Capítulo 7
Eram sete da manhã quando o som do despertador encheu seus ouvidos sem nenhuma timidez. Demorou meio minuto para que Kagome percebesse que tinha um bom motivo para acordar cedo naquela terça. Preguiçosamente se levantou da cama aos poucos e foi direto para o banho.
Sabia que não podia se dar o luxo de tomar um banho quente, era provável que desse jeito ela adormecesse no chuveiro mesmo. Com um pouco mais de tempo ela se adaptou à água fria que escorria pelo seu corpo. Lavou os cabelos e em seguida prendeu-os numa toalha no alto da cabeça, rezando para que secassem rapidamente. Ligou o pequeno som vermelho em cima da escrivaninha e uma música muito antiga analisou cuidadosamente o closet. O clima estava agradável, não parecia que ia chover naquele dia. Mas achou melhor não confiar - afinal era junho - e separou seu guarda-chuva de bolinhas. Ela pensou em ir com um de seus vestidos, mas mudou de idéia e vestiu mais um de seus shorts jeans de um azul clarinho. Depois escolheu uma blusa branquinha e leve, sem mangas. Temendo que talvez o tempo esfriasse, ela complementou tudo com uma camiseta masculina de botão que havia roubado de Souta meses atrás. Era de algodão, azul bebê e muito confortável pra se usar em dias de clima duvidoso como aquele. Calçou as botas de tornozelo caramelo e pegou sua bolsa Chanel de correntinha. Foi quando se lembrou do cabelo. Olhou o relógio rapidamente. Eram sete e quarenta.
- Droooooooga! – falou ela arrancando a toalha de vez – Atrasada, atrasada, atrasada!
Penteou os cabelos na maior velocidade que conseguiu, mas estavam longos demais pra ficarem prontos em menos de dez minutos. Kagome contou com a sorte e resolveu deixar que secassem com o vento, levando uma liga de cabelo caso houvesse alguma emergência.
Saiu de casa sem comer nada na esperança de parar em alguma cafeteria e pedir um frapuccino. Mas seu celular não demorou a tocar e antes que Kagome pudesse ao menos dizer "alô" a voz de Sam falou primeiro.
- Onde você está? A gente tá guardando o seu local na quadra, mas tá um pouco difícil.
- Eu to chegando – disse Kagome desistindo de frear o carro na frente da cafeteria – sério, to no meio do caminho.
- Corra!
Chegou lá pouco depois das oito horas vendo Kayri já na quadra jogando com um garoto loiro e alto. Tentou localizar seus amigos e logo viu o braço erguido de Éric no meio da multidão. Kagome demorou um pouco para alcançá-lo, mas conseguiu e sentou-se entre ele e Johnny. Já ia perguntar o que havia perdido quando Zhang que estava ao lado de Johnny falou.
- Você não viu, mas o Kayri tinha acabado de fazer mais um gol, ou ponto ou sei lá quando você chegou!
Hideki riu da confusão de Zhang, mas a mesma não percebeu. Ele estava sentado ao lado dela tomando um suco que parecia bem gelado.
Tênis não era um esporte muito empolgante para Kagome, mas ela estava se divertindo só por estar entre amigos e também porque era Kayri jogando. Todas as vezes que ele marcava, fazia alguma palhaçada. Podia ser uma careta, uma dancinha ou o que quer que fosse. Era eficaz em fazer com que todos ali soltassem algumas risadas e, invariavelmente, torcessem por ele. Apesar de todo o fascínio que Kayri exercia no público, Kagome se pegou olhando no meio da multidão, procurando por Ichiro. Quando ela se dava conta do que estava fazendo, recriminava-se em pensamento. Mas descobriu que não tinha jeito. Era involuntário.
Após algum tempo a partida foi declarada terminada. Kayri vibrou com seu jeito cômico caracteristico e correu em direção aos amigos. Kagome e os outros deram a volta na quadra e fizeram sinal pra que Kayri fosse em direção a saída. Ele abraçou Kagome, girando-a no ar.
- Hey, Kayri! - protestou ela - Pare com isso já, você tá todo suado, que nojo!
O garoto riu e a colocou no chão. Parecia feliz e confiante, a raquete apoiada distraidamente num dos ombros, o suor deixando seu rosto corado, brilhante e ainda mais atraente do que de costume.
- Você foi muito bem, Kayri-kun! - falou Zhang, sempre simpática.
- É, tênis agora ocupa o terceiro lugar no meu ranking de melhores esportes do mundo - completou Johnny - fica atrás de futebol e, logicamente, natação!
Kayri riu gostosamente e bateu de leve na cabeça do amigo.
- Seu pirralho impertinente! Você mal pode esperar pra largar aquela piscina xexelenta e vir treinar comigo!
- Nem pensar!
- Ei, meninos! - interrompeu Sam, jogando os longos cabelos castanhos para o lado - Parem de brincar um minuto... Vamos fazer alguma coisa na casa de alguém porque eu realmente não to a fim de perder a manhã. Já que acordamos cedo, não é? E ainda são nove e quinze.
- Porque não vamos apenas pra casa estudar? - falou, obviamente, Hideki.
Todos viraram-se para ele com caras de "of-course-not" estampadas. Hideki se encolheu num canto e fez um sinal com as mãos de alguém que havia acabado de se render.
- Bom... - Éric resolveu dar continuidade aos planos - A gente pode ir na sua casa, Sam.
A garota passou o braço pela nuca e riu um pouco sem graça.
- Na verdade, eu resolvi fazer uma pequena reforma na sala. Tá meio que uma zona. Mas... - seu olhar pousou sugestivamente em Zhang - o apartamento da Zhang é tão espaçoso quanto. A gente bem que poderia dar uma passadinha por lá...
- Ah, Samantha, eu sabia que você ia jogar essa pra cima de mim! - Zhang colocou as mãos na cintura, mas não conseguiu conter o riso e manter a pose séria e responsável - Tudo bem... Se vocês não se incomodarem com a presença do Ichiro.
