A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 12
VENENO
Repress and restrain
Still the pressure and the pain
Wash the blood off your hands
This time she won't understand
Change in the air
And they'll hide everywhere
And no one knows who's in control
You're working so hard
And you're never in charge
Your death creates success
And you'll build and suppress
(Ruled by Secrecy – Muse)
Personagens
PATRAS
O MORTO
LEON, escravo que seria dado a Laurent como acompanhante e irmão mais novo de Latifa. Presente em Ios na execução do Regente
*Capítulo com referências ao side story The Adventures of Charls, the Veretian Cloth Merchant, de C. , infelizmente, não publicado no Brasil, mas traduzido generosamente por fãs da trilogia no Wattpad e Scribd.
11 anos atrás
Para a escrava Latifa, o mundo silencioso sempre fora uma coleção vasta de cheiros, sabores, texturas, rostos, gestos e movimentos de lábios que ela registrava como se os catalogasse em uma caixinha de madeira.
Ocasionalmente, havia um reverberar no ouvido de Latifa quando havia um grito, uma trompa ressoando ou um bater de porta. Mas, na maioria das vezes, o mundo era quieto. E isso podia ser um refúgio naqueles anos de guerra em que sobressaltos estridentes, choros e temores eram verbalizados a todo instante em Bazal.
A antiga mestra de Latifa, a princesa Tília, também era surda e, com ela, a menina aprendeu uma linguagem manual e a compreensão das palavras sem som em duas línguas que a permitiram se movimentar com liberdade pela corte patrana.
Contudo, depois que Tília faleceu, meses após o marido sucumbir nas fronteiras, Latifa se viu sendo negociada junto com o irmão menor para um senhor de escravos de Vere.
"Ora ora, o que temos aqui?"
O homem possuía um rosto jovem, bonito e as suas mãos cheiravam à colônia. Ele tocou nas bochechas de Latifa e deslizou o dedo pelos cabelos loiros e cacheados do menino Leon.
Torveld, o embaixador de Patras que cuidava da retirada de alguns escravos de Bazal para nações vizinhas, assim como do deslocamento dos nobres, disse:
"Essas crianças foram os escravos de minha falecida irmã. Os dois são muito bem-educados, disciplinados e são trabalhadores. A menina é versátil na cozinha e o menino sabe falar veretiano bem."
O homem que se ajoelhara diante de Latifa lhe sorriu, após desviar o olhar por seu corpo e ter a sua atenção direcionada para o seu seio que despontava pequeno sob o vestido. Depois, ele olhou para o menino de cabelos cacheados segurando um cavalinho de madeira contra o peito.
"Sim. São crianças muito bonitas. Creio que podem ser oferecidas à realeza de Vere."
Torveld, demorando o seu olhar na atenção do homem, advertiu-o:
"Eles não são escravos de prazer. São escravos de companhia. Pensei que Latifa pudesse se tornar uma dama de companhia da rainha, que não possui filhas e o menino pudesse ser um acompanhante do príncipe mais jovem. Com que idade ele está agora?"
"Laurent está com onze." _ disse o homem, desviando o seu olhar das crianças como se a sua intenção primária houvesse sido percebida.
"A idade do pequeno Leon. Gostaria que pudessem alojar essas duas crianças junto com os outros patranos. Eu os manteria em meu séquito, mas a guerra está culminando para um extremo e não sabemos o que acontecerá. Espero que pelo menos os nossos escravos e amigos possam recomeçar em outra nação."
"Embaixador Torveld, acha que Vask vai finalmente se render?" _ perguntou o negociante de escravos, pestanejando os seus olhos muito claros.
Torveld se sentou na cadeira de espaldar alto do Salão Principal de Bazal e se serviu de uma taça de vinho de um jarro bojudo de barro. Ele era bastante jovem, mas parecia cansado e abatido.
"É difícil saber. A imperatriz Betthany tem estado doente, segundo soubemos e a comandante Somalia está atuando em Ver-Tan. A imperatriz herdeira, Vishkar, está fazendo o possível para se manter na fronteira de Ver-Vassel, mas muitos soldados vaskianos estão fracos e a população de Skarva está passando fome. Se os homens de Patras apertarem um pouco mais, é possível que Vask desmorone."
O negociante de escravos sorriu com um contentamento genuíno. Os seus cabelos muito loiros possuíam um tom cinzento que sob a luz os fazia parecer grisalhos, apesar de ele ainda mal ter chegado aos vinte e poucos anos.
"Ótimo, embaixador! Será bom a guerra encontrar um desfecho afinal e acredito que se possa seguir com o tratado estabelecido por seu pai de ceder Ver-Vassel para Vere quando Patras vencer a guerra. Tenho certeza de que Torgeir honrará os compromissos do pai na falta dele, não é mesmo?"
Torveld parou de sorver o vinho e olhou para o homem com alguma desconfiança.
"Como sabe disso?!"
O homem, parecendo ser pego em um pulo, moveu o seu rosto com algum desconforto.
"O que?"
"Esse é um assunto político sigiloso entre Patras e Vere. Como sabe disso?"
O negociante de escravos se forçou a sorrir, dizendo:
"Queira me perdoar, Torveld. Sou próximo ao embaixador de Vere e não pude deixar de entreouvir uma conversa dele com o rei Aleron."
Torveld se acomodou na cadeira novamente com um visível desconforto.
"Ah, você é próximo ao irmão do rei? Bem, tome cuidado com o que diz por aí, meu senhor. Esses são tratados sigilosos e não podem ser comentados de modo leviano."
O homem moveu a sua cabeça.
"Bem, queira me desculpar..."
Após um tempo, Torveld respirou fundo, dizendo:
"Torgeir honrará todos os seus compromissos, mesmo se o nosso pai morrer. Aleron pode ficar despreocupado. Peço que me dê licença agora, meu senhor. Preciso negociar o realojamento de outros cidadãos em Akielos. O kyros de Aegina nos disse que pode receber algumas pessoas de Patras que tiveram as suas casas incendiadas na fronteira de Bazal."
"Desejo-lhe o melhor." _ disse o negociante de escravos _ "Mas lhe sugiro tomar cuidado. Akielons possuem a fama de serem bárbaros e traiçoeiros."
Torveld se deteve, dizendo:
"Já estive em Ios há alguns anos e se há algo que posso dizer é que não há nada de bárbaro na cultura akielon. Espero que um dia a guerra cesse em meu reino, meu senhor, e eu possa descansar em um lugar sem tanta destruição e ruínas como Patras se encontra agora."
O embaixador patrano se moveu até a porta, mas antes de partir, Torveld disse, olhando para as duas crianças:
"A menina é surda de nascença. A mãe dela quando a estava esperando foi uma das vítimas do surto de peste que se abateu em Patras e Kempt há alguns anos. Mas ela entende a leitura labial até mesmo em veretiano. Ela é muito inteligente e era a escrava favorita de minha irmã. Antes de estabelecermos o tratado, preciso ter certeza de que Latifa e Leon serão cuidados com dignidade e respeito na corte de Vere."
O negociante se adiantou, acariciando a cabeça do menino e sorrindo.
"Os dois serão oferecidos à família real de Vere. Eles não poderiam estar em melhores mãos, embaixador Torveld."
No dia seguinte, Latifa e Leon foram levados até a carruagem de rodas raiadas que seria conduzida para a estrada e, depois, para a capital de Vere. A menina dispunha de uma trouxa e uma bolsinha de pano, assim como o irmão.
O negociante de escravos de Vere passou pelas crianças, sem lhes favorecer com um olhar. A sua atenção se concentrou em um mensageiro que o esperava junto à carroça.
"Senhor, aqui está a carta que esperava."
O negociante, parecendo transmitir um contentamento genuíno, rasgou o envelope e se pôs a ler a correspondência. Depois, ele bateu no ombro do mensageiro, exultante, e beijou o papel redigido, falando:
"Diga-lhe que vou ao seu encontro na fronteira de Varenne conforme o combinado."
O mensageiro assentiu e fez menção de se retirar, mas foi detido pelo comerciante de escravos, que, após olhar para um lado e para o outro, sussurrou com a sua mão deslizando pelo coração:
"Diga-lhe que é preciso alimentar a besta. Que ele deve se apressar e cumprir o que prometeu. Ele deve levar algo que agrade a besta para a nossa próxima reunião."
O mensageiro foi tomado por uma expressão confusa, mas se afastou, assentindo. Latifa, que tinha os seus olhos de coelho concentrados na conversa, agitou-se com a leitura que fez da palavra besta. O que era a besta? Um animal selvagem? Um tigre? Um leão? Um leopardo?
O cocheiro, que conduziria a carroça das crianças, anunciou com uma voz monótona:
"Senhor, vamos precisar fazer o caminho mais longo, via Sicyon em Akielos. Há soldados vaskianos e os clãs de mercenários em Acquitart, segundo os nossos batedores."
O negociante de escravos disse:
"O senhor está no comando. Vou na carruagem logo atrás de vocês. Ficaremos um tempo maior em Varenne e eu me hospedarei em uma estalagem quando chegarmos lá."
O cocheiro assentiu, sendo seguido pela outra carroça logo atrás.
A viagem foi longa e cansativa, ultrapassando semanas, meses. Durante todo o percurso, Latifa permaneceu grudada ao seu irmão e brincava com ele na carroça muitas vezes com o cavalinho de madeira. As duas crianças viram no caminho casas e mato queimado a alguma distância. Plantações abandonadas com a cevada crescendo alta e com pragas em seus ramos. Soldados patranos com machados, fazendo a inspeção das charretes.
Havia fileiras de pessoas maltrapilhas que andavam por descampados, pedindo comida aos viajantes que passavam. Animais magros que rondavam pela poeira da estrada, farejando restos de móveis quebrados e lixo. Pessoas mortas, sendo queimadas em piras funerárias.
Por vários caminhos de Patras, o cenário se repetia. Algumas mães empurravam os seus filhos de colo em carrinhos de madeira, oferecendo-os com desespero aos passantes.
Escravos patranos distribuíam pão e sopa para uma fila infinita de pessoas em tendas improvisadas a mando do embaixador.
Em uma cidade mais afastada, alguns guardas com a insígnia do rei protegiam as carruagens na estrada dos saqueadores e, mais adiante, homens e mulheres maquiados em meio ao descampado do trajeto, com ombros ossudos; pernas finas e costelas à mostra tentavam oferecer algum artigo de venda aos viajantes, demorando-se dentro das carroças estacionadas.
Latifa levou as mãos ao rosto ao ver um rapaz ser empurrado de dentro de uma carroça de viagem com a manga de sua roupa rasgada, o nariz sangrando e a maquiagem borrada. Ainda caído no chão e humilhado, o patrano fez um gesto obsceno enquanto gritava palavrões e atirava pedras contra a carruagem que se pôs a andar preguiçosamente.
O cocheiro se voltou para as crianças, então, falando em veretiano, após sacudir a cabeça:
"Vocês dois têm sorte de não terminarem como eles. Patras está acabada como aquele garoto ali. Vejam pela última vez a nação de vocês agonizar, após mais de uma década de guerra contra Vask, crianças."
Leon, com medo, abraçou Latifa, e, quando a carruagem deles passou pelos prostitutos, mãos deslizaram pelas janelas, ansiosas ao acreditarem que, dentro do veículo, viajava um nobre perdulário disposto a investir no prazer obsceno de se chutar um animal morto em um país morto. Uma jovem tentou atrair a atenção do cocheiro, despindo os seus seios sem sucesso.
Houve muitos dias assim até a comitiva deixar as fronteiras de Patras. Até o cenário se alterar pelas árvores densas da floresta Foloi com mulheres dos clãs cavalgando sob o crepúsculo e acendendo fogueiras no cair da noite. Esse cenário foi seguido por campos e riachos banhados pelo sol; ruínas provocadas não pelo fogo ou pela ação humana, mas pela própria natureza em seu manusear atemporal. Havia granito e fundações artesianas. Flores e camponeses trabalhando com a terra.
As crianças se animaram com o cenário de ovelhas à distância, pastando em campos como se a guerra fosse algo muito longínquo do seu mundo de ruminar a erva fresca e verde com indiferença.
Fazendo o seu movimento de dedos, Leon perguntou para a irmã quando a comitiva chegou aos terrenos verdejantes e seguros de Akielos e os dois escravos viram duas crianças chutando uma bola de cortiça com as mãos para trás perto de uma casinha de pedra.
"Será que o príncipe Laurent gosta de brincar?"
Latifa gesticulou com os seus dedos ágeis:
"Ele é um príncipe e deve ter muitos brinquedos. Tenho certeza de que ele gostará de brincar com você."
"Como serão os brinquedos de Vere?"
"Divertidos e coloridos, acredito eu. Você sempre gostou de todos os brinquedos que a mestra Tília te dava, não é mesmo, Leon?"
"Sim. Se o príncipe Laurent for gentil, eu chamo você pra brincar com a gente, Latifa!"
"Certo. Não se esqueça de mim quando for um acompanhante do príncipe, Leon." _ sorriu Latifa com as suas bochechas rosadas.
"Eu não vou esquecer de você nunca. Espero que a rainha Hennike seja boa e gentil como a tia Tília era."
Quando a comitiva chegou à Varenne após muito tempo, as carruagens permaneceram três dias paradas na estrada de lamaçal e mato. Um soldado veretiano inspecionou as cabines, mas não se demorou, após o cocheiro colocar algumas moedas em seu bolso.
O comerciante de escravos se ausentou durante quase todo o tempo e somente quando ele retornou, as carruagens voltaram a se mover em direção à Arles. No fim desse dia, o homem se aproximou da cabine das duas crianças, como fizera poucas vezes no decorrer de toda a viagem, parecendo alterado. Latifa achou que ele estivesse bêbado, mas o seu hálito cheirava à fumaça, licor e a algo mais. As suas pupilas pareciam desfocadas e vazias.
"Sei que estão assustados, mas a sorte de vocês mudará muito em breve. E mudará de novo. Assim como a minha. Sejam leais a mim e nada acontecerá com vocês, entenderam?"
Leon olhou para a irmã mais velha, procurando por apoio e Latifa, tomada por um impulso que nada tinha a ver com lealdade, assentiu de prontidão.
"Ótimo!"
"Com quem está falando?" _ disse uma outra voz atrás do comerciante de escravos.
A pessoa responsável pela voz se revelou diante das crianças enquanto a sua mão deslizava com possessividade pelo ombro do comerciante de Vere. A figura era de uma beleza atordoante.
"São essas as crianças? Elas são, de fato, bem bonitas." _ falou a pessoa em uma língua estrangeira que Latifa não compreendia a leitura de lábios.
O comerciante assentiu.
"Sim. Vão servir para adoçarmos a boca da rainha enquanto ainda tivermos que lidar com ela. Ela anda desconfiada de tudo e de todos desde a última vez. E ela continua tentando dar herdeiros para Aleron a fim de dificultar a vida do cunhado, mas todos dizem que ela ficou seca desde que quase perdeu o último filho."
A pessoa visitante falou:
"O Conselho, em breve, vai forçar Auguste a se casar. Se ele for pai de um menino, teremos outro problema para dar cabo."
O comerciante de escravos sacudiu o rosto.
"Somente nisso, a rainha e o irmão do rei parecem concordar, mostrando-se relutantes com o casamento do príncipe. Além disso, Auguste não quer se casar ainda. Ele prefere ejacular dentro daquele escravo de cozinha do que na boceta de uma princesa. Para nós, tanto melhor."
A pessoa que ainda tinha as mãos no ombro do comerciante disse na sua linguagem incompreensível de lábios se movendo, fechando e soprando.
"Meu amor, cuidado com o linguajar diante das crianças. Tem certeza de que elas não entendem o que estamos falando?"
O comerciante fez um gesto de desdém.
"Eles não entendem vaskiano e, mesmo que entendessem, a menina é surda feito uma árvore. E o menino não faz diferença. Venha, vamos nos divertir mais um pouco. Não acredito que preciso de mais um mês para voltar a encontrar com você."
"Eu encontrarei com você em Belloy, meu amor. E eu levarei um presente real para o irmão do rei. Creio que isso será uma troca justa pelos clãs de mercenários."
"Aqueles homens fizeram um estrago nas estradas de Patras. Não passam de animais. Foram difíceis as negociações com eles, mas está tudo certo agora..."
Leon procurou o olhar da irmã e apertou a sua mão quando os dois visitantes se foram.
Latifa, engolindo em seco, adiantou-se em fechar mais as cortinas da cabine num instinto protetor.
"Você entendeu algo do que eles falaram, Leon?" _ perguntou a patrana, deslizando os dedos.
"Não era nem patrano e nem veretiano. Por que ele falou de lealdade? "_ respondeu Leon com os seus dedos pequenos.
Latifa moveu os seus olhos assustados, fitando por uma estreita fresta o anoitecer azulado da estrada entrecortado por montanhas altas e observou o comerciante de escravos e a figura ao seu lado entrarem na outra carruagem e lá permanecerem.
Quando finalmente chegaram à capital veretiana e Latifa e Leon foram apresentados à rainha pelo comerciante de escravos, as crianças haviam sido banhadas e usavam as melhores roupas das quais dispunham dentro das suas trouxas trazidas de Bazal.
Hennike pareceu à menina patrana uma mulher bela demais e inacessível, mesmo sobre o leito que ocupava no Quarto Real. Até que ela chamou as crianças para perto, falando com o menino:
"Gostei do seu cavalinho. Qual é o nome dele?"
Leon hesitou, tendo o brinquedo de madeira abraçado ao peito.
"Aston."
"Aston... É um belo nome."
Depois, o rosto de Hennike se voltou para a menina.
"E quem é você?"
O comerciante de escravos interveio, antes que Latifa pudesse responder.
"Majestade, desculpe. Ela é surda."
Hennike moveu o seu rosto para o homem e, depois, se voltou para a menina novamente, movendo as suas mãos na linguagem dos surdos.
"Desculpe. Eu não sabia. Qual é o seu nome?"
Com rapidez e prontidão, a escrava disse o seu nome através de dedos e movimentos.
O comerciante, um pouco surpreso, perguntou:
"Vossa Majestade sabe falar com surdos?"
Hennike ajeitou a coberta sobre si e declarou:
"Como o senhor sabe, um dos meus irmãos é surdo e, quando eu vivia ainda em Kempt, conversávamos por horas..."
O comerciante, que tinha o seu chapéu retirado num gesto de deferência, falou com uma voz vaga:
"Ah, sim... Havia me esquecido de Haniel. Bem, Vossa Majestade sabe dos costumes de Vere. Achei que enquanto o rei está viajando em campanha, a menina podia servi-la."
