OS MAROTOS: O LIVRO DAS SOMBRAS

CAPÍTULO 15

CONTROLE

Baby, though I've closed my eyes
I know who you pretend I am
I know who you pretend I am

Do mi ti
Why not me?
Why not me?
Do mi ti
Why not me?
Why not me?
Do mi ti
Why not me?
Why not me?

(Washing Machine Heart – Mitski)

1 ano atrás

"Mas você não parece um lobisomem assustador e nem nada do tipo, Remus..." — dissera Sirius, certa vez, no terceiro ano, após a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas — "Os lobisomens descritos pela Professora Violet parecem realmente criaturas incontroláveis e cruéis..."

Os garotos caminhavam pelo corredor, após um dia inteiro de aula, afrouxando as suas gravatas e dobrando os punhos de suas camisas ao rumarem para o pátio da Escola. O verão se aproximava e o ar estava abafado com uma languidez de fim de tarde.

Chegando ao átrio, os Marotos se largaram em um banco de pedra, próximo ao freixo com as suas folhas um tanto ressecadas devido ao período mais quente da estação. Algumas garotas olhavam na direção de Black e de Potter e cochichavam entre si, rindo baixinho. A folhagem densa das copas da árvore imprimia alguma luz e alguma sombra no rosto de Remus.

"Eu destruo coisas, Sirius. Você viu como ficaram os meus braços, após o último ciclo lunar. Não é tão simples como você tá dizendo..." — retorquiu Remus com o seu olhar cor de âmbar.

No dia seguinte, se daria a primeira noite de lua cheia do mês e Lupin tinha aquela expressão abatida. Havia manchas escuras sob os seus olhos porque, recentemente, ele não conseguia dormir tão bem. O seu apetite estava instável, apoiando-se mais em carne malpassada, quase crua, do que em qualquer outra refeição. A sua palidez chegava a ser agressiva e, aos olhos das outras pessoas, apontava para uma acentuada falta de saúde. Talvez, anemia.

"Vai continuar chamando o Remus de lobinho depois dessa, Black...?" — perguntou Pettigrew, tirando feijõezinhos de todos os sabores de sua mochila e mastigando um punhado.

"Naturalmente. É o que ele é pra mim..." — respondeu Sirius, sorrindo e piscando para o rapaz de cabelos castanhos.

James, que estava deitado numa parte do banco e com uma das mãos sob a sua cabeça, movia a varinha com a outra, enfeitiçando algumas flores de freixo e as transformando em pequenas mariposas que voavam ao redor da árvore. Com os olhos fixos nos ramos de freixo, ele disse:

"Mas a Professora Violet falou que os livros didáticos sofreram uma reforma do Ministério e não respondeu à pergunta do Ranhoso sobre a caça aos lobisomens no fim do século XIX e início do XX..."

Remus, cruzando os braços, respondeu após algum tempo:

"O Professor Binns explicou sobre o caos que foi quando os lobisomens tentaram se juntar a alguns bruxos que praticavam Magia Negra, com o intuito de expandirem os seus territórios. Mas esse tópico não faz parte do programa curricular..."

Pettigrew, que, mastigando ainda feijõezinhos, tentava imitar o feitiço de James e acabou conjurando mariposas com uma asa só, disse, baixando consideravelmente a voz:

"Quando a gente ficou sabendo da licantropia do Remus, eu dei uma sondada nos meus pais pra descobrir se eles sabiam de algo sobre lobisomens. Eles disseram que não sabiam de muito, fora do que foi mencionado na Escola e que, assim como acontece com outras criaturas das trevas, informações mais detalhadas são só obtidas a partir dos pesquisadores que fornecem relatos diretamente para os Aurores dos Ministérios..."

Ao ouvir a palavra criatura das trevas, um arrepio percorreu a espinha de Remus. No fim, o rapaz disse apenas:

"A licantropia é uma enfermidade que ainda está sendo estudada. Muitos dos sintomas dela se apresentam diferentes de um organismo para outro e os seus ciclos mais problemáticos variam com a idade, sendo a adolescência o pior..."

"Isso explica porque tu tá com essa cara de morte, lobão..." — apontou-lhe Pettigrew.

James, erguendo o rosto para conferir a expressão de Remus, tentou disfarçar um pouco a sua surpresa. Lupin estava ainda mais pálido do que quando estava na aula, parecendo ter o seu sangue drenado.

O garoto de cabelos castanhos endireitou os óculos sobre a vista e viu Sirius retirar uma garrafinha de suco de abóbora do interior da sua mochila.

"Toma, bebe. Vai te fazer bem..."

Lupin aceitou a bebida, levando o gargalo gelado à boca, antes de sentir uma refrescância preencher a sua garganta e o seu rosto. Após devolver o frasco para Black, o rapaz de cabelos compridos tomou um gole também do suco de abóbora, enxugando os lábios úmidos com as costas da mão.

Pettigrew praguejou por não conseguir replicar com habilidade o feitiço produzido por James e, após alguns minutos, desistiu. Remus ergueu, então, o rosto vendo as mariposas amarelo esbranquiçadas se moverem, descendo ao seu redor. Alguns alunos olhavam o cenário, parecendo fascinados com o feitiço.

"Que bonito!" — murmurou Remus.

"Elas vão ficar só voando em cima das nossas cabeças?" — indagou Pettigrew, vendo uma mariposa pousar em seu ombro— "É só isso o feitiço?"

James, com uma das mãos sob a cabeça ainda, deu o seu sorriso enviesado, segurando a varinha no meio com a mão fechada de um modo um tanto rude. Depois, ele bateu com a ponta dela no banco de pedra.

"Não! Elas também podem fazer isso..."

As mariposas moveram as suas asas com mais intensidade e se espalharam pelo átrio em uma dança graciosa, voando juntas com elegância, até que pousassem em diferentes lugares. As meninas que olhavam Potter pareciam encantadas, movendo os seus olhos para acompanhar o voo das pétalas que haviam sido transformadas em borboletas. Todo o pátio se movia com o bater delicado de asas.

Pettigrew, que acompanhava o movimento das mariposas com a boca aberta, deu-se por vencido, cruzando os braços.

"Certo..."

As colegas do terceiro ano dos Marotos Lily Evans, Julian Parker, Raven Fraser e Winona Rivers, sentadas à alguma distância, dedicavam um olhar ao feitiço conjurado por James Potter, parecendo um pouco maravilhadas pelo modo como as pétalas de freixo eram criaturas diáfanas que sobrevoavam o pátio. Severus Snape conversava com Evans e, com uma expressão azeda, observava os grifinórios do outro lado.

O rapaz de cabelos rebeldes moveu o seu rosto para fitar Lily quando uma mariposa pousou no pulso da menina e ela a acolheu, fazendo uma concha com a outra mão e sorrindo. Mostrou-a depois para Julian Parker, passando-a para o dedo esticado da garota.

Segundos depois, quando uma segunda mariposa pousou no cabelo cor de cobre de Evans, Snape esticou o braço, retirando-a apressadamente e pisando no inseto com força.

"Severus!" — protestou Lily, fitando as pétalas pisoteadas no chão do átrio.

A mariposa que estava no dedo de Julian Parker alçou voo, então, assim como as outras borboletas e retornou para os galhos nus do freixo, voltando a ser parte dele. Voltando a ser flor de uma árvore e não lepidóptera viva.

"Cuzão!" — resmungou James, ainda sustentando o olhar de Snape quando Lily se ajoelhou para observar as flores amassadas.

Após um tempo, Remus, pestanejando ao sentir um pouco de tontura, pegou a sua mochila, informando:

"Acho que vou dar uma passada na ala hospitalar antes do jantar. Vou pegar uma poção com Madame Pomfrey..."

"Quer que eu vá com você, lobinho?" — indagou Sirius, estendendo a mão e lhe tocando a fronte para verificar se ele estava com febre.

"Não, tá tudo bem. Eu vejo vocês daqui a pouco..." — despediu-se o rapaz de cabelos castanhos, sorrindo e rumando para o interior do castelo.

Na enfermaria, Remus se deteve um pouco conversando com Madame Pomfrey, que, nessa época, não contava ainda com a ajuda da sua estagiária Higia Bhansin. O rapaz também queria tirar uma dúvida pontual e muito pessoal com a bruxa que acompanhava de perto os seus ciclos lunares.

Pigarreando um pouco e com um enrubescer em suas faces, o menino disse:

"Tenho tido muitos sonhos como aqueles que falei, Madame Pomfrey..."

"Sonhos que são completamente normais na sua idade..." — declarou a enfermeira com naturalidade.

O menino hesitou, tentando assentir. No entanto, a verdade era que a nitidez e a ousadia dos sonhos de Remus seriam atordoantes até mesmo para um adulto. E isso o assustava porque não era o desejo simples de um adolescente, cujo corpo começara a se desenvolver. Era um desejo brutal. A ponto de, quando Remus tivesse pela primeira vez, acesso a material pornográfico, ele achasse o conteúdo muito linear e simples.

