Capítulo 4

Quatro prédios enormes, cor de vinho. A Universidade que Kagome escolhera era, definitivamente, ótima. Uma das melhores do país.

E justamente por ser uma instituição tão renomada que amedrontava tanto a menina. Kagome dormiu duas horas mais tarde do que deveria e acordou uma hora mais cedo do que previra. Simplesmente não conseguia se concentrar em descansar. Colocou roupas comuns e lembrou-se de como seria estranho usar suas próprias roupas no lugar de um uniforme. Mas achou que iria curtir diversificar todos os dias.

Estava um pouco frio e ela colocou um jeans surrado com uma blusinha branca e um casaco fino e azul. Olhou seus cabelos no espelho, estavam molhados e escorridos nas costas. Secou-os pacientemente, afinal teria muito tempo pra se arrumar e isso tirava seus pensamentos ansiosos de campo. Por último, passou um protetor labial e pendurou o colar da Shikon no pescoço, escondendo-o debaixo da blusa e do casaco.

- Prontinha! – disse ela, olhando sua imagem orgulhosa. Ser aceita na universidade iria mudar sua vida. Já estava mudando, por sinal. Ela se sentia mais leve, os meses que passara na Era Feudal tinham se tornado apenas lembranças doces. Inuyasha era só uma lembrança. Era só passado. Ela havia crescido, inclusive fisicamente. Detestava pensar sobre o assunto, mas ficara ainda mais parecida com Kikyou, era inegável. Nessas horas ela olhava bem fundo nos seus olhos azuis e recordava: "vocês são diferentes." Palavras dele.

Kagome sorriu. Estava na hora de começar a viver de novo.

A Universidade estava lotada de calouros como ela e logo foi tratando de se achar. De cara encontrou um amontoado de estudantes tentando ver seus nomes em listas fixadas na parede. Não tinham muitos, pois ela havia chegado cedo, mas sua altura não ajudou muito na hora de entrar no meio das pessoas.

Quando finalmente descobriu onde seriam suas aulas ouviu uma voz familiar se aproximando.

- Higurashi! Ei, Higurashi!

Quando se virou deu de cara com ninguém mais, ninguém menos que Houjo. Sempre com a típica expressão feliz no rosto. Ela não conseguia se lembrar quando ele tinha tentado a admissão na mesma instituição que ela, mas ficou satisfeita por ver um rosto conhecido.

- Houjo-kun! O que você veio cursar aqui? Não me lembrava de você ter dito nada sobre isso!

- Ah! – Ele passou a mão nos cabelos de leve, meio sem jeito. – Eu queria entrar em outra Universidade, mas tinha tentado pra essa daqui também. Vou cursar Engenharia!

- Que ótimo! Era o que você queria, não?

- Sim! E fico ainda mais feliz por estudar perto de você de novo, Higurashi.

E sorriu. Aquele sorriso que ela conhecia desde sempre. Porque ela não se apaixonava por Houjo? Era um completo mistério. Por um momento pensou em ela mesma convidá-lo pra sair no fim de semana. Mas não poderia. Ele parecia mesmo estar interessado, apesar de ter saído com umas duas outras garotas depois que Kagome o dispensou pela milésima vez. Os comentários que ela ouvia era que ele ainda nutria a devoção de sempre por ela. Limitou-se a sorrir e desviar o foco dele.

- É bom mesmo encontrar um rosto conhecido. Bom, eu vou indo pra minha sala, tudo bem? A gente se encontra depois!

- Ah... Tá certo. Boa aula, Kagome!

Ela foi andando, andando, o corredor parecia não ter fim. A sala 39 era só um sonho distante. Mas sabia que estava apenas exagerando, há apenas alguns metros estava a sua porta. Quando colocou a mão na maçaneta ouviu um resmungo engraçado vindo de uma outra voz também familiar. Essa, ela não conseguia distinguir.

- Meh! Explique só porque raios eu não posso começar de onde parei?! Não faz sentido iniciar meus estudos de novo quando eu já sou bastante adiantado nas matérias! Me recuso a perder meu tempo!