Houve um momento de silêncio prolongado em que o homem ainda sorria e que Hennike franziu o cenho.
"Como?"
"Como as mulheres se servem de outras na corte."
Latifa não entendeu o teor das palavras, mas Hennike contraiu a sua mandíbula com um gesto duro.
"Senhor comerciante, o rei e eu desprezamos essa conduta em Vere, se estamos falando da mesma coisa! Não preciso de uma escrava de prazer e essa menina é uma criança ainda!"
O homem hesitou, com uma risada nervosa.
"Claro, Majestade! Desculpe-me se me fiz entender mal... A menina é versada na cozinha e pode ser uma excelente dama de companhia para a senhora."
Hennike acarinhou os cabelos loiros e cacheados de Latifa e moveu as suas mãos, falando com a escrava:
"Estou tentando engravidar e ter uma menina dessa vez. Se eu for mãe, você me ajuda a cuidar da minha bebê?"
Latifa sorriu e fez o gesto de um recém-nascido no seu colo, apontando para Leon.
"Eu cuidei dele quando era um nenê."
O comerciante de escravos, não entendendo a linguagem silenciosa das mulheres, disse após um tempo, cortando-as:
"O menino pode ser uma boa companhia para o príncipe Laurent, Majestade. Eles têm a mesma idade."
Hennike olhou para Leon, dizendo:
"Laurent é muito apegado ainda ao irmão. Mas creio que ele terá que permanecer um tempo sozinho quando Auguste sair em inspeção do reino. Laurent não costuma se entrosar muito rápido com as outras crianças e é um menino muito criativo. Talvez, um amigo da mesma idade seja bom para ele. Mas quero que Laurent e Auguste passem o verão juntos ainda. No outono, podemos apresentar você a ele. Você pode praticar o patrano com o meu filho?"
"Posso, tia..."
Latifa apertou o braço do irmão, com um sorriso nervoso e gesticulando:
"É Majestade!"
"Posso, Majestade!" _ adiantou-se o menino, arrancando uma risada sonora da rainha enquanto passava a mão por sua cabeça.
O comerciante de escravos perguntou:
"Posso trazer a documentação para a Vossa Majestade assinar então?"
"Sim. Traga-a."
Enquanto Hennike, sentada ainda em sua cama, assinava o seu nome com uma letra rebuscada nos papeis burocráticos de posse trazidos pelo comerciante de escravos, ela disse, erguendo a vista:
"O senhor vai ficar quanto tempo hospedado em Arles?"
"Algumas semanas, Majestade."
Hennike baixou o seu olhar, dizendo:
"Vi o senhor da minha janela conversando com o meu cunhado na última vez que esteve aqui. Sobre o que falavam?"
O comerciante hesitou, tendo o seu sorriso fenecendo no rosto.
"Majestade?"
"O meu cunhado e eu não nos damos bem e, na ausência de Aleron, sou eu e Auguste que governamos Vere. Não quero ver o senhor discutindo assuntos do reino com ele, entendeu bem? O meu cunhado tende a tomar liberdades no palácio que não lhe competem."
O comerciante pestanejou os seus olhos aquosos.
"Ele é o embaixador real, Majestade. É inevitável tratarmos de alguns assuntos. Nessa ocasião, ele estava somente me orientando na missão de supervisionar os contratos dos escravos em Patras já que eu não sou um embaixador. A senhora confiou a mim essa tarefa e eu só quis executar um bom trabalho."
"Mantenha-se em assuntos do seu ofício então. Não gosto dele e, quando Aleron retornar, eu precisarei convencê-lo de algum modo a afastar o irmão dos assuntos políticos, ouviu bem? Se ainda quer continuar servindo à corte de Vere como comerciante e chefe dos escravos, ouça o que lhe digo." _ disse Hennike com uma voz dura.
O comerciante apertou o seu chapéu e baixou a cabeça.
"Sim, Majestade. A senhora sabe o quão sou leal e grato à senhora e ao rei."
Hennike voltou o seu rosto para a janela, fixando o olhar em algum ponto distante, antes de fitar o comerciante com uma expressão profunda.
"O seu pai é de Kempt, assim como eu, comerciante, e a sua família trabalhou para a minha no tempo em que residiu em Florence. Eu lhe tenho... estima. Muita estima. Não gostaria de me indispor com alguém que conheço há tanto tempo."
O homem evitou o olhar da rainha quando disse:
"Sim, Majestade. Eu sempre lhe tive estima também e tento agradar a senhora em tudo. A senhora sabe disso. Eu mesmo cuidei recentemente do transporte de sua biblioteca de Kempt para Arles com toda a dedicação, lembra? Aliás, a senhora tem gostado dos livros?"
Hennike, terminando de assinar os papeis, organizou-os em um bloco e moveu o seu olhar para a cornija da lareira em que alguns exemplares com capas de couros e lombadas grossas estavam organizados em uma pilha.
"Eu vinha sentindo febre à tarde e dei uma pausa nas leituras, mas pretendo retomá-las em breve..."
O olhar do homem se demorou nos livros e um sorriso discreto se desenhou no canto de seus lábios.
"Torço por seu bem-estar, Majestade. A senhora sempre teve uma saúde tão forte."
Hennike voltou a mover o seu cobertor sobre o corpo. Ela usava um sobretudo pesado por cima da camisola e os cabelos estavam soltos em madeixas muito claras quebradas por tranças.
"Não tão forte assim. Eu permaneci muito doente após o parto prematuro de Laurent e houve o ataque de formigas venenosas na floresta enquanto eu cavalgava, que me deixou acamada por semanas..."
O homem apertou o seu chapéu.
"Um acidente lamentável..."
"Um acidente sem explicação! Eu havia deixado a minha jaqueta em um galho de árvore e, quando a vesti, ela estava infestada de formigas venenosas que não se criam no clima de Vere. A dor da picada de uma única formiga equivale a uma martelada impiedosa. Havia várias formigas em minha jaqueta. Se Georgina não corresse para pedir ajuda, eu teria morrido envenenada..."
O sorriso do homem oscilou.
"Um evento lamentável, Majestade..."
Hennike sustentava o seu olhar frio e declarou no fim, quando estendeu os papeis para o comerciante:
"Leve Latifa e Leon até Georgina. Ela cuidará deles. E não se esqueça do que lhe disse, comerciante. Geralmente, sou clemente, mas a minha intolerância com traidores tende a ser pior do que a de Aleron. Eu não costumo ser condescendente com quem tenta prejudicar a mim e a minha família. Traidores devem ser destruídos quando ainda estão no ovo. E eu mato qualquer um que tentar encostar nos meus, entendeu? Fique longe do meu cunhado!"
Havia um genuíno aturdimento no rosto do comerciante de escravos quando ele deixou o Quarto Real. Ele se esquecera de colocar o seu chapéu na cabeça e enfiara a documentação de qualquer jeito em sua algibeira. Latifa caminhava atrás do homem, tendo o braço ao redor dos ombros de Leon.
As duas crianças seguiram pelos corredores estrangeiros atrás daquele homem estrangeiro como cachorros seguindo o seu dono. Ele estava atordoado demais e passava a mão agora por seu queixo, após se lembrar de colocar o chapéu.
Havia algo de intimidador em Hennike. Havia algo que ela compreendia, mas o homem não sabia exatamente o que enquanto a rainha concedia o seu olhar gélido e doloroso. Ela desconfiava de algo? Qual era a extensão de sua visão feminina pouco confiável e intuitiva? Mulheres eram seres perigosos e traiçoeiros. Bruxas, talvez. Elas farejavam as almas dos que as circundavam.
"Senhor comerciante!" _ içou-se uma voz por trás do homem também gelada, saindo da penumbra de um corredor mal iluminado e úmido, antes que ele alcançasse os arcos de pedra.
"Que susto, embaixador!" _ arquejou o homem com a mão no coração.
Arles era um covil com uma cobra à espreita em cada canto.
"O senhor se demorou bastante tempo conversando com a minha cunhada. Sobre o que falavam?"
O comerciante, que havia tirado um lenço do seu bolso, enxugou a sua testa com um movimento nervoso.
"Ela está desconfiada."
O Regente, que ainda não era regente, revelou-se no corredor com as mãos para trás em uma jaqueta vermelha e um olhar desinteressado.
"Ela não sabe de nada que possa nos ameaçar. Basta que ela continue lendo os livros e que Aleron se demore em campanha."
O comerciante moveu o seu rosto, olhando ao redor:
"Não se esqueça que o príncipe Auguste ainda está por aqui."
"Ele tem estado muito ocupado com questões do reino. Não se preocupe. Encontrou a nossa pessoa de Vask?"
"Sim. Nos reuniremos novamente em algumas semanas e a guerra de Patras e Vask caminhará para onde desejamos. Temos o apoio dos mercenários."
"Ótimo! Vocês dois serão muito bem recompensados. Você ocupará o lugar que merece."
"Fico muito feliz." _ disse o comerciante, baixando o olhar com deferência.
A atenção do Regente, então, finalmente recaiu nas duas crianças. Dois escravos que estavam abaixo demais de seu interesse para percebê-los antes.
"Esta é a carga de Patras?"
"Sim, senhor. A carga maior vai chegar em alguns dias. Esses dois vieram comigo porque serviram à princesa Tília e são diferenciados. A menina vai servir à rainha e o menino vai ser dado ao príncipe Laurent."
O olhar do Regente se demorou no menino de cabelos cacheados e loiros. Ajoelhando-se diante do garoto, ele analisou a maciez de seu cabelo e lhe disse, sem prestar qualquer atenção à menina.
"Que bonito o seu brinquedo!"
Leon moveu o seu rosto com alguma timidez e replicou, abraçando mais o seu cavalinho de madeira:
"Obrigado, senhor..."
O olhar do comerciante de escravos se deteve com alguma tensão no Regente, após engolir em seco. O irmão do rei prosseguiu:
"Eu tinha um cavalinho assim quando tinha a sua idade. Tenho alguns brinquedos no meu quarto ainda. Gostaria de vê-los?"
O menino sorriu com incredulidade:
"O senhor brinca mesmo sendo grande?"
O comerciante interveio, então, olhando ao redor com inquietação:
"Embaixador, o menino pertence à rainha. Será dado ao príncipe Laurent como um escravo de companhia."
O Regente fez uma brincadeira no nariz de Leon.
"Quando?"
"No outono."
"Ótimo! Ele pode me fazer companhia até lá. Laurent não desgruda do irmão e não precisará dele por enquanto."
O comerciante baixou o seu olhar, observando rapidamente o menino, e assentindo.
"Certo, senhor embaixador. Vou mandar que o banhem e o levem até o seu quarto. A nossa pessoa de Vask disse que trará a joia de Skarva que pediu como presente no nosso próximo encontro oficial."
O Regente voltou a tocar no cacho de Leon.
"Mais um presente exótico. Aprecio os esforços de meus sócios. Leve o menino para os banhos."
Antes que seguisse pelo corredor, o Regente se voltou, dizendo:
"... Espero que o senhor tenha sido discreto no seu encontro."
"Sim, senhor. Só os cocheiros nos viram..."
O Regente girou os olhos nas órbitas.
"Eu mandei que fossem discretos. Livre-se dos cocheiros. Sabe o que tem que fazer..."
"Sim..." _ disse o homem, assentindo com alguma tensão.
Depois, o Regente, como se lembrasse de algo insignificante, deslizou o olhar pelas crianças novamente, encarando, dessa vez, Latifa. O comerciante se adiantou em dizer:
"A menina é surda."
O Regente, que ainda não era regente, sorriu com algum desdém, antes de se afastar.
O comerciante trocou um olhar com as crianças, fazendo uma carícia desajeitada e pesada na cabeça de Leon.
"Sinto muito, rapazinho. É preciso alimentar a besta. Sugiro que não a contrarie e não resista. Talvez ela esqueça de você, após algum tempo."
Latifa franziu o cenho e as crianças se comunicaram entre si enquanto caminhavam atrás do comerciante, usando a linguagem silenciosa de sinais.
"Besta? O que é a besta? Você não vai servir ao príncipe?"
"Acho que vou servir àquele homem com barba. Ele disse que tem muitos brinquedos. Talvez seja divertido."
"Talvez ele tenha filhos também. Igual a rainha. Mas eles não parecem se gostar."
"Você entendeu do que eles estavam falando, mana?"
"Estou confusa, Leon... Eu não consegui acompanhar a conversa e não sei do que tudo isso se trata. São conversas diferentes das de Bazal."
Nos dias seguintes, Latifa começou a servir a rainha e ela foi apresentada à cozinha e aos fornos de Arles. Theodore a ajudou a manusear as fornalhas e lhe orientou no preparo de pães. Hennike apreciou a comida patrana feita por Latifa e a menina permanecia no Quarto Real, preparando a mesa das refeições enquanto a rainha se recuperava.
Outras vezes, a menina costurava ou se dedicava aos bordados no Quarto Real nas horas em que Hennike resolvia assuntos do reino.
Às vezes, durante as tardes em que não havia audiências, Hennike se punha a ler e tossia com força sangue em seu lenço, após tocar os lábios no intervalo de virar as páginas. O estado da rainha se agravou nas semanas seguintes e os médicos de Vere vieram com pressa atendê-la.
Entrementes, Leon começou a servir ao Regente e Latifa não o via mais. Ela procurou o irmão nos pátios e hortas, sem sucesso, e, naqueles primeiros dias, o viu de relance somente uma vez. Ela sentia falta do irmão e já pensava em se demorar próximo ao quarto do cunhado de Hennike, esperando ver o menino preparando a mesa de seu mestre ou levando a roupa suja até os tanques quando ele finalmente se apresentou para ela.
Leon estava a procurando na cozinha. O menino estava lá desde cedo, ajoelhado ao lado da bancada de pães, trêmulo e pálido.
"O que houve?" _ perguntou Latifa na sua linguagem de sinais.
O menino usava uma túnica vermelha muito fina e joias ao redor de seus pulsos e pescoço.
"Quero voltar para Bazal, Latifa... Eu quebrei o Aston... nele."
A irmã tocou no cabelo loiro do menino, que se pôs a chorar.
"Você bateu no irmão do rei com o Aston?! Por quê?"
"Quero voltar para Patras! Eu odeio Vere!" _ choramingou Leon, movendo as mãos enquanto soluçava.
"Eu não entendo..." _ gesticulou a menina, com nervosismo_ "Alguém fez algo pra você? O seu mestre te bateu?"
Leon sacudiu o rosto e, agora, o seu choro fluía incontrolável.
"Leon, ele machucou você?" _ perguntou Latifa, sacudindo os pulsos, com olhos assustados.
O menino soluçou e moveu a cabeça afirmativamente, fazendo o coração de Latifa doer.
Nesse instante, uma confusão se fez na cozinha e alguns criados começaram a dizer coisas que Latifa não entendia. Com muito esforço, ela viu em meio ao alvoroço, Georgina surgir, dizendo:
"A rainha piorou muito! Preparem um chá quente de raiz forte para ela imediatamente. O príncipe Auguste está com ela. Depressa!"
Latifa voltou a sua atenção para o irmão até que uma mão tocou em seu ombro e lhe empurrou uma bacia com água quente e um pano.
"Você é do séquito da rainha. Precisa ir cuidar dela. Ande!" _ disse-lhe uma criada.
Latifa foi forçada a seguir para a comitiva, deixando a cozinha e o seu olhar se demorou nos olhos marejados de Leon, sentado ainda próximo à bancada.
Ela, depositando a bacia sobre a pia e espirrando água fora, disse com as mãos:
"Me espere aqui! Eu volto! Não saia daqui, Leon!"
No Quarto Real, Hennike estava agonizando e um médico colocava sálvias em sua testa. A parte de cima de seu vestido estava desnuda e um outro médico massageava o seu peito com unguentos. O livro que a rainha lia estava abandonado no chão.
"Respire, Majestade! Respire fundo!"
O príncipe Auguste se mantinha no Quarto Real com um olhar injetado, movendo-se de um lado para o outro. Quando ele recebeu a mensagem de um criado, dizendo que Laurent queria entrar no quarto, ele se adiantou:
"Não deixem que ele veja a nossa mãe assim! Mande que ele espere em seu quarto. É uma ordem!"
A noite se arrastou e o séquito da rainha foi obrigado a se manter ao seu lado. De madrugada, contudo, a respiração de Hennike já havia se estabilizado e a febre atenuara um pouco. Ela não estava mais tossindo sangue, mas um médico fez um corte em seu braço, dizendo que isso estabilizaria a sua temperatura.
Latifa pode correr, então, para a cozinha e procurou por Leon atrás da bancada, mas ele não estava mais lá. A menina seguiu em busca do irmão, então, na despensa; na adega; nos caramanchões; na horta e nos jardins. Procurou-o nos corredores e no Salão Principal e até mesmo sob as mesas, mas ela não o encontrou em parte alguma.
Num gesto de ousadia, a menina bateu com os nós dos dedos na porta dos aposentos do Regente, que não era regente ainda, mas ele não respondeu. No fim, ela esmurrava a porta com os punhos fechados e a ponta da botina até que um dos conselheiros que acordou com o barulho, lembrou-lhe que, em Vere, uma mulher não podia entrar no quarto de um homem se não fosse parente ou esposa. Muito menos uma criada. Qual era a urgência? Por que ela estava tão alterada e gesticulava com nervosismo? Os escravos de Patras eram todos ansiosos assim?
O conselheiro não entendeu Latifa.
Naquela noite, o Regente, que ainda não era regente, havia saído em viagem para Belloy. E aquela havia sido a última vez que Latifa teria falado com Leon porque, no dia seguinte, o garoto seria encontrado morto.
Leon, o escravo patrano, boiava de bruços no lago próximo ao jardim geométrico do palácio. Entre folhas de árvore secas e com o seu fiel cavalinho de madeira, Aston, destroçado ao seu lado. Os cabelos cacheados e loiros do menino estavam desfeitos na água esverdeada pelas algas e com o cheiro dos pântanos.
O primeiro a vê-lo foi um soldado durante a ronda matinal, que, deixando cair a sua lança, pôs-se a gritar. Outro soldado surgiu. E outro. E outro. Depois, os cortesões, arautos e conselheiros também.
As crianças que seguiam para a primeira aula do dia na torre norte se aproximaram.
Laurent observou o corpo de Leon ser retirado da água, ostentando uma palidez marmórea entre os colegas da sua aula de música. Depois, Auguste irrompeu entre os homens, abrindo caminho e indagando com um rosto lívido como se o ar fugisse dos seus pulmões:
"Quem fez isso?!"
