Capítulo 9

Ela sentiu-se acordar, mas não abriu os olhos imediatamente. Sentiu cada centímetro do colchão fofo que agora ocupava. Seu corpo não queria se levantar e implorava por mais alguns minutos de sono. Apesar disso, Kagome abriu os olhos lentamente e estranhou o local aonde se encontrava. Foi aí que sua mente se recordou do dia anterior. Havia uma festa, um francês, uma amiga bêbada e um certo garoto que chegou sem convite.

A luz já invadia o quarto de Zhang e Kagome sentou-se puxando os cabelos para trás e limpando os olhos. Ela olhou para o lado. Sua cama era praticamente colada na de Zhang - que já se encontrava vazia - e a de Samantha ficava logo ao lado, cada uma com seu criado-mudo. Samantha ainda dormia e Kagome pode perceber que, assim como ela, a amiga não havia nem ao menos tirado as roupas ou sequer a maquiagem.

A cabeça de Kagome doía, ela não sentia seu corpo descansado e olhou as horas no celular. Eram onze da manhã e haviam duas chamadas não atendidas de Éric. As lembranças do dia anterior voltaram com mais força ainda. Havia uma dose mínima de arrependimento por ter ficado com Éric, mas o que predominava nela era a saudade. Sim, ela sentia falta dos momentos que passara com Ichiro que se mostrara incrivelmente divertido.

Um bom humor incrível a atingiu e deu forças para que se levantasse disposta a tomar um bom banho. Ela revirou sua bolsa e pegou uma blusinha branca de algodão e um lindo short de tecido azul marinho com pequenas bolinhas brancas. Ficou aliviada por ter escolhido aquelas roupas. Lhe caíam muito bem e ela queria estar bonita o suficiente naquele dia. Afinal, ela podia cruzar com Ichiro no corredor a qualquer momento.

Sempre sentia uma pontada de culpa quando pensava em qualquer coisa referente à conquistá-lo. Mas não podia evitar. Parecia um instinto que se apossava dela quando ele estava por perto.

Entrou cantarolando no chuveiro e lavou pacientemente os cabelos longos. Quando saiu do banho encontrou Sam sentada no vaso sanitário, toda desgrenhada, aparentemente esperando Kagome terminar para tomar o banho dela. A amiga resmungou um bom dia para Kagome quando esta saiu. Ela respondeu feliz o suficiente para não passar despercebida. Mas Sam ainda tinha a cabeça cheia de ressaca e guardou a curiosidade para depois.

Kagome penteou-se e passou um perfume refrescante e ligeiramente doce. Depois salpicou um pouco de blush rosado nas bochechas e rímel incolor nos cílios naturalmente longos. Já ia sair do quarto quando a voz de Sam soou vinda do banheiro.

- Kagome, espera por mim, tá? - a amiga apareceu enrolada numa toalha felpuda azul - Só vou vestir uma roupa e pronto.

- Não vai nem pentear o cabelo? - estranhou Kagome.

Sam começou a se vestir atrapalhadamente enquanto falava com Kagome.

- Se você soubesse o quanto eu não estou em condições de fazer esforços físicos... - ela deu um longo e pesado suspiro - você nem acreditaria que eu realmente acabei de tomar banho sozinha.

- Tá certo então. - Kagome foi até ela - Deixa que eu faço isso pra você.

Sam sentou-se na cama enquanto seus cabelos eram delicadamente penteados por Kagome. Não demorou para que ela resolvesse puxar um assunto.

- Sabe, eu vi as duas pessoas que estavam atrapalhando meu sono no sofá. - disse ela, sem esconder o tom de malícia - Vi muito bem. E devo acrescentar que vocês pareciam bem íntimos.

Kagome riu, meio envergonhada, mas se lembrando com ternura daqueles momentos.

- É... - respondeu, enquanto desembaraçava o cabelo de Sam - Digamos que ele é mais legal e divertido do que pensei.

- Hmmm... Mas você não tinha ficado com o Éric?

- Ai, Samantha! - disse Kagome, lembrando-se do fato e constrangendo-se - Você não precisava me lembrar disso...

- OH! Meu Deus! - Sam espantou-se levando as mãos à boca - Não acredito que você passou o rodo assim na festa? Você pegou os dois?! Diga que sim só pra que eu possa me orgulhar um pouco mais de você!

- Claro que não, sua boba! - Kagome falou um pouco mais alto do que antes - Claro que não! Eu e Ichiro n...

- Você perdeu a chance de ficar com aquele... - ela fez uma pausa e virou-se de frente para Kagome - Aquele deus grego?! Você é burra ou o quê?

- EEEI! - Kagome levou as mãos na cintura e fez um tom de voz ligeiramente magoado - Não é isso... É que... Eu acabei não tentando nada e não teve nenhum momento em que ele...

- Aaaah... - exclamou Sam, de repente, entendendo tudo - Ele não te atacou?

Kagome achou graça da maneira como Sam colocou as coisas. Entretanto, estava começando a pensar no assunto e percebeu que Ichiro, de fato, não havia tentado nada com ela. Fora algumas indiretas.

- É... - Kagome finalizou o cabelo da amiga e cruzou os braços, um vinco de tensão formou-se entre as sobrancelhas - Ele não tentou nada tão explícito.

- O que é bem estranho. - disse Sam, levantando-se e mirando-se no espelho - Ele não consegue esconder que é totalmente a fim de você, Kagome.

Ela duvidava da amiga. Será que Ichiro realmente sentia alguma coisa por ela? Além do desejo insano de irritá-la, óbvio. Kagome corou de vergonha só de imaginar que poderia estar fazendo um enorme papel de boba. A imagem de Ichiro secretamente rindo dela passou rapidamente pela sua cabeça deixando rastros de insegurança.

- Kagome? - chamou Sam - Ei, não fique assim. Vamos comer alguma coisa.

Ela seguiu Samantha ainda pensando no que ela havia lhe perguntado minutos atrás. As duas cruzaram o corredor indo na direção da cozinha. Notaram uma estranha movimentação naquele cômodo e quando olharam para ver o que era, viram ninguém menos que Ichiro cozinhando algo que cheirava muito bem.

Ele estava só com uma calça de moletom branca e seus músculos naturais se deslocavam com graça masculina enquanto ele manuseava as panelas.

- Hmmm - falou Sam - isso está cheirando muito bem! Tem pra todo mundo?

Ele se virou fazendo com que seu mau humor se tornasse evidente. Mas assim que seus olhos pousaram em Kagome, ele mudou a expressão de seu rosto.

Um rojão de emoções intensas o atingiu. Não esperava encontrá-la tão linda. Chegou a pensar na possibilidade de ela estar ainda mais bonita do que no dia anterior. Lógico que não sabia dizer como aquilo era possível. Ela não vestia nada mais do que uma blusa e um short. Os cabelos estavam mais naturais do que nunca e o aroma de shampoo suave invadiu suas narinas cortando o cheiro do molho de tomate que ele estava fazendo.

Sentia tanta vontade de ficar com ela ali mesmo que doía.

A voz de Zhang soou um tanto quanto estridente nos ouvidos deles, dando um leve susto em cada um.

- Tem sim! - disse ela, respondendo a pergunta de Sam - Eu ganhei uma aposta e agora ele está sendo obrigado a preparar o almoço de todas nós!

