Comentários da Autora:

Nesse capítulo tem um especial sobre dois personagens secundários. Todo o trecho situado entre esses símbolos [ ] é extra. Quem quiser pular pode ficar à vontade, pois não interfere no rumo da história.


Capítulo 14

Tentou abrir os olhos, mas a claridade da luz o incomodou o suficiente para que desistisse no meio do caminho. Levou a mão direita à testa e afastou alguns fios de cabelo do rosto. Tateou a sua volta tentando encontrar indícios do lugar em que se encontrava. Era seu quarto. Fungou alto e um cheiro de cigarro subiu às suas narinas. Lembrava de poucas coisas: um encontro inesperado com Ayumi; uma briga gigantesca com Kagome e meio litro de whisky bebido em menos de meia hora. Não era por menos que sua cabeça latejava como nunca. Ele fez menção de massagear as têmporas com as duas mãos, mas seu braço esquerdo estava meio imobilizado por um misterioso peso em cima. Ichiro abriu os olhos e virou a cabeça, assustado.

Era Kyiomi aninhada em seu ombro com aparentemente nada para cobrí-la além do lençol que eles dividiam.

"Merda."

Ele tentou tirar o braço debaixo do corpo da garota, mas não se importou muito em acordá-la. Ela gemeu virando as costas pra baixo e colocando um braço sobre os olhos. Ichiro concluiu com uma rápida olhada que, de fato, Kyiomi estava nua. Balançou a cabeça recriminando-se e foi direto para o banheiro molhar o rosto. O que haviam feito, afinal? Ele não se lembrava de nada.

O chaveiro havia chegado junto com Kyiomi, disso ele se recordava. Ele deixara o pagamento adiantado na mesa da cozinha e depois? O que havia acontecido? Arrastara a garota pro quarto? Pro banheiro? Onde eles haviam transado, afinal de contas? Espera, eles haviam mesmo feito aquilo? Tudo bem que o fato de Kyiomi estar nua deitada na cama com ele era um forte indício do que poderia ter acontecido, mas ele não se lembrava de nada.

Mas como ele podia não se lembrar de nada?

"Meh, não é hora pra ficar se lamentando, Ichiro" pensou ele, dando uns tapinhas em seu rosto e enxugando-o em seguida. Olhou sua imagem no espelho do banheiro e sentiu náuseas. Ele se lembrou em segundos de tudo que havia contado à Kagome e o rosto dela banhado em lágrimas apareceu em sua mente, mais nítido do que nunca.

Estava tudo acabado entre eles. Tudo que nem ao menos tinha começado.

Sentiu seu estômago revirar e em menos de um segundo já estava ajoelhado diante da privada colocando qualquer sinal de comida ingerida naquele dia para fora. Ichiro não era do tipo que vomitava, mas considerando que aquela era a segunda noite seguida que ele ficava de porre, parecia-lhe aceitável ceder às vontades do seu organismo. Ele deu a descarga e escovou os dentes logo em seguida. A dor de cabeça havia aumentado consideravelmente, mas ele já se sentia bem melhor.

Ichiro rezou para que alguma força sobrenatural transportasse Kyiomi direto para qualquer outro lugar, mas obviamente tal coisa não aconteceu. Ele ficou olhando para a garota, tentando se lembrar de alguma coisa que pudesse ter feito mais cedo. Ela parecia imersa em um sono profundo e Ichiro sentiu uma certa pena de acordá-la, mas mesmo assim teria de tentar. Kyiomi não podia passar a noite ali e ele precisava perguntar a ela o que eles tinham feito afinal. Ele caminhou em direção à cama e se ajoelhou até ficar na altura da mesma.

- Ei, Hasegawa. – disse ele, balaçando a garota pelo ombro – Hasegawa, acorde. Você tem que ir embora.

Ela gemeu e virou-se de lado ficando de frente para ele, mas não acordou.

- Kyiomi. Kyiomi, acorde! – disse ele, sacudindo a garota de novo - Você tem que ir embora, certo? Acorda!

- Hmm? – ela abriu os olhos devagar e esfregou-os rapidamente – O que é?! Porra, Ichiro, eu tô dormindo!

- Eu sei e eu sinto muito, - respondeu ele, aliviado por ter recebido uma resposta - mas você vai embora e vai ser agora.

A garota bufou e sentou-se na cama abruptamente passando as mãos pelos cabelos loiros, sem se importar com o fato de não estar vestindo nada. Ela era muito bonita sim, mas Ichiro não conseguia apreciar suas curvas. Se sentia um tanto quanto "sujo" por ter tido uma tarde casual com uma garota novamente sendo que as coisas pareciam ir tão bem com Kagome. Tudo parecia tão certo; do jeito que deveria ser. Balançou a cabeça três vezes tentando afastar aquela utopia dos seus pensamentos. Teria que se acostumar ao fato de que jamais poderia mudar quem era, mas tinha de admitir que era frustrante. Ele observou a garota caminhar em direção ao banheiro, o lençol caindo no chão à medida em que ela se afastava. Ele jogou o pano de volta na cama e foi atrás dela.

- Er, Hasegawa... – disse ele, hesitante – Será que você podia me relembrar o que aconteceu ontem? Eu não consigo...

- Como assim o que aconteceu, Masagami? – disse ela enquanto lavava o rosto na pia – O que você acha que aconteceu?

Ichiro perguntou-se porque diabos ela não poderia dar uma resposta direta à sua pergunta, mas aparentemente era pedir demais. A dor de cabeça fez com que ele se irritasse ainda mais rápido do que o usual e teve que respirar fundo para não gritar. Fez mais uma tentativa antes de perder a paciência de vez.

- Foda-se, eu não me lembro. – respondeu ele sem se importar se estava sendo rude – Agora será que dá pra você contar o que aconteceu entre a gente ontem?

- Ah, por favor. – Kyiomi passou um pouco de pasta de dente na língua e depois prendeu os cabelos com um nó – Você está só de cuecas, eu estou nua... Isso não te dá nenhuma pista?

De novo a resposta incerta o deixou chateado, mas Kyiomi não deu muito tempo para ele manifestar seu desagrado. A garota passou por ele catando suas roupas do chão e vestindo-as sem nenhuma pressa. Ichiro, que continuava parado olhando o banheiro agora vazio, virou-se e tornou a falar.

- Vai ver você não foi tão memorável assim.

Kyiomi parou, olhando para ele, visivelmente irritada. Ichiro deu um tapa em sua própria testa repreendendo-se. Lá estava ele sendo um idiota outra vez. Tratou de tentar amenizar a situação rapidamente antes que gerasse mais problemas para si mesmo.

- Olha, foi mal, eu estou morrendo de dor de cabeça, ok? – explicou-se ele vendo a expressão da garota abrandar-se – Se arrume logo e eu te deixo na sua casa em cinco minutos.

- Não precisa. – respondeu ela, impassível – Eu moro a quatro quadras daqui.

- Tem certeza? – Ichiro massageou a nuca apertando os olhos com força – Eu posso te deixar, é mais simples.

- Tenho. – falou ela pegando a bolsa que estava encostada num canto do quarto – Bom, eu vou indo então.

Ele observou a garota se retirar do quarto e deitou-se na cama assim que ela saiu do cômodo. Agradeceu internamente por ela não aceitar a carona já que concluiu não estar em condições de fazer nada no presente momento muito menos dirigir. Abriu o criado-mudo em busca de um remédio para dor de cabeça e tomou o primeiro que viu, no seco. Já estava caindo no sono, quando ouviu sonoras batidas na porta do seu quarto. Não lembrava-se de ter trancado nada, no entanto. Por isso abriu os olhos, confuso.

À sua frente estava, de braços cruzados e sustentando uma expressão nada amigável, sua irmã mais nova. Como podia ter esquecido que ela voltava de viagem naquele dia? Talvez tivesse perdido a noção do tempo ao passar a tarde dormindo. Sua cabeça latejou fortemente e ele encontrou forças para perguntar o que estava acontecendo.

- Mas que droga, Zhang, se a porta estava aberta porque você bateu?! – disse Ichiro, irritado – O que foi?

Ela bateu o pé como sempre fazia quando estava com muita raiva de alguma coisa e xingou um palavrão quase inaudível.

- Eu quero saber como diabos você me diz que está em um encontro com a Kagome se eu acabei de ver aquela piranha loira saindo do nosso apartamento com cara de quem dormiu aqui a tarde toda!

- Que horas são? – perguntou Ichiro, tentando mudar de assunto.

- São cinco e... – começou Zhang, percebendo no meio da frase o que o irmão estava tentando fazer – Ai, que ódio, não mude de assunto, Ichiro! O que significa isso?

- Isso o quê, fedelha? – respondeu ele, colocando a cabeça embaixo do travesseiro.

- Essa garrafa de WHISKY, Ichiro! QUASE vazia! – gritou Zhang fazendo os tímpanos dele doerem – Esses cigarros espalhados pelo chão e aquela insuportável da Hasegawa saindo do NOSSO apartamento!

Ichiro controlou a dor de cabeça e decidiu que a melhor forma de fazer Zhang parar de gritar era contar de uma vez só tudo o que havia acontecido. Ela não ia sair do seu pé nunca a menos que ele o fizesse.

