Observações da autora:

Este é um capítulo mais voltado para a turminha da Kagome na universidade. Pra que vocês os conheçam melhor. E também quis deixar bem claro algumas coisas que vão acontecer nos próximos capítulos!

Reviews respondidas no final, aproveitem a leitura!


Capítulo 6

Ela caminhava pelos corredores ainda desorientada de sono. Os cabelos meio bagunçados que tinha tentado prender num coque, sem sucesso. Os fios se desenrolavam a cada passo que ela dava. Kagome pensava, mas fazia isso alto o suficiente para que pudesse ouvir sua própria voz.

- Esse cabelo... Esse... – e era interrompida por um de seus bocejos – Não vai me atrapalhar hoje.

Segunda feira era o pior dia para Kagome. Naquela segunda em especial ela havia requisitado a força de todos os deuses e santos para acordar. Muitas coisas se passavam pela sua cabeça ainda e a principal delas era um garoto de cabelos pretinhos e olhos púrpura. Não sabia ao certo se ele havia mudado de opinião com relação à ela... Pra melhor? Pra pior? Será que ele tinha ao menos alguma opinião formulada a seu respeito? Ela tinha começado o dia de ontem pensando que ele era um grosso, idiota. Acabou que ele realmente era tudo isso. "Mas me ajudou na hora que eu me recusei a entrar no poço..." Ela pensava enquanto andava distraída em direção à sala de aula. "Mas era obrigação dele, certo? Não fez nada de mais." Foi quando ele voltou a fita mais um pouco e se lembrou das suposições de Souta. Sua cabeça doeu ainda mais. Era a famosa enxaqueca matinal de início de semana.

- Vamos, Kagome... – resmungou ela mais uma vez, chacoalhando a cabeça de um lado pro outro – Você ainda está sonhando?

Finalmente abriu a porta de sua sala. Seu coração acelerou ao pensar que talvez ele estivesse ali. Talvez ela pudesse começar o dia bem.

"Começar o dia bem? Que porcaria eu to pensando? Ninguém começa o dia bem com aquele idiota resmungando."

Mas ele não estava lá.

Entretanto, e apesar do sono, ela pode ouvir exatamente qual era a pauta da conversa de seus amigos. Zhang estava mostrando, animada as fotos e os vídeos para todos. Havia se formado um grande círculo ao seu redor. Hideki parecia impressionado. Kagome não sabia dizer se era com o trabalho ou com... A própria Zhang. Ela se aproximou procurando um lugar próximo à Éric e Samantha. Ela sempre fazia isso nas segundas. A estratégia era eliminar seu mau humor com os mimos do francesinho e as piadas de sua amiga.

Mal encostou a bolsa na carteira Sam levantou a cabeça e sorriu. Kagome achava incrível como ela sempre estava linda todas as manhãs, tardes e noites. Os olhos acinzentados, tão bonitos, em contraste com o cabelo castanho e ondulado. A pele nunca estava maquiada por que... Não havia necessidade. A pele dela era perfeita com exceção das sardas. Mas Kagome achava, na verdade, que elas eram o seu diferencial.

- Kagome-chan! Bom dia... – ela parou abruptamente de falar e o olhar dela foi de encontro à cabeça de Kagome – O que diabos tem o seu cabelo hoje?

Os olhos de Kagome se encheram de lágrimas. Se sentir feia era a última coisa que ela precisava num dia de cansaço! Sam se comoveu logo e os outros viraram pra olhar. Johnny não segurou o riso.

- Oun! Calma, amiga – dizia Sam tentando consertar – eu vou dar um jeito, peraí.

Enquanto Sam passava os dedos pelo cabelo de Kagome e tentava desfazer o coque Zhang falava ao resto deles o quão legal tinha sido o dia anterior. Ela estava no início da história então Kagome presumiu que tinha acabado de chegar a faculdade, talvez pouco antes dela.

- E então eu estava lá na praça principal tirando as fotos quando vi a Kagome! Estão vendo essa foto aqui? – ela apontava alguma coisa no visor – Foi ela que tirou! A gente já tinha se achado.

- Hmmmm...? – Kagome quase dormia com a cabeça encostada no colo de Sam.

- E logo depois disso – Zhang continuou – Nós resolvemos ir pelo centro da cidade... Meu irmão tava com o carro então as coisas ficaram bem mais fáceis.

- Peraí – falou Éric com o sotaque francês característico – Você nunca contou que tinha um irmão.