- Hahaha! - Sam sentou-se no sofá com Zhang e as duas começaram uma conversa que se tornou inaudível aos ouvidos de Kagome. Ela ficava pasma com a frequencia com que aquilo vinha acontecendo.

Kagome pensou novamente na possibilidade de estar fantasiando o interesse de Ichiro. Mas o olhar dele? O leve sorriso que ele lhe deu? Os segundos que eles passaram se encarando? Aquilo não era fruto da imaginação dela, era simplesmente a verdade. Eram fatos.

Ele se voltou para o fogão logo depois e recomeçou o que estava fazendo. Kagome apoiou-se no balcão e ficou observando ele até que, num impulso, resolveu oferecer ajuda.

- Ei. - ela chamou e ele apenas deu uma rápida olhadela sem nem ao menos virar-se - Ichiro? Tem alguma coisa que eu possa fazer?

- Tem. - disse ele enquanto colocava uma porção de massa recheada numa panela com água - Esperar. E comer depois.

Kagome não deixou de rir e avançou mais um pouco na direção dele.

- Sério! - ela já havia se colocado do lado de Ichiro, mas este estava virado para o fogão deduzindo onde ela estava apenas pela distância de sua voz - Eu posso ajudar você. Não me incomoda.

Ele se virou bruscamente e esbarrou em Kagome. Seu rosto enterrou-se nos cabelos dela, seus lábios roçaram levemente no pescoço delicado da garota. Kagome ficou sem ação. Os pés pareciam ter aderido ao chão e todos os pêlos de seu corpo se arrepiaram. Ela ficou parada até o momento em que Ichiro segurou-a pela cintura girando-a e tirando-a do caminho. Ele havia sentido alguma coisa querendo se manifestar em seu corpo e se afastou dela antes que perdesse o controle completamente. Respirou fundo até acalmar seus instintos, mas continuou de costas para Kagome que por sua vez estava extasiada com a intensidade do toque.

- Acho melhor você esperar. - disse Ichiro, por fim.

Kagome sentiu um certo desânimo tomar conta dela. Não entendia porque ele estava rejeitando-a depois de terem passado uma noite tão ótima juntos. Ela tomou coragem e avançou para ele, segurando sua mão delicadamente.

- O que houve? Você tá me evitando? - ela fez uma pausa curta - Pode ser sincero.

Ele não poderia deixá-la pensando besteiras e, mesmo sabendo que seria arriscado olhar para ela sem avançar como um animal faminto, virou-se para encará-la.

- Não é nada disso! - ele tentou soltar sua mão da de Kagome sutilmente - Eu só prefiro cozinhar sozinho. Você só ia me atrapalhar, meh.

Kagome reconheceu o leve tom de irritação na voz dele e ficou mais aliviada. Até onde sabia aquele era o humor natural dele. Ela se afastou com um sorriso nos lábios e sentou-se no sofá onde suas amigas estavam. Algum programa de auditório passava na televisão, mas Sam e Zhang não pareciam estar prestando atenção. As duas a olhavam com curiosidade.

- Que foi? - Kagome perguntou esperando por um fim em sua dúvida.

- Oras... - Zhang estava mais próxima e se dirigiu a Kagome de maneira sugestiva - Eu estava escutando você dando bom dia ao meu irmão.

- Fale baixo! - disse Kagome aos sussurros enquanto segurava uma risada - Eu sei que não parece, mas eu estou falando sério!

- Aham - recomeçou Zhang cruzando os braços - a Sam já me contou tudo, tá? Não precisa ficar com vergonha só porque ele é meu irmão, sua boba.

- Não estou com vergonha não, tá? Até porque... - Kagome lembrou-se de repente que podia virar a mesa - a senhorita tem muitas coisas a nos esclarecer! Coisas mais interessantes do que essa que estamos falando!

O rosto de Zhang adquiriu um leve tom de rosa e ela sorriu involuntariamente. Soltou um suspiro profundo e pesado e alisou uma mecha do cabelo enquanto seu olhar parecia distante. Foi Samantha que a chamou de volta para a normalidade.

- Alô, Masagami Zhang, responda! - Sam brincou - Amigas curiosas na escuta, responda!

As três soltaram gargalhadas e Kagome deu um empurrãozinho no ombro da amiga, encorajando-a a falar sua história. Zhang mirou o tapete no chão, distraída, até criar coragem para falar.

- Bom... Se vocês querem mesmo saber... Nós ficamos. - ela deu uma pausa para que os gritinhos se manifestassem livremente entre as amigas - Depois que eu estava sóbria, naturalmente.

Zhang continuou com sua narrativa que consistia basicamente em contar como Hideki tinha sido um verdadeiro fofo e como ela sentia que eles realmente combinavam. Kagome não escutou a história nos mínimos detalhes. Uma ansiedade tomava conta dela toda vez que se dava conta dos momentos que ela e Ichiro compartilharam horas atrás. As frases, o jeito de falar e de se expressar... Tudo, absolutamente tudo, lembrava Inuyasha. Era como se ela estivesse revivendo o mesmo sentimento que tivera com ele.

Não conseguia deixar de pensar na ironia que era estar passando por tal situação. Não era exatamente a mesma pela qual Inuyasha também havia passado? Certamente ele tinha se questionado a mesma coisa quando a viu pelas primeiras vezes. Aliviou-se quando constatou que no caso dela, estava sendo mais fácil. Afinal, só existia Ichiro em sua vida naquele momento. Não havia encarnações passadas dele nem nada do tipo.

Zhang acrescentava mais algum detalhe a sua história e pelo tom de voz dela, parecia ser engraçado. Kagome riu mesmo sem saber do que se tratava. Virou a cabeça na direção da entrada para a cozinha imaginando Ichiro no fogão, preparando alguma comida certamente tão deliciosa quanto o tempurá de dias atrás. Involuntariamente sua mão direita segurou a jóia com ternura. Kagome a olhou. Um brilho diferente envolvia a pequena bolinha lilás. Ela mirou seus olhos refletidos na face da esfera. Teve um estalo que a fez pegar o celular e discar rapidamente o número de sua casa.

Alguns segundos se passaram até que ela ouvisse a voz de Souta do outro lado da linha.

- Alô... - ele parecia ter acabado de acordar - Quem é?

- Souta! - Kagome animou-se ao ouvir a voz do irmão - Sou eu, a Kagome! Tudo bem?

- Ahn... Kagome? - respondeu ele, ainda desorientando ao que parecia - Kagome! Oi!

- Eu estava pensando... - começou ela, falando um pouco baixo para não interromper a animada conversa entre Zhang e Samantha - Será que eu poderia passar aí por volta de umas... Cinco horas da tarde? Talvez?

- Ah! Claro, Kagome! - Souta pareceu animar-se um pouco mais e já soava menos preguiçoso - Venha, por favor! Já estou sentindo saudades de você... Aliás, todo mundo aqui.

- É... - continuou ela - Eu queria mesmo dar uma revirada naquelas caixas que ficaram aí no meu quarto antigo. Espero que você me ajude hoje, tá?

Kagome desligou notando que chamara a atenção das amigas que haviam parado a conversa.

- O que foi, Kagome? - perguntou Sam.

- Ah - ela desligou o celular e deixou-o apoiado na mesa de centro - eu pensei em arrumar umas coisas minhas que estão por lá.

- Sério? Tipo... Coisas antigas?! - animou-se Zhang - Será que eu posso ir junto?! Adoro essas arrumações.