- Muito bem. Isso deve estar parecendo meio confuso mesmo pra você. – disse ele, sentando-se na cama com uma mão na cabeça – Você quer saber tudo, então?

Zhang sentou-se ao lado dele, sua expressão havia mudado de chateada para preocupada e Ichiro sabia o que aquele olhar queria dizer. Era o mesmo olhar que ela havia lhe lançado todas as vezes que ele fazia alguma bobagem. O olhar de uma irmã que busca consolá-lo e abrir seus olhos ao mesmo tempo. Talvez Zhang fosse a única pessoa que tinha esse poder na vida dele. Ela deu um leve sorriso para ele o que foi interpretado como um sinal para iniciar a conversa.

Ichiro respirou fundo.

- Ayumi está aqui em Tókio. – declarou ele.

- O quê? – espantou-se Zhang – Ayumi... Nossa antiga vizinha em Sapporo?

Ichiro acenou com a cabeça afirmativamente e deixou que Zhang chegasse aos fatos por si mesma.

- Mas como você ficou sabendo? Quem disse? – perguntou ela, mas Ichiro não respondeu, pois logo em seguida Zhang levantou mais questões – Ela te ligou no meio do encontro?

Ele balançou a cabeça negando e encostou-se na cabeceira da cama.

- Ué, mas então como... Oh, não. – e de repente o vislumbre de entendimento que Ichiro esperava apareceu no rosto da irmã – Ela esteve lá e falou com vocês. Foi isso, não foi?

- Ela estragou tudo, basicamente. – Ichiro cruzou os braços e fechou a cara – Ela insinuou que Kagome era mais um de meus casinhos e você sabe muito bem que não é isso.

- Ichiro... – a voz de Zhang soava gentil, mas sem perder o tom de recriminação – O que Kagome significa pra você, afinal? Ela é uma garota muito especial, parece ser sensível e é minha amiga. Você não pode se comportar com ela da mesma forma que...

- Eu sei. – respondeu ele, impaciente – Eu já me dei esses mesmos conselhos milhões de vezes, Zhang. É por isso que decidi terminar tudo com ela.

A garota levou uma mão à testa.

- E desde quando essa é a melhor maneira, Ichiro?! – criticou Zhang – Minha nossa, você não tem nada na cabeça.

Ichiro bufou, irritado e socou um travesseiro que estava próximo. Respirou fundo buscando toda a paciência necessária para não ser rude com a única pessoa com quem ele realmente podia contar.

- Eu não vou mudar, Zhang. – e respirou mais uma vez a fim de dizer a próxima frase – Eu contei tudo o que aconteceu em Sapporo pra ela.

Ichiro esperava que Zhang fosse começar a desferir uma série de tapas ou fosse ter alguma outra reação que terminasse com ele se sentindo pior ainda, mas tudo o que a garota fez foi dar de ombros e falar:

- E daí?

Ichiro piscou duas vezes tentando assimilar. Achou que Zhang precisava de uma explicação mais detalhada.

- Zhang, eu contei. Eu contei como eu costumava ser, contei o que eu fiz com Ayumi e falei sobre meu momentâneo vício, da ida pra reabilitação. – Ichiro esperou uma expressão de choque se formar no rosto de Zhang, mas ela continuou impassível – Mas que maldição, qual é o seu problema?!

Ela revirou os olhos e descruzou os braços. Um sorrisinho de quem sabia exatamente o que iria falar a seguir manifestou-se nos lábios dela e aquilo por algum motivo irritou ainda mais Ichiro. Zhang estava entendendo algo que ele não entendia. Desde quando ela havia se tornado tão madura?

- Ichiro... Eu nunca pensei da mesma forma que papai, você sabe. – Zhang afastou uma mecha dos cabelos curtos – Eu nunca pensei da mesma forma que qualquer um daqueles nossos vizinhos caretas.

- Você vai me dizer agora que eu não fiz nada de errado na minha vida? – ironizou Ichiro – Vai me dizer que eu deveria usar mais algumas garotas aqui em Tókio mesmo e continuar dessa forma até magoar todas a população feminina das ilhas japonesas?

- Não é isso! Nossa, você tá estressado! – Zhang deitou-se de bruços na cama e continuou seu discurso – Você foi um filho da mãe sim, sabemos disso, mas você acabou de completar vinte anos. As garotas com quem você se envolveu sabiam como você era (você sempre abria o jogo de cara, bem me lembro) algumas se magoaram sim, mas... Relacionamentos às vezes magoam. Você não pode controlar tudo. E as coisas que você fez de errado, irmãozinho, ficaram para trás na sua adolescência. Porque é exatamente isso que adolescentes fazem: merda.

- Eu não acabei de completar vinte anos, - comentou Ichiro ligeiramente impressionado com a opinião de sua irmã mais nova – eu sinto que, sei lá... que eu já deveria ter tomado jeito.

Zhang suspirou alto e puxou uma revista que estava próxima para ler.

- E não era exatamente isso que você estava fazendo? Tomando jeito. – os dois ficaram em silêncio por alguns segundos até ela retomar a palavra – Olha, Ichiro, você estava tentando mudar. Só eu sei o quanto. E Kagome parece ser muito especial pra você. Porque você não tenta ficar com ela, então?

- Não, Zhang. – respondeu, ele, decidido – Eu estou sendo um covarde em não querer arriscar, eu sei, mas vai ser melhor assim.

- Você quem sabe. – disse ela, virando cinco páginas da revista de uma só vez – Agora precisava mesmo trepar com outra garota pra se sentir melhor? De verdade? Porque é aí que está seu erro nisso tudo.

- Ah, cale a boca. – resmungou Ichiro, jogando-se de novo na cama – Eu não sei porque fiz isso, eu estava bêbado demais quando ela chegou e... Não me lembro de nada.

- Oh... – Zhang levou uma mão à boca – Então você não se lembra de ter...

- Não. – respondeu Ichiro imediatamente - Aí é que tá.

- Então procure por evidências, Ichiro! – falou Zhang tentando dar esperanças ao irmão – Ela não te deu detalhes? Não esclareceu o que tinha acontecido?

- Ah, Zhang... Ela acordou nua do meu lado. – falou ele – Eu acho difícil não ter acontecido nada.

A menina soltou um resmungo baixo e jogou a revista na cama. Ela deu um último abraço nele e um beijo na testa.

- Você fode demais com a sua vida, Ichiro... – falou ela, os intensos olhos castanhos doces como sempre – mas quando resolver arrumá-la de vez eu vou estar aqui pra te ajudar, ok?

Como sempre, ela se colocou à disposição para o que precisasse e Ichiro se sentiu bem mais confortável. A dor de cabeça já havia sido amenizada e resolveu estudar um pouco para se distrair. Só que ainda havia uma coisa que ele tinha deixado passar. Uma coisa que ele sentiu que deveria perguntar a Zhang.

- Espera aí, fedelha. – chamou ele antes que garota se ausentasse do quarto – Eu queria perguntar uma coisa.

- Hm, pode falar. – disse Zhang, um pouco desconfiada.

Ele ponderou bem se devia perguntar ou não. Afinal de contas, de acordo com seus planos atuais, não pretendia se envolver mais com Kagome. De qualquer forma ainda pensava no quão angustiada ela parecia antes de acordar naquela manhã. Estava tendo um pesadelo muito nítido, ele tinha certeza. Era capaz até de jurar que ela havia chorado um pouco. Não podia deixar de se importar com Kagome de uma hora para outra e por mais que eles deixassem de se falar ela continuaria sendo a namorada que ele nunca teve.

Tinha isso... E uma boa dose de curiosidade também.

- Er... Alguma vez será que a Kagome mencionou um nome... – Ichiro tentou escolher as melhores palavras – Er... Ela já falou pra você de um cara chamado Inuyasha?

Zhang parou ao ouvir aquele nome. Ela franziu as sobrancelhas forçando sua mente a revirar memórias de semanas atrás. Não precisou se esforçar muito, pois ainda se recordava com nitidez daquela tarde despretenciosa na qual ela e Kagome encontraram uma foto que deixou Zhang muito curiosa.


*flashback*

"- Esse menino... - começou Zhang - Ele é...

- Um amigo! - interrompeu Kagome rapidamente - Um amigo de muito tempo atrás...

Zhang olhou a foto mais atentamente ainda.

- Como você nunca me falou dele? Ele é a cara do meu irmão.

- Q-q-quê? - Kagome recriminou-se internamente por ter soado pouquíssimo convincente - Inuyasha não se parece com Ichiro! Talvez o nariz...

- Você tá brincando, né? - Zhang olhou-a em acreditar no que ela dizia - Ichiro faz exatamente essa cara quando está com raiva. Até o cabelo é meio parecido... Se esse garoto tirasse o boné e...

- Discordo. Não tem muito a ver eles dois.

Kagome evitava olhar diretamente para a imagem de Inuyasha na foto. Era realmente um absurdo negar a semelhança que ele tinha com Ichiro. Inevitavelmente, Zhang logo perguntou se Kagome ainda mantinha contato com ele.

- Ele... - Kagome nunca havia precisado dizer aquelas palavras antes para ninguém - Ele morreu. Há três anos.

