Observações da autora:
Trilha sonora do capítulo está por conta da música "Are You Gonna Be My Girl" da banda Jet :)
Capítulo 12
Antes que Kagome pudesse fazer qualquer coisa, Zhang e Sam zarparam em sua direção empurrando-a de volta para fora da sala.
- Mas que porcaria, Kagome! - sussurrou Sam, parecendo nervosa - Não sei nem por onde eu começo!
- Aaah, eu sei por onde começar... - continuou Zhang no mesmo tom de voz baixo - Esganando meu irmão por ser tão indiscreto!
- Gente... - protestava Kagome, em meio as reclamações das amigas - D-desculpe...
Quando elas chegaram do lado de fora da sala Sam cruzou os braços ameaçadoramente e perguntou, incisiva.
- Por que?
- O q...? - Kagome tentou começar o esboço de uma resposta, mas Sam não teve paciência para escutar até o final.
- Por que você está se desculpando? - Sam viu que Kagome continuava com uma expressão confusa e temerosa no rosto - Oras! Pelo que você acha que deve se desculpar?
Kagome encolheu-se. Sam poderia ser bem ameaçadora quando queria. Todo o seu um metro e oitenta de altura parecia pronto para ter um ataque de nervos e a mente de Kagome foi invadida por uma imagem mental de uma Samantha enfurecida disposta a usar o seu tamanho para conseguir o que quisesse.
- Er... - Kagome engoliu em seco - Eu peço desculpas por sair com o Ichiro...?
As duas deram tapas em suas respectivas testas, lamentando o fato de terem uma amiga tão inocente. Foi quando Sam tomou a frente de novo.
- Não, Kagome! Ai, meu Deus... Ninguém aqui ou ali está te culpando por sair com o Ichiro. Sabe qual foi o seu erro nisso tudo?
Kagome sentiu seu corpo inteiro formigar quando se deu conta de que suas amigas realmente achavam que de alguma forma ela havia feito algo de errado. Levou as mãos à boca com ar de preocupação e sentiu pequenas gotas de suor frio se formarem em sua testa. E ficou esperando a resposta que saiu da boca de Sam.
- Kagome, você meio que garantiu para o Éric que não tinha nada com o Ichiro.
- Mas... Mas eu sei! Eu não tenho nada co...
- Caramba, Kagome! Nem um cego é incapaz de vez que vocês não estão completamente loucos um pelo outro! - alterou-se Sam, fazendo com que algumas pessoas que estavam por perto parassem e olhassem, intrigadas.
Sam percebeu que chamara a atenção e foi aí que começou a mudar o tom de voz.
- Ok, não há razão para pânico... - falou ela, mais pra si mesma do que para Kagome - Pense, Samantha, pense...
- Olha, gente... - falou Zhang, buscando acalmar os ânimos - Vamos com calma. Kagome, a gente só precisa saber se foi isso mesmo que aconteceu. Porque foi isso que ele nos contou, entende?
Kagome limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente.
- Ai, meu Deus... - lamentou Sam.
- Calma, Sammy, foi a primeira vez que ela fez isso. Lembra?
Sam encarou Kagome e chegou mais perto dela passando uma mão no seu ombro. A expressão em seu rosto já se abrandara e ela agora parecia somente preocupada.
Kagome olhou para as amigas enquanto segurava a mão de Sam que estava em seu ombro.
- O que eu vou fazer agora, gente? - perguntou ela, confusa - Sério, eu não queria perder a amizade do Éric. De jeito nenhum.
Sam passou a mão nos cabelos da amiga e já não soava mais como uma mãe furiosa quando tornou a falar.
- Kagome, se você quer a amizade dele, você tem que manter as coisas como estão por mais tempo.
- Como assim?
Zhang segurou uma das mãos de Kagome.
- Continuem amigos. Você e Ichiro, quero dizer.
Kagome lembrou-se que, de fato, essa era a opção mais segura. Por mais que as suas amigas duvidassem de sua palavra ela havia feito um trato com o próprio Ichiro mais cedo, não? Ela iria respeitar aquele acordo, ainda mais agora, que havia magoado um de seus melhores amigos.
- Eu vou ser só uma amiga dele.
Sam e Zhang se entreolharam, as duas duvidando da afirmação de Kagome.
- Sério, eu prometo. - garantiu ela - Nós dois, eu e ele, nós resolvemos isso juntos, hoje mesmo.
- Bem... - começou Sam contemplando suas próprias cutículas - Deixe que o Éric lide com os ciúmes dele sozinho então. E também...
Ela fez uma pausa demorada ao que Kagome olhou para Zhang que deu de ombros.
- Também...? - encorajou Kagome.
- Também me prometa que você não vai descartar a possibilidade de se tornar a cunhada da Zhang.
- Hahaha, Sam! - recriminou Zhang - Assim você vai deixar Kagome confusa. Sabem o que eu acho? Você não deve satisfações a nenhum dos dois. Deixe que eles se resolvam, ué.
- Zhang Masagami... - Sam fez uma referência para a amiga e depois começou a bater palmas discretamente - Olha eu não poderia esperar menos de uma garota tão sensata... A voz da sabedoria!
- Vocês duas! - gargalhou Kagome - Deixem de palhaçada! Aposto que querem mesmo é saber como acabei dividindo um almoço com Ichiro hoje.
As duas deram pulinhos, empolgadas, mas a euforia diminuiu quando o professor chegou na sala de aula e fez questão de chamar seus nomes em alto e bom som, convidando-as a sentarem em silêncio. Sam e Zhang suspiraram desanimadas e Kagome piscou o olho garantindo que contaria a elas tudo depois nos mínimos detalhes.
Kagome fez questão de sentar-se num canto da sala, na terceira carteira. Não conseguia prestar atenção às aulas, não com Éric encarando-a periodicamente com aquele olhar de menino perdido. O que mais doía nela era saber que o amigo não iria gritar, espernear ou ter qualquer atitude que demonstrasse raiva. Ele só parecia triste e muito decepcionado. Mas Kagome iria esclarecer as coisas com ele. E depois acertar as contas com um certo cachorrinho implicante. Afinal, se ele planejava manter qualquer tipo de relacionamento com ela, deveria controlar as provocações e reprimir um pouco o sarcasmo e as ironias. Entretanto, Kagome via aquilo como uma missão praticamente impossível. Parecia que era algo intrínseco à ele.
Mais algum tempo se passou até que Kagome encontrou o olhar de Éric. Primeiro ela desviou, depois tornou a olhar e ele ainda estava mirando-a. Foi então que os lábios dela se curvaram em um sorriso discreto, buscando selar a paz.
Éric não correspondeu, só voltou a baixar a cabeça e retomou alguma coisa que escrevia rapidamente.
Kagome revirou os olhos e respirou fundo. Será que seria sempre daquele jeito? Problema atrás de problema? Ela se recordou que havia planejado uma tentativa de voltar para a Era Feudal provavelmente no sábado e sua cabeça latejou imediatamente. Aquele era um assunto que a preocupava mais do que qualquer outro.
- Kagome... - sussurrou Kayri, sentado ao lado dela - Tome.
Ele estendeu um pequeno papel dobrado num quadrado perfeito que tinha o nome dela escrito numa caligrafia caprichada. No primeiro momento, não fez nem idéia do que se tratava, mas assim que o abriu soube quem era o autor. Havia apenas uma linha e era uma pergunta clara e objetiva.
"Você quer me dizer algo?"
Kagome olhou para Éric que parecia concentrado em fazer anotações no caderno. Mas ela sabia que havia sido ele. Com uma última checada no professor, certificou-se de que o mesmo desconhecia a existência do bilhete. Foi aí que ela começou a escrever.
"Não. Nada :)"
Kagome dobrou o bilhete novamente e, com um movimento rápido, jogou-o no colo de Kayri. Ela esperava que houvesse tempo para que Éric pudesse responder, mas quando se deu conta o professor já anunciava o fim das aulas. Zhang e Sam, sentadas mais à frente, viraram-se instantaneamente para onde ela estava. Seus olhares ansiosos registravam cada movimento da amiga. Kagome olhou para Éric que estava ligeiramente tenso e analisava o bilhete com olhos atentos. Ela então juntou suas coisas e enquanto Zhang e Sam a imitavam, passou aonde Éric estava e indicou com a cabeça a porta da sala, querendo dizer que estaria do lado de fora.
- O que aconteceu? - perguntou Zhang, ansiosa.
- Ele perguntou se eu tinha algo a dizer - respondeu Kagome, mirando o chão - e eu respondi que não.
- E você escreveu isso numa língua que ele entenda? - brincou Sam, tentando descontrair - Porque faz tanto tempo que ele tá olhando pro papel que você pode ter escrito em árabe sem perceber, sei lá.
Kagome riu de leve e revirou os olhos. Nesse momento Johnny saiu da sala seguido por Kayri. O primeiro parecia estar empolgado com alguma coisa e segurava um panfleto verde-limão bastante chamativo.
- Eis o nosso programa de sexta feira! - declarou ele, estendendo um papel no meio do semi-círculo que as garotas formavam - Vamos, vamos?
Kagome pegou o panfleto e percebeu logo do que se tratava.
- A sua banda vai tocar? - questionou ela.
- E eu conto com a presença de todas as minhas fãs!
As três garotas se entreolharam e uma grande crise de riso se instalou entre elas. Johnny cruzou os braços e ficou esperando que as amigas se acalmassem, pacientemente.
- D-desculpa, mas... - Zhang tentou começar sendo interrompida pelas próprias risadas - Quando você diz "todas as suas fãs" você quer dizer nós... três?
Kagome tentou segurar uma risada, mas Sam não seguiu o seu exemplo e continuou gargalhando em alto e bom som. Johnny pigarreou, anunciando que iria declarar alguma coisa.
- Hahaha, muito engraçado, Zhang. - ironizou ele, as sobrancelhas praticamente unidas numa expressão de irritação evidente - Vai dar muita gente nesse show, o lugar é ótimo e as primeiras trezentas bebidas vão ser de graça. Vocês vão?
- Hm, deixe-nos pensar... - Kagome colocou uma mão no rosto fingindo ponderar a questão - É o primeiro show do nosso querido amigo baby, no melhor dia da semana com bebidas de graça...
- Olha aqui, - recomeçou Johnny, irritado - Baby é o seu...
- Nós vamos! - falou Kagome cortando-o de propósito - Está decidido.
Um sorriso formou-se nos lábios de Johnny e ele comemorou dando algumas tapas nos ombros de Kayri, chamando sua atenção pela primeira vez. Kayri parecia estar se concentrando em algum ponto fixo do lado direito de Kagome, mas ninguém prestou muita atenção naquilo.
Houve um barulho de celular recebendo mensagem, mas Kagome soube que era o dela quando sentiu uma pequena vibração na bolsa. Ela reconheceu o número do celular que havia ligado para ela mais cedo: era Ichiro.
"Que horas suas aulas acabam hoje?"
Kagome começou a sentir um leve nervosismo querendo se manifestar, afinal, aquela não era a hora correta para receber qualquer sinal de vida de Ichiro. Ela tinha de se concentrar em conversar com Éric e fazê-lo acreditar nela, afinal ele poderia chegar a qualquer momento.
- Kagome.
O sotaque francês soou, rouco, nos ouvidos dela fazendo-a estremecer.
Não se deu o trabalho de responder, apenas caminhou na direção dele que abriu os braços e sorriu para ela. Kagome olhou-o confusa, sem saber muito bem o que pensar daquele gesto, mas quando Éric balançou a cabeça afirmativamente e lhe deu um sorriso ela compreendeu. Eles se abraçaram fraternalmente e Kagome sorriu segurando-o pela mão enquanto andava de encontro ao resto do grupo.
As meninas tinham semblantes aliviados em seus rostos; já Johnny parecia estar completamente alheio ao que se passava, captando as atenções da roda enquanto fazia uma propaganda exagerada de seu show. Hideki não demorou a abraçar a namorada, dando um beijo em sua testa. Kayri abraçou Kagome pelos ombros brincando de bagunçar os cabelos dela com a mão livre.
Nada havia mudado.
