Observações da autora: Bom, pra vocês que estão lendo a fanfic, a partir deste capítulo eu começarei a usar pensamentos de personagens. Eles serão indicados pelas aspas + itálico.
Esqueci de dizer nos capítulos anteriores, mas a história é escrita na terceira pessoa com narrador onisciente, ou seja, vou usar e abusar de discursos indiretos livres! Sejam espertinhos para notá-los, ok?
Quando vocês perceberem uma data em negrito e itálico saberão que se trata do diário da Kagome. Eu gosto de usar esse recurso pra que vocês tenham uma noção de quanto tempo se passa entre um acontecimento e outro e também pra que vocês possam entrar ainda mais no universo da Kagome.
Respondo reviews sempre no final de cada capítulo. Agora vou passar a postar um de cada vez.
Tenham uma boa leitura!
Capítulo 5
- Eu sei que você gosta dele, poxa! Pare de tentar enganar a gente!
- Cala a boca, Sam!
Kagome riu. Estava fazendo isso com muita freqüência nos últimos dias. Seus novos amigos eram realmente divertidos. O passatempo da vez era brincar com Zhang tentando fazê-la assumir que gostava de Houjo. Ela corava na hora e ficava com uma expressão muito engraçada. Sam gritava enquanto Zhang pedia para que pelo amor que ela tinha a si mesma parasse de falar aquilo!
Era engraçado como Kagome não se sentia a pessoa mais madura do mundo brincando disso, mas afinal, estavam entre garotas.
- Então – Sam sacudiu os longos cabelos castanhos com ondas envolvendo sua cintura – vocês já sabem de quem a Zhang é a fim, já sabem de quem eu sou a fim e agora só falta a Kagome!
Sentiu sua cabeça virar involuntariamente, uma risadinha nervosa saiu desajeitada. Sam sempre tinha que dar um jeito de tornar a conversa constrangedora.
- Ora, Kagome! Não seja antiquada... Zhang já admitiu qu...
- Eu não admiti NADA, Samantha!
Era inevitável não rir. Zhang bem que tentava falar sério pra que Sam parasse de uma vez de enchê-la. Mas não conseguia. Ela ria descontroladamente logo depois de concluir qualquer frase. Kagome agradeceu por ver os quatro meninos se aproximando rapidamente. O foco da conversa seria desviado! Eles ficavam ainda mais lindos todos juntos. Esse pensamento deixou-a nervosa. E não era porque ela estivesse apaixonada por um deles, era justamente porque nenhum deles a interessava. Com Houjo, tudo bem. Ela poderia colocar a culpa no fato de que ele era um só. Mas ali ela tinha à disposição quatro exemplares totalmente diferentes da "raça" masculina.
Hideki e Kayri eram até parecidos fisicamente por serem ambos japoneses. Os dois eram branquinhos e com cabelos pretos e lisos. Mas Kayri fazia o tipo brincalhão, crianção. Era filho de médicos muito renomados que não levavam sua escolha de profissão muito a sério. Obviamente, queriam que ele seguisse a carreira dos pais. Algumas vezes Kagome achava que Kayri tinha que levar a vida daquele jeito pra não enlouquecer com a pressão da família. Ele praticava tênis e jogava muito bem, além de cultivar um cabelinho espetado pra todas as direções bem fofo.
Hideki era o típico garoto sério. O genro que a sua mamãe pediu a Deus. Andava sempre engomadinho, cabelinho curto, óculos de grau. Ela era do tipo que comia quieto. Kagome gostava do modo como ele falava como se estivesse dando uma aula de física o tempo inteiro. Ele também era daqueles que conduzia assuntos sobre filmes e livros polêmicos, era bem culto. Até que John chegasse e interrompesse a conversa falando alguma coisa sobre a nova música de três frases que ele criou semana passada.
Johnny era o mais novo. Era canadense, mas não cultivava muito a cultura de lá por ter sido criado quase que totalmente no Japão. Apesar disso qualquer pessoa diria que ele é estrangeiro só de bater o olho. Os cabelos eram grandinhos, loiros, sem corte algum. O olho muito claro e a pele sofrida de sol o dia inteiro. Ele vivia tomando sol porque fazia natação desde... Sempre. Ele era de uma banda. Tocava baixo porque dizia que era o único instrumento que apesar de ser essencial não chamava tanta a atenção ao ponto de se notar quando o músico errava. Ele era um cara engraçado e até que poderia ser um bom namorado se não fosse tão bruto e imaturo. Meio que o oposto de Éric.
Éric era o francesinho lindo. Kagome diria que teria mais chances de se apaixonar por ele. O cabelinho ruivo, curto, as sardas e os olhinhos acinzentados dando um ar de romantismo incurável. A primeira impressão que se tinha de Éric era a certa. Ele amava literatura, sabia poemas de cor, tinha o sotaque francês característico e tratava todas as pessoas, independente de qualquer coisa, bem. Era gentil, sempre emprestava dinheiro sem nunca cobrar depois e era muito prestativo. Kagome sentia que poderia sempre contar com ele pro que quer que precisasse. De fato, uma vez ele foi até a Toudai muito tarde da noite só pra trocar um dos pneus do carro dela, furado de propósito por algum desocupado. Ele ainda a fez prometer que nunca mais ficaria até àquela hora estudando e acompanhou-a para garantir que chegaria segura em casa.
Sam, Zhang e Kagome estavam definitivamente bem servidas no quesito "amigos homens".
Os quatro se aproximaram, sempre rindo. As três meninas sorriram pra eles, acenando. Era um grupo que chamava a atenção por ali. Ter um grande número de amigos era sempre raro numa Universidade que priorizava tanto a competição.
- Bom dia – começou Johnny sem a menor entonação de quem realmente desejava aquilo - eu deveria estar treinando agora, já mencionei?
- Se estar na água realmente te faz tanta falta, tem um bebedouro ali na esquina. – Kayri sempre estava ali pra amenizar.
Kagome deu uma piscadela pra Kayri enquanto Éric dava um beijo na testa de cada uma delas e sentava ao seu lado. Ela tentou animar Johnny.