Zhang virou-se para a amiga sentindo-se meio culpada. Kagome mantinha o olhar baixo, evitando encará-la. Zhang teve o bom senso de perceber que aquele assunto não era muito agradável para Kagome e limitou-se a dar a fotografia para ela.

- Então guarde. - Kagome olhou-a e viu que era compreendida - Ele deve ser importante pra você... Esse tal Inuyasha."

*fim do flashback*


Mas que sentido havia em mencionar tal coisa à Ichiro? E como ele havia descoberto aquilo? Será que tinha visto a mesma foto que Zhang vira? Decidiu ser uma boa amiga para Kagome e guardar segredo. Afinal, aquele assunto lhe parecera muito particular para ela. Por mais que aquilo atrapalhasse um pouco a vida amorosa do seu irmão não diria nada.

- Não. Nunca. – respondeu ela, após uns segundos de hesitação.

Talvez tenha sido a forma como ela pareceu ficar tensa ao ouvir aquele nome tão estranho para Ichiro. Talvez por que ela demorou um segundo ou dois para responder ou talvez simplesmente por que eles eram irmãos, afinal de contas. Era natural que soubessem quando o outro não estava contando a verdade. E Ichiro sabia que Zhang estava mentindo. Obviamente aquilo atiçou ainda mais sua curiosidade por que eram poucos os motivos que levavam Zhang a omitir alguma coisa dele. Entretanto, considerando que ela era amiga de Kagome, Ichiro preferiu agir sozinho. Ela não queria contar nada? Tudo bem. Ele descobriria por si mesmo.

- Boa sorte desarrumando sua mala. – disse ele pondo um fim ao assunto – E eu quero saber depois o que aquele palerma aprontou com você numa praia só vocês dois.

- Aaah, Ichiro... – suspirou Zhang com os olhos brilhantes de uma garotinha abandonada – Foi tão perfeito! Obrigada mesmo por aprovar isso tudo, mas não se esqueça que...

- Eu já sei... – interrompeu ele enquanto se enrolava completamente com o lençol da cama – Não contar nada pro papai nem pra sua mãe.

Zhang guinchou como um animalzinho emocionado e correu para dar mais um beijo no rosto do irmão.

- Obrigada, obrigada, obrig...

- Ok, Zhang! – ele se desvencilhou dos beijos embora estivesse gostando e cobriu a cabeça com o travesseiro – Feh, sai daqui, quero dormir.

- Você é um chato. – concluiu ela enquanto saía do quarto saltitante – Até mais tarde, pode deixar que eu faço o jantar hoje.

- Como se fosse muito difícil fazer macarrão instantâneo! – gritou Ichiro depois que Zhang já havia alcançado o corredor.

Ele ouviu que a irmã havia dito algo em resposta, mas não soube dizer o quê. Esperou que ela já estivesse trancada em seu próprio quarto e trancou a porta do seu. Ignorou os sinais da ressaca e ligou o notebook sentindo-se animado a desvendar o mistério que o assolava desde o início da manhã.

Quem era Inuyasha, afinal?


- Kagome? – uma lanterna iluminava o abrigo escuro e o dono da voz ela reconheceu de imediato – Irmãzinha? O que você está fazendo aí?

Quanto tempo havia passado ali, encostada no poço, revirando as memórias antigas e soluçando em vão? Ela não saberia dizer. Mas no momento em que a voz do irmão soou em seus ouvidos, Kagome despertou um pouco e tentou encontrar forças para emitir uma resposta que não deixasse o pobre Souta mais preocupado do que deveria.

- Souta... – respondeu ela tentando disfarçar em vão a voz chorosa – Eu estou bem só estava pensando aqui um pouco antes de...

- Eu já tenho treze anos, irmãzinha. – Kagome sentiu a mão dele sobre seu ombro – Eu já entendi o que você veio fazer aqui.

Aquilo deveria fazê-la parar de chorar e funcionar como algum tipo de consolo, mas de alguma forma mais lágrimas caíram de seus olhos. Souta já estava quase do tamanho dela de forma que soube aninhá-la em seus braços de forma confortável. Eles ficaram em silêncio, Kagome apenas sentia a mão do irmão passando de leve pelo seus cabelos. Os soluços foram ficando menos frequentes e ela conseguiu controlar os nervos novamente. Não iria despejar todas as suas preocupações num garotinho de treze anos. Souta não precisava ouvir aquilo. Ele ia ter de se contentar com a versão resumida.

- Olha, Souta... – começou Kagome – Eu não vou poder te ajudar nesse trabalho hoje eu...

- Claro, irmãzinha, eu me viro! Pode deixar!

Kagome esboçou um sorriso no canto da boca e continuou.

- Eu e Ichiro brigamos... – e ao perceber a expressão de preocupação que se formava no rosto de Souta, emendou – mas nós vamos resolver isso, não se preocupe! Eu vou ficar bem, prometo. Amanhã eu venho aqui e a gente conclui o seu trabalho.

- Não se preocupe com isso, irmãzinha. Sério!

Ela acenou com a cabeça agradecendo e tornou a olhar para o garotinho. Souta estava se tornando um rapaz de quem Kagome iria se orgulhar no futuro e isso a animou um pouco. A única coisa que a deixava preocupara era o fato de ele depositar em Ichiro certezas que ainda não eram verdadeiras. Kagome sabia que Souta acreditava piamente que Inuyasha havia reencarnado naquela época, mas pensando racionalmente era impossível afirmar com autoridade aquela possibilidade. Ainda mais agora que parecia, ao menos para Kagome, que Ichiro não lhe dirigiria mais a palavra. Só de pensar naquilo, ela sentiu mais lágrimas se formando em seus olhos, mas se controlou e esforçou-se para sorrir para Souta.

Foi quando viu que o irmão apontava algo que parecia estar atrás do ombro dela. Kagome virou-se rapidamente, mas logo percebeu que Souta não apontava algo que estava atrás dela.

Era algo que estava apoiado no ombro dela.

- Que inseto é esse, Kagome-nee-san? – perguntou ele – Nunca vi desse tipo por aqui.

Kagome segurou o pequeno besouro entre os dedos, mas ele escapou dois segundos depois subindo pelo pescoço dela em direção à alguma coisa muito específica.

Ela teve tempo de ter uma reação após descobrir o que se passava. Empurrou o inseto para longe com a mão direita e ele foi jogado no chão aos seus pés. Kagome então concentrou-se e colocou sua palma acima do pequeno corpinho artrópode que jazia inconsciente. Uma fraca luz lilás saiu de sua mão e Souta arregalou os olhos. Quando Kagome tirou a mão para verificar o lugar onde havia estado o besouro confirmou suas suspeitas.

Aquele animal que ela havia acabado de matar era um youkai. E estava atrás da jóia.

- Souta, vá pra casa. – ordenou ela – Eu ficarei aqui mais um pouco.

- V-você vai ficar bem, Kag...?

- Vou, Souta, mas você tem que ir. – interrompeu Kagome procurando transmitir tranquilidade. – Até amanhã, certo?

Ela viu quando o irmão apanhou a lanterna que havia jogado no chão e a ofereceu. Aceitou de bom grado e esperou ouvir o barulho da porta de madeira se fechando. Ela se levantou e olhou atentamente para o fundo escuro do poço. E então pousou a mão esquerda na jóia de quatro almas, apertando-a firmemente e ligou a luz mirando onde a sua vista alcançava.

Alguma coisa estranha estava acontecendo, de fato. Alguma coisa real e não meras suposições que ela guardava para si mesma sobre almas reencarnadas. Era maior do que isso. O que explicaria a vinda de um youkai ao seu mundo através do poço? Por menor que fosse, Kagome já podia considerá-lo uma ameaça. Se um demônio qualquer tomasse posse da jóia sem que ela percebesse isso desencadearia uma tragédia sem proporções. Ela observou mais atentamente o fundo do poço, mas nada viu. Parecia-lhe que, por hora, havia sido só aquele pequeno youkai. No entanto, Kagome não descansou enquanto não chegou cada cantinho das redondezas. Precisava ter certeza. Aquela era a primeira vez em três anos que precisava usar seus poderes de sacerdotisa. E ela vinha tendo a certeza de que eles nunca mais seriam necessários.

Agora aquela certeza havia sido abalada.

Naquele momento, Kagome colocou suas emoções de lado. Precisava se preparar desde já. Não iria à Era Feudal para descobrir se Inuyasha havia reencarnado; não iria para pôr um fim às suas angústias fúteis. Precisava honrar seu papel enquanto sacerdotisa; precisava selar de uma vez o destino dos dois mundos e garantir a segurança de ambos.

Precisava voltar quinhentos anos no tempo. O quanto antes.


Já passava do meio-dia quando Kagome chegou em casa. Por sorte havia uma estação de metrô muito próxima ao apartamento onde morava de forma que ela não precisou andar a pé por muito tempo.

