Observações da autora:
Se vocês pretendem escutar a "trilha sonora" desse capítulo preparem aí as músicas:
- "My Generation" by The Who
- "Sorry Suzanne" by The Hollies
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Capítulo 8
Kagome estranhou o som que a acordou naquela manhã. Era diferente, era uma música. Ela tateou o criado-mudo que ficava ao lado da cama. Escolheu o objeto que tinha a forma mais parecida com o seu celular e logo reconheceu os botões dele. Ela nem se deu o trabalho de tirar a confortável máscara pra dormir de pelúcia rosa. Apertou um botão que rezou pra ser o correto e colocou o celular no ouvido.
- Oi - disse, com um leve toque de mau humor.
- Kagome? - a voz de Éric soou cheia de disposição coisa que faltava à Kagome naquela manhã - Pode descer, já estou aqui embaixo.
- Do que porra você tá falando? - Kagome tirou a máscara, encarando um sol já alto.
Éric continuava falando do outro lado, mas ela se poupou de escutar as explicações dele e olhou imediatamente para o relógio ao seu lado. Faltava quarenta minutos para a primeira aula de quarta-feira começar. Ela se arrependeu imediatamente de ter jogado um palavrão para o amigo logo cedo e pôs o telefone no ouvido enquanto se levantava da cama, apressada. Interrompendo a explicação dele, ela se dedicou a bolar algum discurso de desculpas decente.
- Ai, Éric! Me perdoa, de verdade! - ela correu para o banheiro, tirando a camisola e as roupas de baixo - Eu prometi que iria com você hoje, eu sei, mas eu acabei de acordar! Olha, vai na frente, eu não me incomod...
- Não, Kagome! - ele falou, soando sinceramente preocupado - Olha, eu vou ficar esperando aqui. Você desce quando estiver pronta.
- Olha, Éric. Vá pra aula, certo? Eu tenho que desligar, eu vou tomar um banho na velocidade da luz agora. Me deseje sorte e guarde um lugar do seu lado pra mim! Beijo, tchau!
Kagome nem deu a ele tempo para retrucar. Escutou o celular tocar várias vezes enquanto se molhava rapidamente, mas não atendeu até que estivesse completamente pronta. Nem ao menos secou o cabelo antes de sair e pegou a primeira roupa que estava na sua frente. Uma camiseta branca de gola v bastante confortável e uma calça jeans justa, bem escura. Optou por calçar as sandalias de dedo mais práticas e pegou uma grande bolsa preta onde enfiou todos os livros que foi capaz de lembrar. Levou seu casaco vermelho caso a sala estivesse fria e, antes de sair, lembrou-se de colocar vários lanchinhos na bolsa que pudessem substituir seu café-da-manhã.
Por fim, pegou as chaves do carro e saiu do apartamento em disparada. Assim que abriu a porta, deu de cara com Éric saindo do elevador. Com o susto, sua voz saiu num misto de surpresa e indignação.
- O que você ainda tá fazendo aqui, Éric?!
- Eu não ia deixar você dirigir, Kagome! - disse ele, ligeiramente magoado com a abordagem - Aposto que nem ao menos comeu antes de sair, não é?
Ela parou abruptamente ao saber que Éric havia pegado no seu ponto fraco. Kagome sabia que era errado sair sem comer principalmente quando havia passado mal no dia anterior. Mesmo assim, que outra alternativa lhe restava?
- Não, eu não comi! - disse ela, evidentemente irritada - Mas estou levando alguma coisa pra beliscar antes da aula começar. Agora, se me der licença...
- Deixa de ser orgulhosa, Kagome. Vamos. Você come enquanto eu dirijo. Já estou aqui mesmo!
Ela pensou bem e viu que não poderia recusar nem que quisesse. Se seu amigo já havia esperado todo aquele tempo, a melhor coisa que ela tinha a fazer era aproveitar a carona. Além disso, ela não conseguiria comer e dirigir naquele trânsito infernal nem com toda a agilidade dos ninjas.
Ela cedeu com um leve sorriso e deixou que Éric segurasse seus pertences.
Kagome lembrou-se aos poucos que estava irritada com o amigo. Esperava que ele fosse ficar ao menos constrangido com a brincadeira que havia feito no dia anterior. Mas ele lidava com uma naturalidade impressionante. Parecia que era algo corriqueiro para ele. Dizer que namora com as amigas. Seria mesmo? Também ocorreu à Kagome a hipótese levantada por Ichiro de que Éric tivesse um certo interesse nela. Mas até aquele momento, ela achava que era apenas o jeito atencioso e prestativo dele. Nunca se viu especial, nem achava que suas amigas Sam e Zhang haviam percebido algo fora do normal. E sabia que se elas percebessem, iriam soltar no mínimo algumas indiretas.
Éric tentava puxar assunto, mas Kagome mantinha a boca cheia o suficiente para poder ficar calada sem gerar aborrecimentos. Estava ficando cada vez mais irritada com ele, com a maneira como ele não tocava no assunto. Apenas queria um pedido sincero de desculpas, mas o garoto parecia desconhecer qualquer sombra de constrangimento.
Eles chegaram a Toudai em cima da hora, de forma que correram para a sala assim que desceram do carro. Apesar de Éric ter insistido em carregar novamente sua bolsa, Kagome negou, esperando expressar um certo aborrecimento com ele. Mas nada que ela fazia parecia fazer efeito.
Kagome entrou na sala primeiro, por sorte deles a professora ainda não havia chegado. Sam havia guardado um lugar para ela ao seu lado e Kagome correu para ele. Na verdade era perfeito porque dessa forma ela não iria sentar muito próximo de Éric. Dos lados estavam Sam e Kayri, na sua frente tinha Hideki (sempre o primeiro da fila) e atrás dela havia Johnny. Zhang se sentara na frente de Samantha e ao lado de Hideki. A única opção de Éric foi sentar-se atrás de Kayri, mais distante do resto do grupo.
Kagome não teve muita dificuldade para prestar atenção nas aulas. No início estava meio distraída com todos perguntando se ela realmente estava bem, se tinha comido direito e outras coisas. Mas naquele dia em especial os professores resolveram aplicar muitas atividades que exigiam a participação dos alunos. Era empolgante e desafiador. E mantinha a mente de Kagome longe de um certo garoto sentado algumas salas mais distante.
Entretanto, a raiva que ela sentia de Éric não passou despercebida para as duas amigas. Entre uma atividade e outra, Zhang e Sam tentavam descobrir o motivo do desentendimento.
- Ei! Ei! - sussurrava Zhang - O que o Éric te fez pra você tratar ele desse jeito, Kagome?
- Ah, você também percebeu?! - falou Sam suspreendendo-se - Então, Kagome, disfarce um pouquinho melhor, viu?
- Oras, mas vocês duas! - Kagome olhava furtivamente para o professor enquanto tentava estabelecer uma conversa com as amigas - Não aconteceu nada. Quer dizer... Não que ele tenha percebido.
- Oras, vaaamos, Kagome - implorou Zhang, temendo que a conversa das duas fosse interrompida a qualquer momento - Ichiro também anda todo misterioso, mas ele não me contou nada sobre Éric te irritar ou coisa assim.
Kagome percebeu que as duas não iam desistir tão fácil e prometeu contá-las tudo assim que elas tivessem uma pausa nas aulas do dia. Isso seria por volta da hora do almoço. As três combinaram de comer num restaurante ali perto que fazia uns sushis e sashimis realmente deliciosos. Quando o último sinal da manhã tocou e as três levantaram-se para sair juntas a voz de Kayri as chamou.
- Garotas? Aonde vocês vão?
- Ah, hoje é só para meninas, Kayri. - falou Sam nem um pouco constrangida - Sinto muito!
- Como assim? - disse Johnny - O que vocês tem pra conversar que a gente não pode saber?
- Oras! - Zhang colocou as mãos na cintura, batendo o pé - Não podemos ter assuntos a tratar longe de vocês?
- Ok. - interrompeu Hideki, para espanto de todos - Agora até eu começo a ficar curioso.
- Vocês não podem dar nem uma pista?! - falou Kayri tomando uma expressão sedutora - Qualquer pista!
As três meninas riram e Sam tomou a palavra novamente.
- Estamos de saída. - ela se virou, jogando os longos e sedosos cabelos castanhos - Esperamos sinceramente que vocês sobrevivam sem a gente!
Assim que deixaram os muros da Toudai e trataram de se certificar que nenhum dos meninos havia visto aonde elas estavam indo, Kagome foi massacrada com perguntas.
- Olha, amiga - começou Zhang - nem adianta você tentar negar nada. O Ichiro não tava com aquele olhar de peixe morto sem motivo.
- Quêêêê?! - espantou-se Sam, tapando a própria boca - Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?! Eu sabia! Sa-bi-a que existia um tipo de tensão entre vocês. Tava na cara! Super deu pra notar!
- Claro que não, Sam! - desmentiu Kagome, parando em seguida para considerar melhor a declaração da amiga - Quer dizer...
- Viu?! - Zhang deu pequenos gritinhos, ela pulava alegremente como um coelhinho agitado - Você hesitou! Ora, Kagome, não adianta disfarçar pra cima da gente. O modo como ele insistiu em cuidar de você, haha, aquilo confirmou tudo!
- O-o-o quê?! - Kagome arregalou os olhos de repente - Ele queria cuidar de mim?!
- Você não ouviu? Ah! - Sam lembrou-se de alguma coisa - Ela estava desmaiada, Zhang.
O diálogo das duas continuou durante alguns momentos sem Kagome. Ela não sabia daquele fato. Apenas se lembrava do que havia acontecido quando Zhang lhe trouxe o copo com suco. Ela apertou os livros contra o peito com mais intensidade e corou só em imaginar a cena. Ichiro insistindo para cuidar dela. Desde quando ele era o tipo de garoto que fazia isso? Ele não parecia estar infeliz em ter Kagome ali, mas ela não imaginou nem por um momento que Ichiro pudesse ter sido capaz de fazer questão de tal coisa.