Os horários de Kagome estavam completamente quebrados de forma que ela teve que esperar uma hora até que a próxima aula se iniciasse. Todos, com exceção de Johnny, Kayri e Sam, resolveram passar o tempo lendo livros na biblioteca. Éric parecia absolutamente normal, para alívio de Kagome e ela pode desfrutar de uma tarde tranquila como não tinha desde a festa da semana passada.
Johnny chegou junto de Kayri e Sam. Os três estavam dez minutos atrasados e pareciam ter feito algum tipo de esforço físico em graus diferentes. Kagome pode ver pelo cabelo molhado de Johnny que ele estivera treinando e suspeitou que talvez Sam e Kayri caminharam para voltar para a Toudai, pois estavam vermelhos e ligeiramente sem fôlego.
Foi só quando chegou em casa, às nove horas da noite que ela se lembrou da mensagem que Ichiro havia enviado mais cedo. Decidiu que não faria mal nenhum ligar para ele, dar notícia ou algo assim. Não que ela achasse que ele estava preocupado com seu paradeiro. Ichiro não parecia ser o tipo de pessoa que perdia tempo pensando nisso.
O telefone chamou seis vezes antes que a voz mal humorada dele soasse do outro lado da linha.
- Mas já? Meh. - resmungou ele aparentemente descontente com alguma coisa.
- Eu acabei de chegar em casa, de qualquer forma. - enfatizou ela, apesar de suspeitar que Ichiro sabia disso, afinal Zhang era irmã dele - O que você queria afinal de contas?
- Nada.
Ele suspirou audivelmente e jogou o pescoço para a ponta da cama na qual estava deitado. Sentiu o sangue descer aos poucos para a cabeça, não sabia porque, mas gostava daquela sensação.
Não sabia porque, mas gostou que ela tivesse ligado.
- E porque você queria saber que horas minhas aulas acabavam? - perguntou Kagome, ainda intrigada.
- Eu não tenho nada a ver com o fato de você ter me ignorado durante o resto do dia. - protestou ele, enquanto ficava de bruços na cama - Morra de curiosidade aí porque eu só tenho a dizer que você perdeu uma grande oportunidade.
Kagome riu e Ichiro achou ótimo. Parecia até que eles sempre se falavam ao telefone de tão natural e agradável que a conversa estava. A garota foi até a cozinha e prendeu o celular com o ombro enquanto equilibrava a jarra de água numa mão e o copo em outra.
- Não vai me dizer o que é? - insistiu Kagome mais uma vez.
Ichiro tateou os papéis que estavam em seu criado-mudo a procura de algo em especial. Ele usou a visão periférica para localizar um borrão verde vivo e então soube onde o que ele queria estava.
- Eu ia dizer, não pense que sou tão ruim... - murmurrou ele admirando o folheto que havia pego - Mas é melhor que você não saiba de qualquer forma.
- Hm... - Kagome tomou um refrescante gole de água e continuou - Está conseguindo me deixar curiosa. Vou perder bastante tempo pensando nisso.
- É essa a idéia. - explicou ele, levantando-se da cama rapidamente - Pensar em algo que eu te disse vai fazer com que você pense em mim mesmo que indiretamente.
- Oh... Ichigo, sobre isso...
- Não me chame assim, idiota. - interrompeu ele.
Kagome ignorou o xingamento concentrada demais em pensar numa forma de enfatizar para Ichiro o tipo de relacionamento que eles teriam.
- Você ainda lembra de alguma coisa do que discutimos hoje durante o almoço? - perguntou ela, suspirando ao final da frase.
Ichiro deu uma volta pelo quarto e saiu andando pelo corredor em direção à varanda. Não sabia porque de repente Kagome parecia tão séria e tão chata.
- Aonde você quer chegar, hem? - perguntou ele demonstrando má vontade - Conversamos sobre muitas coisas hoje, feh.
- Acontece que nós somos só amigos. - falou Kagome pausadamente como que ensinando o alfabeto a uma criança.
- Ok, eu sei disso. - falou Ichiro, procurando engolir em seco de forma que Kagome não notasse - Amigos não podem pensar uns nos outros?
A pergunta flutuou no ar. Ichiro já havia se sentado numa cadeira da varanda, coincidentemente no mesmo lugar que ele e Kagome haviam conversado ao final da festa de sábado. Ela fechou a geladeira pacientemente e saiu andando rumo ao quarto tentando conceber uma forma de demarcar algum limite para Ichiro.
- Podem. - falou ela, com relutância - Mas ac...
- Ótimo. - interrompeu ele com medo de escutar o que poderia vir a seguir - Resolvido.
- É bom que fique bem claro.
Ele queria perguntar do que afinal ela sentia tanto medo. Kagome sempre agia como se soubesse exatamente aonde as coisas iam dar e isso perturbava Ichiro. Resolveu partir para um assunto que lhe fosse mais interessante a fim de acalmar os ânimos.
- E então... - ele agora brincava com os limites da cadeira em que estava sentado balançando-se para frente e para trás equilibrado em duas das quatro pernas do móvel - Você já decidiu o que vai querer de mim?
- Hm? - ela balançou a cabeça de um lado para o outro como se estivesse afastando idéias malucas de sua cabeça e riu de si mesma - Ainda não decidi nada.
- Acho bom você andar logo com isso... Heh.
Kagome ergueu uma sobrancelha imaginando mil coisas e soltou um resmungo impaciente encorajando Ichiro a complementar o raciocínio.
- Oras... - recomeçou ele - Outras pessoas, abre parênteses "Hasegawa" fecha parênteses, podem chegar antes de você.
- Ela não é mais sua amiga do que eu, imbecil... - esnobou ela, se fazendo de difícil - Mesmo que a gente esteja se falando decentemente a menos de uma semana, eu... Eu sei disso.
- Você hesitou.
- Cala a boca! - alterou-se ela, as bochechas corando só de pensar na expressão de divertimento que deveria estar estampando o rosto de Ichiro - E-eu vou desligar, tenho duas plantas baixas pra entregar amanhã.
- Vá! Vá ser útil para a humanidade... - zombou ele, divertindo-se com a irritação de Kagome - Até amanhã.
- Até...
Passaram-se dois segundos do mais completo silêncio entre os dois. Kagome sentia que suas têmporas continham gotículas mínimas de suor causadas pelo nervosismo do momento.
- T-tchau. - disse ela.
- Ei.
Kagome colocou o telefone no ouvido novamente e esperou.
- Beijo.
E então ele desligou.
Ela não sabia o que tinha na voz dele que fazia seu corpo inteiro vibrar daquela forma. Não era algo que ela lembrava de ter sentido muitas vezes. Ichiro tinha uma voz rouca, grossa e bastante rude. Combinava perfeitamente com os resmungos que ele emitia durante a maior parte do tempo. Entretanto a voz dele se adaptou muito bem à canção que ele havia mostrado a ela no outro dia. E ficou ainda melhor quando ele disse aquela única palavra que bagunçou tanto os sentidos de Kagome como se ele tivesse, de fato, lhe dado um beijo.
Ela sabia que se aquela conversa tivesse sido cara-a-cara Ichiro não se limitaria a beijar só o seu rosto, como um verdadeiro amigo faria.
Um arrepio percorreu a espinha de Kagome e naquele instante ela soube que por mais que tentasse não iria conseguir resistir aos encantos dele por muito tempo. Ele já estava conseguindo tanta coisa dela e com tão pouco esforço. E Kagome se sentiu fraca, frágil, vulnerável. De repente as lágrimas lhe vieram aos olhos e tudo ficou turvo, sem distinção. Ela apertou a jóia que trazia em seu pescoço e respirou fundo.
Precisou de quinze minutos para se concentrar nos estudos e depois de terminar, desabou na cama sem nem ao menos jantar.
Não havia conseguido dormir muito bem naquele dia, mas honestamente, não se importou. Estava começando a se sentir bem idiota por ter passado pelo menos trinta minutos pensando em como Kagome estaria reagindo as investidas discretas que ele estava ensaiando. Acreditava sinceramente que seria capaz de romper essa barreira que ela insistia em construir.
Olhou as horas no relógio do criado mudo e constatou que teria meia hora para se arrumar, comer alguma coisa e voar para a Toudai. Tentou fazer tudo na maior velocidade que conseguiu e com os cabelos ainda encharcados rumou para a cozinha a fim de comer algo. Zhang comia uma porção de risoto que havia sobrado do dia anterior, apoiada no balcão observando atentamente algum programa na tv a cabo sobre arquitetura.
- E aí? - falou ele, passando a mão pelos cabelos da irmã - Bom dia?
- Humrrum. - Zhang virou-se para observar o irmão e notou o rastro de água que ele deixava a medida em que ia andando - Seu cabelo tá fazendo o maior estrago aqui. Sente.
- Er... - Ichiro bebeu um longo gole de suco de laranja enquanto fingia pensar na proposta de Zhang - Não. To atrasado.
Ela pegou a toalha que descansava no ombro de Ichiro e começou a tentar enxugar os cabelos dele sem sinal de delicadeza.
- Pára com isso, Zhang! - resmungou Ichiro sem, no entanto, fazer nada para impedí-la - Eu estou tentando comer aqui!
- Isso é pra você aprender a dormir cedo e não se atrasar mais, oras. - falou ela jogando a toalha em uma cadeira que estava por perto - Deus sabe o que você faz naquele quarto até tarde.
Ichiro revirou os olhos e terminou de tomar o suco de laranja. Sem nem ao menos pensar em pentear os cabelos, Ichiro escovou os dentes rapidamente e pegou as chaves do carro. Ofereceu-se para levar Zhang que aceitou prontamente. Ele não resistiu à puxar conversa com a irmã sobre Kagome quando eles estavam a caminho da Toudai.
- Então quer dizer que... - ele parou por um segundo tentando escolher as palavras certas - você tem aula agora cedo?
Zhang levantou uma sobrancelha e olhou para Ichiro friamente.
- É. Começa às nove.
O relógio apontava oito horas. A aula de Ichiro começaria em quinze minutos, mas já não estava mais nos planos dele. Ele iria deixar Zhang na porta da sala e interceptar Kagome de surpresa quem sabe levá-la para outro lugar, fazer com que ela esquecesse das aulas.
Mas foi como se Zhang adivinhasse o que ele estava pensando.
- Ah, e dê um tempo nas perseguições, tá?
Ele demorou a compreender, de modo que reagiu com sua risada que mais parecia um rosnado. Zhang pigarreou alto, chamando a atenção do irmão para seu semblante sério.
- Não apronte nada com a minha amiga. - falou ela, ameaçadoramente - Você está avisado.
Ichiro perdeu a paciência definitivamente. Kagome parecia alguém que sabia se cuidar então porque ela e todos a sua volta a protegiam tão eficientemente? Que mal Ichiro poderia lhe fazer? Ele sabia que era um mulherengo, mas estava provando que podia ser diferente. Não se envolvera com ninguém desde Kagome. Aproveitou que estava numa conversa espontânea com a irmã e começou.
- Eu só queria saber o que é que tem de tão errado em eu e Kagome juntos? - perguntou ele, soando indignado e antes que Zhang pudesse responder, continuou - Já somos grandinhos, já tomamos nossas decisões. J...
- Ela não quer magoar o Éric, Ichiro... - revelou Zhang, hesitante - Ele é um ótimo amigo e vem sendo bem compreen...
- Então é por conta dele. - concluiu Ichiro sem esconder a mágoa que sentia - É tudo por conta dessa maldito, feh.
Zhang ficou calada por uns instantes, almadiçoando-se por ser ter deixado escapar tal coisa. Quando recuperou o fôlego, procurou consolar o irmão, explicando melhor o que se passara.
Ele ouviu toda aquela história de que Kagome havia dito para Éric que eles eram só amigos. Entretanto, por mais que soubesse que haviam prometido exatamente isso um ao outro não deixou de ficar magoado. Não aguentaria perder espaço para aquele francês imbecil que aproveitava toda e qualquer oportunidade que tinha de encostar um dedo em Kagome. Já não tinha mais tanta dificuldade em admitir para si mesmo que morria de ciúmes dela, mas ninguém sabia. E assim ele pretendia manter a situação.
Ichiro nunca sentira ciúmes até conhecer Kagome. Talvez porque ele nunca havia tido de quem sentir ciúmes até conhecê-la.