Ainda estava magoada e triste com tudo que acontecera entre ela e Ichiro, mas enquanto caminhava em direção ao seu destino já separava mentalmente tudo que iria precisar para sua jornada. Kagome não sabia que tipo de problema a aguardava do outro lado do poço, mas da última vez suas pendências na Era Feudal haviam demandado bastante tempo. Sabia que podia até ter de trancar um semestre da faculdade, afinal, sabe-se lá quantos dias, semanas ou meses ela iria ter de passar fora. E considerando que a energia em volta do poço estava instável o tempo poderia não obedecer seu curso normal. Podia ter a sorte de só ficar fora algumas horas pra quem estava na Era Atual, mas também podia ter o azar de o tempo passar muito mais devagar na Era Feudal do que na época atual. Buscando ser otimista, Kagome gostava de pensar na segunda possibilidade, apesar de se preparar para o pior ao mesmo tempo. Se por um motivo ou outro um youkai atravessasse o poço e tomasse posse da jóia que ela protegia não haveriam mais amigos e família pra quem voltar, nem muito menos uma universidade para estudar. Seria o fim de tudo.

Entrando no elevador amaldiçoou a lentidão da subida e agradeceu por não ter que parar em nenhum outro andar. Kagome avançou para dentro do apartamento e seguiu direto para o seu quarto. Sentou-se à escrivaninha e alcançou um papel em branco que estava ali próximo.

Teria que comprar algumas coisas simples como comidas fáceis de transportar e outras mais complexas como um arco e uma flecha. Uma vez que chegasse a um vilarejo seria muito fácil conseguir tal arma, mas quem garantia que a vila que conhecera ainda estaria intacta? Kagome não podia contar com a sorte, por isso fez o possível para se lembrar de tudo o que poderia vir a precisar numa situação de emergência.

Ela guardou a folha de papel numa gaveta e começou a parte mais difícil: adiantar pelo menos todos os trabalhos que tinha de entregar na semana seguinte. Trabalhou incansavelmente até as três e meia da tarde, quando se lembrou que havia pulado o almoço. Parou por meia hora e comeu um copo de macarrão instantâneo com um ou dois goles de suco. E voltou a pesquisar, desenhar e trabalhar.

Era bom se manter ocupada porque pelo menos Kagome tinha uma boa desculpa para não pensar no momento em que inevitavelmente encontraria Ichiro na Toudai. Toda vez que seus pensamentos a transportavam pra essas hipóteses sentia um frio na espinha. No entanto, havia aprendido a se controlar. Já tinha suportado a imensa dor de perder Inuyasha e de ter que abandonar Sango, Miroku e Shippou. Não havia praticamente nada que Kagome não pudesse dar conta com um pouco de paciência e auto-controle.

Mesmo assim, todo esse ritual que ela estava tão empenhada a seguir foi por água abaixo quando ouviu o barulho do celular tocando. E qual não foi sua surpresa ao descobrir que a chamada vinha de Zhang. Kagome sabia que a amiga deveria estar precisando conversar um pouco, afinal, ela estava começando a dar os primeiros passos com o namorado, Hideki. Teve de engolir em seco antes de atender porque de alguma forma, imaginava nos seus sonhos mais loucos que Ichiro havia furtado o celular da irmã e que ouviria a voz dele do outro lado da linha.

- A-alô? – perguntou Kagome, torcendo para o melhor.

- Kagome-chan?

Respirou aliviada, finalmente. Ichiro não tinha aquela voz doce e melodiosa nem muito menos a chamaria daquela forma.

- Sim, sou eu, Zhang! – respondeu ela sentindo-se meio idiota por ter imaginado que podia ser Ichiro – E então, como você está? Como foi a praia com o Hideki?

- Aaah, Kagome, foi perfeito! Hideki vem sendo tão bacana comigo, mas sabe... – e de repente a voz da amiga mudou para um tom mais sério – Não foi exatamente para isso que eu liguei.

Claro que as coisas estavam indo bem demais para ser verdade. Alguém tinha que fazer o favor de lembrá-la do terrível encontro fracassado com Ichiro. Kagome se levantou da cadeira em que estava e começou a andar em círculos pelo quarto.

- Certo... E sobre o que você quer falar então? – respondeu ela, disposta a fingir que não sabia de nada até o último segundo.

- Ah, Kagome, vamos. Ichiro me contou. – Zhang foi direto ao ponto – Quer dizer, eu percebi por que estava estampado na cara dele que alguma coisa estava errada.

Do outro lado da linha, Zhang ouviu a amiga suspirar alto. Kagome revirou os olhos e tentou não chorar mais. Ela se jogou na cama e usou a mão livre para massagear a têmpora.

- É, pois é. – disse ela, vagamente – Não deu muito certo, mas...

- Eu sei. – interrompeu Zhang – Você não quer falar sobre isso e não quer comprometer nossa amizade por problemas que você teve com meu irmão e blá blá blá. Eu só queria que você soubesse que eu estou aqui pro que você precisar, tudo bem?

Era realmente admirável que Zhang estivesse sendo uma amiga tão preocupada e dedicada, mas ao mesmo tempo ela tinha falado tudo. Não era certo conversar sobre Ichiro com ela; não quando a coisa toda estava tão recente. Iria deixá-la fora disso por enquanto, até por que tinha outras responsabilidades que a impediam de dar atenção à esse pequeno problema.

- Eu estou bem, sério. – respondeu Kagome – Só que agora eu tenho que dar uma estudada aqui, estou adiantando algumas coisas pra semana que vem.

- Claro, claro! Como quiser. – e apesar do tom animado de Zhang, Kagome ainda notava que a amiga não havia engolido sua desculpa – Bom, então nos vemos segunda, certo?

- Até segunda! E se cuide. – desejou Kagome antes de desligar o aparelho.

Tentou voltar aos estudos, mas falhou miseravelmente. Olhou o relógio e notou que já eram quase seis da tarde. Fisicamente, sentia-se esgotada, afinal, não havia dormido nada na noite anterior e sua tarde havia sido completamente dedicada aos estudos. Com o telefonema de Zhang, seus pensamentos voaram para longe, espalhando-se em mil hipóteses diferentes. Todas elas envolvendo Ichiro, obviamente.

Declarou encerrada sua noite de estudos quando sentiu o estômago roncar novamente. Parecia-lhe que aquelas refeições instantâneas eram feitas de nada por que Kagome sentia a mesma fome de horas atrás. Suspirou inconformada e partiu rumo à cozinha antes de ter a idéia que mudou seu humor completamente.

Se não podia falar com Zhang sobre o ocorrido por que não ligar para Sam?

Era perfeito. Samantha era a mais velha das três garotas e sabia muito bem como transformar as piores experiências de vida de alguém numa boa piada. Kagome tinha certeza que conversar com ela melhoraria as coisas. Como não havia pensado naquilo antes?

Tinha certeza de que Sam estava em casa, era o que ela sempre fazia depois de uma grande festa como a do dia anterior. Provavelmente sairia de novo naquela noite, mas como ainda era muito cedo, Kagome concluiu que ela ainda estaria em casa, no máximo começando a se arrumar. Resolveu se apressar mesmo assim.

Entrou no banheiro se despindo rapidamente para um banho rápido e mandou uma mensagem de texto para a amiga avisando que estava a caminho. Penteou os cabelos às pressas, prendendo-os num coque desajeitado e colocou a primeira roupa que seus olhos captaram no closet. Uma blusa bege de gola alta e mangas com sua saia mais confortável, plissada de um tom escuro de vinho. Considerando que o dia estava esfriando mais à noite, Kagome resolveu se prevenir aquecendo as pernas com meias pretas grossas de lã e enfiou os pés na sua sapatilha mais confortável.

Não era a garota impecável da noite anterior, mas quem precisa estar impecável para chorar as mágoas no ombro de uma amiga?

Pegou a mesma bolsa que usara mais cedo e saiu do apartamento.


Samantha Campbell era uma das poucas pessoas que Kagome conhecia que morava numa casa moderna próxima a uma movimentada estação de metrô. A casa havia sido comprada pelos seus avós maternos não muito tempo atrás como um presente pela merecida admissão da neta na Universidade Toudai. Seu pais moram na Escócia, país de origem do Sr. Campbell, mas pensam que o ensino japonês é o melhor para a filha de forma que Sam morará sozinha na pequena casa até concluir seus estudos.

Ao contrário de Kagome, que não via muitas vantagens em morar sozinha, Sam adorava ter seu próprio canto longe da influência de seus parentes mais velhos. Ela sempre dizia que tinha a liberdade que sempre quis morando em Tóquio, por mais que seus avós morassem num bairro próximo e a visitassem de vez em quando. Sam era uma anfitriã nata e adorava receber o grupo ali por mais que o ponto de encontro de todos fosse na casa de Zhang. Sendo assim, Kagome se sentia completamente à vontade em chegar na casa da amiga sem avisar antes.

Quando estacionou o carro em frente à entrada da residência Kagome notou, com alívio, que as luzes do andar de cima estavam acesas. Ela estava em casa, afinal. Desceu do carro eufórica e tocou a campainha três vezes reprendendo sua ansiedade no mesmo instante.

Ela viu as luzes da escada se acenderem através da cortina que cobria as paredes de vidro e ouviu risos vindos da escada. Parecia que Sam estava com companhia. Kagome não havia parado pra pensar nessa hipótese, mas não sabia quem poderia estar na casa da amiga se ela e Zhang eram as únicas amizades que ela havia feito até o momento.