Havia outra coisa. Remus disse, enrubescendo um pouco mais:

"Eu também sonho com a morte. A senhora acha que eu estou me transformando num assassino?"

Madame Pomfrey percorreu com os seus olhos verde azulados o rosto do menino diante de si.

"O lobisomem guarda material genético do seu criador. Fenrir Greyback é um assassino e alguns ecos da natureza dele podem aparecer por meio de sonhos e pensamentos, mas isso não o torna um assassino, senhor Lupin..."

"Como a senhora pode ter certeza?"

Madame Pomfrey, que se movia agora, carregando uma bacia niquelada para o outro lado da enfermaria, se deteve perguntando:

"O senhor já planejou um assassinato?"

Remus moveu o seu rosto com alguma surpresa.

"Tipo, sequestrar alguém e querer dar cabo da pessoa? Não..."

"O senhor sente raiva das pessoas que o irritam?"

"Sim..."

"Então, por que não as mata?"

"Porque isso não é certo! Não quero que elas morram!"

"Já revidou alguma vez?"

"Já. Mas só com feitiços. Nunca usei violência física porque sou fracote..."

"O senhor consome material de violência física do mundo bruxo ou trouxa?"

Remus hesitou, pensando se o material erótico que ele permanecia olhando nas livrarias trouxas entrava nessa categoria.

"Não..."

Madame Pomfrey se deteve por último com os seus dedos entrelaçados.

"O senhor quer matar alguém?"

"Não..."

"Mas o que faria se o fizesse?"

"Eu acho que eu choraria. Ficaria em choque e me sentiria terrível. Mandaria chamar os meus pais e pediria para ser preso em Azkaban pra não ferir mais ninguém..."

"Então, o senhor não é um assassino. Assassinos matam. Muitas vezes, sem remorso."

"Mas como a senhora pode ter certeza de que eu não vá acordar num belo dia com muita raiva e queira sair por aí rasgando gargantas e trucidando pessoas?"

"Essa certeza não existe. Qualquer pessoa pode acordar um dia com raiva e, acredite, não são só os licantropos que podem querer dar cabo de alguns em um momento fugaz de muita ira. Mas fazer de fato, não é algo tão simples. Matar não é uma coisa tão fácil, senhor Lupin..."

Remus se deteve, endireitando os óculos sobre a vista.

"Mas e os meus sonhos com a morte...?"

"Se está sonhando, é um bom sinal. É uma descarga do seu inconsciente. Bruxos que não são licantropos também sonham com violência vez ou outra, mas podem seguir adiante, sem acordarem e se tornarem assassinos..."

Remus assentiu, permanecendo um tempo em silêncio. Havia uma outra pergunta que ele nunca fizera e que precisava saber a resposta para ter certeza de que estava sob controle.

"Se por um acaso, hoje fosse o dia do meu ciclo lunar e eu não fosse para a Casa dos Gritos, o que a senhora faria...?"

Madame Pomfrey se virou, movendo o seu rosto.

"Eu e Minerva iríamos forçá-lo pessoalmente a entrar pela passagem daquele Salgueiro Lutador nem que fosse enfeitiçado ou desacordado. E o senhor seria afastado da Escola quando retornasse do seu ciclo. Esse foi um contrato estabelecido entre os seus pais, Dumbledore e o Ministro Johnson... Todo ciclo, obrigatoriamente, o senhor deve passar na Casa dos Gritos. Felizmente, nunca foi necessário intervirmos..."

Remus assentiu, tendo as suas narinas dilatadas e enfiando um dos frascos de poção na parte da frente da sua mochila. O outro, ele já havia ingerido com uma xícara de chá servida por Madame Pomfrey.

"Ótimo! Dou uma passada aqui amanhã, antes de ir para o Salgueiro Lutador..." — declarou Remus, colocando a bolsa sobre o seu ombro — "Até amanhã!"

"Certo. Aguardo o senhor, meu jovem..." — respondeu Madame Pomfrey, sorrindo para o garoto.

Remus deixou a ala hospitalar. Pelo menos, ele estava seguro por bruxos mais poderosos do que ele se a sua enfermidade lhe cegasse o bom senso.

Caminhando pelo corredor, o garoto de cabelos castanhos passou por um dos arcos de pedra e, ao se aproximar da escada, ouviu uma voz o provocando com um risinho debochado:

"Nossa, que cheiro de bosta é esse? Ah, é o Lupin! O sangue ruim dele fede!"

O garoto se voltou com uma expressão tensa e se deparou com alguns dos valentões que infernizavam a sua vida desde o primeiro ano. Não só a sua. Mas a vida de muitos mestiços e nascidos-trouxa de Hogwarts. Eram puristas. Dois deles.

Quando fez menção de seguir em frente, Remus ouviu o feitiço Diffindo ser conjurado e a alça da sua mochila ser partida. A sua bolsa caiu no chão pesadamente.

"Ops, Lupin... Foi mal!" — riu-se um dos valentões de cabelos escuros e do dobro do tamanho de Remus.

O rapaz se ajoelhou para juntar a sua mochila, tateando a alça partida. As janelas refletiam quadrados de luz e sombra sobre o rosto de Lupin, cuspindo a luz do fim de tarde sobre o corredor e sobre os garotos.

"Ah, a bonequinha vai chorar?" — riu-se o outro rapaz de cabelos cacheados e loiros.

Remus olhou ao redor e se viu sozinho. Encolheu-se quando um dos garotos se aproximou, espalmando a mão pesada em sua cabeça e a empurrando com alguma truculência.

"O Matagot comeu a sua língua, sangue de merda?"

"Tira a mão de mim..." — vociferou Remus com irritação.

"Tem razão..." — disse um dos garotos, sacudindo a mão como se ela estivesse suja — "Vai que o cheiro de bosta fica grudado em mim!"

Nos anos setenta, a política do Ministério que se mostrava mais inclusiva em relação aos estudantes nascidos-trouxa e mestiços em Hogwarts e no mundo bruxo acumulava algum rancor entre os alunos e pais que assumiam uma postura purista. Bullyings e perseguições eram comuns, sendo punidos sempre pelos professores e monitores, mas escapando de suas vistas algumas vezes.

Remus estava com o rosto muito vermelho e ergueu os seus olhos selvagens para um dos garotos que o intimidava.

"O que você tá olhando, sangue ruim? Tá a fim de mim, é?" — falou com maus modos, o rapaz loiro, erguendo o punho e fazendo menção de socar Remus, mas se detendo quando o garoto se encolheu.

Remus, afastando-se, retirou, então, de dentro das vestes a varinha para consertar a sua mochila, mas no mesmo instante, viu que um dos garotos usou um feitiço para atirar o artefato longe.

"O que você quer?" — explodiu Remus com irritação, ainda com a mão erguida. A sua varinha estava caída no chão a alguma distância.

O rapaz corpulento e moreno cruzou os braços, rindo-se e olhando para trás quando ouviu um burburinho distante de vozes.

"Quero que você rasteje e beije os meus pés pra eu te deixar ir embora, sangue-ruim..."

Remus moveu o seu rosto com indignação.

"O que?! Você pirou?! Eu não vou fazer isso!"

"Então, a gente não te deixa ir..."

"Se quiserem duelar comigo com feitiços, eu dou conta de vocês. Mas dois contra alguém desarmado é covardia."

Um dos rapazes pareceu se aborrecer com a resposta dada por Remus e replicou com uma expressão desagradável.

"Cala a boca, sangue de bosta. Quer que eu enfie o meu pau na tua boca pra te fazer ficar quieto?"

Remus fitou o outro rapaz, engolindo em seco. Ajustou os seus óculos com nervosismo e ergueu a sua mochila com a alça rasgada, abraçando-a contra o peito. O outro rapaz falou também:

"Ah, é... O Gibbon contou pra gente que você ficou de pau duro, vendo ele no vestiário no primeiro ano... Gosta de olhar pro corpo dos garotos, sangue-ruim? Quer ver o meu pau?"

Os garotos mais velhos trocaram um olhar tácito e observaram por sobre o seu ombro quando Remus deu um passo para trás, sentindo uma ferocidade arquejando dentro do seu peito.

"Se vier com a gente até a sala de Aritmância, a gente devolve a sua varinha. Se ficar de joelhos pra gente, a gente deixa você ir embora..." — disse o rapaz loiro, fazendo um gesto obsceno por sobre a calça com uma voz falsamente suave— "Pode fingir que eu sou o Gibbon...Só não pode se apaixonar por mim, sangue ruim..."

Remus observava o pescoço nu de um dos garotos. Conseguia sentir a sua pulsação, o cheiro acre da sua pele, a artéria. Se cravasse o seu canino ali, ele estaria morto.

"Vai Se Foder!" — respondeu Remus com os dentes semicerrados.

"Então, vai levar uma surra pra aprender o seu lugar!"

"Eu vou contar o que fizeram para a Professora McGonagall! Vocês vão ser expulsos!"

"Não vai contar porra nenhuma porque se abrir o bico, eu te acho, sangue de bosta... E não vai gostar do que vou fazer com você..."

