Capítulo 13

Kagome sentiu o rosto corar de vergonha, o sangue subir às bochechas e à cabeça. O único garoto que já entrara no ambiente dela dessa forma era Inuyasha! O que ele estava fazendo ali, dentro do seu quarto enquanto ela estava dormindo?

Cobriu-se rapidamente com os lençóis enquanto se levantava num pulo e jogou o primeiro travesseiro que viu na cara de Ichiro que tombou para trás resmungando alto.

- MAS O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO NO MEU QUARTO? – gritou Kagome atirando mais uma almofada antes que ele tivesse tempo de se explicar – SE EXISTE UMA PORTA VOCÊ BATE ANTES DE ENTRAR, MASAGAMI!

- AI! EI! – protestou Ichiro, em vão, enquanto tentava se levantar – Eu só tava tentando ajudar você, idiota!

- O... quê?! – Kagome não entendeu a explicação dada por ele e sua irritação já estava atingindo níveis extraordinários.

Na verdade era mais do que simples irritação. Era ansiedade e entusiasmo por saber que o cara com quem ela quase fizera uma besteira na noite anterior havia entrado em seu quarto sem a menor cerimônia e permanecera ali por sabe-se lá quanto tempo.

Ichiro devolveu a almofada jogando-a na cama de Kagome, chateado. Era sempre assim, todas as vezes que tentava ajudar acabava sendo mal interpretado. Quer dizer que não importava o que fizesse a fama de malvado e aproveitador ia persegui-lo para sempre?

- Eu não queria ter entrado no seu quarto! Eu estava cuidando de outras coisas quando...

- Que outras coisas você teria para cuidar estando no meu apartamento?! – interrompeu Kagome, entendendo menos ainda.

Ichiro deu um suspiro alto e impaciente e passou a mão pelos cabelos. Será que toda idéia que tinha já nascia com uma alta possibilidade de dar completamente errado?

- Você vai ver. – disse ele – Eu só entrei aqui porque você estava gritando.

Kagome gelou. Seu corpo inteiro entrou em alerta. Ela sabia qual havia sido o pesadelo que teve durante aquela noite. Teria sido isso que ele ouvira? Será que ela ainda tinha o velho costume de falar durante o sono como Inuyasha sempre dizia? Tentou se recordar de tudo o que havia sonhado, mas sua mente, sempre lhe pregando peças, havia feito questão de apagar quase que completamente o sonho de sua memória. Ela só lembrava do final. De estar escorregando pelos braços de Inuyasha rumo à escuridão de uma Era à qual ela não queria pertencer. Tateou a região das clavículas em busca de um cordão com uma jóia lilás pendurada. E apertou-a.

- Kagome?

A voz de Ichiro soou perigosamente próxima e quando ela levantou o olhar ele estava frente a frente com ela sustentando uma expressão intrigada no rosto. Ela mordeu o lábio inferior procurando algo em sua mente que pudesse servir para encerrar o assunto.

- Eu não sei o que você sonhou, mas... – ele hesitou por um momento e engoliu em seco – Quero que você saiba que está tudo bem agora.

Ele colocou uma mão no braço direito dela, tentando consolá-la de alguma forma, mas não mediu direito sua força e acabou por apertar demais. Quando se deu conta disso, soltou o braço de Kagome num movimento rápido e desengonçado.

Ela corou. Não sabia dizer o que havia sido aquilo, mas tinha fortes suspeitas de que Ichiro estava tentando ser gentil com ela. Ela havia aberto a boca para falar algo, mas ele foi mais rápido e prosseguiu.

- Sobre ontem... – Ichiro ficou ainda mais nervoso, podia sentir o suor começando a brotar em sua testa – Eu não pretendia que nada daquilo acontecesse. D-desc... Ahn, quer dizer... foi mal.

Kagome sorriu levemente e assentiu com a cabeça. Ichiro não era um garotinho irresponsável e inconsequente afinal de contas. Ele estava tentando obedecer ao acordo deles. A noite anterior havia sido somente fruto de uma bebedeira sem limites, de uma extravagância casual. Dentro de Kagome alguma coisa murchou.

Ela queria que ele tentasse ficar com ela.

- Claro. – concordou Kagome – Nós somos só amigos, afinal de contas.

- Não! – negou Ichiro instantaneamente e o rosto de Kagome formou uma expressão de dúvida – E-eu... Eu n...

Ele sentiu seu estômago embrulhar. Não era aquilo que queria dizer. Não era mesmo. Seu nervosismo aumentou consideravelmente enquanto tentava formular uma frase que desfizesse o mal entendido, mas não conseguiu emitir um som sequer.

Ele viu calado quando Kagome disse gentilmente que iria tomar um banho e começou a se afastar então ele concluiu que deveria sair do quarto dela para deixá-la a vontade. E não havia mais nada que pudesse fazer além disso.

Ele fechou a porta do quarto da garota e saiu pisando forte em direção à cozinha do apartamento.

- Mas que merda! – reclamou ele, dando um tapa na bancada de mármore do bar e acertando uma bandeja de pães por engano. As massas voaram, mas ele teve reflexos suficientes para salvar o lanche.

A sua frente estava o fruto de duas horas de trabalho culinário. Havia preparado o melhor café da manhã de toda a sua vida. Haviam dois tipos de suco e leite morninho açucarado em três jarras separadas de vidro. Ele fizera alguns cookies de baunilha e waffles, receitas que havia aprendido durante um intercâmbio que fizera aos quinze anos nos Estados Unidos. Também havia feito misso shiru com um leve toque de pimenta que ele jurava que Kagome iria gostar muito. Tudo estava perfeitamente organizado na mesinha minúscula quase que anexa ao bar da cozinha. Ele esperava conseguir desfazer o mal entendido entre eles e deixar seus sentimentos claros com relação a Kagome.

"Você só pode estar gostando dela, Ichiro. Ninguém põe a mão na massa por qualquer pessoa à toa."

Ele riu com seus pensamentos e puxou uma cadeira para sentar-se admirando a mesa posta. Não saberia quando teria coragem de perguntar, talvez precisasse de um pouco mais de tempo para ficar mais íntimo de Kagome. A curiosidade o corroía por dentro. Queria saber porque ela estava chorando durante o sono, porque estava tão angustiada e amedrontada. Queria ajudar de alguma forma. Talvez ajudasse se ele começasse a investigar.

Talvez ajudasse se ele descobrisse quem era esse tal de Inuyasha.


A água caía direto em seu rosto e ela sacudiu os cabelos longos que clamavam por um bom corte. Algum dia teria coragem de fazê-lo, certo?

Então, Ichiro não a queria realmente.

Era impossível pensar nas suas futilidades quando tudo que lhe ocorria à cabeça era o fato de que suas suspeitas não haviam se confirmado. Simples assim, não? Um problema a menos para ela. Afinal se Ichiro ficasse perseguindo-a o tempo inteiro seria chato. É, seria chato. E foi chato ele ter cantado aquela música idiota para ela, aliás... Aquilo tinha sido fruto da bebedeira também. Ele não faria uma coisa romântica dessas se não estivesse realmente alterado! Aparentemente, os amigos dele também haviam sido enganados, afinal eles agiram como se Ichiro se importasse com ela e com o que ela pensava. Tolice.

Kagome saiu do banho e enrolou-se na toalha, penteando os cabelos para trás, aproveitando a sensação. Ao olhar sua imagem no espelho notou que seu nariz continuava vermelho e seus olhos levemente inchados. Então ela havia mesmo chorado durante o sono. Significava que pelo menos seus soluços Ichiro havia ouvido. Balançou a cabeça em negação, tentando ser otimista ao levantar a hipótese de que ele ouvira apenas isso. Mesmo sabendo que as chances de ter um sonho com Inuyasha e não chamar o nome dele fossem baixas.

Kagome caminhou ainda enrolada na toalha rumo ao closet, desejando que aquele dia apenas não começasse. Vestiu uma blusa de algodão branca com mangas longas e um short de tecido grosso azul marinho. O tempo começara a esfriar em Tókio. Ela se sentiu à vontade o suficiente para calçar suas meias de lã cinza e enfiar os pés em um par de pantufas vermelhas já meio encardidas. Pouco lhe importava se estava com uma visita. Só queria relaxar; precisava de um descanso.

E o que faria em seguida? Mandaria Ichiro ir embora, assim, sem mais nem menos? Querendo ou não ele fora atencioso com ela quando entrou em seu quarto preocupado e tentou consolá-la dizendo que estava tudo bem.

Ela apenas abriu a porta de seu quarto e atravessou o corredor mínimo sem fazer planos ou ensaiar frases. Sua mente estava pesada demais para pensar nisso.

Mas quando seu campo de visão se restringiu à sala e à cozinha, Kagome parou, estática, impressionada com o que via.

A mesa estava posta com uma enorme variedade de alimentos que ela não se lembrava de ter comprado. Parecia ser uma refeição completamente deliciosa e a única pessoa que poderia ter providenciado tudo aquilo era o rapaz sentado à mesa que a olhava com uma ansiedade evidente.

Ou isso ou Kagome começara a ter um caso grave de sonambulismo.

- O q-qu...? – ela tentou manifestar sua pergunta, mas a expressão em seu rosto deu conta do recado sem que ela precisasse completar a frase.

Ichiro se levantou abruptamente, os lábios crispados de tensão, mal conseguindo olhar para Kagome sem se alterar.

- Er... Oi. – começou ele sentindo-se completamente idiota – Esse seria meu... Pedido de desculpas oficial. Você sabe... Por ontem.

Kagome entristeceu-se de novo. Então ele estava se sentindo tão culpado por ter tentado ultrapassar os limites de amigo que fizera tudo aquilo? Suspirou pesadamente num movimento involuntário e cruzou os braços.

- Você já está desculp...

- E também...! – interrompeu Ichiro chamando a atenção de Kagome – E também por agora a pouco... Acho q-que... Bom, você não entendeu o que eu quis dizer.

- Eu não estou entendendo mesmo... – disse Kagome entre confusa e divertida – Quantas coisas você fez de errado entre ontem e hoje, Masagami?

Ele não pode evitar rir um pouco e aquilo amenizou o clima entre eles. Kagome notou que Ichiro estava acenando para que ela se sentasse e assim o fez. Eles estavam agora muito perto, lado a lado.

- Eu não sei mais nem o que eu disse agora a pouco – começou ele com a cabeça levemente abaixada – mas eu sei bem o que eu não quis dizer.

E então ele tomou a decisão de olhar diretamente para ela. Todos os pensamentos se tornaram embaralhados diante dos orbes incrivelmente azuis. Àquela distância ele conseguia sentir perfeitamente o aroma natural com notas florais que emanava da garota em doses suficientemente inebriantes. Engoliu em seco e procurou o foco de suas idéias novamente.

- A única coisa da qual me arrependi ontem foi de ter bebido demais. – Ichiro colocou uma mão na nuca, sentindo-se envergonhado.

Kagome acenou afirmativamente. Aquilo não era suficiente para deixá-la mais esperançosa. Ichiro entendeu o silêncio dela como um sinal para que continuasse e assim o fez.

- A única coisa que não estava planejada ontem era eu ficar bêbado. – disse ele – Pelo resto, eu assumo os riscos.

Ela se sentiu repentinamente irritada.

- Então quer dizer – falou Kagome tentando acompanhar o raciocínio – que vir para a minha casa estava nos seus planos? Quer dizer que me empurrar contra a parede e depois me abandonar estava exatamente nos seus planos?

- Não! Mas que maldição! – irritou-se Ichiro praticamente puxando os próprios cabelos – Sua idiota!

- Porque você está me chamando de idiota? – Kagome cruzou os braços – Não sou eu que tenho problemas de comunicação!

- Ok, ok, Kagome. – Ichiro respirou fundo, dando-se por vencido – Já que eu tenho problemas de comunicação vou exemplificar as coisas da forma mais fácil pra mim. Você aguenta?

E de repente ela se sentiu muito nervosa. Balançou a cabeça afirmativamente mesmo sem saber exatamente se aguentaria ou não. Só estava curiosa, na verdade. Curiosa e desesperada por sinais que ela sabia que não deveria desejar.