Kagome estranhou o pedido da amiga, mas aceitou. Nessa hora Ichiro apareceu na sala chamando-as para almoçar. As três deram de cara com uma mesa já arrumada com um capricho que não condizia com a impaciência habitual de Ichiro. Havia uma grande travessa de massa recheada com um apetitoso molho de tomate em cima. Pedaços suculentos da fruta se destacavam na mistura, tornando o prato ainda mais bonito. Ele também colocara queijo e manjericão duas coisas que, por coincidência, Kagome adorava. Depois que as três se sentaram à mesa, maravilhadas com as habilidades do garoto, ele fez menção de se retirar.

- Aposta paga, querida irmãzinha - disse ele esticando os braços - eu vou indo para o meu quarto.

- Quêê? - exclamou Zhang segurando-o pelo braço - Não vai não! Vai comer com a gente, oras!

Ichiro lançou um olhar mau humorado e virou a cara.

- Me poupe! Tenho coisas mais importantes a fazer.

- Haha, faz-me rir. - disse ela, sem soltar o braço do irmão - Você nem estuda, Ichiro. Nem tem o que estudar. Senta comigo, deixa de ser idiota.

- Meh! - resmungou ele, já cedendo ao pedido de Zhang - A única idiota aqui é você!

Eles começaram a se servir, em silêncio. Mas a falta de conversa durou pouco. Ichiro iniciou uma pauta que Kagome julgou inesperada por Zhang.

- E quem é esse tal de... - Ichiro soltou o nome dele num rosnado quase canino - Hideki?

Zhang olhou para ele com desprezo, mas ainda assim, apreensiva.

- Não é da sua conta. - disse ela assoprando de leve uma porção de massa - Pelo menos por enquanto.

- Heh! - o irmão riu sarcasticamente e revirou os olhos - Quer dizer que ele pensa que pode dar uns pegas em você e fica por isso mesmo?

- Não! - falou Zhang visivelmente irritada - Para a sua informação sou eu que ainda não sei exatamente o que eu quero com ele.

- Pudera, não é?! - Ichiro tomou um gole rápido do refrigerante - Aquele palerma precisa de um pouco mais de atitude se quiser lidar com a nossa família.

Zhang parecia que ia fumaçar como uma chaminé a qualquer momento. Já havia desistido de responder à Ichiro. Apenas pegava garfadas generosas de comida e engolia com verocidade entre um gole e outro de refrigerante. Parecia descontar sua raiva toda naquilo.

- Mas, sabem... - Sam deu uma pausa e falou - Eu acho o Hideki um ótimo partido.

Zhang agradeceu à amiga mudamente e Kagome sentiu-se encorajada a acrescentar mais alguma coisa a fim de amenizar o clima.

- Também acho, Sam! - disse ela soando simpática e atraindo a atenção de Ichiro sem perceber - Ele sempre gostou de você, parece ser uma ótima pessoa!

- Kagome... - ele pronunciou o nome dela de forma diferente, mais enfática, e Kagome corou imediatamente - Pensei que você gostasse mesmo daquele seu namoradinho.

Kagome lançou seu olhar mais gelado para Ichiro na esperança de que aquilo calasse a boca dele ou fizesse com que ele apagasse da mente toda aquela história de namoradinho. Mas, naturalmente, tais coisas não aconteceram. Eles ficaram se encarando, soltando faíscas. Ao mesmo tempo, sentiam um desejo mútuo de resolver aquilo da melhor maneira possível: dando uns bons amassos. Zhang já se lamentava por ter insistido que Ichiro almoçasse com elas e Sam apenas observava a tudo, curiosa. Kagome quase colocou uma porção de massa na boca, mas mudou de idéia.

- As notícias voam rápido, não? - disse ela, com requintes de ironia.

Ele não respondeu. Apenas a encarou com um daqueles olhares perigosamente safados e continuou a comer, em silêncio. Parecia que estava segurando uma risada e, de fato, ele estava. Kagome não fazia idéia do quão divertido era mexer com seus nervos. Mas alguma coisa no que ela falou o incomodava. Ichiro não tinha gostado nada da idéia de confirmar que ela e Éric tinham realmente ficado. Mesmo tendo sacado isso na noite anterior. Era uma pontada de ciúmes que se manifestava. Nada que ele não pudesse controlar, apesar de ser extremamente incômodo. Era uma sensação nova que ele nunca havia experimentado antes. Não podia negar que tinha gostado.

Para alívio de Zhang, Ichiro calou a boca. Sam já havia terminado de comer e contava alguma piada longa e engraçada, divertindo as garotas. Quando Ichiro fez menção de levantar-se, Zhang segurou novamente seu braço e sorriu para ele, piscando os olhinhos energicamente. Ela ia pedir algum favor.

- Sabe, irmãozinho... - ela começou a acariciar a mão dele - Eu estava pensando... Talvez você pudesse deixar eu e as meninas no templo Higurashi mais tarde. Sim? Sim?

Ichiro revirou os olhos e não respondeu. Apenas pôs o prato na pia e antes de sair notou a expressão pidona irresistível nos olhos da irmã.

- Estejam prontas às cinco e meia. - disse ele, se retirando.

Sam bebeu um pouco de refrigerante e falou logo depois que Ichiro se retirou.

- Eu não vou com vocês, meninas... Tenho umas coisas pra resolver.

Kagome estranhou o ar de mistério da declaração de Sam e apressou-se em perguntar-lhe.

- Que tipo de coisas - falou ela, enfatizando a ultima palavra - você teria pra resolver sem a gente, Sam?

Sam encolheu-se na cadeira e desviou o olhar das amigas, envergonhada. Metade de seu rosto estava escondido pelo copo que ela segurava com as duas mãos.

- Hm, nada. Nada demais. - disse ela, sem voltar a olhar para Kagome ou Zhang - Só umas coisas no banco, vocês sabem.

- Não, não sabemos! - falou Zhang cruzando os braços - Mas como você parece bem decidida a não nos dizer o que é, a gente te libera dessa vez!

Sam deu um sorriso sem graça e se levantou já despedindo-se das amigas com um abraço carinhoso. Parecia nervosa e ansiosa ao mesmo tempo, mas Kagome poderia apostar que tinha cheiro de coisa boa naquilo. Ela parecia uma criança prestes a embarcar na primeira viagem de escola.

Depois que Sam foi embora, Zhang e Kagome passaram uma tarde inteira se divertindo. Zhang contava tudo sobre como ela e Hideki pareciam estar caminhando para algo acertado. Kagome, por sua vez, contou depois de muita insistência da amiga os detalhes de sua noite com Ichiro. Ela achava meio constrangedor conversar sobre isso com ela. Ficou sem saber até onde deveria falar sem gerar uma crise involuntária de ciúmes da parte de Zhang. Mas ao que lhe pareceu ela foi bem compreensiva e madura. Kagome suspeitava que não conseguiria ser tão legal assim com uma futura namorada de Souta.

Ichiro não saiu do quarto uma só vez e, principalmente nos momentos em que Kagome falava dele, não deixava de imaginar o que ele poderia estar fazendo. Ela podia ter uma idéia já que Zhang, notando o seu interesse, contou discretamente que Ichiro passava a maior parte do tempo no quarto dedilhando algumas músicas no violão, lendo livros e vendo filmes.