Ele estava de costas, falava ao telefone muito rápido e analisava furioso uma lista de nomes que na certa deveria conter o seu. Por um momento ela pensou... Antes de se virar. Mas ele tinha cabelos pretos demais, curtos demais. Quando ficou de frente ela pode ver seus olhos. Cor de violeta. Um roxo vivo, que ela já sabia ter visto em algum lugar. Mas era roxo demais.

Ele era lindo demais.

Mas arrogante.

- E você, garota?! O que tá olhando?

Kagome olhou pra ele irritada e virou a cara. Depois de falar com Houjo, encontrar esse menino era como dar de cara com a falta de educação em pessoa. Havia aprendido que ignorar era a melhor saída nesses casos. Infelizmente não conseguia ter "classe" o suficiente pra olhar com cara de indiferença total. Não, ela era Kagome. Não sabia disfarçar muita coisa. Mistério estava longe de ser o seu sobrenome. Ainda ouviu o garoto resmungar algo como "idiota", mas não ligou muito, já estava dentro da sala 39. Mesmo escolhendo um lugar bem no meio, continuava a ouvir os gritos do garoto.

Que belo jeito de se dar as boas-vindas a uma caloura.

20 de junho, 2002.

"Eu acabo de descobrir que nasci pra essa profissão. Ser arquiteta, quero dizer. É tudo o que eu poderia desejar de uma ocupação! E que ocupação. Só hoje eu tenho cem páginas pra ler até quarta, dois trabalhos e alguns "desenhos". Não vai ser nada fácil. Mas vai ser ótimo manter minha cabeça ocupada.

Eu não conseguia mais morar no templo e não me lembrar de tudo. Aliás, se eu for parar pra ler tudo o que eu escrevi nesse diário vou notar que nos últimos três anos minha vida se resumia a tentar esquecer o que eu vivi. Era estudo e mais estudo. Me tornei a melhor da classe. Parece que as desgraças me estimulam tanto quanto as vitórias. Quando que eu sonharia em entrar pra Toudai?

Hoje aconteceu uma coisa engraçada. Eu não queria escrever sobre isso aqui porque eu vivo relendo essas drogas e agora quando eu reler vou me lembrar e... Enfim. Encontrei um garoto hoje. Ele não me parecia normal de tão lindo e arrogante. Falava ao celular de um jeito agressivo e bem. Ele me lembrou Inuyasha. Eu sei que é ridículo porque se eu parar pra pensar quantos garotos existem por aí que são chatos, ignorantes e resmungões? O que falta em mim é um pouco mais de desapego. Eu não posso olhar pra todos os meninos e ver um resquício de Inuyasha em todos eles!

Esse foi o discurso que eu resolvi aderir. O mesmo que as minhas amigas passaram tanto tempo martelando na minha cabeça. Foi osmose, só pode.

Bom, como esse garoto falava muito alto deu pra ouvir mais ou menos como era o drama dele. De início pensei que ele já estudasse lá, mas ao que me pareceu ele estava sendo transferido. E por isso não queria começar tudo do início. Assim, faz sentido, mas ele não conseguia articular nenhuma justificativa plausível além das óbvias, sem falar que era uma falta de educação sem fim.

Mas eu não deveria perder meu tempo falando sobre ele, mas sim sobre os amigos que eu já consegui fazer hoje. Foi meio assustador entrar numa sala sem conhecer ninguém e ainda por cima dar de cara com tantas pessoas diferentes de você. Eu já tinha sido avisada, mas é bem estranho reunir americanos, franceses, ingleses, chineses... Todos numa mesma sala, com diferentes culturas, de diferentes partes do mundo. Me dei bem com todo mundo, deu pra trocar umas palavras com alguns deles, apesar das aulas serem bem puxadas. Os intervalos de algumas delas são bem espaçados.

Não tive nenhuma aula comum com o Houjo, mas nos encontramos algumas vezes. Eu estava com uma menina, a Zhang, praticamente o tempo inteiro. Deu pra perceber que ela gostou bastante dele.

Se é que deu pra me entender... Haha.

Pela primeira vez na vida, meu grupo tem uma maioria de homens. Somos eu, Zhang e Samantha contra Hideki, Éric, John e Kayri. Quanto ao garoto 'não-mexam-comigo', só o vi de novo uma vez, com cara de poucos amigos, cruzando os corredores. Ele pareceu só ter assistido o início das aulas."