Por fim, surgiram os criados. Latifa, com manchas escuras sob os seus olhos como se não tivesse dormido, pôs-se a gritar. Gritou, caindo de joelhos e chorando um choro surdo ao mover os seus ombros e bater com as mãos no chão. Todos olhavam a menina surda patrana que chegara há pouco tempo de Bazal sofrer a atrocidade da perda que não distinguia um rei de um escravo. Laurent sentiu os seus olhos queimarem. Era a coisa mais triste que ele já vira. Alguém perder um irmão.
Theodore se ajoelhou ao lado de Latifa e passou a mão por seu ombro, tendo o semblante dolorido.
"Investiguem o que aconteceu! Como um menino pode cair no lago durante a noite?" _ declarou Auguste, ocupando o seu lugar no espaço deixado por Aleron que estava em campanha _ "Levem as crianças daqui!" _ acrescentou ele, observando Laurent do outro lado do lago enxugar os olhos.
Leon não usava a túnica de seda ou as joias do dia anterior, mas as vestes simples dos criados. Houve especulações de que ele escorregara nos seixos e caíra, tentando reaver o seu brinquedo. Que para uma criança que não sabia nadar, o abismo do lago poderia ser terrível e sem volta. Ele se afogou? Um menino tão jovem que serviria a um príncipe. Parecia um príncipe também. Pobre garoto.
Latifa, no entanto, guardava ainda a recordação de Leon recostado à bancada da cozinha, trêmulo e assustado. Ela ainda tinha em si o pranto do irmão e de como o homem de barba, cunhado da rainha, o arrematara para o seu séquito.
Em uma intuição mórbida, a garota se recordou do prostituto visto no trajeto de Patras para Vere, sendo atirado surrado e de mãos vazias da carroça, após ter servido a um homem sem rosto. Ela se recordou do jovem humilhado, sentado na poeira e o seu peito doeu fundo ao associá-lo de alguma forma estranha a Leon.
"Vocês dois têm sorte de não terminarem como eles..." _ dissera o cocheiro, separando as crianças dos prostitutos das estradas apenas pela sorte. Mas a sorte era muito pouco. A sorte era um gancho fino que os pendurava em um penhasco.
De modo que Latifa, a escrava patrana, caminhou até o quarto da rainha naquela manhã quando todos os médicos haviam se retirado. Não para servi-la. Mas para ser ouvida.
Com os punhos fechados, preparados para gesticular o horror assim como uma pessoa com voz prepararia a sua garganta, ela se apresentou.
Hennike parecia fraca e debilitada sobre a cama. A rainha estava muito magra, com sulcos em suas bochechas e no arfar do peito que subia e descia, algo ali chiava um pouco.
"O que houve, Latifa?" _ perguntou a rainha, movendo os seus dedos ao ver a menina com o rosto inchado de choro adentrar o seu quarto.
"Preciso contar algo para Vossa Majestade. O seu cunhado matou o meu irmão!" _ declarou a garota com a rapidez engasgada de seus dedos e um contorcer raivoso de sua boca.
"O meu cunhado?" _ confirmou a rainha, sobressaltando-se e se sentando na cama.
"Sim!" _ declarou Latifa com uma assertividade sombria passando pelos seus olhos e estabelecendo o compreender tácito de duas mulheres que se comunicavam no silêncio.
Hennike acompanhou as palavras gesticuladas por Latifa e no fim, mandou que a sua ama, Georgina, viesse imediatamente aos seus aposentos, sacudindo uma sineta impiedosamente. Havia sombras nos olhos da rainha agora também e, com uma voz ansiosa, ela declarou:
"Georgina, envie um mensageiro até a propriedade do casal Levefre em Toutaine e os traga até aqui. Riquelme pode escoltá-los."
"Os pais do menino Velaine?" _ indagou a ama de rosto redondo e gentil, franzindo o cenho.
"Sim. Diga para Alicia vir imediatamente me ver."
Georgina olhou de Latifa parada para a rainha.
"Aconteceu algo, Majestade?"
"Aconteceu! Na verdade, talvez esteja acontecendo há um tempo e nunca pude ter as minhas suspeitas confirmadas. O casal Levefre se retirou da corte, após o trauma da morte do filho e naquela época, eu estava voltada demais para o desespero de Auguste. Mas há algo que eu quero perguntar. Vá logo, Georgina! E não comente isso com ninguém."
Georgina se retirou e Latifa se manteve no quarto parada com o seu vestido simples da criadagem. Hennike a olhou mais uma vez, então, e estendeu os seus braços muito finos.
"Venha aqui..."
E Latifa foi. Enterrando o rosto no peito da rainha, ela chorou, movendo os seus ombros e sendo acolhida pela única pessoa no reino que entendia agora a sua linguagem silenciosa, a sua solidão, visto que Leon estava morto. Hennike abraçou a escrava como a filha que não tivera e não podia mais ter. A filha que nunca teria.
Latifa, ainda chorando, recordou-se das últimas vezes que estivera com o irmão. Subitamente, as palavras que ouvira há tempos atrás faziam um sentido que escorregava em sua forma. Ela afastou o seu rosto molhado do peito de Hennike e gesticulou:
"Eles disseram que é preciso alimentar a besta."
Hennike franziu o cenho, afastando o cabelo loiro do ombro da menina.
"Besta? Quem disse isso?"
Latifa moveu os seus dedos e os olhos claros de Hennike se tornaram muito escuros conforme um arrepio subia por sua espinha.
"O comerciante de escravos?"
(cut)
No pátio de treinamento, Laurent e Pari de Skarva se afastaram com olhares confusos. A narguilé se mantinha abandonada sobre o banco de pedra, exalando ainda a sua fragrância de tabaco, licor, erva e especiarias.
Damen se adiantou sobre o rei de Vere e verificou com delicadeza a pálpebra de Laurent, olhando a sua pupila contra a luz.
"Você está drogado..." _ e, depois, se voltando com uma expressão irritada para Pari, acrescentou_ "A senhora entorpeceu o rei! O que pretendia?!"
A vaskiana pestanejou, tentando focar o seu olhar de retinas circundadas de azul e levando a mão à cabeça porque a vontade de rir perdurava apesar de tudo.
"Não foi a minha intenção. Fumamos juntos e estávamos conversando."
Vishkar interveio, segurando o pulso da quarta esposa com uma expressão incrédula.
"Eu já disse que deveria parar de fumar tanta narguilé, Pari! Muitos vaskianos se viciaram nessa porcaria durante a guerra! Por que estava se agarrando com Laurent de Vere?!"
Damen avançou para a mulher, com olhos agressivos.
"Sim, por que a senhora estava tentando seduzir o meu rei?!"
Vishkar deu um passo diante de Pari, colocando-se entre ela e o rei de Akielos.
"Com licença, Exaltado, mas o rei de Vere que estava por cima da minha esposa!"
Damen ergueu a voz:
"Laurent é um homem bem comportado e racional! Ele não ia se chapar com uma estrangeira dos clãs em meio a um pátio de treinamento e avançar para ela!"
Torgeir falou, olhando ao seu redor:
"Vocês estão gritando. Vão acabar chamando mais atenção!"
Vishkar aumentou o seu tom, erguendo um dedo para o akielon.
"Surpresa, Damianos de Akielos! Porque era exatamente o que a Estrela de Vere parecia estar fazendo!"
Nikandros segurou o braço de Damen, vendo-o dar mais um passo adiante.
"Mandou que a sua consorte usasse de subterfúgios para arrancar informações do rei?!"
"Laurent quem mandou chamar Pari! Ele não é nenhuma criança!"
"Faz parte de seu plano empurrar a sua quarta esposa para cima de meu rei, assim como entregou o seu imperador como um presente? Não vou permitir que brinque com Laurent!"
"ORA, CALE-SE!"
Damen alcançou a sua espada enquanto Vishkar tocava na tonfa em sua algibeira.
"DAMIANOS!" _ interveio Laurent_ "CHEGA!"
A cena se desenhava com o rei de Akielos com o rosto muito próximo ao da imperatriz e os dois pareciam que iam pular um sobre o outro a qualquer momento. Nikandros segurava o braço de Damen enquanto Torgeir tocava no ombro de Vishkar, tentando chamá-la à luz da razão.
Laurent e Pari se mantinham de pé, parecendo aéreos e entorpecidos, com somente uma compreensão parcial do que acontecia. O rei de Vere sabia que Damen estava aborrecido e, quando ele estava genuinamente aborrecido, era tão assustador quanto ele.
"Conversem cada um com seus respectivos cônjuges! Melhor irem para o palácio. Não temos mais quinze anos e isso não é a postura que se espera das autoridades de nações." _ declarou Torgeir, vendo que alguns soldados veretianos com lanças se puseram a fazer a ronda pelo pátio ao ouvirem os gritos. Seus olhares se cravavam nos semblantes alterados.
Nikandros, com o rosto muito próximo ao ouvido de Damen, disse:
"Não faça uma cena. Acalme-se, Damianos! Leve Laurent daqui, antes que os soldados percebam que ele está drogado."
Damen tinha a respiração pesada e engoliu o seu orgulho enquanto enfiava a espada de volta em sua bainha. Dando as costas para a imperatriz de Vask e os outros, ele estendeu a mão para Laurent, dizendo rispidamente:
"Venha!"
Laurent, em parte engolindo em seco, em parte sentindo uma inconveniente vontade de rir, deu a mão para o akielon, que o conduziu para dentro do palácio. O veretiano via no percurso de retorno pessoas passando por ele e fazendo reverências protocolares. Algum rosto se demorava fitando-o porque a sua expressão parecia ausente e diáfana. E as pessoas pareciam contornadas de si mesmas. Pareciam se mover, deixando um rastro que as transformava em silhuetas desfocadas. Aquelas partes que se descolavam delas eram os seus fantasmas? As suas vidas? As suas mortes? O passado de si mesmas?
Damen, quando chegou ao Quarto Real, disse para Isander, que arrumava o aposento, concentrado em sua função de alimentar de troncos recém-cortados o fogo da lareira:
"Isander, vá buscar um chá de ferro para o rei!" _ e, depois, voltando-se para Laurent, ele lhe disse_ "Sente-se um pouco!"
O rei veretiano se acomodou em sua poltrona reclinável e Damen, após alguns minutos em que desapareceu no lavabo, voltou de lá com uma bacia de louça com água e um pano úmido.
"Aqui!" _ disse ele, encostando o tecido frio na fronte de Laurent_ "Deve estar tonto. Isso vai ajudá-lo!"
Houve alguns minutos em que o rei de Vere ia se sentindo com os pensamentos menos escorregadios e disformes. A sua pele pareceu resfriar um pouco e a sua vista pouco a pouco voltou ao normal.
Damen esfregava o pano felpudo e o deslizava agora pelo pescoço e pelas mãos de Laurent. Depois, ele abriu os botões do sobretudo de montaria de Laurent até os cotovelos, assim como os punhos de sua blusa, deslizando o pano úmido até ali também.
O veretiano fitou o amante com os seus olhos azuis até eles se encontraram com as retinas escuras. Damen parecia um pouco constrangido.
"Você vai ficar bem. Não sei o que Pari de Skarva fez com você, mas não a perdoarei por isso. Ela o enganou de alguma forma? Ela o ludibriou?"
Laurent permaneceu olhando Damen deslizar o tecido por sua mão e beijá-la. Ele respondeu então:
"Não..."
"Sei que ela deve ter dito que a narguilé era somente um artefato de diversão e você não sabia que dentro dela havia alguma substância, certo? Você estava fora de si quando se enroscou com a quarta esposa, não é mesmo?"
Laurent engoliu em seco.
"...Ela tentou arrancar de você alguma informação?"
O veretiano sacudiu o rosto, tendo um rubor subindo pelas suas faces conforme a consciência começava a atravessá-lo de um modo perturbador como uma lança em sua garganta.
"Não necessariamente... Damen, eu..."
Nesse instante, houve uma interrupção de Isander entrando no quarto com uma bandeja redonda com o bule de chá fumegante e as xícaras de porcelana com arabescos de Laurent sobre ela.
"Pode deixar que eu mesmo o sirvo. Obrigado, Isander..." _ adiantou-se Damen, fazendo um gesto para o criado os deixar a sós.
Isander fez uma mesura e se retirou do quarto, fechando a porta atrás de si.
Damen se pôs a preparar o chá e Laurent, com a manga do sobretudo e da camisa levantados e a tez úmida, indagou:
"Por que você estava junto de Nikandros, a imperatriz e Torgeir?"
O akielon se voltou, usando uma colherzinha dourada para mexer o chá acobreado dentro da xícara.
"Nos encontramos nos jardins por acaso. Nikandros veio até mim falar da inspeção da noite passada e achei que você estava se demorando muito. Esbarrei em Vishkar e Torgeir perto dos caramanchões."
Laurent assentiu. Damen lhe entregou a xícara de chá.
"Beba. Vai se sentir melhor..."
O veretiano soprou a fumaça da xícara fumegante e a deixou sobre a mesinha ao lado, esperando que a bebida esfriasse um pouco.
"Damen, Pari não me obrigou a usar a narguilé. Eu a fumei porque quis..."_ disse o veretiano, sem alteração na voz _ "E eu sabia que havia uma erva alucinógena nela..."
O rei akielon fixou o seu olhar na figura diante de si. Um músculo se contraiu em sua mandíbula enquanto ele franziu a sobrancelha com incredulidade.
"Por que fez isso?"
Laurent não respondeu, mas desviou o seu olhar para o fogo da lareira. Damen insistiu.
"...Sobre o que vocês dois estavam conversando?"
"Obtive algumas informações com ela sobre Vask, Guion e os ringues clandestinos, mas, depois, a conversa se tornou... íntima."
"Íntima?" _ reforçou o akielon.
"É. Falamos de algumas coisas... Ela, sobre a imperatriz e eu... sobre você."
Damen moveu o seu rosto com algum choque.
"Sobre mim?! Por que afinal estava montado nela?"
Laurent começou a sentir uma tensão que nunca sentira antes porque nunca se encontrara naquela situação antes.
"Estávamos falando sobre... sexo."
Damen arregalou os seus olhos e, durante arrastados segundos, a sua atenção se concentrou totalmente em Laurent. A sua boca estava entreaberta.
"Sobre sexo?! Você ia foder com ela?!"
"Não!" _ adiantou-se Laurent, se levantando _ "Eu deixei me levar. Eu não costumo falar sobre essas coisas com ninguém. Com ninguém! Eu não tenho amigos. E ela... ela... quis me ouvir!"
Damen olhou o amante com incredulidade, parecendo irritado.
"Acha que eu sou só o seu amante bárbaro? O seu dicionário akielon de cama? Por acaso, não sou o seu amigo?"
Laurent se adiantou, sentindo um nó na sua garganta.
"Você é! Você é o meu melhor amigo, Damianos! Você sabe que é! Mas havia coisas... Coisas que eu não sabia se tinha o direito de levar até você..."
"Que coisas?"
Laurent se refreou, fechando os olhos e selando os lábios. Ele não ia trazer os assuntos que o perturbavam daquele modo leviano.
"...Pelo visto, é algo que você ainda não pode me dizer..." _ retrucou Damen, parecendo magoado.
"Não acho que esse seja o melhor momento para isso..."
"Desculpe, não é o melhor momento para dizer para mim, mas o melhor momento para você se drogar em um pátio com uma guerreira de uma nação estrangeira que pode estar conspirando contra as nações-irmãs e confessar assuntos de nossa intimidade?!"
Laurent baixou os seus olhos.
"Eu estava muito aborrecido. Sorem de Ver-Tan..."
"O imperador não entrou no nosso quarto! Ele não passou da porta! Você estava se esfregando em Pari! Não é tabu aqui um homem e uma mulher ficarem tão próximos afinal?! Você a beijou?"
"Não! Eu não desejo mulheres! Você sabe! Eu não ia beijá-la! Eu estava pensando em você!"
"Não pareceu há meia hora atrás..."
Damen possuía uma rigidez em seu perfil e Laurent o sentiu distante e ferido. Laurent precisava se fazer entender.
"Desculpe... Eu também estava magoado por causa do Conselho! Eles contestaram a forma como invadimos o prostíbulo. Contestaram eu matar Estienne, cuja família é influente em Marche. Contestaram o poder que concedo a Akielos e dizem que sou muito imaturo para governar Vere..."
Com rispidez, Damianos respondeu:
"Bom, talvez eles não estejam tão errados assim quanto a isso..."
Laurent franziu o cenho, alterando a sua voz.
"Vai ficar do lado deles?! Eu brigo com os conselheiros por sua causa, sabia?! Na minha primeira falha, você me abandona?"
"Eu não o abandonei, mas o Laurent por quem me apaixonei era alguém centrado e controlado, que não ia agir como um pirralho inconsequente como o vi agora há pouco! E se o Conselho o visse chapado e se agarrando com uma vaskiana do império?"
Laurent se sentou no braço de sua poltrona com uma expressão admoestada.
"Certo... Acho que você prefere quando eu sou frígido e distante..."
Damen alterou um pouco mais a sua voz:
"O que isso tem a ver? Posso preferi-lo quando é fiel e respeitoso pelo menos? Você beijou um escravo de estimação ontem e, hoje, vi você se agarrando com Pari de Skarva! Como quer que eu reaja?!"
Laurent rolou os olhos nas órbitas.
"Novamente, a noite de ontem... De todos os horrores que vivenciamos ontem, incrível que somente isso o tenha marcado..."
"Não tente inverter a história, Laurent! Eu sempre fui fiel a você! Desde Ravenel!"
"Por quanto tempo?!" _ perguntou Laurent, falando mais alto.
"Como assim por quanto tempo?! Há suspeitas sobre a minha conduta?"
"O Conselho me falou disso, sabia?! Até quando vamos bancar o papel de rei e de rainha? Antes dos trinta anos, o seu povo e os kyroi vão exigir pra você um herdeiro ou dois ou três! Quantos você puder ter para assegurar o seu trono e a lealdade deles. O Conselho, por outro lado, vai fechar os olhos e fingir que não sabem que só fodo com homens no máximo por mais cinco anos. Depois, eles vão tentar me empurrar um contrato de casamento goela abaixo como queriam fazer com Auguste e eu não vou poder subornar uma princesa patrana ou uma filha do império para mentir que nosso casamento é real porque Herode e os outros vão exigir a consumação pública!"
"Achei que estava disposto a lutar para ser quem você é, assim como eu! Acha que estou só me divertindo com você até lhe dar as costas e me casar com uma mulher? É isso?! Ou será que é o que você pretende fazer?!"