Kagome gelou dos pés à cabeça, mas imediatamente perguntou.
- Ele não deveria estar jogando? - e diante da expressão confusa de Zhang, ela continuou - Você sabe... Os jogos de quadra e tal.
- Aaaaaaaaah! - a amiga deu um tapa na testa, finalmente se lembrando - Claro, claro... Na verdade ele desistiu. Colocaram o loiro no lugar dele, como eu disse, Ichiro joga terrivelm...
- Ele amarelou, ficou com medo! - interrompeu Kayri, esbanjando auto-confiança - Ele percebeu que não é um adversário à minha altura e tremeu nas bases, voltou correndo pro seu lar doce lar.
Zhang deu um soco no ombro de Kayri, de leve.
- Seu idiota! Só porque venceu a partida tá aí... Cheio de si. Dá um tempo. - falou ela, rindo e depois voltando-se para o resto do grupo - Então, gente, vamos todos pra minha casa, não é?
O grupo inteiro concordou e por um instante a mente de Kagome começou a trabalhar depressa. "Ok, então, se eu for, vou me encontrar com aquele idiota inevitavelmente. É, então não vou. Mas por outro lado... Se eu não for, vai soar extremamente suspeito! Tá bom, não extremamente suspeito, mas... Suspeito. E que porcaria de desculpa eu poderia dar?" Kagome sentiu seu braço sendo puxado delicadamente e começou a andar automaticamente. Olhou pra cima e Éric estava conduzindo ela pela universidade. Já tinha aberto o seu próprio guarda-chuva, apesar de Kagome lembrar-se de ter trazido um...
- Não precisa, Éric, eu trouxe o meu guarda-chuva! - falou ela, se desvencilhando do abraço dele, timidamente. Mas quando analisou o objeto que suas mãos haviam agarrado tudo o que viu foi a bolsinha Chanel - Ah...
Éric riu docemente.
- Você esqueceu, acho. - disse ele, rindo, segurou a amiga pelos ombros e alinhou o corpo dela embaixo do guarda-chuva - Vamos, eu te levo até o seu carro, Kagome.
Os dois alcançaram o grupo e depois se separaram deles, cada um indo para sua vaga. Kagome viu quando Johnny acompanhou Kayri para pegar carona com ele. Chegou no carro e deu de cara com o guarda-chuva de bolinhas no banco de trás. Riu com Éric do seu esquecimento e entrou no carro para dirigir.
Durante todo o caminho até o apartamento de Zhang ela sentiu como se seu estômago estivesse se contorcendo. Não sabia onde parava a fome e começava o nervosismo perante a idéia de ver Ichiro de novo. Desistira de explicar porque o garoto provocava tais reações nela. Se recusava a acreditar que as suposições de Souta pudessem ser reais. Preferia nem pensar na possibilidade.
À sua frente, havia o carro de Hideki - onde ela sabia que Zhang também estava - para guiá-los até o apartamento. Pelo retrovisor ela via o carro de Éric seguindo-a. Presumiu que ele também não sabia o caminho e começou a dirigir devagar. Em vinte minutos chegaram ao destino.
Era de luxo. O apartamento, quer dizer. Dava pra se dizer só de olhar a parte exterior da construção. Kagome era fascinada por prédios. Era sua veia arquitetônica falando alto. Adorava a verticalização das cidades. O carro de Hideki estava parado na frente e Zhang colocou a cabeça do lado de fora da janela para se identificar. A garagem se abriu e eles fizeram sinal para que todos entrassem. Havia vagas para todos.
Estamos falando de quatro carros. Cinco vagas por apartamento. No Japão isso significa uma coisa: dinheiro.
Kagome não costumava notar aquelas coisas, mas cinco vagas eram demais pra passarem despercebidas.
A agonia no estômago aumentou um pouco mais quando ela começou a subir o elevador com os amigos. Estava sentindo um pouco de calor e gotinhas mínimas de suor se formaram por baixo de sua franja arredondada. Olhou-se no espelho, estava mais pálida do que o usual, mas não ligou muito. Os lábios ainda conservavam um pouco da camada de batom rosa e pó que ela havia aplicado antes de sair de casa.
Estava linda, logicamente. Não que ela fosse perceber isso.
As portas se abriram no vigésimo andar e os sete saíram apressados do elevador.
- Não se preocupem, gente, o apartamento tem ar-condicionado central. - falou Zhang pegando o molho de chaves e abrindo a porta enorme com design moderno.
Kagome não esperava encontrá-lo logo de cara. A primeira coisa que se via no apartamento era a sala enorme e a varanda equipada com mesas e cadeiras. Numa dessas estava sentado Ichiro, só de calça de moletom e a sua frente um garoto loiro que Kagome reconheceu da quadra. Ele parecia ser muito simpático porque logo que viu Kayri sorriu e foi falar com ele. Ichiro permaneceu sentado com os braços apoiando a nuca, se esticando. Parecia ter acordado a pouco tempo.
- Hey, esse é o meu adversário com pinta de comediante! - disse o garoto levantando-se e apertando a mão de Kayri - Excelente jogo hoje, não? Você cursa o quê mesmo? Arquitetura?
Kayri ficou modesto na frente do garoto. Passou a mão pelos cabelos, rindo discretamente e acenou que sim com a cabeça. Era uma das coisas que Kagome mais gostava nele. Apesar das brincadeiras, ele não era egocêntrico nem se gabava na frente de pessoas que não conhecesse.
Kagome notou que o garoto loiro não estava dentre os mau encarados da biblioteca e se perguntou se Ichiro era realmente amigo daqueles caras. Depois de conhecê-lo melhor naquele domingo, ela duvidava muito.
- Hey, Zhang! - falou Ichiro se levantando e indo em direção à irmã - Pensei que a festa fosse ficar pro sábado! O que significa isso?
Houve um leve constrangimento que Zhang tratou de dissipar rapidamente.
- Irmãozinho querido, só trouxe meus amigos aqui um instante. A gente não vai atrapalhar seu dia de folga, prometo. - e dizendo isso ela fez uma carinha encantadora e inocente que desconcertou o garoto.