Remus se recordou do sonho que tivera na noite passada em que, numa floresta, o Lobo arrastava o corpo de um homem agonizante e se debruçava sobre ele para lhe estraçalhar a traqueia. Havia outras pessoas ao redor do Lobo, com a marca de uma mão vermelha sobre os seus rostos.

O garoto observou, então, a traqueia de um dos valentões. E sentiu o cheiro da carne crua que degustava quando estava próximo ao seu ciclo.

Remus pestanejou, vendo os dois garotos caminharem em sua direção. Suas unhas estavam cravadas na mochila, a qual abraçava. Sua língua, involuntariamente, massageou o canino.

A primeira vez que um lobisomem mata é o momento mais importante da sua vida.

Ele ouviu em alguma parte de si. E Remus respirou fundo, esperando o primeiro golpe.

Contudo, nesse instante, o rapaz de cabelos castanhos ouviu o ruído de um feitiço atingindo a mão de um dos valentões. A varinha dele foi atirada longe e saiu sendo arrastada pelo chão de pedra. Um segundo feitiço atingiu o outro rapaz enquanto ele ainda olhava ao redor. Algumas finas cordas foram conjuradas em torno dos seus tornozelos e ele tombou no chão ruidosamente.

Atrás deles, Remus pode ver a figura de Sirius e de James, que haviam surgido da curva do corredor. O olhar do garoto de cabelos castanhos cruzou com os dos amigos e ele levou a mão à boca, calando um som de alívio.

"Você me acertou pelas costas, Black!" — queixou-se o valentão que tivera a varinha da sua mão arrancada.

"Você sempre atinge os nascidos-trouxa e mestiços pelas costas, seu purista de merda! Como é a sensação?"

"Tá tudo bem aí, Remus?" — perguntou James com a sua varinha ainda erguida— "A gente achou que você tava demorando e viemos te procurar..."

Remus assentiu. O valentão loiro se justificou:

"A gente só tava mexendo um pouco com ele. Qual é o problema?"

Sirius soltou um ruído engasgado com a boca e respondeu:

"O problema é que se tocar um dedo nele eu te mato, seu imbecil! Eu já disse isso pra você e pra todos os outros valentões, mas parece que não adiantou. Ouvimos as nojeiras que você falou para o Remus. Acho que vou ter que grifar as minhas palavras hoje pra vocês não se esquecerem mais..."

Havia um brilho no olhar feroz de Sirius. Quase de loucura.

Remus viu quando Sirius fechou a mão na nuca do valentão desarmado, puxando-o e James arrastou o outro.

"Sala de Aritmância, né?" — certificou-se Sirius com uma expressão insana— "Vamos dar um passeio na sala de Aritmância então."

"Vão enfeitiçar a gente estando a gente desarmados?" — queixou-se um dos rapazes.

"A gente deveria porque você não ia dar a chance do Remus se defender. Mas não somos covardes feito vocês. Vão poder revidar... se conseguirem..." — determinou James, endireitando os óculos sobre a vista e fazendo um gesto para que Remus os acompanhasse.

Chegando à sala mal iluminada de Aritmância, Remus viu os dois valentões levarem a surra de suas vidas. Com os punhos fechados, Sirius partiu com violência para cima de um deles. E James bateu no outro. O ruído de dedos cerrados contra mandíbulas, maçãs do rosto e narizes se partindo era sonoro. Os garotos conseguiram atingir Sirius e James, no máximo, duas vezes.

E recostado à porta fechada, sendo cúmplice daquela violência, daquela barbaridade, Remus observou os dois amigos surrarem os garotos, os quais o haviam ameaçado. Abraçado ainda à sua mochila com a alça partida, ele viu a coloração da pele adquirir um tom arroxeado. Viu sangue pingar no chão. Viu os garotos implorarem para Sirius e James pararem e eles, após um tempo, finalmente, pararem de bater.

E, na penumbra, Remus fixou aquela cena.

Sirius e James, ofegantes, exaustos de brigarem e com pingos de sangue em suas camisas do uniforme. Viu os dois garotos o defenderem com toda aquela força tempestuosa e simples de ação e reação. Viu o seu Sirius e o seu James machucarem os garotos que haviam falado de seu sangue e que queriam molestá-lo.

Então, com uma satisfação sorrateira, Remus sentiu uma pontada no seu baixo ventre. Sentiu um arrepio percorrer a sua espinha e se descobriu excitado. Sentiu uma estranha eletricidade em seu corpo, que iniciava no sadismo e alcançava a sua virilha, tateando o prazer. Sirius e James limpavam o sangue da boca, do queixo e o checavam com as pontas dos dedos. Remus soltou um curto gemido com a sua garganta.

Naquele dia, Lupin sentiu a conexão entre sexo e violência. Sentiu a genética do Lobo se retraindo ao farejar algo que não sabia identificar. O rapaz de cabelos castanhos desejou intensamente algo que não sabia o que era. Como a criança que anseia os mamilos rosados da mãe; o ser humano faminto procurando por comida; o ser humano doente de tanta lascívia e um predador rodando em torno do seu instinto. Todas aquelas sensações que partiam de uma só raiz e retornavam para um mesmo cerne.

Era possível se amarrar um lobo; civilizá-lo feito um cão; arrancar os seus dentes e ensiná-lo a comer carne morta. Era possível revesti-lo de carinho e prendê-lo a uma corrente pesada de aros rígidos.

Havia como deixá-lo morrendo de fome sob o luar.

Mas a natureza só se perdia com a morte.

A natureza era também uma espécie de feitiço.

(cut)

Tempo atual

A comemoração pela saída de Sirius da ala hospitalar foi adiada para o dia seguinte. O que se sucedeu na enfermaria pesou sobre os Marotos e os deixou um tanto abatidos.

Sirius estava indócil. James permanecia de braços cruzados no dormitório, refletindo sobre a ordem dos acontecimentos. E até mesmo Pettigrew se apresentava calado, sem fazer brincadeiras ou conseguir tecer nenhum comentário mordaz sobre a situação.

Dentro da sua cama de cortinado aberto, Remus perguntou, após um tempo:

"O que aquele Auror quis dizer com os meus pais fazerem parte da Ordem? O que é a Ordem?"

Sirius deu de ombros, dizendo:

"Eu não faço ideia. Alguma espécie de sociedade... Uma Ordem de Bruxos?"

Pettigrew franziu o cenho, dizendo para Remus:

"Ei, lobão, aquele cara disse que tu era capaz de fazer muitas atrocidades com as pessoas. O que anda escondendo da gente?"

O rapaz de cabelos castanhos mexeu em seus óculos, recordando-se do incidente no corujal; da visão que tivera com Fenrir Greyback e do pensamento de assassinato que o acometera diante de Mikkelsen.

"Eu não estou escondendo nada!" — retorquiu Remus, desviando o seu olhar cor de âmbar e cerrando os dentes.

"Claro que não está! A gente conhece o Remus desde o primeiro ano!" — interveio Sirius.

Quando foram chamados por Dumbledore em sua sala, McGonagall veio buscá-los e os escoltou, tranquilizando os grifinórios enquanto caminhava ao lado deles pelo corredor.

"Não se preocupem. Albus já conteve o senhor Mikkelsen. Ele é um Auror atuando em uma parte conflituosa da Europa e ele acredita no extermínio de qualquer coisa que esteja vinculada mesmo que remotamente à Magia Negra. A sua visão dos fatos é muito radical..."

James fitou a diretora de sua Casa.

"É verdade que os bruxos caçavam lobisomens com bestas enfeitiçadas?"

A diretora crispou os lábios.

"Sim, senhor Potter. Há alguns anos quando os lobisomens se juntaram a bruxos das Trevas e provocaram barbárie em algumas regiões do nosso continente."

Quando a diretora e os rapazes se aproximaram da porta de Dumbledore, depararam-se com Mikkelsen indo embora com a sua expressão gelada, mas os olhos faiscantes. O seu olhar pousou em Remus e ele estancou diante dos Marotos.

McGonagall o tratou com cortesia, apesar de ostentar uma expressão austera.

"Está voltando para a Espanha?"

"Sim. Preciso contatar pessoas do Ministério espanhol. Seguiremos com as nossas operações."

O olhar de Mikkelsen novamente pousou em Remus e ele disse ao ser encarado por retinas amarelas por trás de lentes grossas.

"O portal é os olhos. Lobos prendem as pessoas pelos olhos. Deixa eu adivinhar. Você quando gosta de alguém, não consegue parar de olhar. Esse é o momento em que você tenta aprisionar a sua vítima! Para qual dos três, você não conseguia parar de olhar, garoto lobo?"

"Mikkelsen!" — repreendeu-o a voz dura da Professora McGonagall.

"A forma de um licantropo se relacionar não é normal. É obsessiva! Vocês também se amarram em suas vítimas, em sua maldita alcateia!"

"Senhor Mikkelsen!"

"E as suas vítimas não conseguem parar de se sentirem atraídas! Nem elas sabem o que as movem, mas vocês grudam na cabeça delas feito carrapatos! Não sei como Dumbledore vai lidar com o maldito augúrio dos lobos com um lobisomem embaixo do nariz dele!"