"O que estou dizendo é que somos reis agora e, quando fizemos promessas há um ano, não tínhamos dimensão do que a pressão disso tudo significava!"
"Eu não estou nem aí pra pressão, Laurent! Você é o meu rei. E eu não o coloco no papel de uma rainha ou de qualquer outra mulher. Você é um homem e gosto de você assim e se o meu povo não pode aceitar você como eu o vejo, eles terão um problema comigo!"
"Caso não tenha percebido, Damianos, há limites para o que um rei pode fazer. Eu não posso te dar filhos, mas você sonha com eles. Você ficou emotivo só em me ver alimentando Afanas. Você quer ser pai enquanto eu sempre achei que morreria sozinho, que a minha linhagem se encerraria em mim! Como acha que me sinto?!"
"Achei que estivéssemos sonhando juntos com isso! Eu quero ter filhos com você!"
Laurent deu de ombros com uma expressão seca e amarga, dizendo:
"Bom, pode ejacular dentro de mim duzentas vezes. Não vai adiantar..."
Damen contraiu o rosto com irritação e estava, pela sua perturbação, misturando o akielon em sua fala.
"A criança não precisa ter o nosso sangue. Podemos pensar juntos num jeito, Laurent! O Regente coletava meninos pobres para depredá-los! Não acredito que Vere seja tão impiedosa conosco por querermos buscar uma criança e criá-la com dignidade e afeto. Há tempo para se resolver isso. O que não posso tolerar é você agir como alguém irresponsável e leviano como o vi agora há pouco!"
Laurent aumentou o seu tom consideravelmente:
"Ótimo, você me prefere frígido e passivo como um escravo akielon! Já entendi isso! É tudo sobre o seu orgulho akielon no fim das contas, não é?"
Damen moveu o seu rosto com surpresa:
"O meu orgulho akielon? Bom, se esperar por respeito e fidelidade é chamado de orgulho akielon nessa corte em que as pessoas dão voltas e mais voltas para ferirem umas às outras, eu espero por isso sim..."
"Eu fui fiel! Eu contei sobre Toby e não toquei em Pari. Nunca houve ninguém depois de você e mesmo antes, nada houve que eu quisesse que acontecesse! Não se preocupe que não sou tão solto quanto você acha. Tão solto quanto você que fodeu toda Akielos, antes de resolver que já era o suficiente e decidir se casar e ter filhos..."
"Perdão, vai jogar o meu passado de príncipe agora na minha cara?! O meu passado que o entretém um bocado na cama e o faz gozar várias vezes? Desculpe, Majestade de Vere, eu não sabia que existia algo como fidelidade retroativa!"
Laurent moveu a sua boca com um ar de escárnio.
"Não seja patético!"
"O que quer então? Competir com os meus antigos amantes? Mais liberdade para explorar outros territórios? Está entediado com as minhas carícias desajeitadas?"
Laurent pisou duro até o outro lado do quarto, vociferando:
"Estou com problemas na cama há um tempo e só você não percebe!"
"E é sobre esses problemas que você foi conversar com a sua amiguinha vaskiana enquanto eu estou aqui? É por eles que resolveu ficar chapado? Bom saber..."
Damen sentiu uma dor funda em seu peito como se algo lhe fosse roubado ou confiscado. Subitamente, ele não queria ficar mais naquele quarto. Em uma única discussão, ele descobria que Laurent estava insatisfeito e que os seus sonhos, os seus sonhos mais ousados, eram patéticos e infantis. Uma família... Ele já perdera a sua família antes.
Foi num movimento um tanto desajeitado e sem muita clareza que Damen puxou um travesseiro e um lençol da cama de Laurent.
O veretiano se deteve com um olhar nervoso.
"O que está fazendo?"
Damen se voltou com os olhos vermelhos:
"Talvez seja bom ficarmos um tempo afastados e conversarmos quando estivermos mais calmos. Estou aborrecido, Laurent. Muito aborrecido. Nada vai melhorar se ficarmos aqui discutindo."
Laurent afastou o seu rosto com alguma hesitação como se o ar lhe faltasse. Depois, comentou com uma lógica irritante:
"Pode deixar o meu travesseiro e o meu lençol aí. Há mais deles nos outros quartos."
Damen os largou e, sem nenhuma palavra, caminhou até a porta dupla.
"Para onde vai?"
"Para a ala do meu povo akielon. As pessoas que os veretianos chamam de bárbaros por falarem o que sentem e de ingênuos por acreditarem nos outros."
Laurent sorriu com escárnio.
"Se todos os akielons fossem tão verdadeiros, não teria sofrido um golpe dentro do seu próprio palácio, Damianos."
"Tem razão. Eu que sou o ingênuo e recebi um golpe seu agora..."
Laurent moveu os olhos com o nervosismo que ostentava quando atacava, mas feria a si mesmo.
"Aonde vai?"
"Vou ficar no quarto de Nikandros."
Laurent franziu o cenho, com uma raiva triste.
"Ótimo! Vai pedir uma mão para ele? O seu amigo com quem fodeu também? Vá então!"
Damen não respondeu à provocação do veretiano e partiu um minuto antes de ele ouvir o ruído de Laurent jogando a bandeja com chá contra a porta.
Ele se deparou no claustro, então, com soldados, cortesões e escravos que estavam parados no corredor olhando em direção aos aposentos do rei de onde se ouviam gritos.
Os conselheiros Audin, Jeurre e Mathe haviam deixado os seus quartos e olharam o akielon passar por eles, um tanto estarrecidos.
Latifa, parada com uma bandeja de sopa nas mãos, seguia para um dos quartos, parecendo tentar entender o que se sucedia, visto que havia tantas pessoas paradas no corredor.
Quando Damen seguiu pelo saguão que levava à delegação vaskiana, a cena que viu não foi diferente da qual fizera parte há pouco. Havia soldados parados no corredor e do quarto da imperatriz, duas vozes se erguiam, discutindo em vaskiano. Vishkar e Pari não economizavam nos palavrões e as suas frases eram coléricas.
O rei de Akielos, afastando-se até os ruídos cessarem, bateu na porta do quarto de Nikandros na ala que se destinava aos akielons da nobreza e aos kyroi.
Houve uma movimentação interna e Damianos se surpreendeu quando se deparou com Isander abrindo a porta. Ele tinha os seus olhos de cervo baixos e Nikandros se levantava de sua cama, ajustando o quíton.
Damianos espreitou o criado akielon com algum constrangimento e disse:
"Desculpe, não sabia que você e Nikandros estavam... ocupados..."
Damen se afastou, mas foi interceptado por Nikandros que saía para o corredor.
"Espere, Damen! Não vá! Fique!"
Voltando-se para Isander, então, ele disse, tocando em seu rosto:
"Desculpe, pode nos deixar a sós por um instante? É importante. Eu converso com você em outro momento, tudo bem?"
Isander fez uma mesura de assentimento, mas antes que ele se afastasse, Damianos lhe falou com uma expressão firme:
"Prepare outro chá para o seu mestre e vá ver se ele precisa de alguma coisa. Cuide de Laurent!"
Isander, pestanejando os seus olhos muito escuros de cílios compridos, partiu e Damen entrou no quarto de Nikandros, comentando:
"Não achei que vocês dois estivessem... íntimos."
Nikandros deu de ombros e se antecipou em fechar uma jarra de refresco de laranja que fora esquecida aberta sobre a mesa.
"Encontrei com ele há poucos minutos em um corredor e pedi que viesse ao meu quarto para que conversássemos um pouco. Ele é um rapaz gentil..."
Nikandros fez um gesto para que Damen se sentasse em um dos sofás com couro de boi. Os aposentos do kyros de Ios, naturalmente, não eram tão amplos quanto o quarto de Laurent, mas eram suntuosos e dispunham de uma lareira que estava acesa.
Nikandros preparou uma taça de vinho e a serviu para o rei.
"Como foi?"
"O pior possível! O que está acontecendo com Laurent no fim das contas? Eu nunca pensei em vê-lo com uma outra pessoa daquele jeito. Ele disse que não gosta de mulheres, mas..."
Nikandros se sentou ao lado de Damianos, dizendo:
"Ele estava drogado, Damen..."
"Mas ele estava consciente do que fez... Ele me confessou tudo. Ele não estava tão chapado a ponto de não saber o que estava acontecendo."
O kyros tomou um gole de vinho, replicando:
"Ele completou vinte e dois anos anteontem. É um garoto..."
"Ele é o rei! Acha certo eu fingir não ver as imprudências de Laurent? Ele não costumava ser assim..."
Nikandros sacudiu a cabeça.
"Você não costumava ser uma pessoa tão intransigente, Damen. Todos mudam. Quando o conheceu, Laurent estava com uma espada no pescoço, tentando viver sob o julgo de um parente louco. Ele viveu assim por sete anos e, talvez, agora esteja podendo gozar de alguma liberdade."
Damen olhou o amigo com incredulidade.
"Quando foi que se tornou tão partidário de Laurent?"
Um rubor subiu pelo rosto de Nikandros.
"Sou fiel a você, Damianos, mas mesmo naquela peça enfadonha da companhia de teatro que Makedon trouxe para entreter Laurent, a história dele era triste convivendo com aquele desgraçado do Regente. Além do mais, Laurent parecia que ia desfalecer de tanto nervosismo no dia que invadimos o prostíbulo e todos aqueles filhos da puta estavam tentando foder com ele. Dê-lhe algum tempo! Ele não o trairia!"
Damen se deteve, fitando o kyros que lidava com as suas preocupações com a naturalidade prática. Naquela hora, eles não eram mais rei e kyros. Damianos não queria que o fossem. Queria que eles fossem somente amigos de infância e ele estava feliz por Nikandros perceber aquela sutileza tácita. Ele declarou, então, com abandono:
"Estou com ciúme, Nikandros. Estou morrendo de ciúme..."
O kyros de Ios arqueou as suas sobrancelhas espessas, falando:
"Eu sei."
"Foi estranho ver Laurent com Pari de Skarva. Foi doloroso..."
Nikandros assentiu.
"Pari é a mulher mais linda em que já coloquei os olhos, mas ela é a esposa de uma imperatriz e está muito distante. Laurent não arriscaria a relação dele com você. Você mesmo disse que ele não tem o gosto por mulheres..."
Damianos tomou um gole de vinho e respirou fundo.
"Eu e Laurent brigávamos muito antes de decidirmos ficar juntos, mas isso não acontecia mais desde que nos entendemos. Estou assustado, Nikandros. Ele me disse coisas... muito duras. Coisas sobre o futuro, sobre nós dois, sobre nossos reinos. Sobre os herdeiros... E eu fui reativo. Eu tentei feri-lo."
Nikandros assentiu com alguma compreensão e a sua expressão se tornou pesada.
"Achei que já houvessem criado uma saída para esse impasse sobre os herdeiros. Alguns kyroi não engoliram Kastor por ele ser um bastardo. Sabe como as questões de sangue são importantes para o nosso povo. Vai abrir mão de herdeiros e do seu trono quando não estiver mais aqui? Vai deixar a coroa para o filho de Kastor e Jokaste que sumiu no mundo?"
Damen engoliu um gole do vinho, respondendo:
"Eu não pensei profundamente nisso. Eu deveria pensar nisso, mas me deixei levar. Eu estou tão feliz que... Nikandros, eu quero me casar com Laurent! Quero que ele seja o meu rei e sente ao meu lado no trono de Delpha. Eu o amo."
Nikandros assentiu, bebendo também do seu vinho.
"Você vai precisar subverter um pouco o nosso mundo, mas creio que, talvez, esse seja o legado de todas as gerações. Theomedes, o seu pai, quebrou tabus, reconhecendo Hypermenestra como uma segunda esposa e Kastor como um filho legítimo, mesmo ele sendo um bastardo. O seu avô a teria mantido como uma amante anônima e Kastor, como um bastardo sem importância. Pelo que ouvi aqui em Arles, o rei Aleron e a rainha Hennike consideravam os seus escravos como membros da família e os tratavam com a generosidade que o Regente e seus antepassados não os tratavam. Sempre há mudanças. Creio que não esperava se tornar rei e replicar o que Theomedes foi. Creio que não esperava viver sob a sombra dos mortos."
Damen sacudiu o seu rosto.
"Eu sempre tentei agradar o meu pai em tudo, sem contestá-lo, até viver tudo o que vivi há dois anos."
"Até você mudar, Damianos. Até viver a sua própria história. Bom, você e Laurent são os reis das nações-irmãs e esse é já um tabu quebrado. Akielons e veretianos festejando e lutando juntos em um mesmo palácio... Isso era impensado para Theomedes e Aleron. Mas é o adequado para vocês. Quais outros tabus vão querer quebrar, meu rei?"
Damianos observou Nikandros e reconheceu o seu amigo de infância brilhante, que nas aulas de História e Filosofia se destacava como um estudioso reflexivo, assim como se revelava no campo de batalha como um guerreiro imbatível.
"Eu quero me casar com Laurent. Quero que todos os akielons saibam que ele é o meu rei quando ele pisar em Ios. Quero ter filhos com ele, ainda que não tenha que me violentar e dormir com uma mulher para gerá-los. Eu quero ser fiel a mim mesmo e ao amor que sinto dentro de mim. Laurent fará parte dos versos cantados sobre meu reinado e, enquanto ele me quiser, quero que envelheçamos juntos. Quero fazê-lo feliz."
Nikandros sorriu com uma expressão divertida e tomou um gole de vinho.
"Os kyroi enlouquecerão, mas pode ser que eles relevem após um tempo. Afinal, creio que eu mudei também, pois não sei como lidaria com tanta informação há dois anos atrás. Makedon também mudou e, talvez, ele queira entrar no templo de braços dados com Laurent como um tio babão e casamenteiro. De qualquer forma, se quiser chacoalhar o mundo, meu rei e amigo, estarei ao seu lado. Conte comigo e com a minha espada."
Damen tinha o seu olhar escuro fixo em Nikandros. Ele havia falado com muita honestidade e, subitamente, algo parecia se desprender do seu peito. Algo pesado e estrangulado.
"Está disposto a me apoiar mesmo?"
"Eu jurei lealdade às nações-irmãs no fim das contas e, talvez, você tivesse razão. A gente se acostuma com Laurent de Vere após um tempo..."
Damen sorriu, sorvendo vinho.
"Ele o conquistou..."
"Não iria tão longe, mas acho que deve dar a ele o anel de sua mãe. Sei que quer dá-lo. Não é sempre que se vê um rei se disfarçar de prostituto, aguentando ser bolinado por um bando de cretinos para salvar pessoas, Damen. É difícil não apoiá-lo. Laurent tem o brilho de um autêntico rei. Brilhará ao seu lado sob o sol de Ios."
Damen respirou fundo.
"Obrigado, Nikandros."
O kyros fez um gesto de não tem de quê e serviu mais vinho a Damen.
"...Eu tive uma briga feia com Laurent e acho que será importante ficarmos um tempo afastados para pensarmos. Eu o procurarei quando a poeira baixar. Será que posso permanecer hoje por aqui? Eu durmo em um cobertor próximo à lareira."
"Não. Eu durmo próximo à lareira e você na cama. Você é o meu rei no fim das contas. Quando vai ser a reunião das nações?"
"No fim da tarde. Passei pelo corredor de Vask e ouvi a imperatriz e Pari de Skarva quebrando o pau..."
"Ficar chapado antes de uma reunião dessa importância não é sensato. Espero que Laurent descanse. Você está bem para participar?"
Damen tocou em um músculo do seu ombro. Ele sentia o seu corpo rígido e dolorido por causa de tanta tensão. Sobre a sua nuca, parecia haver um peso.
"Estou um pouco tenso..."
Nikandros retirou o cálice da mão de Damianos e disse, movendo a espada de perto da lareira e a embainhando em seu cinto.
"Vamos treinar um pouco então. Um pouco de atividade física vai relaxá-lo. É assim que akielons lidam com as suas chateações..."
Damen sorriu.
"Nas raras vezes em que eu discutia com o meu pai, você sempre sabia que eu me refugiava na ala militar para treinar."
"Sim. Você precisa estar inteiro para lidar com a imperatriz e com o rei Torgeir."
Damianos concordou, apreciando a ideia do kyros. Era bom ter um amigo que o conhecia tão bem e com o qual podia ser sincero sobre os seus sonhos e medos. Era bom possuir um amigo de infância que o apoiava com dedicação e o oferecia companheirismo e palavras conciliadoras como se fossem uma taça de vinho.
Subitamente, uma luz de clareza atravessou Damen de que Laurent, muito possivelmente, estava sozinho em seu quarto. O rei de Vere não possuía um amigo de infância ou um conselheiro que o ouvisse desabafar sobre si mesmo, sem julgá-lo por ser um rei. Não havia entre o seu povo aqueles que o viam com a transparência de sua força e da sua dor.
Era isso que Laurent estava procurando ao fumar e falar sobre sexo com Pari de Skarva? Companhia? Assim como a procurava quando se ria das tentativas de Afanas desamarrar os laços de sua jaqueta, pulando em seu colo?
Laurent fora muito amigo de Auguste quando era criança e sempre o seguia aonde quer que o irmão fosse.
Damianos se recordou de Laurent, sozinho, observando as ruínas de Marlas e, em silêncio, vendo os homens treinarem a uma distância em Delpha. Ele bebia a água da sua odre de couro e se encerrava em si mesmo. Em circunspeção. Os soldados tinham medo dele ou desejavam fodê-lo. Laurent construía tantas barreiras. Ele não confiava em ninguém.
Mas como Nikandros dissera, todos mudavam. Todos que estavam vivos.
"Vamos?" _ chamou-lhe Nikandros, abrindo a porta de seu quarto.
Damen, sacudindo o rosto, declarou:
"Vamos."
(cut)
Laurent sustentava a sua aparência comedida, recomposta e alinhada na ampla sala de reuniões. Ele trocara a sua roupa de montaria e vestia agora os seus trajes veretianos numa panóplia de ilhoses, fechos e laços apertados em tecido azul escuro, quase preto.
A sua expressão era austera e nada sobrara da aparência libertina e alterada de mais cedo. Laurent se mantinha com as pernas cruzadas e as suas botas lustrosas, sendo rodeado pelos membros do Conselho, que pareciam fiéis e unidos a ele por uma cumplicidade estratégica que não permitia que os outros, até então, desconfiassem de suas divergências internas.