Kagome não deixou de se perguntar se Zhang havia nascido com aquela habilidade ou se havia sido obrigada a adquirí-la devido às circunstâncias. Riu-se desses pensamentos e quando se deu conta o olhar de Ichiro repousava em seu rosto.
O estômago deu mais uma revirada e as vozes animadas de seus amigos se tornaram praticamente inaudíveis. Ela sentiu uns esbarrões e viu de relance Zhang acomodando todos na sala ao lado. Uma voz maculina chamou Ichiro e ela o viu caminhar em sua direção. Um minuto se passou até que ela percebesse que o amigo dele estava atrás de si. Na certa, queria se juntar ao grupo recém-chegado.
Kagome sorriu, inclinando a cabeça levemente pro lado. Ichiro estava com uma expressão tensa e acenou para ela de leve, corando. Ela não prolongou o reencontro e foi sentar-se junto com os amigos na sala seguinte. Sentiu que o garoto estava caminhando atrás dela, mas notou que ele passou direto, para o quarto.
Estar ali, no ambiente dele teve um significado especial para Kagome. Os amigos conversavam animados, mas ela não ouvia nada. Não reparou quando o amigo loiro disse seu nome, nem viu quando ele foi ao quarto de Ichiro para se despedir. Ela olhava para as estantes da sala, repletas de livros e fotos. Era uma sala diferente, cheia de puffs confortáveis e sofás baixos. Mas o que de fato lhe chamou a atenção foram as fotos. Ela viu um menino de uns quatro anos com um olhar confuso. Estava abraçado a uma mulher de expressão gentil e longos cabelos negros, lisos. Supôs ser a mãe de Ichiro. A foto seguinte mostrava ele um pouco mais novo, com um bebê nos braços. Deveria ser Zhang. Haviam várias fotos dela em sequência. Na estante abaixo Kagome pode encontrar mais imagens de Ichiro. Ele batendo os bracinhos numa piscina; com o uniforme da escola; terminando o ensino fundamental e começando o médio, num novo colégio. Em todas as fotos mais recentes ele tinha aquela expressão confusa e desconfiada.
O tempo passou rápido naquela manhã e logo todo mundo estava cogitando ir logo para casa e tomar um bom banho. Gostavam de almoçar na própria universidade e ir para a aula logo em seguida. Ichiro pareceu adivinhar, pois chegou na sala, ainda molhado de um banho perguntando de forma um tanto grosseira até quando Zhang pretendia ocupar o apartamento.
- Calma, irmãozinho. - falou ela, na defensiva - Eles já estão de saída mesmo, a gente tem aula dentro de umas duas horas ou menos.
- Claro, claro - falou Hideki - vamos indo, pessoal.
Kagome estava no canto da sala e portanto foi a última a tentar se levantar. Apoiou-se nos joelhos e deu um impulso, mas não completou o trajeto. Suas pernas fraquejaram e sua visão escureceu. Ela se desequilibrou e foi caindo para o lado, sem conseguir se sustentar em pé. Sentiu um movimento rápido e um par de braços fortes a segurou com firmeza.
- Ei! - Ichiro segurava a menina semi-desmaiada em seus braços - Zhang, volta aqui, sua amiga passou mal!
- Quê? - disse Zhang virando-se abruptamente - Kagome!
O grupo reuniu-se novamente, todos ao redor de Kagome que jazia no colo de Ichiro. Ele segurava todo o seu torso acomodando um dos braços ao formato do corpo dela. Uma outra mão apertava firmemente a cintura da garota. Kagome sentia a barriga formigando.
Éric pousou a mão na testa dela.
- Está suando frio... - ele parecia preocupado - Kagome, você não estava sentindo nada hoje mais cedo?
- É - disse Sam com uma voz ligeiramente culpada - você não veio muito apressada, ou algo do tipo? Esqueceu de comer...?
- Ah... - Kagome respondeu, a voz fraca e os olhos semi-cerrados - Eu... Esqueci.
- Meh! Como alguém pode se esquecer de comer? - falou Ichiro com o mesmo tom de voz que usara para perguntar se ela estava bem depois de visitar o templo - Você é idiota, garota?
- Não fale assim com ela, tá legal? - disse Johnny, com uma voz que intencionava ser ameçadora.
- Porque não?! Eu estou certo, ela deveria ter comido algo!
Kagome gemeu baixinho no colo dele. E tapou o rosto com as duas mãos. Ichiro corou e, inconscientemente, segurou-a com mais firmeza. Continuou o seu discurso, voltando-se para a garota.
- Está me ouvindo, Kagome? Não saia de casa sem comer, garota!
- D... Desculpe.
A resposta dela o pegou desprevenido. A expressão de Ichiro mudou. Carregava um ar de surpresa e vergonha ao mesmo tempo. Ele corou violentamente e apertou ainda mais o corpo de Kagome contra o seu. A cabeça dela encostava-se no peito dele. Tudo o que ela sentia era o aroma refrescante da loção pós-barba.
- Tudo bem, Kagome... - falou Éric, de forma branda - Eu te levo no hospital, a gente come alguma coisa...
- Não precisa... Éric. - Kagome tirou as mãos do rosto lentamente e olhou pra ele - A aula de hoje é importante... Preciso que você anote tudo pra mim, tá?
- Não seja boba, Kagome. Venha comigo. - ele estendeu os braços para segurá-la.
- Não se preocupe. Eu cuido dela. - falou Ichiro, decidido.
Zhang e Sam se entreolharam. Kagome se encolheu no colo dele ainda mais, meio desnorteada. Johnny tinha uma expressão feroz no rosto. Hideki parecia preocupado com a hora da aula. Kayri e Éric estavam lado a lado, ambos encaravam Ichiro.
- Deixa disso, cara, você não precisa... - Kayri tentou argumentar, mas foi logo interrompido.
