Capítulo 2
Ela atirou a flecha pensando nele.
Era um pensamento egoísta para uma sacerdotisa. Mas não era isso que ela era. Não havia sido treinada como a outra para fazer aquilo. Finalmente havia entendido que jamais poderia ser comparada a Kikyou. E que ninguém tinha o direito de fazê-lo. Ninguém tinha o direito de chamá-la de fraca, de imatura. E foi por isso que ela liberou todo o seu poder naquela flecha. E foi quando ela se entregou totalmente aos seus desejos – sendo o principal o de salvar Inuyasha - que seus dons entraram em sincronia com seu coração. Mirou no peito. Acertou.
O céu não tinha voltado a ficar claro, como sempre acontece nos filmes nos quais o vilão é destruído. Os rostos dela e de seus amigos não pareciam aliviados. Kagome correu pra perto dele. Chovia muito. E era difícil encontrar uma parte do corpo de Inuyasha onde não houvesse sangue. Mal podia identificar o tamanho dos ferimentos.
Ele olhou pra ela dizendo "adeus". Era mentira. E ela gritou isso muito alto, várias vezes. Queria gritar até o ponto em que pudesse acreditar. Ele não a deixou fazer isso. Nem quando deu um fiozinho de esperança e aguentou chegar na vila ainda vivo. Kaede também não a deixou criar expectativas. O olhar que ela deu, a expressão que adquiriu quando viu o corpo desgastado de Inuyasha foi facilmente decifrável. E porque ela não se sentia preparada pra sofrer aquele baque quando todos a olhavam dizendo que "sim, ele vai morrer."?
Chamou ela e somente ela na cabana onde estava sendo deixado sob cuidados.
- Eu fiquei preocupada com você.
- Eu sei. – ele olhou em outra direção.
- Está doendo muito?
- Melhorou agora. Kagome...
Ela virou a cabeça pro lado e lágrimas surgiram em seus olhos.
- Sabe, eu não quero ouvir.
- Kagome. – sua mão foi direto no rosto dela, de uma maneira delicada e gentil, virando-o pra que ele pudesse vê-la direito. Ela corou e permitiu-se chorar.
- É sério. Estou bem assim. Eu prefiro imaginar que você vai estar melhor amanhã. Eu prefiro acordar e te ver feliz porque agora não existem mais preocupações. Eu prefiro mil vezes acreditar nisso, Inuyasha! Acreditar que vai ficar tudo bem.
Ele deu sua risada característica. Um tanto fraca e baixa. Quase um sussuro.
- Você fala demais. Eu não vou dizer que vou morrer. Eu não vou morrer, Kagome.
Ao ouvir aquilo deu um levíssimo sorriso. Mas não deixou de ficar curiosa sobre o que ele teria a dizer. Talvez ela realmente falasse demais, pois já estava prestes a questioná-lo quando ele abriu a boca novamente.
- Tem algumas coisas... Que eu sempre senti que deveria lhe dizer. Kagome...
- Também não quero ouvir isso. – falou ela, bruscamente.
Se levantando um pouco e elevando a voz, ele rebateu, irritado. Até onde a sua irritação com relação a ela poderia chegar. Não muito.
- Você não sabe o que eu vou dizer! Quer parar com isso?!
- Não faça assim, Inuyasha! – abaixou seu torso devagar, acomodando mais uns apoios para a cabeça dele. – Pode abrir seus ferimentos, você sabe!
- Então me deixe terminar.
Com um pouco de receio, ela consentiu. Mas sabia que aquela conversa seria dolorosa. Seria a mais dolorosa de todas. Quão doloroso é escutar do homem que você ama e que está morrendo que ele gosta de outra?
- Você e Kikyou nunca serão a mesma pessoa pra mim.
O olhar dela ficou baixo. Iria admitir que no seu íntimo ainda tinha esperança que ele dissesse que ela era tão boa quanto Kikyou. Mas a maior parte de si acreditava que ele iria morrer dizendo o quanto amava a outra. Que coisa. Mas ELA quem era a outra. A metida da história.
- Na verdade – ela foi tirada de seus pensamentos e ficou atenta ao que ele ia dizer – eu não acho que deveriam comparar vocês duas.
- Mas você fez isso, Inuyasha. Achei que ainda fizesse.
- Não. Não mais.
Ela olhou fundo nos olhos dele. Pra sua surpresa, ele reassumiu a palavra.
- Vocês... São parecidas. Mas é diferente! Você é mais jovem...
Ela riu e interrompeu.
- Dois anos, Inuyasha! Isso não é nada.
- É sim! Mas eu não quis dizer isso... Eu... Acho que eu aprendi coisas diferentes com você. Coisas diferentes das que eu aprendi com Kikyou. Eu não sei porque foi tão difícil pra mim separar vocês duas. Eu queria entender...
Ele chorou. Ele tinha começado a chorar. E Kagome não considerava isso bom. Significava que ela não poderia mais chorar, tinha que ser forte. Tinha que ser forte por ele. Tinha que escutar até o final, mesmo que no final ele dissesse que amava Kikyou. Na verdade, ela já não se importava.
- Eu queria entender – continuou ele retomando sua atenção – porque você veio. Porque as coisas precisavam ser assim. Eu queria entender... Kagome...