Ele, por sua vez, respirou fundo. Antes de começar a falar, no entanto, serviu para Kagome um waffle salgado com um dos sucos que preparara. E fez sinal para que ela provasse ao que a mesma obedeceu automaticamente. Ele também pegou um cookie de baunilha e devorou-o de uma vez só colocando-o inteiro na boca tamanho o nervosismo.

- Está gostoso? – perguntou ele, as sobrancelhas formando um vinco de tensão entre elas.

Kagome limitou-se a balançar a cabeça novamente e tomou um gole do suco. Ichiro passou as mãos pelos cabelos negros e aproximou-se mais dela. Ele apoiou um de seus cotovelos bem próximo do prato de Kagome. O outro braço se apoiava no encosto da cadeira dela. Aparentemente ele não se importava com o fato de seus rostos estarem tão próximos um do outro.

- O negócio é o seguinte... – seu coração batia tão forte que ele sentia as batidas – Eu não quero ser a porra do seu amigo.

Ela engasgou fortemente, levando as duas mãos à boca. Ichiro passou as mãos pelas costas dela para tentar melhorar a situação, mas aquilo deixou Kagome nervosa e ela tossiu mais três vezes antes de se recuperar.

- Você o quê? – perguntou ela disposta a verificar se realmente havia ouvido o que pensava.

- Kagome, não seja ingênua. – continuou Ichiro finalmente assumindo as rédeas de seus próprios nervos – Você sabe que eu não quero ser mais um de seus amiguinhos.

- Nós fizemos um acordo! – retrucou Kagome, a consciência pesada obrigando-a a discordar de Ichiro – Eu não quero magoar ninguém!

- Foda-se aquele francesinho idiota se você quer saber! – estava cansado de vê-la se desvencilhar do assunto – Eu estou perguntando a você: o que você acha disso?

Ele estava colocando-a contra à parede como nunca antes ninguém fizera. De repente toda a razão de Kagome foi por água abaixo. O que estava fazendo com a sua vida, afinal? Era a primeira vez que ela tinha uma chance real de se apaixonar de novo por outra pessoa e ela estava se segurando esse tempo todo por que? Porque tinha dado uma garantia impensada a um amigo que achava que gostava dela? Não que estivesse desprezando a amizade de Éric, mas já fazia um tempo que Kagome sentia que aquilo não valia à pena. Era aí que entraria a compreensão e maturidade que ela esperava que Éric tivesse. Afinal, uma amizade era importante sim, mas e a sua felicidade? Onde ficaria?

Onde esteve sua felicidade nos últimos três anos de sua vida?

- E-eu... – Kagome não se conteve, seus olhos começaram a se encher de lágrimas de repente – M-me desculpe!

Ichiro engoliu em seco. De tantas reações que havia imaginado que Kagome teria a última delas era chorar e pedir desculpas. O constrangimento o atingiu em cheio e ele pousou as mãos nos ombros dela, sua expressão se abrandando aos poucos.

- Porque você está pedindo desculpas? – perguntou ele, assustado – Calma, Kagome, não chore, por favor. Mas que droga!

Ela engoliu o choro devagar, limpando as lágrimas que caíam com as costas das mãos. Ichiro perguntou mais uma vez se ela estava bem ao que Kagome balançou a cabeça afirmativamente. Ele então tirou as mãos dos ombros dela e mandou-a tomar um gole do suco e comer mais um pouco, talvez assim ela ficasse mais calma. Kagome obedeceu e enquanto degustava cada um dos quitutes preparados por ele constatava que tudo estava absolutamente delicioso. À medida em que foi aplacando sua fome conseguiu ficar mais tranquila. Talvez estivesse mesmo precisando se alimentar, afinal, na noite anterior havia tomado apenas alguns refrigerantes. Havia se preocupado tanto com o estado de Ichiro e logo em seguida ficara com tanta raiva dele que a fome passou despercebida.

Ele, por sua vez, não tocava nas comidas. Não ousou tocar mais em Kagome por mais que ela fosse como um ímã para ele. Não tinha a menor intenção de fazê-la chorar, mas acabou por não evitar sua falta de tato. Tinha um medo terrível de fazê-la sofrer de modo que, diante da fragilidade dela, não ousou tocá-la. De qualquer forma, ela não parecia estar com raiva dele e isso o tranquilizava um pouco.

- Não é nada com você, Ichiro – falou ela num momento inesperado – eu que fui burra nessa história toda. É de mim que tenho raiva.

Kagome não pretendia fazer com que ele entendesse o que ela estava querendo dizer realmente. Ele não sabia de sua luta interna contra seus próprios instintos que teimavam em querer ceder aos encantos dele. A única coisa que precisava ficar clara era que Ichiro nada tinha haver com o choro de Kagome. Felizmente, ela conseguiu seu objetivo.

Foi só a partir daí que ele começou a comer, o apetite voltando bruscamente depois de passado o momento de stress. Será que ela aceitaria sair com ele mesmo estando chateada consigo mesma? Será que ele seria capaz de alegrá-la?

- Que horas são, hem? – perguntou ela enquanto penteava os cabelos com os dedos.

- São umas dez e meia. – chutou ele, consultando o relógio em seguida – É. Dez e quinze. O que vamos fazer depois?

Kagome olhou-o interrogativa. Não tinha certeza, mas parecia que Ichiro estava convidando-a para sair naquele exato momento. Ele não esperou que ela respondesse para sugerir uma programação.

- Primeiro tenho que passar em casa e tomar um banho. – falou, mais para si mesmo do que para Kagome – Tem uns filmes legais no cinema, se você quiser assistir.

- Do que você tá falando? – perguntou ela, finalmente.

Ichiro ergueu uma sobrancelha impacientemente. Ele não ia desistir de arrancar aquela resposta dela.

- Eu não sei o que o seu choro significou, mas... – começou ele voltando à rispidez habitual – Eu quero algo mais com você e quero apenas confirmar se você quer o mesmo. Voltando à pergunta: o que diabos você acha disso?

"Oh, ele não vai desistir nunca." Pensou Kagome sem conseguir disfarçar sua satisfação.

Eles se olharam mais uma vez e Ichiro sentia o nervosismo se manifestando em pequenos sinais corporais. Seu pé batia insistentemente no chão e a mão direita puxava com força os próprios cabelos de sua nuca. Ele não se importava com aquela dor, era uma forma de desviar sua atenção das vontades que estava reprimindo. Kagome mirou os olhos dele sorrindo docemente enquanto suas pernas tremiam de leve. O início de algo importante sempre lhe causava um pouco de medo e aquele momento era um início. O começo de um tempo que ela já desejava que não acabasse nunca mais. Sua boca estava seca, ela podia sentir, mas não era nada que pudesse ser resolvido com um simples gole de água. Ela precisava falar. E então quando se perdeu apreciando cada traço do rosto de Ichiro soube exatamente o que iria responder em seguida. E as palavras se formaram de uma forma tão rápida e natural que lhe causou espanto.

- Eu acho que podemos tentar. – respondeu ela sem se dar muito tempo para ponderar.

Ela sabia onde estava se metendo por isso mesmo resolveu não pensar muito antes de responder. Ichiro era rude, impaciente, egocêntrico e tinha uma semelhança física impressionante com Inuyasha, era inegável àquelas alturas. Mesmo sabendo que esquecer um antigo amor com alguém exatamente parecido era errado e completamente irresponsável, Kagome não ligou. Simplesmente olhou para trás e viu sua vida girar em torno do passado. Viu-se observando seu avô lacrar o poço com pedaços de papel inúteis que ele considerava sagrados. E ele só queria ajudá-la, assim como todos a sua volta. Mas ninguém podia. Viu-se falando com a Árvore Sagrada sobre seu dia-a-dia, falando com uma árvore, imagine! Como se alguém que passou cinquenta anos de sua vida lacrado nela pudesse ouví-la de onde quer que estivesse. Viu-se indo ao poço toda semana durante o ano que sucedeu sua última visita à Era Feudal. Viu as milhares de lágrimas que chorou, trancada em seu quarto, sua mãe batendo na porta desesperadamente com uma bandeja de comida que prometia cortar sua falta de apetite; o esforço que aplicou nos estudos; o refúgio que tentou buscar nos amigos. Nada adiantara. Ela via os caminhos que eles percorreram naquela Era porque infelizmente Inuyasha não existia só na Época Feudal. Ela havia estado ali, circulara com ela pela sua casa, por aquelas ruas e naquele mesmo colégio. Um dia antes de ir para a Universidade as lembranças dele ainda estavam vívidas em sua mente. Especialmente as últimas horas que passaram juntos. O primeiro e último beijo que dera nos lábios frios dele, o corpo pesado que tantas vezes a protegera tombando sem vida nos seus braços. Olhos fechados. Jamais iriam se abrir de novo.

E então Ichiro apareceu. E despertou sensações que Kagome não sentia há muito tempo. Não sentia há três anos, mas parecia que ela havia passado duas décadas vivendo de forma automática. Ichiro a trouxe de volta para a emoção de sentir o coração batendo forte ao ouvir uma simples voz. Trouxe de volta a sensação de sentir-se vulnerável; ao ponto de qualquer gesto ou palavra dele influenciar em seu humor. E as horas que eles passaram ao telefone? Ela nunca havia compartilhado aquele tipo de experiência com ninguém.

As imagens do passado se apagaram na mente de Kagome e ela viu Ichiro brincando com Buyo no sofá de sua casa; logo depois ele estava numa festa, cheia de gente, balançando um engraçado drinque colorido entre os dedos; e depois eles dançaram e riram e conversaram e comeram biscoitos. Ichiro furtou os morangos dela, furtou seus olhares, carinhos e atenção. Ele tocava músicas para ela; músicas que não eram exatamente melosas, mas faziam com que Kagome se sentisse viva. Ele a levava para almoçar num restaurante italiano com luzes alaranjadas e então ele desafiava os amigos dela, ele brigava por ela. E ele subia num palco, completamente bêbado e ousava envergonhá-la na frente de todos os presentes; e ele ainda arrancava os aplausos dela no final.

Porque ele não mereceria uma chance?


Kagome havia se retirado para trocar de roupa faziam cinco minutos e Ichiro se encontrava imóvel na cadeira, as mãos se fechando em concha em torno de sua boca.

Ela havia aceitado.

Seu coração batia descompassado, ele sentia como se estivesse com uma leve taquicardia e um sorriso brotara em seus lábios assim que Kagome se perdera de vista em seu quarto. Ele não deixaria que ela notasse seu lado vulnerável por mais empolgado que estivesse.

Ichiro levantou-se num pulo e começou a recolher toda a louça com o objetivo de ocupar a sua mente. Limpou as peças e colocou tudo no lava-louças. E depois passou a andar de um lado para o outro, fazendo voltas no sofá da sala, as mãos massageando a nuca freneticamente. Não era muito de acreditar em destino, mas tinha que admitir que o fato de Zhang não estar por perto facilitava muito as coisas. Por mais que Kagome fosse grandinha o suficiente para tomar suas próprias decisões, ele tinha certeza de que a irmã, como amiga dela, iria ser contra e iria tentar protegê-la. E não só por causa do rolo com o francesinho idiota.

Também porque Ichiro era um tremendo canalha de acordo com a opinião pública.

Ele sentou no sofá de vez e digitou uma mensagem para Joe. Provavelmente estava soando como um moleque de treze anos apaixonado, mas não ligava. Ele poderia ser zoado eternamente pelos amigos, ainda assim não ligaria por que Kagome iria sair com ele.

Iria sair de verdade com ele.

- Vamos? – ele ouviu a voz feminina suave e não pode evitar o giro abrupto de sua cabeça em direção à ela.

Kagome estava especialmente bonita naquele dia e nem que ele observasse-a para sempre saberia dizer o porquê. Alguma coisa nas voltinhas sutis que os cabelos negros e lisos dela tinham nas pontas; talvez as pernas perfeitamente envoltas numa meia de lã ou a blusinha de mangas listrada dela combinada ao casaco caramelo; ou talvez a pele especialmente branquinha em contraste com as bochechas rosadinhas. Ou talvez fosse tudo isso.

Ele se levantou calmamente, apesar de sentir-se nervoso e segurou a mão dela por alguns instantes, observando-a.