Kagome não insitiu muito tempo nesse assunto e logo propôs alguma coisa mais produtiva para fazer com Zhang. As duas colocaram um filme água-com-açúcar, estilo comédia misturado com romance. Quando terminaram já eram quatro horas da tarde e elas tomaram um novo banho.

Zhang colocou mais um de seus vestidos de grife, feitos do tecido mais leve e delicado. Ela amava vestidos porque detestava ter que pensar em duas peças de roupa que combinassem. Gostava da praticidade. Kagome, olhou suas opções na bolsa que havia trazido e tirou de lá a única peça que restava: uma saia azul marinho de cintura alta que ela havia pensado em combinar com a blusa branca que estava usando. Depois de verificar que não havia manchado a blusa, ela reutilizou-a.

Penteou os cabelos pacientemente e prendeu-os com uma presilha branca. Ela não gostava de como as mechas caíam pelos seus ombros mesmo que estivessem presas. Mas estava sem coragem de sair com os cabelos soltos, pois sentia que o clima estaria um pouquinho mais quente naquele dia. Passou um pouco de protetor labial e declarou para Zhang que estava pronta.

- É... Eu tambem terminei aqui - disse a amiga que havia acabado de fazer um rabo-de-cavalo alto com os cabelinhos curtos - Vamos então?

Zhang se virou e abriu a boca discretamente quando mirou Kagome. Ela estava encantadora com a sainha ligeiramente rodada e os cabelos presos daquela forma. Zhang abriu uma gaveta da penteadeira e tirou de lá um cinto fino e vermelho que colocou gentilmente na cintura de Kagome.

- O que você está fazendo, hem? - disse Kagome, achando graça da atitude de Zhang - Eu não sou uma bonequinha que você pode vestir assim, do jeito que quer!

Zhang riu e quando terminou olhou para Kagome mais uma vez.

- Agora sim! - ela bateu palmas uma vez, os olhos brilhando de admiração - Você está perfeita!

Kagome corou. Era incrível como ela sentia que Zhang a conhecia desde sempre. Não resistiu ao impulso de abraçá-la com força. Depois que se soltaram ela pode perceber que Zhang estava sorrindo, assim como ela.

- Pode ficar com o cinto. - disse ela, simpática - Ficou bem melhor em você do que em mim.

- Ahn? Não, claro que não, Zhang! - Kagome optou por negar querendo ser educada - Eu usarei hoje e te devolvo depois, prometo.

- Kagome... Tsc, tsc. - Zhang cruzou os braços olhando-a de um jeito reprovador - Que coisa feia! Negando um Gucci dessa forma grosseira!

- Gucci?! - Kagome espantou-se - Nossa, agora é que eu não fico com ele mesmo!

- Oras, deixa de ser boba, Kagome! - falou Zhang, rindo do constrangimento alheio - Você sabe que não vai me fazer falta e eu quero muito que você fique com ele. Não vamos mais discutir, está decidido.

- Ei! - alguém abriu a porta do quarto de Zhang sem pedir licença - Vocês já estão prontas? Eu estou saindo e não pretendo esperar!

- Já, seu chato, argh! - reclamou Zhang cruzando os braços e saindo do quarto.

- E se começar a resmungar fica no meio da rua. - Ichiro olhou para Kagome em seguida - Pronta?

Kagome assentiu com a cabeça e os três saíram do apartamento.

O dia estava bonito já que a chuva havia dado um descanso para Tókio. Ichiro levantou o capô do carro, de forma que os cabelos de Kagome balançavam-se fortemente. A sensação era tão boa que ela nem ao menos se importou quando sentiu a presilha ficar folgada e os fios se soltarem um pouco do penteado.

Ichiro sempre olhava para Kagome pelo retrovisor quando tinha tempo. De acordo com o que ele pensava o vento deveria deixar as mulheres descabeladas e, consequentemente, desarrumadas, certo? Ele agora pensava que não. Como era possível que Kagome se tornasse ainda mais bonita depois de rajadas fortes de vento seguidas? Ia contra as leis da lógica. Ele observou que ela sempre tentava manter o cabelo todo atrás dos ombros, mas falhava miseravelmente pois parte dele lhe caía pelo busto ignorando o limite imposto. Era linda de qualquer jeito, mas naquele dia, estava especial. Seria o sorriso prazeroso que carregara durante todo o caminho? Ele chegou a pensar que talvez Kagome estivesse se lembrando dos momentos que passaram juntos, mas logo repreendeu-se.

"Talvez você esteja se iludindo demais, Ichiro."

Não demorou tanto para que eles chegassem ao destino. Kagome reconheceu o templo e lembrou-se da última visita com nostalgia. No mesmo instante, as cenas que se passaram quando ela evitou entrar no poço ficaram vívidas em sua mente. Estabeleceu como uma meta pessoal enfrentar aquele medo o quanto antes.

Subiram as longas escadarias brancas e Kagome viu Souta acenando da porta de casa. Parecia ter adivinhado que a irmã tinha acabado de chegar. Kagome separou os últimos dois metros que os separavam e correu para dar-lhe um abraço apertado.

- Irmãzinha! - disse ele, agarrando-a com força - Parece até que faz mais tempo, não é?

- Eu que o diga! - falou Kagome soltando-se do abraço e apontando para Ichiro e Zhang - Esses você já conhece!

Souta fez uma pequena reverência para os irmãos que responderam da mesma forma. Em seguida, os quatro entraram na casa e Kagome falou rapidamente com o avô e a mãe. Ichiro estava muito entretido com Buyo, como da última vez em que esteve na casa antiga de Kagome. Ela fez uma pequena recomendação para Souta pedindo que ele entretesse Ichiro até que ela terminasse de juntar suas coisas.

Zhang subiu com Kagome em direção ao quarto. Elas começaram catando pequenos objetos que haviam sido esquecidos nas gavetas e se divertiram ao encontrar livros antigos de ensino médio. Passaram longe dos de química e biologia alegres por não terem que estudar tais matérias de novo. Depois foram direto para o antigo armário de madeira. Kagome quase teve uma crise de riso quando deu de cara com vários despertadores quebrados. Ela não era muito delicada quando acordava cedo. Um deles chamou mais sua atenção do que os outros. Era rosa e tinha sido quebrado por Inuyasha. Ele tinha feito muitas coisas bobas naquele dia, mas quando pediu desculpas para ela ficou claro que na cabeça dele a única coisa que tinha feito de errado tinha sido quebrar o relógio. Zhang espantou-se ao vê-la olhar o objeto com carinho e colocar da caixa de papelão que estava usando para selecionar o que iria ficar com ela.

- Como você pretende usar um despertador velho e quebrado? - Zhang riu da excentricidade de Kagome.

- Ah - ela corou ligeiramente e desviou o olhar - é uma daquelas coisas que tem valor sentimental, sabe?

Elas continuaram a vasculhar o armário pacientemente e ainda encontraram alguns casacos velhos e sapatos dos quais Kagome mal se lembrava. Provavelmente estavam esquecidos ali a muito mais tempo. Kagome tinha acabado de tocar numa jaqueta jeans que ela pensava em reformar com algumas tachas e talvez uns cortes e uns botões novos. Foi quando Zhang a chamou.

- Kagome?

Ela virou-se e estranhou a expressão no rosto da amiga. Parecia meio assustada e interrogativa como se fizesse força para entender o que estava acontecendo. Em suas mãos havia um pedaço de papel de fotografia que Kagome demorou para reconhecer.

- Que foi, Zhang?