Torgeir foi o primeiro a chegar, sendo seguido por Vishkar, que também se reestruturara. Ela usava, pela primeira vez, as suas roupas de Estado com camadas e mais camadas de tecido, adereços de ouro e maquiagem pesada. No pescoço, pendia o medalhão imperial. Ela ocupou o assento ao lado do rei de Patras.
Damianos cumpriu o horário e chegou pouco tempo depois com o seu quíton alinhado e parecendo mais calmo e centrado. Laurent não o favoreceu com o seu olhar, limitando-se a dizer, sem alterar a voz:
"Creio que podemos começar a discutir o assunto que nos trouxe até aqui."
Chelaut adiantou-se, dizendo:
"Perdão, Majestade, mas há uma mulher sozinha aqui entre oito homens. Creio que seja importante chamarmos uma criada para honrar o decoro de Vere."
Vishkar girou os olhos nas órbitas.
"Não se preocupe, conselheiro. Não vou montá-lo se isso lhe aflige. E não estou com disposição de me levantar com o peso da porcaria dessas roupas todas para ir até aí me balançar sobre o seu pau. O que dirá sobre oito paus. Continue, Majestade de Vere."
Torgeir levou a mão à boca, abafando algo que podia ser uma tossida, um engasgo, um pigarro ou algo mais.
Chelaut estava pálido e desconcertado e se enterrou em amargura. Laurent prosseguiu:
"Como deve ter sido informado ao rei Torgeir e à imperatriz Vishkar, os meus soldados, acompanhados da tropa de Akielos, desmantelaram mais um ringue clandestino e encontramos no lugar, além de membros patranos e vaskianos, escravos das duas nações. Para mais, obtemos a informação de que alguém de Vask estava patrocinando o lugar."
Vishkar falou sem meandros, estando um pouco rouca e Damen se perguntou se era por causa da gritaria que ela performara com Pari em sua ala. O seu veretiano era rápido e cortante.
"O seu mensageiro me deixou a par. Sei aonde quer chegar, Laurent de Vere. Declaro que o império não está envolvido na criação de ringues clandestinos em seu reino. E se algum general, arauto, nobre ou cidadão vaskiano estiver envolvido nisso e eu descobrir, será punido duramente."
"Havia homens bem treinados no lugar, portando tonfas."_ informou Laurent.
"As tonfas não são usadas em meu reino somente pelos militares. É a arma símbolo de Vask. Até os camponeses sabem manusear uma tonfa."
Laurent recuperara a frieza de seu olhar.
"Alguém influente o suficiente de sua nação, imperatriz, está envolvido nisso. Aliás, a variedade de participantes desse investimento me intriga. Prendemos dois traficantes de escravos akielons e um chefe de escravos morreu na operação, tendo ele servido a Theomedes de Akielos e conspirado para a sua morte. Estienne, que foi um nobre veretiano que serviu ao Regente, era o dono do lugar. O apresentador das lutas do ringue era patrano e os soldados eram vaskianos. Temos um problema que envolve as quatro nações."
Torgeir colocou a mão sobre a mesa em que se revelava o seu anel real.
"Acredita que se trata de um negócio lucrativo, Laurent de Vere, em que pessoas do nosso povo estão tomando parte em uma espécie de associação?"
"Não apenas isso. Acredito que exista uma tentativa real de se derrubar as nações-irmãs por propormos o fim da escravidão. Ouvimos conversas sobre um plano de me tirarem do trono, o que deixo assegurado que não acontecerá."
Vishkar franziu o cenho com uma expressão pesada. Manchas escuras se revelavam sob os seus olhos bicolores.
"Um golpe de Estado?"
"Não seria a primeira vez."
Torgeir perguntou com alguma ansiedade:
"Bom, deve ter havido um inquérito. O que foi descoberto nos interrogatórios?"
Laurent levou a mão ao queixo em uma expressão relaxada, apesar da gravidade.
"Trata-se de um esquema elaborado em que se mantém o anonimato de nomes e o sigilo sobre algumas ações. Nem mesmo as torturas puderam arrancar muitas informações, além do que já sabíamos e de pseudônimos sem sentido. Alguns dizem que o meu tio não morreu e foi coroado no submundo dos ringues. O que, naturalmente, é uma ilusão porque mortos decapitados não usam uma coroa."
As quatro autoridades do país se entreolharam com expressões sombrias.
"... Preciso que os senhores se responsabilizem pelos escravos de suas nações. Muitos estão em um estado deplorável. Cuidaremos deles até que estejam prontos para viajarem. Damianos e eu já lidamos com algo parecido há pouco tempo quando descobrimos que o comerciante de tecidos, *Makon, estava contrabandeando escravos para Patras contra o decreto do rei, utilizando as estradas."
Torgeir assentiu.
"Sim. Desde então as nossas rotas são vigiadas por meus soldados. Não tratamos nossos escravos desse modo vergonhoso, Laurent de Vere, e nunca foram permitidos escravos contrabandeados na nossa corte ou em qualquer outro lugar financiado pela nobreza."
Vishkar se moveu em sua cadeira de espaldar alto, dizendo:
"Desculpe, mas pode deixar mais claro como se sucedeu essa operação do desmantelamento do ringue?"
Laurent entoou a sua narrativa, ocultando detalhes muito pessoais e enfatizando aqueles que faziam parte da pauta do encontro.
O conselheiro Jeurre falou, após um tempo então. Havia um tom de censura em seu timbre.
"Nosso rei possui um modo peculiar de investigar as coisas. Não fomos informados que Laurent e Damianos pretendiam entrar em um prostíbulo disfarçados, assim como não soubemos que a Majestade de Vere viajou com a comitiva do comerciante Charls para interferir na operação de Makon na época..."
Laurent estreitou o seu olhar azul.
"Não, não lhes informei. Somente lhes trouxe resultados, frutos de ação e não de reuniões longas com nobres que defendem ainda a escravidão."
Jeurre insistiu:
"Poderia acontecer algo com Vossa Majestade e não teríamos conhecimento. Um rei deve se resguardar."
"Foi por isso que levei os homens das nações-irmãs comigo."
"O senhor é um rei e um rei luta em seu reino ou no campo de batalha, não como um soldado disfarçado em meio a um inimigo que não conhecemos. Estienne, que era filho de um nobre influente, está morto e perdemos parte do apoio de Marches. Podíamos tê-lo interrogado vivo..."
Damen, franzindo o cenho, interveio, falando pela primeira vez:
"Perdão, conselheiro Jeurre, mas está contestando o rei? Laurent fez o que deveria fazer. Fomos eficientes e se Estienne não morresse, ele mataria lorde Berenger e Ancel que estavam nos ajudando também. Um rei luta onde o seu povo precisa. O senhor não tem a dimensão do horror que presenciamos. Laurent fez a coisa certa em agir. Havia vidas em jogo."
Torgeir e Vishkar fitavam a face do rei de Vere fixamente.
Laurent, no entanto, deslizou o seu olhar até Damen. Jeurre sacudiu o rosto, parecendo aborrecido.
"Uma decisão da realeza deve passar antes pelo Conselho e não ser determinada dentro de portas fechadas com o rei de Akielos."
O conselheiro Mathe interveio com uma expressão tensa.
"Conselheiro Jeurre, o rei foi bem-sucedido e está vivo. É tudo o que importa, não?"
Jeurre retrucou:
"Você sempre tenta contemporizar, Mathe, sendo um puxa-saco das atitudes do rei! Você é um novato e não tem dimensão do que estamos falando!"
Mathe franziu as sobrancelhas, parecendo abatido e chateado:
"Perdão, conselheiro Jeurre, mas acho que demonstrei o meu valor perante Vere quando consegui fazer um levantamento dos nomes dos cortesões e dos negociantes de escravos que apoiavam o golpe do Regente sobre o rei e financiaram a sua causa!"
Uma tensão se estabeleceu em que os dois homens se fitavam com algum rancor.
Laurent se pronunciou, explicando aos monarcas das outras nações:
"Mathe descobriu um livro no gabinete do meu tio com os nomes dos nobres de Vere e comerciantes que apoiavam a sua causa e delataram a minha movimentação rumo ao sul há dois anos quando fui para Delfeur. Foi fácil, a partir disso, saber quem eu deveria afastar da corte e de onde deveria retirar o meu apoio."
Jeurre olhou Mathe com desgosto e se calou.
Audin, que até então estava em silêncio e tinha sobre a mesa as mãos com os dedos entrelaçados e circundados por grossos anéis, disse:
"Creio que o modo como Laurent de Vere conduz as coisas é muito diferente do modo que Aleron e mesmo Auguste tomavam decisões..."
Damen replicou, então, com secura:
"Ele não é o pai e nem o irmão."
Jeurre retrucou com uma voz dura, deslizando o seu olhar brevemente até Damianos.
"Sim. Auguste está morto..."
Um silêncio desconfortável se fez e Laurent apoiou o pulso delgado no braço de sua cadeira, dizendo com rispidez:
"Cuidado, conselheiro. A reunião não é sobre as suas mágoas não superadas, mas sobre um problema de Estado grave. Damianos é o rei de Akielos. Respeite-o."
Jeurre se silenciou com uma expressão contrariada. Audin também estava agora de cara amarrada. Metade do Conselho parecia miserável.
Torgeir, que permanecia pensativo, disse após um tempo:
"Tem havido a descoberta de ringues clandestinos em Patras. Como sabem, não é um trato de escravos que costumamos adotar. Os interrogatórios se mantiveram nebulosos e a maioria dos chefes são homens de Bazal broncos sem muita instrução que lidam com mercenários."
Laurent falou então:
"Houve a paralisação em seu reino de escravos insatisfeitos com maus tratos..."
"Sim. Estamos lidando com isso, mas eles não são escravos de ringue. São escravos de nobres irresponsáveis e irascíveis."
Vishkar também falou:
"O sistema de concubinato não incita o uso de escravos como entretenimento. Fico triste por saber que pessoas do meu reino estão envolvidas nesse esquema sórdido, mas se há desconfiança sobre o império, digo que temos os nossos próprios problemas para resolver e não me anima a desgraça de Vere. Ainda que..."
Laurent ergueu uma sobrancelha.
"Não se prive, minha cara. Ainda que...?"
"Ainda que exista uma ferida entre as relações de Vask e de Vere!"
"Por favor, refresque a minha memória. Eu era uma segunda opção como rei ainda nesse tempo e não lidava com esses assuntos."
"O rei Aleron interferiu na guerra de Vask com Patras, rasgando um tratado antigo de amizade e dando provisões e armamento para os soldados patranos. Sabíamos que ele tinha um olho em Ver-Vassel..."
O conselheiro Herode falou com a sua voz profunda:
"Aleron foi convencido pelo Regente que isso agilizaria o fim da guerra e que seria uma boa forma de nos posicionarmos, impedindo que a guerra chegasse nas nossas fronteiras..."
Vishkar riu com escárnio.
"E, de fato, agilizou o fim da guerra com a morte de tantos vaskianos. A suspensão do fornecimento de grãos em pleno inverno foi uma grande gentileza do rei Aleron também em um país em que todos já não tinham mais o que comer!"
Herode baixou o seu olhar.
"O Regente era o embaixador e lidava com a exportação de alimentos para os territórios vizinhos..."
Vishkar sacudiu o rosto com alguma inconformidade. Torgeir falou então:
"Creio que muitos de nós tenhamos ressentimento pela guerra. O rei Theomedes nos fez acreditar que aceitaria a locomoção de algumas pessoas de Patras para Akielos, mas confiscou fortes nossos em Aegina e rotas comerciais que eram as únicas das quais ainda dispúnhamos."
Damen fitou o rosto de Torgeir. Ele era muito jovem na época para se lembrar, mas ele se recordava da festa no palácio em comemoração à reconquista dos fortes de Aegina.
Chelaut, um dos conselheiros, falou:
"Vossa Majestade Imperial, Vossa Majestade de Patras, era a guerra. Os reis agiram como puderam agir..."
Vishkar moveu o seu olhar bicolor e a sua respiração parecia dura.
"Não, conselheiro, eram dois reinos ricos saqueando tudo o que poderiam carregar de duas nações enfraquecidas e com as pernas quebradas. Depois que a minha mãe e o rei de Patras morreram, Vere e Akielos devem ter ficado exultantes porque só havia dois herdeiros lutando para se manterem de pé. Seria grandioso se nós dois morrêssemos também, não?"
"Senhores..." _ falou Herode, erguendo a sua mão.
Laurent, no entanto, perguntou:
"Querem aproveitar também a mudança de poder de Vere e de Akielos que sofreram golpes duros há pouco tempo para nos enfraquecerem com os ringues? Esperam poder como disse... levarem tudo o que puderem carregar?"
Vishkar bateu a mão espalmada na mesa.
"Cuidado, Laurent! Não vou permitir que me acuse por crimes, sem provas!"
Damen interveio.
"Como foi dito, a presença de Vask no prostíbulo nos intriga..."
Torgeir falou então:
"Nem tudo é o que parece. Vocês, Laurent de Vere e Damianos de Akielos, são jovens e subestimam a mim e à Vishkar, achando que nós dois nos sujeitaríamos a isso. Eu não gostava do Regente em absoluto. Não sei no que você acredita e ainda não posso avaliá-lo profundamente, Laurent, mas eu não estava nem um pouco satisfeito com a possibilidade de o Regente se tornar rei. E eu não conspiraria para a sua queda já que o trono é seu por direito..."
"O senhor foi contra Torveld nos ajudar quando eu e Damianos estávamos na empreitada de eu reconquistar o meu direito de ser rei..."
Torgeir se apoiou no espaldar de sua cadeira, com uma expressão aborrecida.
"Me diga uma coisa, garoto. Como acha que foi o processo de recebermos a ajuda de Vere na época da guerra? Acha que Aleron nos agraciou com bondade e generosidade? O meu pai assinou um tratado que o impedia de se voltar contra Vere, deixando a nossa nação servil e silenciada pouco antes de ele morrer e largar as responsabilidades de Patras sobre mim. Torveld agiu por conta própria por seu amor por Erasmus em Ravenel, mas se o Regente descobrisse a sua participação, meu irmão poderia ser preso e executado por traição. Compreende que o seu tio tinha amarrado a todos nós de alguma forma?"
Houve um silêncio na sala e Laurent buscou o olhar de Herode. O conselheiro falou com a sua voz profunda e sábia:
"O que o rei Torgeir disse é verdade. Houve esse contrato entre Vere e o falecido rei de Patras."
Audin tamborilou os dedos na mesa, dizendo:
"Eu comecei a fazer parte do Conselho quase no fim da guerra. Mas eu me recordo dos boatos sobre o envenenamento da água de Patras nessa época com um veneno abominável. Na época, o rei Aleron e Auguste mandaram que os médicos de Vere estudassem a fórmula e o tratamento desse veneno, temendo um ataque em seu reino. Os soldados de Vere foram enviados para vigiarem os poços, cisternas e córregos veretianos da fronteira."
Laurent franziu o cenho.
"Como eu nunca soube disso?"
"Era um tópico sigiloso e militar, Majestade. Creio que Auguste o poupasse da maioria dos assuntos desagradáveis do reino. Mas nunca entendemos o que houve de fato e muitos disseram que Patras sacrificou o seu próprio povo para ter como justificativa invadir a fronteira e matar a comandante Somalia e a sua tropa."
Torgeir bateu na mesa com irritação e apontou o seu dedo com o anel para Audin.
"Cuidado, conselheiro! Não vou tolerar que me acuse de algo tão cruel enquanto o meu irmão Torveld passava noites em claro, tentando assinar tratados para deslocarmos pessoas do meu povo em segurança para as nações vizinhas. Eu não admito isso! Eu amo o meu povo e lutei ombro a ombro com os meus soldados. E se me acusarem de algo assim, vou me retirar do palácio imediatamente!"
Mathe interveio, erguendo as suas mãos e Damen se sentiu aliviado por ele ser um dos poucos conselheiros que estava tentando realmente mediar as conversas.
"Majestade de Patras, por favor, não nos entenda mal. Audin, essas são fofocas que foram ouvidas na época e as quais não devemos tomar por verdade..."
Jeurre retrucou:
"Audin não está exagerando. O responsável pelo envenenamento, então, foi Vask? Se sim, como o senhor se senta ao lado da nação que matou o seu amado povo e com quem travou uma guerra de anos?"
Com uma voz dura, Torgeir fitou Laurent e Damen.
"Me digam vocês..."
Vishkar, num gesto raro, entrelaçou os dedos nos dedos de Torgeir e beijou a sua mão, deixando os conselheiros surpresos.
"Torgeir é um amigo. É o meu raffie. Eu o amo como amaria um irmão. Sabe o que percebemos no fim da guerra, conselheiros? Que havia pessoas do outro lado que lucrariam muito com a disputa que nossos pais travavam. E que estávamos nos matando para deixar os nossos reinos e o caminho livre para outras pessoas..."
Damen fitou as mãos dadas de Torgeir e de Vishkar e, nesse momento, o seu olhar encontrou o de Laurent. Havia algo de obsceno no modo como duas nações tidas como inimigas se tocavam. Subitamente, Damianos via um pouco de fora a sua aliança com Laurent.
Torgeir disse então:
"Vou enviar um mensageiro para Bazal, pedindo que instaurem uma investigação em meu reino. O meu filho Ellias e o meu secretário podem supervisioná-la enquanto eu e Torveld estivermos aqui."
Vishkar assentiu, falando:
"Se acham que Vask está envolvida, prossigam com os interrogatórios e averiguações. Não tenho nada a temer. Posso ajudá-los no que precisarem."
Um silêncio incômodo se fez. Mathe avaliava Vishkar com uma expressão desconfiada. Quase contestadora. Havia um espelho com arabescos de ouro em uma das paredes do recinto, próximo a vaskiana, que a fazia parecer ter dois rostos de olhos amarelos do ângulo em que Damen estava.
Mathe, finalmente, disse:
"A senhora tentou constranger o nosso rei em pleno dia do seu aniversário, trazendo um escravo para ele montar como entretenimento diante de quatro reinos. Não aja como se fosse superior a tudo o que está acontecendo aqui..."
As palavras de Mathe continham certa letalidade.
"Vejo que o senhor é um abolicionista."_ disse Vishkar, erguendo o rosto com um ar superior.
"Laurent de Vere trouxe para nós uma possibilidade de liberdade que o Regente nunca permitiu. Não impeça isso."
Torgeir ergueu o dedo.
"Senhor Mathe, não há provas! Meça as suas palavras! O conselheiro está falando com a imperatriz de Vask. O senhor não é o rei. Há um limite para todas essas acusações!"