Kagome ouviu passos se aproximando e percebeu que a voz era grave demais para ser de uma mulher. Sam estava ali então com... Um cara?! Óbvio! Como não havia pensado na possibilidade sendo Samantha uma das garotas mais cobiçadas do campus? Mas antes que desse meia-volta e tivesse tempo de entrar no carro e sair arrancando, a porta da casa se abriu e o dono da voz se revelou deixando Kagome boquiaberta.

Porque ali, enxugando o cabelo preto e ligeiramente molhado com um ar de quem havia acabado de sair do banho, estava Kayri.

- Ei, gatinho! – gritou outra voz que só podia ser de Sam ao fundo – A pizza chegou?

Nenhum dos dois conseguia esboçar nenhuma reação. Kayri abrira a porta e permanecera na mesma posição, segurando a maçaneta enquanto Kagome, que havia levado as mãos à boca, estava igualmente imóvel.

Quando a voz de Sam ao fundo se tornou mais próxima foi que Kagome percebeu que tinha que dar início às suas perguntas.

- O qu-q...! K-K-Kay...?! Voc-cês d-dois?! – Kagome balançou a cabeça tentando colocar seus pensamentos em perspectiva – O QUE É ISSO?!

- Kagome, CALMA! – falou Kayri pousando a mão no ombro de Kagome – E-eu posso explicar...

- Você sabe que essa frase quer dizer exatamente que você NÃO TEM o que explicar, não sabe?!

- Mas que diab... – Sam já tinha corrido para a porta ao escutar os gritos e ficou ao lado de Kayri quando arregalou os olhos ao perceber tudo – KAGOME?!

Kagome levou meio segundo para processar o fato de que Sam estava usando apenas uma toalha branca.

- MEU DEUS DO CÉU, O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! – gritou Kagome puxando os cabelos, confusa – O q-q-q-q-q-q-q-q-ue é is-s-s-so afinal?!

- E O QUE É QUE VOCÊ VEIO FAZER AQUI? – berrou Sam em resposta.

- EU?! EU?! – retrucou a amiga enquanto Kayri levava as mãos à cabeça – COM CERTEZA não vim fazer NADA parecido com o que VOCÊS DOIS acabaram de fazer!

- E-EU JÁ DISSE QUE NÃO É NAD...

- CALEM A BOCA! – interrompeu Kayri – Vocês duas, caladas!

As duas garotas viraram-se para ele imediatamente e cruzaram os braços num ato que pareceu comicamente ensaiado. Kayri levou um certo tempo até entender que as expressões impacientes das duas indicavam que a palavra era dele.

- Er.. Er... – balbuciou o garoto, confuso – Oi, Kagome, e aí?

- Há quanto tempo? – respondeu ela, sem descruzar os braços.

- Na verdade não, a gente se viu ontem mesmo e...

- HÁ QUANTO TEMPO... – enfatizou Kagome olhando de um para o outro acusadoramente - ...isso vem ocorrendo?

- Não existe isso, Kag...

- Esperaí, Sam. – interrompeu Kayri, aproximando-se dela – Acho que tá na hora da gente parar com essa brincadeirinha.

Samantha puxou a toalha com força contra o corpo e formou-se uma expressão de receio que Kagome nunca tinha visto na amiga. Ela era sempre muito forte e decidida, mas daquela vez estava recuando... Porque?

Ela viu que a amiga ia falar alguma coisa, mas foi Kayri quem continuou sem esperar pelo consentimento dela.

- Eu e Sam estamos meio que juntos... – falou ele – Já faz algum tempo.

A coisa soou mais bizarra do que Kagome preveu quando jogada assim sem rodeios. Ela olhou para Samantha tentando entender se aquilo era realmente sério ou se só se tratava de uma pegadinha dos dois. Era bem provável, não? Eles eram os mais brincalhões do grupo, podiam estar só gozando com a cara dela.

Mas como eles saberiam que ela estava a caminho? Kayri morava no outro extremo da cidade, não teria tempo de atravessar aquele trânsito infernal só para pregar uma peça em Kagome. Posta assim, a coisa toda não fazia o menor sentido.

Suas suspeitas se confirmaram quando ela viu os olhos de Sam brilharem para Kayri e ele passou um braço pelo ombro dela instintivamente protegendo-a de qualquer ato recriminatório que Kagome pudesse vir a ter.

- Isso faz... Muito tempo? – perguntou Kagome.

Dessa vez foi Sam que tomou a palavra.

- Na verdade... nós começamos nas primeiras semanas de aula.

- PRIMEIRAS semanas?! – espantou-se a amiga – Onde eu estava que perdi isso tudo?!

- Oras, no dia da festa, por exemplo – falou Kayri – a festa em que Zhang e Hideki ficaram, lembra? Eu e Sam ficamos.

- Ficaram?! M-mas ela tinha ficado com outro cara! – retrucou Kagome apontando um dedo para Sam.

- Sim, ela tinha. – confirmou Kayri – Eu também tinha ficado com outra garota, mas no fim da festa quando você já estava entretida com Ichiro, Zhang com Hideki e Johnny com uma outra garota lá... Nós nos atracamos no banheiro.

- Meu Deus. – falou Kagome tentando se lembrar de quando viu Sam na festa – Isso foi enquanto eu e Ichiro estávamos entornando doses e conversando e... Logo antes de você desabar no sofá!

- Isso! – confirmou Sam – Logo antes. E no outro dia quando eu tive que sair logo depois do almoço era justamente pra conversar com Kayri e saber... O que a gente ia fazer, afinal.

- E-e... E o que vocês fizeram? – perguntou Kagome apesar de sentir medo da resposta.

Sam e Kayri se entreolharam cada um com um sorriso mais sacana que o outro e Kagome soube antes mesmo dos dois abrirem a boca qual seria a resposta que ela iria ouvir.

- Ué... Continuamos ficando. – respondeu Sam.

- E transando ocasionalmente.

- KAYRI! – Sam fingiu irritação enquanto dava mais um tapa na cabeça do garoto – Sem detalhes!

- É que você é tão boa que às vezes eu sinto vontade de sair contando pr...

- BLEARGH, PAREM COM ISSO! - interrompeu Kagome, tapando os ouvidos – ECA, ECA, ECA, na minha frente NÃO por favor!

- E você tá toda chatinha por que, afinal? – perguntou Sam, abraçando-se com Kayri – Pensei que Ichiro já tinha suprido todas as suas necessidades, haha.

Foi quando toda a descontração do momento sumiu e Kagome teve de enfrentar a dura realidade que explicava toda a razão dela estar ali, aparecendo de surpresa na casa da amiga. Sam soltou-se de Kayri assim que viu a expressão da amiga mudar e correu para abraçá-la, tentando imaginar o que poderia ter acontecido.

- Kagome? – perguntou Sam com a voz melodiosa.

E foi só ouvir o tom de voz da amiga mudar e perceber que ela estava disposta a ajuda que Kagome caiu no choro mais uma vez. Sam abraçou-a com força e ela pôde ver Kayri socando a própria mão, irritado.

- Se aquele filho da puta tiver feito alguma coisa com você, Kagome...

- Não, Kayri, não é disso que ela precisa agora – repreendeu-o Sam enquanto sentava-se com Kagome no sofá.

- Mas Sam...!

- Kayri! – continuou ela – Você não vai encrencar com ninguém ouviu? Muito menos dentro da Toudai.

- Eu não ia encrencar, Sam, mas se eu e os meninos tivéssemos sido mais... Enfáticos, digamos assim... Kagome não estaria chorando agora!

- E-está tudo bem, Kayri. – soluçou Kagome ao passo que o amigo se sentava ao seu lado – Na verdade o que ele fez foi correto até...

- E como isso implica em você acabar chorando? – perguntou Sam, confusa.

Kagome respirou fundo e deixou seu corpo afundar no sofá lentamente enquanto explicava tudo o que havia acontecido no dia anterior. Como Ichiro havia acordado em seu apartamento e preparado um banquete. E como ele havia pedido para que ela fosse em um encontro romântico oficial com ele. Depois mudou para o encontro com Ayumi e como dali pra frente as coisas só pioraram culminando na discussão gigantesca que eles tiveram e enfim... Nas revelações que tanto chocaram Kagome.

Kayri e Sam ouviram atentamente sem fazer muitas interrupções e Kagome não deixou passar nem um mísero detalhe de tudo que Ichiro havia contado a ela. Como e porque ele costumava ter um estilo de vida completamente diferente, sua total inexperiência em relacionamentos sérios, suas inseguranças, seu envolvimento com drogas... E como ele havia dito com todas as letras que não dirigiria mais a palavra à Kagome.

Foi quando ela terminou seu relato engolindo a segunda fatia da pizza que havia chegado há cerca de vinte minutos.

Kayri e Sam permaneceram calados durante alguns segundos até que Sam tomou a palavra depois de dar um gole refrescante de seu copo de coca cola.

- É isso? – perguntou ela – Quer dizer... É isso?

Kagome cruzou os braços sem acreditar no que ouvia.

- Sim, Sam, SÓ isso. – respondeu ela ironicamente – Ele SÓ não vai falar comigo nunca mais.