- Vamos, lá, pirralho. Não é porque o peixinho está sem água por um dia que ele vai ficar com essa carinha mal humorada! – Kagome começou a apertar as bochechas dele, esticando pra todos os lados. Éric e Kayri seguravam o riso – Coisinha fofa da Kagome!
Hideki bateu as mãos, ansioso, na mesma hora que John ia rebater.
- Pois é, baby, tá mais que na hora da gente começar esse trabalho. Que acham?
John se irritou ainda mais quando ouviu o apelido que ele menos gostava no mundo. Mas desistiu de falar alguma coisa e sentou-se junto às garotas no banco do pátio, cruzando os braços e fazendo bico. Kagome alisava o cabelinho loiro dele, era como seu irmãozinho mais novo, Souta, só que um pouquinho maior e com um cheirinho eterno de cloro. Eles se gostavam muito, e ela seria a primeira a conseguir fazê-lo sorrir naquele dia. Era meio que de praxe.
O trabalho que eles deveriam fazer era longo e demorado. Consistia em montar um vídeo com trilha sonora, mostrando desde o prédio mais antigo da cidade até as construções mais recentes, tudo na ordem correta e com um ritmo ajustado. Hideki tomou a frente, pedindo pra que Zhang anotasse todas as idéias que eles tinham, primeiramente, de lugares a filmar e depois sobre quais músicas encaixar em cada momento. Com Hideki ali pra manter o foco do grupo, era fácil fazer um roteiro decente em menos de duas horas. Decidiram deixar o resto pro dia seguinte. Johnny saiu apressado, na certa, procurando a piscina mais próxima. Hideki, Kayri, Zhang e Éric foram com Kagome até a biblioteca estudar um pouco para um teste importante.
Kayri sentou-se do lado de Kagome, numa mesa grande. Éric estava ao lado dele e Hideki sentou-se na cadeira da frente junto à Zhang, parecendo muito concentrado numa leitura sobre História da Arte. Kagome mantinha os olhos fixos no livro, mas não deixou de notar um movimento na porta da biblioteca e um resmungo surdo de Kayri em seguida. Inevitavelmente ficou curiosa e perguntou, ainda com os olhos no livro.
- O que foi que aconteceu? Você disse alguma coisa? – sussurrou ela, sob os olhares de reprovação de Zhang e Hideki.
Kayri estava com a cabeça levantada, parecia olhar algo e bateu o cotovelo no de Kagome, fazendo com que ela levantasse o olhar também.
- Olha.
Éric também prestou atenção. Kagome gelou quando viu ninguém mais ninguém menos que o tal menino de olhos violeta. Ele estava cercado por uns cinco amigos, todos eles vestiam uniformes de tênis da Universidade. Por um instante, Kagome encontrou o olhar do garoto que retribuiu fechando ainda mais a cara e passando direto por eles. Seus amigos lançaram olhares agressivos pra Kayri e a expressão interrogativa de Kagome e Éric pedia uma explicação.
- São aqueles jogos de quadra. Vocês souberam, não?
- Claro que soubemos, agora calem a boca e estudem. – interrompeu Hideki.
Os três abaixaram as cabeças e se entreolharam em seguida. Recomeçaram a conversa num tom ainda mais baixo.
- Você participa dessas partidas? Porque não contou?! – perguntou Éric ligeiramente ofendido.
- Eu estou pensando em faltar os jogos. Não quero confusão com essa turma e eles vêm me lançando uns olhares assim de uns dias pra cá.
Kagome mostrou-se indignada.
- Eu não acredito que um idiota desses vai fazer você desistir de jogar!
- Shhhhh! – protestou Hideki, em vão. A conversa continuou como se não tivesse fim.
- Eu não vou desistir por causa deles... – argumentou Kayri amedrontado com o tom de voz de Kagome – De qualquer forma, nosso curso não tem a tradição de jogar, muito menos a de ganhar.
Kagome e Éric lançaram olhares do tipo "você-sabe-que-está-inventando-desculpas", Éric tomou a palavra.
- Kayri, sinceramente... – com uma das mãos apoiando o queixo ele balançava a cabeça em tom de reprovação – Você sabe que joga tênis como ninguém. Só não vai pras Olimpíadas de verdade porque não quer! Eu me recuso a ver o meu amigo afrouxar desse jeito. E você, Kagome?
Hideki levantou bruscamente, puxando Zhang pelo braço e os três levantaram as cabeças olhando pra ele. Sabiam que haviam irritado o amigo. Kagome interviu.
- Desculpa, Hideki-chan. Sério.
A expressão dele se abrandou e conseguiu até esboçar um sorriso discretíssimo. Nada como desarmar a raiva de alguém com desculpas sinceras.
- Tudo bem, Kagome. Eu vou me sentar com a Zhang em outro lugar, não é, Zhang-chan?
Ela apanhou seus livros e balançou a cabeça afirmativamente.
- Tchau, gente.
Éric, Kagome e Kayri ficaram observando os dois. Kagome não tinha certeza se todo mundo havia notado, mas Hideki parecia estar interessado na Zhang, apesar dela não perceber nada e negar veementemente toda vez que Sam insinuava coisas desse tipo. "Engraçado como a gente demora a notar quando a coisa é conosco."
- Então, Kayri? Você vai jogar, não vai? – disse Éric, voltando ao assunto – Você tá agindo como um garotinho de colegial.
- Também acho! – continuou Kagome – Afinal, o que eles podem fazer contra você? Vão te bater por acaso? Você tem que relaxar mais, o objetivo desses jogos é integrar os alunos novos... Ninguém vai pra lá querendo arrumar briga, Kayri!
- E mesmo que eles venham pro pau, Kagome! – exaltou-se Éric – Somos quatro homens fortes e musculosos. – e ele fez uma pose hilária de halterofilista – Eles que deveriam sentir MEDO da gente, isso sim.
Kayri ia responder quando o mesmo grupinho de antes passou por eles lançando os mesmos olhares mal humorados. Dessa vez o garoto de olhos violeta encarou Kagome por um longo tempo, até seus amigos perceberem e ela resolver responder.