Kagome observou as orbes púrpura cintilarem com a luz do sol. Ele tinha as sobrancelhas naturalmente tensas e o olhar que lhe lançou era diferente de qualquer outro que ela havia visto no rosto dele até o momento. Era uma expressão firme, decidida, ele não estava sorrindo, mas Kagome sabia de alguma forma que estava feliz. De qualquer jeito a ausência de sorriso lhe transmitia segurança. Como se Ichiro quisesse mostrar que estava dando a devida seriedade àquela situação.

Ela deixou que ele segurasse a mão dela com firmeza, conduzindo-a. E eles saíram do apartamento.


- Não é como se eu não tivesse gostado, Ichiro! – argumentou Kagome mais uma vez – Eu só fiquei chocada quando você falou que eu arruinei a sua vida, oras... Essa palavra é forte.

Eles haviam discutido sobre a noite anterior durante praticamente todo o caminho de ida para a casa de Ichiro. Kagome havia cometido o deslize de comentar que se sentira intimidada pelas palavras dele e seguiu-se uma série de argumentos de ambos os lados.

- Eu estava tentando ser legal e... – dizia Ichiro enquanto eles saiam do estacionamento rumo ao elevador – Olha, eu estava dando o meu máximo ali, ok?

Kagome não esforçou-se para disfarçar a gargalhada.

- Então aquele é o seu nível máximo de romance? – provocou ela – E você ainda acha que tem chances comigo?

Ichiro pressionou o botão do elevador que dava acesso à portaria e virou-se para Kagome, uma sobrancelha estava erguida e ele parecia mais cretino do que nunca.

- Eu tenho muitas chances com você, garota. – respondeu ele sem falsa modéstia.

Kagome nada respondeu e revirou os olhos com um sorriso no canto da boca. Eles esperaram a subida em silêncio e assim que as portas do elevador se abriram Ichiro puxou Kagome para fora e seguiu com ela rumo à portaria. Ela não fazia idéia do porque eles estavam parados ali ao invés de irem direto para o apartamento, mas não questionou. Naquele momento ela só se concentrava na mão forte dele apertando a sua com uma certa possessividade.

- Hey, Nakamura! – falou ele chamando o porteiro.

Um senhor de aproximadamente cinquenta anos sorriu para Ichiro e balançou a cabeça cumprimentando-o discretamente. Ele olhou para Kagome e sorriu para ela também.

- Olha, estou sem as chaves de casa então... – Ichiro deu uns tapinhas nas costas do senhor em sinal de camaradagem – vou ter de tomar certas medidas drásticas, mas não se preocupe. Não incomodarei tanto os vizinhos.

Foi aí que Kagome lembrou que eles não tinham como entrar no apartamento dos Masagami. Ichiro havia perdido ou esquecido as chaves em algum lugar, afinal tinha sido esse o motivo pelo qual ele dormira no sofá dela. Ela observou o porteiro espantar-se de leve e olhar de Ichiro para ela tentando entender a situação.

- Sr. Masagami... – falou ele como quem adverte uma criança – cuidado com o que o senhor vai aprontar dessa vez.

- Relaxa, Nakamura! Não vê que tenho companhia. – e ele olhou para Kagome piscando para ela rapidamente – Não farei nada que a faça sair correndo com medo de mim então... Você tem motivos para ficar tranquilo!

O senhor riu e fez um leve aceno com uma das mãos como quem liberava os dois. Kagome admirou Ichiro por ser tão simpático com ele e foi aí que sentiu um impulso que não conseguiu controlar. Ela pousou a cabeça no ombro dele de leve enquanto andavam rumo ao elevador.

- Ainda estou curiosa para saber o que você vai fazer para abrir o apartamento. – falou Kagome enquanto subiam.

Ichiro tentou disfarçar a surpresa que o gesto dela lhe provocou e a olhou de esguelha com um sorriso brincando em seus lábios.

- É meio óbvio, não?

- Er... Não. – declarou Kagome cruzando os braços.

A dúvida permaneceu no ar até o final da subida. Quando chegaram ao andar certo ele não foi direto para a porta da frente. Ela o seguiu dois metros adiante para a porta que dava acesso à área de serviço e surpreendeu-se quando ele parou abruptamente. Kagome se chocou contra as costas dele e Ichiro agarrou a mão dela com força sem se virar.

- Se afaste. – pediu ele, mas o tom de voz indicava uma ordem – Não quero que você se machuque.

- O quê?

Kagome viu ele avançar para ficar de frente para a porta e depois dar dois passos para trás, como quem toma impulso. Antes mesmo dela pensar em dizer ou fazer qualquer coisa Ichiro piscou um olho para ela e avançou para a porta de madeira.

O estrondo não foi tão grande, mas Kagome teve certeza que os vizinhos certamente estavam se perguntando o que diabos estava acontecendo naquele andar. Afinal, não é tão comum assim arrombar a porta do seu próprio apartamento quando não se tem as chaves, não é?

- Você arrombou a porta! – gritou Kagome impressionada demais para regular seu tom de voz – Você arrombou a porta, por Deus, você é louco?

- Sshhhhh! – ele fez um sinal de silêncio enquanto pegava Kagome pela mão e a conduzia em meio ao que restara da porta – Cale a boca, vai incomodar os vizinhos.

Kagome mal podia acreditar na cara de pau dele e não conseguiu evitar algumas risadas irônicas.

- Ah, claro! – disse ela enquanto ria – Você acaba de derrubar uma porta de mais de dois metros e sou EU que vou acordar os vizinhos com a minha voz!

- Sua risada também está alta – falou ele, virando a cabeça para mostrar a ela seu sorriso mais zombeteiro – pare de fazer barulho, garota.

Eles riram conforme avançavam o apartamento. Kagome nunca havia entrado naquela parte da casa de Zhang, mas pelo visto era tudo milimetricamente arrumado e limpo como todo o resto. Por mais que houvesse uma porta de madeira em pedaços logo atrás dela.

Ichiro chegou à cozinha em poucos passos puxando Kagome pela mão. Ele a soltou e foi até a geladeira pegando uma lata de refrigerante de limão de lá. Entornou todo o líquido em dez segundos.

Kagome aplaudiu ironicamente.

- Sua nutricionista deve ser uma pessoa muito feliz...

Ichiro amassou a lata sem cerimônia e atirou-a no lixo mais próximo.

- Eu não tenho nutricionista. – respondeu ele se aproximando de Kagome com um sorriso no rosto.

- Não deu nem a hora do almoço e você já está matando a sede com refrigerante... – repetiu Kagome, disposta a provocá-lo – Assim você me decepciona.

Ichiro permaneceu em silêncio sem ver necessidade de uma resposta ante ao que ele iria fazer em seguida. Se aproximou de Kagome e, quando ficou próximo o suficiente dela tirou a camiseta que vestia jogando-a num ombro despretenciosamente. Ele observou Kagome corar um pouco e ela desviou o olhar engolindo em seco.

- Eu realmente preciso de um bom banho. – justificou ele passando um braço pelos ombros de Kagome – Vamos, eu me arrumo em dez minutos.

Aconteceu tudo tão rápido que ela mal teve tempo de raciocinar. Num segundo estava completamente alterada ao ver o físico ideal de Ichiro; depois ele estava tão perigosamente perto dela que quase fez uma besteira; e no segundo seguinte ele a havia conduzido para um quarto espaçoso em tons de cinza, preto e verde que ela supôs que fosse o dele.

Estava no quarto de Ichiro Masagami.

Ele pegou alguma peça de roupa no closet e entrou no banheiro da suíte apressadamente. E Kagome ficou sozinha.

Ela se sentou na cama e dedicou-se a observar cada detalhe do quarto de Ichiro. Ali deveria ser onde ele passava a maior parte de seu tempo. A cama em que ela estava sentada era confortável e enorme com um criado-mudo de cada lado. Havia um closet com um espelho grande, pelo que ela pode perceber. Seus olhos se fixaram na escrivaninha que estava à frente da cama, um metro e meio afastada e Kagome se aproximou.

Estava bastante bagunçada, com várias folhas de fichário soltas todas escritas em grafite. Os livros se encontravam abertos. Ele parecia estudar de vez em quando por mais que achasse o primeiro semestre entediante como ela já cansara de ouvir. Apesar disso, não era uma pessoa organizada. Kagome achava que não se podia estabelecer uma ordem entre as folhas anexadas ao fichário. Havia também um computador com uma das maiores telas que Kagome já vira. Ela se perguntou se Ichiro também veria filmes ali já que não havia sinal de televisão no quarto.

Duas das paredes eram brancas, uma tinha um papel de parede predominantemente preto com detalhes em branco e a última era de um verde citrus, não tão incandescente quanto o verde limão. Estavam todas decoradas com fotografias dele em diferentes fases da vida. Havia uma foto grande de uma moça bonita que só poderia ser a mãe dele. A semelhança entre os dois era evidente. Ela parecia ter sido uma jovem feliz e, sem dúvida, muito bonita. Seus olhos, boca e nariz eram muito similares aos de Ichiro, apesar dela conservar uma expressão doce que o filho não conhecia. Algumas espadas de madeira e também de metal ocupavam um espaço da parede perto do closet. As fotos que ali estavam eram de Ichiro praticando diferentes modalidades de esportes. Kagome não reconheceu todos. Em uma outra parede havia um mural de madeira escura com várias fotografias. Nelas, Ichiro parecia ter mais ou menos quinze anos e estava sempre ao lado de estrangeiros. Então ele havia ido para o exterior em algum momento da vida. Não era de se espantar, ele parecia ser o tipo de cara viajado.

E então ela ouviu a porta do banheiro se abrir com estrondo o que provocou nela um sobressalto. Virou-se só pra dar de cara com Ichiro vestindo nada além de uma calça jeans escura.

Ela era uma vitoriosa por ter resistido durante tanto tempo.

- O que você está olhando aí? – ele tentava enxugar os cabelos com a toalha e olhava para ela intrigado.

Kagome não precisou responder porque ele se dirigiu na direção dela apesar de manter o olhar fixo no mural de fotos que ela observara segundos antes. Ichiro tocou numa foto em particular ele estava com um uniforme de futebol americano abraçado com três amigos que Kagome reconheceu imediatamente.

- Espera, esses são...!

- São. – interrompeu Ichiro tornando a olhar pra ela – Aaron e Joe.

Kagome olhou para a foto, um vislumbre de entendimento a atingindo.

- Eu lembro desse aqui tocando na banda, – e ela apontou para o quarto garoto na foto – mas acho que não nos falamos.

- Esse é o Ryan. – respondeu Ichiro – Ele não é muito de falar mesmo.

- Você parece estar bem feliz aí.

E de fato, a expressão de pura alegria dele na fotografia era de se espantar. As sobrancelhas não formavam o típico vinco de tensão que ele sustentava praticamente o tempo inteiro. Os quatro amigos pareciam estar rindo de alguma piada muito engraçada porque não olhavam necessariamente para a câmera que tirara a foto.

- Foi a melhor época da minha vida – a voz de Ichiro soou distante e Kagome se deu conta de que ele havia ido até o closet para vestir uma camisa enquanto passava perfume – eu tinha uns quatorze anos quando fui, mas fiquei até os quinze.

- Hm, eu queria ter feito intercâmbio nessa idade também – falou Kagome sua voz parecendo particularmente nostálgica – era meu sonho.

Ichiro se aproximou dela de novo enquanto penteava os cabelos com as mãos.

- E porque não fez?

Kagome pensou um ou dois segundos antes de responder, pequenos flashes dela mesma armada com arco e flecha atirando em youkais e monstros inimagináveis que passavam pela sua mente.

- Na verdade eu fiz. – falou ela virando-se para ele enquanto sorria – Mas não foi pra nenhum lugar que você conheça e... Eu não aproveitei muito de qualquer forma.

Ichiro ergueu uma sobrancelha intrigado, mas quando ia perguntar alguma coisa, Kagome o interrompeu, tentando mudar de assunto.

- Então quer dizer que vocês começaram a banda nessa época?

- Bom, eles sim, eu não. – ele olhava para o mural de fotos com as mãos enfiadas nos bolsos – Eles tinham um outro vocalista. Eu voltei pra Sapporo na mesma época em que a banda começou a se formar. Eu ia ficar com os vocais, mas meu pai não quis me deixar morar na California de vez.