"CHEGA, MIKKELSEN! RETIRE-SE AGORA MESMO!" — determinou a Professora McGonagall, muito irritada e tateando a sua varinha.

James havia franzido o cenho diante de algumas palavras do Auror. Remus era torturado pelo Lobo que o impelia. E Sirius levava a mão à sua varinha também.

Bufando, Mikkelsen deu as costas e falou com um contrair de desgosto em seus lábios.

"Eu só espero que Dumbledore não nos chame quando for tarde demais para apagar com garoa um incêndio! Esse garoto não admite o que ele é! Isso é o poder manipulativo do Lobo também."

E, então, o Auror dinamarquês partiu, aborrecido e desaparecendo na escadaria.

Minerva respirou fundo.

"Vamos!"

Dumbledore recebeu os garotos com gentileza e lhes pediu desculpas pelo comportamento de Mikkelsen e o transtorno que isso causara. Com um sorriso no rosto, ele disse por trás de seus oclinhos de meia-lua, após levar alguns petiscos até a sua fênix, Fawkes.

"Soren possui muitas cicatrizes. Ele perdeu a sua família toda para os lobisomens e, desde então, a sua vida se arrasta com amargura e dor."

Remus perguntou então:

"O que aconteceu com a família dele?"

Dumbledore havia se movido até a janela por onde ele espreitava as extensões da Escola.

"Os Mikkelsen tinham um filho que era como o senhor, senhor Lupin. Ele era um licantropo. Mas os pais desse rapaz não tiveram a mesma compreensão de Lyall e de Hope quando o filho foi mordido e, apesar de serem bons pais até então, creio que eles perderam o juízo. Eles fizeram uma escolha cruel. Temendo a retaliação do mundo bruxo, eles prenderam o próprio filho numa casa de campo e disseram aos amigos e parentes que o jovem havia morrido num acidente mágico. Havia feitiços ao redor da casa que aprisionavam o menino e o escondiam do mundo. Ele viveu por muitos anos nessa condição."

Sirius murmurou:

"Que coisa horrível!"

Dumbledore assentiu, observando uma coruja voar próximo à sua janela e se empoleirar num galho de uma árvore.

"Eles o alimentavam, davam banho e faziam companhia ao rapaz. Também o curavam de seus arranhões e machucados. O casal Mikkelsen tinha outros dois filhos: Soren e Siena. A menina, às vezes, ajudava os pais em seus cuidados. Contudo, depois de um tempo isolado e afastado da civilização, os instintos do licantropo se tornaram mais fortes. De modo que, em um determinado momento, ele convenceu a sua irmã a deixá-lo escapar e os dois fugiram juntos."

James ouvia a história de um modo concentrado.

"E para onde eles foram?"

"Para a alcateia em que o lobisomem que mordeu o filho dos Mikkelsen pertencia."

Remus pestanejou e perguntou:

"E o que houve com eles?"

Dumbledore se voltou para os garotos e disse:

"Siena se tornou uma aliada cega de seu irmão, cedendo os seus feitiços e conhecimento bruxo à alcateia. Ela e o filho dos Mikkelsen fizeram parte de um dos bandos de lobisomens mais sanguinários que espalharam o terror pela comunidade bruxa há alguns anos..."

Sirius perguntou:

"E os pais deles?"

Dumbledore respirou fundo.

"Os pais deles morreram quando o filho e Siena fugiram. As autoridades bruxas declararam que o rapaz os matou. Acredito que o filho dos Mikkelsen tenha se entregue ao lobo e cedido a sua autonomia totalmente a ele. Soren, nessa época, estava recebendo o treinamento dos Aurores no Ministério e, por sorte, não estava em casa."

Remus estava muito pálido e perguntou:

"E o que aconteceu com o licantropo e Siena?"

Dumbledore pareceu considerar algo por um segundo e, depois, respondeu:

"Siena morreu há alguns anos. E o paradeiro do licantropo é desconhecido."

Um silêncio recaiu na sala do Professor Dumbledore e, após um tempo, ele disse, fitando Remus.

"Nem todo licantropo tem a sorte de contar com pais como os seus, senhor Lupin. Tampouco tiveram amigos que se colocaram ao seu lado. Os Mikkelsen, em sua loucura, achavam que com feitiços e punições podiam silenciar o lobo no próprio filho. Acredito que eles o torturaram por anos."

Remus estava com os olhos vermelhos.

"Mas aquele Auror disse que eu era um monstro capaz de cometer as piores atrocidades! E, talvez, talvez, ele esteja certo! Talvez eu seja perigoso!"

Dumbledore assentiu.

"Soren se tornou um caçador de lobisomens radical depois que perdeu a família. Ele está sofrendo e não consegue enxergar a verdade como ela é."

Remus perguntou:

"E qual é a verdade?"

"Que os pais dele também foram monstruosos com o filho. E que o senhor não é o irmão dele."

Remus se recordou de seus pensamentos. Ele não era perigoso?

Há menos de três horas, o Lobo o estava atiçando contra o Auror e a sua vontade era de matá-lo.

Remus engoliu em seco, pensando nos segredos que guardava e os quais não tinha coragem de verbalizar por uma estranha lealdade à algo invisível.

O que os professores fariam se descobrissem que ele ouviu o chamado de Você-Sabe-Quem? Eles iam trancá-lo para sempre na Casa dos Gritos também?

A imagem trouxe um estranho senso de familiaridade para Remus e, subitamente, ele sentiu a espaçosa sala do diretor de Hogwarts pequena e abafada. Claustrofóbica.

Pettigrew quebrou o silêncio, dizendo:

"Professor, aquele Auror disse uma coisa estranha para nós quando estávamos chegando. Algo como, como... augúrio dos lobos. O que significa isso?"

O olhar de Dumbledore se tornou um pouco mais sombrio e ele contraiu as suas sobrancelhas grisalhas.

Voltando a se sentar, o diretor disse:

"Uma espécie de oráculo das alcateias de lobisomens. Supostamente, eles utilizam os globos oculares de bruxas profetisas, ervas e vísceras humanas para verem o futuro."

Pettigrew fez uma careta de nojo.

"Eca!"

James fitou Pettigrew por um momento e deslizou a sua atenção para o diretor.

"E por que Mikkelsen falou sobre isso?"

Dumbledore se afastou um pouco, apoiando-se em sua cadeira.

"Não é um assunto que seja oportuno tratar agora, senhor Potter. Acho que todos os aborrecimentos que aconteceram hoje já é o suficiente. Gostaria que não deixassem se abater pelo que se sucedeu e esquecessem tudo isso."

Remus pestanejou os seus olhos cor de âmbar.

"E o que é a Ordem? Mikkelsen falou de uma Ordem e que meus pais..."

"Outro assunto muito delicado que não deve ser abordado agora, senhor Lupin."

As palavras finais foram um indicador de que os rapazes estavam dispensados.

Basicamente, o diretor os chamou para tranquilizá-los. Mas Remus não estava tranquilo. Ele estava inquieto. E sentia uma tensão apertar todo o seu corpo.

No entanto, ele não conseguia ainda contar ao Professor Dumbledore o que havia se sucedido no corujal e no estádio de Quadribol. Mas ele fez uma escolha enquanto descia os degraus da sala de Dumbledore.

Sirius e James!

Ele precisava contar pelo menos aos dois o que estava acontecendo.

Em sua sala, Dumbledore se mantinha fitando os gramados e ele se voltou sobre o seu ombro quando ouviu a Professora McGonagall entrando no aposento.

Minerva foi a primeira a falar:

"Como vamos proceder, Albus?"

Respirando fundo, o diretor disse:

"Enquanto o senhor Lupin estiver conosco estará seguro. O augúrio dos lobos não pode nos ameaçar. O oráculo das alcateias foi morto na investigação de Mikkelsen e o segredo se foi com ele. Mantenha Madame Pomfrey informada e diga para ela se manter atenta ao estado do senhor Lupin."

(cut)

No fim da tarde, Remus procurou refúgio sob o freixo do pátio da Escola. Envolvendo os seus joelhos com os braços, ele permaneceu por incontáveis minutos, espreitando o ambiente ao seu redor, sentado sobre um banco de pedra.

Ele viu a tarde se tornar um pouco mais fria, alaranjada e o time da Sonserina passar pelo átrio, seguindo para o estádio. Quando Remus se encontrava completamente distraído e imerso em seus pensamentos, ele acompanhou, com o olhar, uma mariposa mover as suas asas e posar em seu ombro. Não uma mariposa de verdade. Pétalas do freixo enfeitiçadas.

Erguendo o seu olhar, Remus se deparou com Sirius munido de sua varinha do outro lado do pátio. Os dois rapazes se encararam e Black, dessa vez, encurtou a distância, resgatando o rapaz de cabelos castanhos de seu exílio.

Remus permaneceu calado quando Black se sentou ao seu lado. Ele ainda espreitava a mariposa de pétalas de freixo em seu dedo esticado.