- Perdeu alguma coisa aqui? – falou, cruzando os braços.
Houve uma pequena comoção no grupinho deles. O menino virou-se completamente em direção a ela, mas não avançou um centímetro. Ficou olhando com uma expressão vitoriosa de quem tinha conseguido exatamente o que queria. O silêncio já estava ficando constrangedor de verdade, quando Kagome, por impulso, retomou.
- Meu amigo aqui vai jogar contra você – e apoiou um cotovelo no ombro de Kayri que conseguiu manter a pose e olhar para o grupo, sério.
O garoto olhou para Kayri rapidamente e tornou a olhar para Kagome. Ele parecia não se importar se seu amigo iria jogar ou não. Na verdade, parecia que esse interesse só dizia respeito aos seus próprios amigos. Um desses puxou seu braço de leve.
- Vamos embora, Ichiro, não tem nada aqui pra gente.
Eles se foram.
18 de julho, 2002.
"Não acordei muito bem hoje. Acho que foi pelo que aconteceu ontem. E pelas idéias que eu comecei a ter depois.
Me encontrei com o tal garoto de novo, dessa vez foi na biblioteca e eu descobri que o nome dele é Ichiro. Foi a coisa mais estranha do mundo. Kayri me contou que vão ter uns jogos agora de início de ano. Ao que parece eles vão jogar juntos. Daí que eu estava quietinha na biblioteca, estudando, quando eles chegam de repente. O garoto e mais um bando de brutamontes mal humorados! Me irritou muito o fato dele ter me encarado ao ponto de me deixar irritada. E quando eu demonstrei isso, ele riu, se deu por satisfeito e foi embora!
Eu prestei mais atenção nele dessa vez. Eu tentei tirar isso da cabeça, não achava que seria possível. Mas ele realmente se parece muito com Inuyasha. Fisicamente falando. Eu mal me lembro da forma humana dele. Mas o que eu lembro estava presente nesse menino, Ichiro. Os mesmos olhos grandes e roxos. O mesmo cabelo preto, embora curto demais. Eu acho ridículo pensar na hipótese de um ser a reencarnação do outro. Não faz sentido isso acontecer agora. Não quando eu finalmente começo uma vida nova.
Acho melhor eu parar de uma vez com esses delírios. Eu acho que eu quero tanto que ele volte pra mim que fico me apegando a toda e qualquer possibilidade de isso acontecer. Mas não vai. Eu tenho que começar a aceitar esses fatos. Eu tenho que começar a abrir meus olhos.
Acorde, Kagome Higurashi."
Naquele dia em especial, Kagome estava exausta. Já faziam umas boas três semanas que as aulas haviam começado, mas eram tantas coisas pra dar conta que ela virava noites sem nem perceber. Não havia mais tempo nem pra dar alguma notícia à família. Morar sozinha não era nada fácil. Ela sempre pensou que seria ótimo poder ter esse tipo de liberdade, mas na verdade era um pouco solitário. Sua sorte era ter feito muitos amigos na universidade. Eles eram os grandes responsáveis por alegrar seus dias da mesma forma que acontecia como quando era o colegial e ela tinha só três amigas. E Houjo.
Kagome dormiu até tarde, mas acordou decidida a começar um trabalho que havia sido passado no dia anterior. Olhou pela janela. O clima estava ensolarado então ela tomou um banho demorado – coisa que não fazia já há algum tempo – e vestiu seu short jeans mais surrado com uma blusinha branca listrada de cinza. Penteou os cabelos num rabo-de-cavalo já que eles estavam num comprimento insano indo além da sua cintura. Tentou puxar as duas insistentes mechas que caíam frontalmente e que se recusavam a prender-se ao penteado ou mesmo ficar atrás de suas orelhas. Desistiu logo. Calçou o primeiro sapato que viu: uma sapatilha azul cobalto. Pegou sua câmera digital e colocou um relógio branco no pulso. Eram duas da tarde, ela havia dormido bastante afinal de contas. Não sentia fome alguma de forma que se contentou em passar numa cafeteria e pedir uma bebida gelada pra enfrentar o sol. Na realidade, nem estava tão quente. Ela poderia ter vestido sua jaqueta caramelo se quisesse. Como decidira ir andando não voltou pra casa só atrás disso. O que ela planejava fazer hoje era bem simples. Iria somente até o parque mais antigo da cidade pra filmar um pouco e tirar algumas fotos. Pra ficar mais interessante, ela tinha combinado com seu grupo de filmar em movimento. Ia ser meio esquisito pra quem estivesse por lá ver uma garota correndo em volta da estátua central com uma câmera na mão. Kagome não pretendia ligar muito.
O parque estava mais vazio que o usual. Haviam pequenos grupos de duas ou até quatro pessoas conversando, apreciando sorvetes e milk-shakes, contando piadas divertidas. Kagome começou o trabalho. Tirou algumas fotos mais artísticas com pedestres aparecendo ao fundo. Depois partiu para a filmagem. Não era tão difícil conseguir uma imagem boa mesmo estando em movimento. Ela deu a volta na parte central, depois fez uma sequência focando no chão e em seguida, erguendo a câmera para cima.
- Isso tá ficando muito bom – falou Kagome mais pra si mesma – Hideki vai adorar!
Ela erguia a câmera para o alto e foi abaixando-a lentamente quando as lentes focaram uma forma conhecida.
A primeira coisa que ela viu foram os orbes cor de violeta dele. Seu coração deu um pulo sem que ela ao menos percebesse. Seu rosto corou quase que instantaneamente. Ela se lembrou do último encontro deles, no dia anterior e envergonhou-se. "Eu não deveria ter dito aquilo! 'Meu amigo vai jogar com você' o que é que deu em mim?!" Depois do susto inicial, Kagome recobrou a calma. Ele ainda não tinha avistado ela e parecia estar esperando alguém. Aliás, ele só poderia estar fazendo isso. Kagome sabia que ele não cursava arquitetura, logo, não deveria estar fazendo o mesmo trabalho que ela.