- Entendo... – respondeu Kagome – ele devia estar sentindo sua falta.

Ichiro olhou para ela descrente.

- Heh, duvido muito. – ele parou por alguns segundos até recomeçar a falar – De qualquer forma, eles começaram a ficar conhecidos aqui no Japão e vieram morar em Tókio um ano atrás. Foi a parte boa em ter saído de Sapporo: poder reencontrar eles. São meus melhores amigos.

Kagome achou bonitinha a forma como ele se referia às suas antigas lembranças e não pode deixar de sorrir. Eles se olharam e não precisaram dizer mais nada para entender que iriam embora naquele momento. Ichiro apenas passou o braço pelos ombros de Kagome e começou a discar um número no celular.

- Sim. Preciso de um chaveiro aqui o quanto antes... – disse ele enquanto olhava para Kagome que segurava o riso – É, é grave sim, eu arrombei a porta. Ok. Ótimo.

Ichiro desligou o celular decidido a ignorar qualquer pessoa que ligasse para ele e olhou para a garota enlaçada em seu braço pensando em alguma coisa inteligente e legal para dizer. Não precisou se preocupar muito com isso porque logo Kagome se saiu com uma nova frase que, como sempre, o surpreendeu.

- Engraçado notar como temos vidas diferentes. – disse ela, em tom tranquilo.

- O que você quer dizer com isso? – perguntou Ichiro mirando sua imagem no espelho do elevador cujas portas se abriram.

Eles entraram e Kagome deu um sorriso misterioso.

- É só que... – começou a enrolar as pontas dos cabelos instintivamente – Você já deve ter ouvido isso antes, mas... Tudo pra você é muito fácil.

- Feh! Claro que não! – negou ele sem nem pensar – Só porque tenho um pouco mais de dinheiro na conta do que a maioria das pessoas.

Kagome aproveitou cada momento daquele instante mínimo no qual Ichiro estava sendo modesto. Oras, um pouco mais uma ova. Obviamente ela nem mencionou seus pensamentos e continuou argumentando enquanto eles passavam andavam rumo ao carro no estacionamento.

- Bom, acontece que eu não falo só disso. – e corou imediatamente porque estava prestes a assumir algo que negara para si mesma durante um bom tempo – Você é sedutor, consegue tudo o que quer das pessoas, independente de dinheiro.

Ichiro gargalhou alto hesitando antes de ligar o carro só para olhar a expressão constrangida de Kagome.

- Então sou sedutor, hem? Heh!

- Ora, vamos – cruzou os braços e revirou os olhos, fingindo não achar graça - cale a boca e ligue esse carro!

- Nossa, delicada. – ironizou Ichiro com um sorriso gigantesco no rosto, provocando-a – É sempre engraçado quando você é grossa, Kagome, mas deixando isso de lado... Me conte mais sobre meu poder de sedução.

Como que atendendo à uma prece secreta de Kagome seu celular tocou cortando o diálogo dos dois. Kagome revirou a pequena bolsa de couro marrom e achou rapidamente o aparelho. Ainda pode ouvir um resmungo desapontado de Ichiro certamente porque a conversa fora interrompida. Viu o nome que piscava no visor do celular: Zhang.

- E aí, Zhang! Como vai a praia?

- CADÊ. AQUELE. FILHO. DA MÃE? – gritou Zhang completamente alterada do outro lado da linha.

- Q-quê? Zhang? – respondeu Kagome, incrédula.

- Ele está com você, não é? – e falava tão rapidamente que ela mal conseguia entender as palavras - Desculpa, amiga, mas minha raiva é dele, não de você. Passe pra esse cretino AGORA antes que eu tenha um ataque de nervos!

A mão de Ichiro foi mais rápida e Kagome não formulou uma resposta antes de sentir seu celular ser puxado.

- Qual é o seu problema? – perguntou Ichiro, tão calmamente que Kagome sentiu pena quando ele ouvisse o quanto a irmã estava estressada. Tentou virar seu olhar para a estrada, mas seus ouvidos ficaram atentos à conversa.

- MEU problema? MEU problema? – Ichiro afastou o celular do ouvido e olhou para Kagome que certamente ouviria tudo o que Zhang tinha a dizer - Seu idiota! Eu odeio você! Desde quando você bebe até cair numa porra de uma festa e ainda sai sem as chaves de casa E sem o carro? Como raios você planejava voltar? COMO?

- Cale a boca e fique calma, garota, eu n-...

- Calar a boca? CALAR A BOCA? Ichiro, você poderia ter sido assaltado, esfaqueado, roubado, sequestrado, MORTO se não fosse pela ajuda da Kagome. IDIOTA! É isso que você é, um idiota, estúpido, imbecil, canalha, cretino cujo MAIOR talento é me preocupar e preocupar todos que, certamente amaldiçoados por sei lá quem, gostam de você!

Ichiro ficou bastante quieto, tentando não se estressar. Ele viu que Kagome estava com os olhos arregalados, bastante impressionada com o discurso de Zhang e respirou fundo antes de falar.

- Como você soube disso tudo?

- Primeiro de tudo: LIGUE A PORRA DO SEU CELULAR! E bom, já que você me faz o FAVOR de omitir qualquer detalhe maior da sua vida, eu tive que ligar pra um dos seus amigos da Toudai que me disseram que você havia ido pra uma festa ontem e então eu liguei para o Aaron que certamente saberia onde você estava e ele...

Ichiro respirou fundo e tentou ser o mais educado possível antes de interromper a irmã.

- Estou bem, Zhang, pare de chorar. Você sabe que eu não sou de ficar realmente bêbado, mas... Bom, isso não vai acontecer de novo.

- Eu tô com tanta raiva de você... Tanta. Raiva.

- Eu também adoro você, fedelha. – começou ele, tentando amolecer o coração de Zhang – Agora será que você pode me dar licença? Estou no meio de um encontro com a Kagome.

Kagome virou imediatamente a cabeça para contemplar incrédula a expressão vitoriosa de Ichiro. Ela não acreditava que Zhang fosse entender suas atitudes com a mesma facilidade que certamente Samantha entenderia. Tossiu afetadamente enquanto beliscava o braço direito do garoto.

- O que você pensa que está fazendo? – sussurrou ela.

Mas quando se deu conta, Ichiro já estava desligando o celular com uma desculpa qualquer certamente tendo interrompido Zhang no meio de um discurso.

- Será que dá pra vocês relaxarem? – disse ele jogando o celular de Kagome de volta – Tsc, tsc.

- Oras, você sabe que a Zhang tem razão no que disse... – retrucou Kagome - Eu só... nunca tinha visto ela tão estressada!

- Ah, é mesmo, você que costuma ser a estressadinha do grupo, não é?

- Blá, blá, blá. – imitou Kagome satirizando as provocações de Ichiro – Você fala, fala e fala, mas ainda nem decidiu aonde nós vamos... Que tipo de encontro é esse, Ichigo?

- Oras... Eu sou um cavalheiro. – disse ele, sendo interrompido por tossidinhas irônicas de Kagome – Estou só esperando sugestões suas, senhorita.

Kagome levou uma mão à cabeça, suspirando alto, tentando pensar em algo pra fazer. Na verdade, pra ela pouco importava. Eles poderiam ir para qualquer lugar, na verdade, era o de menos. Ela não estava interessada em um almoço farto – até porque, havia acabado de apreciar os dotes culinários do rapaz durante o café-da-manhã – muito menos numa balada de verdade, visto que não era grande apreciadora de matinês. Além do mais, não queria um lugar barulhento. Queria poder interagir com Ichiro, conversar de verdade. E era capaz de dizer com uma certeza quase absoluta que ele queria o mesmo.

- Eu posso sugerir alguma coisa, mas – disse Kagome, ligando o som do carro enquanto isso – você realmente não pensou em nada?

Ichiro geralmente não gostava que tocassem nas suas coisas sem que ele desse permissão e isso incluía ligar o som de seu carro. Foi um gesto que ele considerou bastante íntimo, mas pela primeira vez não se sentia irritado. Já havia saído com tantas garotas diferentes e lembrou, com desconforto, das vezes em que quase abandonou um encontro por causa de atitudes como a que Kagome acabara de ter. Era o tipo de coisa que só alguém que ele conhecia a muito tempo podia fazer sem irritá-lo.

Talvez ele e Kagome já se conhecessem bem demais.

Estava tocando Nirvana. E, tendo viajado em seus pensamentos, Ichiro se esqueceu completamente da pergunta da garota e mudou de assunto, sem perceber.

- Melhor banda dos anos 90, não é? – comentou ele, aumentando o som – Você conhece? Ora, claro que conhece! Quem não conhece Kurt Cobain?

Foi só depois que as palavras saíram atropeladas de sua boca que Ichiro começou a raciocinar a respeito do que tinha dito. Ele esperou aflito os dois segundos que precederam a resposta de Kagome. E se ela nunca tivesse escutado Nirvana? Quer dizer, olha só pra ela, toda meiga e inocente com aqueles lábios entreabertos e o arzinho de dúvida. O brinquinho de pérola brilhando numa orelha, dando um ar angelical à garota. Ela realmente fazia o tipo que ouvia grunge? Mas que droga! Ele seria um idiota arrogante se Kagome dissesse que...

- "Come as you are", não é? – disse ela, tranquilamente – Houve um tempo em que minha infância se resumiu à Nirvana, acredite!

"Ela conhece o Nirvana, cara, se acalme. Ufa. Caramba." Pensou Ichiro. E ele deve ter deixado sua tensão transparecer em algum momento, ou demorado demais pra responder de forma que Kagome tentou chamá-lo de volta à realidade.

- Er... Ichiro? – a garota riu e continuou – Você ainda tá aí?

Ele então engoliu em seco e tentou formular uma frase o mais rápido que conseguiu.

- Ahn, é. – depois de falar as primeiras palavras, sentiu-se relaxar e adquiriu o tom usualmente sagaz – Eu sou capaz de tocar essa música inteira de olhos fechados.

- Hahaha, é mesmo? – debochou Kagome, claramente disposta a brincar – Eu também.

Ichiro aproveitou que estavam parados em um sinal qualquer e virou a cabeça abruptamente para encarar a garota, todos os seus neurônios trabalhando ao mesmo tempo para descobrir aonde ela queria chegar e se ela estava sendo irônica ou não. Era meio constrangedor assumir isso, - até para si mesmo - mas a verdade é que na presença de Kagome, Ichiro se tornava ligeiramente lerdo.

- Heh, sei... – arriscou ele, supondo que Kagome estava se utilizando de ironias.

- O quê? Você tá duvidando? – continuou ela divertindo-se com a expressão confusa de Ichiro – Eu nunca acerto menos que 95% no modo expert de Guittar Hero.

Uma luz de entendimento clareou a mente do garoto e ele sorriu em resposta à brincadeira de Kagome. De fato, não era algo a que ele estivesse acostumado. Sempre um passo à frente, adivinhando piadas alheias e prevendo movimentos e palavras das pessoas, em especial, as mulheres. Não podia negar, entretanto, que adorava a sensação de não saber exatamente onde pisava e de ficar, realmente, sem saber o que dizer ou como agir.

Apesar disso ele tinha que manter sua moral elevada, não é? Mais uma aposta, talvez?

- Ok, Kagome – disse ele, acelerando mais o carro e dobrando na primeira rua à direita – eu estou oficialmente duvidando de você.

Ela notou a brusca mudança de caminho, percebendo que Ichiro não estava só dirigindo para qualquer lugar: ele tinha um destino em mente.

- Posso saber aonde estamos indo? – perguntou ela, observando o caminho pela janela.

- Provar seu talento, oras! – retrucou ele, fazendo uma ultrapassagem arriscada – Vamos apostar de novo. Você me dá uma chance pra que possamos ficar quites de uma vez, que tal?

Ela enrolou uma mecha de cabelo com a ponta dos dedos, distraída, e em parte empolgada com a ideia de jogar video game em seu primeiro encontro romântico oficial. O que mais ela poderia esperar? Nunca fora uma garota convencional, afinal de contas!

- Agora você me pegou! – assumiu Kagome, enquanto tentava descobrir para qual game center ele estaria indo – Ok, eu aceito o desafio. E... Se eu ganhar de novo...