Largando-se um pouco sobre o banco de pedra, Sirius disse, sem meandros:

"Você não é um monstro, Remus! Não pode acreditar no que aquele Auror disse..."

O rapaz de cabelos castanhos pestanejou e falou:

"Segundo Mikkelsen, não admitir isso faz parte da confusão mental de um licantropo!"

Sirius estalou a boca, movendo o rosto.

"Eu conheço pessoas ruins. Ruins mesmo! Não é o seu caso. Você é um rapaz ajuizado e, sinceramente, tem generosidade e paciência até demais. Muito mais do que eu."

Remus permaneceu quieto, observando alguns alunos cercarem o Professor Flitwick no pátio, a fim de tirarem dúvidas sobre a sua matéria. Sirius prosseguiu, após um segundo arrastado.

"...Você é a melhor pessoa que eu conheço, Remus. Sempre me sinto bem quando estou com você. Não acredito que criaturas das trevas causem isso..."

O rapaz de cabelos castanhos moveu o seu rosto e deu um sorriso irônico.

"Mesmo a gente brigando por qualquer coisa, você ainda gosta da minha companhia?"

Sirius riu-se, jogando um pouco o corpo para trás.

"Se morasse na casa dos Blacks, veria o que é brigar de verdade. Aquilo sim é um inferno. Nós dois nos desentendemos, mas já estamos de boa."

Remus se voltou para Sirius, dizendo:

"Nas férias de verão, se quiser tirar férias de Orion e de Walburga também, pode ficar lá em casa como o James e o Pettigrew já ficaram. Os móveis são gastos e o assoalho do andar de cima range, mas o que vale é a intenção."

"Os móveis dos Lupins e o assoalho são legais." — respondeu Sirius, recordando-se ainda da energia fascinante que sentira ao visitar a casa de Remus no segundo ano e ver os pais dele cozinhando juntos e rindo com o rádio ligado. Remus arrumava a mesa do almoço e os três Lupins atuavam como um time, cantarolando e completando refrões de músicas trouxas.

A noção de família ainda impressionava Black.

Sirius não se lembrava de ver os seus pais rindo juntos em nenhum momento de sua vida. Nem se lembrava de si mesmo se sentindo confortável ao lado deles. Não havia música na Mui antiga casa dos Blacks. Só silêncio e barulho. Dois extremos.

Voltando-se para Remus, Sirius disse com honestidade:

"Não gosto de ver você triste."

Remus ergueu as suas pupilas cor de âmbar para Sirius e sorriu.

"Desculpa por estragar a sua festa de recuperação."

"Você não estragou nada. Haverá outras oportunidades..."

O vento da tarde soprou, levantando folhas e as barras das capas dos estudantes. Sirius prosseguiu:

"...Há quanto tempo não conversávamos sob o freixo?"

Remus, que ainda brincava com a mariposa de pétalas enfeitiçadas, respondeu:

"Meses?"

Sirius se largou um pouco mais sobre o banco de pedra, olhando a copa das árvores e tendo Remus ao seu lado. Ele sentia uma estranha tranquilidade, um estranho acolhimento, uma paz que não sentia em meses.

"Aqui é tão calmo..."

"Senti a sua falta." — murmurou Remus, com sinceridade, matizando, sem que percebesse, as bochechas de Black.

Sem jeito, o rapaz de cabelos compridos respondeu:

"Senti também a sua falta... E eu não vou deixar Auror nenhum encostar em você, Remus. Não me importa o que ele diga!"

Remus endireitou os óculos com o tique característico seu e fitou Sirius por algum tempo. Os dois rapazes se encararam, olhando-se com uma cumplicidade tácita. Os dois sorriram. Remus murmurou:

"Obrigado."

Sirius esticou a mão e retirou uma folhinha do cabelo de Remus.

"Por quê?"

"Por ficar do meu lado."

Não era comum Sirius aceitar abraços no seu primeiro ano e foi aos poucos que ele foi aceitando aquela intimidade aprendida em Hogwarts. Era um ponto sensível para ele. Mas agora ele já se permitia abrir os braços e entregar o seu peito, aprendendo isso na Escola junto a feitiços e magia. Como uma complementação de uma formação mágica e vital. Foi o que ele fez.

E Remus o abraçou. Aceitando as demonstrações de afeto e indo em direção a elas com a naturalidade de alguém que nascera com a certeza de ser amado.

Sirius sentiu Remus em seus braços e depositou meio que sem jeito, um beijo em sua cabeça. Próximo ao lugar para onde a mariposa voara.

"Eu sempre vou ficar do seu lado, lobinho."

E naquela tarde que esfriava, sob as copas das árvores, os dois garotos permaneceram abraçados. Remus encostou depois a cabeça no ombro de Sirius e deixou que ele envolvesse o seu corpo.

Era assim que eles eram, antes dos desentendimentos do quarto ano. Dois garotos sendo próximos e sinceros sob uma árvore mui antiga. Não importava para Remus se Sirius não o amasse. A amizade entre os dois era real. Não importava para Sirius que Remus o rejeitasse. Ele se apegaria à parte que era aceita entre os dois e viveria nesse pedaço.

No quarto ano, Black e Lupin eram garotos muito inseguros. As suas vidas eram opostas, mas se beijavam naquela verdade. A falta de fé em si mesmos.

Remus sabia que gostava de Sirius porque o amor lhe era familiar. Ele o reconhecia. Mas Sirius não sabia nomear aquela paz que nunca havia sentido na Casa dos Blacks e o tomava quando estava ao lado de Remus.

O amor era para os bravos.

E, talvez, também para os justos.

Houve uma comoção no pátio da Escola.

Um rapaz do sétimo ano, aparentemente, pedia uma colega do seu mesmo ano em namoro. O lufano, com gestos honestos, entregava uma rosa à jovem, que, com uma timidez juvenil, aceitou o cortejo.

Os amigos ao redor do casal o incentivavam e quando a menina abraçou o rapaz, alguns colegas assoviaram e bateram palmas, animando-os. Remus sorriu e ensaiou um assovio curto com os seus dedos dentro dos lábios.

"São os monitores da Lufa-Lufa! Eles formam um belo casal!"

Sirius estudava os movimentos do rapaz de cabelos castanhos e perguntou:

"Gosta disso?"

Remus mexeu em seus óculos sorrindo, vendo a menina na ponta dos pés, beijando o rapaz no rosto.

"Ele se declarou para ela com uma flor! É romântico pra caramba! Como não gostar?!"

Sirius se endireitou um pouco em seu assento, perguntando:

"Então, você gosta mesmo disso? De romantismo?"

Remus moveu o seu rosto, assentindo e esticou a mariposa para o dedo de Sirius.

"Acho que sim. Eu nunca namorei e não tenho parâmetros. Mas gosto de romance. Você não gosta?"

Sirius, tendo manchas vermelhas em suas bochechas, respondeu:

"Não faço muito esse tipo..."

Remus assentiu. De fato, ele não se lembrava de ver Sirius levando flores para as suas namoradas ou fazendo demonstrações públicas de amor. Parecia um pouco escasso para Lupin um namoro sem aquele carinho doce e aquele cortejo delicado. É, talvez ele fosse romântico mesmo.

Os dois garotos se fitaram e, após alguns segundos, respirando fundo, Remus afastou o tópico um pouco para longe de si. Não importava do que Sirius Black gostava.

Remus focou, então, nos seus pensamentos inquietos:

"Podemos conversar amanhã sobre o que Mikkelsen disse? Preciso de você e do James. Há algo que eu quero contar."

Sirius franziu o cenho.

"Aconteceu alguma coisa?"

Remus sentiu o vento em seu rosto, desalinhando a sua franja.

"Talvez. Mas preciso me preparar primeiro para falar disso com vocês dois..."

Sirius tinha o braço ao redor dos ombros de Remus e assentiu.

"Certo."

A conversa dos dois rapazes foi interrompida pouco depois pela monitora Fawley que chamou Remus a pedido do Professor Slughorn. O diretor da Sonserina ia fazer durante a noite a sua reunião habitual com os alunos promissores de Hogwarts e Remus, como um bom aluno e representante de turma do quarto ano, deveria comparecer.

A sua explanação sobre o catálogo de Feitiços e o seu fichamento sobre as propriedades do suco de raízes de Mandrágoras no uso de poções de sangue poderiam abrir o jantar de Slughorn. A contragosto, Remus se levantou, rumando para dentro do castelo. Ele precisaria encontrar uma boa desculpa para o Professor Slughorn e não comparecer. A última coisa que Remus gostaria agora seria de fazer parte daquela reunião egocêntrica de alunos para ver quem mijava mais longe, estando ele desconcertado ainda por tudo o que acontecera.

Sirius se demorou um pouco no banco de pedra e viu a figura de Remus desaparecer ao lado de Fawley nos arcos de pedra que levavam ao interior do castelo. Ele aproveitou o fim de tarde para dar um passeio enquanto a noite caía e fumar um cigarro longe dos olhos dos monitores e de Filch.