Ela parou de filmar. Ficou parada ali observando ele. Não sabia explicar porque ficava naquele estado quando via o garoto. Ele não tinha nada demais. Estatura mediana, cabelos pretos e lisos, num corte moderno. Roupas comuns: calça, tênis, camiseta... A única coisa de diferente era a cor dos olhos. Kagome sabia que nunca tinha trocado mais de uma dúzia de palavras com ele e por isso não conseguia explicar o efeito que exercia sobre ela. Começou a se achar meio ridícula parada ali, só olhando ele tomar um sorvete que parecia muito gostoso.
"É, gostosos. Os dois."
Afastou esses pensamentos balançando a cabeça rapidamente e quando abriu seus olhos, Ichiro a olhava visivelmente intrigado.
Eles pararam por um tempo, estáticos. Passaram-se vários segundos até que a coisa toda começasse a ficar constrangedora. Mas Kagome viu algo mudar na expressão dele. Um sorriso? "Oras, ele está sorrindo pra mim?" Kagome resolveu dar um leve aceno com a mão direita e quando estava na metade do gesto ouviu seu nome vindo de perto, se aproximando. Duas vozes diferentes falaram ao mesmo tempo.
- Kagome!
- Zhang!
Ela se virou já meio confusa. Zhang vinha em sua direção carregando uma câmera digital assim como ela. Esta sorriu para a amiga que retribuiu com um abraço. Foi tudo muito rápido porque quando Kagome se virou para onde estava Ichiro ele já tinha parado bem atrás dela esboçando um largo sorriso. Ele falou com Zhang.
- Você já terminou por aqui? Podemos ir agora?
- Um pouco mais de calma, Ichiro. – falou Zhang ligeiramente irritada – Ainda falta ir naquele novo prédio atrás do Hospital.
- Hunf – resmungou o garoto girando os olhos nas órbitas – então prometa ser rápida.
- Idiota – rebateu Zhang já olhando o resultado de suas fotos na câmera – não costumo fazer minhas coisas às pressas que nem você! Vai levar o tempo que tiver que levar... A propósito, essa é minha amiga, Higurashi Kagome. Ela estuda comigo.
Ichiro olhou pra Kagome com uma expressão apaziguada. Estendeu a mão educadamente e até conseguiu sorrir um pouco, meio de lado.
- Masagami Ichiro. Muito prazer em conhecê-la, Higurashi.
Kagome não teve certeza, mas achou que a ênfase no "conhecê-la" só tinha sido notada por ela. Zhang continuava a examinar as fotos com cuidado, sem dirigir o olhar para os dois. Kagome apertou a mão de Ichiro e sorriu de uma forma encantadora que só ela conseguia fazer.
- O prazer é meu. – ela procurou desviar os olhos dele e se dirigiu à Zhang – Então, vocês são amigos? Não sabia que se conheciam.
- Ah! – Zhang levantou a cabeça distraída – Eu nunca mencionei que tinha um irmão mais velho?
Kagome parou estática tentando lembrar se ela havia deixado escapar algo que Zhang tinha dito anteriormente. "Ele é irmão dela. Ele é a porcaria do irmão dela!" Não. Não tinha perdido uma única frase das conversas com sua amiga. Ela simplesmente não tinha mencionado. "Não, Zhang, você não teve a chance de mencionar porque quando você poderia ter feito isso o idiota do Hideki te levou embora!"
- Kagome? – ela deu um susto na amiga, tirando-a de seus pensamentos – Eu esqueci de falar não foi? – Zhang riu, sem jeito – Desculpa, mas a gente ainda sabe pouco uns dos outros, afinal não faz nem um mês que as aulas começaram!
Kagome tentou retomar o fio da meada. Ela realmente não estava preparada pra uma situação dessas. Como ela poderia supor que o idiota arrogante era irmão de uma garota doce como a Zhang?! "Mas tem alguma coisa errada..."
- Você não é chinesa, Zhang?
- Er... Sou sim. Por quê?
Kagome olhou bem de um para o outro. Eles de fato se pareciam fisicamente, mas...
- E você seria japonês? Daqui mesmo?
- Sim – Ichiro ergueu uma sobrancelha involuntariamente, meio irritado com a demora do raciocínio de Kagome – Claro que eu sou daqui e sou japonês. Nós estamos no J...
- É, Ichiro?! – interrompeu Zhang – Não me diga! Guarde seus foras pras pessoas que já lhe conhecem. Pode descontar em mim, eu deixo. Mas na minha amiga não! Você acabou de conhecê-la, dê um desconto!
Ele fechou a cara e virou o rosto rapidamente um pouco envergonhado. Zhang era uma das únicas pessoas no mundo que conseguia deixá-lo sem ter o que dizer. Ela sorriu pra Kagome encorajando-a a continuar o que estava dizendo.
- Er... Então. Vocês não são irmãos por parte de pai e de mãe, não é?
- Não, não. Minha mãe é chines madrasta de Ichiro. – Zhang explicava calmamente – Papai é japonês e foi casado com uma japonesa antes de mamãe. Essa seria a mãe de Ichiro.
O vislumbre de entendimento atingiu Kagome. Fazia todo o sentido as feições de Zhang parecerem menos japonesas que as de Ichiro. Ela ainda se culpava por ter dito o que disse no dia anterior e esperava sinceramente que o garoto resolvesse não mencionar. Seria ainda mais constrangedor. Entretanto ele parecia gostar de vê-la constrangida, logo, não nutria muitas esperanças que o assunto não viesse à tona. "Tenho que dar o fora daqui rápido. Uma desculpa... Uma desculpa..."
- Tive uma idéia! – Zhang falou, animada – Kagome-chan, a gente podia terminar o trabalho juntas! Não sei bem aonde você pretendia ir, mas acho que a gente pode fazer um roteiro bacana, que acha?
"Merda."
- Ah! Haha, claro! – como não havia uma desculpa prontinha esperando por ela, Kagome concordou, mas não sem antes tentar se desvencilhar – Na verdade eu só tinha planejado passar por aqui e então ir pra casa...