A amiga olhou para Kagome de um jeito sério em seguida tornou a olhar para a fotografia.

- Há quanto tempo você... Será que... A gente não já se encontrou antes de... - ela parecia pouco capaz de formular uma frase ou pergunta coerente - Na verdade...

Kagome chegou mais perto para analisar a foto e sentiu seu corpo inteiro gelar.

Nas mãos de Zhang, bem diante de seus olhos, estava uma foto tirada a mais de três anos atrás. Ela estava com um lindo vestido amarelo e um bolero azul claro por cima. Reconhecia aquela foto, aquele dia, aquelas roupas. Reconhecia o garoto ao seu lado com vestes pouco comuns de um tom intenso de vermelho e tecido desconhecido. Os longos fios prateados caíam sob os ombros fortes e - para alívio de Kagome - um boné vermelho e verde escondia suas orelhas não-humanas. Entretanto o que era realmente assustador na foto era o rosto de Inuyasha.

Era exatamente como o de Ichiro.

Era a expressão que ele carregava no rosto praticamente o tempo inteiro. As sobrancelhas quase que unidas numa amostra clara de tensão; os lábios meio crispados; os olhos agressivos, quase selvagens.

- Esse menino... - começou Zhang - Ele é...

- Um amigo! - interrompeu Kagome rapidamente - Um amigo de muito tempo atrás...

Zhang olhou a foto mais atentamente ainda.

- Como você nunca me falou dele?! Ele é a cara do meu irmão.

- Q-q-quê? - Kagome recriminou-se internamente por ter soado pouquíssimo convincente - Inuyasha não se parece com Ichiro! Talvez o nariz...

- Você tá brincando, né? - Zhang olhou-a em acreditar no que ela dizia - Ichiro faz exatamente essa cara quando está com raiva. Até o cabelo é meio parecido... Se esse garoto tirasse o boné e...

- Discordo. Não tem muito a ver eles dois.

Kagome evitava olhar diretamente para a imagem de Inuyasha na foto. Era realmente um absurdo negar a semelhança que ele tinha com Ichiro. Inevitavelmente, Zhang logo perguntou se Kagome ainda mantinha contato com ele.

- Ele... - Kagome nunca havia precisado dizer aquelas palavras antes para ninguém - Ele morreu. Há três anos.

Zhang virou-se para a amiga sentindo-se meio culpada. Kagome mantinha o olhar baixo, evitando encará-la. Zhang teve o bom senso de perceber que aquele assunto não era muito agradável para Kagome e limitou-se a dar a fotografia para ela.

- Então guarde. - Kagome olhou-a e viu que era compreendida - Ele deve ser importante pra você... Esse tal Inuyasha.

Kagome segurou a foto com carinho. Seus dedos percorreram cada centímetro da imagem estampada dele. Quase podia sentir o tecido áspero do kimono vermelho que tantas vezes ele havia tirado para protegê-la. Nem fazia idéia do quanto fora gentil e cavalheiro com ela naqueles momentos. Provavelmente nunca nem conhecia o significado de tais palavras.

- Vocês chegaram a ficar juntos alguma vez?

A voz de Zhang soou nos ouvidos de Kagome e ela processou a pergunta devagar demais.

- Como?

Zhang riu docemente e balançou a cabeça. Estava dividida entre desconversar e matar sua curiosidade.

- É que... - ela fez uma pausa curta - Não precisa negar, eu já percebi que ele não era só um amigo. Só queria saber se voc...

- Não, não. Ele... - Kagome percebeu cedo que não poderia enganar Zhang - Tudo bem. Eu... Gostava dele. Mas não ficamos exatamente juntos. Não houve... Ele não teve tempo, sabe?

A mão de Zhang apertou a de Kagome encorajando-a a olhar em sua direção. Os olhos de Zhang tinham compreensão e afeto. Invadiam Kagome por dentro, exploravam cada aspecto de seu passado e de sua personalidade. Será que algum dia ela seria capaz de entender o que realmente havia acontecido? Entender que Inuyasha não era um simples humano? Entender que Kagome não era louca por falar tudo o que tinha antecedido a morte dele?

- Como você... - começou Kagome - Como você sabia que eu gostava...

- Não sei - Zhang deu uma resposta adiantada - eu simplesmente sabia.

Um vento entrou pela janela do quarto. Os cabelos de Zhang sacudiram-se por alguns segundos e Kagome percebeu o quanto gostava dela. Parecia até que...

"Não... Mas... Como?!"

O vento parou e levou com ele as certezas momentâneas de Kagome.

"Por um instante... Eu vi. Eu vi..."

Mas depois que o instante acabou, Kagome não teve mais certeza de nada. Talvez estivesse apenas atordoada por ter encontrado a foto com Inuyasha; talvez aquela fotografia trouxesse lembranças demais para sua cabeça. Talvez essas lembranças estivessem misturadas. Era tudo uma ilusão. Foi embora.

Tudo foi embora.


- Vocês se entenderam bem, não foi? - perguntou Souta observando Ichiro puxar as patinhas de Buyo.

Ichiro olhou para o menino sentado ao seu lado. Ele tinha o mesmo sorriso de Kagome e isso o fez criar uma empatia imediata por ele. Sacudiu a cabeça afirmativamente, ainda um pouco tímido, e voltou-se para brincar com o gato.

- Souta! - a Sra. Higurashi chamou o garoto da cozinha - Venha levar esses biscoitos com suco para a visita.

Ichiro viu o garoto levantar-se do sofá e logo depois voltar com um prato de biscoitos apetitosos e dois copos de suco de limão numa bandeja. Ele apoiou as coisas na mesa de centro e pegou um cookie sem parar de observar Buyo e o amigo de sua irmã. Ichiro sentia os olhos do garoto fixos nele e sentiu-se constrangido. Pegou um biscoito com um guardanapo e comeu de uma só vez, tomando um gole de suco em seguida.

- Ei. - o menino chamou.

Ichiro olhou para ele.

- Minha irmã é legal com você?

Fora pego de surpresa. Não esperava uma pergunta tão complexa como aquela saindo da boca de um pirralhinho de treze anos. Levou-o a pensar numa resposta sincera. Kagome poderia negar o quanto quisesse, mas Ichiro sentia que ela bem gostava das implicâncias diárias que eles tinham na faculdade. Um sorriso discretíssimo lhe veio aos lábios. Ele se lembrou da festa, da dança, das gargalhadas. Lembrou-se de horas atrás, um esbarrão na cozinha que lhe tirara do sério.

- Sua irmã... - Ichiro limpou a boca com o guardanapo e olhou para o garoto - Ela só é muito estressadinha às vezes.

Souta deu uma risada sonora e comeu mais um pouco antes de retomar a conversa.

- É mesmo, não é? - entre uma mordida e outra, ele parava para mastigar - Você também deve gostar de provocá-la.

Ichiro admirou-se com a percepção do menino. Como ele sabia daquilo? Será que simplesmente conhecia a irmã que tinha tão bem assim?

Os dois ficaram parados, assistiam televisão enquanto petiscavam os deliciosos cookies preparados pela mãe de Kagome. Souta olhou o relógio e notou que seria melhor arrumar um outro passatempo se quisesse se manter entretido até que a irmã finalmente terminasse de arrumar as coisas.

- Você já conhece o templo inteiro? - perguntou ele.

- Não. - disse Ichiro - O que há de mais que eu devo conhecer por aqui?