- Você não vai ganhar – interrompeu ele – porque nós dois sabemos que você está blefando bonito.

- Não contaria com isso... – provovou ela, sem perder a pose.

Ichiro olhou de esguelha para a garota e fez a última curva antes de estacionar o carro em frente a um dos maiores conglomerados de arcades da cidade.

- 95% de acertos no modo expert? – falou ele, já se colocando para fora do carro – Você? Não vejo razões para não duvidar...

Kagome cruzou os braços em protesto, gesto que não demorou muito porque logo em seguida ela havia pegado Ichiro pela mão e os dois estavam se embrenhando em meio ao aglomerado de pessoas jogando os mais diferentes tipos de jogos.

Ichiro sentiu uma euforia estranha: os cabelos de Kagome formavam uma cortina de fios que ele tentava seguir por mais que se sentisse completamente inebriado pelo cheiro de shampoo que emanava deles. A mão dela segurava firmemente na sua, firme até demais para uma garota tão pequena e aparentemente frágil. Ele prendeu um pouco mais as mãos dos dois e Kagome virou-se para ele, sem deixar de andar, mas sorrindo como nunca. Até que ela parou abruptamente e Ichiro esbarrou de leve nela. Não que ele tenha achado ruim ficar tão próximo assim da garota.

- Achei! – exclamou Kagome, de repente – Vem, não tem ninguém jogando ali, que sorte!

Ele murmurou alguma coisa sem sentido, ainda atordoado com a aproximação repentina entre os dois. Kagome, no entanto, nem ouviu e inseriu logo uma moeda na máquina para iniciar a aposta. Ichiro repetiu o gesto dela e agarrou a outra guitarra. Kagome selecionou as configurações da partida em silêncio, mas com um sorriso zombeteiro no rosto. Quando menos esperou a contagem regressiva já estava na tela da máquina.

- E então? Pronto pra ser derrotado por mim? – falou Kagome com um excesso de confiança que não lhe era peculiar.

- Heh, vai sonhando.

Ao contrário do que Ichiro realmente achava, Kagome estava longe de estar blefando. Errando algumas notas no começo, sim, mas afinal eles estavam jogando no nível máximo. Ichiro nem olhava muito para tela de tanto que já havia praticado aquela mesma música. Ela, ao contrário, concentrava-se, um vinco formando-se entre as sobrancelhas e o lábio inferior sendo mordido sem dó.

- Parece que alguém aqui já jogou muito video game para uma garota, feh. – disse ele, enquanto observava Kagome pela visão periférica – Com quem você aprendeu isso?

- Eu tenho um irmão menor, esqueceu? – respondeu ela, sem tirar os olhos da tela - E você está sendo machista de novo!

- Aah, claro! Mil desculpas, mas... – disse ele – mesmo assim… 95%? Ainda duvido!

Ela se limitou a rir discretamente. Obviamente precisava de mais concentração do que Ichiro para se dedicar as suas habilidades "musicais", mas não era como se ela não fosse conseguir. De fato, quando a música terminou, Ichiro comprovou, com um sorriso que havia perdido mais uma aposta para a garota.

E mais uma vez ele não dava a mínima pra isso.

- Quantas apostas você ainda vai ter que perder – disse Kagome levando uma mão à cintura, orgulhosa – pra perceber que eu não sou nada disso que você pensa?

Ele passou a mão pelos cabelos, tentando não fazer transparecer que estava completamente sem graça. Não sabia se aquilo ia funcionar, mas resolveu retrucar em tom de defesa.

- E-eu não... – e então parou para recuperar a firmeza na voz amaldiçoando-se por ter gaguejado – Eu não penso nada sobre você.

Kagome não disse nada, apenas olhou para ele, sem conseguir acreditar na afirmação. Ela deu um passo adiante o que Ichiro interpretou como um sinal para que eles saíssem dali.

- Kagome? – chamou ele, irritado, enquanto a seguia – Ei, sério, de onde você tirou essa história?

E agora ele tinha levantado uma importante questão, de onde ela havia tirado isso para afirmar com tanta certeza? Repreendeu-se mentalmente porque sabia que aquilo tinha tudo a ver com Inuyasha e com todas as vezes em que ela teve se ser salva por ele antes de conseguir aprender a se defender sozinha. Era algo que Kikyou nunca tinha deixado ela esquecer, apesar de que, ao final de tudo admitira o quão forte Kagome era. Talvez por isso ela achasse que Ichiro a visse da mesma forma: como um souvenir de vidro facilmente quebrável.

- Você não pensa que eu sou frágil ou... – e ela parou por alguns segundos tentando selecionar as palavras certas – Boba e infantil?

- Infantil? Pensei que eu fosse o imaturo aqui.

- Imaturo? – questionou ela, rindo – Porque você seria imaturo?

- Oras, sou eu que quero quebrar a cara do seu amigo irritantemente francês enquanto você resolve tudo conversando e dando abraços, meh. – respondeu ele, sem tentar esconder os ciúmes – Que atitude parece infantil pra você?

Kagome, completamente alheia aos ciúmes de Ichiro, continuou a rir encostando levemente a cabeça no ombro dele enquanto andavam.

- Você tem razão! – falou ela – Você tem a mentalidade de um garotinho de dez anos.

- Feh! Saia com um dos amiguinhos do seu irmão, então! – disse ele, cruzando os braços.

Eles saíram do game center no exato instante em que Ichiro terminou de dizer aquela frase e foi ali mesmo que Kagome pousou uma mão em um de seus braços e sorriu para ele.

- Não, obrigada. Eu quero sair com você.

Os braços de Ichiro se descruzaram automaticamente, mas ele não teve coragem de encarar o olhar de Kagome por mais de dois segundos. Ela estava admitindo que queria estar ali com ele, esse normalmente era o sinal de que ele precisava para tomar uma atitude e beijá-la ali mesmo. Então porque não conseguia fazê-lo de uma vez? Porque com Kagome tudo o que aprendera sobre mulheres não era válido? Talvez até mesmo um garotinho de treze anos tivesse mais atitude do que ele naquele momento. Ela também começara a olhar pra baixo e foi naquele momento que Ichiro sentiu uma mão em seu ombro.

- Ichiro-kun? – falou uma voz conhecida – Ah, é você mesmo!

E as únicas palavras que vieram na mente dele quando reconheceu quem era a dona da voz foram: "maldição."

- A-Ayumi! – disse ele contendo-se para não estender a frase com um "o que diabos você está fazendo aqui?"

Rapidamente ele tentou fazer os cálculos. Quais eram as chances de uma colega da turma em que ele havia estudado em Sapporo esbarrar com ele em plena Tókio?

- Poxa, que coincidência – comentou Ayumi, simpática - quais são as chances de eu conseguir esbarrar com a única pessoa que eu conheço nessa cidade?

Ichiro não poderia concordar mais e Kagome logo atrás dele tentava adivinhar quem era aquela garota que o tratava de forma tão... Íntima. Ela tinha que ter previsto alguma intervenção externa no encontro deles, mas esperava por algo bem menos inconveniente como um telefonema de Éric exigindo explicações ou algo do gênero. Uma parte de si estava feliz porque havia subestimado a maturidade de Éric e o fato dele não ter interferido nem no dia anterior nem no presente momento mostrava que a amizade deles tinha futuro. Entretanto Kagome tinha que admitir que era bem mais fácil lidar com ele do que com aquela menina que ela mal conhecia. E porque ela tinha que ser atraente? Kagome se sentiu em trapos ao encarar os lindos cabelos loiros e o vestido de mangas longas preto que ela usava e lhe dava uma aparência ainda mais esguia.

- Pois é! – respondeu Ichiro, despertando Kagome de seus pensamentos que se encolheu atrás dele – Er... Bem.

Ayumi ia abrir a boca para dizer alguma coisa quando Ichiro afastou-se um pouco para que ela notasse Kagome logo atrás dele. A garota pareceu se tocar e acenou para Kagome discretamente que corou na mesma hora e murmurrou um "oi" quase inaudível.

- Bem, essa é Kagome, minha... Er – disse ele segurando a mão de Kagome involuntariamente.

- Rá, nem precisa me falar, Ichiro-kun! – disse ela piscando um olho para a outra.

E Kagome não sabia porque, mas tinha a estranha sensação de que aquela piscadinha não significava exatamente namorada. Oras, mas o que ela estava pensando? Eles nem eram namorados, imagine, estavam apenas no primeiro encontro! Entretanto, Ayumi parecia saber perfeitamente quem ela era. Será que Ichiro havia mencionado alguma coisa sobre o encontro deles?

- Não é nada disso que você está pensando, Ayumi. – retrucou Ichiro tentando controlar a sua raiva – Agora...

- Oh, não? – interrompeu Ayumi – Porque? Dessa vez você tá pagando? Já riscou todas as garotas da Toudai de sua list...

Kagome empertigou-se ao ouvir o que Ayumi dissera e já tinha cruzado os braços em protesto quando Ichiro pegou a garota pelo braço sem a menor delicadeza e saiu arrastando-a enquanto fazia um sinal para que Kagome esperasse.

- Ayumi, vem aqui agora. – falou ele, ríspido.

Ichiro não parou para olhar com que cara Kagome estava, simplesmente se sentia envergonhado demais para olhar para ela. Engraçado como uma coisa que não fazia a menor diferença pra ele no passado era, agora, motivo de vergonha. Ele esperava sinceramente que Ayumi não tivesse conseguido estragar todo o clima do encontro com aquele comentário infeliz. Foi quando se lembrou que estava puxando a garota pelo braço e parou abruptamente. Ele olhou para o lado procurando Kagome que estava a alguns metros de distância. E então suas atenções se voltaram para Ayumi novamente.

- Você está completamente louca? – falou ele, ríspido.

Ayumi piscou as longas pestanas por um segundo e parecia verdadeiramente confusa. Ela ergueu as duas mãos em sinal de paz e riu nervosamente.

- Ahn... Desculpe? Desculpe por te tratar da mesma forma que eu sempre te trato quando nos vemos? – disse ela, calmamente, mas evidentemente magoada – Ou pelos menos da última vez que nos vimos, não é?

- Ah, por favor – debochou ele – não jogue minha indiferença na minha cara como se fosse uma falha de caráter.

- Indiferença? É assim que você chama? – e agora Ayumi não escondia mais sua mágoa – Ichiro você foi embora e não se despediu de ninguém, nem mesmo de m...

- Ayumi, acorde! – exaltou-se ele, levando as mãos às têmporas – É assim que eu sou! Nem parece que você me conhece desde os cinco anos de idade.

- Exatamente. – disse ela, sacudindo a cabeleira loira, triunfante – E justamente por nos conhecermos a tanto tempo que você me devia algum tipo de satisfação.

- Olha, eu não devo. Realmente não devo. – respondeu Ichiro, irritado – Mas parece que vou ter que começar a te dar satisfações pra não passar pela vergonha de ouvir seus comentários fora de hora.

- O quê? – retrucou a garota, cruzando os braços – Qual é o seu problema, Masagami ela é só uma garota!

- Não, ela n...

- Eu sempre tratei todas as garotas que tinham algum envolvimento com você dessa forma. – explicou Ayumi as sobrancelhas formando um vinco de tensão – Você nunca se importou.

Ichiro respirou fundo enquanto passava a mão pelos cabelos. Kagome o aguardava num canto do game center, afastada e ele sorriu para ela fazendo um sinal que pedia para que ela esperasse. Ele ficou olhando para ela por alguns segundos até que Ayumi segurou seu rosto firmemente com uma mão e o puxou para si, obrigando-o a desviar o olhar de Kagome.

- Quem. É. Ela? – questionou Ayumi mais chateada do que nunca.

Ichiro segurou o pulso dela tirando a mão que ela usava para segurar seu queixo. Por maior que tivesse sido a intimidade entre eles como ela ousava...?

- Qual é o seu problema? E o que diabos você está fazendo aqui em Tókio? – Ichiro olhou para Kagome novamente, ela estava falando ao celular com alguém – Olhe, eu realmente tenho que ir, caso não tenha percebido ainda o que você interrompeu era importante!

Os olhos de Ayumi se estreitaram e ela ergueu uma sobrancelha enquanto seus lábios tentavam formar com dificuldade a próxima frase.