- Oh, não, nada disso! – Zhang cruzou os braços tentando fingir raiva – Imagine como Hideki-chan vai ficar feliz quando perceber que nós duas tiramos mais fotos do que o previsto!
- Aaaah... Er... Sim.
Parecia que só Zhang ainda não tinha percebido que, para Kagome e Ichiro, ficar juntos era totalmente embaraçoso. Talvez ele não tivesse contado nada à irmã. Talvez houvesse essa chance.
A cena era mais ou menos a seguinte: Zhang ia à frente fotografando, animada, toda e qualquer construção pertinente. Kagome tentava se concentrar e tirar algumas fotos, mas Ichiro estava ao seu lado com uma cara bem fechada. Ele soltava umas olhadas para ela de vez em quando e isso a atrapalhava ainda mais. Eles vagaram pela cidade inteira, transformando a rápida ida de Kagome à praça num tour pela cidade. O processo se tornou mais fácil com o carro de Ichiro, mas isso não deixou as coisas menos cansativas. Ele só dirigia e ficava observando enquanto elas tiravam fotos e registravam vídeos. Geralmente encostado no carro, braços cruzados, sobrancelha erguida. Kagome concluiu de vez que ele era lindo. E tentou acreditar que era só por causa disso que sentia aquelas coisas estranhas toda vez que o avistava ou que seus olhares se cruzavam.
Zhang era muito divertida, de modo que o constrangimento entre Kagome e Ichiro apagava-se rapidamente. Até aquele momento ela não tinha imaginado nada pior do que ele mencionar as pequenas palavras que haviam trocado ontem. "Tudo bem. As palavras que eu disse sozinha e recebi um olhar satisfeito em troca delas." Quando Kagome pensou que já tinha ido a todos os lugares nos quais Hideki pudesse pensar, Zhang se superou.
- Sabem, – falou ela, apagando alguma foto de sua câmera digital – bem que a gente poderia ir naquele templo antigo, que acham?
Kagome tentou não pensar no pior. Não se preocupar por antecipação. Talvez ela estivesse exagerando ao achar que poderia ser...
- Que templo?
- Aquele que tem uma árvore enorme... Um cercadinho em volta. Aliás, Kagome você não tinha me falado q...
- É. – Kagome se deu por vencida e continuou sem um pingo de entusiasmo na voz – Eu morava lá.
- Você morava num templo? – perguntou Ichiro falando pela sétima vez no dia, pelos cálculos de Kagome.
- Claro que morava! – Zhang riu do irmão – É só prestar atenção no sobrenome dela. Higurashi. Templo Hi-gu-ra-shi, entendeu?
- Também não precisa soletrar, eu já tinha entendido na primeira vez, irmãzinha.
Kagome riu discretamente da resposta dele que, por sua vez, olhou para algum ponto acima da cabeça das meninas e fez uma expressão pensativa. Era a primeira vez que Kagome o via fazer aquela cara, quando foi sincera consigo mesmo, conseguiu achar engraçado.
- Higurashi... O templo é da sua família então? – ele apontou para Kagome, mas não deu chance pra que ela pudesse responder – Eu devo ter visto esse nome por lá. Devo ter passado na frente do templo. Não me é estranho.
- Se você vive aqui muito tempo – respondeu Kagome – deve ter passado por lá sim.
Ele continuou a conversa civilizadamente para espanto das duas.
- Esse é o problema. Eu cheguei faz pouco tempo. – ele fez um olhar ligeiramente sacana que só foi percebido por Kagome quando a outra frase veio – Achei que você soubesse por ter escutado tudo da minha conversa no primeiro dia de aula.
Todo o seu corpo ficou em alerta. Kagome tentou disfarçar, mas acabou soltando uma risadinha nervosa que estragou tudo. Ele ia falar mesmo. E ela não fazia a menor idéia de como lidar com aquilo. Resolveu dentro de si mesma que não teve nada de ruim ter falado com ele daquela forma no dia anterior. Oras, ela tinha meio que desafiado ele, mas e daí? Não era como se toda a reputação dela na universidade estivesse arruinada! Seus ombros relaxaram mais com esses pensamentos e ela pode elaborar uma resposta decente.
- Bom, eu passei por você sim naquele dia, mas não deu pra ouvir muita coisa. Apesar de você estar gritando como um louco!
Zhang deu uma risada e piscou pra Kagome.
- Isso é bem típico do Ichiro. Mas na verdade ele tava só irritado porque foi transferido e não pode aproveitar as matérias que já viu na antiga universidade.
- Ooh... – Kagome soltou um murmúrio de entendimento e olhou pra Ichiro – Oras, não fique assim – ela apoiou uma mão no ombro dele que reagiu com um leve susto, como se não esperasse o toque dela – talvez você consiga aprender algo novo mesmo que esteja iniciando os estudos do início.
Eles se olharam brevemente. O mesmo choque elétrico. A mesma tensão.
- Entãããão! – Zhang interrompeu o contato visual dos dois e abraçou-os, doce como sempre – A gente vai ou não pra antiga casa da Kagome?
Os dois demoraram pouco mais de um segundo pra pegar no tranco e conseguirem responder com alguma sensatez. Kagome foi a primeira a falar.
- Er... Claro. – Kagome se animou um pouco mais com a idéia e emendou uma sugestão – Posso ligar pra minha mãe e pedir que ela prepare algum lanche pra gente! Mais fácil do que parar em algum lugar e gastar dinheiro a toa, não é?
- Meh! – Ichiro cruzou os braços e fez uma cara emburrada, Kagome pensou que ele deveria ser especialista naquilo – Se vocês não têm que gastar com comida então que gastem com gasolina. Eu to rodando desde cedo com você, Zhang, sua egoísta. Até dei carona pra sua amiga.
- Ah, mas você nem se preocupe. – Kagome falou imediatamente antes que se irritasse o suficiente pra começar a brigar de verdade com ele – Eu pago a gasolina, claro.
Zhang estava vermelha demais pra falar qualquer coisa, mas Kagome a viu dando leves beliscões em Ichiro quando eles entraram no carro. Ela direcionava olhares à Kagome que, obviamente, eram seu pedido de desculpas mudo. Kagome assentiu com a cabeça todas às vezes, sempre sorrindo, simpática.