- Então... - Kagome olhou de uma para outra, estava meio constrangida com a pergunta que iria fazer para as amigas - O que... O que ele disse?
Elas sorriram compreensivas. E a partir daquele momento o assunto perdeu um pouco mais do tom de brincadeira. Sam e Zhang entenderam que Kagome estava se apaixonando. E apesar de não fazerem a menor idéia do que havia acontecido três anos atrás, entenderam que a amiga não sentia aquele tipo de coisa há um bom tempo. Foi Zhang que começou a falar.
- Bom, quando você desmaiou ele te segurou. Disso você lembra, não?
Kagome assentiu com a cabeça lentamente, suas bochechas adquiriram um novo tom de rosa.
- Não tem motivo pra ficar envergonhada, Kagome! - disse Zhang ao perceber a mudança, Sam soltou uma risada discreta - Bom... Então... Ah!
- Eu lembro que todo mundo correu pra saber como você estava. - Sam interrompeu a amiga - Éric, Kayri e Johnny foram os primeiros e eles pareciam bem incomodados por verem que era Ichiro que estava com você no colo.
- Foi mesmo! - disse Zhang - E eles começaram a brigar, não foi?
- Brigar?! - espantou-se Kagome - Mas... Porque?
- Bom, os meninos não queriam que você ficasse na casa da Zhang - continuou Sam - Éric preferia te levar para o hospital mais próximo e pretendia perder a aula... Você sabe como ele é.
- Disso eu me lembro também. - falou Kagome - Mas depois...
- Depois Éric e Ichiro começaram a discutir. - completou Zhang e em seguida ela começou a dar pequenos gritinhos e pulinhos - Sim! Sim! Eu me lembro do que o meu irmão disse na cara do Éric! Ele disse algo como "eu que vou cuidar dela, não se preocupe!"
Kagome e Sam riram da imitação que a amiga havia feito do irmão. Sam ainda lembrou-se de acrescentar mais à conversa.
- Eu também me lembro que o Kayri tentou insistir de novo, mas Ichiro parecia bastante decidido. Ele disse que não teria aula naquele dia, que não era incômodo nenhum e tal...
Kagome mal podia acreditar no que ouvia. Ela também se sentia ainda mais confusa do que antes, aliás, tudo só parecia piorar nesse sentido. Ela gostou de saber que Ichiro tinha, de certa forma, brigado por ela. Agora mais do que nunca desejava vê-lo de novo. Precisava saber que tipo de reação teria ao encontrá-lo novamente, que tipo de reação ele teria. Mas logo as amigas solicitaram a participação dela na conversa e Kagome deixou os pensamentos de lado.
- Mas e então, Kagome-chan? - Zhang empurrou de leve a amiga para chamar a atenção dela - Porque você está tão brava com o Éric?
Nesse momento elas entraram no restaurante. Não estava tão lotado, pois ainda era bastante cedo para almoçar. Ainda nem havia dado meio-dia. Kagome respirou fundo enquanto elas procuravam uma mesa e se sentavam e foi despejando toda a sua irritação com relação à Éric.
- Olha, vocês sabem que toda brincadeira tem limites, não é? Pois bem! Éric perdeu a noção de tudo.
- Calma, Kagome! - disse Sam, acomodando sua bolsa numa cadeira - O que ele fez?
- Eu estava com Ichiro e então meu celular tocou... Bem, era ele.
- Ah! - falou Zhang enquanto recebia um cardápio do garçom do restaurante - Ele ligou mesmo pra você. Estava preocupadíssimo.
- Preocupado até demais, Zhang. - enfatizou Kagome - Quando ele pediu para falar com o seu irmão eu fiquei realmente preocupada, mas não tive lá muita escolha. Ichiro pegou o celular da minha mão.
- Eu faria o mesmo no lugar dele! - disse Sam cruzando os braços - Se é de mim que estão falando é comigo que vão falar...
As três riram do comentário e Kagome prosseguiu o relato. Já não estava mais tão mal-humorada.
- Então! Ichiro falou algo como "não se preocupe, sua namoradinha está seg..."
- Quêêêêêêêê?! - gritou Zhang explodindo em risadas - Não acredito! Meu irmão é muito atrevido mesmo!
- Não! Espera! Vocês não ouviram o pior! - Kagome fez uma pausa curta para ter de volta a atenção das meninas e então continuou - Éric não desmentiu nada. Ele simplesmente disse: "ah, tá, acho bom" e pronto!
As duas meninas olharam para Kagome, sem demonstrar um terço da reação que a mesma esperava delas. Kagome passou as mãos na frente delas como quem tenta fazê-las acordar para o absurdo da coisa. Sam e Zhang se olham compreensivas e a segunda começa a falar.
- Kagome, qual é exatamente o problema nisso tudo? Eu to meio confusa.
- Oras, eu não sou namorada dele e não gosto desse tipo de brincadeira... Principalmente quando...
- Quando você tem uma paquera à vista, não é? - falou Sam, olhando sugestivamente para Kagome - Sei, sei...
Zhang soltou uma risada sonora. Kagome fez o seu pedido ao garçom rapidamente, voltando a atenção para as amigas.
- Tá. Tudo bem. Eu tava preocupada com o que ele ia pensar. - admitiu ela - Mas bem... Ichiro comentou alguma coisa sobre Éric ter interesse em mim e eu comecei a ficar ainda mais preocupada.
Elas pediram cada uma o prato de sua preferência e em seguida, voltaram suas atenções para Kagome.
- Sabem - disse Zhang, pensativa - sempre senti que todos eles ali tinham uma queda por você.
Foi a vez de Kagome gargalhar. A verdade é que Zhang podia falar o quanto quisesse, ela jamais iria acreditar que tinha tamanho poder. Nunca tinha se achado bonita e atraente. Não era naquele momento que aquilo iria mudar. Kagome não enxergava o quanto seus olhos azuis escuros eram sedutores. Não conseguia ver que seus cabelos combinavam perfeitamente com seu rosto oval; nem que o seu tom escuro resultava num lindo contraste com a pele branca. Talvez sempre tivesse sido assim. Ou talvez ela apenas se acostumara a ser deixada de lado.
- Ora, Zhang... - disse ela, parando de rir e fazendo um gesto descontraído com a mão direita - Também não precisa exagerar! Dá pra vocês focarem um pouco na minha preocupação?
- Aaah, Kagome, Kagome... - falou Sam, levemente entediada, ou fingindo estar - Você se preocupa demais esse é o seu problema. Primeiro: Ichiro não levou essa brincadeira a sério, então seu romance com ele não vai ser comprometido. Segundo: Éric pode ser cavalheiro demais às vezes, beirando o machismo, mas ele é bobo. É só você dar um tranca nele uma única vez e não terá mais problemas do tipo. E por último: não são todos eles que tem uma quedinha pro você. O Hideki, por exemplo...
- Também acho! - interrompeu Zhang dando uma leve batida na mesa que assustou o garçom que estava servindo os pratos - Dessa vez a Sam teve bom senso. Vamos passar para o próximo assunto na nossa pauta de hoje qu...
- EI! - gritou Kagome.
As duas olharam espantadas para Kagome. Foi nesse momento que a mesma sentiu-se sem jeito e assumiu um tom de voz mais tímido do que o que pretendia usar.
- É só que... - ela passou a mão nos cabelos longos e lisos e tentou colocar as duas mechas frontais para trás, sem sucesso - Eu sinto como se tivesse algo errado. Como se Ichiro... - as amigas esticaram os pescoços em direção a Kagome, mas a mesma sentiu-se desencorajada - Ah, quer saber? Esqueçam.
Zhang bebericou seu refrigerante enquanto olhava para a amiga tentando decifrar o que ela estava tentando transmitir. Sam limitou-se a empurrar o prato de Kagome para ela e sorriu delicadamente.
- Coma. É disso que você precisa!
Kagome revirou os olhos e sorriu. Não era como se ela pudesse contar de uma vez por todas a verdade para as amigas. Mas, por alguma razão, ela sentia que podia frear aquela angústia com a companhia delas. E no final do dia, admitiria que estava certa.
Ela começou a comer seus sushis enquanto Zhang abria um pequeno caderninho de notas e pegava uma caneta azul. Ela bebericou um pouco de seu refrigerante e fez uma anotação rápida. Kagome e Sam olhavam intrigadas para os movimentos da amiga tentando imaginar o que ela estava tramando. Zhang deu de cara com elas e suas expressões confusas e esclareceu como se tudo aquilo fosse óbvio demais.
- Temos uma festa pra dar sábado, meninas! Oi?!
Kagome e Samantha se entreolharam agitadas.
- Aaah, é mesmo! - disse Sam - Vamos começar pela lista de convidados?
- Não! - falou Zhang, sem aviso prévio - Não quebre a minha ordem de raciocínio!
Sam olhou pra Kagome sem conseguir conter sua risada. Zhang rabiscava concentrada alguma coisa no caderninho, quem visse de longe poderia até afirmar que era um caso de vida ou morte.
- Sabe, Zhang... - disse Kagome, seu olhar deixando claro para Sam que o que vinha a seguir era uma piada - Você fica tão parecida com o Hideki às vezes!
- Vocês estão com uma fixação por ele hoje, não é? - disse Zhang olhando desconfiada para as duas - Eu sei que aí tem coisa... PORÉM eu não quero descobrir o que é agora.
Sam sugou o refrigerante pelo canudo audivelmente e fez uma expressão evidentemente falsa de quem não se importava. Na verdade ela se importava sim, todas ali se importavam.
- Você quem sabe, amiga. - disse ela.