- Nossa – Zhang parecia realmente impressionada por ter deixado passar aquele detalhe – Pensei que tinha comentado. Ele é o Ichiro, Masagami Ichiro, entrou agora por meio da transferência na Toudai...

Kagome ficou mais esperta quando ouviu o nome dele. Sam tirava o ultimo grampo de seu cabelo.

- Aquele menino é seu irmão? – falou Kayri visivelmente surpreso – Não acredito.

- Ué... – Zhang ficou na defensiva – Porque não?

Kayri olhou de mim para Éric sem saber o que dizer. Esperou o mais gentil de nós três tomar a palavra.

- Ele meio que desafiou o Kayri naquele dia na biblioteca. Depois que você saiu com o Hideki. Você sabe... Teve um pequeno atrito.

- Argh. – Zhang cruzou os braços, revirando os olhos – Não acredito que ele foi procurar confusão com vocês.

Kagome não soube exatamente o porquê, mas desatou a defender Ichiro.

- Não, gente. Não foi exatamente assim. – Sam pedia para que ela esperasse e começou a pentear os longos cabelos de Kagome com uma pequena escovinha – Foi mais... O grupo com quem ele estava andando que o desafiou. E além do mais... Eu não acredito que eles vão arrumar encrenca não é mesmo? Nesses jogos ninguém procura briga.

- Ooooh, era um jogo de tênis? – Zhang colocou a mão no queixo – Mas... Kagome, isso realmente não faz sentido. Ichiro joga terrivelmente mal. E que eu saiba ele não se importa muito com a competição que tem em torno desses jogos.

- Mas então... – falou Kayri, tentando entender – Então... Ok, talvez eu tenha exagerado quando disse aquilo. Talvez ele não estivesse me encarando.

Éric olhou pra Kayri confuso. Kagome, ainda sonolenta, acompanhou o gesto.

- De fato. Talvez ele não estivesse te encarando. – Zhang continuou – Kayri, ele já fez isso enquanto você estava sozinho?

Kayri colocou a mão no queixo, pensativo.

- Não... – e um vislumbre de entendimento passou pelo seu rosto – Não! Eu sempre ando com o Éric ou com a Kagome... Na maioria das vezes vocês todos estão juntos com a gente, mas... Nós andamos os três juntos várias vezes, não?

- Pois é. – Zhang tinha um sorriso zombeteiro nos lábios, coisa rara de se ver nela – Exercitem suas mentes mais um pouco.

Kagome cruzou os braços. Sam riu levemente. O bastante pra que Kagome percebesse e a encarasse. Ela instantaneamente tentou segurar o riso. Mudou de assunto.

- É... Kagome. Terminei com seu cabelo!

- Ah! – Zhang falou, repentinamente – Mais uma dica pra vocês. Meu irmão é cem por cento hetero.

"Merda."

Kagome sentou-se na cadeira, envergonhada demais pra se pronunciar. Os meninos continuavam martelando, mas ela, Sam e Zhang falavam a mesma língua.

"Foi só a minha imaginação ou ela acabou de dizer que o irmãozinho dela estava me encarando esses dias todos sem que eu notasse?"

- Zhang! – Kagome chamou a amiga aos sussurros, temendo ser notada pela professora – Zhang!

- O que é, Kagome? – falou ela olhando fixamente para o quadro, disfarçando.

- Você vai me explicar isso tudo depois, entendeu?

A amiga estirou a língua como se tivesse cinco anos de idade e tornou a olhar para a professora. Kagome abaixou a cabeça buscando, de alguma forma, enfiar-se num buraco inexistente. Zhang não poderia estar falando sério. Mas e se estivesse? E se Ichiro comentou algo sobre Kagome com ela? Impossível saber com certeza. "Sem falar que ela pode muito bem estar exagerando um pouco, ela sempre faz isso... Mas que droga! Não tenho como saber!" Kagome repassou mentalmente toda a conversa. Ichiro não poderia estar encarando Kayri porque... Ele não joga muito bem, não liga para competições. Kayri, Kagome e Éric não se desgrudam e todas as vezes que Ichiro os olhou eles estavam juntos.

A informação mais importante tinha partido de Zhang. "Qual o sentido de dizer que o irmão é hetero numa hora daquelas?!"