Zhang enfatizou mais uma vez o quanto era importante que Ichiro mantivesse uma atitude fraternal com relação a Kagome. Essa era a coisa mais difícil que alguém já havia lhe pedido nos últimos tempos, depois que ele havia se mudado para Tókio, mas Zhang estava convencida de que aquela era a coisa certa a se fazer e ele não ousou discordar. Não de uma forma que ela pudesse notar.
Ele chegou a Toudai rapidamente, ignorando quase tudo o que a irmã falava. Fez a gentileza de deixá-la num lugar próximo ao prédio no qual ela estudava, mas em vez de procurar um local para estacionar simplesmente acelerou o carro rumo a saída. Podia ouví-la gritando, perguntando aonde diabos ele iria, mas sua resposta se resumiu a um braço esticado para fora da janela com o dedo do meio erguido. Zhang bateu o pé, furiosa e essa foi a última coisa que Ichiro viu antes de perdê-la de vista. Havia acabado de mudar seus planos e descartara a possibilidade de assistir às entediantes aulas matinais.
Não iria esperar que ligassem para ele, precisava saber dessa resposta o quanto antes e era por isso que iria fingir que as aulas não existiam. Era um truque bem manjado para se conquistar uma garota o que ele estava pretendendo, mas não ligava. Contanto que conseguisse passar sua mensagem, estava tudo certo.
Procurou pelo primeiro nome em sua lista de contatos no celular e encontrou-o em menos de um segundo. Dirigia com velocidade, evitando distrair-se demais com o celular no ouvido. Demorou um tempo considerável até que a voz sonolenta soasse do outro lado da linha.
- Masagami?
- Aaron. E aí? - Ichiro saudou-o rapidamente, queria ir direto ao ponto - Eu não estou muito a fim de esperar, então será que você podia me responder logo agora?
- Você me acordou de "madrugada" pra perguntar uma coisa dessas? - a voz do amigo mostrou-se irritada e divertida com o absurdo da situação - Eu disse que te ligaria hoje a tarde, amigo.
- Meh, eu não quero esperar! Que parte disso você não entendeu? - Ichiro revirou os olhos enquanto fazia uma curva brusca provocando a ira de alguns motoristas que estavam por perto - Vamos, me diga logo.
- Eu vou avisando que ainda não conversei com os meninos sobre isso. - suspirou Aaron tentando manter-se acordado o suficiente - Nós só temos uma resposta mais provável mas isso não significa que seja a correta...
- Pare de me enrolar. - cortou Ichiro parando num sinal vermelho - Eu fui aceito não, fui?
Aaron suspirou pesadamente e se espreguiçou deixando Ichiro sem resposta.
- Ótimo. - falou Ichiro, certo do que dizia - Estou levando minhas mudanças no repertório dessa semana.
- Que nós incluiremos daqui a duas semanas... - enfatizou Aaron sentindo-se intimidado pela autoconfiança do amigo - Impossível fazer algo em...
- Vocês conseguem, tenho certeza. - afirmou Ichiro, categórico - Como disse, estarei aí em cinco minutos. Tome uma ducha e prepare Josephine para um longo dia de trabalho.
- Deixa eu adivinhar... Você abandonou os estudos? - Aaron riu e depois soltou um longo bocejo - Vou te avisando: não dá pra viver só disso, amigo.
- Por mais tentador que possa ser eu ainda não perdi o juízo. - respondeu Ichiro, um tanto quanto misterioso e pensativo - Mas você vai discordar de mim assim que eu disser no que eu estou pensando.
Eram quase duas da tarde quando os alunos do curso de arquitetura da Toudai tiveram um breve intervalo para repor as energias. Kagome espreguiçou-se na carteira e Sam, que estava sentada atrás dela, começou a fazer trancinhas minúsculas em seu cabelo negro.
Kagome afundou na cadeira, de olhos fechados enquanto Kayri, Johnny e Éric cogitavam a hipótese de comprar algo para comer na cantina da Universidade. Zhang e Hideki pareciam bastante entretidos um com o outro e com a saída dos outros meninos Kagome ficou sozinha com Sam que trançava seus cabelos fazendo-a relaxar um pouco mais.
- Eu queria saber... - declarou a amiga puxando uma mecha do cabelo de Kagome para chamar-lhe a atenção - se o seu encontro com Ichiro foi realmente bom como pareceu.
Kagome olhou para a amiga, confidente, e não conseguiu esconder um leve sorriso. Entretanto uma ruga de preocupação havia se formado entre as suas sobrancelhas.
- Com toda aquela confusão em torno do Éric não houve tempo pra conversarmos sobre isso, eu sei. - disse Sam mirando as unhas com falsa atenção - E eu não vou adivinhar nem ler seus pensamentos de forma que você tem que contar!
Kagome suspirou pesadamente e revirou os olhos.
- Foi bom... E foi tenso.
Sam deu uma risadinha que indicava um tom de malícia.
- Não é nada disso que você está pensando!
- Ele parece gostar de você. - falou Sam.
- Hahaha. - riu Kagome ativando seu lado sarcástico - Até parece.
Sam revirou os olhos e continuou penteando o cabelo da amiga com os dedos, pacientemente.
- De qualquer forma - Kagome reiniciou o diálogo - nós concordamos que o melhor a fazer é sermos amigos. Nem mencionamos ter esse "algo a mais" que você tanto quer que exista.
Sam gargalhou alto e não precisou dizer nada para que Kagome soubesse que não a havia convencido. Apesar de zelar pelos sentimentos de Éric, estava claro que Samantha torcia para que Ichiro fisgasse Kagome. Não havia nada que ela achasse mais encantador do que um romance se formando.
Foi quando um gritinho emocionado ecoou na sala de aula. Sam e Kagome pararam para observar e viram Zhang se distanciar de Hideki. Ela carregava um ar ansioso e alegre no rosto e parecia prestes a demonstrar sua felicidade com pulinhos. Por sorte, conteve-se e se contentou em sentar perto de Sam e Kagome. Foi então que ela começou a falar sem parar.
- Não que eu ache que exista essa coisa de ter tempo para isso ou para aquilo, me entendam! Eu só acho que talvez esteja cedo demais, entretanto eu noto que as coisas entre a gente não vão num ritmo que os outros possam considerar normal, além do mais eu confio nele e a gente se conhece bem até demais. Sempre foi assim, eu sempre me identifiquei mais com ele, ele sempre me entendeu, me apoiou, me aceitou do jeito que eu sou e ele faz os meus gostos todos e como eu não pude perceber antes! Ainda lamento o fato de ter perdido os primeiros meses aqui gostando do Houjo que não tem nada pra me oferecer afinal d...
- Zhang! - falou Sam, segurando o ombro da amiga como quem quer tirá-la de um transe.
- Quê? - respondeu ela voltando a si.
- Respira e começa de novo que eu não to entendendo nada.
Zhang parou fixando algum ponto entre Kagome e Samantha para logo depois rir sem jeito.
- Claro, claro! - ela colocou os cabelos atrás da orelha e respirou fundo tentando falar tudo de uma vez - Eu e Hideki vamos passar o final de semana na praia.
- Ai, meu Deus! - disse Sam enquanto Kagome batia palmas animadamente - Vocês já estão nesse nível?
- De que nível estamos falando? - perguntou Kagome - O nível "já-durmo-sozinha-com-meu-namorado"?
- Dormir? - questionou Samantha com um tom a mais de malícia da voz.
Zhang corou imediatamente e escondeu os olhos com a mão enquanto arrancava risadas das duas amigas. Kagome deu leves batidinhas no ombro dela.
- Deixa ela em paz, Sam. - repreendeu Kagome sem conseguir evitar o riso - Ela já está envergonhada o suficiente.
- Nem me fale! E... Não que eu esteja pensando no que Sam está pensando, mas... - Zhang fez uma pausa, o tempo suficiente para que o tom de suas bochechas ficasse mais rosado - O que eu vou vestir?
- Ah, claro, você não está pensando em t...
- Cala a boca, Samantha! - Kagome e Zhang protestaram ao mesmo tempo antes que a amiga terminasse a sentença.
Sam cruzou os braços e revirou os olhos como uma garotinha de cinco anos que tem um brinquedo negado pelos pais.
- Não tá mais aqui quem falou! Blé, vocês são chatas.
Kagome cutucou Sam com o cotovelo e isso foi o suficiente para que as três rissem mais um pouco.
- É, mas tem um problema, gente... - Zhang falou com o tom de voz mais baixo - Nós vamos na sexta a tarde.
Kagome e Sam se entreolharam tentando assimilar a informação. A primeira foi mais rápida e soltou um exclamação de entendimento.
- Você não vai ao show do Johnny!
- Awn! Eu tinha me esquecido que era na sexta... - comentou Sam.
Zhang suspirou pesadamente enquanto observava Hideki sair da sala provavelmente a procura dos meninos. Não estava nos seus planos negar o convite que ele lhe fizera, mas também não queria se encarregar de dar a notícia para Johnny.
- Pede pro Hideki conversar com ele, Zhang. - sugeriu Kagome - De qualquer forma, não vai ser tão ruim assim... Johnny vai acabar entendendo.
- E quem não entende esse tipo de necessidade? - falou Sam pontuando a frase com uma risadinha sarcástica.
- E Ichiro? E seus pais? - perguntou Kagome demonstrando preocupação - Eles já sabem onde vocês vão ficar?
- Meus pais... - Zhang suspirou e sua voz tornou-se mais baixa, um pouco desanimada até - Francamente, eles não estão ligando muito pra mim desde que Ichiro chegou. Entretidos demais com suas próprias carreiras para prestar atenção em qualquer outra coisa. O fato de morarmos longe só nos distancia mais. Nesse caso, Ichiro seria o meu problema.
- Ele parece ser o tipo de irmão bem ciumento, viu? - pontuou Sam.
- Você tá certa. - continuou Zhang - Ele é mesmo, mas pelo amor de Deus eu tenho dezoito anos. Não sou nenhuma criança!
- Ai... - disse Kagome com voz chorosa - Você tá parecendo o Souta falando! Eu consigo imaginar como Ichiro deve se sentir...
- 1000 yenes para saber de quantos jeitos você já conseguiu imaginar o Ichiro! - falou Sam arrancando uma gargalhada histérica de Zhang.
Kagome tentou permanecer séria, mas Sam era uma mestra em fazê-la rir. Ela não deixou de notar que a amiga parecia bem mais despreocupada do que no dia anterior. O clima entre todos parecia mais leve depois que o drama de Éric se apaziguara. Kagome suspeitava que Sam só estava se dando o luxo de fazer brincadeirinhas sobre ela porque confiava no seu discernimento para lidar com a situação.
Os meninos não tardaram a juntar-se a elas. Kayri e Éric haviam trazido os bolsos cheios de balas e doces para aplacar a fome durante as aulas. Sam, Zhang e Kagome acabaram por ficar com boa parte delas já que o almoço havia sido solenemente deixado para trás naquele dia. Quando as aulas terminaram, as seis e meia da noite, elas concordaram que precisavam comer alguma coisa mais decente.
- Juro que estou me sentindo meio tonta. - falou Zhang, colocando a mão na testa - Nunca mais fico sem almoçar. Falo sério.
- Zhang, você veio dirigindo hoje? - perguntou Sam juntando suas coisas na enorme bolsa vermelha - Eu peguei o metrô, to sem carro.
- Eu vim com o Ichiro, na verdade!
- Não se preocupem - respondeu Kagome girando a chave do carro entre os dedos - hoje a carona é por minha conta.
Elas se despediram dos quatro garotos que foram para lugares diferentes. Hideki e Éric foram estudar juntos; Kayri só estava esperando uma folga para que pudesse correr em direção a quadra de tênis assim como Johnny não aguentava mais a ansiedade de entrar na piscina.
Kagome, Sam e Zhang saíram rumo ao melhor restaurante japonês que suas economias permitiam não que a última delas tivesse que se preocupar com isso. Foram rápidas em decidir o que pediriam ao garçom e no curto espaço de tempo em que a comida ainda nao havia chegado discutiram os últimos ajustes de cada trabalho que teriam de entregar nos próximos dias. Se havia um assunto que realmente empolgava a todas elas esse assunto era a arquitetura. As amigas continuaram conversando animadamente até que o celular de Zhang tocou. Ela procurou o aparelho na bolsa e, revirando os olhos com impaciência, atendeu.
- O que você quer? - Zhang afastou o celular do ouvido - Que barulheira é essa?