- Sei mesmo... - Zhang tornou a olhar para as duas - Então! Comecei pela decoração do apartamento, meninas.
- Decoração? - questionou Kagome, confusa - Acho que não precisa disso, Zhang...
- Eu já dei festas naquele apartamento antes e, acredite - ela pousou sua mão na de Kagome - uma decoração vai muito bem. Nada exagerado, obviamente. E claro que a parte de tirar os móveis e tudo que quebra das salas está inclusa.
- Que bom que você está pensando nisso, Zhang.
As três garotas deram pulos em suas cadeiras, sobressaltadas. Kagome reconheceria aquela voz em qualquer lugar apesar de não tê-la ouvido tantas vezes assim. Era rouca, firme com uma leve pontada de tristeza ao final de algumas frases. Ela subiu o olhar para dar de cara com um Ichiro um pouco molhado - certamente de chuva - com uma das mãos se apoiando na mesa, próximo a Zhang. Ele olhava para a irmã que sustentava um olhar de leve desprezo. Sam apenas observava a tudo, curiosa.
- Estou sim, como você pode ver, vai ser como nos velhos tempos. - ela agarrou um dos camarões de seu prato e o colocou a poucos centímetros da boca de Ichiro - Quer? Por sinal... O que você está fazendo aqui?
- Eu... - ele comeu o camarão lentamente, tentando arrumar tempo para pensar.
Zhang afastou a cadeira que estava entre ela e Kagome. Ichiro sentou-se, ainda mastigando, mais próximo da irmã do que de Kagome. Ele apoiou os dois cotovelos na mesa com um braço em cima do outro. Kagome parecia ter sido picada por alguma coisa, estava parada, estática, sem saber como reagir diante da presença de Ichiro. Havia estado atenta durante toda a manhã, mas naquele momento havia sido pega desprevenida.
- Eu estava passando para almoçar, oras.
- Você nem gosta desse restaurante... - disse Zhang entre risos, depois ela olhou para o irmão sugestivamente e continuou - Você não estava seguindo a gente, estava?
Ichiro ficou vermelho da cabeça aos pés. Sam e Zhang gargalharam gostosamente. Kagome permaneceu calada, sem ter reação alguma. Uma vez que Ichiro tinha sentado à mesa, mas ainda não havia lhe dirigido a palavra como ela deveria se portar?
- Não foi nada disso! - falou ele, visivelmente irritado - Sua fedelha enxerida... Eu gosto muito dos sashimis daqui para você que não sabe!
- Aaah... Tá bom, irmãozinho. - disse Zhang, parando de rir lentamente, ela se voltou para Kagome - E então, voltando ao assunto... Kagome, eu estava pensando...
Kagome não soube se havia imaginado ou não a ênfase que a amiga deu em seu nome. Só soube que, no momento, um par de olhos violeta a atingiram. Ela não estava olhando para ele, estava apenas usando sua visão periférica. Tudo o que Zhang dizia para ela parecia dissolver-se no ar antes mesmo de chegar em seus ouvidos. Ela virou a cabeça lentamente para o lado.
Lá estava ele.
Tinha apoiado uma mão no queixo e olhava para ela fixamente. Kagome deu um leve aceno com a cabeça, meio nervosa, mas ele continuou na mesma posição. Seria aquele o jeito que tinha de dar um "oi"? Ela não soube interpretar e tentou voltar suas atenções para Zhang. Kagome reparou quando ele esticou o braço chamando um garçom.
"Não acredito que ele vai almoçar com a gente!"
Todo o seu apetite foi embora. O prato ainda estava cheio de peças de sushi, ela mal havia tocado nele. Embora parecessem muito apetitosos ela jamais conseguiria comê-los quando aquele garoto estava sentado ao lado dela.
Zhang prosseguiu contando como gostaria de dispor os móveis nas salas, Sam dava algumas opiniões às vezes e Ichiro soltava algum comentário mal educado de vez em quando. Kagome era a única que permanecia calada, revirando o prato lentamente, sem coragem de comer coisa alguma.
Elas passaram para a lista de convidados rapidamente e Ichiro observou seu nome ser colocado na lista logo de início pela irmã.
- Nem se dê o trabalho, irmãzinha. - disse ele, molhando um pedaço fino de salmão no molho shoyu - Eu não vou estar aqui nesse dia.
Zhang olhou para ele confusa. Kagome sentiu seu coração se apertar.
- Pensei que você estivesse brincando sobre não ir naquele dia. - ela olhou para o irmão mordendo levemente a tampa de sua caneta - Sério? Você não quer vir mesmo? Eu pretendia chamar alguns de seus amigos.
- Não precisa. Falo sério. - ele limpou a boca com um guardanapo - Eu vou viajar para Hokkaido. Tem algumas coisas que preciso resolver lá.
Zhang deu de ombros e já ia riscar o nome dele da lista, mas não o fez. Kagome viu ela sinalizar um asterisco ao lado e passar para os próximos nomes. Elas ainda discutiram algumas idéias por mais algum tempo até terminarem de comer. E já iam pedir a conta quando Sam olhou surpresa para o prato de Kagome.
- Você não vai terminar?
- Nossa, Kagome! - disse Zhang parando de guardar seu caderno e sua caneta na bolsa - Você quer que a gente espere mais um pouco? Você só não pode demorar muito porque a aula começa em vinte minutos.
- Er... Não, eu... - começou ela, sentindo-se intimidada - Eu estou sem fome. Podem pedir a conta!
- Acho bom você comer, Kagome. - disse Ichiro capturando as atenções da garota - Seu namoradinho poderia não gostar se eu fosse obrigado a cuidar de você de novo.
- Hahaha. - Kagome riu, afetada - Muito engraçado, sério. Ele não é meu namor...
- Já entendi. - disse ele, sem dar muita importância ao que ela dizia.
Kagome tinha certeza que estava mais vermelha do que um morango maduro e limitou-se a olhar com desprezo para Ichiro que sustentava um ar de riso incontestável. Ela sentiu seu apetite retornar e comeu algumas peças rapidamente a fim de pedir a conta e sair logo dali. Só desejava escapar do olhar amendrontador de Ichiro.
E ela conseguiu. Durante uma semana inteira os dois brincaram de gato e rato. Ichiro, ansiava por mais contato com Kagome e já não perdia mais seu tempo pensando no porquê queria conquistá-la. Era o grande enigma, a charada da vez. Mas ele resolveu consigo mesmo que aquilo não era algo que importava naquele momento. E ele avançava para Kagome, fosse estacionando seu conversível bloqueando o carro dela ou puxando conversa quando a garota estava sozinha. Entretanto, Ichiro tinha a impressão de que tudo aquilo estava sendo em vão. Ela simplesmente ignorava-o solenemente sempre que possível. E isso era algo que ia além de sua compreensão. Naquele dia ela havia se mostrado tão simpática e gentil com ele, não? Ou será que havia apenas imaginado que ela fora gentil?
Parecia que a proximidade dos dois estava entediando, e não enfeitiçando Kagome.
E ele não entendia o porquê.
E pensar que bastava ler as páginas de um simples diário para que os entendimentos lhe atingissem em cheio.
23 de julho, 2002.
"Como, meu Deus, COMO eu vou conseguir raciocinar se todas as vezes que eu estou começando a refletir aquela garoto irritante aparece bem na minha frente?! Masagami Ichiro é impossível!
Impossivelmente lindo, atraente, charmoso, rude, grosso e... Perigoso. Eu tenho de me lembrar sempre disso. Ele representa PE-RI-GO. Estou tentando me manter afastada dele, me manter neutra nessa história toda para que eu possa chegar a alguma conclusão. Mas isso não vem acontecendo.
Ok. Eu tinha decidido que... Não havia decidido coisa alguma. E eu preciso pensar. Preciso realmente saber se Ichiro é ou não é... Você sabe. Só que eu não tenho a menor idéia de como vou fazer isto. Eu estive tentando pensar num jeito. Passei minutos olhando para aquela pequena bolinha lilás esperando que, subitamente, alguma resposta incrível me viesse à mente. Mas não houve nada.
Eu só consegui pensar em uma única coisa. Mas é loucura demais para mim. Eu não teria coragem.
O poço não foi selado. E disso eu me lembro. Quer dizer, a não ser que tenha sido selado depois que eu fui embora, mas isso não faria o menor sentido. Todos ali sabiam que eu não tinha motivos pra retornar. Nunca mais.
Atravessar o tempo a essas alturas deve ser bastante arriscado. Eu sinto uma energia muito forte toda vez que chego perto do templo e ela vem, principalmente, do poço e da árvore. Da mesma madeira mágica. Não é coincidência. As coisas podem sair muito erradas se eu alterar o tempo sem nenhuma razão plausível. Eu não recebi um preparo para ser uma grande miko como Kaede ou Kikyou. Mas existem coisas que eu simplesmente sei.
Eu só não sei o quão louco o tempo ficou desde que eu fui embora. Quer dizer, será que se passaram exatamente três anos? Será que não foi muito mais do que isso? Ou será que eu vou voltar e dar de cara com o dia seguinte ao luto por Inuyasha?
Bom... Eu acho que posso voltar. E por algum motivo eu sinto que devo. Que é chegada a hora. Por algum motivo eu sinto que... As respostas que eu busco não podem ser encontradas aqui, nesse mundo.
Mas e quando eu encontrar as respostas? O que eu vou fazer com elas?
O que eu vou fazer?"
Kagome acordou com o caderno revirado em cima de sua cama. Abriu os olhos lentamente se deliciando com a sensação de um sábado. Ela limpou os olhos com os dedos e puxou o caderno para si tentando entender como ele havia não estava na gaveta de sempre. Abriu na última página que havia escrito.
Leu somente uma frase e jogou o diário no chão, com raiva.