Caminhando pelos jardins, Sirius alcançou a imensa ponte da Escola em que os Marotos costumavam se reunir algumas vezes para trabalharem em seu mapa ou elaborarem planos. O rapaz de cabelos compridos ainda tinha a sensação do corpo de Remus junto ao seu quando se sentou na ponte, enchendo o seu peito de fumaça e açafrão.

Ele bateu a guimba do cigarro ao seu lado no espaço vazio e se deteve quando ouviu vozes vindo de um dos pilares abaixo dele que sustentava a ponte. Ele reconheceu as vozes femininas do seu ano. Ele reconheceu o tópico da conversa:

"Fico feliz que tenha, finalmente, convidado o Lupin para sair, Michael." — falou Lily Evans — "Você vem falando só dele a semana toda!"

Carlson disse, após um silêncio.

"Ele não me respondeu ainda, mas, Merlin, como eu tô ansioso..."

Sirius franziu o cenho. Ele sabia que Evans da sua turma e Carlson andavam juntos, apesar de serem de anos diferentes. Alguns alunos quando queriam conversar gostavam também de passear pelo pé da ponte, antes do jantar. O que Sirius não sabia mesmo era que aquele patife corvino tinha tido o topete de chegar em Remus.

Julian Parker, amiga de Lily e da turma de Sirius também, respondeu:

"O Remus é mesmo uma graça! É o menino mais legal do nosso ano."

Black ouviu a voz desagradável de Egwu, um dos artilheiros da Corvinal e que cometia muitas faltas em cima dos jogadores da Grifinória, dizendo:

"Mas o Lupin anda com aqueles cuzões do Black e do Potter. Os dois se acham! Não sei o que eles têm em comum."

Houve um silêncio, antes que Lily pigarreasse e intervisse:

"Eles são da Grifinória e da nossa turma. Não fale assim deles!"

Egwu insistiu.

"Ah, qual é, Evans?! O Potter tratou a Rebbecca, apanhadora da minha Casa e amiga sua, como se ela fosse um lixo, não terminando com ela direito e andando com outra de mãos dadas pelo Beco Diagonal! E o Potter e o Black agem como dois babacas o tempo todo! O Black quase expulsou a gente quando a gente foi visitar ele na ala hospitalar por uma falta que ele mesmo marcou em cima do Carlson. Não conheço o Lupin, mas os amigos dele, infelizmente, sim! E eu não vou com a cara deles!"

Sirius, do lugar em que se encontrava, rosnou um pouco com desdém.

"O Black e o Potter são muito amigos do Lupin e do Pettigrew. Eles sempre batem de frente com o lixo purista desta Escola quando eles implicam com o Remus."

"Pois sim... Quero ver como eles vão espumar quando souberem que o Carlson aqui tá querendo dar uns amassos no Lupin."

Sirius franziu o cenho com raiva em seu lugar, antes de Carlson responder com algum nervosismo:

"Ei, Egwu, eu não quero me divertir com o Lupin! Eu quero conhecê-lo melhor! Ele é muito jovem e parece ser um garoto que não namorou antes. Ele mexe comigo, sabe? Ele é fofo, mas também é atraente. É tímido, engraçado e, em outras vezes, é atirado... Eu nunca sei o que esperar dele e isso tá me deixando louco..."

Lily disse com uma voz divertida.

"Você, de fato, está doido pelo Lupin, Michael Carlson."

Egwu retorquiu com um engasgo.

"Sabem outra coisa que não entendi?! O que foi o Potter e o Black beijando o Lupin à força no Lago?"

"Alguma brincadeira de mau gosto?" — arriscou Carlson.

Lily disse depois de um arrastado silêncio:

"Alguma brincadeira de garotos. Os três já estão de boa. Se eles já se entenderam, não temos nada a ver com isso..."

Julian Parker disse depois:

"Os três voltaram a andar juntos. Acho que tudo não passou de um mal-entendido."

Egwu falou então:

"Bom, e se não é pra dar uns beijinhos nele, o que você vai querer fazer com o tal de Lupin, Carlson?"

O monitor do sexto ano disse com uma voz empolgada:

"Eu pensei em levar ele em algum restaurante legal de Hogsmeade e, não sei, fazer algo romântico? Preciso descobrir primeiro do que ele gosta. Vocês podem me dar sugestões..."

Sirius ouviu a voz de Lily dizendo após um tempo.

"Posso tentar pensar em alguma coisa. O Lupin tá sempre na biblioteca. Podia levá-lo à palestra de Newt Scamander em Hogsmeade no próximo fim de semana. Acho que ele gostaria. Está esfriando. Vamos para dentro do castelo. Tenho que lembrar o Grady que hoje é a festa do Slughorn."

O grupo se moveu e Sirius entreouviu a voz enjoada de Egwu dizendo:

"Grady Byrne é outro idiota."

"Não é não." — defendeu-o Lily _ "E não fale assim do meu namorado, Egwu!"

Quando o grupo se afastou, Sirius se manteve de joelhos sobre a ponte, observando por sobre o balaústre, o quarteto rumar para o castelo. Seus olhos dardejaram Carlson e Egwu e, movendo os seus lábios, ele murmurou com a emoção que tinha em seu peito, brandindo um pouco a sua varinha:

"Offendiculum!"

Não demorou muito para que o rapaz de cabelos compridos ouvisse um grito dos dois rapazes corvinos e o barulho deles caindo no chão, rolando em seguida de uma encosta não muito alta. Eles não se machucariam gravemente, mas alguns arranhões estariam garantidos.

Lily Evans e Julian Parker gritaram.

"O que aconteceu?!"

"Eu não sei... Eu escorreguei, eu acho..." — respondeu a voz confusa de Michael Carlson.

Na ponte, ainda com o cigarro entre os lábios, Sirius enfiou a mão em seu bolso e observou a mariposa de pétalas, movendo as suas asas delicadas sobre a palma de sua mão, antes que o feitiço se esvaísse e ela voltasse a ser uma flor.

Por que Sirius detestava tanto Michael Carlson e a ideia de ele tentar convidar Remus para sair fazia o seu peito se mover com uma fúria incontida?

Ele sentia inveja?

Ciúme?

Black fitou a flor em sua mão e se lembrou de Remus com a cabeça encostada em seu ombro sob o freixo, sonhando com romances e pessoas que complementassem os seus refrãos.

O que era aquilo que Sirius sentia? Aquilo que lhe era desconhecido e o deixava com medo?

Por que as coisas com Remus sempre o arrancavam do que lhe era conhecido e controlável?

Talvez, Sirius, no quarto ano, sentisse muita inveja mesmo de Michael Carlson.

(cut)

Após o jantar, Remus permaneceu um longo tempo na biblioteca, fazendo os seus trabalhos escolares. Ele tentava se ocupar com a normalidade da sua vida e das exigências controláveis para desanuviar a sua cabeça.

Tendo conseguido se desvencilhar da festa promovida pelo Professor Slughorn, o grifinório se perdeu no tempo e permaneceu entre o seu mundo de livros com lombadas grossas, pergaminhos de superfícies ásperas e tintas nanquins até que o relógio de parede anunciou que a biblioteca fecharia em dez minutos. Era a hora dos alunos voltarem também para as suas respectivas Casas.

Remus foi o último aluno a deixar a biblioteca e, ajustando a pesada mochila sobre os seus ombros, ele observou o corredor mal iluminado e deserto. Não havia nem mesmo os fantasmas a vista. Estava tudo muito quieto.

Àquela hora, Sirius deveria estar terminando a sua Detenção na Torre de Astronomia e James, como sempre, havia ido ajudá-lo. Era um longo caminho da biblioteca até a Torre de Astronomia, mas, utilizando as passagens secretas e os atalhos conhecidos dos Marotos, Lupin, talvez, conseguisse chegar lá sem ser visto.

Ele já havia saído da Sala Comunal da Grifinória de noite com os Marotos e eles sabiam se esgueirar pelo palácio sem serem pegos. Remus surpreenderia os seus dois melhores amigos, indo visitá-los de surpresa e os acompanhando no fim da Detenção até a Sala Comunal.

Black e Potter ficariam felizes em ver Remus e aquilo reavivaria as lembranças dos anos anteriores em que eles não brigavam tanto. Era bom eles estarem de volta às boas.

Remus utilizou um dos atalhos e, no andar superior, fez uso da escada. Quando ele passou pelos quadros dos bruxos adormecidos, viu a alguma distância o Barão Sangrento e o rapaz de cabelos castanhos utilizou outra passagem secreta, desviando-se do fantasma, sem ser visto.

Com um sorriso antecipando a surpresa que causaria, Remus ajustou os óculos sobre a sua vista enquanto subia o último lance de escadas e alcançava o corredor. Remus empurrou a porta pesada, sem fazer muito barulho.

A antessala da Torre de Astronomia em que os alunos costumavam ter aula estava vazia e as maquetes de planetas e o telescópio central se mantinham muito limpos com espanadores e produtos de limpeza os polindo no ar com magia.