- Francamente, eu digo isso a Sam todo dia que passa sem que ela finalmente me peça em namoro. – falou Kayri – Duas horas depois estamos os dois no meu quarto. Ou no dela.

- Você ainda não pediu ele em namoro? – perguntou Kagome subitamente mudando de assunto – Sério mesmo?!

- ER... HM... SIM, onde estávamos? Ichiro?!

- Ela sempre muda de assunto. – disse Kayri revirando os olhos – Sim, estávamos na parte em que esclarecemos pra Kagome que Ichiro não é a pior pessoa do mundo.

- Francamente... Ele não está nem perto. – finalizou Sam.

Kagome parou de repente vendo as coisas de uma nova perspectiva. Talvez, só talvez, estivessem ela e Ichiro exagerando um pouco.

- Vocês realmente acham isso? – perguntou ela – Agora estou falando com Kayri que não tem uma torcida declarada a favor de Ichiro.

Sam resmungou baixo, ofendida enquanto bebia mais um pouco de refrigerente.

- Eu acho que ele fez muita merda na vida – começou Kayri mantendo o tom de voz calmo e tranquilo – e também acho que ele está gostando muito de você. Mais do que ele estava habituado a gostar de uma garota...

Um minuto se passou enquanto as frases de Kayri flutuaram no ar até serem completamente absorvidas por Kagome.

- E... – perguntou ela que ainda sentia necessidade de ouvir mais.

- E... – continuou o amigo – Ele tem muito medo de ferrar tudo com você, que é uma garota que ele está levando a sério. Diferente de todas as outras com quem ele já esteve.

Kagome soltou uma risada descrente.

- Até parece... – ironizou ela tentando segurar a voz chorosa.

Samantha se tornou impaciente e pegou uma mão de Kagome, respirando fundo, obviamente se preparando para dizer alguma coisa que poderia chocá-la.

- Kagome, está na hora de você assumir que vocês exageraram. – Kayri soltou um "exatamente" assim que Sam terminou a primeira frase e ela se sentiu encorajada a continuar – Acho muito fofo da parte dele tentar te afastar pra te proteger de um mal que ele pode vir a te causar, mas você percebe? Percebe como vocês estão tentando se defender de algo que não existe?

Definitivamente Kagome não havia pensado nessa possibilidade e se surpreendeu pela milésima vez naquele dia quando a considerou de fato. Sam e Kayri estavam simplificando as coisas e elas já não pareciam mais insolúveis. Na verdade estava até começando a pensar em falar com Ichiro, ter uma nova conversa com ele. Quem sabe fazer ele ter um pouco de fé em si mesmo?

- Sabem de uma coisa? Vocês tem toda a razão. – concluiu Kagome. Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos e deu um meio sorriso.

- Aliás, Kagome - começou Kayri - em qual relacionamento no mundo nós temos garantias exatas de que tudo vai dar certo?

Sam meneou a cabeça concordando.

- Exatamente... - ela virou-se para Kagome e sorriu - Isso não existe. Vocês dois tem que se dar essa chance e arriscar.

- Só para deixar bem claro – falou Kayri – eu continuo não gostando desse cara.

- KAYRI! – berrou Sam – Assim você não ajuda!

Mas Kagome estava tão aliviada depois da conversa que só conseguiu dar risada e se esquecer de qualquer problema envolvendo os acontecimentos da manhã. Ela iria conversar com Ichiro. Talvez precisasse da ajuda de Zhang para isso, mas não importava. Tudo iria se resolver.

Kagome conseguiu se distrair durante toda a noite depois de perguntar mil vezes se não ficaria segurando vela para o mais novo casal do grupo. Sam e Kayri praticamente obrigaram-na a ficar e eles assistiram um bom filme de comédia até que, por volta das onze da noite, Kagome caiu no sono com Sam alisando suas madeixas levemente e Kayri lavando alguns pratos na cozinha.

- Ei, você aí lavando a louça! – sussurrou Sam caminhando para onde estava Kayri – Melhor que Kagome durma aqui hoje, não acha?

Kayri terminou de lavar um último copo e olhou para Samantha, fazendo bico.

- Sabia que você ia fazer essa cara. – Sam revirou os olhos e cruzou os braços – A gente passa o próximo domingo juntos, eu prometo.

- Bah, eu sei. – ele abraçou Sam e deu um beijinho na testa dela – Ela tá precisando da gente. Ajudar amigos antes de satisfazer desejos pecaminosos, já sei!

Sam riu baixinho para não acordar a amiga e Kayri se adiantou indo em direção à ela tomando-a no colo. Eles subiram os degraus que davam passagem para os dois quartos do andar de cima e deitaram Kagome na grande cama de casal de Samantha. Ela estava com um sono pesado e não parecia que ia acordar nem tão cedo.

E, de fato, teve uma longa noite de sono.


[ Samantha prendeu os longos fios castanhos num nó no alto da cabeça enquanto ele a observava com atenção. Ela ficava ainda mais linda com o cabelo preso de qualquer jeito. Nem precisaria passar meia hora se arrumando como geralmente fazia.

Ela soltou um bocejo e logo em seguida piscou os olhos, suas longas pestanas enfeitando os olhos verdes.

- Então... – falou ela com os traços mínimos de sotaque escocês que só ele conseguia notar – A gente se vê na segunda?

- Ahn? – ele se perdeu pensando nas horas que passaram juntos, mas respondeu – Sim, claro... Segunda. Depois de amanhã.

Ela gargalhou, do jeito cativante que sempre carregava consigo, achando graça em alguma coisa que ele falara, mas que não tinha a intenção de ser uma piada. Sempre que ela fazia isso, Kayri se intrigava. Não precisava de esforço nenhum para ser engraçado, legal ou divertido quando eles estavam juntos. Bastava ser ele mesmo e ela riria de suas piadas e de suas não-piadas também.

- Do que você tá rindo, hem? – perguntou ele, quando percebeu que Sam não ia explicar seus motivos.

Ela arrumou a alça do vestido que insistia em cair e controlou as risadas.

- É que às vezes você também é tão dramático... – falou ela enquanto Kayri já começava a protestar – É sério! Você fala "depois de amanhã" com uma vozinha tão triste que parece que a gente vai passar dez anos sem se ver.

Ele soltou um sonoro "aaaah, então foi isso" e passou a mão pelos cabelos, ligeiramente envergonhado. Eles ficaram em silêncio por um ou dois segundos.

- Eu poderia ser romântico agora, sabe? – falou Kayri ao que Sam ergueu as sobrancelhas em tom de surpresa – Poderia dizer algo como: "apenas algumas horas parecem anos se eu não te ver".

- Poderia... – concordou ela sem perder o bom humor, pois sabia que ele tinha de estar brincando. Kayri não era romântico... Certo?

- Eu poderia te pedir em namoro. – falou ele, ao que pareceu para Sam, do nada.

Ela parou, pensativa, um vinco formando-se em sua testa e os lábios curvados num meio sorriso. Aonde ele estava querendo chegar, afinal?

- Sim, poderia... – disse ela – Eu poderia aceitar.

- Poderia. – respondeu Kayri enquanto passava uma mão pelo ombro dela.

O motivo pelo qual estava esperando o pedido de namoro partir de Sam era, na verdade, não muito diferente das razões que Ichiro tinha para evitar Kagome. Não que Kayri estivesse fazendo algum esforço real para evitar Samantha já que eles haviam ficado juntos durante quase todos os dias depois daquela festa. Haviam se tornado uma espécie de "amigos com benefícios". Não havia praticamente nada que ela não soubesse a seu respeito e vice-versa.

As coisas estavam boas do jeito que estavam, certo? A partir do momento que eles começassem a namorar viriam os ciúmes e suas experiências anteriores mostravam que ciúmes destruíam qualquer relacionamento.

Ultimamente, no entanto, estava muito difícil de negar que o que eles estavam tendo era, de fato, algo mais sério. Kayri não havia ficado com mais ninguém desde então, mas mais importante que isso: ele não havia se interessado por mais ninguém. O lógico seria começarem a namorar, certo?

Até porque, ele não estava nem um pouco interessado em deixar os abutres da Toudai sobrevoarem Sam por muito mais tempo.

- Samantha Campbell... – chamou ele enquanto os pelos da nuca de Sam se arrepiavam – e se eu te pedir em namoro... Hipoteticamente?

Ela sorriu de orelha à orelha e apoiou o indicador no queixo, fingindo ponderar minuciosamente a questão.

- Então... Hipoteticamente eu aceitaria.

- Certo. – afirmou ele enlaçando-a gentilmente pela cintura – Então, estamos namorando... Hipoteticamente.

- Claro. – afirmou Sam agarrando o pescoço de Kayri.

E foi aí que ele inclinou a cabeça e beijou-a de uma forma diferente. Uma mão dele alcançou seus cabelos e puxou-os levemente, a outra permaneceu na cintura, segurando-a firme como quem não quer soltar. Ela não sabia dizer o que havia mudado exatamente, mas talvez só o fato de se imaginar como namorada de Kayri fosse suficiente. Quando o beijo terminou eles se distanciaram um pouco e Sam teve a certeza de que estava parecendo com Kagome tamanha era a sua carinha de boba apaixonada.