- Ela é diferente, não é? – disse ela com a voz trêmula.

E Ichiro olhou bem no fundo dos olhos estreitos e acinzentados de quem ele considerava uma colega de longa data e respondeu com toda a firmeza para não deixar dúvidas.

- Sim, ela é.

Entretanto, ao contrário do que ele esperava Ayumi não se acalmou nem um pouco. E desatou a formular uma série de perguntas que Ichiro não se sentia à vontade o suficiente para responder. Ela sempre se intrometera demais na sua vida em Sapporo, mas lá, com aquelas meninas com quem ele ficava, era um comportamento totalmente aceitável. Ele sabia e queria que nenhum daqueles curtos casos fosse realmente pra frente, mas agora com Kagome o futuro era incerto. E com a ansiedade que lhe era característica, Ayumi foi enchendo Ichiro com suas perguntas intermináveis.

- Olha, Ayumi... – interrompeu ele segurando a garota pelos ombros – Escute bem: não interessa se Kagome é minha namorada nem nada disso. O que eu quero que você saiba é que eu deixei minha vida em Sapporo para trás. Esse foi um dos motivos pelos quais fugi pra cá.

- Pra encontrar uma noiva certinha com quem você possa casar e... – interrompeu ela mais uma vez – Ah, então é só uma obrigação? Você não gosta dela realmente, gosta?

- O quê? Ayumi, não é nada disso! – Ichiro levou uma mão à testa – Olha, eu estou no meio de um encontro aqui! Só... Não faça mais esse tipo de comentário, eu não sou mais o galinha safado que você conheceu.

- Se você precisava mudar desse jeito porque não me disse? – questionou ela, encostando uma mão na de Ichiro – Nós podíamos...

- Tchau, Ayumi.

- Ichiro? – chamou ela, a voz desafinada tamanho o espanto – Ichiro, aonde você vai?

- Encontro. – respondeu ele, andando sem olhar pra trás – Você interrompeu meu encontro. Tchau.

Ela ainda chamou por ele duas vezes antes de dizer que ligaria mais tarde e Ichiro não fez nada além de levantar o braço e acenar para trás. Estava ocupado demais tentando se concentrar no que dizer quando Kagome perguntasse o que eles haviam conversado, mas quando se aproximou mais pode ver que ela ainda falava com alguém ao telefone.

- Eu posso ver com ele se... Ah! – exclamou Kagome ao notar a presença de Ichiro – vou perguntar a ele agora. Ichiro?

- Sim? – respondeu ele, imaginando o que seria.

- Meu irmão, está fazendo um trabalho pra escola, alguma coisa envolvendo cursos universitários – disse ela enquanto tapava o celular com uma mão – ele queria que eu ajudasse dando uma entrevista rápida e... Bom, ainda está cedo eu pensei que você poderia...

- Claro! Eu te levo lá! – respondeu ele, esperando que, sendo solícito, Kagome esquecesse do que havia se passado minutos atrás.

- Então, depois nós podemos continuar o nosso... – e ela distanciou mais o celular de si – Bem, você sabe.

- Claro! Sem problemas, eu espero.

- Ok, Souta, já chego aí. – Kagome desligou o celular e sorriu para Ichiro – E então, vamos?

- Ah, sim, Kagome... – disse ele enquanto andavam em direção ao carro – Esqueça os comentários daquela garota, ela... Bem...

Kagome respirou fundo. Então ele estava decidido a tocar no assunto quando tudo o que ela mais queria era esquecer aquilo tudo. Ok, então, ela iria se conter ao máximo. Nada disso iria afetá-la. Nem um pouco.

- Ah, certo. – respondeu ela, tentando sorrir.

Ichiro não soube bem o que pensar da resposta da garota. Porque ela não parecia estar chateada ou magoada? Ele era capaz de jurar que a primeira coisa que ela perguntaria quando voltasse seria qual era o teor da conversa entre ele e Ayumi. Eles caminharam silenciosamente até o carro, Ichiro não teve coragem de segurar na mão de Kagome durante o percurso, mas abriu a porta para ela entrar no veículo. Ainda pensava como reiniciar a conversa quando colocou a chave na ignição.

- Kagome, er... Você não está chateada, está?

- Não! Claro que não... Porque estaria?

- Hm... – Ichiro pensou por alguns instantes enquanto dirigia – Porque ela insinuou uma coisa que... Bem...

- Oh! – disse Kagome, rindo nervosamente – Aquilo? Ah, você mesmo disse pra eu esquecer, não disse?

- Ah, sim! Claro... – concordou ele instantaneamente.

E então eles ficaram em silêncio por dez minutos que pareceram uma eternidade. Tudo o que se podia escutar era o som de alguns trovões ao longe e o barulho que vinha da rua. Nesse meio tempo Kagome se dividiu entre duas vontades. Estava realmente muito chateada com tudo o que aquela garota havia dito e queria tirar as coisas a limpo com Ichiro, queria que ele perguntasse o que estava acontecendo e não se contentasse com a resposta vaga que ela havia dado. No entanto, não seria muito mais fácil enterrar aquele assunto e esquecer? Mas porque ele estava ignorando o clima estranho que estava entre eles?

- Kagome? – disse ele, com uma voz sedutora. E aquela era uma péssima hora para se sentir seduzida por ele.

- Hm. – resmungou ela.

- Você está com raiva.

- Você jura? – ironizou ela e explodindo em seguida – Uma garota que eu mal conheço chega no meio do nosso encontro insinuando coisas e eu tenho motivos pra ficar com raiva? Imagine!

- Ela é absolutamente inconveniente, Kagome! – respondeu Ichiro tentando olhar para ela e para a estrada ao mesmo tempo – Sério. É uma antiga colega de colégio de Sapporo e ela é completamente pirada.

Kagome sabia que eles iriam brigar. A primeira briga de um relacionamento que ainda nem existia e Deus sabe como ela tentou evitar, mas não conseguia conter a mágoa que acabava saindo desenfreadamente na forma de frases incisivas.

- Se o que ela falasse não tivesse fundamento algum – retrucou Kagome, cruzando os braços, emburrada – você não teria se dado o trabalho de conversar com ela a sós sobre sabe-se lá o quê.

- Mas o que ela falou realmente não tem fundamento, Kagome! – disse Ichiro, confuso - você não sabe o q...

- Eu não estou falando disso! – interrompeu Kagome antes que se irritasse mais – Eu estou falando que ela achava que sabia do que estava falando e você certamente deve ter dado motivos pra isso.

Ichiro não gostava nada do caminho que aquela conversa estava tomando. Porque parecia que a garota sentada ao seu lado estava, mais uma vez, chegando perto dos seus segredos; como se ele fosse um livro aberto. Se Kagome pretendia mesmo fazer com que ele desenterrasse os motivos que levaram Ayumi a dizer aquelas coisas, ele iria ter que ir muito mais além. Ela não estava preparada para lidar com as lembranças de Sapporo. Era só o primeiro encontro deles e Ichiro estava determinado a salvá-lo de qualquer jeito.

- Ayumi é... uma pessoa meio peculiar. Ela não tinha como saber do que estava falando – desconversou ele.

- É mesmo? – perguntou ela, preparando-se para um caminho sem volta – Então ela e aquele seu professor que encontramos no restaurante não estavam insinuando basicamente a mesma coisa?

Era isso. Ela estava praticamente adivinhando. Talvez ele estivesse muito mal acostumado com seus relacionamentos superficiais que acabavam antes mesmo dele ter tempo de descobrir se a garota era perspicaz ou não. Mas Kagome tinha lhe dado tempo para chegar à conclusões bem precisas e era fato que ela pensava e era esperta e persistente. Mais cedo ou mais tarde ela iria descobrir quem Ichiro realmente era, não seria melhor que descobrisse tudo da boca dele? Sabendo que o encontro dos seus sonhos terminaria ali mesmo, ele respirou fundo e respondeu.

- Ótimo! – exaltou-se, agradecendo por ter finalmente chegado no templo onde morava o irmão de Kagome – Você realmente quer entrar nessa?

- Quero! – afirmou ela, determinada – Eu sei que tem algo que você está deixando de me contar, Ichiro. O que é?

Ele puxou o freio de mão do carro e retirou o cinto de segurança voltando-se para a garota. Talvez fosse melhor mesmo para ela saber tudo de ruim que ele havia feito, ou pelo menos uma boa parte. Ela precisava saber.

- Excelente. Realmente excelente. – ironizou Ichiro com um tom de voz que Kagome nunca ouvira antes – Existem algumas coisas que eu andei escondendo de você mesmo. Para o seu próprio bem. Aparentemente o universo está em algum tipo de conspiração para que nada entre nós dê certo porque agora eu me vejo forçado a falar.

Kagome cruzou os braços e empinou o nariz, reacomodando-se no banco do carro de forma que estivesse totalmente voltada para Ichiro.

Eles ficaram se olhando em silêncio por alguns segundos até Ichiro finalmente tomar coragem para começar a conversa. E quando começou a falar, não tentou pensar nem medir suas palavras porque Kagome precisava saber a essência daquelas informações.

- Obviamente eu não larguei um semestre inteiro de faculdade em Sapporo a troco de nada. Meu pai teve motivos muito fortes pra me mandar pra cá. Ele queria que eu, basicamente, tomasse jeito. E você deve se perguntar o que eu estou querendo dizer com isso. – ele fixou o olhar em algum ponto distante como se estivesse tentando se recordar de algo - A primeira impressão que você teve de mim... Eu me lembro, Kagome. Você achou que eu não prestava, que eu era um canalha. Tenho certeza que minha irmã deve ter dito que eu não era o tipo de cara que passava muito tempo com uma garota só. E nunca fui.

"Pra quê passar mais do que uma noite com uma mulher e correr o risco de me apegar? Pra que me apegar se ela pode sumir no instante seguinte? Ela pode me trair, me humilhar. Ela pode até morrer, não acha? Pessoas morrem a todo instante nesse país onde não cabe nem mais um estrangeiro. Não acha? De certa forma, foi exatamente isso que aconteceu com o meu pai porque minha mãe morreu só dois anos depois que eu nasci. E uma coisa eu lhe garanto, Kagome. Por mais que ele tenha casado de novo eu sei, e a mãe de Zhang sabe, que a memória da minha mãe morta vai pairar para sempre na família."

Kagome conteve as lágrimas que insistiam em se formar em seus olhos e desviou o olhar do de Ichiro porque encarar ele dizendo aquelas coisas tão difíceis de ouvir estava se tornando pesado.

- Não chore, Higurashi. – disse ele com seu tom de voz mais ríspido – Não chore, porque eu soube muito bem como contornar esse pequeno problema. Eu sei muito bem como não me apaixonar por alguém. Apesar da minha fama, eu não fico com qualquer uma, não, não, não. Eu sei passar dias analisando uma garota até ter a certeza que eu nunca vou me apaixonar. Tome como exemplo a garota que você acabou de conhecer, a Ayumi. Não temos basicamente nenhum gosto em comum, nada... Se você está se perguntando eu fiquei sim com ela.

- Claro – Kagome soltou uma risada seca – isso deu pra notar.

Ichiro apoiou um braço na direção do carro e olhou para a garota. Ele se sentia completamente frustrado por estar dizendo aquelas coisas que, certamente, fariam Kagome se afastar dele por um tempo ou quem sabe até pra sempre. Agora que havia começado, no entanto, não conseguia mais parar.

- Você consegue imaginar porque ela se interessou por mim? – e ele deu uma pequena pausa, quando Kagome interpretou aquilo como um sinal para que ela respondesse Ichiro interrompeu – Nós crescemos juntos, desde os cinco anos de idade. Nossas famílias se conheciam. Por muito tempo nós fomos os únicos amigos um do outro. Nossos pais costumavam brincar que um dia, a gente ia crescer e acabar se casando. Não chegamos a tanto, mas...

Ichiro fez uma pausa. Não se orgulhava nem um pouco desse passado inconsequente, mas já tinha ido longe demais para interromper a história. Seja como fosse, se um dia ele e Kagome ficassem juntos, era melhor que ela soubesse disso por ele do que por outras pessoas.