- "O que eu vou fazer!" - disse ela, levantando-se num pulo e chutando o caderno para longe, resmungando - Dane-se o que caralhos eu vou fazer... Dane-se.
Ela entrou no chuveiro sentindo o alívio da água percorrendo o seu corpo. Lavou os cabelos, hidratando-os. Queria deixá-los bonitos para a festa que teria mais tarde.
"Uma ótima festa sem Ichiro nenhum pra implicar comigo!"
Ela saiu rodopiando do chuveiro e enxugou-se dançando e cantando. Um bom final de semana iria fazer um bem enorme à ela, sabia disso. Enrolou os longos cabelos negros numa toalha a fim de deixá-los secar por algum tempo e analisou calmamente o closet. O que ela iria vestir naquele dia era um completo mistério! Mas ela bateu os olhos num vestido curto azul marinho e bateu um estalo. Ela analisou o modelo com cuidado.
Nesse momento, a campainha soou. Kagome achou estranho, pois não esperava ninguém naquele dia. Sentindo que talvez fossem suas amigas ela correu para checar o olho mágico. E, de fato, estava certa. Nem se importou em vestir algo além da toalha branca que enlaçava seu corpo e abriu uma brecha da porta, escondendo-se atrás dela quando as garotas entraram fazendo barulho.
- Heeeeey! - gritou Sam abraçando Kagome e quase desamarrando a toalha do corpo dela - Alguém anda fazendo greve de celular!
- Greve? - Kagome riu da declaração da amiga e arrumou a toalha - Ah, eu acabei de acordar e fui direto pro banho... Vocês me ligaram?
- Na verdade, não. - diz Zhang entrando no apartamento com um monte de sacolas de grife - Eu te mandei uma mensagem, mas foi mais um aviso do que um combinado!
- To vendo que a gente te pegou de surpresa, hem? - falou Sam analisando os "trajes" de Kagome.
Kagome riu sarcasticamente repreendendo falsamente a amiga e ajudou Zhang com as sacolas. Acomodaram tudo no pequeno sofá. Ela não deixou de ficar intrigada com o motivo das compras. Enquanto pegava refrigerantes para as garotas ela continuou falando com elas da cozinha. Dadas as pequenas dimensões do apartamento aquilo era totalmente possível.
- Então... Pra que vão servir todas essas sacolas, hem?
- Ah! - falou Zhang - Eu estou sem roupas, precisava de alguma coisa pra hoje a noite.
Kagome e Sam riram da mesma forma, ao mesmo momento. Zhang sempre fazia drama com certas coisas, talvez por sempre ter tido tudo do bom e do melhor. Ela nunca estaria sem roupas. Durante aquele mês inteiro que estudaram juntas ela nunca havia repetido sequer uma peça! No máximo usava a mesma bolsa durante dois ou três dias. Era o tempo limite até que ela enjoasse e comprasse outra.
Kagome chegou com os refrigerantes e começou a vasculhar o que Zhang havia comprado. Louis Vuitton, Chanel, D&G... Para quem tinha cinco vagas particulares de estacionamento em Tókio aquilo não devia ser nada.
- Zhang, sério! - ela disse rindo dos exageros da amiga - Você deveria ir num mercado de pulgas algum dia!
Zhang e Sam soltaram gargalhadas sonoras.
- Tudo bem, eu topo. - depois ela tirou de uma das sacolas um lindo vestido azul royal tomara-que-caia - Mas é que essas lojas de grife são tão mais práticas!
- Ah, Kagome... - começou Sam pegando uma linda sapatilha Jimmy Choo e olhando-a com carinho - Mas se eu tivesse o dinheiro dela eu realmente não perderia tempo com mercado de pulgas! Quer dizer... Olha esses sapatos!
- É... Tenho que concordar com você! - Kagome continuou tirando a toalha dos cabelos úmidos - Se eu não fosse uma pobre mortal que precisa comprar uma peça de cada vez ou parcelar em trilhões de parcelas... Ai, ai!
- Parem vocês duas! - falou Zhang, rindo - Estão me deixando envergonhada, sério!
Kagome e Sam se entreolharam, ainda dando risadas. Era por isso que era tão bom ser amiga de Zhang. Ela era sempre muito generosa e humilde sem soar sonsa e falsa. Ela não deixava de adorar sua vida de princesa e saber que aquilo era para poucos, mas ao mesmo tempo, seria capaz de emprestar qualquer uma daquelas roupas ainda com etiqueta se as amigas pedissem. Era a menina mais adorável e cativante que Kagome conhecera na vida. Deveria ser por isso que Hideki gostava tanto dela.
Sem deixar de se perguntar quando a amiga iria perceber aquilo, Kagome levantou-se e chamou as meninas para o quarto a fim de se arrumar com a ajuda delas.
Primeiro secou os cabelos, deixando que Sam passasse alguns produtos para domar os fios. Zhang se divertia no notebook da amiga, colocando as mais variadas músicas para tocar.
Depois de estar devidamente penteada e perfumada Kagome colocou um vestido branco com e jogou um suéter cinza por cima. Era leve e confortável. E elas iriam precisar de conforto para preparar a decoração do apartamento de Zhang! Foi então que Kagome lembrou-se de checar a hora.
- Meu Deus! São quase três da tarde! - ela disse olhando assombrada para o visor do celular e colocando-o rapidamente na bolsa - Eu dormi muito, nossa.
- É, dormiu mesmo! - falou Zhang - Mas não tenha pressa, Kagome-chan, a gente ainda tem tempo de sobra...
- Hm... Certo. - disse ela voltando-se para o closet, pensativa - Então, devo levar roupas pra dormir por lá mesmo?
- Leve sim. - Zhang já tinha se levantado e estava parada em frente ao closet de Kagome - A Sam já passou lá em casa mais cedo e trouxe... AH! Olha esse vestido!
Ela tinha colocado as mãos no exato vestido que Kagome havia pensado em usar naquela noite. Sam levantou-se para olhar e também aprovou com entusiasmo.
- É, acho que vou usar ele mesmo! - disse Kagome tirando-o da ombreira.
Kagome queria alguma coisa mais dramática que um simples vestido curto então ela separou um par de saltos fechados, altíssimos e pretos e colocou tudo numa bolsa. Juntou também os produtos de higiene, as maquiagens e tudo que iria precisar e então calçou suas botinhas caramelo. Estava pronta para sair.
As meninas entraram no carro de Sam e passaram a tarde inteira escolhendo luzinhas, copos, acessórios e tudo que pudesse deixar a festa mais incrementada e divertida. Esse seria o único trabalho que teriam de fazer - coincidentemente o mais divertido deles - pois Zhang já havia se adiantado e contratara um serviço de buffet para a pouca comida da festa. Além disso, elas não teriam que se preocupar com as bebidas porque já havia alguém contratado para montar os mais diferentes drinques que elas pudessem imaginar.
Três horas depois chegaram à casa de Zhang já um pouco cansadas de ficar de loja em loja procurando enfeites de festa. As três jogaram as sacolas e a bolsa de Kagome no meio da sala e deixaram seus corpos caírem no sofá com sonoridade. Suspiraram e ficaram admirando o fato de estarem paradas até que Kagome comentou.
- Sabem, eu não estou nem um pouco a fim de afastar esses móveis.
- É... - disse Sam soltando um bocejo antes de recomeçar a falar - Isso requer uma ajudinha especial dos nossos amigos.
Enquanto Zhang pedia à cozinheira contratada que trouxesse três refrigerantes bem gelados, Sam fuçou a enorme bolsa Prada em busca de seu celular. Kagome estava ao lado dela e pode ver que tinha discado o número de Kayri. Zhang encostou a cabeça delicadamente no ombro de Kagome que começou a alisar seus cabelos lisos e curtos.
- Kayri? - Kagome e Zhang ouviram Sam começar uma conversa com o amigo - Então, precisamos de vocês quatro aqui no apartamento da Zhang. Agora, de preferência.
As três agradeceram quando a cozinheira, Dorotha, trouxe os refrigerantes. Era uma senhora cheinha e simpática de origem escocesa. Kagome e Zhang beberam os refrigerantes rapidamente enquanto prestavam atenção na conversa de Sam.
- Eu sei que a festa é às dez, mas... - ela fez uma pausa, parecia que estava ouvido impacientemente Kayri tentando inventar uma desculpa - Olha, nós precisamos de vocês mesmo eu e as meninas não vamos afastar os móveis sozinhas.
Sam tirou o telefone do ouvido enquanto Kayri falava e sussurrou para as garotas que havia sido uma péssima idéia ligar para o mais preguiçoso dos meninos. As amigas riram e Sam ainda teve tempo de tomar um bom gole de refrigerante antes de recomeçar.
- Na-na-na-na-não, nós passamos a tarde inteira rodando essa cidade pra fazer uma festa bem bonita, entendeu? E ainda vamos decorar o apartamento inteiro só que vocês precisam dar uma mãozinha n... - Sam parou de falar e fez uma cara de tédio e impaciência, bebeu mais refrigerante e voltou a falar - To nem aí pras suas costas, Kayri. N-E-M A-Í. Tragam as porcarias das roupas de vocês pra tomar um banho aqui mesmo. E se vocês não vierem agora não precisam nem aparecer mais tarde. Não vão nem passar da portaria.
A batalha pareceu estar ganha porque Kagome e Zhang ouviram o tom de voz de Kayri tornar-se nitidamente mais brando e uma expressão de vitória se formar no rosto de Sam.
- Tá bom. Ok. - foram as palavras finais dela - Até mais!
Ela sorriu para as amigas como que confirmando a presença dos garotos e guardou o celular. Zhang levantou-se de repente e começou a catar suas sacolas espalhadas pelo chão.
- Então, vocês duas, me ajudem aqui! - ela caminhava na direção do corredor - Vamos colocar essas tralhas no quarto. Menos as coisas da decoração!