A expressão dele naquele momento era a coisa mais magnífica que ela já havia visto. Ele estava sorrindo entre as lágrimas. Era um sorriso de alívio. Inuyasha nunca tinha sentido aquilo. O sentimento de quem descobriu algo muito importante. Não era o sentido da vida, não era nada impessoal.
- Kagome... Eu desisto.
Ela não podia ficar mais curiosa e interrogativa que aquilo. Foi quando ele estendeu os braços ao longo do corpo, se entregando, sorrindo de leve. E quando mais uma lágrima rolou ele concluiu.
- Eu amo você.
Quase se esqueceu que ele estava extremamente ferido e sensível. Abraçou-o com força demais. Beijou suas bochechas, seu rosto, sua testa. Inuyasha sorria como ela não via há tempos. Pegou seu rosto com as duas mãos e eles encostaram os narizes.
- Inuyasha... Eu sei que você nunca vai esquecer Kikyou. Eu pensava que não tinha espaço pra mim.
Ele fez uma cara interrogativa. Alisou uma mecha do cabelo dela.
- Idiota... Pensei que você soubesse.
- Como eu poderia saber, Inuyasha?! Você nunca disse que gostava realmente de mim. Eu sempre vivi nas suposições...
- Eu não to falando disso!
- Oras, mas o que é, então?
Ele riu. Girou os olhos nas órbitas, com uma cara de impaciência resignada e apoiou a cabeça dela em seu ombro, obrigando-a a deitar ao seu lado.
- Só preciso que você fique aqui comigo.
Ela deitou-se tomando cuidado para não encostar nas bandagens e olhou para ele. Seu sorriso era zombeteiro. Parecia que havia entendido algo que fugia ao seu raciocínio. E isso a deixava confusa. Ela sempre tinha sido mais perceptiva. O que ele compreendia que ela não havia conseguido captar?
- O que é?
Ele continuou a alisar os cabelos dela, uma outra mão usava de apoio para a cabeça.
- É que não se trata de mim. Não se trata de Inuyasha, não se trata de Kikyou ou Kagome. Agora durma.
Ela obedeceu. Normalmente, teria puxado o cabelo dele e exigido que ele dissesse exatamente sobre o que estava falando. Mas Kagome não havia entendido absolutamente nada. Tanto que não sabia o que questionar. Dormiu inquieta, cheia de pensamentos. Mas quando acordou estava sozinha. O sol ainda não tinha saído, mas estava prestes. Não foi difícil encontrá-lo, era só seguir o rastro de sangue. Ela se lembrou de perguntar quando a sua angústia teria um fim. Esnobou a Kagome que achava que tudo estaria resolvido com a morte de Naraku.
- Inuyasha! - Ela correu. Já sabia aonde ir. Aquele era o local onde ele iria querer morrer. O local onde tudo começou, terminou e começou outra vez. O desespero não deixava de existir. E se ele tivesse ido a outro lugar; e se ele tivesse sido orgulhoso e pedido pra Kirara levá-lo pra um lugar distante, preferisse morrer longe de todos. Isso até fazia o estilo dele. Mas Kagome não ia acreditar nisso.
Ele estava encostado, cabeça baixa. Quando ouviu seu nome vindo de tão perto, acordou. Já tinha perdido muito sangue. Estava incrivelmente pálido e muito gelado. Kagome passou o braço por debaixo do dele a fim de erguê-lo e levá-lo de volta.
- Vamos, Inuyasha! Você não pode ficar aqui, sozinho, sem cuidados! Será que você não se cansa?!
Ele olhou pra ela, sério. Sua expressão a mandou ficar ali e aguardar. Ele parecia uma estátua, tinha congelado naquela posição. E ela não cansava de admirá-lo, poderia ficar olhando-o por muito tempo. Não se cansava. Ele gemeu e abaixou a cabeça bruscamente, sentindo dor. Kagome percebeu que suas pernas estavam vermelhas. Ela estava sentada numa poça enorme. As lágrimas afloraram novamente porque ela teve a mais absoluta certeza que ele não iria resistir. Ele encontrou forças pra puxar sua nuca e eles ficaram muito perto. Muito, muito perto. Mas ela não queria aquele beijo, não queria um beijo de despedida e mesmo assim tinha sido o melhor de toda a sua vida. Inuyasha soltou a cintura dela e o pescoço. Seus braços tombaram e ele caiu, ainda respirando, no colo dela.
- Inuyasha...
Ela não iria mais gritar o nome dele como se estivessem numa luta, onde ele ainda tinha chance de sacar a tessaiga e matar youkais com um só golpe. Ela dizia o nome dele com saudade. Uma saudade prematura. Tinha aceitado o que iria acontecer. Não foi tão difícil assim. Afinal, ela sempre teve de abrir mão dele. Já não importava mais. Estava satisfeita em lembrar da conversa de horas atrás. Apesar de tudo, ela estava feliz, porque aquilo era o mais próximo dele que ela jamais esteve. Uma lágrima sua caiu no rosto de Inuyasha, ele usou suas últimas forças para olhar nos olhos dela.
- Kagome... Ainda não acabou.
Ela sentiu o corpo dele pesando um pouco mais em seus braços. E chorou como nunca naquele dia.