- Não é incômodo. Eu não tenho aulas hoje. Não pretendia estudar de qualquer forma, eu não preciso. - Ichiro falou, sem esconder sua satisfação.
Houve um silêncio na sala até que Zhang piscou para Sam e bateu as duas mãos audivelmente, encerrando a questão.
- Então, gente, vão pra casa. Eu passarei um tempo aqui com a Kagome e o Ichiro e depois encontro vocês na Toudai. Combinado?!
Sam ajudou Zhang na tarefa de expulsar todos do apartamento. Kayri, Éric e Johnny foram muito a contra-gosto. Cada um deles deu um beijo na testa de Kagome e lançou um olhar feroz para Ichiro.
- Não se preocupem, meninos - falou Sam puxando Éric pelo braço - ela está em boas mãos.
- É. Eu acho bom. - disse ele com um tom seco na voz que não era usado praticamente nunca - Cuide dela... Masagami, não é isso?
Ichiro apenas acenou com a cabeça. E tornou a pousar seu olhar em Kagome que jazia em seu colo meio acordada, meio adormecida.
"Ela é... Linda."
Já deveriam fazer alguns minutos desde que Zhang saiu para tomar um banho rápido antes de ir pra Toudai. Ichiro observava a garota deitada em seu sofá com curiosidade. Os cabelos longos e negros espalhavam-se pelas almofadas em cascatas lisas, curvando-se nas pontas. Os olhos fechados não deixavam aparecer nada daquela cor azul escura que havia sido gravada em sua mente.
Estava abaixado em frente ao sofá. Resolveu levantar-se. Aquela garota não ia melhorar a menos que comesse alguma coisa. Ele foi até a cozinha esperando que Kagome não tentasse nenhuma movimentação brusca. Mas ela estava tão bem deitada que ele duvidou muito.
A cozinha não era tão ampla, mas era funcional. Ele garimpou um pouco de legumes e alguns frutos do mar. Cozinhar não era difícil para Ichiro e, além disso, aquela receita de tempurá ele sabia de cor. Enquanto batia a massa com destreza pensava sobre como a sua vida tinha mudado nas últimas semanas. Sentiu como se estivesse retrocedendo quando foi obrigado a entrar na Toudai. Não tinha aceitado de bom grado a decisão de seu pai de trazê-lo para Tókio. "Eu estava bem em Sapporo. Meh." Com um saldo negativo de expectativas ele não teve outra escolha se não mudar toda a sua vida por causa de Zhang. Para que pudesse "cuidar bem dela nessa nova etapa profissional" segundo seu pai. No entanto, ele sabia que aquela decisão também envolvia um esforço da parte de Zhang em mante-lo longe de encrencas. Não que ele conhecesse essa parte do acordo.
E não que ele se importasse. Sua irmã era a única pessoa que realmente conseguia deixá-lo desconcertado. Ela o conhecia tão bem quanto ele mesmo, talvez até melhor. Apesar de acreditar nisso, Ichiro não concordava com algumas coisas que ela dizia.
Como por exemplo achar que ele estivesse interessado numa garota que havia acabado de conhecer.
Era ridículo. Ele não se lembrava de querer ficar próximo de uma garota desde que sua mãe morrera. Jamais confessaria para Zhang, mas ela não tinha visto o pai definhar durante dois anos até encontrar Ayako. E mesmo assim, ele nunca havia esquecido a primeira esposa. Seu pai poderia ter poupado o seu próprio sofrimento e o da segunda mulher que viveria sempre à sombra de uma outra. No seu íntimo, Ichiro acreditava que a melhor forma de não seguir esse mesmo destino era cortando o mal pela raiz.
Tinha decidido nunca se apaixonar por ninguém na vida.
E no colégio que frequentava em Hokkaido ele tinha fama de garanhão. Mas isso não era necessariamente verdade. Ichiro não ficava com qualquer uma, sem critério algum. Pelo contrário... Ele observava a garota por um tempo e quando ganhava a certeza de que nunca se apaixonaria por alguém com aquele perfil, ele se decidia. Talvez tenha sido o hábito de ficar com essas garotas e deixar claro desde sempre que não queria nada sério que rendeu à ele o falso título. Era meio incômodo ser conhecido como um galinha, sendo que ele só estava tentando usufruir de relacionamentos casuais (e consensuais!). Mas depois acostumou-se. E com o tempo passou a atrair apenas meninas que não queriam nada sério. Seus planos de não se apaixonar estavam indo muito bem.
E assim tinha seguido sua vida, até o presente momento. Até aquela garota chegar e revirar tudo o que ele tinha construído. Ele se lembrava bem do dia em que a tinha visto pela primeira vez. Ela caminhava pelo corredor com uma expressão distraída até que pousou seus olhos nele. E provocou aquele monte de reações que ele tratou de ocultar com uma boa resposta mau-humorada.
Desde aquele dia, Ichiro sentia-se um pouco obcecado pela menina. Alguma coisa no jeito dela fazia com que ele desejasse uma aproximação. E então passou a observá-la. Não chegava a seguí-la, claro, mas sempre que ela estava por perto, não resistia ao desejo de encará-la. Por isso ficara tão satisfeito quando ela lhe dirigiu a palavra durante sua visita à biblioteca.
Ela não sabia como havia impressionado Ichiro. Provavelmente nem fazia idéia.
E no dia seguinte lá estava a garota se metendo em sua vida de novo. E Zhang dando uma de inocente com aquelas sugestões ridículas que colocavam ele sempre por perto de Kagome. Sim, naquele dia aprendera o nome dela.
E cada sorriso que ela dava, cada risada, cada resposta... Ele se sentia mais e mais envolvido. Transgredia qualquer princípio básico de relacionamentos simplesmente porque aquilo nem era um relacionamento! Era apenas um garoto observando de longe uma garota. Ao menos ele tentava. Se manter longe, quer dizer. Mas não conseguia.