Kagome percebeu que não havia prestado atenção em praticamente nada do que os professores disseram. Deu uma bronca em si mesma assim que a aula acabou e correu atrás de Zhang assim que a viu saindo da sala. Por azar, ela foi mais rápida e perdeu-se de vista nos corredores. Kagome decidiu que depois falaria com ela e puxou Samantha, decidida.

- Eeeei – abordou Kayri – Aonde vocês duas vão?

- Eu falo com você depois! – disse Kagome.

- É... Que estamos um tanto ocupadas... – continuou Sam – ou vamos ficar ocupadas... Enfim! Tchauzinho, meninos. Não chorem de saudade.

Kagome saiu atrás da amiga e Sam tentava acompanhar seus passos. O corredor estava incrivelmente cheio de gente de modo que ficou cada vez mais difícil passar por todos eles e chegar até Zhang. Kagome não sentiu quando elas viraram à esquerda um pouco depois de sua sala. Naquele momento ela só estava seguindo a amiga. Foi quando Sam puxou-a pelo ombro.

- Menina, o que foi?!

- Ora, mas não é óbvio?

Sam revirou os olhos e respondeu com uma voz levemente irritada.

- O que é óbvio, Kagome?

- Eu... Eu to tentando... – o olhar penetrante e carente de explicações de Sam estava deixando-a um pouco nervosa – Eu to tentando descobrir o que a Zhang quis dizer com toda aquela história do... Do irmão dela. Você sabe.

Sam tirou uma serra de unha sabe-se lá de onde e começou a cuidar das mãos despreocupadamente. Kagome não deixou de notar que tudo aquilo fazia parte da cena vamos-esnobar-Kagome-por-ela-ser-uma-retardada. As unhas de Sam já estavam completamente bem-cuidadas e limpas.

- Higurashi, querida – começou ela no mesmo tom que Kagome previra – É lógico que o irmão mais velho de Zhang tem uma quedinha por você.

- Isso – interrompeu Kagome – é algo que você está apenas supondo, certo?

- Errado. – e continuou com seu ritual de serrar as unhas – A própria Zhang me contou. Além disso, só um cego pra não notar que ele estava te secando, Kagome. Ou alguém egocêntrico o suficiente como Kayri pra achar que era por causa de um jogo estúpido de tênis. Estamos na faculdade, será que ele ainda não caiu na real?!

- Tá, tá, ok. – Kagome interrompeu o discurso de Sam – Mas... Quer dizer que você já tinha notado antes de tudo aquilo de ontem acontecer e a Zhang te contar e...

- Claro! – Sam desistiu das unhas e se mostrou um tanto indignada – Kagome... Só você não percebe o que acontece a sua volta. Sem falar que eu dei umas indiretas, lembra? Perguntando de quem você gostava e tal.

Kagome arregalou os olhos entendendo tudo. As duas voltaram a procurar Zhang pelos corredores. De repente, fazia todo o sentido. O que era curioso era apenas o fato de que ela nunca havia notado os olhares de Ichiro. Mas era Samantha dizendo e pior: a irmã do cara confirmando. Isso explicava porque quando Kagome falou sobre o jogo com Ichiro ele apenas deu uma olhadela rápida para Kayri e depois sorriu triunfante para Kagome. Não era possível estar mais errada do que ela sobre a história toda. Mas ainda havia algo que não encaixava.

- Sam... – falou Kagome e a amiga virou-se pra ela, atenta – Só tem uma coisa me incomodando. Esse garoto, sabe? Ontem ele foi extremamente grosso e rude comigo... Não acho que isso seja atitude de quem quer conquistar uma garot...

- E posso saber porque você pretende fazer isso? – a voz de Ichiro saiu como um rosnado.

As duas meninas pararam diante da cena. Sem perceber elas tinham seguido Zhang até a sala do irmão. No momento em que elas chegaram, ele estava com a voz um pouco alterada e uma cara meio... Bom, assassina.

- É, Kagome. – falou Sam – Acho que isso explica a parte da grosseria.

Ichiro virou-se para as duas meninas ao ouvir a voz de Samantha. Seus olhos foram dela para Kagome... E pararam. Ele ficou apenas olhando, dessa vez com uma expressão não muito decifrável. Era um misto de vergonha e irritação que Kagome não conseguia identificar. Quando ficou incomodada o suficiente com a troca de olhares mudos, deu um leve aceno com a mão e sorriu.

- Oi, Ichiro. – e depois se voltou para Zhang tentando disfarçar o nervosismo – Er...