- Onde você está? - gritou Ichiro do outro lado da linha.
Kagome e Sam não pareciam estar ouvindo o que Ichiro dizia, mas Zhang tinha certeza que elas sabiam que era ele que estava do outro lado da linha.
- Estou jantando! - respondeu Zhang aumentando o tom de sua voz inconscientemente - Pra que você me ligou?
- Pra te buscar, anta! - gritou Ichiro na esperança de que não precisasse falar duas vezes para se fazer compreendido - Qual o restaurante?
- Não precisa, eu vou com a Kagome. - disse Zhang sem pensar.
Kagome sentiu seu coração acelerar só em imaginar a reação que Ichiro poderia ter. Talvez, se ela fosse bem otimista, ele não tivesse a idéia de ir até lá mesmo sabendo que a irmã tinha carona.
- Hm. Certo. - falou Ichiro sem alterar o tom de voz - Quando você estiver indo pra casa, me ligue.
- Ichiro! - gritou Zhang esperando que o irmão não desligasse na sua cara - Você nem me disse onde está! EEI!
Zhang olhou para o telefone, irritada e jogou-o dentro da bolsa.
- Ele está cada dia mais impossível. - pontuou ela com o queixo apoiado nas mãos.
Sam e Kagome se olharam segurando os risos. Tinha algo de cômico nas brigas de Zhang e Ichiro, mas dada a irritação da amiga elas decidiram não comentar nada.
- Você sabe onde ele estava? - perguntou Kagome subitamente.
Claro que ela sabia que não estava sendo lá muito sutil, mas àquelas alturas a curiosidade estava falando muito mais alto. Zhang não pareceu se importar com o questionamento e respondeu dando de ombros casualmente. Aquilo não era suficiente para Kagome. Ela sabia que não iria se contentar com tal resposta. Provavelmente iria martelar mil suposições na cabeça até cansar. Ichiro sempre dava um jeito de se enfiar em seus pensamentos. Era uma habilidade sobrenatural dele. Entretanto a comida deliciosa e a boa conversa de Sam e Zhang fizeram com que Kagome se desligasse um pouco.
Decidiram não sair muito tarde e uma hora e meia depois já estavam todas no carro de Kagome indo para casa enquanto escutavam uma boa música. Assim que deixaram Sam em casa, Zhang começou a digitar uma mensagem rápida no celular para Ichiro. Kagome percebeu, mas não tirou os olhos da estrada e começou a perguntar sobre o final de semana tão esperado pela amiga.
Zhang contava os detalhes das fotos que ela havia visto na internet do hotel no qual eles ficariam em Kujukuri Beach. Também dizia coisas sobre como ela sentia falta dos pais, mas achava que estava sendo ótimo ter a chance de viver sozinha com o irmão, pra variar. Todas as vezes que Zhang fez menção ao nome dele, Kagome sentiu seu coração pular. Depois ela se controlava e voltava ao seu estado normal.
Quando elas finalmente chegaram na rua do apartamento de Zhang, a amiga despediu-se rapidamente e saiu do carro. Kagome estranhou o fato dela não atravessar a rua imediatamente, afinal o carro estava do outro lado, perto da sorveteria. Foi quando Zhang deu duas leves batidinhas no vidro do carro e apontou algo que queria que Kagome visse.
Ichiro havia sentado na única mesa da sorveteria na qual se tinha uma visão panorâmica da rua. Ele tomava um estranho sorvete verde e trazia aquele sorriso que diz "te peguei" sem precisar de muito esforço. Kagome revirou os olhos e saiu do carro. Provavelmente Ichiro já estava esperando elas a algum tempo. Era tão típico.
- Vocês duas por aqui... Que surpresa. - falou ele com notas de ironia na voz - Por essa eu não esperava.
- Você não tem jeito. - disse Zhang enquanto balançava a cabeça e puxava uma cadeira na mesa - Está com dinheiro sobrando? Eu vou pedir um sorvete, com certeza.
- Não abuse de mim, fedelha. - e então seus olhos viraram-se para Kagome - Olá.
Kagome respirou fundo e procurou manter a calma. Era sempre uma luta constante com seus nervos quando ele estava por perto, mas ela sentia que estava pegando o jeito da coisa.
- Olá pra você. - respondeu ela passando a mão nos cabelos - Alguém faltou aula hoje...
- Então sentiu minha falta? - disse Ichiro tomando mais uma colherada do sorvete estranho - Pois é, faltei.
- Por sinal, aonde você estava? - perguntou Zhang ao mesmo tempo em que observava o sorvete dele, tentando decidir se seria bom ou não.
- Você vai estar aqui na sexta? - Ichiro respondeu com outra pergunta.
Kagome e Zhang se entreolharam rapidamente o que não passou despercebido por Ichiro. Pelo bem da amiga, ela decidiu aproximar-se da mesa e tomar um lugar ao lado dos irmãos. Ichiro ergueu uma sobrancelha involuntariamente e olhou de Kagome para a Zhang, desconfiado.
- Na verdade...
- O que você está aprontando? - questionou ele, cerrando o olhar de um jeito bastante assustador - Algo que eu deva contar ao papai?
- Não ouse. - desafiou Zhang - Não significa que eles não vão saber. Só não quero que saibam agora.
- O que é?
Kagome sentiu a tensão da mesa e apoiou a testa na mão tentando esconder um pouco o rosto. Estar no meio de um conflito familiar não estava nos planos dela.
- Eu vou passar o final de semana com Hideki. - despejou Zhang - Na praia. Kujukuri Beach. Você sabe onde fica.
- Quem mais vai? - perguntou Ichiro, sem se alterar muito, mas na falta de uma resposta ele levantou o olhar e retomou a palavra - Ninguém mais vai? Kagome...?
- Quê? - ela se assustou ao ouvir seu nome no meio da conversa e levantou a cabeça de uma vez - O quê?
- Você não vai junto? - perguntou Ichiro, ainda indignado - E aquela outra amiga de vocês... Samantha, não é?
- Ichiro... - Kagome resolveu não mencionar o quão sem tato ele era - Por favor, né?
- Você não vai. - sentenciou ele para Zhang, bruscamente.
Zhang revirou os olhos e começou a falar como quem explica algo muito complexo a uma criança de cinco anos.
- Irmãozinho querido... - e esboçou um sorriso cínico - Eu não estou pedindo. Eu vou a Kujukuri Beach esse final de semana. Eu e Hideki. Hideki e eu. Só nós dois.
- Eu não acredito que você está aprovando isso. - Ichiro balançava a cabeça em sinal de reprovação para Kagome - Realmente não acredito.
Kagome ficou vermelha da cabeça aos pés. Aparentemente estava sendo obrigada a entrar na conversa de família.
- Como assim? Ela é minha amiga, não minha filha! - protestou Kagome.
- Aaaah... - Ichiro fez aquela cara que ele fazia toda vez que ouvia o que queria ouvir - Então se ela fosse sua filha você não permitiria?
Por sorte, Kagome pensou rápido e não demorou a responder, para alívio de Zhang.
- Eu permitiria sim. Ela tem dezoito anos, não quinze. - Kagome olhou de relance para Zhang e viu que a amiga lançava a ela um olhar de agradecimento - Na minha opinião, você deveria levar isso numa boa. Até porque...
Kagome deixou a frase no ar e viu a expressão de Ichiro encorajando-a a continuar. Zhang também virou-se para ela, curiosa com o que poderia vir a seguir. Kagome deu de ombros.
- O que foi? - perguntou Zhang - Fala!
Kagome empurrou seu corpo mais pra frente de forma a ficar mais perto de Ichiro e continuou a frase.
- Até porque... - disse ela, vendo Ichiro contorcer-se na cadeira entre tenso e ansioso - Se você me convidasse à praia seria totalmente aceitável, não?
- Situações completamente diferentes! Você... - ele havia respondido automaticamente, mas parecia estar pensando outra vez - Você é mais velha do que a Zhang...
- Errado. - disse Zhang, categórica - Temos a mesma idade.
- Não, não têm! - falou ele sem pensar, considerando a ideia um segundo depois - Têm...?
As duas garotas limitaram-se a sorrir dando a batalha por vencida. Ichiro passou a mão na nuca como quem tenta fazer uma auto-massagem para aliviar as tensões. Zhang pegou na mão do irmão delicadamente o que chamou sua atenção.
- Eu vou dizer exatamente aonde fica a casa, a que horas eu vou e a que horas eu volto... - disse ela, enquanto tentava tranquilizá-lo - Não vou fazer nada que a Kagome não faria, vou ligar pra você a cada oito horas. O que mais você quer?
- Ok. - concordou Ichiro, sem tirar a mão de perto da mão da irmã - Não precisamos mais falar sobre isso.
- YAY! Obrigada, irmãozinho! - e Zhang não resistiu a agarrar o pescoço do irmão com força - Obrigada, obrigada!
O olhar dele encontrou com o de Kagome e ela assentiu com a cabeça levemente, aprovando o gesto dele. Ichiro esboçou um leve sorriso e corou um pouco. Era bom sentir que Kagome admirava sua atitude. Ele podia ser cheio de si, mas precisava de uns elogios de vez em quando. Seu ego nunca estava inflado o suficiente. De formas diferentes, todos eles ansiavam pela sexta feira. Zhang iria desbravar os novos territórios do seu relacionamento com Hideki; Ichiro iria retirar mais uma carta de sua manga e Kagome queria um evento no qual pudesse se divertir e esquecer de todos os seus problemas.
Os dias não demoraram a passar. Quarenta e oito horas voaram e quando menos se esperou, as últimas aulas da semana terminaram para os alunos da Toudai. Era fim de tarde e Kagome podia ver Zhang e Hideki concentradíssimos em tentar não magoar Johnny. O casal iria passar um final de semana inteiro fora e não podiam ir ao show do amigo que seria à noite.
- A gente promete que vai na próxima vez, baby. – dizia Zhang, usando o que lhe restava de paciência – De verdade, a gente queria muito ir, mas não é sempre que Hideki consegue um horário pra mim em meio aos estudos intermináveis dele!
Hideki pareceu ligeiramente transtornado com o que a declaração da namorada e interviu automaticamente.
- Eu estudo o que uma pessoa normal estuda, Zhang, nem vem. – disse ele, cruzando os braços. Diferente de Zhang, já tinha perdido completamente a paciência.
Kagome, Sam, Kayri e Éric estavam lado a lado, assistindo a conversa dos três que já durava aproximadamente sete minutos. Johnny poderia até já ter entendido, mas não ia deixar de fazer charme nunca. Kagome não sabia se Zhang estava a par deste fato e resolveu intervir.
- Ele vai ficar bem, Zhang. – disse ela, segurando Johnny pelos ombros enquanto se dirigia ao casal – Podem ir tranquilos. Avisem quando chegarem ao hotel!
Zhang soltou um suspiro de alívio e deu um forte abraço em Kagome que retribuiu da mesma forma. Eles não demoraram com as despedidas, pois Hideki preferia dirigir enquanto o céu ainda estava claro.
Os preparativos para a noite começaram pelo menos para Samantha e Kagome que haviam economizado um dinheiro especial para comprar as roupas que usariam mais tarde. Vagaram durante uma hora pelos corredores do shopping mais próximo até encontrarem algo que as agradasse. Depois comeram alguma coisa rapidamente e foram para o apartamento de Kagome onde ficariam até se aprontarem.
Claro que estavam atrasadas. Não seriam normais se não estivessem. O horário da festa em si ficou muito próximo da hora em que as aulas terminaram de forma que aquelas alturas a primeira banda já havia subido ao palco. Além disso, sair numa sexta a noite não estava nos planos de ninguém que quisesse ter bom desempenho na universidade, mas por Johnny, todos fariam o esforço. Quando Kagome saiu do banho dando espaço para que Sam tomasse o dela, ouviu o celular tocar dentro da bolsa. Correu para atender sem nem verificar quem era esperando que fosse Johnny perguntando se elas já estavam a caminho.
- Oi? - perguntou Kagome, mas assim que ouviu o barulho intenso no outro lado da linha aumentou o tom de voz - Alô?
- Onde você está, hem?