Queria cuidar dela. Queria conhecê-la. Só havia realmente compreendido na noite anterior. Em plena madrugada, com milhões de listas de exercício atrasadas, Ichiro pegou as chaves do carro e saiu. Precisava de ar fresco, precisava pensar. Sem raciocinar muito que caminho estava seguindo ele acabou chegando na rua do apartamento dela. Ficou ali, desafiando os índices de assaltos, encostado no carro. Tentava imaginar em que andar Kagome morava, tentava entender porque ele parecia interessado em saber.
Ficaria quieto, esperando. Não resolveu nada em específico naquela noite. A única coisa que sabia era que seu plano estava indo por água abaixo e que, daquele momento em diante, iria agir apenas por intuição.
"É." Pensava ele, se dirigindo para o carro. "Daqui pra frente vou fazer o que eu realmente tenho vontade."
E se essa vontade o conduzisse para Kagome?
"Foda-se."
- Então, estou indo, viu? - falou Zhang enfiando alguns livros na bolsa - Esse almoço ainda não saiu?
- Quer calar a boca? Eu acabei de começar. - respondeu Ichiro sem disfarçar sua irritação.
- Hm. Isso é tempurá? Você ainda vai demorar uns vinte minutos nisso aí. - Zhang colocou a cabeça por cima do ombro dele, esticando-se na ponta dos pés para tal - Eu acho que vou dar logo um copo de suco pra ela, tá?
- Certo. - disse ele, enquanto preparava o molho - Ligue a televisão. Ela vai morrer de tédio e não de fome.
Zhang riu e pegou um suco na geladeira enquanto passava um pente fino pelos cabelos molhados. Ichiro demorou mais alguns minutos para terminar o prato. Quando terminou de mergulhar as porções no óleo quente deixou algum tempo escorrendo no papel toalha e foi ver como ia a garota.
Ela já estava sentada, mas ainda parecia apática e sua pele estava mais branca do que nunca. Olhava fixamente para a televisão, o controle remoto em uma mão e um copo de suco de laranja na outra. Ichiro sentou-se rapidamente ao seu lado e tomou o copo da mão dela, colocando-o a poucos centímetros de seu nariz.
- Beba. - disse ele - Ainda não tomou nem um gole, pelo que eu estou vendo.
Ela virou-se para encará-lo. Os olhos amendoados encaravam-no com uma expressão cansada.
- Estou enjoada. - e diante da descrença evidente no rosto dele, Kagome repetiu - É sério. Só de sentir o cheiro eu já me sinto meio mal.
- Meh! Mas você passou mal, garota! - resmungou ele, colocando o copo na mesinha de centro - Vou avisando que eu já fiz um tempurá e você vai ter que comer.
Kagome riu de leve. Ichiro recuou involuntariamente, um tanto quanto espantado.
- Eu não estou brincando. - falou ele, cruzando os braços em seguida - Você saiu sem comer, agora aguente as consequências de ter escolhido passar mal logo na minha casa.
Ichiro se repreendia logo depois de falar tais coisas. Ele tentava sim, com todas as forças ser um pouco mais gentil, era em vão. Ser rude já era algo intrínseco à sua personalidade. As pessoas a sua volta tinham que fazer um esforço pra entender que nem por isso ele não se preocupava. Kagome pareceu compreender facilmente. Sob o olhar espantado de Ichiro, ela pegou o suco da mesinha e tomou dois ou três goles. Não havia descido tão mal quanto ela imaginava. Kagome estava pensando inclusive, que só de estar ali sendo cuidada por ele, seu estômago tinha dado um sossego.
"Tudo bem, 'cuidada' não é exatamente o termo...' Coagida', encaixa melhor."
Ela riu da própria piada e colocou o copo novamente na mesinha. Depois se virou para ele e sorriu.
- Muito bem. Satisfeito?
Ele não respondeu. Apenas adquiriu uma expressão de leve surpresa e se levantou bruscamente, voltando com o prato algum tempo depois. Ela estava exatamente do mesmo jeito quando ele chegou. A única diferença era que o copo de suco já estava pela metade. Ichiro colocou o prato na frente dela, apoiado na mesinha. Kagome achou engraçada a forma como ele havia sentado. O corpo estava completamente voltado para ela, mas ele se recusava a olhar. Mantinha-se vidrado na televisão.
- Coma.
Kagome olhou pela primeira vez para o prato. Parecia muito bom e apesar de ser fritura, ela não via nem sombra de óleo pingando ou algo do tipo. Parecia delicioso. Ela pegou uma porção, mordeu. Estava de fato muito bom.
- Foi você que fez? - perguntou Kagome, servindo-se mais um pouco - Ficou ótimo!
- É... - a voz de Ichiro saía hesitante - Uma receita que aprendi há muito tempo.
- Ah...
Durante alguns minutos, as únicas coisas que eles podiam ouvir era a televisão e o som de Kagome mastigando a massa crocante. Ichiro pensava em algo que pudesse dizer, queria a todo custo estabelecer algum tipo de conversa com Kagome, agora que eles estavam a sós. Mas não podia. "Vou acabar me atrapalhando e falando algo que a magoe e... Porque diabos eu me importo se vou magoá-la ou não?! Droga." Foi despertado de seus pensamentos quando ouviu Kagome começar a falar, olhou para ela, automaticamente.
- Então... - ela pousou a porção de tempurá no prato - Com isso... Selamos a paz?
Ichiro sentiu-se corar da cabeça aos pés. Ele sabia. Ele sabia que causara essa impressão nela. Zhang sempre lhe falou que com sua cara de mau-encarado ele conseguiria facilmente espantar qualquer um. Por sorte, nascera bonito. Incrivelmente lindo. E muitas das meninas de sua antiga cidade pouco ligavam se ele as fuzilasse com o olhar. Mas Kagome não. Kagome se importava. Ela se esforçava para tentar interpretá-lo.
- Eu... - ele começou, sentindo-se um pouco culpado, a voz já não saía mais tão rude - Eu nunca tive nada contra você.
Kagome riu. Uma risada sonora. E se fosse qualquer outra pessoa no lugar dela teria feito Ichiro irritar-se. Mas os efeitos que ela provocava eram completamente diferentes de tudo que já havia experimentado antes. Ele queria ouvir mais da risada dela.