Souta adorou que Ichiro tivesse feito tal pergunta.

- Venha - disse ele puxando-o pelo braço - eu te mostro.

Ele seguiu o menino. Passaram novamente pelo poço e Ichiro lembrou-se que Kagome tinha se recusado a entrar dando uma desculpa que ele julgou muito esfarrapada. Não sabia se era porque já tinha vindo naquele lugar a pouco tempo, mas tudo lhe parecia extremamente familiar. Souta pareceu saber que ele já conhecia o poço, pois passou direto seguindo na direção de uma árvore frondosa com uma cerca ao seu redor. Segundo o garoto, a árvore tinha mais de meio século de existência e possuía poderes mágicos inexplicáveis. Apesar de não acreditar nesse tipo de folclore, Ichiro se interessou misteriosamente por aquela história em especial.

- Que tipo de poderes essa árvora sagrada tem? - disse ele, ironizando sutilmente a mitologia em torno da árvore.

Souta não se abateu com o sarcasmo de Ichiro e continuou a falar olhando para a árvore.

- Minha irmã me contou que essa é a Árvore do Tempo. - Souta olhou para Ichiro que apressou-se em fazer uma expressão de seriedade mais convincente - Se você for lacrado nela ou algo do tipo, seu corpo não envelhece.

- Meh! - zombou Ichiro - Não envelhece, hem? Sua irmã andou te falando muitas bobagens.

Souta pareceu desanimar-se um pouco. Aquilo não estava saindo do jeito que ele planejava.

- Você não sente nada quando olha pra essa árvore?!

Ichiro riu da pergunta do menino.

- E eu deveria sentir o quê, garoto?

Souta percebeu que estava sendo incisivo demais e tratou de desconversar logo.

- Aah... - ele demorou um pouco a elaborar uma frase coerente - É que... Eu sempre sinto uma certa paz quando estou aqui. Parece que essa paisagem me acalma.

Ichiro olhou para o garoto. Ele estava mirando a árvore com uma certa devoção e parecia levar a mitologia em torno dela muito a sério. Ichiro, por sua vez, não sentia paz alguma olhando para aquela árvore, mas sim o contrário. Estar ali agitava todo o seu ser. Como se algo dentro dele quisesse se soltar, se desprender. Mas não atribuiu essa sensação ao local em si. Achava que se encontrava em tal estado por estar no território de Kagome. Afinal de contas, por algum motivo, a garota sempre o fazia sentir-se diferente.

- Você acredita nisso? - a voz do menino cortou sua linha de raciocínio.

- Nisso... - ele já havia perdido o fio da meada há tempos - Nisso o quê, garoto?

- Você sabe... Magia, seres mágicos... - Ichiro fez uma expressão que beirava o desprezo, mas Souta continuou mesmo assim - Toda aquela história de demônios e...

- Isso é bobagem, menino. - disse ele, rindo da inocência do garoto - Mas tem gente que acredita, não é mesmo?

- Sim...

- Você. - Ichiro interrompeu a fala de Souta bruscamente - Você acredita nisso. Eu notei.

Souta olhou para Ichiro adquirindo uma expressão de admiração no rosto. Mas ao mesmo tempo que achava semelhanças entre ele e Inuyasha, encontrava diferenças. Entretanto, sua vontade de ter o velho amigo de volta era tanta que ele não conseguia deixar de achar tudo aquilo natural. Afinal de contas, eles não seriam a mesma pessoa nem se realmente tivessem a mesma alma. Invariavelmente, lembrou-se do que sua irmã lhe dissera. Ela e Kikyou eram muito diferentes.

A mesma alma com outro coração.

- Eu acredito sim. - Souta continuou encarando Ichiro que passou a retribuir seu olhar na mesma intensidade - Eu tenho meus motivos.

- Tenho certeza que tem.

Por dentro, Ichiro achava uma certa graça do que Souta dizia, mas ao mesmo tempo notou que o menino parecia querer levar muito a sério essa história de demônios e magia. Fossem quais fossem seus motivos, Ichiro julgou-os bons. Souta não parecia alguém que tinha opiniões apenas por tê-las. E apesar de ser só um garotinho, soava como uma pessoa mais madura. Ele viu no menino a postura de quem se posicionava com razões pessoais para tal. Resolveu então atiçar a imaginação dele. Imaginou que aquilo fosse fazê-lo sentir-se melhor. Um pouco mais de credibilidade.

- Então... Como você sabe se as pessoas presas à árvore não envelhecem? - disse ele, colocando as mãos nos bolsos e mirando Souta - Alguém já ficou aí por muito tempo?

Souta olhou para Ichiro espantado. Será que ele estava então, lembrando-se de sua vida passada? Com uma pergunta como aquela era bastante provável. Mas se ele pudesse ler a mente de Ichiro, poderia facilmente enxergar que aquilo era mera curiosidade. Entretanto, Souta não lia os pensamentos dos outros. E foi por isso que sua empolgação retornou com força total.

- Claro! Já teve uma pessoa presa nessa árvore sim! - ele apontava para algum ponto do tronco energicamente - Bem ali! Ele ficou ali!

- Hmm... - Ichiro riu, satisfeito por ter empolgado o amiguinho - Ali, então, hem? Heh.

- Soooooouta-kun! - a voz da Sra. Higurashi veio de longe - Sooouta, Ichiro, entrem um pouco.

- É a mamãe. - disse Souta, enquanto andava de volta para a casa - Ela deve ter preparado alguma outra coisa pra você comer. Ela está muito agradecida, sabe? Por você e a sua irmã serem tão legais com a Kagome, entende? Hm?

Na ausência de uma resposta, Souta virou-se e percebeu que Ichiro não havia saído do lugar. Estava parado, observando a árvore, as mãos ainda estavam nos bolsos dando um ar desprentencioso à ele. Mas Souta notou que ele deveria estar pensando em alguma coisa.

"Ele tem que se lembrar. Inuyasha passou 50 anos lacrado aí!"

Mas Ichiro nada disse que confirmasse as suspeitas do menino. Quando Souta o chamou pela segunda vez, ele apenas afirmou não ter escutado e então começou a seguí-lo em direção à casa. Não houve mais diálogo.


- Souta? - Kagome descia as escadas com Zhang chamando pelo irmão - Souta, ajuda aqui, por favor.

Tanto ela como Zhang tinham nas mãos caixas de papelão de tamanho médio, cheias de cacarecos. Ainda havia uma terceira caixa lá em cima que Kagome pediu para Souta trazer. O menino subiu as escadas rapidamente enquanto a irmã e Zhang colocavam as caixas no chão.

- Terminaram, meninas? - perguntou a mãe de Kagome - Que acham de um pequeno lanchinho?

Ichiro estava sentado à mesa da cozinha onde também se encontravam a mãe de Kagome e o avô. A Sra. Higurashi havia se dado o trabalho de servir alguns pães caseiros com refrigerante para Ichiro e ele pareceu estar gostando, pois mantinha a boca sempre cheia de comida. Kagome encontrou o olhar dele e deu um sorriso discreto que ele mal teve tempo de retribuir. Depois dirigiu-se a mãe.

- Claro, claro! Venha, Zhang, senta com a gente.

Nesse espaço de tempo Souta desceu e juntou-se a eles. Kagome percebeu que o irmão estava inquieto ali, sentado ao lado de Ichiro, mas não entendia o porquê. Ele lançou vários olhares para Kagome querendo transmitir alguma mensagem. Eles se comunicavam daquele jeito especial que só os irmãos muito próximos conseguem fazer.