Remus moveu o seu rosto, fitando a porta que levava até a sacada da Torre. Estava silencioso o espaço, que se mantinha um pouco frio devido à corrente de ar da noite.

O rapaz de cabelos castanhos encostou os seus dedos na porta, entreabrindo-a um pouco e, recortado no espaço noturno de friagem, estrelas e lua, ele, então, os viu.

Apoiando-se no balaústre, estava Sirius e, ao seu lado, encontrava-se James.

Os dois não estavam abraçados, mas os seus rostos se encostavam.

As suas bocas se tocavam em um beijo perante o qual a noite escura era a única testemunha. E, agora, Lupin.

O mundo de Remus chacoalhou com tamanha força que ele precisou levar a mão à boca para não gritar. Sufocando a sua surpresa, Remus se sentiu paralisado quando viu um rapaz se voltar para o outro e aprofundar o beijo.

Ele demorou para assumir para si mesmo que ele presenciava um beijo. Porque era insólito. Até deixar de ser.

Até uma lembrança desconfortável engolir Remus.

A lembrança de ele, segurando um relógio no dormitório, esperando os seus amigos retornarem da Detenção. Eles estavam voltando cada vez mais tarde da Detenção, dissera-lhe Pettigrew.

No Mapa do Maroto, eles se fundiam no papel em branco como se fundiam na escuridão da noite.

E James, que era sempre bruto, acordava Sirius com uma delicadeza cuidadosa.

A mão de Sirius tocou o rosto de James.

Estivera lá.

O beijo no Lago que excluía Remus totalmente. As coisas de garotos. O mundo de Black e de Potter. A maldita popularidade dos dois. O abismo.

Os olhares trocados, a comunicação tácita...

Remus sentiu os seus olhos arderem...

Cada vez, os dois voltando mais tarde da Detenção. A ausência de garotas...

James puxou Sirius para si com mais ânsia.

A presença de uma marca no pescoço de Potter.

O perfume de um que se misturava ao do outro, criando uma terceira fragrância.

Remus deu um passo para trás, sentindo que se distanciava do próprio mundo.

E um passo a mais para trás, trêmulo.

Sirius sorrira para Remus sob o freixo e com a mão ao redor do seu ombro.

Mais um passo.

Remus já assumira que Sirius não queria nada com ele, mas ele estava beijando agora James Potter!

Não uma garota esnobe que o olhava com frieza.

Um rapaz.

Alguém que olhava Remus com acolhimento.

Um Maroto.

James Potter.

Então, Remus, sem fazer a sua presença ser notada, correu para fora da sala, quase derrubando uma maquete da mesa em sua fuga.

O seu coração batia acelerado e a sua respiração estava curta. Algo em si doía de uma forma atroz. Subitamente, era como se o mundo que Remus habitasse o houvesse expelido. Houvesse o traído.

"Remus!" — ele ouviu uma voz que não era humana, um rosnar — "Remus, o que está havendo?"

Era uma voz que partia de si mesmo. Algo que despertou em seu âmago, tamanho foi o chacoalhão de seu mundo.

"FALA COMIGO, GAROTO! QUEM TE MACHUCOU?!" — insistiu o Lobo.

Remus correu um pouco, descendo os degraus da escada e atravessando corredores, até que ele parasse próximo a um candeeiro com o brasão de Hogwarts esculpido em um escudo.

A consciência do Lobo, aquela instância animalesca, se movia sobre as quatro patas, andando de um lado para o outro com inquietação.

"FALA!"

"Sirius e James... Eles..."

Houve um silêncio em que a parte selvagem de Remus, o Lobo, coletava informações, apropriando-se delas também. No fim, ele disse com um engasgo:

"Eu não entendo o que você tá sentindo! As emoções humanas são muito estranhas! Mas é incômodo! Me deixa com muita raiva! Com ódio! Quer que eu acabe com eles dois?"

"Não!" — respondeu Remus, com alguma angústia.

"Posso fazer isso parar! Fazer você parar de chorar, garoto! Posso matar Black e Potter se isso o fizer feliz!"

O Lobo dentro dele rosnou:

"Me deixa assumir! Eu posso colocar fim no seu sofrimento!"

Remus enxugou o rosto, atordoado com o diálogo que se instaurava dentro de si quando ouviu uma movimentação no corredor e ele se voltou.

Então, o que poderia tornar tudo pior aconteceu. Remus se deparava agora com Carter e com Tyrone. Por que eles estavam lá? O toque de recolher dos alunos fora há muito tempo!

"Ora ora, sangue de bosta à vista..." — debochou Carter.

Remus puxou o ar para os seus pulmões, tendo plena consciência de que ele estava com lágrimas nos olhos.

"O que foi, Lupin? Seu namorado te deu um pé na bunda? Tá chorando é, seu bicha?!" — perguntou Tyrone, fitando o rapaz após um tempo.

Remus engoliu em seco, sentindo um estranho zumbido em seu ouvido. Sentindo que o mundo ao seu redor oscilava e rodava. Com uma voz resoluta, ele se voltou para aquela parte de si que estava com ele há tantos anos. Que estava diante dele em uma casa de móveis desgastados, arranhados e vedada com tábuas.

A criatura que, no fim das contas, estaria com Remus até o fim dos seus dias, intercalando o seu "eu".

Erguendo o seu olhar cor de âmbar para o Lobo dentro de si, Remus disse, sentindo-se exausto:

"Livre-se disso."

A permissão parecia ser esperada, ansiada pela criatura das trevas. E Remus sentiu como se ele permanecesse de pé sozinho na Casa dos Gritos e o Lobo corresse pela porta escancarada, perseguindo uma presa avistada.

Naturalmente, Remus não podia se transformar em lobisomem fora da lua cheia. Mas ele não precisava ser um para o que ia fazer.

Com os olhos ainda úmidos, Remus se voltou para Carter enquanto retirava a sua varinha do bolso. Com um movimento ágil e uma voz empostada, ele vociferou:

"Incarcerous!"

Imediatamente, um conjunto de cordas finas foi conjurado pela varinha de Remus, prendendo-se nos tornozelos e pulsos do sonserino, fazendo com que Carter tombasse sobre o chão.

Tyrone fez menção de avançar para Remus e o jovem, ostentando uma força física que ele julgava não possuir, ergueu Tyrone pela garganta arrastando-o até a parede e batendo-o contra ela com força.

O sonserino era um garoto forte, mas ele estava imobilizado e se deteve, sendo fitado por um par de olhos amarelos faiscando.

"Você quer morrer, seu bosta?! Acha que eu sou a sua lixeira?! Acha que pode dizer para mim todas as porcarias que me diz todos esses anos?!" — vociferou Remus.

Carter, no chão, era atacado ainda pelas cordas enquanto tentava se desvencilhar. Tyrone levou as mãos ao pulso de Remus, sentindo que a sua garganta era apertada.

"Lupin, me solta..."

"Talvez eu devesse dar um fim em você! Ninguém ia chorar a sua falta, sabia? Acha que é melhor do que eu? Sabia que a merda da sua comunidade bruxa não existiria se não fossem os trouxas? Sabia que vocês são um bando de mágicos estéreis e inférteis que precisam dos trouxas para foderem e sobreviverem?"

"Lupin..." — murmurou Tyrone, sem ar.

O braço fino de Remus ergueu um pouco mais o outro garoto com o rosto vermelho no ar.

"Acha que é melhor do que eu por eu ser gay, Tyrone? Sabe quantos gays existem no mundo, seu idiota?! Sabe quantos fracassados como você tentaram nos exterminar e não conseguiram? Não paramos de nascer cada vez mais, seu filho de uma puta! É você que devia ser exterminado..."

Remus moveu a sua gengiva, revelando o seu canino torto e aproximando mais o rosto de Tyrone.

"Solta ele, Lupin!" — gritou Carter, tendo as cordas o imobilizando.

O Lobo farejou o pescoço do sonserino, aquele garoto que atormentava Remus desde sempre e era parte também do problema. O sofrimento do rapaz de cabelos castanhos chegava fragmentado e codificado para o Lobo.

Ele não entendia as criaturas humanas.

Elas eram cheias de melancolia, impedimentos e travas. Por que elas não podiam simplesmente apreciar a vida, sem construir tantos altares para as emoções? A apreciação da vida para um predador era o controle simples sobre a própria vida.

O controle. A vida.

E a morte.

Remus moveu o seu rosto quando ouviu um ruído no corredor. No mesmo instante em que ele deslizava a língua por seu canino.

Vozes conversando. Passos se aproximando.

Tyrone, que estava vermelho e sem ar, foi largado com descuido. As cordas ao redor dos membros de Carter se afrouxaram e viraram pó.

Os dois sonserinos fitavam Remus com surpresa e com um temor com o qual nunca o haviam encarado antes. Sem elaborar muito a questão, o rapaz de cabelos castanhos, com uma força que ainda não era sua, deixou que a sua mochila caísse no chão e rasgou a manga de seu próprio casaco.

As duas figuras que conversavam surgiram no corredor.

Tratava-se de Frank Longbottom e de Michael Carlson.