Kayri, Hideki, Éric e Johnny não demoraram para chegar. Ao que parecia estavam todos reunidos na casa do primeiro jogando conversa fora até a hora em que a festa começasse.
Com poucas mudanças, eles conseguiram transformar completamente as duas salas onde se concentraria a festa. Fora a varanda muito espaçosa que também serviria. Os sofás foram afastados para os cantos e devidamente cobertos com capas que Zhang guardava especialmente para aqueles momentos. Tudo que era quebrável saiu de cena e o ambiente se abriu mostrando sua verdadeira capacidade. As almofadas, os puffs e os porta-retratos da família foram transferidos para o escritório. Ao final da arrumação das meninas, o apartamento parecia uma verdadeira boate. Algumas das várias luzinhas que cobriam o teto foram envolvidas em papel colorido dando um aspecto psicodélico à iluminação que refletia no lindo piso de mármore branco. O barman foi instalado em um canto da segunda sala. Os arranjos coloridos substituíram os porta-retratos e uma mesa de guloseimas foi montada rapidamente pelas garotas em um canto próximo à varanda.
Elas contemplaram seu trabalho por alguns momentos e depois seguiram direto para o quarto de Zhang. Os meninos, naturalmente, ficaram prontos muito antes do que elas. Os convidados já estavam chegando quando Kagome dava os últimos retoques na maquiagem.
Estava com o vestido azul, de alças e pegara um cinto de Zhang emprestado para marcar a costura da cintura. Era exatamente do mesmo tom do vestido, mas tinha alguns detalhes em paetê que davam um toque especial. A saia do vestido acompanhava o contorno dos quadris de leve, evidenciando as curvas de Kagome. Ela deu uma pitada de cor na sombra dos olhos: um leve tom de baunilha cintilante tomava conta do resto dos olhos que estavam especialmente azuis naquele dia. Os cabelos estavam soltos, macios caindo-lhe pelos ombros nus. Ela tentou puxar as mechas frontais insistentemente, mas como sempre, desistiu.
- Estou pronta! - anunciou Kagome, levantando-se da penteadeira.
- Só mais uma camada de gloss... - disse Sam retocando os lábios num tom de cereja bastante vivo - Pronto! Zhang? Está pronta?
Elas ouviram um resmungo saindo do banheiro.
- Não sei me maquiar, eu desisto! - declarou ela no seu modo mais sutil de pedir ajuda.
Kagome e Sam auxiliaram Zhang que repetia a cada dez segundos que não queria uma maquiagem muito forte. Ela estava uma gracinha com seus cabelinhos pretos e lisos no ombro e aquela franjinha reta, de menininha. Seu vestido era um tubinho preto trabalhado com paetê e ela quebrava o ar de fofura com um colete jeans escuro e botas de tornozelo. Rica e com estilo. Quem não queria estar no lugar dela?
Sam fazia a linha femme fatale de sempre. Seu vestido era marfim, colado ao corpo e a parte superior se assimilava muito ao corte de um corselet. Das três, ela era a que tinha menos roupa no corpo, desafiando o ar condicionado central do apartamento de Zhang. Seus pés foram envolvidos por lindos sapatos que seguiam praticamente o mesmo tom de cereja de seus lábios.
Eram onze horas quando elas saíram do quarto e a festa já estava cheia de gente. Zhang reparou que o som já estava ligado a um bom tempo, pois sua primeira seleção de músicas já estava na metade. Hideki foi o primeiro a chegar até elas e cumprimentou Zhang de cara. Era visível que ele parecia muito nervoso. Especialmente quando ela ficou na ponta dos pés para envolver seus braços no pescoço dele.
Sam e Kagome se entreolharam e saíram correndo para se juntar ao grupo de garotos mais atraente da festa. Eles pareciam impressionados com a beleza das garotas. Kayri foi o primeiro a expressar sua admiração puxando uma série de aplausos.
- As donas da festa! - gritava ele, tentando superar o som da música - Espere aí, está faltando a...
Eles se viraram para Zhang que aparecia mais ao fundo conversando animadamente com Hideki. Eles se calaram em compreensão até que alguém cortasse o silêncio.
- Façam suas apostas! - disse Johnny, já levantando um braço - Eu digo que hoje mesmo esses dois se acertam!
- Também to torcendo, hem? - disse Kayri piscando o olho para as meninas como quem pede uma opinião.
- Se, somente se... - começou Samantha - Hideki se fizer REALMENTE entender quem sabe a Zhang possa ter alguma chance de dizer "sim"!
- Ah, é! - concordou Kagome.
- Parece que não é só ele que sente essa dificuldade... - começou Éric, fazendo uma pausa dramática - Em expressar o que sente, quero dizer.
Foi inevitável que todos olhassem para ele já que ninguém a não ser Kagome tivesse uma clara idéia do que Éric estava se referindo. Automaticamente os dois se olharam. Éric tentava manifestar seu desejo; Kagome, sua falta de desejo. Naquele momento, Ichiro invadiu sua mente, sem perdão. E ela entendeu o que realmente queria.
Mas ele estava em Hokkaido.
E sua mente estava densa, confusa.
Kagome puxou Sam pela mão dando a desculpa de que iria buscar um drinque. Ela pediu dois cosmopolitans e em seguida olhou para a amiga cruzando os braços.
- Tá, tá! Já entendi - disse Sam colocando as mãos na cintura, tentando cortar o sermão de Kagome pela metade - Você estava certa. Ele está realmente a fim de você.
- Isso pode acabar com o nosso grupo... - Kagome disse e Sam riu, descrente - Estou falando sério!
- Isso só vai desmanchar a amizade de vocês se você permitir que aconteça.
- O que você acha melhor? - perguntou Kagome, confusa - Eu fico com ele? Ou eu deixo como está?
Sam deu uma olhada para Éric que conversava com Johnny e Kayri no mesmo lugar. Ela pareceu fazer uma análise completa do ruivinho, depois se virou para Kagome e disse, enquanto pegava o cosmopolitan que o barman havia feito.
- Kagome, se fosse eu, ficaria com ele sim. - ela tomou um gole longo, porém rápido da bebida e quando a amiga fez menção de falar ela apontou um dedo pedindo que esperasse a conclusão - Essa coisa de ficar com alguém e no outro dia sentir vergonha? Isso a gente deixou no ensino médio! SE você se sentir atraída porque não?
Kagome ficou pensativa durante alguns minutos enquanto tomava sua bebida meio nervosa. Algumas pessoas passaram para cumprimentá-las e quando a última delas saiu, Kagome retomou a conversa.
- Eu só fico pensando se ele está só a fim ou se... Sabe? - ela fez um gesto indefinido com a mão - Se ele realmente gosta de mim, algo do tipo.
- Sinceramente, não sei nem porque estamos discutindo isso. - cortou Samantha fazendo o ar de superioridade que Kagome tanto odiava - Todas nós aqui, me refiro a eu e você, sabemos com quem você realmente quer ficar.
- Ah, pára com isso, Sam! - disse Kagome, soando impaciente - O cara passou a semana inteiro me enxendo o saco! Desde aquele dia no restaurante que ele cismou comigo.
- Ah, você se entrega muito fácil, Kagome. - falou Sam, rindo da bobagem da amiga - Eu nem ao menos mencionei o nome dele. Mas foi a primeira pessoa na qual você pensou! Olha, isso é paixão, hem?
- Vai se foder, vai. - disse Kagome sem realmente ser agressiva com as palavras, já que tinha se entregado ao riso totalmente.
Elas riram por uns instantes até que os olhos de Sam captaram alguma coisa na varanda. Ela começou a brincar com o copo do seu drinque, sensualmente, olhando para um ponto fixo. Kagome virou-se para olhar e viu que ela iria fazer uma presa naquela noite.
- Falando nisso... - disse ela pegando um gancho na última frase dita por Kagome - Acho que eu tenho grandes chances de me dar bem hoje. Vou indo, tá, amiga?
- Não! - Kagome tentou segurar Sam pelo braço, mas ela saiu em disparada jogando os cabelos longos - Espera... Poxa vida!
Kagome tomou os últimos goles do cosmopolitan pausadamente. A vodka descia quente em sua garganta e aquecia o corpo que suas roupas não conseguiam. Ela deixou o copo num balcão próximo e começou a circular pela sala procurando um dos garotos. Sentiu um braço lhe puxando e quando virou-se viu um belo par de olhos claros encarando-a com ansiedade.
"Deus, como esse francês é bonito."
- Kagome... Eu estava te procurando. - disse ele com seu sotaque francês irresistível.
Apesar dela estar totalmente interessada em Ichiro, suas pernas vacilaram um pouco. Olhar para Éric como seu amigo era uma coisa. Mas saber que ele estava querendo algo mais com ela? Saber que ele a desejava no sentido carnal da coisa? Aquilo mexeria com qualquer garota. A aparência provocante e sensual dele atiçava os sentidos de Kagome. Estava deixando-a mais alerta do que nunca. Ela forçou a mente a elaborar uma resposta.
- Ah... Mesmo? - ela deu um risinho que julgou ser sem graça, mas para Éric era extremamente provocante - O que você quer? Precisa de alguma coisa? Uma bebida? Algo pra comer?
- É... - ele se aproximou perigosamente de Kagome, a mão que estava no braço dela indo parar magicamente em sua cintura - Eu preciso de alguma coisa. De certa forma, sim.
Kagome ficou apenas ali, parada, sem saber muito o que responder. Na dúvida, optou por ficar calada. Deixou que Éric se aproximasse mais. Ele chegou devagar bem perto do rosto dela e em seguida mudou de curso afogando o rosto nos cabelos macios que se apoiavam no ombro de Kagome. Ele a pegou pela cintura e começou a dançar lentamente com ela que não havia percebido a mudança na música. Kagome não soube dizer quanto tempo eles passaram ali, dançando juntos.