O caminho até o templo era realmente longo. Kagome achou plausível Ichiro pedir pra que elas contribuíssem, mas não gostou da forma como ele falou com ela. "Nós acabamos de nos conhecer, oras!" Ela teria sido birrenta e pegado uma briga com ele se ainda tivesse seus quinze anos, mas depois de tudo que passou ao lado de Inuyasha ela aprendeu a entender que sempre havia um motivo pelo qual as pessoas reagiam daquela forma. Ela só não entendia se Ichiro fazia aquilo só com ela ou com todas as pessoas que via pela frente. Ela imaginava a segunda situação, mas não deixou de ficar intrigada com os olhares que ele lançava através do espelho do carro. "O que ele tanto olha, afinal? Parece tão desconfiado... Como se eu fosse fazer algo a qualquer momento."
Eles chegaram ao templo. Estava exatamente do mesmo modo como Kagome se lembrava. Estavam ali a árvore, a pequena casinha guardando o poço, sua residência e a janela do seu quarto. Voltar ali significou um pouco mais do que ela esperava. Afinal, fazia só dois meses que ela morava sozinha. Não entendia porque mesmo tendo construído dois anos de sua vida inteiros ali, sem Inuyasha, ainda se lembrava do lugar como se fosse 1999 de novo. Como se ontem ela tivesse saído do poço pela última vez e se jogado em sua cama e chorado por dias a fio. Eram sempre as mesmas lembranças. Mesmo que ela se forçasse a colocar outras em cima. "Mas não é hora pra isso." Do seu lado havia uma Zhang maravilhada. Tirando fotos de todos os detalhes da parte exterior do templo. Kagome segurou a jóia com a mão direita e sorriu para a amiga.
Ele estava olhando com uma expressão curiosa. "Porque ele tem que olhar pras pessoas desse jeito?"
Zhang puxou seu braço, ela continuou encarando Ichiro.
- Vamos, Kagome! Vamos! Deve ter muita coisa lá em cima pra fotografar!
- Ahn... – "O que esse olhar dele quer me dizer? Não está mais tão agressivo... Está mais... Curioso." – Claro, Zhang... Vamos indo.
Eles começaram a subir as enormes escadarias brancas em direção ao templo. Zhang ia à frente, rápida e empolgada. Naturalmente Ichiro e Kagome foram deixados pra trás e subiam no mesmo ritmo, dessa vez sem se olhar. Isso até ela tropeçar e sentir braços fortes segurando-a antes que tivesse tempo de pensar que ia cair. Ela se sentiu ridícula quando imaginou aquelas cenas nas quais o mocinho beija a mocinha. Claro que aquilo não aconteceu. "E porque diabos eu iria querer que acontecesse?!" Kagome ergueu a cabeça e se apoiou em seus pés novamente.
- Obrigada.
O olhar dele abaixou um pouco e por menos de um segundo Kagome pensou que talvez ele merecesse uma tapa.
- Belo colar o seu.
- Kagome!
Ela se virou e correu na direção da voz. Era a boa e velha conhecida voz de sua mãe! A ótima desculpa para se afastar daquele garoto e ao mesmo tempo esquecer as lembranças que afloravam em sua mente. A paranóia. "Ele gostou da jóia sim, e daí? Ele não vai cobiçá-la por causa disso." Cenas diferentes se passaram pela sua cabeça. Cenas de um Ichiro mau que a enganava para roubar a jóia e repetia, mesmo sem saber, uma velha história ocorrida meio século atrás.
Mas ela sabia que só estava sendo ridícula.
- Mamãe! – elas se abraçaram – Parece até que faz mais tempo que eu não vejo vocês!
Kagome olhou pro lado e puxou Zhang para apresentá-la.
- Mamãe essa é a Zhang! Minha colega de sala! – Kagome deu uma olhadela rápida atrás de si, Ichiro já estava quase chegando – Aquele ali é o irmão dela, o Ichiro.
Pouco tempo depois chegou o avô de Kagome que a recebeu com um enorme abraço. Ela apresentou todos e logo eles foram convidados a entrar. Uma Zhang ansiosa tirava fotos de todos os ângulos possíveis do templo.
A primeira pessoa que Kagome viu quando entrou na casa fez seu coração se encher ainda mais de alegria. Ele já era um mocinho agora. Estava dando comida para Buyo e quando a ouviu chegar levantou a cabeça imediatamente. A informação fora assimilada, ele sorriu. Um sorriso grande, enorme. Kagome correu os poucos metros que os separavam e deu o maior dos abraços que havia sido guardado para ele.
- Irmãzinha... Você faz falta sabia?
Kagome soltou Souta, rindo.
- Claro que não. Tudo que você fazia era implicar comigo, lembra?
Souta deu uma gargalhada e por um momento Kagome percebeu o quão grande ele realmente estava. Deveria ter seus treze anos agora. Ela puxou Zhang pelo braço e apresentou-a a Souta.
- Lembra que eu te falei que tinha um irmão mais novo? – ressaltou Kagome – E que ele parecia muito com o Johnny?
Zhang também riu e cumprimentou Souta gentilmente.
A mudança foi rápida e sutil. Mais tarde, avaliando a cena, Kagome se deu conta de que nem Zhang nem Ichiro perceberam. Mas ela viu. Ela viu Souta arregalar os olhos, aparvalhado, e tentar levar a mão à boca, parando no meio do caminho. Kagome teria adorado não ter tanta certeza do por que Souta estava daquele jeito. Mas ela sabia. Ele olhava de Kagome para Ichiro, sem saber o que pensar. Ele reconheceria Inuyasha. Ele estava reconhecendo naquele momento. Por uma última vez ele encontrou o olhar da irmã, sua cabeça balançou levemente de um lado para o outro. Atrás de todos, ele viu a mãe que estava com um dos indicadores pousado sobre os lábios, num gesto que pedia segredo. Este Kagome não viu. Só depois disso Souta voltou a interagir normalmente ainda que para Kagome ele continuasse estranho. Ela quebrou o silêncio.