- Eu sei que não. - Kagome disse e recebeu um olhar confuso de Ichiro - Nem me pergunte como eu sei disso. Eu só suspeitava que você era assim com todo mundo. Você sabe. Zhang me falou bastante sobre você depois daquele dia.
Ichiro sentiu a vermelhidão de vergonha voltar a dominar suas bochechas. Como odiava sua irmã mais nova intrometida. "Se ela tiver dito alguma coisa além do necessário, eu acabo com ela."
- Oh, não se preocupe. - Kagome interrompeu novamente seus pensamentos - Ela não me falou nada demais.
Ele não podia acreditar que depois de anos vivendo numa mesma cidade com as mesmas pessoas uma estranha pudesse adivinhar o que ele estava pensando daquela forma. Ela sabia. Ichiro se sentia invadido perto dela. Era assustador, para alguém que passou tanto tempo se escondendo, mas era emocionante. Ele se sentia inseguro, se sentia como um livro aberto, mas ainda assim estava gostando. Tinha curiosidade de saber onde aquela conversa iria conduzí-los e no final das contas, isso falou mais alto.
De repente os dois ouvem um barulho de celular tocando. Era o de Kagome. Ela procurou pela bolsa no sofá. Ainda teve tempo de se lembrar que tinha esquecido na sala, mas Ichiro foi mais rapido e ja estava voltando com a bolsa em mãos.
Kagome agradeceu e olhou para o visor do celular. Era Éric.
- Oi...
Mas antes que ela tivesse tempo de pensar em algo para falar, a voz do francesinho saiu, meio que berrando, num tom de evidente preocupação.
- Kagome, como é que você está?!
- Aaah... Eu já to bem melhor. Eu...
- Você tá comendo alguma coisa?!
- To, to... - Ichiro sentou-se no sofá e olhava pra ela de esguelha tentando captar alguma coisa da conversa - Ichiro fez tempurá e...
- Tempurá?! Mas isso é fritura, Kagome, você não pode comer... - seguiu-se uma série de palavras em francês que Kagome não conseguia dinstinguir. Era costume de Éric mudar para o francês sempre que ficava nervoso. Kagome sentia-se lisonjeada com a preocupação dele e sabia que tempurá não era a comida mais leve do mundo, mas mesmo assim. Incomodava-se ouvir alguém, quem quer que fosse, criticando Ichiro daquele jeito.
- Olha, Éric, tenha calma. Tá? - ela disse, meio irritada e tentando acalmá-lo - Eu estou bem melhor. Tomei suco e comi quase que um prato inteiro de tempurá. Então, eu estou indo aí, certo?
- Como assim "eu estou indo aí"? - disse Éric, não estava tão nervoso quanto antes, mas ainda parecia preocupado - Você vai ficar em casa, mocinha. Quem garante que não vai ter outra tontura?
- Éric... - Kagome olhava para Ichiro discretamente e já tinha percebido que a voz gritante do amigo não ia passar despercebida por ele.
- Não, não, não. Já combinei com os meninos. Essa semana você não vai dirigir, a gente vai se revezar pra deixar você na Toudai e trazer de volta quando as aulas terminarem.
- Mas... - Kagome odiava que lhe dessem ordens e, nesse ponto, não estava disposta a amenizar sua irritação.
- E é melhor que você descanse hoje, tá?
- Éric... Eu já sou bem grandinha pra vocês ficarem cuidando de mim desse jeito. Tudo bem, eu não vou pra Toudai hoje, mas amanhã vou estar dirigindo normalmente, quer você queira ou não.
- Não! Peraí, Kagome, vamo negociar! Amanhã você vai comigo, certo?!
- Éric, menos...
- Só amanhã!
- Que seja. - meio a contragosto, Kagome concordou. Ele não ia sossegar enquanto ela não concordasse com aquele absurdo.
- Ótimo, ótimo! As meninas mandam um beijo pra você. Ah! Passe o telefone para o seu amiguinho, por favor.
Kagome gelou. Éric ia falar alguma coisa realmente constrangedora, ele estava se comportando como seu irmão mais velho, do mesmo jeito que fez quando ela ficou estudando até tarde. Quando abriu a boca, para argumentar, sentiu um braço passando em seus ombros e puxando-a pra perto. Ichiro pegou o celular da mão dela enquanto ela corava violentamente, tremendo só de pensar que estava nos braços dele.
- Queria falar comigo? - disse Ichiro, num tom divertido.
Ele parecia se divertir irritando outras pessoas.
Kagome ouvia claramente a voz de Éric do outro lado da linha.
- Olhe, cara. Eu espero sinceramente que você não a deixe dirigir de volta pra casa, entendeu? Já não basta ter dado tempurá pra ela comer. Tempurá!
- Ela estava na minha casa, eu dou o que eu achar melhor. E não se preocupe, sua namoradinha não vai dirigir hoje.
Kagome olhou para Ichiro beirando a indignação e balançou o dedo tentando dizer que não era namorada de Éric coisa nenhuma. Ichiro mal olhou para ela.
- Muito bem - a voz de Éric se fez ouvir do outro lado - Acho bom.
E desligou. Kagome estava aninhada no ombro de Ichiro. Ele esquecera o braço descansando na cintura da garota. Ela, por sua vez, cruzara os seus braços querendo demonstrar o tamanho do absurdo que havia sido Éric não negar que eles eram namorados. Ichiro jogou o celular dela num canto do sofá e voltou a olhar para a televisão. Kagome não acreditava que ele pudesse deixar passar uma brincadeira de mau gosto daquelas e resmungou alguma coisa monossilábica pra chamar a atenção dele. Ichiro virou a cabeça e eles ficaram a poucos centímetros de distância.
- Que foi? - disse ele como se Kagome estivesse dando um showzinho a troco de nada.
- Como assim "o que foi"? - ela disse, ligeiramente exaltada.