Damen fitou Mathe com alguma compaixão, vendo-o sendo chacoalhado de um lado para o outro por homens arrogantes e mais velhos. Ele só não era mais jovem do que o rei de Vere.
A reunião se encerrou com Laurent dizendo a Herode:
"Conselheiro, por favor, reúna a documentação da época da guerra de Patras e de Vask. Quero cada contrato, tratado, carta e mensagem por escrito trocada naquela época na minha mesa até amanhã. Estão todos dispensados."
E a reunião, então, se encerrou.
Chelaut, que registrava os assuntos tratados na reunião, moveu um pergaminho para Laurent assinar. Enquanto o rei escrevia, Vishkar remanchou por um tempo, fitando com o olhar nervoso a mão de Laurent escrevendo o seu próprio nome com letras rebuscadas. Por um segundo, parecia que ela diria algo.
Mas como era de costume, ela nada disse e se retirou, unindo a cabeça com Torgeir no fim do corredor.
Laurent se voltou em uma conversa com os conselheiros. Sem se falarem, o rei de Akielos deixou a sala.
(cut)
Laurent não jantou no Salão Principal. Ao invés disso, ele pediu que a refeição lhe fosse servida em seu quarto, pouco depois de ele brincar com o filhote de leopardo Afanas, que arranhava com as garras a sua poltrona reclinável de couro e parecia mais pesado do que no dia anterior em seu colo.
Latifa, a escrava patrana, foi quem trouxe o jantar do rei. Isander foi designado para servir Damen, que permanecia hospedado nos aposentos de Nikandros.
Deixando a porta aberta enquanto adentrava o quarto com o prato de guisado, hortaliças, pães e carne, para que os soldados a observassem servindo o rei sem cruzar a linha do tabu de um homem e de uma mulher se fecharem em um mesmo quarto sozinhos, Latifa deixou a bandeja e se retirou.
O rei de Vere estava sem fome. A corte de Arles era fofoqueira. Naturalmente, os boatos de que Laurent e Damianos haviam discutido já havia se inflamado pelo reino e a sua paciência para lidar com as más línguas do covil de Arles sempre seria escassa e cortante.
Laurent se serviu de um pouco de pão e guisado e se refugiou na banheira da sala contígua de seus aposentos.
Em silêncio, ele despiu a panóplia de fios entrelaçados, ilhoses, botões perolados, laços, camisa de seda e fechos que o mantinham recluso dentro de si mesmo. Ele sentiu o seu corpo liberto e arrepiado na sala de banhos quando se viu nu, como se removesse um corpete de seda muito justo e severo.
O rei de Vere iniciou o seu processo lento de lavar o seu corpo na sala em que todos os apetrechos haviam sido cuidadosamente dispostos por Isander mais cedo: um jarro bojudo de metal, toalhas macias e frascos de sabão líquido espumante feitos de vidro filigranado, com tampas forradas de prata. Ele estava sozinho naquela tarefa em que era comum os nobres dependerem da ajuda de seus criados. Desde que ele e Damen iniciaram aquele romance escandaloso para veretianos e akielons, era comum os dois amantes tomarem banho juntos.
A pele muito branca de Laurent parecia pérola branca quando a água quente escorreu por suas costas e peito. Seu corpo rígido se curvou quando ele apoiou a perna sobre a beirada da tina de louça e jogou água ali. Depois, ensaboou os ombros, as costas, o pescoço e a barriga. Respingos de água umedeciam o seu cabelo loiro, escurecendo-o.
Foi um banho demorado, relaxante e, ao finalizá-lo, entre o vapor, Laurent se demorou na banheira com água quente, fitando o teto do banheiro em que as sombras produzidas pelo fogo do lampião tremeluziam. Ele deixou que o seu corpo relaxasse úmido sobre a louça transpirante.
Até os cinco anos, Laurent, algumas vezes, se lavava com Hennike nos salões de banho enquanto os criados os serviam. Laurent se recordava de pegar um caneco pequeno e dizer, entornando água morna nos cabelos compridos da rainha que formavam ondas quebradas e fulvas:
"Vou servir à mamãe..."
Havia uma pureza em uma mãe banhar um filho, vendo-o como algo tão seu e tão enraizado à própria vida agindo por ciclos. Um pai deveria se fundir à época em que também era inocente e a replicar com um filho amado como uma segunda chance de ser puro. Hennike ria alto, como uma menina, brincando de jogar gotículas de água em Laurent e sacudindo os pés.
Como Laurent e Damianos criariam um filho? Eles o mimariam e o revestiriam num mundo dispendioso e perdulário como os reis faziam com os seus rebentos? Eles conversariam com ele em akielon em intervalos veretianos? Ensinariam a ele o manejo da espada e os seus ideais? O cavalgar de cavalos e o trotar de cascos? Os jogos físicos de Akielos? Os jogos mentais de Vere? O equilíbrio.
Eles dariam banho na criança e Damen ensaboaria as mechas de cabelo de seu filho, entoando as canções de Akielos? Laurent os observaria e permitiria que o seu filho lavasse o seu cabelo com a paciência de um pai?
Seu filho... Laurent experimentou a palavra em seus lábios, ruborizando. Um príncipe ou uma princesa dele com Damen. Era ousado demais os dois sonharem com uma família, após perderem as suas famílias?
Havia a certeza de que Laurent nunca permitiria que um filho seu e de Damen fosse para a guerra, o que, naturalmente, era esperado de um príncipe se houvesse guerra.
Laurent construiria a paz ao redor de seu filho, então, para que espadas, machados, adagas ou tonfas nunca o alcançassem. Ele nunca permitiria que algo bonito que ele e Damen criassem fosse depredado em uma arena. Os filhos nasciam para a vida e não para os ringues.
Laurent brincou com a espuma da água, observando as bolhas que se formavam.
Damen estava muito distante agora, aborrecido pela imprudência de Laurent de, veja só, se agarrar com uma mulher. Justamente Laurent que olhava as mulheres com curiosidade, achando-as belas e fascinantes, mas não desejava se deitar com elas. Ele não beijaria Pari. Ele somente se deixou levar por assuntos que o intrigavam e sobre os quais, até então, nunca pensara muito a respeito.
Laurent estava tentando aprender naquela idade gêmea de dois cisnes deslizando por um lagoa. Havia livros explícitos que ensinavam com pinturas e palavras como um homem poderia satisfazer o outro. Como poderia usar os seus dedos, língua e pau para despertar o interesse do amante. Havia dicionários de cama variados e ele era do tipo de homem que buscava o seu conhecimento em livros, mais até do que nos caramanchões.
Mas Damianos parecia insatisfeito? Ele estava insatisfeito? Por que a questão sexual o perturbava? Tudo aquilo era sobre o desejo de Damianos mesmo?
Laurent deslizou o seu olhar azul pelo teto sombrio que era como pedra derretida, sendo iluminado pelo fogo. O que era aquele desconforto?
Havia fantasias inomináveis vivendo na mente do veretiano. Desejos vorazes; imagens em que ele se humilhava para Damen ou o contrário. Havia romantismo, mas também intensidade e o sexo em seu estado bruto. Havia os dois sorvendo prazer daquilo e eles transgredindo as regras tácitas de seu cortejo em que Damen o tocava com doçura e era cuidadoso ao extremo.
Aquele era um espectro do Regente? Era mais um morto que ele deveria executar sob o sol de meio dia com uma lâmina afiada em uma pedra quente? Era sujeira, destroço, resquício da brutalidade ele desejar tanto?
Ou era somente o seu desejo deixando de ser cativo também e despontando em uma puberdade tardia em que ele queria vivenciar com o homem que amava o que a sua mente aguda elaborava e intrincava?
Laurent se recordou de Pari de Skarva no pátio, durante a tarde, lhe falando de desejo e ele nunca conversara sobre aquilo de uma forma tão sincera com ninguém. Ele pensou nela falando sobre o toque e de como ele podia ter a liberdade de viver na sua intimidade o que tinha vergonha de expor para Damen.
Laurent, com a cabeça inclinada ainda, deslizou a mão por seu mamilo rosado, recordando-se de um sonho que ele tivera durante o verão em que ele se demorou em Ios. No sonho, ele se via de pé sobre os tablados de mármore do Salão Real de Akielos, nu diante de Damianos, sob o sol fúlgido.
Naquela realidade onírica, os dois homens nus, de alguma forma, tateavam um fecho em suas nucas de uma roupa que não poderiam estar usando. Eles puxavam, então, o fecho em um movimento sincronizado como se desembrulhassem um presente e, subitamente, se viam na sua verdadeira nudez. Damen trajava as roupas veretianas de escravo do tempo em que ele permaneceu em Arles e Laurent, o quíton cor de marfim com a manga transversal de Akielos que os escravos usavam.
No sonho, Laurent puxava Damen para um beijo e pulava sobre ele. Depois, Laurent acordou durante a noite, excitado e aturdido. Com a garganta seca de uma sede que era de necessidade. Durante a manhã, então, ele pediu com desespero que Damianos o possuísse como um amante exigente e voraz, mal lhe dando tempo para despertar direito.
Havia algo de muito sincero nos sonhos e no sexo.
Laurent deslizou a mão por sua barriga rígida.
Quando ele pisou nas ruínas de Marlas, que fora o front de Vere e de Akielos, ele permanecera olhando os destroços de pedra, lembrando-se da sua outra vida em que era pequeno, mas olhava o mundo de cima e não de frente. Murmurando, Laurent dissera ao vento, ao sentir os olhos ardendo:
"Perdão, Auguste. Perdão por eu gostar tanto de Damianos de Akielos. Fazia muito tempo desde que eu me senti bem em estar ao lado de alguém. Eu deixei Damianos de Akielos entrar... Deixei ele ficar. Eu quis. Eu sonhei com isso. Eu estou vivo no fim das contas... Desculpe por estar vivo, Auguste... Desculpe por não ter morrido junto com você."
Laurent fora sórdido o suficiente para atrair Damen para o seu quarto e se insinuar para ele. Ele quem o mandara embora na primeira hora do dia, desejando que ele ficasse. E ele quem permitiu que ele permanecesse, sendo tomado por incontida alegria. Laurent fitava as ruínas, sentindo que algo em si também desmoronava, tornando-o vulnerável e exposto.
Quando ele escutou um barulho atrás de si, Laurent se deparara com Damen se aproximado e, como acontecia naquela sucessão de acontecimentos, o akielon estragava mais um plano seu. O plano de se culpar. Sempre quando Laurent tentava dar dois passos para trás, Damianos o esperava em suas costas. Era assustador.
Laurent deslizou mais a mão, acomodando-a entre as pernas.
O amor não era contínuo e estático. Ele era uma força da natureza com vida própria.
Laurent pedira perdão a Auguste e perdoara Damen. Ele defendia Damen com unhas e dentes de qualquer língua ferina em Vere, disposto a cravar caninos e injetar veneno em calcanhares e panturrilhas. Ele sempre ficaria ao lado de Damianos enquanto os dois se quisessem.
Mas Laurent se perdoava e defendia a si mesmo?
Ele se aceitava livre, assim como se aceitava cativo?
Ele aceitava o seu amor sendo sexual e contraditório como o aceitava sendo generoso e cúmplice? Ele aceitava que escolhera Damen no fim das contas como amante, ao invés de inimigo e que o escolheria sempre desse modo?
Ele já aceitara a execução do seu antigo eu?
A mão de Laurent se moveu um pouco e a imagem do tio com barba o observando se fez presente. Como um fantasma. Como um eco do que fora primário e primitivo.
Mas o tio não estava mais lá. Eles nunca estiveram juntos de fato porque o Regente era um homem que nascera morto, sem alma, e Laurent se ausentava de si mesmo, imaginando-se longe todas as vezes que o tio ultrapassava aquela linha, tocando-o. Laurent se recriava em cenários reais ou que ele nem sabia se existiam. Visualizando-se de longe e fora de alcance como se estivesse no alto de uma ameia.
Então, ele podia se alforriar de si mesmo. Do veneno que o seu corpo mastigara e passara a aceitar como alimento. Do que não era mais real e ocupava espaço dentro de si.
Fechando os olhos, Laurent se tocou, afastando a imagem do homem que o perturbava. A cabeça do Regente rolara sob o sol de Ios. Ele gritara até que a lâmina descesse sonora. E a morte encontrara a morte.
Laurent podia se abraçar com os seus braços úmidos e não apenas se perdoar por ter sobrevivido quando toda a sua família foi dizimada. Ele podia também gostar de estar vivo.
Laurent movimentou os seus dedos, sentindo o seu pau endurecer em sua mão. Sentindo que as imagens desagradáveis eram arredadas para o lado e outras ganhavam forma. Outras que aqueciam o seu corpo com a febre dos amantes.
Ele pensou em Damen e naquelas vezes em que os seus corpos se entrelaçavam entregues. De como ele gostava da sensação de ter o amante dentro de si e de como ele soubera que sempre seria assim. Da vez em que ele tocou no pau de Damianos pela primeira vez e se excitou com a ideia de lhe proporcionar prazer. E de como sentiu em seu peito dor e felicidade, assim como sentiu em seu corpo a dor se transformar em prazer.
Quando Laurent estava sendo julgado em Ios, muito próximo de ser condenado como um traidor de seu próprio reino, ele fitou o Regente em seu manto de veludo vermelho e, por um segundo, um riso enviesado se desenhou em seus lábios.
"Do que está rindo, sobrinho?" _ perguntou o Regente com a sua voz preguiçosa.
"De você, meu tio. No fim das contas, você não conseguiu me matar. E mesmo se eu morrer hoje, você não vai ter me matado de fato. Eu sinto pena de você. Não, pena não é a palavra. Lamento pelo senhor almejar tanto e nunca conseguir ser nada. Ainda que conquiste uma coroa e usufrua de Vere e de Akielos, o senhor ainda será o mesmo. E eu mesmo sem ter nada neste momento, sinto que a tudo tenho." _ dissera Laurent, com a voz sem se alterar, com uma constatação honesta porque não importava como ele morresse, não havia mais nenhum príncipe dentro da prisão. Seus olhos azuis brilhavam.
O cativeiro estava vazio, deixando em suas paredes contagens de dias permeados por subversão, anarquia e insubordinação.
Vai se foder, tio.
Os conselheiros não entenderam a colocação de Laurent e Jeurre perguntou, um pouco confuso:
"O que quer dizer, Laurent de Vere?"
Laurent não respondeu. Não havia resposta. Bastava que o Regente entendesse e, com isso, recebesse uma pedrada em seu ego que era a única parte sua que doía. Um músculo se contraiu em sua mandíbula e ele observou Laurent dos pés à cabeça como se a sua indignação beirasse o rancor. Como alguém que se ressente pela perda de poder, ele retrucou com uma voz dura:
"Não liguem para ele. Ele está tentando me provocar. Eu lhe dei várias chances, mas ele se tornou... um homem. Um homem irreconhecível..."
Laurent não era mais uma criança. Ele era um homem. E, como um homem, ele se rebelara contra o que o tentara destruir por fora e por dentro. Ele apreciava fazer Damen gozar em seu corpo e gostava de gozar em seus braços. Ele era um homem. Não mais um menino.
Laurent fechou a mão em volta da cabeça do seu pau e passou o polegar sobre a ponta, empurrando-a levemente para baixo.
Com a outra mão, ele apertou a beirada da banheira temporariamente, sentindo o seu corpo tensionar enquanto um gemido curto deixava os seus lábios. O sobe e desce da mão de Laurent era um deslizar ritmado, prazeroso e contínuo. Ele sentiu o impacto das carícias que ele proporcionava a si mesmo.
Depois de um tempo, com a mão livre, ele se viu acarinhando a própria cabeça, os cabelos úmidos, as maçãs do rosto.
Laurent aumentou o ritmo de sua masturbação conforme sentiu a outra mão deslizar por seu queixo, por seus lábios em um auto beijo agressivo, deslizando a língua pela palma de sua própria mão, antes de se morder e enfiar os dedos dentro da própria boca. Em seguida, ele beijou o seu pulso estreito como se beijasse um amante, que no caso era ele mesmo.
Ele se devorava em um engolir daquela sagrada e nova alegria dentro de si que era a constatação de estar se tornando um homem liberto de si mesmo.
Laurent prosseguiu fazendo sexo consigo mesmo, ainda quando o primeiro tremor correu por seu corpo, acompanhado de um segundo. Ele sentiu a sua vista oscilar e que aquela maré que se debatia contra as paredes carnais do seu sexo se comprimia como se batesse em um rochedo. Era preciso ele se despejar em uma correnteza, fundindo-se nela e se misturando ao esquecimento.
Laurent levou os dedos novamente à boca e, depois, se segurou firme na borda da banheira, praguejando sozinho para o fogo, para as sombras e para si mesmo.
O primeiro som de Laurent veio inconsciente com o seu corpo levando-o sem a sua mente enquanto ele escorregava os pés na água. O seu coração batia acelerado em seu peito. O clímax chegou forte, mal tocando os seus dedos antes de se misturar na espuma da banheira. Havia uma exaustão como se ele houvesse nadado da profundeza de um mar até a superfície.
Laurent estava ofegante, com o seu corpo se movendo ainda com os abalos do gozo. Os intervalos pouco a pouco foram ficando mais longos e ele pestanejou, olhando para a sua própria mão.
Era a primeira vez que ele conseguia se proporcionar aquele prazer, conduzindo a sua própria satisfação. Aquilo era algo que qualquer homem ou garoto podia fazer, mas a rigidez que ele se impôs o afastara de si mesmo.
Laurent ruborizou, sentindo ainda o calor em seu corpo e a água que já não estava mais tão quente tocando a sua pele arrepiada.
Mesmo um rei não era um rei se ele não tinha a si mesmo. Ninguém era nada sem si mesmo e Laurent, subitamente, sentiu-se cheio e exultante. Mais do que cheio. Ele sentia que poderia inundar o mundo ao seu redor. A sua mente permanecia lânguida e imersa em alguma parte de seu cérebro como um feto no útero.
O transformador da vida era o amor. Ele era o único antídoto contra a morte. Contra os venenos sorvidos no decorrer da vida. E ele nascia em si mesmo, percorria um outro homem, um povo, uma nação, o mundo inteiro e retornava para o indivíduo, maduro e fortalecido como um viajante. Laurent se recordou de Auguste no pátio de treinamento anos atrás, sendo cafona e dizendo para ele que o amor encontrava a pessoa aonde ela estivesse enquanto permanecesse viva.
Laurent se reencontrava consigo mesmo.