Antes que Kagome pudesse continuar a amiga fez um aceno para que ela e Samantha se aproximassem.

Kagome sorriu para Zhang rapidamente, seu olhar pousou em Ichiro de novo. Ele parecia nervoso com o que a irmã havia dito. Naquela manhã ele estava ainda mais bonito. Tinha colocado uma camiseta branca com uma gola em "v" bem discreta. O jeans estava mais surrado do que o usual e os cabelos desgrenhados de uma forma que Kagome teve a certeza que ele não havia visto nem sombra de pente naquele dia! Ele passou a mão pela nuca, mirava o chão e levantou a cabeça já se virando pra sair. A outra mão estava no bolso. Dessa vez ele deu um aceno leve com a cabeça, quase imperceptível.

O coração dela disparou.

Zhang não percebeu – ou àquelas alturas, apenas fingia não notar – o que se passava na mente de Kagome e deu início ao que parecia estar discutindo com Ichiro antes delas chegarem.

- Então, vamos somente supor – falou ela segurando o irmão pelo braço antes que ele fosse embora – que eu quisesse fazer a festa e as minhas amigas aqui – ela avançou para Kagome e Sam abraçando-as – resolvessem me ajud...

- Peraí, festa? – animou-se Sam.

- Festa quando?! – Kagome bateu palminhas.

- Festa onde?! – continuou Sam, animando-se mais um pouco.

- Onde?! Onde?! E que horas? – perguntava Kagome assim que Sam terminava a sua pergunta.

- É a fantasia?! Porque se for eu tenho uma roupa d...

- Meninas... Calma. – interrompeu Zhang, achando graça – Estamos tratando de suposições. Apenas. Acompanhem meu raciocínio agora, tá? Você principalmente Ichiro! – ela fez uma pausa e tomou ar antes de prosseguir – Então. Eu pensei sim em dar uma festa. Nossa turma ainda não teve uma só confraternização desde que as aulas começaram e meu apartamento é...

Ichiro soltou um resmungo interrogativo e Zhang reformulou a frase.

- Tá bom, tá bom! Nosso apartamento... – e se voltando para as amigas – O ponto é que Ichiro não suporta a idéia de ter que limpar tudo depois nem agüenta conviver numa bagunça. Então eu falei pra ele qu...

- Bagunça? – perguntou Kagome comicamente – A gente faria algum tipo de bagunça, Sam?

- Bagunça?! – Sam entrou no joguinho dela sem pensar duas vezes, fez uma expressão fingida de quem pensa antes de responder – Engraçado... Sinto que já ouvi esse nome em algum lugar, mas... Eu não faço a menor idéia do que significa!

- Será que é uma pessoa?! – Kagome falou como se tivesse descoberto a cura do câncer – Oh, meu Deus, mas Ichiro... – ela prosseguiu olhando fixamente para o garoto conservando uma atitude preocupada – você não se preocupa porque se chegar algum Bagunça lá no apartamento a gente coloca pra fora antes mesmo que ele possa tomar a primeira dose de tequila. Sabe, eu sei usar o arco e flecha muitíssimo bem, treinei durante meses e...

- Eu não vejo nada de errado em querer manter um pouco de ordem no meu apartamento! – ele parecia uma criancinha, cruzando os braços e fazendo beicinho.

As meninas riram e Sam assumiu o posto de mais velha do grupo e resolveu falar sério daquela vez.

- Agora é de verdade. A gente promete que não vai deixar nada quebrado e até mesmo se tiver algo sujo no final da festa... Eu e as meninas ficaremos pra limpar, não preocupa.

Zhang juntou as mãos como se estivesse orando e fez uma carinha de anjo que deixou Ichiro desconcertado. O vermelho das bochechas dele aumentou nitidamente quando Kagome começou a falar.

- É, a gente fica. E além do mais a turma não é tão grande assim e sempre tem pessoas que não vão de qualquer forma.

- Isso! – concluiu Zhang – Olha, tudo o que você tem que fazer é se ausentar durante cinco horas! Ninguém fica mais que cinco horas numa festa, não é? Pelo menos não quando estamos em aula!

- Se ausentar...? – Kagome soltou um sussurro que intencionava ser inaudível. Não que ela fizesse questão da presença do garoto, mas teve que admitir pra si mesma que era meio estranho expulsá-lo de seu próprio apartamento para que elas pudessem se divertir a noite inteira... Não parecia muito justo.