- Você tem que ir agora, não tem? – perguntou ela fazendo beicinho involuntariamente.

- É... Você prefere ficar com a Kagome, não? – Sam riu e Kayri continuou brincando – Sério, Samantha? Não imaginava nunca que você fosse lésbica.

- Ah, cala a boca. – respondeu ela dando um tapinha da cabeça dele.

Kayri deu uma risada sonora e acenou para ela gritando um "se precisar, me ligue" e entrou no carro. Era tão típico dele aquela frase. "Se precisar, me chame" ou "se precisar, eu to aqui". Sempre tão prestativo e fofo. Talvez Sam tivesse que encarar os fatos agora que eles estavam namorando: ela tinha se apaixonado.

E quando ele já tinha dado a volta com o carro e estava abaixando o vidro pra acenar de novo ela gritou:

- Eu só mudo meu status de relacionamento no facebook se você mudar o seu primeiro!

- Aaah é?! – gritou ele – Existe alguma opção que diz "namorando hipoteticamente com"?

Sam balançou a cabeça.

- Idiota! – ela abriu a porta da casa para entrar – Eu acho bom ter e se não tiver...!

Kayri penteou os cabelos com os dedos e piscou um olho pra ela enquanto acelerava o carro. Ele ligou o som numa estação qualquer e virou-se para Sam de novo. Ela estava parada com metade do corpo coberto pela porta e uma brisa leve sacudindo o vestidinho e os fios que se soltavam do coque. Ele tinha de dizer alguma coisa, não tinha?

- Tchau, namorada!

E então ele desapareceu pela rua com um sorriso confiante no rosto porque, afinal de contas, ele havia conseguido deixar Samantha Alice Campbell completamente corada de vergonha.

E aquele era um feito e tanto. ]


- Facebook? Nada. Twitter? Nada. Orkut? Nada. – murmurrou Ichiro para si mesmo. Ele tomou um gole da xícara de café que havia preparado há pouco tempo. Estava horrível.

Tinha dedicado as últimas três horas de sua vida fazendo uma pesquisa detalhada por entre todas as redes sociais em que Kagome estava. Estava procurando um sinal de um cara que ele nem sabia quem era. Só tinha uma única pista: um nome que ele tinha quase certeza que era um apelido porque, convenhamos, o significado de Inuyasha não é algo que chama a atenção de uma mãe ou um pai com o mínimo de senso do ridículo.

"Quem é esse maluco, afinal de contas? Deve ser um monge ou algo assim pra não ter uma conta no facebook." Pensou ele enquanto desistia olhando para a tela frustrado.

Ele tinha até procurado um Inuyasha que estudasse em alguma faculdade japonesa. Ousou até procurar em universidades de outros países, afinal, nunca se sabe. Entretanto, tudo o que ele achou foi uma notícia de um cara que havia dado esse nome ao filho devido a uma aposta com a esposa. A mulher parecia realmente desapontada.

Chamar o filho de cão demônio não é moleza.

Ichiro esticou-se da confortável poltrona de couro e resolveu praticar algumas músicas no violão para passar o tempo. Quando se desconcentrou de sua busca incessante reparou na música alta que tocava, uma letra pop que ele considerava irritante vinda do quarto de Zhang.

- Tinha que ser a fedelha! – exclamou pra si mesmo, irritado – MASAGAMI ZHANG, DESLIGA ISSO!

Ichiro não esperou resposta pois sabia que ela provavelmente não tinha escutado uma só palavra do que ele gritara. Levantou-se irritado temendo que ao se aproximar mais da fonte de som seus tímpanos estourassem. Atravessou o corredor e entrou no quarto da irmã sem bater.

Ele mal teve tempo de apreciar as letras incríveis da música antes de berrar para Zhang.

- ABAIXA. ESSE. SOM. – reclamou ele, as sobrancelhas formando uma expressão ameaçadora.

Mas é claro que Zhang não se intimidaria. Ela estava feliz demais por tudo em sua vida estar dando tão certo, apesar de quê as coisas não estivessem sendo tão fáceis assim para ele. Por essas e outras razões que a resposta dela aos berros do irmão não foi abaixar o volume, como muito agradaria Ichiro, mas sim virar-se para ele dançando esquisito e cantando a letra da música.

- Don't be so quick to... WALK AWAY! Dance with me. – as coisas só pioraram quando ela puxou Ichiro esperando realmente que ele fosse dançar – I wanna rock your body... PLEASE STAY! Dance with me.

- Maldição, isso é aquele cara do N'Sync, né? – disse ele, soltando-se das mãos de Zhang em seguida – Me larga, eu não vou dançar isso.

- Porque? – perguntou ela fazendo um passinho constrangedor de sacudir os ombros – Você não gosta?

- GOSTAR? Zhang, você não pode estar falando sério. – ele cruzou os braços e sustentou a expressão mal humorada – Eu prefiro espetar meus ouvidos com um garfo do que escutar essa bosta.

- Pra sua informação – explicou ela enquanto mudava de passo cruzando um pé na frente do outro – Justin Timberlake é o artista pop de maior ascens...

- Blá blá blá, Justin Timberlake é um perdedor.

- ELE NÃO É, ELE NAMORA A BRITNEY SPEA...

- Outra perdedora. – interrompeu ele sem se importar se estivesse sendo irritante – Quer coisa mais chata do que isso? Um casal de retardados?

- Porque você tá tão chato hoje, hem? – respondeu ela correndo para abaixar o volume do som no computador – Sério, foi só o lance da Kagome?

Ele agradeceu internamente por não ter mais que escutar a música irritante e encostou-se na parede do quarto.

- Também, mas é que... – respondeu ele acabando de ter uma brilhante idéia – Eu também não consigo encontrar nada relacionado aquele cara... Inuyasha. O que eu te perguntei mais cedo, lembra?

Oras, Zhang era a única pessoa que ele suspeitava que sabia de algo a respeito do cara. Por que não brincar um pouquinho com isso e quem sabe ela não liberava alguma informação qualquer. Algo que o ajudasse... Alguma luz!

Ela ficou totalmente errada com a declaração dele e ainda a intrigava como Ichiro havia descoberto aquele nome. Será que Kagome havia mencionado alguma coisa sem querer? Será que ele tinha encontrado a fotografia?! Mas como?

"Ele fuçou as coisas dela hoje mais cedo quando esteve lá!" Pensou Zhang, compreendendo o que ela achava ser óbvio. "Eu não acredito que ele foi capaz disso!"

- Francamente, Ichiro, você dorme na casa dos outros de porre e ainda mexe nos seus pertences pessoais?! – ela recriminou-o com o olhar e botou uma mão na cintura, parecia uma mãe – E ainda fica tentando fuçar na internet depois, você não tem jeito!

Ela havia caído como uma patinha. Ali estava entregue de bandeja uma informação que, apesar de pouca, ele sabia exatamente como explorar.

- Eu não consegui resistir! – respondeu ele, esperando que seu joguinho surtisse efeito – Estava lá na minha frente! Não tinha como não reparar.

- E ela deixou essa fotografia assim, largada num canto? – questionou Zhang, começando a suspeitar de alguma coisa estranha – Não pode ser, Kagome tem um zelo muito grande por ela.

Fotografia? Tinha uma foto do cara nas coisas de Kagome?! Isso estava se tornando muito interessante, mas apesar de empolgado Ichiro tinha de dar um jeito de pensar numa resposta que fizesse Zhang falar mais sobre o que tinha visto.

- Pois é, mas... – respondeu ele, dando um tempo para raciocinar – Bom, estava lá. Significa que você também viu, não é? Sabe do que se trata?

- A fotografia? – respondeu Zhang, uma sobrancelha erguida em sinal de suspeita – Eu não sei, é uma foto, se trata de um retrato dela com um grupo e tem esse tal de Inuyasha no meio. Ela não me falou muita coisa e, olha Ichiro, você deveria deixar esse assunto quieto.

- Por que? – perguntou ele, temendo dizer mais do que devia e ser descoberto.

- Ela não te falou? – questionou Zhang, ligeiramente surpresa – É um assunto doloroso pra ela... Ele faleceu há três anos.

Por essa ele não esperava.

Por isso que Kagome parecia tão angustiada enquanto sonhava. Porque ele estava morto. Por isso ele jamais encontraria informação alguma sobre ele em nenhuma faculdade ou rede social. Por que o cara tinha morrido há três anos atrás. Certamente antes mesmo de prestar um exame pra entrar na universidade. Se ele considerasse que o cara tinha sido um amigo ou namorado – e essa última opção o perturbava – de Kagome, eles deveriam ter a mesma idade.

Ichiro estava começando a suspeitar que a morte dele deve ter sido traumática ou algo desse nível por que afinal de contas depois de três anos se você ainda tem pesadelos com o cara... A coisa toda não deve ter acabado muito bem não é.

Ele pensou num comentário neutro que fizesse com que Zhang conversasse mais um pouco. Não podia abusar demais dela, a garota era inocente, mas nada burra. Logo, logo ela descobriria que tudo o que estava falando para ele era novidade.

- É... Ela... Mencionou sim. – mentiu ele – Bom... Chocante de qualquer forma, não é?

