os seus ombros com o rosto vermelho e a vaskiana afastou a narguilé.

"Vá com calma, Majestade! Vire a cabeça assim." — disse ela, tocando com os seus dedos na nuca do veretiano.

Laurent deitou a cabeça para trás e fitou o céu azul.

"Eu quero foder o tempo todo..."

Pari sacudiu o seu rosto, parecendo se divertir.

"Deveria se aliviar um pouco sozinho também. O rei parece estar vivendo uma meninice tardia. Homens são assim quando tem catorze, quinze anos."

Laurent ruborizou com os seus olhos fixos ainda no céu.

"Eu não costumo fazer isso..."

Pari moveu os seus olhos, recebendo a informação com surpresa.

"Não costuma se tocar?"

"Não. Eu tenho um amante. Por que precisaria fazer isso?"

Um sorriso enviesado se desenhou no belo rosto da vaskiana.

"Se não quer foder consigo mesmo, como pode esperar que uma outra pessoa queira, garoto?"

Havia uma letalidade nas palavras de Pari.

"A senhora faz isso, mesmo sendo casada e podendo ter amantes?"

"Naturalmente. Isso nada tem a ver com Vishkar e meus amantes. Antes de precisar das carícias da imperatriz e dos outros, preciso das minhas. Qualquer menino ou menina passa por esse processo de descoberta e ele se aprimora durante a vida. É muito prazeroso ser alguém que sabe satisfazer a si mesmo. E atraente também."

Laurent baixou o seu olhar.

Nas vezes em que Damianos dormia ao seu lado na tenda como escravo, durante a empreitada de eles rumarem para Delfeur, houve uma noite em que Laurent não conseguira dormir enquanto o akielon descansava o sono dos justos profundamente ao seu lado.

Laurent seguiu, então, para o banho improvisado onde resolvera se banhar com um pouco de água fria. Sendo levado pelo momento, ele tentara se tocar, mas, apesar da inquietação, gozar para ele esbarrava em um bloqueio. Quase um tabu.

Houve noites também em que os seus sonhos lhe trouxeram o alívio pelo qual ansiava e quando Damen, como escravo, se propunha a dobrar os lençóis, Laurent declarava rapidamente com uma voz áspera e nervosa:

"Deixe-os aí. Saia!"

Após fazerem sexo pela primeira vez em Ravenel e Damen ser afastado já como o rei de Akielos, aquele desejo se tornara mais insistente. Contudo, Laurent, apesar de tentar, não conseguia chegar ao orgasmo sozinho. Havia condicionamentos, bloqueios e fantasmas demais. Um rosto desagradável em sua mente o espreitava. Com os dedos ao redor de seu pescoço e a outra mão em si, a voz lhe sussurrava, roçando a barba em seu rosto e lhe incitando horror:

"Gosta disso, Laurent?"

O que Damen conseguia fazer com o corpo de Laurent era algo que o veretiano não conseguia se proporcionar sozinho. E isso não mudara naquele tempo de cortejo. Ele se estimulava durante o sexo com o akielon enquanto era penetrado e era sempre muito bom, mas sozinho, aquele auto prazer não era bem-sucedido. A mente de Laurent não se silenciava.

De alguma forma, ele não achava que isso precisava de atenção e nunca levara o assunto até Paschal. Laurent nunca achou também que aquele tópico seria abordado no pátio de treinamento com uma estrangeira desconhecida e chapada.

Tragando a narguilé e jogando a fumaça para o alto, Laurent disse, após uma risada. O seu olhar estava desfocado. O seu vaskiano, no entanto, mantinha-se fluido.

"A minha mente não relaxa..."

Pari sorriu e apontou para o seu coração, falando em seu veretiano carregado.

"Precisa deixar seu jürök também falar, Majestade."

Laurent parou um instante, olhando ao seu redor. Um vento fresco soprava no pátio e os raios solares esquálidos recaíam nos espaços entre os bancos de pedra. As árvores moviam preguiçosamente as suas copas em um farfalhar distante. Estavam sozinhos.

"Eu me perco um pouco no sexo às vezes." — voltou a falar Laurent— "Mas a minha mente me mostra imagens, coisas que quero que Damianos faça comigo e não sei como pedir. Eu me irrito por ele não entender..."