- O que foi, Kagome? – Zhang riu e não estava disposta a deixar escapar – Você pensou que Ichiro também ia?

"Mas porque ela não me deixou arrumar uma desculpa?! De novo!"

- Erm... Er... Haha, claro, né? – Ela passou a mão pelo cabelo tentando, inutilmente, prender uma mecha atrás da orelha – Pra quê... Pra quê sair do apartamento? Quer dizer... Não faz sentido! A casa é sua afinal de contas...

Ela olhou para Sam e percebeu que a amiga estava segurando de todas as formas o riso. Kagome tentava, de todas as formas, olhar para qualquer outro lugar que não fosse... Ichiro. Porém quando ele respondeu foi inevitável virar-se em sua direção.

- Eu não gosto muito de festas.

"Claro. Destrua minhas expectativas vergonhosas com uma só frase. Idiota."

Kagome tentou disfarçar sua frustração, mas suas amigas foram mais rápidas em tirá-la da situação o mais rápido possível. Despediram-se do garoto e saíram com Kagome de volta para a sala de aula. As três andavam em silêncio até que ela não suportou mais e parou olhando para ambas. Elas deram um passo ou dois antes de se virarem e abraçarem Kagome ao mesmo tempo em que esta questionava.

- Será que foi tão constrangedor assim?!

Elas apressaram-se em fazê-la sentir-se melhor.

- Que constrangedor o quê, Kagome! – Zhang falou, gentil – O bobo do meu irmão que não sabe conviver numa sociedade educada. Quem ficou constrangido foi ele, tenho certeza!

- Isso mesmo! – Sam falou dando tapinhas no ombro de Kagome – Amiga, você foi apenas solícita e... Bom, eu não ia dizer nada porque ele é seu irmão, Zhang. Mas ele foi meio rude sim.

- Ah, ele sempre é! Ele é assim com todo mundo, Kagome. Você só tem que aprender a retrucar! – Zhang sorriu.

"Aprender... a retrucar?"

Era isso. Até aquele momento Kagome não havia parado para pensar que Ichiro estaria presente na sua vida quase que diariamente. Não conseguiu conter a mistura de alegria e ansiedade que a atingiu. A verdade é que adoraria conviver com ele. Adoraria desvendar cada minúcia daquela personalidade; adoraria tornar-se sua amiga e um pouco mais que isso; confidenciar-lhe coisas; adoraria saber se ele era realmente quem ela achava que era... Kagome queria, mais do que tudo, se apaixonar. E ela não sabia explicar o porquê, mas sentia que Ichiro era a única pessoa que ela conhecera até o momento que seria capaz de lhe proporcionar tais sensações. Não deixou de ter raiva de si mesma. Porque, afinal, Inuyasha influenciava suas decisões até mesmo quando não estava presente há tanto tempo? Porque apesar de ter morrido ela não conseguia esquecê-lo?

"Talvez eu simplesmente não deva."

Mas achou que estava pensando bobagens e logo afastou aqueles pensamentos. Quando Sam consultou o relógio constatou que já era hora de voltar pra sala. As três correram contra o tempo para ir ao banheiro e chegaram exatamente ao mesmo tempo que o professor. Na pressa toda, Kagome havia esquecido completamente de tirar qualquer coisa a limpo com Zhang. Planejava perguntar a ela se havia entendido bem. Se Ichiro realmente tinha falado algo sobre ela. Quando lembrou-se daquilo mais tarde resolveu que não tocaria mais no assunto. Kagome tinha medo do que poderia ouvir. Tinha medo de ser rejeitada e, quando pensava na possibilidade de não ser perguntava a si mesma se aquilo era realmente bom.

"Seria bom me envolver com um garoto que me traz essas lembranças? Não seria só uma forma de me enganar...?"

Apesar de martelar suas dúvidas as aulas transcorreram normalmente durante o resto do dia e Kagome finalmente sentiu-se mais concentrada, apesar de incomodar-se com a constante troca de bilhetes entre os garotos. O único que não estava fazendo isso era Hideki, mas curiosamente, ele parecia saber ao menos do que se tratava. Os quatro ficaram calados até o final do dia quando o último professor se retirou. Kagome guardava algumas coisas na bolsa e vestia seu casaco branco quando sentiu alguém a abraçando por trás. Era Kayri. Ela reconheceria aquele perfume caro à distância.

- Espero que vocês três estejam prontas para acordar cedo amanhã – falou ele com ar de riso.