Kagome percebeu que era algo relacionado à Ichiro, mas não deu a menor chance para que Souta falasse. Fosse lá o que tivesse acontecido, ela não queria saber. Toda aquela história de reencarnações já havia chegado longe demais quando ela encontrou a foto de Inuyasha minutos antes.

Eram sete horas da noite quando eles finalmente deixaram o Templo Higurashi. Kagome nem sentiu o tempo em que esteve no carro passar. Uma sonolência que ela atribuiu à noite mal dormida tomou conta dela e a fez adormecer. Zhang logo notou e olhou para trás verificando que a amiga estava realmente dormindo. Depois olhou para o irmão que dirigia o carro em silêncio.

- Ichiro?

Ele se espantou com a quebra do silêncio e emitiu um som que mostrava que ele estava ouvindo o que quer que Zhang fosse dizer. Ela entendeu o recado e prosseguiu.

- Você gosta da Kagome?

- Q-quê? - ele parou de olhar para a estrada por um momento e fixou Zhang surpreso com sua audácia - Que tipo de pergunta é essa?

Zhang cruzou os braços com impaciência enquanto Ichiro olhava nervosamente para o retrovisor. Aliviou-se quando viu que Kagome dormia como um anjo no banco traseiro no carro.

- Mas será que você não pode simplesmente responder? - Zhang deu um suspiro pesado - Ela está dormindo ali atrás, não vai ouvir nada.

- Heh. Não me importo com o que ela ouvir.

- Ah, não? - perguntou Zhang ironicamente - E porque você olhou pelo retrovisor para garantir que ela não estava escutando.

Ichiro ficou vermelho de vergonha, mas tentou disfarçar usando um alto nível de sarcasmo.

- Heh! Muito engraçada, Zhang. Mas eu tenho que olhar para o espelho retrovisor de vez em quando. Sabe como é... Eu estou dirigindo! Apesar de duvidar que esse seja um conhecimento que você, de fato, domine.

Zhang não deixou de ficar ofendida com as palavras proferidas pelo irmão, mas optou por ignorá-las solenemente.

- A Kagome é bem bonita, não acha? - disse ela enquanto olhava a amiga dormir - Ela seria o tipo de garota que lhe atrairia em Hokkaido.

- Ela... Ela não é como qualquer outra garota. - disse ele ostentando uma expressão bem séria no rosto.

Zhang o olhou com espanto. Não sabia se o irmão estava declarando definitivamente que sentia algo especial por Kagome ou algo parecido; ou se ele estava simplesmente dizendo que ela não fazia o seu tipo. Resolveu ir mais a fundo na conversa.

- E no que ela seria diferente das out...

- Cala a boca, Zhang. - cortou Ichiro, friamente - Eu estou dirigindo.

Zhang ficou chateada durante o resto do caminho falando apenas quando eles chegaram à casa de Kagome. Ela acordou a amiga e foi aí que teve uma idéia que poderia ser capaz de acalmar o humor de seu irmão e melhorar o de Kagome.

- Kagome... - Zhang perguntava, já saindo do carro - Como você pretende levar tudo isso lá pra cima? Não vai precisar de ajuda?

De fato, Kagome notou que teria que levar duas caixas grandes mais sua bolsa enorme onde havia levado suas roupas e tudo que precisou na casa de Zhang. Antes mesmo que pudesse ter alguma idéia de como lidar com tanta bagagem, a amiga se adiantou.

- Acho que o Ichiro poderia te ajudar... - ela colocou a cabeça dentro do veículo pela janela e chamou o irmão - Ei, desça um pouco. Você vai ajudar a Kagome.

Ichiro fez a cara mal humorada de sempre e desceu do carro a contragosto.

- Porque você mesma não ajuda a sua amiga, hem? - perguntou ele, alto o suficiente para que Kagome também pudesse ouvir.

- Aah, Zhang, ele não precis... - Kagome começou a falar mas foi logo interrompida por Zhang.

- Não, ele ajuda sim! Só tá fazendo charme, não é, irmãozinho? - disse ela, fuzilando-o com o olhar - Eu tenho que... Comprar sorvete. Por isso não vou ajudar.

- Nossa. - disse Kagome, achando a situação engraçada - Que grande amiga eu tenho. Me trocando por um sorvete.

Ichiro não conseguiu conter a risada. Tapou a mão com a boca sob o olhar fuzilante de sua irmã que entrou na sorveteria logo depois. Kagome gostou de ouvir a risada dele e os dois se encararam por uma fração de segundos. Nenhum dos dois parecia incomodado com a possibilidade de ficar juntos e a sós por alguns momentos. Ele avançou para ela que estava parada ao lado da porta pela qual tinha saído.

- Então... Deixa eu te ajudar enquanto sua amiga - disse ele, ironizando a palavra - te abandona.

Kagome sorriu e pegou sua bolsa, mas Ichiro tomou-a de sua mão quando viu que ela pretendia carregá-la junto com uma das caixas.

- Eeei... - protestou ela.

- Deixa que eu cuido disso.

Ele colocou a bolsa de Kagome em um ombro e ergueu uma das caixas deixando o último pacote para ela. Kagome agradeceu e então os dois atravessaram a rua em direção à portaria do prédio de Kagome.

Ela mal pôde acreditar quando chegou perto dos elevadores. Ambos continham placas indicando "manutenção" penduradas. Desanimou-se em menos de um segundo.

- Aaah, eu não acredito! - lamentou ela enquanto analisava as placas mais de uma vez - Logo hoje, mas que droga!

Ouviu uma porta se abrindo atrás dela e quando se virou viu que Ichiro já tinha achado o caminho para as escadas. Ele tinha uma expressão desafiadora no rosto.

- Eu aposto que você não aguenta esses lances de escada sem parar para respirar uma única vez.

- Haha. - Kagome pareceu entrar na brincadeira e aproximou-se mais um pouco dele - Isso é algum tipo de aposta?

- Se você diz... - ele afastou um pouco mais a porta dando espaço para Kagome passar - Primeiro você.

Eles começaram a subir. Ichiro mantinha um ritmo constantemente rápido. Não chegava a pular degraus, mas também não parecia precisar tomar fôlego. Kagome tentava acompanhá-lo, mas depois do quinto lance de escada seguido ela sentiu uma certa dificuldade. Seu apartamento ficava no oitavo andar e apesar de estar relativamente próximo dele, Kagome sentiu a distância aumentar. O peso da caixa já havia se tornado bastante incômodo e já bem perto do final ela parou por três segundos deixando que Ichiro a ultrapassasse.

Ele notou logo que ela havia parado e virou-se sem conseguir deixar de rir. Kagome não conseguia pensar em nada para falar de forma que apenas encostou-se na parede e ficou olhando para Ichiro, encantada.

"Como alguém consegue ser tão lindo assim?"

Ela mal teve tempo de notar que ele tinha descido os degraus que os separavam e estava puxando a caixa que ela segurava.

- Você não precisa... Sério. - disse Kagome, evitando o olhar dele, envergonhada.

- Tudo bem... - por um instante, ele pareceu bem romântico agindo como um cavalheiro daquele jeito, mas foi só até completar sua frase - Você já perdeu a aposta mesmo, heh!