Ela definitivamente não esperava que Ichiro fosse ligar. Tinham trocado dois ou três telefonemas durante os dois últimos dias onde conversaram longamente sobre o quão puxada estava a faculdade para Kagome ou o quão difícil era para Ichiro não ser um chato completo com Hideki. Mais do que isso: ele sabia onde ela estaria na sexta a noite. Então porque estava ligando?
- A pergunta é: "onde você está?"! - respondeu Kagome - Que barulheira é essa? Mal consigo te ouvir!
- Ainda está se arrumando, não é? - Kagome podia sentir os olhos de Ichiro revirando-se naquele momento - Deus, como você é lerda.
Kagome parou por um instante. Porque ele estava agindo como se estivesse esperando por ela?
- Qual é o objetivo dessa ligação, Masagami? - ela já havia se adiantado a olhar pela janela do apartamento esperando encontrar o carro dele por perto. Concluiu, para sua decepção, que ele não tinha ido apanhá-la de surpresa, mas sabia que a idéia era ridícula. Havia pedido a Ichiro que não fosse ao show a fim de evitar problemas com Éric ou com qualquer um dos meninos.
- Saber de você, só isso. - respondeu Ichiro num resmungo - Tenho que ir, tchau!
- Ei...! - mas antes que pudesse terminar a frase, ele desligou.
Para alívio de Kagome - que já se encontrava deveras ansiosa àquelas alturas - Samantha não demorou para se arrumar: apenas colocara uma calça preta e uma blusa azul marinho transparente com uma regata coral por baixo. Nem havia se importado em usar salto alto, mas não que precisasse. Mesmo com uma sapatilha Miu-Miu nos pés, Sam ainda era mais alta que Kagome usando um salto de sete centímetros.
- Quem ligou naquela hora, hem? - perguntou Sam enquanto aplicava uma leve camada de rímel marrom nos cílios longos - Por sinal, vou só passar um pouco de blush e batom e aí estou pronta!
- Sem pressa... - respondeu Kagome, ignorando a pergunta da amiga - Eu ainda tinha esperanças de conseguir prender meu cabelo decentemente, mas esquece.
- Porque você não faz um coque? - disse Sam enquanto se aproximava - Algo mais bagunçadinho... Deixa eu arrumar você, só vai levar um segundo!
Para sorte da Kagome, Sam esquecera-se da pergunta que ela mesma fizera e se concentrava em prender os cabelos dela num coque alto, ligeiramente bagunçado. Ela havia quase conseguido domar as mechas frontais de Kagome, prendendo-as ao coque, apesar de alguns fios insistirem em escorrer pelo penteado. Entretanto, as duas concordaram que o "acidente" acabou dando um toque especial.
- Está linda! - exclamou Sam enquanto batia as mãos - Agora eu vou escolher seu figurino, prepare-se.
- Escolha o que quiser! - riu Kagome enquanto observava seu cabelo preso no espelho - Se você quase domou meu cabelo deve ser plenamente capaz de escolher uma roupa legal pra hoje.
Sam entrou no closet passando apressadamente os cabides. A primeira peça que escolheu foi uma camiseta de tecido leve, branca com listras horizontais pretas. Kagome torceu o nariz a princípio, o que ela ignorou solenemente.
- Eu ainda não terminei, mocinha... - falou ela - Aliás... Por onde anda aquela sua calça skinny? A que parece couro...
- A que eu nunca tive coragem de usar? - assustou-se Kagome.
- Essa mesma... - enfatizou Sam - Ah, esquece, acabei de achar!
- Eu não vou usar isso!
Sam ignorou a amiga enquanto tirava da gaveta de jóias duas correntes douradas e um par de brincos pequenos. Escolheu também o sapato mais alto de Kagome que tinha um belo tom de coral. Demorou alguns minutos para que convencesse a amiga de que a combinação daria certo e ela concordou em provar sem garantir nada. Foi quando Kagome colocou os sapatos e se olhou no espelho.
- Ok, você é um gênio. - disse ela, encantada - Nem eu sabia que era magra o suficiente para usar essa calça.
- Os saltos colaboram, mas na verdade você é magra sim... - e pelo olhar de Sam, Kagome soube que uma piadinha estava por vir - Magrinha até demais! Franzina!
- Cala a boca, eu não sou franzina! - respondeu ela rindo, porém cruzando os braços.
- Ok, gostosona, o que achou da minha escolha?
Kagome adorou a maneira como o decote arredondado da blusa deixava aparecer uma parte da alça de seu soutien preto que se apoiava na clavícula. A calça preta alongava as pernas curtas e as correntes douradas não ficaram tão chamativas quanto pensou que ficariam. Nada como uma outra pessoa para opinar de vez em quando.
Quando virou-se para agradecer, se deu conta de Sam falava apressada ao telefone enquanto catava seus pertences pelo quarto acomodando-os numa bolsa de couro marrom.
- Kayri, estamos quase aí! - ela fez sinal para que Kagome se adiantasse - Isso... Saindo de casa. Aliás, entrando no carro!
Kagome apressou-se em pegar uma pequena bolsinha azul royal com seus pertences e em menos de cinco minutos as duas já estavam no carro, indo para a festa.
O caminho até o pequeno pub onde Johnny iria tocar foi curto. O lugar não parecia muito cheio por fora, mas assim que Kagome passou pela porta, viu um número considerável de pessoas reunidas ali. Havia um pequeno palco no centro do ambiente onde já estavam montados os instrumentos da primeira banda que iria tocar.
- Vão ser três bandas esta noite... - disse Samantha enquanto analisava o panfleto que tirara da bolsa - Perdemos a primeira banda, mas se eles seguirem a ordem que está aqui, Johnny vai ser o segundo, ou seja, o próximo!
- Jura? - exclamou Kagome, empolgando-se - Por sinal, você está avistando Kayri ou Éric em algum lugar próximo?
Sam deu uma pequena olhada no local espichando o pescoço. Sendo mais alta que a maioria das pessoas ali, ela tinha uma visão quase completa do local. Entretanto balançou a cabeça negativamente em resposta à Kagome.
- Melhor ligarmos pra eles... - disse ela enquanto Kagome já estava com o celular em mãos.
As duas garotas sobressaltaram-se quando as luzes do palco se apagaram de repente. Sam murmurou um palavrão baixo que se perdeu em meio aos gritinhos gerados pelo black out. Uma voz ecoou pelo ambiente anunciando a próxima atração da noite e Kagome corria os dedos sob as teclas do celular digitando uma mensagem que ela esperava que Kayri lesse o quanto antes.
- Ah, Kagome... - disse Sam interrompendo a amiga - Vai ter um DJ antes, acabaram de anunciar. Manda essa mensagem logo e vamos comigo pegar algo pra beber.
Elas saíram cortando caminho pelos grupos de pessoas que se aglomeravam no pub e alcançaram o bar do local. Kagome conseguia reconhecer vários dos rostos que estavam ali. Notou que eram, em sua maioria, alunos da Toudai com quem se esbarrava nos corredores de vez em quando.
- Sam, olha lá! Aqueles meninos são da Toudai, não? - animou-se ela - Não sabia que vinha mais gente prestigiar a banda do Johnny! Achava que seriam só nós e os garotos.
Samantha tomou um gole do martini que tinha em mãos e mirou o grupo que Kagome apontara.
- Eles são amigos do Johnny? - duvidou ela - Não lembro de tê-los visto juntos...
Kagome deu de ombros e continuou observando o ambiente. Não demorou muito para que ela avistasse dois vultos conhecidos vindo na sua direção. Kayri fez sinal de silêncio enquanto ela o via planejar um belo susto para Sam. A amiga quase derramou o copo que segurava quando sentiu a respiração de Kayri perigosamente próxima de sua nuca. Éric se distanciou e cumprimentou Kagome com um abraço carinhoso enquanto Sam fingia estar indignada com o outro.
- Se eu tivesse agido sem olhar pra sua cara antes você estaria nocauteado no chão, sabia! - gritou Sam, cruzando os braços.
- Calminha aí, garota... - e então Kayri cochichou algo para Sam que esboçou um sorriso em seguida.
Kagome deixou de prestar atenção nos dois quando Éric passou a puxar assunto sobre o show. Como sempre, o francesinho tinha uma conversa muito agradável e ela deixou-se desfrutar daquele momento livre de tensões entre os dois. Sem o risco de encontrar Ichiro a qualquer momento, Éric parecia estar bem mais a vontade.
Os meninos confirmaram que Johnny já estava atrás do palco, pronto para subir com sua banda. Ao que parecia o show ia começar em menos de uma hora e, de fato, o evento cumpriu o horário. Depois de pouco mais que sessenta minutos, Kayri, Kagome, Éric e Samantha estavam nos pés do palco prontos para gritar o nome do amigo assim que ele entrasse em cena.
Foi uma ótima apresentação, não só para o grupo de amigos, mas também para as outras pessoas que estavam no pub. Músicas conhecidas foram intercaladas com composições próprias do vocalista o que tornou tudo mais interessante. Kagome não se lembrava qual tinha sido a última vez em que se divertira tanto.
Ela se sentia leve, sim, muito alegre. Entretanto, voltara a experimentar aquela sensação de três anos atrás, sua velha conhecida. A sensação de que algo estava faltando; a sensação de que alguém deveria estar ali só que não estava. Sabia muito bem porque esse sentimento adormecido durante tanto tempo retornara agora com força total. Odiava-se por estar se apaixonando de novo.
Essa euforia tomou conta dos últimos momentos do show, por sorte, ninguém percebeu a desanimação repentina de Kagome. Quando a última música foi anunciada, fingiu estar com sede e foi buscar uma bebida antes que alguém se oferecesse para tal.
Ficou ali sentava num balcão próximo, segurando um copo de refrigerante de limão cheio de gelo. Se sentia tão idiota por estragar a noite com seus pensamentos estúpidos. Agradeceu quando Johnny pareceu se retirar do palco com sua banda, significava que iriam logo pra casa. Quanto antes estivesse em sua confortável cama, melhor.
Sam veio em sua direção, as bochechas rosadas indicavam o esforço físico que fizera pra dançar. Ela sorriu para Kagome enquanto pedia uma água mineral ao barman.
- Os meninos foram buscar Johnny no camarim. Logo, logo devem estar aqui!
- Ótimo! - respondeu Kagome com a voz mais animada que conseguiu - Já to ficando cansada, quero dormir cedo hoje.
- Quê? - e Sam olhou-a como se ela fosse louca - Claro que não, vamos esperar o show da última banda. Depois os meninos querem comer em algum lugar... Que acha?
- Hm... - Kagome não conseguiu disfarçar muito bem sua decepção - Tudo bem por mim.
- O que aconteceu? - perguntou Sam após beber um longo gole da água - Você tá bem? Tá passando mal?
- Ah! Não, não! - disse Kagome, rindo falsamente - Não é nada disso.
- Oh, meu Deus... Entendi. - Sam levou a mão a boca e perguntou em tom de cochicho - Você mestruou? Aqui? Eu vou tentar ver com alguma funcionária se consigo um absorven...
- Não, Sam! - dessa vez, Kagome deixou-se rir de verdade - Não é nada, relaxa. Vamos ficar até o final sim.
- Se você precisar ir, pode ir... - falou Sam, compreensiva - Eu pego carona com o Éric mais tarde.
Kagome achou a oferta tentadora, mas queria ao menos dar um "oi" para Johnny antes de ir embora. Dessa forma, esperou algum tempo até o amigo chegar.
Se tornou mais fácil para ela aturar a situação toda quando Johnny chegou, por mais que soubesse que o sentimento iria perdurar ainda que voltasse para casa. Quando se deu conta disso, o tempo começou a passar mais rápido de novo e ela se esqueceu de que estava triste.
Impossível ficar desanimada com o amigo caçula gesticulando animadamente do seu lado. Ele parecia realmente feliz, Kagome nunca o havia visto daquele jeito desde que eles se conheceram. Talvez ele também entrasse naquele estado quando mergulhava na piscina para mais um de seus treinos intermináveis de natação. Johnny era bastante passional quando se tratava de seus hobbies.
Ela bebia o último gole do refrigerante quando Johnny fixou os olhos no palco e acotovelou Kayri e Éric. A última banda da noite iria se apresentar.
- Pensei que você tivesse conhecido todos que iam tocar hoje... - questionou Kagome - Você conhecia a primeira banda, não?