Os dois rapazes do sexto ano pararam abruptamente e fitaram os dois sonserinos e Remus. Carter, com algum pânico, havia se erguido do chão e Tyrone estava muito próximo de Remus.

O grifinório de cabelos castanhos se encontrava com os olhos vermelhos, a sua mochila no chão com os livros caídos e a manga de sua roupa rasgada.

"O que está acontecendo aqui?" — indagou Longbottom com uma voz irritada.

Enxugando o rosto com as costas da mão, Remus disse:

"Eles tentaram me azarar! Carter e Tyrone me ameaçaram!"

Os dois garotos do sexto ano fitaram os sonserinos com indignação enquanto eles sacudiam a cabeça com nervosismo.

"Não! A gente não fez isso! Foi o Lupin que ameaçou a gente!"

Não era o que as provas diziam. Eles sempre faziam a vida de Remus um inferno. Todos sabiam. Carter e Tyrone já haviam sido advertidos pela monitora Fawley.

"Não é o que parece!" — disse Carlson com uma voz de censura, aproximando-se de Remus e levantando a sua mochila do chão.

"Ele apertou o meu pescoço!" — queixou-se Tyrone com uma voz de terror.

"Chega! Eu já estou cheio de vocês dois! Vocês pegam no pé do Lupin desde sempre. E não deviam estar andando pelo corredor nesse horário! Venham! Eu vou levar vocês dois para a sala da Professora McGonagall agora!"

Remus, naquela instância em que permanecia, murmurou para o Lobo:

"Isso não foi legal..."

E o Lobo sussurrou de volta, fazendo um arrepio percorrer o pescoço de Remus enquanto ele piscava para dois aterrorizados Carter e Tyrone sendo arrastados até a sala da diretoria por Longbottom.

"Mas você não gostou?"

Remus contraiu o canto de seus lábios com um meio sorriso.

"... Quer que eu faça você se esquecer de tudo, garoto? Até mesmo do Black?"

Remus pestanejou, sentindo a fisgada em seu peito da qual ele queria se distanciar. Ele não queria voltar para aquilo. Ele queria fugir. Ele queria que o Lobo lhe mostrasse um pouco daquele mundo rude em que a sua tristeza podia se tornar raiva e ganhar um formato. Uma válvula de escape.

"Sim..."

Michael Carlson usou um feitiço para reparar as costuras da manga do casaco de Remus, dizendo:

"Olha só o que aqueles dois brutos fizeram! Vem! Eu te acompanho até a sua Casa, Remus! Caramba, o que deu neles?!"

O rapaz de cabelos castanhos pestanejou os seus olhos cor de âmbar, ajustando a mochila sobre o ombro.

"De onde você e o Longbottom vinham?"

Carlson sorriu, dizendo:

"Da festa do Slughorn. Na verdade, eu fui... Eu fui esperando encontrar você. O Slughorn disse pra todo mundo que você ia fazer uma apresentação no início do jantar..."

Remus moveu o seu rosto com um sorriso enviesado.

"E quando você viu que eu não estava lá, nem esperou pela sobremesa e caiu fora..."

O corvino tinha algumas manchas nas suas bochechas e assentiu.

"Que bom que eu e o Longbottom resolvemos nos mandar e pudemos te ajudar..."

Remus observava tudo daquela instância dentro de si mesmo que parecia ser a Casa dos Gritos.

"Por que vocês, homens, sempre gostam de sentirem que estão no controle, salvando alguém? É pra se esquecerem de que um dia vão todos morrer?" — comentou o Lobo com algum divertimento que fez Remus sorrir também — "Vou dar a ele o que ele quer..."

Remus se jogou nos braços de Michael Carlson, dizendo:

"Senti tanto medo... Que bom que você apareceu..."

O corvino, um pouco surpreso, deslizou a mão pelo ombro de Remus.

"Ei, tá tudo bem! A Professora McGonagall vai punir o Carter e o Tyrone severamente..."

Remus tinha o rosto afundado no peito de Carlson e, de um modo teatral, ergueu o seu olhar.

"Obrigado, Michael... Obrigado por me salvar."

O rapaz de cabelos castanhos que observava o Lobo assumindo as suas ações franziu o cenho, vendo a si mesmo deslizar os dedos pela nuca de Carlson. Por seus ombros. Por seu rosto.

Os dois rapazes se fitaram e Remus se manteve na ponta dos pés.

O Remus dentro da Casa dos Gritos psicológica arregalou os olhos quando ele viu o Lobo beijar Michael Carlson na boca.

Em meio à sua inconsciência mobiliada como a Casa dos Gritos, Remus sentiu um estranho calor envolver o seu corpo. Ele sentiu a febre de ter lábios de um outro rapaz tocando o seu e ele levou os dedos à própria boca.

"Você gosta disso?" — perguntou o Lobo ao menino dentro de si.

Remus havia beijado Sirius na enfermaria. Era diferente.

A sensação era diferente também de beijar o próprio braço sob o chuveiro.

Carlson afastou o seu rosto, tendo um sorriso em seus lábios.

"Isso é um sim para o meu convite de irmos juntos a Hogsmeade?"

O rapaz de cabelos castanhos, com um sorriso enviesado, assentiu.

"Vocês, seres humanos, sempre criam subterfúgios para fazer o que querem?" — perguntou o Lobo ao garoto que era parte sua também.

Remus olhou para o lado quando viu o Lobo o deixar novamente, caminhando sobre as suas quatro patas.

No mesmo instante, o rapaz de cabelos castanhos pulou sobre Michael Carslon, não o beijando com a delicadeza anterior, mas com um beijo invasivo, faminto.

O corvino arregalou os seus olhos, mas não afastou Remus.

"O que está fazendo?" — perguntou Remus ao Lobo.

"Posso fazer você se esquecer de Sirius Black. Talvez o Carlson te foda até melhor do que ele..."

"O QUE?!"

O rapaz de cabelos castanhos pulou sobre Carlson, não se importando de envolvê-lo com as suas pernas e tendo o outro rapaz o amparando enquanto buscava algum equilíbrio na parede. Os beijos se tornaram um conjunto de lábios, línguas, mãos e fricções.

O Lobo desarrumou o cabelo de Carlson e, sem mesuras, puxou a mão do rapaz para que tocasse em seu pau.

"Ei, ei, o que tá fazendo, Remus?" — perguntou o corvino com uma voz fascinada e tendo o seu pescoço mordido.

"Não gosta?"

"Gosto... Nossa, você é imprevisível mesmo..."

"LOBO, NÃO!" — gritou Remus — "EU NÃO QUERO QUE SEJA ASSIM!"

Mas o Lobo não parou e Remus, na sua inconsciência, sentiu a sensação de ter a mão de Carlson sobre a sua virilha.

Entre beijos arquejantes, o monitor do sexto ano da Corvinal perguntou:

"Então, é assim que você quer que seja entre nós?"

"Por enquanto, sim. Pode ser que depois eu queira outra coisa. Vocês, bruxos, fazem muitos planos!"

"LOBO!"

"Tem algum lugar em que podemos ficar a sós?" — indagou a criatura das trevas.

Carlson pestanejou, despenteado, com mordidas em seu pescoço, os botões de sua camisa abertos e com uma ereção. Os seus lábios estavam em carne viva.

"Podemos ir para uma sala vazia e ficar lá por alguns minutos e..."

"Minutos?" —respondeu o Lobo com um sorriso irônico.

Carlson engoliu em seco, sentindo-se como um garoto diante daquele outro garoto.

"Podemos ir para o banheiro dos monitores se quiser. Quer isso?"

"LOBO, NÃO! EU NÃO QUERO! EU AINDA NÃO ESTOU PRONTO PRA ISSO!"

"Sim, vamos..."

"NÃO!"

Remus tentou recobrar o controle sobre si mesmo e sentiu algo o puxar para trás quando ele se aproximou da porta. Uma coleira pesada se fechava em seu pescoço delgado. A coleira que o Lobo usava durante o seu ciclo, cuja corrente era presa à parede.

Remus tentou se desvencilhar, mas a porta da Casa dos Gritos se fechou com um estrondo.

Carlson, tomando a mão do rapaz de cabelos castanhos entre as suas, perguntou, sentindo-a gelada.

"Remus, você tá tremendo! Tem certeza de que quer isso?"

Remus, na instância de seu inconsciente, não estava com a sua varinha. Ele forçou a corrente, tentando se libertar enquanto chamava pelo Lobo, com agitação.

Ele não podia permanecer impassível, vendo a criatura das trevas usar o seu corpo. Ele não queria aquilo!

"Não ligue pra isso!" — sorriu o Lobo — "Estou com vontade de fazer isso com você há muito tempo. Vamos, monitor?"

Carlson fitou os olhos amarelos e faiscantes diante de si, sentindo-se drenado por eles. Havia uma tensão no canto dos lábios de Lupin, que, no instante seguinte, desapareceu.

Com um aceno e entrelaçando os seus dedos na mão de Remus, o rapaz corvinense assentiu.

"Vamos."