Queria que Ichiro demonstrasse algum tipo de preocupação com relação a ela ter um namorado, mas ele permanecia descontraído. Estava com um sorriso sacana nos lábios, como se tivesse chegado exatamente aonde queria. Permaneceu calado, olhando pra ela com aquela expressão e quando Kagome sentiu-se corar, retomou.
- Eu não sou namorada dele.
Ichiro riu. Era a primeira vez que ela ouvia a risada dele, mas soava muito familiar. Ele descansou a cabeça na mão que não estava na cintura de Kagome e continuou mirando a tv despreocupadamente.
- Eu sei que não é. - disse, por fim.
Kagome descruzou os braços. Não conseguia entender o que ele estava achando de tudo aquilo. Tentou se explicar quando viu que Ichiro não pretendia voltar ao assunto.
- É que... Você falou aquilo e... Ele não desmentiu, então achei melhor...
- Olha, Kagome. - falou ele, olhando pra ela com uma expressão menos descontraída dessa vez - Se você não quiser nada com esse tal de Éric, acho melhor deixar bem claro.
- Ele sabe que não tem nada entre a gente. - disse Kagome, novamente indignada - E quem você pensa que é pra ficar fazendo essas suposições idiotas?!
Ichiro riu mais uma vez. Parecia estar se divertindo muito com aquele diálogo.
- Eu não estou supondo coisa nenhuma. Esse cara quer ser muito mais do que só um amigo pra você, garota. - ele tornou a olhar para Kagome e pensou alto, mais alto do que deveria - Quem não iria querer... Er...
- Como disse? - falou Kagome, aproximando-se mais ainda dele.
Seus rostos ficaram perigosamente próximos durante alguns segundos. Kagome não soube dizer se havia imaginado ou não o olhar de Ichiro descer em direção a sua boca. Ele sentiu uma enorme dificuldade para evitar as faíscas que saíam do contato entre eles. Foi quando percebeu que sua mão estava apertando a cintura dela com mais força do que deveria. Ele soltou-a bruscamente e se afastou meio metro da garota, como se tivesse sido eletrificado. Kagome assustou-se com o gesto e se afastou mais meio metro dele. Os dois ofegavam um pouco.
Kagome pegou uma porção de tempurá e colocou quase que inteira na boca. A desculpa perfeita para não falar mais nada. Ela olhou para Ichiro. Ele estava com uma mão apoiada no abdômem e a outra ainda segurando sua cabeça. Passou-se mais um tempo, ambos em silêncio até que ele falou, ainda olhando para a frente.
- Você já terminou?
Kagome, de boca cheia, balançou a cabeça afirmativamente. Ichiro não olhava para ela, então não havia visto o gesto. Olhou para ela e já ia perguntar de novo, mas soltou uma risada quando viu que Kagome tinha a boca lotada de comida.
Ela se esforçou para não rir e engoliu. Ele tinha um sorriso muito bonito. Os dentes eram brancos, alinhados, um pouco pontudos. Ela sorriu para ele, tomando um gole de suco em seguida. Apesar de tudo, eles se sentiam muito a vontade naquela situação.
- Quer ir pra casa? - perguntou ele, olhando-a.
Ela queria dizer que não. Queria ficar com ele a tarde inteira com ele, descobrindo que atitude ele tomaria se ela o abraçasse, o beijasse. Mas era loucura. Haviam acabado de se conhecer, apesar de Kagome sentir, agora ainda mais, que aquela não era a primeira vez que eles se viam. E justamente por causa disso ficava confusa com relação a como agir perto dele.
- É, acho que sim.
Aquela resposta, por mais que fosse sensata, deixou-o triste. Ichiro não queria deixar de se sentir vivo com se sentia quando Kagome estava por perto. Mas admitiu pra si mesmo que seria absurdo se ela respondesse outra coisa. Que sentido faria em passar a tarde com um completo estranho? Apesar de saber que aquilo era um fato, não era assim que ele se sentia perto dela. Houveram situações constrangedoras sim, mas ele ainda achava que nunca se sentira tão ele mesmo com alguém antes. "É como se... Eu já tivesse convivido ela..." Mas era impossível. Eles viviam em lugares totalmente diferentes e aquela era a primeira vez que ela vinha à Tókio. Toda a sua vida viveu na ilha de Hokkaido.
Ela se levantou com o prato na mão. Ichiro também levantou-se quando viu que ela pretendia lavar a louça. Kagome se desequilibrou e ele conseguiu oferecer apoio com um braço, enquanto o outro tomava o prato da mão dela.
- Vai devagar aí, garota. E deixe esse prato comigo!
Kagome assentiu, soltando o braço dele e voltando a se equilibrar novamente. Ichiro foi caminhando em direção a cozinha com o prato numa mão e o copo em outra. Kagome pegou sua bolsa e o seguiu. Quando percebeu que ela estava por perto, Ichiro comentou.
- Foi uma idéia bem estúpida essa sua de sair sem comer.
Kagome levou na brincadeira, adquirindo um tom divertido.
- Eu sei. Não vou fazer mais isso.
Ele não respondeu, apenas colocou o prato na pia e lavou as mãos. Em seguida andou na direção dela e pediu a chave do carro.
- Você levou mesmo em consideração o que Éric disse? Eu dirijo, estou perfeitamente bem!
- Você acabou de tropeçar nos próprios pés! - ele respondeu, com a mão estendida, pedindo a chave - Vamos, eu também não quero ser obrigado a brigar com seu namoradinho.
- Que seja, por precaução! - disse ela irritada, entregando a chave - E ele não é meu namorado, eu já disse!
Ichiro foi andando, sem dar atenção a ela. Dava pra ver que ele estava extremamente satisfeito só de olhar para o seu rosto. De fato, aquilo era exatamente o que ele queria ouvir. O porquê continuava sendo um mistério para ele. A sua única certeza era que queria se aproximar mais e mais daquela garota e ninguém iria impedí-lo. "Nem aquele bando de amiguinhos super-protetores; nem a minha total falta de jeito."