Laurent fugira ao cálculo de extermínio do Regente. Mesmo quando o tio o tentara matar por dentro com estocadas de um homem abominável. Mesmo quando o Regente envenenara a montaria de Laurent ou lhe lançara para uma empreitada sem volta.
Laurent queria viver e o amor o encontrara em diferentes momentos porque nos cânticos se dizia que o nascer, crescer, envelhecer e morrer eram os caminhos de uma vida, mas se esqueciam de dizer da suprema felicidade que era o amor. Da obrigatoriedade voluntária de um homem vivo. Amar era a esperança. Amar era o se libertar. Amar era o recomeço. Amar era deixar um cativeiro. Amar era dois homens numa noite escura se perdoando.
Amar era um homem descobrir o garoto em si mesmo em um quarto contíguo entre fogo e sombras com vinte e dois anos.
Amar era querer compartilhar com duas nações inteiras a sua própria liberdade.
(cut)
Damen não entendeu o que se sucedera no dia seguinte quando passou por Laurent num dos claustros do palácio. Não entendeu porra nenhuma na verdade. E teve que conviver com a sua falta de entendimento durante aquela manhã inteira. Porra nenhuma não era a palavra porque ela sugere desinteresse. Havia uma profundidade em Laurent que era quase um abismo convidativo ao mergulho. E somente a briga do dia anterior impedia que Damianos pulasse nele de cabeça.
Damen havia visto o rei de Vere mais cedo e a imagem o surpreendera um pouco, cunhando-se em seu cérebro como uma moeda. Laurent se mantinha com as suas roupas veretianas, mas descartara o uso da jaqueta. Ao invés dela, ele usava as calças justas, as botas engraxadas e uma blusa cor de marfim solta. Os seus cabelos estavam alinhados, mas a sua franja caía um pouco pela tez pálida e ele estava... sorrindo?
Damen o viu trocar uma palavra com Herode enquanto os guardas dos jardins que faziam a ronda o observavam. Não do mesmo modo que o olhavam no dia anterior em sua roupa de montaria, mas com uma curiosidade diferente. Laurent parecia muito jovem e solto em sua postura e, de si, emanava uma estranha energia que eletrizou um pouco Damianos.
Se havia algo como uma eletricidade animal ou um campo de energia que circundava o indivíduo, a aura de Laurent parecia emanar um campo de atração singular. Ele passou por seus soldados e fez um aceno de cabeça não com um gesto provocativo, mas um sorriso despretensioso enquanto subia as escadas de pedra e os homens, ajeitando as suas armaduras, estufando os peitos, encolhendo as barrigas e querendo parecer dignos, retrucaram:
"Majestade..."
Se Laurent não estivesse tão acima deles, favorecê-lo-iam com as palavras: "Está bonito hoje, Majestade..."
Damen diria isso para Laurent. Que algo nele estava diferente e ele parecia adorável e especial como sempre, mas também como nunca. Ele exercia não a atração canalha das roupas de montaria, mas quase um desejo inocente de abraçá-lo próximo ao fogo da lareira; beijar o seu pescoço e lhe ouvir falar sobre a sua alegria. Ver-lhe sorrir e ser manhoso em seus braços. Amar os vincos que se formavam em suas bochechas ao sorrir.
Mas havia um distanciamento tácito imposto entre os dois pela discussão do dia anterior.
Todavia, quando Damen e Laurent se cruzaram no saguão no meio da tarde, Damianos se deteve, fitando o amante com alguma hesitação e o viu parar também no corredor. Os dois se olharam em silêncio e Laurent moveu a sua cabeça como se esperasse por algo. Damen se censurou por se sentir tão nervoso e ruborizar um pouco diante do rei de Vere, parecendo ter treze e não vinte e seis. Quase vinte e sete.
Laurent segurava uma pilha de papéis contra o peito e sorriu para Damen, que se censurou também por sorrir, esquecendo-se do porquê afinal de discutirem e estarem dormindo em quartos separados. Esquecendo-se de tudo e de todos. Por que afinal Laurent o tinha nas mãos?
O rei de Vere deu um passo para a frente e Damen se manteve em seu lugar, sentindo um arrepio subir pela sua espinha. Laurent caminhou em sua direção, parando só quando estava muito perto. Damen engoliu em seco quando o veretiano aproximou o seu rosto. Com os dedos compridos, ele tateou a nuca de Damianos, fazendo com que o akielon sentisse um arrepio agora descer por seu corpo enquanto a sua pele formigava ao toque macio.
Sustentando um sorriso controlado, Laurent, erguendo o seu corpo e falando nas pontas dos pés com a boca muito próxima à boca de Damen, murmurou de um modo sedutor:
"Olá, Damianos..."
Gaguejando um pouco e se sentindo cretino por isso, Damen retrucou:
"O.. oi, L... Laurent..."
O rei de Vere se manteve um tempo quieto e as respirações dos dois estavam entrecortadas uma pela outra. Os seus rostos, tão próximos.
"Dê uma checada nisso. Tem a ver com as nações-irmãs."
Laurent empurrou, então, a pilha de papéis no peito de Damen, que foi acometido pela surpresa.
"O que?"
"São os papeis que pedi a Herode. Já tenho uma pilha no meu quarto. Leve essa para o seu."
Depois, com o mesmo olhar sedutor, ele se afastou, distanciando-se com a sua sedutora autoconfiança e não olhando para trás porque era isso que as pessoas sedutoras faziam. Elas não olham para trás. Damen se flagrou pestanejando aturdido com papeis em suas mãos e só se moveu quando percebeu que Lazar e Pallas, que haviam visto tudo, observavam-no de longe, batendo um no braço do outro com as costas das mãos como se dissessem:
"Você viu isso...?"
Damianos levou a pilha para o quarto de Nikandros, deixando-a sobre a cornija da lareira, disposto a avaliá-la durante a noite.
O boato da discussão do rei de Akielos com Laurent não alcançara apenas a corte veretiana, mas os soldados akielons também. Quando Damianos fora inspecionar a sua tropa, ele flagrou dois guardas mais jovens conversando entre risos:
"O reizinho botou o reizão para fora do quarto."
Os dois homens foram repreendidos duramente por desacato e Damen deixou os dois soldados sob os cuidados de Makedon.
O restante da tarde transcorrera pacífico e sem grandes novidades. Damen viu Vishkar andando de mãos dadas com Pari de Skarva, o que lhe fez crer que, após a gritaria, alguma paz fora alcançada entre as duas vaskianas. Os soldados veretianos, impossibilitados de chegarem perto de mulheres devido ao tabu, olhavam o casal bonito com uma curiosidade honesta. Havia uma altivez nelas que deixava os homens atordoados e desejosos, assim como as mulheres.
Damen viu Torgeir também almoçando com Torveld e Erasmus. Os três conversavam animadamente e a reunião não parecera causar um impacto ruim no rei de Patras, que ostentava ainda o seu riso solto e gestos fanfarrões enquanto entornava a sua bebida patrana.
Os conselheiros Audin, Jeurre e Chelaut exibiam uma expressão azeda quando passaram por Damen, mas Herode e Mathe, os únicos que não tornaram a reunião de Laurent com as outras três nações mais desgastante do que já era, pareciam tentar acalmá-los e trazê-los para a luz de alguma razão.
De noite, Damen se pôs a ler a documentação deixada por Laurent sob a sua responsabilidade enquanto Nikandros cutucava os troncos recém cortados que alimentavam o fogo da lareira com uma pinça longa de metal. O rei de Akielos verificava dados da época da guerra de Patras e Vask: negociações, contratos, cartas e declarações...
"O que, de fato, é esperado que você encontre nessa papelada, Damianos?" _ indagou Nikandros, erguendo a sua vista das labaredas que ele atiçava para afastar a friagem.
Damen deu de ombros.
"Houve um ponto levantado na reunião sobre as exigências que o rei Aleron fez para ajudar Patras na guerra contra Vask. Creio que algo intrigou Laurent. Não sei ao certo, mas se a intuição dele aponta para isso, certamente, há algo de importante aqui..."
Nikandros assentiu, estando ainda agachado diante do fogo trepidante. Damen dobrou um contrato de escravos e ergueu a sua vista para o amigo, recordando-se de algo.
"Nikandros, como foi a negociação mesmo entre Patras e o meu pai durante a guerra? Como conseguimos recuperar os fortes de Aegina?"
O kyros se ergueu e se sentou numa poltrona forrada com couro de boi, dizendo:
"Segundo o que ouvi dizer sobre essa época, o rei Theomedes exigiu os fortes em troca de acolhimento e moradia para algumas pessoas de Patras."
Damen baixou o seu olhar escuro, parecendo um pouco desconfortável.
"O meu pai fez isso? Mas Patras tinha tão pouco e nós tínhamos tanto... Por que ele lhe tomou os fortes?"
Nikandros respondeu:
"Era a guerra, Damianos..."
Damen, com algum constrangimento, voltou o seu olhar para a papelada.
"Não estávamos em guerra..."
Era tudo o que ele podia falar contra as decisões tomadas por seu pai em vida. Dizer "Foi pura ganância" sobre Theomedes, talvez fosse um pouco demais para ele.
Damianos seguiu com a sua leitura minuciosa e, nesse intervalo, Isander entrou no quarto para servir a refeição de Damen. Nikandros já havia jantado com os soldados akielons e Damen não quisera comer no Salão Principal. Estar brigado com Laurent era difícil e tanto se sentar próximo a ele e os dois não poderem conversar quanto se sentarem afastados e os dois só trocarem olhares era estranho.
De qualquer forma, Damen, quando terminasse com aquela pilha de documentos, a devolveria para Laurent e pediria que os dois voltassem a se falar e conversassem direito. Dessa vez, com calma e os dois se ouvindo.
Isander deixou a bandeja com um prato de carneiro defumado envolto em folhas de uva, grãos, queijo, pães e gomos de laranja para serem comidos após a refeição.
O rei de Akielos ergueu os olhos para o criado, ruborizando um pouco ao dizer:
"Como está o seu mestre?"
"Ele está sendo servido por Latifa enquanto cuido do Exaltado e do kyros Nikandros. O rei pediu que eu cuidasse do senhor já que já estou acostumado a servi-lo e conheço os seus gostos. O jantar está do seu agrado, Exaltado? Se preferir o pato assado com molho de vinho, posso ir buscar..." _ respondeu o criado com deferência, baixando os seus olhos de cervo.
"Não. Está ótimo a comida akielon, Isander. Obrigado." _ declarou Damen com as bochechas coradas.
O escravo partiu, fechando a porta atrás de si e Damianos se demorou, passando a vista por outros papeis enquanto Nikandros se servia de chá quente. Em um determinado ponto, o rei de Akielos franziu o cenho enquanto lia um documento redigido em uma letra veretiana rebuscada.
"O que é isto?"
Nikandros ergueu a vista:
"Descobriu algo?"
"Um contrato de casamento de Auguste com uma prima de Kempt?"
O kyros moveu o seu rosto com estranheza.
"Kempt? Não é a nação de onde a rainha Hennike veio?"
"Sim. Há a proposta de uma renovação da aliança de Kempt com Vere a partir do matrimônio de Auguste e de uma prima. Está assinado pelo rei Aleron, Auguste e por Herode como testemunha."
Nikandros comentou, com estranheza:
"Mas Kempt retirou o seu apoio à Vere, após a morte da rainha Hennike e Auguste não foi prometido em casamento a nenhuma prima de Kempt pelo que soubemos."
Damen assentiu.
"Sim. E foi justamente a partir da ruptura dessa aliança que meu pai viu a possibilidade de recuperar Delpha. Ele disse que isso havia enfraquecido Vere..."
O rei de Akielos moveu os seus olhos escuros pelo documento, pensando alto:
"Se Kempt não tivesse retirado o seu apoio ao rei Aleron, nunca teria acontecido uma guerra entre Vere e Akielos..."
Se Kempt não tivesse retirado o seu apoio ao rei Aleron, Damen e Auguste nunca teriam lutado em Marlas e ele não teria matado o amado irmão de Laurent.
Damianos separou o documento da pilha e olhou brevemente alguns outros. Ele já se preparava para dar uma pausa na atividade e ir jantar quando algo lhe atraiu a atenção, fazendo-o se sobressaltar em seu lugar. Um papel com arabescos dourados e uma letra bonita se destacou com o nome de Laurent.
"O que?!"
Nikandros ergueu o rosto.
"O que foi agora?"
"Uma proposta de paz oferecendo Laurent em casamento quando ele completasse vinte e um anos. De acordo com a data do documento, Laurent teria doze na época. Está assinado pela rainha."
O kyros franziu o cenho, com alguma surpresa.
"Uma proposta de paz por meio do casamento de Laurent? Com quem?"
Damianos tinha os olhos escuros feito betume fixos no papel. A sua pele oliva empalidecera.
"Com a realeza de Akielos?"
Nikandros sacudiu o rosto.
"O que?! Eu não entendo..."
"A data é de antes da guerra de Vere com Akielos por causa de Delpha. A mãe de Laurent ia oferecê-lo em casamento para a nobreza de Akielos como uma tentativa de acordo de paz..."
Os dois homens trocaram olhares perplexos.
"Mas por que Hennike faria isso?"
"Laurent sempre me disse que a mãe dele era muito inteligente. É dela que ele puxou a mente brilhante que tem. Hennike, possivelmente, sabia que Akielos tentaria tomar Delpha se Vere ficasse enfraquecida. Oferecer um príncipe em casamento seria uma declaração de paz premeditada, antes de qualquer intenção bélica que meu pai viesse a ter. É uma manobra bastante veretiana. Deixaria o meu pai surpreso e sem reação. Seria a união dos dois reinos, sem um único brandir de espada..."
Nikandros tinha uma expressão surpresa.
"Mas para quem Laurent seria oferecido?"
Damianos separou o documento da pilha.
"Para o príncipe herdeiro? Para mim?"
O kyros entreabriu os lábios e os fechou.
"Damen, isso é... Mas como nunca soubemos disso? Eu tenho certeza de que essa proposta nunca chegou até Theomedes... Saberíamos se um embaixador veretiano levasse um pedido dessa importância a Ios."
"Não, não chegou... Alguém impediu que o desejo da rainha fosse atendido... Isso teria mudado tudo!"
Nikandros disse:
"Mas o casamento entre dois homens não é aceito nem aqui e nem em Akielos..."
Damianos parecia pálido e surpreso.
"Pelo visto, Hennike era uma mulher bastante visionária. Não sei ao certo como as coisas se sucederiam, mas isso é importante. Eu preciso mostrar este documento para Laurent..."
Damen guardou o papel na algibeira de seu quíton, segundos antes de ressoaram, no recinto, batidas ansiosas vindas da porta. Nikandros se voltou, olhando por sobre o seu ombro.
"Quem será?" _ indagou o kyros, adiantando-se para abri-la.
Damianos viu Nikandros trocar uma palavra com alguém até que ele abriu mais a porta, revelando o visitante, com uma expressão alarmada.
Tratava-se do imperador Sorem de Ver-Tan. Ele estava com os ilhoses da sua blusa frouxos e o seu rosto estava lívido. Uma fina camada de suor, a despeito do frio, parecia cobrir a sua testa. O seu olhar estava um pouco desfocado.
"Majestade Imperial, o que houve?" _ indagou Damianos, colocando-se de pé.
O homem levava a mão ao peito e arquejava um pouco. Havia um chiado em seu peito.
"Por favor, me deixe entrar. Preciso lhe dizer algo urgentemente..."
Damen fez um gesto apreensivo para Nikandros e o kyros deixou que o imperador entrasse. Depois, ele olhou para os dois lados no corredor, verificando se alguém seguira Sorem. O claustro estava deserto.
"Diga-me o que houve!"
Sorem estava com a respiração entrecortada e os seus cabelos estavam também úmidos de suor. Ele levou a mão à garganta.
"Damianos de Akielos, eu me enganei... Vishkar... Vishkar está envolvida com as coisas terríveis que tem acontecido em Vere. Ela e Torgeir... Torgeir de alguma forma... a persuadiu. Há um complô!"
Damen trocou um olhar cauteloso com Nikandros.
"Do que se trata esse complô?"
"Eles querem matar o jovem Laurent de Vere. É assim que intencionam tirá-lo do trono. Eles desejam enfraquecer o senhor com a morte dele, podendo Torgeir avançar sobre Akielos. Vishkar quer anexar Vere ao seu território e Patras quer anexar Akielos aos seus reinos... Por isso, eles anseiam pela guerra."
"O quê?!" _ perguntou Damen, sentindo um estremecimento em si.
"Foi assim que eles cessaram a guerra de Vask e Patras há uma década. Com um acordo macabro. Uma nação prometeu a outra um reino que não fosse o seu. Eles se mancomunaram para se reerguerem e esperarem o melhor momento para apunhalar Akielos e Vere. O melhor momento é sempre o momento de transição de poder..."
O rei akielon deu a entender que replicaria alguma coisa, mas nesse momento, Sorem, levando a mão ao rosto, vomitou sangue vivo sobre a tapeçaria e cambaleou, caindo no chão.
O rei de Akielos e Nikandros avançaram para acudi-lo. Sorem ergueu os seus olhos verde amarelados, tendo a cabeça erguida pelo kyros. A sua respiração estava estrangulada. Os seus dentes, tingidos de sangue.
"Não há muito tempo. Damianos de Akielos, se lembra de quando eu lhe disse que Vishkar e eu fomos melhores amigos e ela nunca seria capaz de tentar algo contra mim...? Hoje, eu descobri a verdadeira face dela. Este é o veneno de Patras. Torgeir vai tentar matar Laurent. Exaltado, não confie em ninguém!"
Sorem, fazendo uma careta de dor, sufocou um espasmo e se curvou para vomitar novamente ao seu lado, sangue purulento. O chiado em seu peito se tornou alto e a respiração dele, mais difícil.
Damen observou a sua palidez e viu as suas unhas arroxeadas.
"Ele foi envenenado!"
O imperador fechou os seus olhos pesadamente e desfaleceu sobre o braço de Nikandros, logo após apertar o quíton do rei com dedos trêmulos, como se quisesse dizer mais alguma coisa.
O momento foi, abruptamente, interrompido por um grito distante. Uma agitação no corredor com o barulho de botas veretianas e de espadas. Vozes atabalhoadas, buscando uma origem.
Damen sentiu um arrepio percorrer a sua medula e se pôs de pé prontamente, dizendo para Nikandros com apreensão:
"Busque ajuda para o imperador."