O cheiro do perfume dele pareceu tomar conta de todo o ar ali presente. Quando ele respirou bem forte uma vez os pelos da nuca de Kagome manifestaram o desejo de se arrepiar. Àquelas alturas ela já estava com os olhos semi-cerrados, completamente entregue à uma carência de três longos anos. Suas mão se apoiavam nos ombros dele. Ela foi conduzida sem nem perceber para uma parede próxima, perto da porta principal. Éric se afastou um pouco mais, colocando uma mecha dos cabelos de Kagome atrás dos ombros dela. Ele segurou o queixo dela com firmeza, mas foi de maneira delicada que a fez olhá-lo nos olhos.
- Você faz alguma idéia do que eu preciso, Kagome?
Ela hesitou. Pensou em sair dali naquele exato momento. O que eles estavam fazendo deveria ser considerado crime em algum código oficial de amizades ou algo assim. A possibilidade de que Éric estivesse realmente apaixonado lhe passou pela cabeça de leve. Os olhos dele a penetravam profundamente demais para que ela pudesse ir muito longe com seus pensamentos.
- Kagome? - Éric riu, sua voz estava perigosamente rouca e sexy - Você ainda está aí?
Ela assentiu com a cabeça levemente.
Ele segurou a cintura dela com mais força, alisava de leve seu braço esquerdo com a outra mão, provocando-lhe arrepios. Seu rosto perfeitamente belo chegou muito próximo do de Kagome.
- Eu perguntei se você sabe do que eu preciso?
Ela se limitou a balançar a cabeça de um lado para o outro num gesto quase imperceptível. Seus olhos pareciam não querer se desgrudar dos dele. Ela estava fascinada com a possibilidade de que alguém realmente pudesse querer ficar com ela depois de todos aqueles anos. Éric se aproximou ainda mais. Os seus lábios encostaram nos de Kagome de leve. Ele sussurrou:
- Eu preciso de você... Sabia?
Ela se sentia bem ouvindo aquelas palavras. Ela se sentia desejada como nunca fora. Inuyasha havia bloqueado sua vida amorosa. E durante o tempo em que ela esteve com ele não houveram oportunidades para que ele pudesse demonstrar o quanto a queria. Éric puxou o corpo de Kagome para si. Sua boca mergulhou na dela, sua língua preenchia cada espaço, com uma delicadeza voraz, planejada. Ele era o amante perfeito.
"Ele é o amante perfeito?"
- Kagome! KAGOME! - uma voz conhecida a puxava de volta para a realidade - Kagom... Oh, desculpe.
Ela saiu dos braços de Éric, assustada com a urgência daquele tom de voz. Era Hideki com uma fisionomia mais preocupada do que de costume. Kagome sentiu um estalo.
- Cadê a Zhang, Hideki?
Ele fez sinal para que ela o acompanhasse e pediu para que Éric chamasse Sam em seguida.
- O que aconteceu?
- Aconteceu que ela não me avisou que aguentava tão pouca bebida.
Ele abriu a porta do quarto de Zhang e logo identificou que a amiga estaria no banheiro. Kagome chamou por ela, mas só ouviu alguns gemidos desconexos. Encontrou-a meio pálida, descalça, com a alça do vestido escapando por um ombro. Ela se apoiava na privada do banheiro, mas Kagome percebeu que ela não tinha colocado nada pra fora.
- Zhang! - ela ajoelhou-se em frente a amiga que levantou a cabeça lentamente - Zhang, fala comigo.
- Eu n... - ela fez menção de vomitar, mas conseguiu se segurar por mais tempo - Não to bêbad... T-to enjoada!
A frase foi novamente interrompida por outra ânsia de Zhang, nesse momento ela ouviu o barulho de um par de saltos caminhando em sua direção. Só poderia ser Sam.
- O que aconteceu aqui? - ela tapou a mão com a boca ao ver a cena - Ai, meu Deus, Zhang?!
- Me ajuda, Sam... - Kagome tentou erguer Zhang pelos ombros - Ela não vai melhorar se ficar aqui desse jeito.
Sam apressou-se em ajudar. Elas conseguiram colocar a garota sentada na privada e começaram a despí-la.
- Ei - falou Sam - ela já... Sabe? Colocou os bofes pra fora?
Kagome riu. Se ela não estivesse tão preocupada com o estado de Zhang talvez até achasse um pouco mais de graça da situação. Apesar disso, suspeitava que a amiga não tinha bebido mais do que dois drinques coloridos.
- E ela vai colocar o quê pra fora, Sam? - respondeu Kagome, levantando novamente a amiga para colocá-la na banheira - Ela não comeu nada hoje a tarde.
- Eu t - Zhang tentou elaborar uma frase em meio a alguns soluços - bem... To bem... Dá pr... Andar.
Zhang sentou-se na banheira e Kagome abriu a torneira para que a água começasse a sair. Ela ainda parecia meio enjoada, mas parecia que a coisa não ia passar disso. Só que Zhang nunca gostara de beber, ela não entendia o que poderia ter levado ela a ficar bêbada daquele jeito.
Sam vasculhou alguma coisa na sua bolsa e tirou de lá um comprimido branco bem pequeno ela estendeu-o para Zhang.
- Tome isso. Vai melhorar o seu enjoo, você vai ver.
Ela tomou sem água e deixou seu corpo afundar na banheira para molhar os cabelos. Ficou encostada durante alguns minutos, os olhos semi-cerrados, o tom esverdeado desaparecia de sua face gradativamente. Kagome ficou calada até sentir que Zhang estava melhor. Foi então que ela manifestou suas dúvidas.
- Zhang, você tá melhor?
A amiga abriu os olhos completamente e já parecia bem mais esperta. Ela acenou com a cabeça afirmativamente dando a Kagome o que ela precisava pra prosseguir.
- Então você consegue me falar agora porque tentou se embebedar?
Zhang soltou um riso triste como alguém que tinha acabado de se lembrar de um acontecimento constrangedor. Ela endireitou-se na banheira e cruzou os dois braços na borda apoiando sua cabeça neles.
- Hideki falou.
Sam questionou Kagome com o olhar. Assim como ela, não sabia se Zhang estava se referindo ao que elas pensavam. Zhang notou a confusão das duas e completou.
- Ele confirmou as suspeitas de vocês, digamos assim...
Samantha riu enfaticamente chamando a atenção das outras duas garotas. Elas sabiam que aquela era a preparação para alguma tirada especial.
- E com essa declaração você, obviamente, esclarece o motivo de ter bebido além da conta.
- Ah, vai se lascar, Sam! - disse Zhang, tapando os olhos com uma das mãos e perdendo a moral ao soltar suas risadas - Eu fiquei nervosa, ué. Que coisa.
- Aaah, Zhang - falou Kagome, descrente - pega leve. Você sempre soube que ele gostava de você.
- É diferente, tá? - disse ela, pegando a toalha que Sam tinha nas mãos e se levantando devagar - Você mesma ficou toda nervosinha quando Éric tirou uma brincadeira com você. E olhe que foi só brincadeira.
Sam riu com um certo tom de malícia. Kagome repreendeu-a com o olhar, mas mesmo assim ela continuou.
- Acho que essa brincadeira foi levada bem a sério hoje, Zhang, nem se iluda.
Zhang deixou o queixo cair enquanto amarrava a toalha em seu corpo. Sam e Kagome foram andando com ela na direção do closet de onde Zhang, ainda de boca aberta, selecionava um vestido e algumas roupas de baixo. Ela se sentou na cama para vestir-se enquanto Sam ria descontroladamente.
- Parem de chilique aí vocês duas! - cortou Kagome sem conseguir perder o bom humor - Foi só um beijo...
- CLARO! - gritou Sam levantando-se, rodopiando de excitação - E também uns abraços, uma dança... Eu estava observando tud...
- Ah, parem, é sério. - Kagome sentou na cama ao lado de Zhang - Estou começando a me sentir um pouco mal.
Zhang colocou o vestido e em seguida abraçou a amiga delicadamente.
- Ele não é quem você quer mesmo, não é?
- É! - disse Kagome, se dando conta da confusão em seguida - Quer dizer... Não é. Entenderam? Na hora eu fiquei a fim, mas...
- Você está gostando do Ichiro. - Sam se antecipou sentando-de ao lado de Kagome - Já entendemos.
Kagome pensou em dizer que não era bem aquilo, mas o que diria no lugar? Ela não poderia argumentar que, na verdade, ela estava se sentindo atraída porque Ichiro era a provável reencarnação de um amor do passado. Um passado de mais de quinhentos anos. Um amor por um meio-youkai.
- Claro. - disse ela, recorrendo a explicação mais simples - E hoje eu posso ter ferrado tudo. Deus sabe o que está se passando pela cabeça de Éric.
- Dá pra você esquecer o Éric um pouquinho e pensar em você? - disse Sam, cruzando os braços com impaciencia.
"Se elas ao menos soubessem como é complicado" Pensava Kagome. Ela já não ouvia mais o que Sam falava, apenas balançava a cabeça fazendo um sinal afirmativo.
Kagome e Samantha observavam Zhang pentear os cabelos de leve enquanto calçava um par de sapatilhas compradas naquela tarde. Quando ela começou a contornar os olhos com lápis, Kagome notou que ela não iria dormir como havia pensado anteriormente.
- Zhang, você vai voltar pra festa?
Ela passou uma camada de rímel incolor e em seguida pincelou os lábios com um gloss cor de pêssego. Zhang não precisara de muito esforço para ficar deslumbrante novamente.
- Talvez. - ela se olhou no espelho para checar se havia algum amassado no vestido roxo sem alças - De qualquer forma eu vou ficar circulando pelo apartamento, não é? Pretendo realmente comer algo agora.