Pari disse:

"Pode levar essas imagens para a sua intimidade, Majestade. Pode fazer o sexo com a sua mente aguda primeiro como quiser."

Laurent ruborizou. Ele observou a vaskiana tragar um pouco mais da fumaça da narguilé.

"Desculpa, não sei se deveria estar falando disso com a senhora."

Depois, ele riu, sem saber muito bem o porquê. Pari também riu, acalmando-o.

"Os prostitutos do bordel em Skarva e eu conversávamos muito no intervalo do serviço. Era divertido e creio que isso tenha contribuído muito para a minha formação."

"Então, conversar com a senhora é como conversar com um puteiro inteiro em Skarva?" — riu-se Laurent, com vontade, sentindo um formigamento em seu rosto e movendo os ombros.

"Sim!" — gargalhou Pari, dobrando-se, após soltar um anel de fumaça por seus lábios. Lágrimas se formavam no canto dos seus olhos azuis.

Laurent ergueu o seu olhar, como se se recordasse de algo.

"Eu vi a senhora cavalgando sobre o pau de Nikandros como se o mundo fosse acabar. Eu tentei abstrair que era Nikandros porque ele é meu amigo e não o vejo dessa forma. Mas gostei do modo como o dominou."

"Um homem gosta, ocasionalmente, de ser dominado. Mesmo um akielon."

Laurent sacudiu o seu rosto.

"Damianos não gosta. Ele é o rei de Akielos. Uma sociedade patriarcal e que, até pouco tempo, gostava de escravos submissos que não se masturbavam até servirem aos seus mestres pela primeira vez. Ele gosta de conduzir as coisas."

Pari ergueu as sobrancelhas com uma expressão incrédula.

"Mesmo os reis gostam de serem dominados, Majestade! É bom poder relaxar no trono da realeza às vezes."

Laurent se recordou das vezes em que ele usou a sua bota apoiada no peito de Damen e de como as suas brincadeiras mentais, as suas pequenas fantasias deixavam o akielon servil e excitado. Lembrou-se também de Damen, como um escravo, tornando-se confortável demais em sua mentira e relutando em despi-la.

Laurent puxou a mangueira da narguilé para si e tragou novamente a fumaça do bucal metálico, sentindo uma pequena pontada em seu baixo-ventre ao se relembrar de Damen como um escravo. Depois, lembrou de si mesmo servindo o rei de Akielos nos banhos de Ios.

"Prove. Me faça gostar então."

Pari virou a sua cabeça, tendo o seu cabelo loiro e cheio em um rabo de cavalo se movendo com o seu rosto enquanto ela exalava a fumaça doce da narguilé com um olhar avaliativo. Dominador. A quarta esposa era não apenas bela, mas atraente em cada gesto singular seu. Havia algo de muito feminino e muito masculino nela. Laurent a achava bonita, mas não conseguia desejá-la de forma alguma. Ele entendia, no entanto, a excitação que homens e mulheres sentiam diante dela.

"Quer que eu prove, Majestade?"

"Não disse que os reis gostam de serem dominados? Eu sou um rei. Tente me dominar."

Houve um assentimento e uma risada sonora. Num gesto rápido, Pari montou sobre Laurent e o forçou a se deitar no banco de pedra sob ela. A vaskiana se sentou não sobre o pau do rei, mas sobre a sua barriga. Laurent sentiu um pouco de dor pelo golpe de tonfa que havia sofrido no dia anterior e gemeu, encaixando-a um pouco mais embaixo.

Laurent olhou para Pari com alguma tensão enquanto ela o fitava diretamente nos olhos. A sua mão de unhas cortadas rentes ao sabugo deslizou pelo peito do veretiano e se posicionou no pescoço dele, apertando-o um pouco. Ela moveu um pouco os seus quadris.

"Eu podia fazer com o senhor o que bem quisesse, sabia Majestade?"

Laurent retomou a sua expressão fria, mas um rubor subia por suas faces.

"Um grito meu e meus guardas surgiriam, cortando a sua cabeça."

Pari sorriu.

"Eles podiam pensar que é um grito de prazer e nos dar alguma privacidade."

"Não fodo mulheres. Eles sabem disso."

A vaskiana voltou a se mover sobre Laurent.

"E as mulheres podem foder o senhor?"

"Vai me montar sem um pau, quarta esposa?"

"Não preciso dele para o fazer gozar. Possuo a língua e os dedos de uma guerreira."