- Conheci sim, - respondeu ele, sem tirar os olhos do palco - mas eles mudaram o vocalista semana passada... Acho que o nome da banda é "These Boys", "Those Boys"... Algo do gênero.
- Ok, a gente precisa mesmo ficar? - perguntou Kagome.
- Shhh! - disse Johnny, abanando uma mão para Kagome - Eu acho que conheço o vocalista.
Kagome girou a cadeira de modo que pudesse ver o palco e apurou os ouvidos. Haviam quatro garotos, o vocalista estava de cabeça abaixada, arrumando algo em sua guitarra.
- Não é ninguém, Johnny... Podemos ir? - insistiu ela.
E então uma voz arrogante soou por todo o pub.
- Senhoras e senhores, a melhor banda da noite acaba de subir ao palco! Aplausos?
"Isso não pode ser realmente sério."
- Eu sou Masagami Ichiro, vocês provavelmente não me conhecem, mas devem saber quem são os palermas atrás de mim, não?
Kagome não conseguiu emitir nenhum som, apenas ficou sentindo a mão de Sam esmagar a sua e Johnny se exaltando ao seu lado enquanto Ichiro jogava seu charme, arrancando risos e suspiros de uns e de outros.
- Aquele ali é o seu amiguinho, não é?
- Cala a boca, Johnny! - cortou Sam, voltando-se para Kagome em seguida - Você tinha alguma idéia de que ele estaria aqui?
- E-eu... Ele me ligou...
- EU SABIA! - disse ela, tentando chamar a atenção de Kagome, em vão - Naquela hora que você atendeu o celular, eu sabia que não era nenhum dos meninos! Ai, meu Deus, acho que aquela veia na testa do Éric vai explodir...
Enquanto Ichiro começava a tocar os primeiros acordes da música, Kagome virou-se para Sam e fez a pergunta que estava fazendo a si mesma nos últimos sessenta segundos.
- O que eu faço agora?
Sam não disse nada, mas um sorriso percorreu o seu rosto e ela empurrou a amiga confusa para fora da cadeira, virando-se para os meninos em seguida. Kagome ainda se virou a tempo de ler os lábios de Samantha dizendo "vá".
Não hesitou em obedecer e se afastou antes que alguém pudesse impedí-la. Notou que ele estava lindo, obviamente. Essa sentença ia se confirmando a cada passo que Kagome dava na direção do palco. Ela não deveria estar se sentindo tão bem, tão eufórica. Não era do seu feitio zanzar por festas sozinha sem uma amiga do lado. Entretanto, ela não se sentia desacompanhada.
Sua companhia estava bem ali, em cima do palco. Sacudindo os cabelos negros e cantando um rock que Kagome não sabia dizer se conhecia ou não. Quando ela chegou bem perto, o suficiente para ser vista, ele a viu.
As pessoas se agitavam ao seu redor, mas ela não se mexia, só olhava para ele sorrindo de volta. Alguém havia passando muito rápido atrás dela, empurrando-a mais ainda para frente, mas ela não ligou. Ichiro realmente sabia dominar uma guitarra e encantar o público, fazendo coros nas horas certas. Kagome estava praticamente na beira do palco, pronta para aplaudir quando a música terminasse. E foi exatamente o que ela fez quando as luzes diminuíram de intensidade e Ichiro começou a agradecer os aplausos à sua maneira.
- Foi um ótimo aquecimento, pessoal! - disse Ichiro, fixando os olhos em Kagome e piscando discretamente para ela - Pena que nosso tempo é curto hoje, então serei breve. A música que vamos tocar agora foi ensaiada de última hora, não reparem nos erros do nosso baixista aqui, heh!
As pessoas riram, mas Kagome limitou-se a voltar os olhos para o garoto que Ichiro apontava. Não conseguia reconhecê-lo, mas sabia que ele era um estrangeiro, provavelmente americano. Ele riu e fez um gesto obsceno com a mão que Ichiro ignorou, rindo.
- Eu dedico essa música a uma garota muito irritante e chata que destruiu a minha vida. - ele olhou para Kagome e virou o copo de whisky que parecia ter surgido em sua mão magicamente - Vocês querem saber quem é, não é? Ela está aqui, senhores!
Kagome piscou os olhos e percebeu que Ichiro estava meio bêbado assim que ele deu o primeiro grito ao microfone. Suas bochechas esquentaram quando ele fez menção de tornar a falar e ela foi se afastando do palco, disposta a diminuir a vergonha que estava prestes a passar.
- Olha ela ali! Tentando sair de fininho! - Ichiro apontava o dedo na direção de Kagome, alguns olhavam para ela rindo, mas outros disfarçavam o riso, solidários - Não fuja, Kagome. Eu não tenho como voltar pra casa, espero uma carona, hem?
Algumas pessoas riram alto e outras repetiram o nome dela em tom de pergunta e tudo que desejava naquele momento era sumir. Como aquilo era impossível, manteve a cabeça abaixada e a vista protegida por uma mão. Sentiu-se aliviada quando os primeiros acordes de guitarra começaram a surgir e as pessoas voltaram suas atenções para a banda. De qualquer forma, estavam todos tão bêbados que provavelmente nem lembrariam dela na próxima música.
E de qualquer forma, Ichiro estava ali, ora essa! Ele estava ali, dedicando-lhe uma música e matando-a de vergonha, como lhe era de praxe.
Por sorte, ele pareceu esquecer a falta de coordenação motora que a bebida lhe causara quando começou a cantar e Kagome sabia que conhecia aquela música.
"So, it's 1, 2, 3
Take my hand and come with me
Because you look so fine
That I really wanna make you mine
I say you look so fine
And I really wanna make you mine (...)
Todo mundo estava cantando, se empurrando e derramando muita bebida uns nos outros, mas Kagome só sentia vontade de dançar e fazer a mesma coisa. O coque caprichosamente feito por Sam, se desfazia aos poucos, deixando mechas de cabelo balançando-se soltas, no ritmo da música.
(...) Oh, 4, 5, 6 c'mon and get your kicks
Now you don't need that money
When you look like that, do ya, honey? (...)
Apesar de estar dançando ininterruptamente, Kagome deu risada da letra da música. Não era nada romântica, era apenas... Intensa. Exatamente o tipo de coisa que Ichiro lhe diria.
(...) Big black boots,
Long brown hair,
She's so sweet
With her get-back stare
Well I could take you home with me,
But you were with another man, yeah!
I know we ain't got much to say
Before I let you get away, yeah!
I said, are you gonna be my girl? (...)
Por isso todo aquele comportamento estranho, ilusão pensar que Ichiro iria realmente cruzar os braços e ficar quieto. Kagome lembrou-se vagamente de Éric, que deveria estar pensando mil bobagens a seu respeito, mas pela primeira vez em muito tempo ela simplesmente decidiu não ligar.
Havia apenas ela, sua diversão e a presença de Ichiro. A voz dele rouca, parecendo rasgar a garganta quando saía e ela não parecia ser a única que estava gostando.
(...) I could see
You home with me,
But you were with another man, yeah!
I know we ain't got much to say
Before I let you get away, yeah!
Be my girl
Be my girl
Are you gonna be my girl?"
A música havia terminado e Kagome sentia-se elétrica. Ichiro olhava-a com aquele sorriso irritante de quem sabia que havia surpreendido e agradado. Ela aplaudia e gritava, não poderia se sentir mais orgulhosa dele do que já estava.
Passada a homenagem, Kagome passou a prestar atenção de fato na banda de Ichiro. Eles tocavam um dos gêneros de rock que ela mais gostava e faziam isso muito bem. Não conhecia nenhum dos três outros integrantes da banda, mas pela maneira como eles interagiam com Ichiro, pareciam ser amigos de longa data. Havia também uma garota baixa e ruiva que subiu duas vezes no palco para ajudar a banda, Kagome notou depois que ela era namorada do baterista.
O show encerrou-se na quinta música quando Ichiro, já na décima dose de wkisky, despediu-se e anunciou que um DJ tocaria durante o resto da noite. Quando ele se retirou do palco com a banda Kagome surpreendeu-se perguntando-se o que faria.
Todos os seus amigos pareceram ir embora, ela poderia simplesmente pegar o carro e voltar pra casa, mas não seria legal ir sem antes falar com Ichiro. Seria?
Decidiu apenas que uma hora ele iria ter que desocupar o camarim e falar com ela, então pediu uma água mineral e sentou-se no balcão novamente para recuperar o fôlego. Ia tentar esperar só por meio hora, mas mal havia tomado o segundo gole de água quando uma mão pousou levemente em suas costas. Ela virou-se, esperando encontrar Ichiro, apesar da leveza do gesto não se parecer nada com ele. E então viu a garota ruiva parada em sua frente.
- Você é Kagome, certo? - perguntou ela, simpática - A garota da música?
- Ah... - ela ficou sem palavras por uns instantes e acenou afirmativamente com a cabeça.
- Então, querida, preciso que venha comigo! - anunciou ela, puxando Kagome pelo braço, num gesto de intimidade que a deixou sem graça.
- O-o que?
Ela foi guiando Kagome por entre a multidão e enquanto isso, falava pausadamente e com calma, contrastrando com a agitação das pessoas ao seu redor.
- Aquela história do Ichiro não ter como voltar pra casa... Bom... É verdade, querida. - disse ela, tranquilamente - Eu e o resto da banda nos amontoamos em meu carro com todos os instrumentos e um amigo nosso que trouxe Ichiro até aqui ia levá-lo de volta, mas acontece que ele... Sumiu! Haha.
- Certo... - disse Kagome, desconfiada - Me leve até ele, eu dou carona, sem problemas.
- Ótimo! - disse ela, sorrindo para Kagome - A propósito, meu nome é Sayuri. Estou levando você direto para o camarim dos meninos, é lá que ele está. Você é muito bonita mesmo!
Kagome sorriu, agradecida, achando a menina bastante excêntrica, chegando a soar engraçada. Quando as luzes começaram a ficar mais fortes ela pode notar que Sayuri tinha as bochechas cobertas por leves sardinhas e os olhos bastante azuis. Os cabelos eram curtinhos, acima dos ombros e de um ruivo brilhante.
Nos bastidores a agitação era pouca, mas Kagome ouvia vozes masculinas vindas do final do corredor e teve a intuição de que seriam dos amigos de Ichiro. Soube que estava certa assim que se aproximaram um pouco mais e ela pode vislumbrar o garoto estrangeiro parado próximo à porta.
- Sayuri voltou com a sua musa, Ichiro! - declarou ele, rindo e abrindo espaço para que as duas passassem.
O camarim era pequeno e Kagome pode ver rapidamente Ichiro deitado em um sofá, meio dormindo, meio acordado, parecendo realmente zonzo. Ela cumprimentou rapidamente os garotos e foi até ele.
- Ichigo? - disse ela dando tapinhas em sua face - Ichigo?
- Não me chama assim, porra. - resmungou ele, com voz de ressaca.
Kagome ficou vermelha quase que imediatamente e seu primeiro impulso foi dar um soco forte no ombro de Ichiro. Ele pareceu recobrar um pouco mais da consciência quando ela o fez e podiam-se ouvir risadas vindas das outras pessoas que ocupavam o camarim.
- Ele está ótimo. - declarou Kagome, puxando Ichiro pelo braço - Já consegue até ser indelicado sem ter de parar pra pensar!
- Eu n... não preciso parar pra pensar... - disse ele com a voz arrastada, entre soluços - ...grosserias.
Um dos garotos ali presentes resolveu intervir a fim de apaziguar os ânimos.
- Er... Higurashi, não é? – perguntou ele, ao que Kagome respondeu com um aceno de cabeça e um olhar desconfiado – Ele estava muito nervoso hoje mais cedo. Digamos que já faz um tempo que ele não está em seu estado normal.
- Eu não estava nervoso... – resmungou Ichiro.
- Claro que estava, cara! – retrucou o amigo cruzando os braços – Você passou a semana inteira falando dessa garota, como não haveria de ficar nervoso cantando uma música pra ela?
- Ele tem seus motivos pra ficar inseguro – interferiu um segundo garoto, que fumava um cigarro mais ao fundo – Cantou aquela música ridícula... Eu falei pra ele escolher alguma composição dos Beatles ou algo mais... Decente. Josephine teria adorado.