- Eu estou pensando em usar o seu truque, Zhang. - disse Kagome, jogando-se na cama, desanimada - Mas eu vou fazer a coisa direito. Vou entrar em coma alcoolico de uma vez... Argh!
As três começaram a rir do drama de Kagome e Zhang sentou-se na cama junto com elas.
- Acho que você está sendo muito dramática! - opinou Sam.
- Não estou. Tudo menos encarar o Éric, por favor, meu Deus. - Kagome juntou as mãos em sinal de oração e fez um cara de devota que provocou mais gargalhadas das meninas - Qualquer coisa é melhor, Deus, é sério.
- Toma cuidado com o que você desej...
A frase de Zhang ficou no ar porque a porta do quarto dela abriu-se deixando o som atordoante da festa penetrar no ambiente. Kagome apoiou-se nos cotovelos para ver o recém-chegado, mas antes mesmo que pudesse identificá-lo uma voz masculina inconfundível soou, agitando-a por inteira.
- Então aqui está você! - rosnou ele olhando fixamente para Zhang.
Ela ficou parada olhando o irmão tentando entender o motivo de tamanho stress da parte dele. Ichiro avançou, os cabelos espetados balançando de leve conforme caminhava decidido. Estava com uma camiseta cinza escura de gola redonda e uma calça jeans bastante rasgada. Cruzou os braços olhando Zhang de baixo. Ele parecia muito bravo e Kagome não deixou de notar que ele parecia querer rosnar a qualquer momento.
Como um cachorrinho.
- Você não deveria estar em Hokkaido? - perguntou Zhang, levantando-se.
- E você deveria não beber, Zhang! - ele pôs as mãos na cabeça com irritação e elevou o tom de voz - Você mesma sabe que não tem força pra aguentar mais do que uma dose de vodka, sua estúpida.
- EI! - Zhang colocou o dedo na cara dele, desta vez, era ela quem parecia ameaçadora - Não fale assim comigo! Assim que percebi que eu ia passar mal, vim pra cá e chamei as meninas!
- O que não anula o fato de ter me preocupado pra caramba!... Feh. - ele continuou de braços cruzados, mas desviou o olhar para o lado.
Os quatro ficaram em silêncio por alguns instantes até que Ichiro retomou a palavra, dessa vez mais calmo. Sabia o quanto Zhang era responsável e ética, ela jamais mentiria ou fugiria de algo que tivesse feito de errado. Isso quando ela fazia algo errado o que era raríssimo.
- O vôo foi cancelado. - ele respondeu tardiamente a pergunta de Zhang que demorou alguns segundos para perceber do que estavam falando.
- Hm. Então, você vai ficar na festa?
- Não tenho lá muita escolha, não é? - a voz carrancuda havia voltado - Você ocupou as salas e a cozinha do apartamento em que eu vivo com esse evento.
- Ótimo. - Zhang levantou-se cruzando os braços e olhou para as amigas chamando-as - Você já descontou seu mau humor em mim, eu já melhorei do enjoo... Eu e as meninas vamos voltar pra festa.
Kagome e Samantha se levantaram. A primeira manteve a cabeça baixa até que seus olhos encontraram os de Ichiro. Ao contrário do que ela esperava, ele não esboçava sinais de agressividade. Apenas olhava fixamente para ela, descendo a vista pelo seu corpo, analisando-a em frações de segundo.
Ele estava deslumbrado uma vez que notara como Kagome estava linda.
As lembranças do beijo que dera em Éric se tornaram ainda mais difíceis de engolir. Tudo o que ela havia feito parecia extremamente idiota naquele momento. Não se lembrava de ter ficado tão arrependida na vida. Sam e Zhang passaram direto por eles que nem ao menos perceberam que estavam sendo deixados sozinhos no quarto. Kagome formou um "oi" mudo com os lábios. Ela abaixou a cabeça e saiu do quarto.
Ichiro ouviu a porta se fechar e aquele pareceu ser o aviso para que ele fosse atrás dela.
- Kagome!
Aquela não era a voz que ela desejava que tivesse dito o seu nome. Éric tinha uma expressão ansiosa no rosto e Kagome lembrou-se que ele deveria estar preocupado com Zhang. Ela foi falar com ele.
- Não se preocupe! A Zhang está ótima!
Éric a olhou confuso.
- Eu sei. Ela acabou de passar por mim. Parecia realmente ótima.
- Ah...
Kagome cruzou os braços e ficou se mexendo sem sair do lugar ao som da música que embalava a festa. Ignorou o fato de que Éric parecia esperar por alguma coisa. Até que ele quebrou o silêncio.
- Você não quer... Continuar o que estávamos fazendo?
Antes Kagome se sentia atraída por ele, mas só agora vinha reparar o quanto tudo nele a estava deixando enjoada. O olhar sedutor, os beijos calculados, os gestos, o modo de falar com o sotaque francês acentuado... Ela percebeu tarde demais que deveria estar demonstrando isso pela expressão em seu rosto. Éric agora parecia um pouco decepcionado.
- O que houve? - perguntou ele, tocando os ombros de Kagome - O que aconteceu que te fez ficar assim?
- Assim como?! - infelizmente, sua voz saíra esganiçada e nervosa.
Éric olhou para ela por alguns instantes e depois pareceu fixar algum ponto atrás de Kagome. Subitamente ela viu o amigo perder a cor da face. Ele soltou os ombros de Kagome e endireitou a postura. Estava tenso, o rosto contraído, os lábios crispados. Quando voltou o olhar para ela, estava sinceramente magoado.
- Porque você não me contou?
- O... - Kagome hesitou, receava não fazer a menor idéia do que ele estava falando - quê? O quê?
- Porque você não me contou que estava tendo algo com esse cara?
Os olhos de Kagome encheram-se de lágrimas involuntariamente. Ela não precisava olhar para saber que ele estava falando de Ichiro. Não sabia o que o havia feito perceber algo que ainda nem havia acontecido, e se repreendeu por não ser mais discreta.
- Eu... - ela olhou para trás, Ichiro estava com uma bebida na mão, olhando fixamente os dois - Eu não tenho nada com ele!
- Olha, Kagome... - Éric colocou as mãos no bolso, abaixando o olhar por alguns segundos antes de recomeçar - Eu só quero que você saiba que eu sou seu amigo antes de tudo. Você deveria ter me dito isso antes que qualquer coisa tivesse acontecido entre nós.
- Eu n... - ela estava ficando cada vez mais nervosa - Me desculpe! Sério... Eu não t...
- Tudo bem. - disse ele com os olhos tristes e desolados - Só... Me dê um tempo.
Ele saiu andando despedaçando completamente o coração de Kagome. Tudo o que ela mais temia que acontecesse havia acontecido. Alguém saíra magoado por culpa dela. Ainda um pouco atordoada, Kagome passou a mão nos cabelos e saiu andando na direção de um balcão cheio de salgados apetitosos. Colocou dois de uma vez só na boca.
- Você vai engasgar desse jeito, garota.
Kagome não precisou se virar. Ichiro passara o braço por cima do ombro dela pegando um petisco distraidamente. Em seguida se apoiou no balcão olhando-a comer. Tinha um copo de whisky na mão e ergueu-o na direção dela.
- Beba ou vai morrer entalada.
Kagome odiou admitir que realmente precisava beber alguma coisa para digerir os quitutes. Ela olhou-o cheia de irritação e tomou o copo da mão dele emborcando o resto da dose até o final. Ichiro espantou-se com a naturalidade com a qual ela virou uma dose cowboy de whisky apenas para desentalar alguns salgadinhos. Era preciso levar a sério uma pessoa capaz de uma manobra dessas.
Kagome colocou o copo no balcão com estrondo e evitou, em vão, encará-lo. Mas era impossível. Os olhos dele estavam fixos nela e pareciam querer algo mais do que uma simples resposta irritada de sua parte.
- Qual é? Que é que você tá olhando?
Ele sorriu e encheu novamente o copo com uma nova dose, bebericando antes de responder.
- Não conheço muitas mulheres capazes de virar uma dose de whisky sem gelo. - fez uma pausa apenas para estudar como a expressão do rosto de Kagome se modificaria - Quer dizer, até conheço algumas... Mas elas jamais fariam isso sem um bom motivo.
Kagome revirou os olhos enquanto ria. Claro que não se pode esperar muito de homens criados numa sociedade machista, mas será mesmo que Ichiro era um daqueles caras que julgavam mulheres o tempo todo segundo uma série de coisas consideradas "femininas" e "masculinas"?
- Bom, eu sou uma mulher capaz de virar uma dose de whisky se preciso for... - desafiou ela, incisiva - Ou mesmo se eu quiser.
- Exatamente como os homens fazem. - completou ele - Estou certo?
- Não. - respondeu ela, feliz por ter uma chance de dizer exatamente o que queria - Exatamente como uma mulher que não vê nada de errado em ter os mesmos direitos de um homem faz.
Ichiro riu da sagacidade dela. Já havia lido sobre equidade de direitos muitas vezes no ensino médio. Afinal de contas, para garantir que iria se manter livre do vírus "amor" por um bom tempo, tinha de conhecer as garotas que pensassem exatamente daquela forma. Nunca quis magoar ninguém, muito embora seu jeito bruto já tenha machucado amigos e flertes, sem distinção de gênero.
- É, dessa vez eu tenho que dar meu braço a torcer... - disse ele, servindo um copo exclusivamente para ela - Um brinde, então, à vocês, mulheres!
Kagome ergueu o copo satisfeita. Jamais conseguiria se relacionar com alguém que não acreditasse na igualdade de gêneros, afinal, machismo era uma coisa que uma garota que já matou demônios com arco e flecha simplesmente seria incapaz de lidar. Em algum momento Ichiro deve ter percebido isso, fosse por ela raramente deixar de lhe responder alguma provocação ou até mesmo pela irritação que demonstrara quando Éric disse falsamente que eles eram namorados.