"É assim que Vishkar monta o imperador?"

"Talvez. Mas preferia que ela enfiasse uma tonfa em seu reto."

"Espero que não queira fazer isso comigo." — disse Laurent, com sarcasmo.

"Está com medo de mim, Majestade? Pode começar a choramingar se quiser... Como disse, posso fazer com o senhor o que bem entender..." — disse Pari, apertando um pouco mais a garganta de Laurent e se movendo sobre o seu corpo.

O rei veretiano pestanejou, antes de girar a quarta esposa sobre o banco com um golpe de luta akielon e se posicionar sobre ela. Ele estava sentado agora sobre a sua virilha e apertou o pescoço da mulher.

"Parece que não pode mais, Pari de Skarva..." — declarou Laurent— "Eu quem posso fazer o que quiser..."

A vaskiana sorriu, segurando a cintura do rapaz.

"E se eu fosse o seu amado Damianos, o que mandaria fazê-lo?"

Laurent moveu o seu quadril.

"Eu mandaria que ele me fodesse, sem piedade. Como fodeu a porra dos seus amantes em Akielos! Diria que ele não precisa ter medo de me machucar. Eu não sou mais uma criança!"

Pari sentiu o veretiano apertar mais o seu pescoço e afrouxou a sua mão, entrelaçando os seus dedos nos de Laurent.

Um gemido saiu involuntariamente pela boca de Laurent.

"E o que mais?"

"... E eu queria ficar por cima assim. Eu queria que ele olhasse só pra mim e pra mais ninguém. Ele é meu escravo e precisa fazer o que eu mandar!"

Laurent se sentiu tonto, apertando mais forte o pescoço de Pari. As bochechas dela e a tez se avermelhavam. Ele estava sobre a vaskiana e as substâncias que fumava lhe moviam naquela direção, mas não era uma direção correta.

Por que a quarta esposa do império havia realmente levado a narguilé para o seu encontro com o rei?

Laurent, constatando que estava chapado, se curvou sobre Pari com uma risada involuntária deixando os seus lábios. Um lampejo o acometeu e ele soltou o pescoço da vaskiana.

"O que estamos fazendo? Isso faz parte de algum plano seu?"

"O senhor que está por cima de mim, me dizendo obscenidades. Eu o dominei ou não?" — declarou Pari, erguendo uma sobrancelha.

Nesse instante, houve uma mudança na qualidade do ar do pátio e uma voz se elevou nervosa, aturdida, com o sotaque de Vask. O vento soprou carregado de presença e rompendo o momento anterior, fazendo o veretiano e a vaskiana se sobressaltarem.

"Mas o que é isso?!"

Laurent e Pari moveram os seus rostos ao mesmo tempo e o cenário com o qual se confrontaram era o pior possível.

Vishkar chegava ao pátio de treinamento, acompanhada do rei de Patras, Torgeir. Damianos estava ao seu lado, junto de Nikandros.

Em que momento aquelas quatro criaturas se reuniram e decidiram ir até o pátio de treinamento para se confrontarem com um cenário insólito?

O rosto de Damianos estava lívido, fitando com incredulidade Laurent montado sobre Pari de Skarva.

"Vishkar..." — murmurou Pari, nervosa, afastando o rei e fazendo menção de se levantar.

"O que significa isso, Laurent?" — indagou Damen com uma voz fria e pesada que lhe parecia atípica e antinatural.

O cenário se fez, então, claro para o rei de Vere como se ele se olhasse de fora. Havia um rei e uma imperatriz com os seus amantes entrelaçados em um lugar deserto. Havia como testemunhas os seus melhores amigos.

Laurent olhou com algum nervosismo para a narguilé, cujas substâncias estavam agora pairando em seu corpo, dilatando a sua pupila e não apenas derrubando as suas resistências, mas as explodindo, esmigalhando-as até reduzi-las à poeira tóxica. Ou cósmica, já que ele era a Estrela de Vere.

Laurent fitou novamente o rosto duro de Damianos. O músculo da mandíbula do akielon se contraiu. E ele se lembrou do seu amante quando residia em Arles como um escravo e o olhava como um inimigo a ser combatido.

Não havia mais reconhecimento ou doçura no olhar que Damianos derramava sobre o rei de Vere.

"Damen..." — murmurou Laurent, após engolir em seco.