- Nós perdemos a virgindade juntos. - ele balançou a cabeça de um lado pro outro, como se estivesse reprovando seu eu do passado - Eu era muito pivete na época, tínhamos só catorze anos. Eu estava com os hormônios a flor da pele. Já havia ficado com outras garotas antes, porém eram todas mais velhas. Ayumi estava se aproximando de todas as formas. E depois de me certificar com ela de que eu jamais entraria num relacionamento, nós ficamos. Foi numa festa do colégio. E bem, por mais que a gente tenha tentado esconder, de alguma forma todo mundo fica sabendo.

O que mais chocava Kagome não era exatamente o que Ichiro compartilhava, mas a forma como ele contava. Como se estivesse arrancando aquelas memórias que ele tanto odiava escondidas embaixo do assoalho. E de fato era o que estava acontecendo. Kagome sabia que ele era meio canalha, mas nunca podia imaginar com exatidão todas as coisas que haviam conduzindo ele para tal comportamento. A morte da mãe, o péssimo relacionamento com o pai, a responsabilidade que ele tentava carregar enquanto filho mais velho. Era como se estivesse conhecendo Ichiro agora.

- Naquele dia – continuou Ichiro olhando fixo para Kagome – eu estive com mais quatro garotas. Não me importei se ela estava olhando ou não. Nenhuma das outras garotas fez o que ela fez porque a sociedade acaba julgando no fim, você sabe. Toda aquela baboseira puritana. Então você já pode imaginar o que aconteceu com ela no colégio, não é? E mesmo conhecendo-a desde sempre. Mesmo sabendo que ela me considerava o seu melhor amigo, mesmo sabendo que ela possivelmente me amava... Eu não a defendi. Nenhuma só vez. Compaixão, amor... Pra mim era tudo a mesma coisa. E eu não podia me arriscar me aproximar de ninguém. Eu não queria.

- Ichiro... - Kagome balançava a cabeça, metade negação e metade desapontamento - Essa foi a forma que você encontrou de se proteger?

Era difícil de acreditar que Ichiro era uma má pessoa e até o presente momento ele ainda não havia convencido Kagome disso. "Todos cometem erros" era o que Kagome pensava "Ele teve seus motivos e agora pelo menos se arrepende". Só que, aparentemente, Ichiro não pensava da mesma forma. Ele não havia se perdoado, nem pretendia fazê-lo. Parecia que a única coisa que queria era chocar Kagome com as suas palavras e afastá-la. Por medo?

Ele riu secamente com um canto da boca e passou uma mão pelos cabelos.

- Me proteger machucando os outros, Kagome? Quem é tão ruim a esse ponto? Porque eu não segui o caminho mais fácil, então? Porque então não, sei lá, virei padre para não ter que magoar nenhuma mulher do jeito que eu fiz com Ayumi? – questionou ele – E pode ter certeza Kagome, como Ayumi houveram muitas outras que eu magoei, mesmo sem querer. A resposta é simples: eu fui egoísta. Pra que abrir mão dos prazeres da vida quando eu podia tê-los sem me importar em ferrar todo mundo? Quem se importa? Eu nunca me importei.

- Isso não é verdade... – murmurrou Kagome.

- Um ano depois de ter feito o que fiz com Ayumi eu viajei para os Estados Unidos. Fui fazer o intercâmbio do qual lhe falei lá em casa agora a pouco. – continuou ele ignorando Kagome – A verdade é que eu comecei a arrumar problemas atrás de problemas. Talvez eu só quisesse ser punido por alguém, sei lá. E a pressão dos pais de Ayumi caiu em meus ombros porque ela não desistia de ter algo mais sério comigo e nossos pais se conheciam desde sempre. O intercâmbio veio como uma espécie de castigo, Kagome. Um castigo que eu julguei muito bem-vindo. Depois que eu cheguei lá, claro, abracei a situação em que me encontrava. E foi lá que conheci meus grandes amigos.

"Fiquei com algumas garotas, claro, mas não fui tão canalha assim. Tenho que admitir que fui um bom garoto durante o tempo em que estive lá. Eu tive essa atitude porque não queria envolver as pessoas que me abrigaram em confusões, eles não tinham nada a ver com isso. Eu realmente me apeguei a eles e meu pai sabendo do comportamento que eu estava tendo lá, achou que eu tinha mudado. Mas uma vez de volta aonde tudo tinha começado, uma vez de volta aquela casa enfestada com as memórias da minha mãe eu me lembrei de quem eu fui. E a coisa começou toda de novo. E só foi piorando e piorando. Até que chegou ao ponto em que está hoje: eu e meu pai nos odiamos completamente. E minhas amizades em Sapporo? Bom, elas se resumem à Ayumi que não é exatamente uma amizade, é mais uma colega obcecada pela idéia de termos um romance.

"Eu me envolvi com todo tipo de gente que você puder imaginar. Ao ponto de ter que ir pra uma reabilitação por três meses. Entrei limpo na faculdade. Sendo bem sincero, não sei se algum dia cheguei a ter um vício, mas a ideia de ser castigado por isso me fascinava. Eu devo ser meio confuso da cabeça. Dor é uma das únicas linguagens que eu e meu pai falamos bem. Talvez por isso...

"Isso é bom que você saiba, Kagome: eu nunca me senti completo. Não realmente. Eu sempre estou procurando por algo. E acabo machucando todo mundo nesse processo. A única pessoa que eu amo que escapou desse destino é a Zhang. Por isso, quando ela veio para Tókio, eu vi a oportunidade perfeita de me distanciar da cidade que eu havia aprendido a detestar. E como já não aguentava mais meu pai decidi vir pra cá. Ficar longe me faria bem ou pelo menos era o que eu achava.

"Minha vinda pra Tókio não foi ruim. Me afastou da pessoa que mais odeio no mundo que é meu pai; me afastou de uma madrasta que eu nunca aceitei e me aproximou de Zhang. A única pessoa que eu verdadeiramente amo. E então... Você apareceu."

Kagome apenas olhava fixamente para algum ponto qualquer menos para o rosto de Ichiro, mas quando ele fez a menção à ela os olhares deles se cruzaram. E ela tentou de todas as formas ler o que tinha escrito nos olhos dele, em vão.

- Você. Você apareceu, Kagome. – e ele falava o nome dela com raiva, como se amaldiçoasse – Porque você tinha que ser tão... Porque você me encarou naquele dia na biblioteca? Porque você se aproximou da minha irmã? Porque você desmaiou na minha casa naquele e por que, por que que insisti em cuidar de você? Eu nunca havia cuidado nem de mim mesmo! Eu não entendo, nem nunca vou entender o que você tem. Nunca vou compreender o que você provoca em mim e porque você provoca. São tantas perguntas que eu prefiro nem começar a fazê-las. Eu sei que elas ficarão sem resposta. Afeto não é algo que se explica não é?

"O pior: eu não podia escolher não conviver com você. Zhang só falava no seu nome nos primeiros dias de aula, ela realmente te adora. De alguma forma você tinha tudo o que eu havia tentado evitar numa mulher esse tempo todo. Tudo que eu sempre quis, mas escolhi não ter, por segurança. Se nos aproximássemos mais eu iria quebrar a promessa que fiz a mim mesmo, mais cedo ou mais tarde. Eu ia trair a mim mesmo, mas como uma libélula hipnotizada pela luz eu fui em sua direção. Fechei meus olhos e pulei."

Kagome colocou sua mão sobre a de Ichiro, tentando demonstrar algum tipo de apoio. Ele olhou para onde as mãos deles estavam unidas, uma sobre a outra e retirou a dele. Ela o encarou confusa e magoada.

- Eu pensava, Kagome... – continuou ele, com uma voz seca e rouca – Eu pensava que as coisas iam mudar. Eu pensava que essa atração que eu sinto por você iria me fazer mudar, mas aqui estou eu, no nosso primeiro encontro contando a versão resumida de todas as minhas conturbações. Estragando completamente algo que nem ao menos começou. E quando eu lembrei de tudo o que eu fiz agora eu percebi... Kagome, eu não sei se eu vou deixar de ser quem eu fui. Eu nunca tive o que estou tentando ter com você, tem noção do que é isso? É arriscado demais... Pra você. E é melhor pra nós dois que você saia desse carro imediatamente e pense muito bem antes de falar comigo outra vez. Porque eu, Kagome... Eu não pretendo mais te envolver nas minhas merdas.

Era muito difícil de acreditar nas palavras dele, mas quando o silêncio começou a pairar entre os dois Kagome percebeu que Ichiro não ia voltar atrás. E então ela sentiu um característico nó na garganta. A sensação que sentira tantas vezes por Inuyasha e que havia ido embora assim que ela começou a se envolver com Ichiro. E agora aquele que estava começando a preencher o vazio causador da angústia que ela sentia, a mesma pessoa que ela achou que iria salvá-la... Estava devolvendo todas as sensações ruins que Kagome já havia esquecido. Seus olhos se encheram de lágrimas e elas transbordaram e escorreram pelo seu rosto. Mesmo assim, ele não voltou atrás. E o desespero preencheu-a por inteiro.

- Ichiro, não... – falou Kagome, com firmeza - Você só tá fugindo da mesma coisa, o tempo todo! Uma hora vai precisar encarar.

E então ele, num gesto abrupto, avançou para cima dela com uma mão apoiando-se no vidro da janela logo atrás dela. Seu rosto ficou exatamente encostado no dele, bochechas coladas. Kagome sentiu suas lágrimas molharem o rosto dele e quando ela ia tocar em seus ombros e envolvê-lo num abraço ouviu um barulho atrás de si.

Era a porta do carro.

- Saia. – disse ele, abrindo a porta – Saia, Higurashi.

- Ichiro?

Mas ele não respondeu. Ele apenas voltou para o lugar onde estava, colocou o cinto e ligou o carro. E esperou enquanto Kagome pegava sua bolsa e saía, mas antes de fazê-lo ela hesitou. E olhou para ele que se mantinha impassível, os olhos vidrados num ponto a sua frente.

- Por que? – Protestou ela.

- Você sabe. Agora, Por favor.

Ela saiu do carro de uma vez sem acreditar no que ouvira. E Ichiro foi embora cantando pneus deixando-a sozinha em frente à escada do Templo Higurashi. Os trovões se tornaram mais audíveis e uma chuva fina começou a molhar Kagome aos poucos.


Ele viu quando a chuva começou a molhar o vidro do carro e ligou o para-brisas. Desejou voltar no momento em que partiu ainda mais agora, imaginando Kagome sozinha, subindo as longas escadarias até chegar num local onde pudesse se proteger da água que caía cada vez mais forte

Mas ele não voltou.

De início decidiu culpar o encontro inesperado com Ayumi e porque não culpar a própria Ayumi pelo fato de tudo ter saído completamente errado? Afinal se ela não tivesse dito aquela última frase ele não teria que ter passado pelo vexame de contar todas aquelas coisas terríveis para Kagome.

Todo o seu passado. E olha que ele havia contado a versão resumida.

Sim, era uma péssima pessoa, ele sabia disso. E estava tão acostumado a ser ruim que agora não sabia mais como ser bom de novo. De novo? Será que alguma vez na vida ele se importou com quem estava a sua volta? E como se reconstrói uma vida quando tudo de mal que se faz fica tão marcado na memória das pessoas que sofreram? Ele não sabia. Achou que esconder e fingir que nada acontecera era a melhor forma, mas bastou muito pouco para que todas as lembranças saíssem de dentro dele num turbilhão. Seria sempre assim quando ele encontrasse com alguém que sabia quem ele havia sido?

Por mais triste que Ichiro estivesse se sentindo no momento, ele acreditava que afastar Kagome era a atitude mais próxima de um ato de bondade que ele teve em toda sua vida. Mesmo assim não bastaria. Bondade seria nunca ter dado brechas para a garota se aproximar; bondade seria simplesmente não ter sido um canalha durante toda sua adolescência. Ser uma pessoa normal, quem sabe assim ele teria chances de ser feliz ao lado de alguém ou até mesmo sozinho, mas com a consciência limpa.

Sua cabeça latejava de culpa.