Ichiro retribuiu o gesto e finalizou sua dose, saudando a astúcia da garota. Sabia que tinha sido bem irritante com Kagome durante os últimos dias e, mesmo suspeitando que ela havia gostado, queria oferecer-lhe um tipo de diversão mais explícita. Apoiou o copo na mesa, tirou o braço do apoio do balcão e esticou uma mão para ela que o olhou, confusa.
- Você vem ou não? - disse ele, pegando a mão de Kagome mesmo sem permissão - Quero ver se depois de beber tão rapidamente você ainda é capaz de se equilibrar nos próprios pés!
- Como é que é? - questionou ela num tom que pretendia fingir muito mal uma irritação - Então você ainda está duvidando que uma mulher possa beber tanto quanto um cara sem ficar um lixo depois?
- Feh, claro que não...! Eu duvido que qualquer pessoa além de mim seja capaz de beber em tempo recorde e dançar logo em seguida!
Ela olhou para Ichiro. Ele estava sorrindo, mas dessa vez não havia nenhuma intenção de ser irônico. Havia deixado de ser o moleque desafiador e era apenas um rapaz convidando uma garota para uma dança. Seus olhos revelavam sua ansiedade através do brilho que os percorria evidenciando ainda mais o tom vivo de púrpura que tanto encantava, enfeitiçava. Ela hesitou um pouco, mas esboçou um sorriso largo que foi logo percebido por Ichiro. Prontamente, ele segurou a outra mão dela e chegou mais perto, rindo de excitação.
- Vem dançar, você nem se divertiu ainda! Só teve tempo de ficar lá atrás cuidando da Zhang... - ele a puxou para o centro da festa e ela o seguiu - Você conhece The Who?
- Quê?! - Kagome gritou, incapaz de ouvir a voz dele quando estavam tão perto do som.
- A música! - ele gritou de volta.
Imediatamente puxou Kagome pela mão girando-a rapidamente no ritmo da música. Ela se desequilibrou e caiu nos braços dele que ria como uma criança. Ela achou graça da situação e foi então que percebeu que estavam dançando ao som de "My Generation" da banda The Who. Kagome apoiou-se nos pés novamente e deu três giros rápidos enquanto batia palmas parando conforme os instrumentos da música tinham seus altos e baixos. Eles dançaram separados, mas ainda assim juntos o suficiente para que os braços se encostassem de vez em quando gerando uma série de faíscas que só eles percebiam e sentiam.
O ritmo não mudou imediatamente para algo lento e melodioso como aconteceria em qualquer filme água com açúcar. A noite terminara de um jeito que Kagome jamais poderia imaginar. Ichiro, depois de tantas implicâncias e piadinhas, estava se dando a oportunidade de se divertir com ela de uma maneira considerada normal. Ela não imaginaria nunca que o garoto com olhar desconfiado e jeito grosseiro fosse se tornar uma das companhias mais engraçadas que ela tivera o prazer de ter. Tiveram muito tempo juntos, só os dois, pois Kayri, Johnny e Sam arranjaram cada um uma distração diferente. Zhang e Hideki também se mantiveram ocupados durante a maior parte da festa.
Eles entornaram doses da maioria das bebidas servidas na festa, sempre competindo para ver quem tomava o maior número de drinques coloridos. Kagome já achava que todas as implicâncias que ele teve com ela foram propositais para que eles adquirissem um certo nível de intimidade. Ao mesmo tempo, ele não disfarçava que sentia algo mais por ela. E por mais que Kagome não percebesse ou apenas fingisse não notar, todas as vezes que eles se encostaram surgiu uma tensão que ficou pairando no ar, tornando-o mais denso e nítido.
A nitidez da atração entre eles era impressionante.
E de repente eram cinco horas da manhã. Sam dormia no sofá, um drinque pela metade jazia próximo ao seu pé, no chão. Zhang já dormia como um anjo em seu quarto. Kagome se sentia feliz e já estava muito alta assim como Ichiro. Eles estavam sentados nas cadeiras da varanda, os pés apoiados em uma outra única cadeira, encostando-se vez ou outra. Depois de beber tanta vodka eles foram buscar restos de doces na cozinha e naquele momento compartilhavam um pacote de biscoitos franceses. O sol nascia no horizonte. Eles ouviam uma das músicas finais do cd que Zhang havia colocado antes de dormir. Kagome conhecia a banda: The Hollies.
- Sabe... - dizia ela, sem as inibições que o álcool havia lhe tomado - Você até que é um cara divertido.
Ele soltou uma risada rouca e encostou o pé no de Kagome pela quinta vez seguida.
- Aposto que a sua primeira impressão de mim não foi das melhores. - ele comeu outro biscoito de uma vez e bebeu um gole de refrigerante - Eu não estava me esforçando.
- Quer dizer que você precisa de esforço para ser legal?
Eles gargalharam alto, provocando resmungos de Sam que estava próximo a eles. Kagome fez um gesto de silêncio que só fez aumentar a vontade que os dois sentiam de rir. Quando os ânimos se acalmaram, Ichiro recomeçou o diálogo.
- Digamos apenas que... Eu não gosto muito de pessoas.
Kagome olhou para ele, descrente.
- Você é meio estranho, sabia?
- É... - ele olhou para ela um pouco vermelho, Kagome não sabia dizer se do álcool ou de vergonha - Você também é estranha.
Kagome não sabia se tomava aquilo como um elogio ou como outra coisa que ela não sabia definir. Apenas fez uma expressão interrogativa e sentiu-se aliviada quando ele pareceu entender sua pergunta muda.
- Estranha tipo... - ele tornou a olhar para o horizonte e bebeu um novo gole de refrigerante - Você é uma garota legal. E a única menina com a qual eu falo é a Zhang... Acho que... Eu não gosto muito de conversar com ninguém que já não faça parte da minha vida no momento.
Ele corou imediatamente ao dizer isso. Era uma daquelas coisas muito íntimas que você simplesmente fala sem pensar e no instante seguinte se arrepende por medo do julgamento alheio. Mas ao olhar Kagome com a visão periférica ele não sentiu sinais de constrangimento ou mal entendido.
- Sabe que agora tudo faz sentido? - falou ela, o tom de voz soando estranhamente didático - Sim porque... Só alguém que realmente não se importa com uma reputação que impossibilite amizades novas pra tomar um drinque de morango com alcaçuz em público.
- Ei! Alto lá! - retrucou Ichiro em meio às risadas de Kagome - Eu não... Eu... Não vejo problema em tomar algo mais fraco de vez em quando!
Ela se contorceu de tanto rir e ele viu que os olhos já lacrimejavam, mas ela finalmente conseguiu tomar um pouco de ar em tempo de responder.
- Ichiro, NINGUÉM toma drinque de morango com alcaçuz. Alcaçuz! Meu deus!
Ele fez uma cara feia e defensiva, mas não teve como achar graça de toda aquela situação. Na verdade, a risada de Kagome por si só já causava nele uma tremenda vontade de rir. E foi com as barrigas doendo de tanto gargalhar - e com uma Samantha furiosa se mandando para o quarto aos tropeços - que eles se acalmaram.
Ichiro passou a mão de leve na barba que já nascia e Kagome comeu um biscoito em silêncio. Ele olhou para ela que continuava a ver o sol nascer mesmo sabendo que ele a observava.
Ela parou para pensar que ela estava linda com os cabelos lisos meio desgrenhados e rebeldes. A maquiagem havia se espalhado pelas pálpebras e tudo o que Ichiro conseguia ver era que os olhos dela pareciam incrivelmente brilhantes e vivos. O vestido estava um pouco amassado e ele gostava da maneira como os pés dela estavam a mostra, perto dos seus. Tão pequeninos e delicados.
- Você sabe o que eu realmente quero dizer?
Kagome se viu obrigada a olhar para ele. Mal conseguiu se segurar na cadeira quando observou a maneira como ele a olhava. Dizia com todas as letras que nem mil drinques coloridos iriam acabar com a boa reputação que ele tinha para ela. Também fazia a mente de Kagome viajar criando situações nas quais ele a tomava nos braços imediatamente e a beijava com devoção. Sentindo um calor inexplicável, ela tentou mudar o foco da conversa antes que cedesse aos seus impulsos.
- Não... Então, quer dizer... Que você vai me explicar que me tratava mal por eu ser estranha?
Ichiro riu de leve. Seu riso expressou, inconscientemente, seu descontentamento por saber que ela estava fugindo de sua investida tão descaradamente. Ele a deixou escapar. Daquela vez.
- Eu te tratei mal? - disse ele, sorrindo tristemente.
- Claro que sim! - respondeu Kagome cruzando os braços fingindo indignação - Você foi um grosso!
- E vou continuar sendo. - falou Ichiro, sorrindo - Eu não consigo evitar!
- Você não tem jeito então? - perguntou ela olhando fixamente para os pés.
- I'm sorry, Suzanne for ever hurting you...
Kagome reconheceu, então, a música que estava tocando. Mas nunca soube se ele estava somente cantando por cantar ou se as desculpas eram direcionadas para ela. Ela também não tinha coragem nenhuma de perguntar.
Aquela dúvida a consumiu por inteira. A última coisa que ela se lembrava era de ter acenado um tchau para Ichiro enquanto se levantava e então seu corpo caiu no colchão macio da cama em que dormiu. Estava no quarto de Zhang, numa cama ao lado da dela. Mas seus pensamentos flutuavam até um outro quarto e ficavam por lá brincando, satisfeitos, com seus sentimentos. Fazendo-a imaginar alguém de olhos cor de púrpura levando-a nos braços sem nunca devolvê-la ao mundo real.
E ela sabia como aquele era um mundo difícil de se viver.