Terça era um dos melhores dias da semana. As aulas começavam depois do almoço e se estendiam até as oito e meia da noite. Para os que não gostavam de levantar de manhã era um verdadeiro deleite. E todo mundo precisa de um bom sono de beleza em algum momento, não?

Sam olhou para Kayri e cruzou os braços.

- Amanhã é terça, Kayri. Ninguém aqui tá disposto a acordar de manhã, sério.

- Aaaaah... – ele soltou um resmungo desanimado e sentido – Não precisa desprezar tanto assim o meu jogo de tênis, Samantha.

Zhang deu um tapa na própria testa, evidentemente ela havia se lembrado.

- Meu Deus, tem razão. – e logo depois a voz dela desceu de tom, adquirindo um ar de cansaço – Mas eu mal dormi esse final de semana, Kayri. Você tem certeza que precisa mesmo da nossa presença?

- Claro que preciso! – ele soltou Kagome e tentou convencê-las – Olha, já não basta ter passado a aula inteira tentando convencer Johnny e Hideki!

- Eu já falei – Hideki começou, se justificando – que eu tenho que estudar logo cedo amanhã. É meio... Impossível.

Kayri estendeu os braços ao longo do corpo, impaciente. Olhou para Éric pedindo ajuda e o amigo prontamente iniciou um discurso.

- É, gente... – falou ele, o sotaque extremamente acentuado – Além do mais, como já foi dito, esses jogos são ótimos pra nos enturmar com os outros alunos novos. Pensem em quantas pessoas legais podemos conhecer amanhã...

- Ah, se for assim, eu não preciso ir. – falou Kagome – Já estou enturmada... E vocês, meus amores, são mais do que suficientes.

Kayri pegou as duas mãos de Kagome e olhou fundo nos olhos dela com a expressão mais pidona que ela já havia visto na vida.

- Embora lisonjeado com a sua declaração, querida Kagome, eu ainda assim requisito a sua presença. – então ele virou-se para todos – Vamos, gente, é o meu primeiro jogo que vocês vão poder assistir... Sim, sim? Amanhã, as oito, na quadra...?

O grupo permaneceu calado decidindo mentalmente se iam ou não quando Johnny resolveu ceder primeiro.

- Só você mesmo pra me fazer acordar cedo numa terça.

E então se Johnny, o rei da preguiça, havia consentido... Todos automaticamente notaram que talvez não fosse tão ruim assim.

Kagome correu para casa a fim de terminar cedo tudo o que tinha que fazer. Se não tivesse uma boa noite de sono não seria capaz de acordar pela manhã.

Primeiro tomou um bom banho e vestiu uma roupa confortável. Depois trabalhou numa maquete durante duas horas, até sentir que poderia finalizá-la no outro dia. Então preparou um suco e cozinhou arroz para o jantar. Kagome sentou-se no sofá para comer sentindo-se nostálgica, apesar de saber que não tinha motivos pra se lembrar de nada. Sua atual situação era totalmente diferente de qualquer coisa que ela já tivesse vivenciado na vida. Morava sozinha, tinha amigos homens, era responsável por seus próprios gastos mesmo que o dinheiro viesse de sua mãe e seu avô. Mas por pouco tempo. Ela logo teria que arrumar um tipo de estágio remunerado que lhe rendesse experiência e algum dinheiro no fim do mês. Olhou distante para a parede a sua frente. O relógio já marcava onze horas e ela sentia o sono chegando. Lavou a pouca louça que tinha e vestiu uma camisola de algodão branca.

Kagome deitou-se em sua cama, mas não conseguia dormir. A noite estava fria, de modo que nem seu edredom deu jeito. Ela levantou-se meio sonolenta para fechar a janela de seu quarto um pouco. Involuntariamente ela baixou os olhos para a rua.

Parado em frente à sorveteria já fechada estava um carro conversível que ela conhecia muito bem, apesar de só tê-lo visto uma vez.

Ela fechou a janela rapidamente e virou-se de costas, meio ofegante.

"Não pode ser, eu devo estar com muito sono!"

Ela voltou-se de novo a tempo de ver o carro arrancando em direção a esquina de sua rua.

Kagome só conseguiu dormir naquela noite quando se convenceu que fora apenas imaginação dela. Poderia ser outro carro; poderia ser o dele, mas só de passagem...

"Não é da minha conta... Eu não me importo."

E mentindo para si mesma foi que ela deu seu último bocejo antes de dormir.