Sem olhar para trás, Damianos avançou pelo saguão em direção à ala do Quarto Real. Havia soldados nos corredores que abriam caminho à sua passagem. O seu coração gelou e as suas entranhas afundaram quando ele viu a porta do quarto de Laurent aberta com soldados na porta. Laurent! Não! Laurent não!
Damen praticamente empurrou os guardas veretianos que fechavam a sua passagem e quando ele adentrou o aposento, se deparou com Laurent na sua poltrona reclinável com os pés por baixo do corpo em sua costumeira postura relaxada e infantil. Ele estava com a documentação em uma mesinha ao lado, assim como um livro fechado com páginas muito douradas e um pires de porcelana com carne de cordeiro assada cortada em pedacinhos.
Havia um relaxamento na blusa comprida que Laurent usava como única veste e o seu cabelo muito louro, um tanto desalinhado, se apresentava numa imagem damasquinada de ouro batido. Ao redor do seu pulso, dobrava-se em voltas a coleira dourada de Afanas. O pequeno leopardo estava imóvel com a língua arroxeada para fora no colo do rei de Vere. Os olhos, vítreos e a respiração fraca.
Laurent gritara quando vira Afanas começar a engasgar até cair enrijecido sobre si, com os olhos ainda abertos e puxando o ar, sem parecer conseguir fazê-lo. Jord estava com a espada desembainhada ao seu lado e irrompera no quarto. Ele gritou:
"Traição! Traição contra o rei! Alguém tentou envenená-lo."
Damen pouco a pouco entendia o que acontecia. Havia uma mesa posta com o jantar, mas a refeição permanecia ainda intocada pelo veretiano. Em seus mimos discretos, Laurent separara lascas do cordeiro para servir Afanas antes que Kalina o buscasse.
Indiferente aos gritos de Jord, Laurent se mantinha ainda com uma expressão atônita, com os olhos grudados em Afanas, abraçando o leopardo contra o seu corpo.
"Não fiquem aí parados! Um médico! Kalina! Chamem alguém! Afanas precisa de ajuda..."
Houve uma movimentação e no entra e sai do quarto, após minutos que se arrastavam, alguém encontrou Paschal. Alguém trouxera também um farmacêutico de Skarva da comitiva de Vask e, envolvendo o animal numa manta, os dois homens o retiraram do recinto. Damen se flagrou com a mão no ombro de Laurent e o sentia tremendo sob o seu tato. Os seus olhos estavam vermelhos de morte.
Jord falava com os guardas.
"Quem trouxe a refeição do rei?"
Não foi necessário que os soldados fossem até a cozinha procurar por Latifa. Ela se mantinha de pé entre as pessoas que se colocavam à porta. Ela não era uma mulher grande e as suas vestes eram em um tom rosado desbotado, que se destacava das vestes escuras dos guardas.
Os seus olhos estavam fixos na mesinha ricamente entalhada de Laurent e houve um momento em que o veretiano acreditou que ela pudesse lhe falar algo, mas era impossível.
Afastando-se dos homens, Latifa correu até a mesinha entulhada de coisas e Jord empunhou a sua espada.
Mas Latifa não avançou sobre o rei. Ela roubou o livro que ele lia de sobre a papelada da mesinha e o segurou contra o peito.
Jord, com a espada desembainhada, franziu o cenho. Laurent se colocou de pé e Damen se pôs diante dele.
Houve uma movimentação dos guardas na porta, acreditando que a escrava tentaria fugir por ali, visto que uma queda de dois andares nos jardins escuros pela arcada de peristilo, certamente, garantir-lhe-ia no mínimo um tornozelo quebrado.
Latifa olhou para os lados com os seus olhos de coelho assustado, abraçada ao livro e, por fim, sendo cercada, ela atirou o exemplar ao fogo alto da lareira. Rapidamente, as labaredas avançaram famintas sobre o papel e a capa de couro, engordando em uma baforada e erguendo cinzas alaranjadas.
"Prendam-na!" _ declarou Jord, sem saber como reagir àquele comportamento.
Laurent se manteve de pé, olhando Latifa nos olhos. Ela não reagiu quando um dos soldados colocou os seus pulsos unidos às costas. Damen tinha o cenho franzino, não entendendo o que aquilo tudo significava. Por fim, ele falou:
"O imperador também foi envenenado. Deixei-o com Nikandros."
Laurent ergueu o seu rosto para fitar os seus homens. Para fitar a escrava patrana. Declarou, então, com uma voz gélida, após breves segundos de silêncio em que ele listava atitudes que deveriam ser tomadas:
"Levem Latifa para o jardim. Revistem centímetro por centímetro o quarto dela e fechem a cozinha. Verifiquem se mais alguém foi envenenado. Avisem ao Conselho, ao rei Torgeir e à imperatriz Vishkar que quero falar com eles imediatamente. Mandem um dos médicos que veio da cidade tomar conta do imperador. Ninguém entra e ninguém sai do palácio. Todos são suspeitos de traição. Agora, me deixem a sós com Damianos! Preciso falar a sós com ele."
Houve uma agitação na porta de homens batendo em retirada. Houve mais uma agitação no corredor porque os cortesões, sem dúvida, haviam corrido para ver o que se sucedia nos aposentos reais.
A porta dupla com arabescos se fechou e Laurent, imediatamente, tomando uma garrafa bojuda em suas mãos da mesa, correu até o fogo e jogou água sobre as labaredas. Damen se adiantou até a pinça de metal longa usada para atiçar o fogo, num movimento sincrônico, e puxou o livro danificado da lareira para perto de si, derrubando-o sobre a pedra fria.
(cut)
A noite de primavera estava escura e gelada e se não fosse o perfume das prímulas noturnas e da espinheira florida, pensar-se ia que ainda era inverno. Os candeeiros do jardim tremeluziam a sua luz entre as vinhas, roseiras e jasmins-manga de um modo triste e mortiço.
Vishkar estava com os olhos vermelhos e parecia inconsolável, envolta em um manto de pele. Alguém havia lhe falado que Sorem e Afanas estavam correndo risco de vida, envenenados e cercados por médicos em uma ala do palácio.
Ela estava entre as folhagens, sentada em um caramanchão com Pari de Skarva apertando a sua mão.
O rei Torgeir se mantinha de pé com dois soldados patranos ao seu lado. Envolto também em um manto pesado, os seus olhos se moviam silenciosos e calmos.
Jord segurava o braço fino de Latifa, que permanecia de cabeça baixa e com os seus olhos de coelho, castanhos quase vermelhos, indecifráveis.
O Conselho se apresentava unido, trajando as suas roupas suntuosas e os medalhões em seus pescoços. Todos pareciam abatidos e preocupados. Traição ao rei. Em Arles. Quase dois anos depois de o Regente tentar depor Laurent do trono com jogadas, lábia e perversidade de um homem que conhecia a mente dos outros homens.
Nikandros também havia sido chamado por Damen, após levar Sorem até à ala médica. O imperador tinha sangue nos cantos da sua boca e olhos injetados e vítreos ao ser carregado até os médicos pelo kyros. O sangue dele manchara o quíton muito branco do akielon.
A inspeção no quarto pequeno e simples de Latifa na ala dos criados reunira em um pequeno morro tudo do que a patrana dispunha. Roupas de tecido chinfrim; sapatos de couro; um pequeno baú de madeira com utensílios de costura dentro; um pião quebrado; um abajur simples; um enfeite de cabelo que era uma rosa de seda e um prato de barro; um caneco e talheres seus. Havia também mais algo.
Algo que um dos soldados da inspeção identificara. Uma boneca de vestes branca e azul foi erguida para Jord, que franziu o cenho. Latifa sacudiu o seu rosto com relutância e se pôs a olhar para os lados com nervosismo.
Quando Laurent e Damianos chegaram, os dois estavam acompanhados do escravo Isander. Os olhos de cervo do akielon se demoraram nos olhos de coelho da patrana e Isander, com alguma apreensão, fitou o seu mestre.
Laurent vestia já as suas calças sob a camisa comprida e declarou com uma voz seca:
"Na noite de hoje, eu sofri uma tentativa de envenenamento grotesca e covarde. Afanas, o meu leopardo, e Sorem de Ver-Tan correm risco de vida e os médicos estão trabalhando para tentar reanimá-los. Não houve outras vítimas no palácio, o que faz todos crerem que foi um ato planejado contra mim e o imperador. Eu não vou perdoar quem fez isso. Sorem disse coisas para Damianos, antes de perder a consciência. Há suspeitos, mas antes de tudo..."
O seu olhar pousou em Latifa, que ainda tinha o seu braço sendo seguro por Jord. O soldado que recolhera os pertences de Latifa avançou pelo pátio, erguendo a boneca em sua mão.
"Majestade, eu não sei ler. Mas achei isso no quarto da escrava."
Damen tomou o artefato da mão do homem e se boquiabriu ao se deparar com uma boneca parecida com a que Laurent ganhara de Torgeir no dia do seu aniversário. A boneca tinha os cabelos feito com linhas grossas cor de creme e ela trajava as roupas de rei. Era uma representação de Laurent.
Contudo, diferente do presente dado por Torgeir, não havia palavras de boa-sorte revestindo o corpo da boneca em fitas coloridas. Havia palavras de ódio. Morra! Eu odeio você! Puta! Desgraçado! Que a sua linhagem apodreça! Morra! Morra! Vida longa ao rei Torgeir! Morte para a puta do rei akielon!
Damen ergueu um olhar perturbado para Laurent. Os conselheiros se aproximaram para verificar a boneca e Audin disse, com uma voz chocada:
"Mas o que é isso?! Latifa quer matar o rei?"
Mathe parecia gelado, dizendo:
"Latifa, por quê...?"
A patrana se pôs a sacudir o rosto com veemência.
Laurent olhou da escrava para o rei Torgeir, que estava confuso.
"Palavras de ódio direcionadas a mim. A superstição patrana de querer que o melhor ou o pior atinja uma pessoa com uma boneca e alguns dizeres. Tentando me amaldiçoar, Torgeir? Usou a sua antiga escrava para me envenenar? Latifa não sabe ler e escrever. Você deu a boneca para ela?"
Torgeir sacudiu o rosto.
"Eu não tenho nada a ver com isso, Laurent de Vere!"
"Curiosamente, o veneno usado para tentarem me matar parece ser o mesmo que foi usado contra os soldados patranos na época da guerra. Acabamos de falar com Paschal. Quanta coincidência..."
"Eu não fiz nada contra você!" _ declarou Torgeir com uma rigidez em seu rosto. As suas sobrancelhas se contraíam com um aborrecimento comedido.
"Veremos! Declaro o senhor prisioneiro político de Vere por tentativa de assassinato do rei. Diga a seus homens que se reagirem, todos da corte patrana serão feitos prisioneiros. O senhor tem a opção de fazer isso de um modo pacífico ou de um modo inevitável. Qual vai preferir?"
Os soldados ao lado de Torgeir desembainharam os seus machados, mas eles foram impedidos pelo rei. Com uma expressão dura, Torgeir disse:
"Vai se arrepender por isso, Laurent de Vere. Está cometendo uma injustiça..."
"Reze aos seus deuses para Afanas sobreviver, Torgeir."
Vishkar fez menção de dizer algo, mas Pari a deteve, segurando a sua mão. As mulheres trocaram um olhar significativo.
Depois, Laurent desceu os degraus de pedra e se colocou diante de Latifa que se mantinha cabisbaixa e soluçava.
"E você, Latifa? Pelo visto, alguns escravos usam sim uma máscara. Sente tanta lealdade ainda à Patras ou ficou com raiva de mim por eu dar Isander para Pari e Nikandros?"
A jovem se manteve quieta diante do rei e Laurent ergueu o rosto da escrava com a mão em seu queixo.
"Sei que pode ler os lábios. As panelas e caçarolas da cozinha não foram envenenadas, o que me faz crer que o veneno foi posto a caminho do meu quarto. Por você, Latifa. Você foi a única que tocou em meu jantar. Nós sempre a tratamos como alguém de Vere, Latifa. Então, vou julgá-la como uma veretiana que comete traição contra o seu rei. Você adulterou a minha comida e não vou poder perdoar isso..."_ e, olhando para Jord enquanto tocava em seu ombro, Laurent determinou _ "Sabe o que tem que fazer. Seja rápido!"
Jord assentiu e, segurando o braço de Latifa, a arrastou para os fundos do palácio em que eram cultivados os pomares e as hortas. Latifa iniciou o seu choro gutural e Isander se agitou em seu lugar, fazendo menção de ir até onde Latifa estava. Ele desceu os degraus e estendeu os seus braços cor de oliva. Os olhos estavam sobressaltados e a boca semiaberta.
"Fique parado, Isander! Se a seguir, vou declará-lo um traidor também!" _ falou Laurent com secura. A sua voz cortava a noite como uma lâmina afiada envolta em fumaça.
O criado akielon se ajoelhou, então, aos pés de Laurent sobre a pedra fria, pedindo por clemência. Também Mathe, o conselheiro que buscava sempre conciliação, adiantou-se até Laurent, implorando:
"Majestade, por favor, seja piedoso... Ela está há anos conosco. Prenda-a, mas não a execute..."
Laurent se voltou para Mathe enquanto tinha Isander ajoelhado aos seus pés. O seu nariz se avermelhara pela friagem e o seu rosto estava muito pálido.
"Eu já tive piedade antes e constatei que esse é um sentimento tolo. Um erro que pode levar um rei à ruína. Já fui condescendente o suficiente, mas hoje basta! Há regras para escravos traidores em Vere. E regras são regras..."
Vishkar retrucou do lugar em que se encontrava com uma voz engasgada:
"Achei que escravos eram tratados com humanidade no seu reino e que a abolição era um ato de compaixão, Estrela de Vere!"
"Cale-se! A senhora nos deve também explicações!" _ redarguiu Laurent com irritação.
"Afanas e Sorem foram envenenados e o meu coração está em pedaços, mas matar a esmo não vai os colocar de pé! Tampouco fará você se sentir melhor. Vai matar uma garota da sua facção, sem nem lhe dar um direito de réplica, Laurent?"
"Vou matar uma garota que é de qualquer facção, menos a minha e que foi sórdida o suficiente para deslizar veneno para o meu prato..." _ os olhos de Laurent se estreitaram_ "E ainda descobriremos como o veneno foi parar na boca de Sorem de Ver-Tan, imperatriz."
O rei de Vere e a governante de Vask se olharam como dois animais se farejando para se engalfinharem. A civilização era a única membrana que os retinha. Pari não largou a mão de sua senhora, parecendo estranhamente silenciosa e temerosa.
Laurent moveu o seu rosto, então, com uma indiferença arrogante na curvatura do queixo erguido em direção a Jord e Latifa.
Enquanto era puxada para os fundos do palácio, Latifa tentou mover as suas mãos, fazendo um gesto com a linguagem que ela sabia. Ela entreabriu os lábios, produzindo um som:
"A besta..." _ dissera ela, com uma voz gutural e incompreensível que não foi entendida porque estava sendo arrastada por Jord.
Nikandros se dirigiu a Damen:
"Damianos, isso é... Faça Laurent parar! É só uma escrava. Se tem alguém por trás, ela é só um joguete... Diga para ele lhe dar pelo menos um julgamento justo."
No entanto, o rei de Akielos voltou os seus olhos escuros que sob o fogo pareciam carvão.
"Houve um atentado contra as nações-irmãs, Nikandros. Tentaram matar Laurent. Laurent! Não posso perdoar desde o escravo até o mandante que está por trás disso. Não posso perdoar desde um servo a um monarca que queira tirar a vida de meu rei. Ela deve morrer."
Nikandros deu um passo para trás quando viu Damen desviar o seu rosto novamente para o pátio em que Latifa e Jord desapareciam na escuridão. Havia uma resolução sombria em seu olhar. A sua expressão irredutível lembrou nitidamente Theomedes, vendo as certezas do mundo equilibradas sobre a ponta de uma espada. O kyros engoliu em seco e deu as costas, afastando-se do rei akielon com uma expressão de contrariedade. Quase decepção.
Latifa foi arrastada por Jord até as plantações de morango, framboesa, ervilha e ervas aromáticas que despontavam do solo em fileiras separadas por cordas. Os candeeiros iluminavam as árvores frutíferas que entrecortavam o horizonte escuro da noite, assim como as vigas das estufas.
A escrava arquejou um soluço junto com a fumaça da friagem e ergueu os seus olhos de coelho úmidos para Jord.
O soldado, após fechar os olhos, procurando coragem em si mesmo (ou a covardia), retirou a espada da bainha com um ruído mortal de aço. A bruma noturna se desprendia do chão e o metal da lâmina cairia gelado sobre carne pálida e trêmula.
Latifa passou o pulso por seus olhos, num gesto infantil, tentando enxugar o choro que se renovava. Havia ranho em seu nariz arrebitado. Talvez, todas as criaturas parecessem bebês soluçantes perto da morte.
Jord fungou também e declarou enquanto erguia a espada:
"Eu sinto muito..."
Latifa sentiu a lâmina ser enterrada gelada em sua carne macia e, nesse instante, ela se lembrou do dia em que ela e Leon chegaram em Arles, nutrindo sonhos e esperanças. Nada havia acontecido como eles esperavam.
Leon fora morto afogado em um lago e Latifa seria executada nos fundos de um palácio entre legumes e hortaliças. Subitamente, ela se lembrava do irmão dizendo que queria voltar para Bazal e esse era o seu desejo também. Voltar. Voltar para o estado antes do colapso. Voltar para muito antes disso. Voltar para o silêncio envolto em guerra. Voltar para Leon recém-nascido sendo envolvido em seus braços finos de menina orgulhosa por ser a irmã mais velha de um pequeno príncipe, ainda que todos ao redor lhes dissessem que os dois eram somente escravos, filhos de escravos.
Latifa caiu sobre o piso de pedra, imóvel e gelada. O sangue respingou nos pés de couve com um jorro simples, após o brandir de espada de Jord. O mundo silencioso da escrava subitamente se tornou mais denso como se ele não estivesse mais só nela. Como se o mundo fosse desprovido de sons. Como se o universo se calasse e o negrume da noite fosse mole e acolhedor.
E Latifa fechou os seus olhos, esperando poder ver Leon na morte a envolvendo em seus braços, assim como ela o envolvera no seu nascimento. Assim como Hennike a envolvera um dia.
Assim como ela envolvera a rainha na morte. E assim como Hennike um dia envolvera Laurent em seu nascimento. Talvez morrer fosse isso no fim das contas.
Um nascimento.
E nascer fosse isso.
A morte contando dias em um ábaco.
Havia o envolver de braços entre os percursos.
Esse último, talvez, fosse a vida.