- Josephine é um nome ridículo para uma guitarra. E vão se foder – disse Ichiro novamente, apoiando as mãos na testa – todos vocês... Que dor de cabeça.
Kagome abanou a cabeça impacientemente enquanto virava-se para Sayuri agradecendo a ela sua ajuda.
- Ichiro? Vamos? - perguntou ela, juntando toda a sua paciência.
Ichiro subiu o olhar e encontrou os de Kagome, eles se encararam por tempo o suficiente para que ela se sentisse envergonhada. E então ele começou a se aproximar lentamente do rosto dela, os olhos se fechando sem nenhuma pressa. Ela já conseguia sentir o aroma forte de whisky e a respiração alta dele. Sentiu o sangue subir às bochechas e lembrou-se que eles não estavam sozinhos.
"Não aqui... Ichiro!" pensava Kagome sem, no entanto, conseguir se mover. "Não na frente de tantas pessoas que eu não conheço..."
Não conseguia parar. Não conseguia pará-lo. E foi aí que seus olhos cederam e quase se fecharam.
Quase.
Ela notou um movimento brusco que fez seus olhos se abrirem e viu quando Ichiro jogou a cabeça pra trás e começou a rir.
De início foi uma risada baixa. Depois se tornou uma verdadeira crise de riso. E apesar de achar que não teria sido o melhor momento para um beijo, Kagome não conseguiu esconder sua frustração.
- Você vai direto pra casa. - disse ela, em tom severo - Não acredito que você chegou a esse estado sabendo que a Zhang nem está na cidade!
- Eu não tenho as chaves de casa. - pronunciou-se ele, sem controlar o tom de riso ocasionado pela bebida - Eu... Esqueci!
Kagome parou e virou-se lentamente, seus olhos estreitando-se numa evidente expressão raivosa.
- Você está sem sua chave?
Mas ele não conseguiu responder em meio a tantas gargalhadas. Ou apenas não quis responder e usou a bebida como desculpa. Aquilo não interessava à Kagome, não diminuía a irritação dela.
- Licença... - disse uma voz masculina tímida - Eu posso ajudar a levar ele para o carro se você quiser.
Kagome virou-se e deu de cara com um garoto loiro e baixinho, com traços estrangeiros. Sentiu-se aliviada por ter despertado a compaixão de alguém e seu olhar deve ter dito isso porque o garoto começou a se aproximar. Ele puxou Ichiro pelo braço que começou a resmungar algumas palavras sem sentido. Kagome apoiou o outro braço de Ichiro em seu ombro e depois de uma breve despedida, deixou o camarim.
- Então, o que vai fazer com ele? - perguntou o garoto que a ajudava assim que eles contornaram um corredor.
- Hm - Kagome pensou por alguns momentos, mas sabia que só tinha uma possibilidade - vou levá-lo para o meu apartamento. Ele dorme no sofá ou algo assim...
- Desculpe mesmo por isso. - falou ele num tom de voz baixo e calmo - Eu o hospedaria na minha casa, mas estamos sem espaço. Uns parentes vieram passar as férias e...
- Oh, não precisa se desculpar! - retorquiu Kagome, encantada com tamanha delicadeza - Ele que deveria ter se controlado na hora de beber.
- Feh... - Ichiro sussurrou com a cabeça ainda baixa, manifestando seu protesto.
- Não adianta resmungar pra cima de mim. - rebateu Kagome, séria - Você sabe que fez errado.
Passaram-se alguns momentos em silêncio, o suficiente para que os três ficassem a apenas alguns metros do carro, estacionado próximo ao pub. O garoto ajudou Kagome a colocar Ichiro dentro do carro e foi aí que ela lembrou-se de perguntar.
- Qual o seu nome mesmo?
- Joe, muito prazer. - respondeu ele, estendendo a mão - Você é a Higurashi não é?
- Pelo visto alguém andou falando de mim. - observou Kagome, achando graça.
Joe ficou quieto por alguns segundos, apenas olhando para ela e rindo. Parecia que estava imaginando alguma coisa ou se lembrando de alguma piada engraçada e ao mesmo tempo contendo uma gargalhada.
- Ele gosta muito de você. - pronunciou-se, finalmente - Eu vou indo. Tenho que arrumar todos os instrumentos ainda, isso levará algum tempo.
- Sim, claro. - disse Kagome, um pouco desconfiada - Foi um prazer conhecê-lo, boa sorte com a banda!
Ele acenou e se foi. Kagome ficou algum tempo pensando no que ele havia se baseado para afirmar que Ichiro gostava muito dela. Até onde sabia, o relacionamento deles por assim dizer não envolvia sentimentos. Ao menos não da parte de Ichiro, certo?
- O que você tá fazendo aí fora, parada? - a voz cortante dispersou seus pensamentos - Vamos logo, meh!
Kagome abanou a cabeça e retomou o foco.
Se ele realmente gostava dela, coitado. Não fazia a menor idéia de como demonstrar.
- Vamos sim, seu resmungão - respondeu Kagome magicamente de bom humor - espero que o meu sofá seja suficientemente desconfortável.
- Vá se... f...
- Eu já sei. - cortou ela - Mantenha a boca fechada durante o percurso, por gentileza.
Ichiro virou-se bruscamente para o lado da janela procurando demonstrar sua irritação sem ter que parar e pensar em palavras propriamente ditas. Kagome sorriu para ele e passou delicadamente a mão pelos seus cabelos antes de dar a partida.
Ela não viu as bochechas dele corarem.
Não foi tão difícil quanto ela pensava levar Ichiro do estacionamento do condomínio até o elevador. Ele ainda precisava do ombro dela para não se desequilibrar, mas já parecia bem melhor. Tinha dormido durante todo o caminho, Kagome achou que o cochilo havia lhe feito bem. Ela tirou as chaves da bolsa e abriu a porta deixando que Ichiro passasse para que ela pudesse trancar.
Ele entrou e Kagome apressou-se a ir até o quarto pegar travesseiros e lençóis.
- Se quiser água ou suco, sei lá - disse ela enquanto se distanciava - pode se servir aí na cozinha. Eu já volto!
Ichiro analisou o ambiente calmamente, a sobriedade lhe voltando aos poucos. Estava no apartamento dela, depois de uma série de eventos desajeitados. Nada saíra como planejado naquela noite. Talvez ele tivesse feito uma boa performance, boa o suficiente para impressioná-la, mas foi pego despercebido pela enorme quantidade de álcool que ingeriu. Pretendia sair com ela pelas ruas de Tóquio, procurando algum restaurante interessante onde pudessem ter um jantar divertido e, quem sabe, romântico.
"Desista, Ichiro, você não é romântico."
E não era mesmo. Até quando tinha escolhido ser, havia feito tudo da maneira errada. Porque diabos tinha que cantar uma música tão vaga? Porque não conseguia deixar suas intenções claras? Quando tudo que mais queria era dar uma droga de um beijo nela?
- Eu não achei dois travesseiros... - ouviu a voz doce se aproximando - espero que você consiga dormir bem com um só.
- Claro. - respondeu ele.
Kagome acomodou o travesseiro e os lençóis no sofá, retirando as almofadas para formar mais espaço. Ela havia soltado os cabelos que agora caíam como cascatas negras pelas suas costas, deixando-a ainda mais linda. Ichiro mantinha a cabeça baixa, as mãos no bolso e Kagome, certamente, não estava percebendo a intensidade dos olhos dele fixos em sua imagem.
- Ichiro? - ela se aproximou um pouco mais - Você não vai... deitar?
Ela não podia se aproximar mais. Ele não sabia se era a bebida, a frustração ou as duas coisas juntas, mas estava começando a sentir os impulsos que havia controlado durante toda a semana. O impulso de agarrar Kagome quando ela menos esperasse.
- O que você tem? - perguntou ela, tocando no ombro dele - Ichiro? Mas que diabos!
Tudo aconteceu muito rápido. Num instante ela estava virando-o de frente e no outro, um baque surdo do seu corpo se chocando contra a parede. Ele segurou seus pulsos com as mãos e mantinha a cabeça abaixada, os cabelos negros impedindo-a de ver as orbes púrpura. Ela deveria estar envergonhada, não? Por algum motivo, só queria que ele continuasse a fazer o que quer que estivesse querendo fazer.
- I-Ichigo? - chamou ela, hesitante.
Ele levantou a cabeça bruscamente, encarando-a com um olhar firme.
Havia tantas emoções naquele olhar que ela se sentiu atordoada. Ele não parecia estar com raiva dela, no entanto havia raiva ali. Havia desejo, ela podia sentir; havia ansiedade e medo. E então suas pernas fraquejaram e ela teve que respirar forte para não cair.
Ele se aproximou dela muito rápido. Os narizes se encostaram e ele ainda segurava as mãos dela no alto, as mãos não faziam força alguma, como quem desafiasse: "você pode sair dessa situação, mas na verdade não quer". Kagome não sentia medo, só a ansiedade por sentir que Ichiro estava a milímetros de beijá-la.
Ele balançava a cabeça levemente, os olhos entre-abertos, parecia brincar com ela. Como se quisesse persuadí-la a tomar a iniciativa.
- Você está hiperventilando. - observou ele, a voz rouca cortando o ar entre eles.
Ela percebeu que ofegava, de fato. Aproximou seu rosto do dele olhando fixamente para um ponto logo abaixo de seu nariz.
- Você também.
Ele sorriu, um sorriso torto, cativante. Eles ficaram daquela forma durante algum tempo quando ele fez menção de se afastar e Kagome pensou que o momento estava acabado, mas ele só queria adquirir espaço para se aproximar do pescoço dela.
Ela sentiu um arrepio intenso quando percebeu onde ele estava indo. Ichiro não beijava seu pescoço, apenas encostava seus lábios ali e demorava a tirá-los. Ele subiu deixando um rastro de arrepios por onde passava e chegou bem perto do ouvido dela. Quando sua voz saiu de novo, Kagome tremeu violentamente.
- Você achou que eu iria te beijar naquela hora? - perguntou ele, uma mão soltando o pulso dela, percorrendo sua cintura - Eu sei, eu vi você fechando os olhos.
- E porque você não me beijou, idiota?
Ele riu do que ela falou, mas não teve pressa em responder. O cheiro do cabelo dela era inebriante, tentador. Poderia passar muito tempo ali, sentindo o corpo sempre quente contra o seu. O pescoço completamente arrepiado, branquinho, macio. Ichiro soltou o pulso fino que estava segurando e transferiu a mão para a nuca de Kagome. As mãos dela tocaram seus ombros, obrigando-o a aproximar os corpos ainda mais.
- Você e eu sabemos que não era o melhor momento.
A cabeça de Kagome latejava tamanho o desejo, nunca havia experimentado nada igual em toda a sua vida. Mantinha-se calma na medida do possível, mas na verdade estava desesperada. Só queria que Ichiro a beijasse de uma vez e fizesse tudo o que quisesse com ela. Estava completamente entregue a um homem que mal conhecia.
Mas eles pareciam se conhecer muito bem.
- Vai logo. - ordenou ela.
Ichiro riu mais uma vez, ela estava tão vulnerável quanto ele e era justamente aquilo que queria, ele desceu a mão, passando direto pela cintura dela e tocando na perna, passando a mão pela textura macia do tecido. Kagome sentiu sua perna sendo puxada, seu joelho dobrou-se automaticamente e a posição na qual eles se encontravam era ainda mais perigosa. Ele não pretendia soltar nem sua perna, nem sua cintura, mas ainda não era suficiente.
- Por favor. - disse ela, puxando os cabelos dele com certa impaciência - Por favor.
Ichiro deixou de beijar o pescoço dela para encará-la. Não se arrependeu. Os olhos dela estavam enormes, ansiosos. Os lábios levemente inchados e sempre entre-abertos, convidativos.
- Kagome...
Ele chamou o nome dela como quem pedia permissão, consentimento. Coisas que ela estava dando a ele de sobra. Não entendia porque alguém aparentemente tão aproveitador como Ichiro estava demorando tanto a acabar logo com aquilo. Ele deveria estar se divertindo imensamente vendo-a implorar. Ela subiu as duas mãos e segurou o rosto dele entre elas, ainda puxando um pouco alguns fios de cabelo.
- O que você está esperando?