- Souta, este é o irmão mais velho da Zhang. O nome dele é Ichiro.
O mais novo inclinou o corpo levemente e esboçou um sorriso.
- Prazer em conhecê-lo.
Ichiro teve mais uma oportunidade de demonstrar que pertencia a uma sociedade civilizada e, finalmente, não a desperdiçou.
- O prazer é meu.
"Mas vejam só ele está até sorrindo. E o sorriso dele até que é bonito... Kagome! Pare com isso, aaaaargh!"
- E então, crianças? – a mãe de Kagome abriu espaço entre eles com uma bandeja na mão – O que vocês acham de comerem logo o lanche que preparei, ahn?
Não havia ninguém necessariamente quieto na mesa a não ser Zhang. Aparentemente, ela já havia dado um tempinho nas fotos pelo menos por enquanto. Ichiro não parecia muito confortável e comia calado sem fazer um só comentário. Kagome cometeu o erro de sentar-se à frente de Souta e este ficava aplicando leves chutes na perna dela. Kagome sabia que ele não iria descansar enquanto não falasse com ela a sós. A Sra. Higurashi, sempre muito sensitiva, arrumou uma desculpa para que eles se ausentassem e ficou conversando com Zhang e Ichiro enquanto eles não voltavam.
Assim que a porta do antigo quarto de Kagome bateu, Souta desatou a falar.
- Eu pensei que ele nunca mais voltaria, Kagome! Você pode me dizer o que está acontecendo? E.. E... Porque ele teve de mudar de nome?! Não, não... – Souta não parecia se acalmar – Ele está muito diferente, muito mesmo! Mas eu pude ver, Kagome, é ele! Eu vi, eu vi mesmo! Porque vocês estão tão estranhos um com o outro?!
Ela suspirou, cansada só de ouvir tal suposição e afundou em sua cama.
- Souta... Ele não é o Inuyasha.
- Você tá brincando, certo?
Kagome olhou para ele, séria. Ela queria dar um basta na conversa. Mas Souta não iria deixar.
- Olha aqui, eu sei bem o que eu vi, tá? Porque você precisa fazer essa encenação toda na nossa frente? Não faz sentido, Kagome! Todos nós sabemos do seu segredo! Todos nós sabemos quem é Inuyasha!
- Souta, escute bem! – ela levantou-se de uma só vez e parecia realmente alterada – Eu não vou perder meu tempo tentando convencer uma criança de que ela não está tendo alucinações. Já demoramos demais aqui, vamos voltar.
- Não!
Ela parou. Seu coração acelerado. Souta tocou em seu ombro e a virou delicadamente, tentando selar a paz.
- Kagome. Eu não estou alucinando. Mamãe também percebeu.
Aquilo foi um choque para ela. Sabia que sua mãe era discreta, mas ela achava que a conhecia bem ao ponto de notar qualquer mudança sutil em sua expressão. "Além disso... Se ela percebeu então realmente... Então, não sou só eu."
- Souta... – ela sentiu o abraço do irmão – Souta, ele não é Inuyasha. Assim como eu não era Kikyou, você se lembra? Você se lembra do que eu te falei sobre isso?
- Lembro. – a cabeça dele ergueu-se mais um pouco e ele olhou para Kagome, compreensivo – Então... Esse menino é a reencarnação de Inuyasha?
Era a primeira vez que alguém dizia aquilo. Alguém que não fosse ela, com sua mente perturbada e esperançosa. Alguém que não desejava tanto quanto ela ter Inuyasha de volta. Alguém parcial o suficiente para dizer aquilo sem soar como um louco.
E ele só tinha treze anos.
- Souta, eu não sei quanto a isso. Mas por favor... – os olhos de Kagome se encheram de lágrimas – Por favor, não mencione mais essa possibilidade. Você sabe que eu dei duro pra conseguir superar tudo que aconteceu. Eu não quero... Eu não quero Inuyasha de volta! Muito menos a reencarnação dele! Me entenda...
Souta se aproximou e limpou uma lágrima de Kagome. Ele sorria, maduro.
- Não se preocupe, irmãzinha. Não vamos mais falar sobre isso, tá bem?
E então ele pegou na mão dela. E Kagome se lembrou de sentir-se protegida... Por Souta. Pela primeira vez na vida.
Os dois foram até a sala novamente. Apenas Zhang estava na mesa conversando animada com a mãe de Kagome. Ela olhou para o lado e Ichiro estava sentado no sofá... Brincando com Buyo.
Naquele momento, a comparação era inevitável. Kagome olhou para Souta e ele riu um pouco. Ela acompanhou. Não teve como não achar graça. Ichiro pegava as patinhas de Buyo e o obrigava a ficar sobre duas patas ao mesmo tempo em que fazia caretas para ele. Souta voltou para a mesa e Kagome sentou-se ao lado de Ichiro.
- Então... – ela conseguiu a atenção do garoto, ele havia olhado pra ela – Parece que vocês estão se dando bem, não?
Ichiro corou levemente.
- É... – Ele soltou o gato e ficou apenas passando a mão em sua cabeça – Talvez eu me dê melhor com animais do que com pessoas...
- É... – Kagome riu da piada mental que fez de Ichiro – Provável.
- Kagomeeeee! – um par de braços a agarrou pelo pescoço – Kagome-chaaaan!
Kagome olhou para Zhang e em seguida para Ichiro, dando uma piscadela para ele.
- Quando ela faz isso é por que...
- (...) quer alguma coisa. – ele completou. Os três riram.
- Eu só queria ir até o poço, gente. Ainda não tiramos fotos lá dentro.
"Ah, não."
Era tudo o que Kagome não precisava.
- Mas será que você não cansa de tirar essas fotos? – Ichiro falou um pouco irritado – O seu dedo vai acabar caindo!
Kagome jamais confessaria, mas por um momento ela realmente gostou de Ichiro. Zhang fez uma voz de falsa mágoa e aquilo bastou para que ele desistisse de argumentar. Kagome, por sua vez, não se sentia nem um pouco preparada para encarar o poço novamente. Fazia dois anos que ela não entrava ali. Se tivesse que escolher um local que representasse a sua tristeza, seria aquela pequena casinha onde a passagem estava guardada.