Kagome respirou fundo tentando fingir alguma irritação, mas o sorriso em seus lábios não deixava a farsa se sustentar. Ela subiu os últimos dez degraus e quando chegou tirou da bolsa que Ichiro segurava as chaves do apartamento.

- Prontinho! - disse ela, entrando em casa - Você pode deixar essas coisas em cima do sofá mesmo.

Ichiro obedeceu a recomendação de Kagome e antes que tivesse tempo para sair de fininho ela o interceptou com mais uma de suas perguntas.

- Quer algo para beber? - disse ela, abrindo a geladeira na cozinha - Não sei você, mas eu preciso de um bom copo de água gelada!

Ele seguiu a voz dela e apoiou-se no bar da cozinha.

- Aceito uma água também.

Kagome serviu dois copos na frente dele e colocou a jarra de água de volta na geladeira. Ela tomou o copo calmamente e ficou obervando Ichiro. Ele bebeu tudo num só gole.

- Obrigada. - disse Kagome, apoiando o copo no bar e atraindo o olhar dele - Obrigada por ter... Me ajudado hoje. E obrigada por ter me feito companhia ontem.

Ele não sabia como reagir direito. Não era muito acostumado a fazer coisas pelas outras pessoas, especialmente se elas fossem mulheres. Portanto, eram raras as vezes nas quais ele escutava um agradecimento. Apenas acenou com a cabeça, visivelmente tenso, e fez menção de se retirar do apartamento. Mas Kagome cruzou o bar e segurou-o pelo braço.

- Espera.

Ele virou-se para ela. O tom de voz da garota despertava todos os seus sentidos e fazia seu corpo vibrar, agitando-o. Talvez, se ela tivesse demorado mais um pouco, ele teria desistido de resistir ao impulso de abraçá-la ali mesmo.

E era estranho. Porque ele sentia que se contentaria com apenas um abraço dela. Não era algo que ele já havia sentido antes. Era diferente de querer apenas ficar por ficar. Mais do que isso. Talvez o aspecto frágil e inocente que emanava dela despertasse esse tipo de instinto protetor nele. Mas não, não era mero instinto protetor. Até porque apesar da aparência, ele sabia que ela era uma mulher forte e decidida. Era mais do que isso...

Era uma vontade de apenas... Ficar por perto.

- O que nós estávamos apostando? - perguntou Kagome, atravessando os pensamentos de Ichiro.

Ele se surpreendeu com a pergunta dela. Se fosse qualquer uma das garotas com as quais costumava lidar eles provavelmente já estariam unidos em um beijo ardente, tão enroscados como se fossem um só. Mas ela era a primeira menina da qual ele sentia vontade de se aproximar que agia diferente.

- Ichiro? - a voz dela retornou, mais enfática e um tanto divertida - O que a gente apostou agora? Vai dizer que nem você mesmo sabe?

Ele riu e se aproximou um pouco mais dela. Kagome teve que inclinar a cabeça levemente para cima quando ele chegou mais perto. Ichiro pensou por uns instantes e depois que decidiu sua resposta aproximou-se ainda mais da garota, fazendo-a recuar alguns centímetros. O rosto dele se abaixara, procurando ficar no mesmo nível que o dela. Os narizes estavam quase se encostando.

- Já que fui eu que ganhei a aposta... - ela estremeceu quando sentiu o hálito refrescante dele - Presumo que eu devo decidir o que vou ganhar.

Ela pensou que ele fosse beijá-la naquele exato momento. Mas não. Ichiro virou-se, controlando-se com todas as forças que tinha. Ele saiu andando em direção à porta, deixando Kagome confusa e sem ter o que dizer. Apenas tornou a olhar para ela antes de sair do apartamento.

- Eu vou te cobrar... Depois. - ele piscou para ela - Tchau, Kagome.

A porta se fechou. Ela havia sido deixada sozinha no apartamento.

Não era algo que pudesse evitar. Era simplesmente o efeito que ele provocava nela. Precisou respirar bem fundo algumas vezes para recuperar o fôlego. Ainda podia vê-lo a poucos centímetros dela, os lábios separados por uma distância tão curta, porém tão significante. Kagome deixou o corpo cair no sofá e ficou mirando o teto, um pouco atordoada.

Ela tinha que fazer algo sobre aquilo. Antes que pudesse sequer pensar na possibilidade de Ichiro ser seu amigo. Kagome foi até seu quarto e sentou-se na cama com um caderno apoiado em suas pernas. Ela nunca tinha sido boa em pensar em silêncio ou falando consigo mesma. Escrever era o melhor remédio.


25 de julho, 2002.

"Pense numa pessoa sem sorte alguma. Multiplique por mil. Sou eu. Como se não bastasse tudo o que eu já passei quinhentos anos atrás. Eu devo ter sido alguém realmente mau em alguma outra vid passada.

Acabei de me lembrar que na outra vida eu fui Kikyou. Esquece. Eu sou azarada porque eu tenho que ser mesmo, hahaha, que engraçado.

Encontrei uma foto de Inuyasha hoje. Na verdade, dizer que fui eu que encontrei é meio que mentir. A Zhang quem viu primeiro. E é, ela ficou impressionada com a semelhança física entre Ichiro e Inuyasha. Depois de me amaldiçoar mil vezes por não ter sido mais cuidadosa e ter feito eu mesma essa arrumação eu parei e pensei direito.

Tudo bem eu achar parecido. Tudo bem Souta, mamãe e vovô acharem. Eles conviveram com Inuyasha e imagino que todos sintam a falta dele. Poderia ter sido uma simples manifestação do quanto o queremos de volta, certo?

Mas dessa vez ocorreu com a Zhang. E justo ela que não sabia de nada. Justo ela que convive com Ichiro desde sempre. Se ela que é a irmã achou parecido quem sou eu para questionar? Só que eu não posso ter certeza olhando apenas para a aparência física dele. Até porque esse não é o único fator que eu devo considerar. A própria vovó Kaede me disse que ela só teve certeza que eu era a reencarnação de Kikyou quando a jóia de quatro almas saiu do meu corpo. Agora que penso a respeito, vejo o quanto nós duas éramos diferentes psicologicamente. As semelhanças físicas, entretanto, eu não posso negar. Especialmente agora, que eu tenho a mesma idade que ela tinha quando morreu.

Então, se uma reencarnação pode ser fisicamente parecida, mas não psicologicamente parecida com sua encarnação passada... O contrário também pode ocorrer? Esse foi outro pensamento que eu tive e não necessariamente referente a Ichiro.

Houve um momento hoje a tarde no qual eu tive a absoluta certeza de que Zhang sabia de tudo sobre a Era Feudal. O modo como ela me entendeu, a maneira com a qual ela conseguiu adivinhar o que Inuyasha e eu sentíamos um pelo outro. E ela apenas olhou uma foto. Eu estava tão abismada que não consegui pensar em nada decente para dizer na hora. E então quando ergui a cabeça ali estava. Sorrindo pra mim, um pouco mais adulta e madura. Claro que o rosto de Zhang é completamente diferente. Mas o sorriso e a sensação que tive enquanto estive com ela era a mesma.

Seria muita coincidência algumas das pessoas com as quais convivi na Era Feudal terem reencarnado tão perto assim de mim?

Eu vou adiantar tudo o que eu puder na Universidade essa semana. Não posso mais continuar desse jeito. A jóia está inquieta e o poço me chamando mais do que nunca.

Tenho que ser forte."