Ele recomeçou a tocar o pescoço dela com os lábios assim que a frase foi terminada. Daquela vez, Kagome não segurou a voz. Ichiro subiu, tocando as bochechas dela com a boca enquanto ela enlaçava o pescoço dele com os braços. Ele parou perto dos lábios dela e partiu para o outro lado do rosto, fazendo os mesmos movimentos. Kagome cravou as unhas nas costas dele, sem medo de machucá-lo. E então ele voltou para o mesmo lugar de antes, estavam cara a cara, milímetros os separando.
Kagome preparou-se para o que ela julgava que iria ser o melhor beijo de toda a sua vida, mas a única coisa que ela sentiu foi o corpo de Ichiro se distanciar de repente; sua mão soltou a perna dela; deixando-a cair. E sua voz rouca cortou o ar dizendo a única palavra que ela não queria ouvir.
- Não.
Ele virou-se de costas, torturando-se por ter ido tão longe. Todo o seu corpo se encontrava em alerta e ele sabia que não seria capaz de cortar um momento daqueles uma segunda vez.
- Porque? - perguntou Kagome, sua voz adquirira um tom de tristeza que ela amaldiçoou - Qual o problema?
Ichiro levou as mãos a cabeça, respirando fundo e tentando manter a calma.
- Eu não quero que seja assim.
E de repente, Kagome explodiu em irritação.
- Assim como, Masagami? - gritou ela, cruzando os braços - Porque eu ouvi seus amigos falando que você queria algo exatamente assim! Você cantou aquela droga de música pra mim, não cantou?
- Sim, eu fiz isso, eu fiz! - retrucou ele, virando-se para vê-la e se arrependendo ao deparar-se com a expressão frustrada - Olha, Kagome... Hoje nada saiu como planejado.
Ela o encarou confusa, esperando que ele explicasse o que estava acontecendo. Odiava ser rejeitada. Não tinha mais a menor paciência para encarar aquela situação.
- Eu vou dormir. - disse ele, indo em direção ao sofá - Tenha uma boa noite.
Kagome observou ele se deitar no sofá e puxar os cobertores até ficar inteiramente coberto. Estava com muita raiva de Ichiro. Ao mesmo tempo, sentia raiva de si mesma por chegar a ficar com pena dele. Afinal nunca o tinha visto tão confuso quanto naquele dia, tão perdido e igualmente frustrado. Parecia até que ele tinha um motivo nobre e idiota para ter interrompido.
Ele havia começado, não?
Depois que começou a se acalmar, Kagome notou que se ele não tivesse parado ali mesmo, seria ela a pessoa a interromper. Eles mal se conheciam; ele estava dormindo em sua casa e pior: não estava em seu estado normal. Poderia ser muito bom na hora, mas a culpa iria tomar conta dela no dia seguinte. Até porque no dia seguinte ela havia prometido. Iria tentar atravessar o poço mais uma vez.
Mas será que algum desses pensamentos havia passado pela cabeça de Ichiro? Ele não parecia o tipo de pessoa que tinha a sensibilidade aguçada.
Assim que deitou a cabeça no travesseiro, ela apertou a jóia de quatro almas com força entre os dedos. Imagens de um Japão de quinhentos anos atrás lhe vieram à cabeça.
"Amanhã será sábado."
Depois de ouvir os passos dela caminhando para longe ele se arriscou a dar uma olhada no ambiente. Podia vê-la fechando a porta do quarto com força, havia deixado-a com raiva, mais uma vez.
Parecia até que tinha uma vasta experiência no assunto.
Ele se sentou no sofá com a cabeça entre as mãos, sentindo-se terrivelmente mal. Sabia que havia feito a coisa certa, mas porque diabos se arrependia tanto?
Nunca tivera que controlar seus impulsos nesse sentido, por isso estava encontrando uma dificuldade enorme naquele momento. Sempre teve toda e qualquer garota que queria num passe de mágica, num estalar de dedos. Por algum motivo elas sempre topavam ir além com ele logo na primeira noite. Entretanto estava claro que Kagome não era um caso passageiro e ele não queria que ela fosse e, portanto, não queria que ela interpretasse toda essa "pressa" como um indício de que ele não estava disposto a conhecê-la melhor. Mas ela havia pedido, não? Justamente por saber disso que Ichiro sentia-se lisonjeado até. "Por favor" ela havia dito, não? Ela correspondeu a todos os seus carinhos. Havia demorado um pouco, mas ele finalmente sentia que agora eles estavam de igual pra igual. Sentia que aquele não era um desejo só dele.
Estava quase arrombando a porta do quarto dela tamanha a vontade. Estavam tão perto, ali, separados por um corredor minúsculo. Chegou até a se levantar do sofá e foi quando sua mente obrigou-o a lembrar os motivos pelos quais tinha que desistir.
Não estava certo e ele queria fazer tudo certo daquela vez. Não estava disposto a ter Kagome apenas por algumas horas. Ela emanava uma aura de fragilidade que barrava a veracidade de Ichiro. Ele queria protegê-la e cuidar dela. Não queria ser o amigo que bebe demais e tinha que ser levado pra casa aos tropeços. Kagome tinha razão de estar com raiva. Provavelmente ela não fazia a menor ideia do que teria sido aquela noite se tudo saísse conforme ele havia planejado. Provavelmente ela só estava achando a "rejeição" por parte de Ichiro um verdadeiro insulto.
Mas estava decidido. No dia seguinte faria tudo funcionar. Era sábado, Kagome certamente não tinha grandes compromissos. Iria acordá-la da forma mais decente que conseguisse; iria mostrar que era um homem de verdade e que podia cuidar de si mesmo e dela ao mesmo tempo. Iria deixar suas intenções claras, finalmente.
"Isto é, se ela ainda me quiser."
E o medo tomou conta dele. E se ela ficasse realmente com raiva? E se nem quisesse ao menos olhar na cara dele? Imagens fantasiosas de Kagome expulsando-o do apartamento surgiram e ele deitou-se no sofá, apertando a cabeça com força entre as mãos, como se aquilo fosse espantar os pensamentos. Tirou o celular do bolso e programou um toque de despertar.
Ele não iria deixar que a noite anterior arruinasse tudo o que havia construído com Kagome durante todo aquele tempo.
- Inuyasha, senta!
Estavam todos ali, rindo alegremente. Havia macarrão instantâneo, batatas chips e um sentimento de alívio pairando no ar. Como se tudo estivesse exatamente da forma que deveria estar. Shippou tentava furtar um pouco do lanche de Inuyasha, em vão e isso havia gerado o impulso em Kagome de ativar a kotodama.
- Inuyashaaaa..!
Era um tom de voz que inspirava reclamação e irritação, mas que era comum entre eles dois e indicava apenas normalidade. Inuyasha estava correndo atrás de Shippou e Kagome correu atrás dos dois, deixando o resto do grupo reunido ao longe. Depois só existiam ela e Inuyasha, correndo um atrás do outro. Ele parou abruptamente deixando-se ser abraçado por ela e então... Um beijo. Tudo estava bem. E enquanto se concentrava naquele momento, de olhos fechados e o coração batendo forte, sentiu o ambiente a sua volta mudar.
E de repente, chovia forte e ela podia ver com clareza que não estava em seu mundo. Sabia também o que iria acontecer em seguida. Estava armada com um arco e uma flecha, mas suas vestes eram diferentes, em tons de vermelho e branco, como uma sacerdotisa. Instintivamente avançou um pouco com o pé direito para mirar melhor em seu alvo e foi quando sentiu algo encostando em seus dedos. Aos seus pés jazia o corpo sem vida de Inuyasha. Ela gritou e caiu. Seus cabelos enxarcados colavam-se ao rosto dele; a chuva castigava suas costas, grossa, brutal. Kagome segurava o torso de Inuyasha com dificuldade, sacudindo-o de leve.
- Acorde... – suplicava ela – Não me deixe sozinha... Por favor.
Quando sua cabeça se deitou mais uma vez, encostando-se no peito nu do homem que a amara, a chuva desapereceu e tudo ficou claro.
E então olhava para a árvore sagrada. Tocou seu tronco com os dedos e fechou os olhos.
- Kagome.
Não precisou se virar para saber que era ele e seu orgulho fez com que permanecesse de costas. Naquele momento ela sabia que ele a havia magoado por não ter voltado antes. Onde ele esteve durante todo esse tempo foi o que teve vontade de perguntar, mas não o fez por algum motivo. Apenas esperou que ele falasse.
- Porque você não enxerga?
Ela se virou, um sentimento de tristeza e desesperança se apoderando dela por inteiro. Ele estava bonito como sempre, mas havia algo em sua imagem que ela não conseguia captar. Ela sabia que era impossível pretender ser feliz algum dia se tudo o que era mais importante pra ela lhe foi tirado de forma tão brutal. Uma época, alguns amigos, um grande amor... Coisas que ela sentia que perdera, mas que, de um ponto de vista prático, nunca foram suas.
A voz dele cortou o ar com mais uma pergunta.
- Porque você não se dá o devido crédito?
- Mas eu me dou – respondeu ela, de forma automática – eu aniquilei Naraku.
- Não estou falando somente disso. E eu te amo. – disse ele, em tom de súplica – E é uma pena que eu tenha percebido isso tarde demais, mas eu estou tentando consertar.
- Não há conserto. Você está morto. – setenciou ela cuspindo as palavras com asco.
- Há sim! – ele afirmou categoricamente e se aproximou – Eu estou tentando, eu garanto a você.
A medida em que ele se chegava perto a sua imagem se tornava mais e mais embaçada. Um fenômeno estranho e peculiar ao qual ela não prestou atenção. Virou o rosto em protesto, não queria que ele a tocasse, não queria ter de dizer adeus para ele novamente. E essa era uma de suas únicas certezas: eles não iriam ficar juntos.
Não sabia porque, mas sentia muita raiva dele. Talvez fosse pelo que ele havia acabado de dizer, por ter notado tarde demais. E antes que sua raiva tivesse tempo para se dissipar; antes que ela tivesse tempo de se arrepender por não estar devolvendo o abraço dele, o chão sob os seus pés sumiu. Para seu desespero, Kagome começou a deslizar lentamente como se tivesse acabado de saltar no Poço Sagrado.
- Inuyasha? – ao contrário do que ela imaginava, ele a deixou escorrer por entre seus braços – Inuyasha, me puxe, por favor!
O chão que se formou nove metros abaixo era exatamente o fundo do poço que ligava as duas eras. E Kagome entendeu que estava sendo levada de volta.
- Inuyasha! – protestou ela, contrariada.
Ele segurou uma de suas mãos por algum tempo. Em seus olhos havia uma expressão vaga e triste de despedida, lágrimas rolariam pelo seu rosto a qualquer momento. Kagome, desesperada, não entendia porque ele se recusava a fazer o que ambos claramente queriam.
- Inuy...
- Kagome. – começou ele, sem conseguir conter as lágrimas – Kagome, eu juro...
E tudo ficou escuro.
Ela sentiu acordar, mas recusou-se abrir os olhos. Era torturante e injusto demais que a sua mente ainda pregasse peças contra ela. Era ridículo ter sonhos tão vívidos mesmo depois de três anos terem se passado; horrível acordar com a sensação de que não havia se passado um dia sequer, pois a dor era a mesma. Agarrou a ponta do travesseiro com força, havia dormido em posição fetal, como lhe era de costume. Encostou os joelhos no queixo e os prendeu com o braço livre. Soltou as pernas e passou as mãos pelos olhos, limpando as lágrimas que haviam caído involuntariamente. Fungou uma ou duas vezes e abriu os olhos devagar.
E sentiu seu coração parar.
De início, achou que estivesse deslocada no tempo, de volta ao passado, pois uma figura familiar se encontrava sentada a sua frente, de pernas cruzadas. Posição esta também bastante conhecida, de alguém que lhe vela o sono gentilmente, sem pretender ser notado. A vista estava tão embaçada e sua mente tão contaminada pelo sonho que acabara de ter, que ela chegou a pensar que se tratava de outra pessoa. Mas depois de um ou dois segundos lembrou-se da noite anterior. Lembrou-se que ele tinha olhos púrpuras que agora a encaravam com curiosidade e cabelos curtos e negros, sempre bagunçados.
- Bom dia? - murmurrou Ichiro, passando uma mão pela nuca.
Eles se encararam. E os dois tinham os pulsos acelerados em sincronia.