Os dois percorreram o caminho inteiro em silêncio. Kagome já se sentia ótima, não havia sinais de que havia passado mal duas horas atrás. Mas por dentro, diversas dúvidas assolavam sua mente. E o pior de tudo: ela não tinha a quem recorrer. Pensava como ia conseguir lidar com os próximos dias - e meses - tendo aquela sensação estranha com relação ao garoto sentado ao seu lado. Com quem iria desabafar? Com Souta? Certamente que não. Imaginou-o empolgando-se como nunca ao saber que suas suspeitas haviam sido passadas para Kagome. Ela não poderia.
E quem acreditaria que ela viajara meio século no tempo; conhecera um hanyou e apaixonara-se por ele? Quem acreditaria que ela suspeitava que Ichiro era a reencarnação desse meio-youkai? Sua cabeça parecia querer explodir a qualquer momento. Era assustador.
Sentiu o carro parar de repente. Quando notou, já tinha chegado ao seu destino. O carro já estava no estacionamento escuro do prédio. Ela olhou para o assento do motorista, deparou-se com o olhos marcantes de Ichiro.
E foi nesse momento que ela relembrou a parte boa de tê-lo encontrado. Sem se dar conta, ela sorriu.
- Que foi? - rosnou Ichiro e quando Kagome destravou a porta para sair do carro, ele insistiu - EI! O que foi, garota?!
Ela já estava fora do carro quando colocou a cabeça pela janela e estendeu a mão no intuito de pegar a chave do carro de volta.
- Obrigada.
Ele ficou extremamente sem jeito. Eram palavras raras em seu vocabulário. Limitou-se a tirar a chave da ignição e entregar a Kagome enquanto saía do carro. Eles se dirigiram ao elevador juntos e em silêncio.
Quando entraram, Kagome pressionou o botão que indicava o sétimo andar enquanto Ichiro apertou o da recepção. Ela ainda lembrou-se de perguntar antes que as portas finalmente se abrissem.
- Como você espera voltar pra casa?
- Heh. - ele passou a mão nos cabelos, tornando-se ainda mais charmoso - De metrô, claro.
Kagome balançou a cabeça num sinal afirmativo. Ele já estava de costas quando ela emitiu num sussurro uma última frase.
- Me desculpe. - não sabia como ele iria interpretar aquilo, tratou de se explicar - Por... Por qualquer incômodo que eu tenha ca...
- Não causou. - ele segurou a porta do elevador olhando para ela.
Qualquer um diria que ela tinha sim causado muito incômodo a ele. As sobrancelhas expessas estavam franzidas, como geralmente ficavam; a boca estava fechada, levemente curvada para baixo e mesmo coberto de roupas, Kagome percebeu que todos os seus músculos deveriam estar tensos. Muito provavelmente.
Só ela via as mudanças sutis, quase imperceptíveis naquele rosto. E ela gostou. Parecia algum tipo de segredo que só ela sabia, mais ninguém. Duvidava que até mesmo Zhang fosse capaz de notar. Ou será que tinha sido só sua imaginação?
Ele se foi na mesma velocidade que seus pensamentos varriam sua mente, sem dó ou piedade.
20 de julho, 2002.
"Talvez hoje tenha sido um dos dias mais difíceis de toda a minha vida. Mas eu tenho certeza que outros muito piores estão por vir.
É. Talvez ele possa mesmo ter a alma de Inuyasha. Fico dividida entre um sentimento de alegria porque talvez essa seja a minha única chance de me apaixonar de novo, mas ao mesmo tempo penso que minha vida poderia passar sem essa. Eu finalmente estava sentindo meu chão. Eu estava sentindo que tinha um foco. Eu fiz novos amigos e poderia até me apaixonar por um deles depois de algum tempo! Eu poderia me apaixonar pelo Éric, por exemplo.
Ok, agora me lembrei que estou puta com o Éric.
Quer dizer, que direito ele tinha de aceitar as brincadeiras sem sentido do Ichiro?! Nenhum! Ele tinha que ter desmentido NO ATO. Nós não temos nenhum outro relacionamento além de uma amizade saudável! Além de eu não gostar nem um pouco que homem nenhum fique me tratando como um objeto, essas coisas tem que ficar claras pro Ichiro! Hum.
Viu, Kagome? Voltamos à estaca zero de novo. 'Porque Ichiro me faz sentir isso? Porque Ichiro me faz sentir aquilo? Mimimimi.' Eu pareço uma adolescente que fica inventando draminhas, tentando descobrir o que é o amor, o que é se apaixonar... Eu tenho que ser forte. Eu tenho que engolir tudo que sei e encarar esse problema de frente.
Eu posso tratá-lo como uma pessoa normal, claro que posso.
Mesmo com aqueles olhos e aquele cabelo e aquele jeito e aquela grosseria que me lembram completamente Inuyasha. Só que pode não ser. E eu tenho que colocar isso na minha cabeça. Eu tenho que ver Ichiro como Ichiro e mais ninguém. Porque no final das contas, é exatamente quem ele é. O que me confunde é toda essa atração que eu sinto por ele. Faz sentido dizer que é SOMENTE porque ele se parece com... O outro lá?
Eu estou me apaixonando por ele ou por uma sombra de Inuyasha na minha vida?
Kagome má, Kagome COVARDE. Chega. Não vou mais escrever aqui. Preciso ocupar minha cabeça com alguma coisa.
Naquele dia, ambos demoraram a dormir. Kagome revirava-se em sua cama, inquieta, observando a pequena jóia lilás que repousava em seu pescoço. Ouviu o celular tocar várias vezes, mas não ousou se levantar nenhuma delas para atender ou ao menos verificar quem era.
Em um outro apartamento, não muito distante, Ichiro tentava descansar. Mas não pode. Sua mente era constantemente invadida por pesadelos terríveis. Estava sempre sozinho, num lugar escuro, enfrentando seus maiores medos. Ele passou a noite sendo despertado de hora em hora. Sua cabeça latejava ao final do processo.
Seriam dias difíceis.