Também era verdade que ela não conseguia ver o poço sem sentir um impulso de pular dentro dele.
Mesmo assim, concordou que seria melhor acabar de uma vez com tudo aquilo.
- Vamos ver o poço e depois eu quero ir pra casa! – Kagome falou e viu um bico cômico se formar nos lábios de Zhang – Não faça essa cara, eu já estou cansada de perseguir você e essa sua câmera!
- Obrigado por lembrar que sou eu que estou dirigindo pra lá e pra cá com vocês duas. – Ichiro falou fazendo com que as duas meninas rissem.
- Está beeeem, irmãozinho! – Zhang esticou as bochechas dele arrancando mais risadas ainda de Kagome – Vai ser o último lugar que a gente vai, eu prometo!
Naquele momento, Kagome se sentiu mais à vontade do que nunca durante o dia inteiro. Ichiro já não parecia tão desconfortável.
Ela se despediu da mãe, do avô e do irmão. Traçou o caminho que sabia já ter feito muitas vezes, anos atrás. Seu coração acelerou até o ponto de Kagome jurar que sentia seu peito subindo e descendo dentro da blusa. Zhang ia à frente, ela não havia percebido. Mas Ichiro caminhava ao seu lado e pela visão periférica ela sentiu que ele a olhava, curioso. A mão de Kagome estava apertando a jóia, pousada em seu colo.
- Vamos, Kagome! Abra a porta! – Zhang falava animada, ela se virou – Kagome?
"Tenho que mudar logo essa minha cara! A Zhang vai perceber."
- Claro! – Kagome sorriu – Vou abrir sim.
Era incrível como, em apenas alguns segundos, dezenas de cenas vieram a sua mente sem que ela pudesse dar conta de tantas. A velocidade com que apareciam aumentou ainda mais quando Kagome abriu a porta.
Ela não podia entrar.
Olhou para Zhang atrás de si, encorajando-a a ir primeiro e quando a amiga entrou ela deu a câmera para Ichiro e sussurrou.
- Por favor – seus olhares se cruzaram e ela se sentiu muito perto dele, afastou-se levemente – Tire algumas fotos pra mim, sim? Diga à Zhang que minha mãe me chamou.
- Er... – Ichiro parecia ainda mais confuso do que de costume – Sim, claro.
- Obrigada. Volto logo.
Ela andou. Andou até Ichiro entrar na pequena casinha e depois correu. Tinha um nó enorme na garganta, mas se recusava a soltar uma lágrima sequer. E pensar que um dia achara que seu estoque delas havia acabado completamente. Kagome parou poucos metros depois. Ofegando, a mão apertando a jóia de quatro almas firmemente. Começou a marcar cinco minutos. O rabo-de-cavalo que havia feito já estava desamarrando, ela soltou os cabelos e sentou-se. O queixo se apoiava em seus joelhos. Ela abraçou as pernas e ali ficou, olhando fixamente o relógio.
Nem por um minuto ela pensou em voltar pra ver o poço.
Quando o tempo finalmente passou Kagome levantou-se e começou a andar calmamente de volta. Ichiro puxava Zhang pelo braço. Quando a amiga a viu, acenou e foi em sua direção.
- Ei, Kagome! O que sua mãe queria, afinal de contas? – ela teria inventado uma desculpa se Zhang não tivesse emendado com outra pergunta – E o que acha de você mesma tirar algumas fotos ali? As que o Ichiro tirou ficaram horríveis!
Kagome riu sem jeito. Mas Ichiro respondeu por ela.
- Não temos tempo pra isso, pirralha. Vamos indo. Logo.
Ele olhou pra Kagome. Ela sorria agradecida.
Kagome cochilou durante todo o caminho, sem sentir que era observada. Zhang a acordou apenas para que ela dissesse onde ficava o apartamento. Assim que pararam, a amiga avistou uma sorveteria e foi direto pra lá.
Kagome desceu do carro. Para sua surpresa, Ichiro também. Ele se encostou no veículo, as mãos no bolso. Olhava para o chão, desta vez.
- Então... Tchau. – Kagome tentou ser simpática.
- Espere.
Ela parou, olhou para o garoto e ele parecia ter congelado naquela posição. Kagome esperou ele continuar.
- O que você tinha naquela hora, hem?
A frase poderia soar atenciosa se fosse dita por qualquer pessoa, menos por ele. Kagome riu levemente. Ele soava rude mesmo quando as palavras queriam dizer que se preocupava. Depois Kagome riu de si mesma. "Quanta pretensão minha imaginar que ele se preocupa. Nós acabamos de nos conhecer. Ele deve estar apenas curioso."
- O que você está achando tão engraçado? – Ele olhou pra ela, suas sobrancelhas denunciavam que ele estava tenso – Porque você ficou daquele jeito? Responda!
Kagome sorriu. Acenou para ele e deu as costas, escutando Ichiro soltar um resmungo. Entrou rapidamente no prédio. Um sorriso brincava em seu rosto. Lembrou-se de pensar que nunca haviam acontecido tantas coisas num mesmo dia. Ela nunca havia pensado tanta coisa em tão pouco tempo na vida. Inventara mil suposições tentando prever o comportamento daquele garoto, mas ele a impressionara na maioria das vezes. Especialmente durante os últimos momentos do dia. Ele agia muitas vezes como Inuyasha e mesmo assim Kagome ainda se sentia impressionada.
Naquele momento ela se achou um tanto burra.
Quando entrou no apartamento e jogou-se na sua cama sentiu um cansaço enorme. Foi quando pensou em tudo que Souta lhe dissera. E se ele fosse mesmo a reencarnação de Inuyasha? E se isso fosse realmente possível? Ela não sabia. E odiava aquela situação.
Mas seus olhos já estavam se fechando. O sono já havia chegado. E ela estava feliz por não ter que pensar mais. Por hora, iria apenas dormir.