Era melhor cortar tudo aquilo que poderia vir a ser amor pela raiz. Antes que desabrochasse em algo que ele não conseguiria controlar jamais porque o amor, segundo dizem, é uma força avassaladora. Como ele esperava conseguir lidar com aquilo? Esmurrou a direção, frustrado. Dirigia acima da velocidade e quanto antes chegasse em casa, melhor. Zhang não estaria lá e ele poderia esmurrar o saco de areia sem ter que aturá-la perguntando "o que aconteceu, Ichiro?".

Finalmente chegou ao apartamento e subiu pelas escadas descontando toda a sua raiva em cada pisada. Passou por cima dos escombros da porta de madeira chutando alguns pedaços. Foda-se o que os vizinhos iriam pensar. Caminhou rapidamente até o bar do hall e encheu um copo com uma dose de whisky puro. Era a melhor maneira de encarar os problemas que ele conhecia.

Sentou-se pateticamente no sofá e ligou a televisão. Estava passando algum programa de humor idiota num canal de fofocas, o tipo da coisa que ele jamais assistiria. Mesmo assim não mudou de canal porque não importava quando não se estava realmente assistindo.

Ichiro tirou a camisa e foi até o bar novamente para pegar a garrafa de whisky. Olhou o relógio e já passava do meio dia. Era sábado. Ele podia ligar para várias garotas em sua agenda, inclusive Ayumi que já havia feito uma chamada por sinal, mas ele iria ao menos ter a decência de não machucar a menina mais uma vez. Achou o número de quem queria na agenda e o telefone começou a chamar. Não tocou mais do que três vezes.

- Alô? – respondeu a voz feminina – Ichiro?

- Kyiomi, é você? – infelizmente seu tom de voz não parecia dos melhore quando ele se ouviu falar, procurou melhorar na frase seguinte – Então eu estava pensando se você estaria... Livre?

- Ahn... Claro! Quand...

- Agora. – interrompeu ele – Estou no meu apartamento... Sozinho. Você... Pode vir?

- Claro! Claro! – respondeu a garota prontamente interessada. Ele não sabia se estava fazendo o certo, mas se sentia triste e sozinho e queria saber se ainda era capaz de seguir com sua vida solitária como antes.

Ichiro passou o endereço e em uma hora a campainha da porta soou.

Ele já havia bebido um terço da garrafa de whisky.


Ela não saberia dizer quanto tempo ficou ali, na calçada, sentindo a chuva engrossar, ensopando suas roupas gradativamente. Não podia acreditar no que acabara de acontecer. Estava decepcionada sim com Ichiro, se pudesse teria evitado ouvir as coisas que ele confessou, mas se não tivesse ocorrido daquela forma eles viveriam numa mentira? Ela ficaria eternamente com um pé atrás porque aparentemente Ichiro tinha muito a esconder dela?

Agora não havia mais o que esconder, mas também não havia mais o que viver. Ele deixara bem claro que não entraria mais em contato com ela. Talvez tivesse se enganado. Talvez ficara tão apegada à ideia de ter encontrado um amor próximo ao que sentira com Inuyasha que aquilo cegou-a completamente.

Dado o pouco tempo de convívio com Ichiro, Kagome pensava que seria fácil esquecer que eles estavam prestes a se tornar mais do que amigos, mas a angústia que sentia no momento estava levando-a a pensar de outra forma. Era como se uma parte dela tivesse sido arrancada, ela conhecia bem aquela sensação.

Por que tinha que sofrer tudo duas vezes? Por que não podia simplesmente ser feliz?

Inesperadamente pensou em Kikyou e na última vez que a vira. Ela tinha praticamente ordenado à Kagome que tentasse, a qualquer custo, ser feliz. Era uma coisa que faria pelas duas, uma alma tão sofrida como a de Kikyou merecia um bom descanso.

E quando Kagome pensou que com Naraku destruído tudo ficaria bem, Inuyasha partiu. E ela ficou sem chão. Não poderia cumprir a promessa feita à sua antiga rival, nunca. Sem Inuyasha era impossível.

Kagome subiu as escadarias correndo, tropeçando algumas vezes na água que se acumulava nos degraus.

- Me perdoe, Kikyou. – sussurrava ela para si mesma – Eu não consigo mais... Não consigo mais tentar.

Pedia perdão à sua outra vida quando na verdade estava se desculpando consigo mesma. Sentia-se fraca, frágil, incapaz. Nas suas costas havia o peso de seus cabelos já completamente molhados pela água e subir as escadarias tornou-se mais difícil. Uma vez lá no alto, Kagome olhou para a direita e localizou instantaneamente o pequeno abrigo que protegia o poço come ossos.

Aquela seria a última vez que visitaria o poço, ela prometeu a si mesma. Aquela seria a última vez que entraria em contato com tais memórias porque como confessara para si mesma segundos antes: era impossível tentar de novo. Seu coração iria se fechar involuntariamente para qualquer pessoa que aparecesse em seu caminho? Talvez sim, mas não era melhor dessa maneira? Já tivera o suficiente de amor e sofrimento por várias vidas.

Kagome sentiu um peso sob seu colo. A jóia de quatro almas estava ali com um triste brilho róseo-azulado como se acompanhasse as idas e vindas dos sentimentos dela. Havia sido tudo por causa daquela pequena bolinha lilás. Tudo. E assim como Kikyou ela iria padecer com aquele fardo até o fim de seus dias.

Adentrou o pequeno cômodo onde ficava o poço e desceu os quatro degraus de madeira desgastada. Ela deu mais alguns passos até que suas mãos pudessem tocar as beiradas de pedra rústica. O contato da pedra fria com sua pele fê-la estremecer um pouco, mas Kagome não tirou as mãos. Duas lágrimas escorreram e ela se lembrou, sem razão aparente, do dia em que havia se sentido mal por desejar a morte definitiva de Kikyou. Era uma cena tão parecida com aquela... Por que estava se recordando daquilo naquela hora?

Qualquer outra pessoa, talvez, teria tratado de pôr um fim na situação e virado as costas para Ichiro, mas Kagome procurava compreendê-lo. Sim, ele havia errado muito no passado, mas não era mal caráter, ela tinha certeza. O arrependimento no discurso dele era quase palpável. Que tipo de pessoa ruim sente arrependimento? Kagome encheu-se de esperanças e um sorriso começou a se formar nos cantos de sua boca. Ela já estava dando meia volta, planejando uma maneira de explicar tudo que estivera pensando a Ichiro quando outra lembrança tocou sua memória.

"E é melhor pra nós dois que você saia desse carro imediatamente e pense muito bem antes de falar comigo outra vez. Porque eu, Kagome... Eu não pretendo mais te envolver nas minhas merdas."

Suas pernas fraquejaram. Ela sentiu seu corpo desequilibrando e cedeu ao peso dele ajoelhando-se e buscando as forças que lhe faltavam. Mas elas não vieram. Kagome sentou-se encostando-se na alvenaria do poço, as lágrimas mais uma vez descendo pelas suas bochechas em sequência.

Como poderia explicar tudo isso à Ichiro se ele nem ao menos parecia querer tentar ouvir?


- O que foi? – perguntou ele, os sentidos aguçando-se com uma rapidez sobre-humana – Hatsue-sama...!

A garota abrira os olhos de repente assim que sentiu uma sensação correr pelos seus dedos ao tocar a superfície do poço. Ela franziu as sobrancelhas, preocupada. Sabia o que aquilo significava. Só não sabia se estava pronta.

- Hatsue-sama! - a voz do jovem atrás de si arrastou-a de volta para a realidade.

- De novo. - falou ela, com sua voz fina e calma de sempre - E foi mais forte.

Ele se aproximou lentamente pondo-se ao lado da sacerdotisa. Admirou o fundo do poço como se tentasse sentir alguma coisa também, mas era impossível. Ele não tinha os mesmos poderes espirituais da garota, nem de longe. Contentou-se em reviver os momentos ali passados e degustar lentamente cada lembrança.

- Está triste. - disse Hatsue num fiapo de voz.

Ela sempre falava frases curtas e diretas. Muitas vezes não compreendidas por quem quer que estivesse ouvindo e aquela situação era um exemplo disso.

- Quem está triste? - perguntou o jovem, curioso.

- Ela. - respondeu a garota esperando um minuto antes de concluir o pensamento - É quase como se eu pudesse sentí-la aqui ao meu lado. Como se eu pudesse vê-la como estou vendo você agora.

- Você consegue vê-la? - sobressaltou-se ele.

A menina sacudiu a cabeça de um lado para o outro ainda fixando algum ponto no fundo do poço e ouviu um muchocho de decepção vindo do youkai. Com sua visão periférica ela observou ele colocar o queixo entre as mãos, apoiando os cotovelos na alvenaria rústica e seca que um dia abrigara água. Ela fechou os olhos com força e tocou as bordas do poço mais uma vez, concentrando-se.

E foi empurrada para atrás por uma força invisível.

Seus pés vacilaram enquanto ela cedia ao próprio peso e já havia se preparado para o impacto de seu corpo com o solo quando foi amparada pelas mãos fortes dele. Um amparo um tanto desajeitado, pois ela sentia as unhas – na verdade, garras - afiadas do jovem cravando-se em seu braço despropositalmente. Ela subiu o olhar e encontrou os olhos dele, de um verde mais escuro e vivo que os seus. Ele ajudou-a a levantar-se.

- Porque você fez isso? - questionou ele, sem se importar em ser um tanto rude - Você sabe o que isso provoca! São duas vezes ao dia, no máximo. Essa já é a quarta.

Hatsue se apoiou em seus pés novamente e fez um esforço maior para andar em direção ao poço de novo, mas a mesma pessoa que a havia amparado agora se prostava a sua frente, impedindo sua passagem.

- Chega por hoje. - ordenou ele - Vou levar você de volta ao vilarejo.

Ela sorriu debilmente, sem se abalar e respondeu com tranquilidade.

- Você não quer saber se consigo enxergá-la? - perguntou ela e continuou a sugerir apesar do olhar tolhedor dele - Talvez se eu tentar mais uma vez...

- Hatsue-sama, não posso. - confessou ele, evitando expôr suas verdadeiras razões para impedí-la - Você estaria arriscando a sua vida apenas pelos meus propósitos pessoais e egoístas. Vamos voltar.

Ela o encarou demonstrando sutilmente que estava confusa. Seus olhos piscaram duas vezes rapidamente, mas logo em seguida seus lábios se curvaram no leve sorriso que lhe era típico.

- Não se trata só de você, Shippou. - declarou ela evitando encará-lo - Eu fui criada para isso, sou a última esperança que temos. Essa energia não pode continuar a emanar-se assim, e eu tenho que descobrir por que isso vem acontecendo.

Os longos cabelos ruivos dele estavam amarrados junto à nuca e sacudiram-se movendo-se de acordo com o vento. Ele contraía quase todos os músculos da face numa expressão tensa e tentava escondê-la mantendo a cabeça abaixada. Eram muitas coisas para assimilar. Ele não estava preparado para o que estava por vir.

- Hatsue...

Ela se aproximou lentamente, a passos mínimos, como uma gueixa. Seus longos cabelos castanhos e lisos também dançavam conforme a brisa. Ela chegou perto o suficiente dele para tocar-lhe alguns dedos da mão com a sua. O contraste entre as peles era visível. A dela nunca estivera tão pálida em comparação com a dele que era mais escura e tinha um aspecto diferente, não-humano.

- Vamos voltar, Shippou. - falou ela, tentando olhar através dos fios de cabelo ruivos que cobriam os olhos do youkai - Vamos voltar.

Shippou respirou fundo para se recuperar e ergueu a cabeça, sua expressão tornando-se impassível de novo, como se nada estivesse acontecendo. Ele quase fraquejou quando viu o rosto dela, mas resistiu. Abaixou-se o suficiente para que ela pudesse subir nas costas dele e quando ela o fez, segurou-a com firmeza. Era quase como se realmente pudesse proteger a vida dela, coisa que estava além de seu alcance. Talvez fosse mais saudável enganar-se com aquela idéia por enquanto.

- Pronta? - perguntou ele.

O par de braços finos e alvos envolveu seu pescoço num enlaçado firme e gentil. O perfume de jasmim que emanava deles distraiu Shippou por alguns segundos antes que a voz feminina soasse de novo, acordando-o.

- Sim.

Ele pegou impulso com os pés e saltou para correr os quilômetros que separavam o vilarejo do poço come-ossos.

Era um lindo dia de sol.