- Há! Nem me fale! – respondeu ela, certa de que eles estavam falando sobre a mesma coisa – Quando eu vi o quanto aquele garoto parecia com você... Nossa! Esse negócio de sósias existe mesmo, não é?

- O QUÊ?! – espantou-se Ichiro recriminando-se um segundo depois.

- Ah, por favor, Ichiro, vai dizer que você não reparou o quanto aquele garoto e... – e então ela pareceu entender subitamente o que Ichiro esteve fazendo – Esperaí, você viu mesmo essa foto?

Mas Ichiro não respondeu imediatamente. Apenas ficou abismado com o que a irmã acabara de falar. Quer dizer então que existiu um cara na vida de Kagome que morreu há três anos e que era, ainda por cima, parecido com ele? Sinceramente, não sabia o que pensar disso tudo. Talvez fosse apenas uma enorme e gigantesca coincidência, mas de qualquer forma era assustador.

Ele voltou a prestar atenção em Zhang quando ela o sacudiu.

- ME RESPONDE, ICHIRO! – gritava ela quase puxando os cabelos – Como você soube sobre o Inuyasha?!

Ele não sabia se deveria ou não dividir o que tinha presenciado com Zhang. Talvez fosse melhor falar de uma vez e pedir a opinião dela também, mas não tinha certeza se a irmã iria ser suficientemente sensata. No momento ele se dividia em achar que tudo era uma tremenda coincidência e que Kagome era uma caçadora psicopata de homens parecidos fisicamente.

Kagome? Psicopata? Não. Ele descartou logo esse última opção, mas de qualquer forma decidiu abrir o jogo com Zhang.

- Calma aí, fedelha. – respondeu ele, segurando as mãos da irmã – Eu vou contar, calma.

- Ai, eu não acredito que você me fez falar tudo isso! – ela carregava um ar de culpa de partir o coração e estava roendo as unhas de preocupação – Meu Deus, a Kagome vai ficar com muito raiva de mim quando souber! Ela nunca mais vai me falar nada!

- SE ACALME! – gritou ele dando um tapa na mão da qual Zhang roía as unhas – E páre com isso, é feio. Kagome não vai ficar sabendo de nada. Eu não falo mais com ela, esqueceu?

Zhang acariciou a mão agredida e o olhou, magoada.

- Então por que você perde tempo com isso? – questionou ela, fazendo Ichiro se irritar – Você tem esse péssimo hábito de não se decidir direito. Não sei de quem você puxou isso.

- Tá me chamando de indeciso? – perguntou ele, prestes a ser mais rude do que o usual.

- Claro que tô! Você diz que não vai mais ter contato com a Kagome. Certo. Um segundo depois você tá investigando a vida dela como se isso fosse aceitável pra uma pessoa que não quer ter contato com outra.

- Eu tô preocupado com ela. Só isso. – ele encarou a dura verdade por um momento antes de voltar às questões práticas – Eu estava na sala do apartamento dela quando a ouvi meio que... Chorando. Ela ainda estava dormindo quando soltou esse nome: Inuyasha. E quando acordou parecia visivelmente chocada com a possibilidade de eu ter escutado algo.

Zhang deixou de recriminá-lo assim que ouviu a primeira frase. Era realmente muito legal da parte de Ichiro estar tentando se manter longe quando tudo o que ele queria era estar perto. E, apesar de parte daquela investigação toda estar acontecendo por pura curiosidade, ela sabia que ele estava verdadeiramente preocupado com Kagome.

E Ichiro era o tipo de pessoa que se preocupava mais com... Bem, com ele mesmo. E com Zhang, talvez.

Por essas e outras, ela resolveu ajudá-lo.

- Eu vou falar tudo o que sei, está bem? – ao sinal afirmativo de Ichiro, Zhang continuou – Quando fomos na casa de Kagome, naquele domingo depois da festa, lembra? Ela e eu subimos para arrumar algumas coisas, você ficou conversando com o irmão mais novo dela.

- O garotinho, sim... Souta, o nome dele. – e então a compreensão o atingiu – É CLARO! Ele deve saber de alguma coisa... Ah, sim, mas continue.

- Ok, você está realmente empolgado com isso. – ela riu e prosseguiu – Eu estava ajudando Kagome a empacotar tudo o que ela iria levar para o apartamento quando encontrei a fotografia. Haviam cinco pessoas nela: Kagome, uma garota da nossa mesma idade, dois garotos também com a mesma idade e um menininho que aparentava ter seus oito ou dez anos.

- Souta?

- Não. – negou Zhang, recordando-se da aparência peculiar das pessoas na foto – E acredito que eles estavam todos em algum tipo de evento cosplay por que as roupas eram muito... Tradicionais. Como que tiradas de algum filme de época ou algo do gênero. O garotinho com certeza estava usando uma fantasia por que tinha uma cauda felpuda atrás dele e as orelhas eram pontudas... Mas não consigo pensar num anime ou mangá que tenha um personagem daquele jeito... Engraçado.

- Ela disse que o cara morreu?

- Sim. Ela pareceu ser muito afeiçoada à ele... – Ichiro tensionou as sobrancelhas e Zhang soube imediatamente que ele estava com ciúmes.

- Meh. – ele limitou-se a resmungar baixo. O que não impediu a irmã de dizer o que realmente achava.

- Eu não quero atiçar ainda mais os seus ciúmes, mas creio que eles foram namorados. – Ichiro cerrou os punhos à menção daquele termo – Ou pelo menos ela gostou dele, sei lá. Eles se gostaram. Eu acho.

Ichiro ponderou um certo tempo sobre tudo o que tinha agora. Sabia que os sonhos com Inuyasha eram desagradáveis. Sabia que ele havia morrido. Sabia que ele era um cosplayer maluco e sabia que eles tinham, vá lá... Se gostado. Aquilo era tudo.

Ele deveria, teoricamente, sossegar naquele momento. Qualquer que fosse o mal acarretado por esse cara na vida de Kagome estava acabado. Ele havia morrido há algum tempo e fim.

Então por que ele se sentia tentado à interrogar Souta Higurashi sobre aquilo?

Por que raios ele queria saber mais?

Ichiro despediu-se da irmã com um abraço e tranquilizou-a dizendo que iria deixar o assunto quieto e empurrar para debaixo do tapete tudo o que sabia. Não faria diferença agora que ele e Kagome não estavam mais nem se falando. Zhang apenas acenou com a cabeça tranquila e colocou mais uma vez a insuportável canção pop pra tocar, embora num volume consideravelmente mais baixo visto que Ichiro foi bem enfático quanto a quebrar o computador caso ela prosseguisse com a bagunça musical.

Ele olhou para o relógio sentindo-se derrotado. Eram dez horas da noite. Crianças da idade de Souta provavelmente estariam dormindo e era de se estranhar que ele aparecesse àquela hora só para perguntar sobre um fantasma do passado.

Ele tinha de criar a ocasião perfeita. Uma que não gerasse suspeitas.

Mas como? Ele se lembrou que havia deixado Kagome sozinha, no meio da chuva e que ela provavelmente tinha entrado dentro de casa e decidido nunca mais falar com ele novamente. E com toda a razão. Ele tinha agido como um canalha mesmo que, no fundo, suas intenções fossem boas. Provavelmente sua reputação estava manchada até com o gato, Buyo.

Ichiro colocou um filme para rodar no computador e virou a tela na direção da cama. Caminhou até a cozinha e caçou alguma coisa para beber. Ele pretendia agarrar a primeira bebida alcoolica que aparecesse em sua frente, mas considerando a quantidade de whisky ingerida mais cedo e prezando pela saúde de seu fígado, optou por uma simples garrafa de água. Acompanhada do chocolate mais amargo que encontrou na bomboniére.

Apesar de tentar se concentrar na trama da película, Ichiro não conseguiu captar nem o enredo básico. Sua mente ainda trabalhava incessantemente tentando descobrir uma forma de conversar com o irmão mais novo de Kagome. E tudo isso sem chamar a atenção dela porque afinal de contas... Eles não estavam se falando.

Não estavam se falando há menos de um dia e ele já achava que tinham se passado semanas. Talvez por isso repetisse internamente que eles não estavam se falando.

Era desse jeito mesmo que as coisas iriam acabar? Os dois agindo como estranhos um com o outro?

Quando ele se recusou a continuar levantando essas questões, caiu no sono com papel de bombom espalhado pela cama e um copo d'água pela metade no criado-mudo.


A primeira coisa que deu alguma pista de onde ela se encontrava foi o cheiro forte de perfume feminino importado que parecia vir de alguém deitado ao seu lado. Kagome não demorou a abrir os olhos e reconhecer que a pessoa era Samantha. Ela sempre cheirava a alguma fragrância de notas fortes. Algo como o Nº 5 da Chanel ou outro do gênero.

Sam virou-se para Kagome e lhe deu um sorriso, não estava dormindo como ela havia pensado. Estava com os fones de ouvido escutando alguma música no iPod. Ela cantou o que pareciam ser os últimos versos da canção enquanto Kagome se espreguiçava lentamente. Ainda vestia as roupas do dia anterior e, apesar de ter pegado no sono sem querer, acordou sentindo-se renovada. Sam desligou o aparelho e deu um abraço apertado na amiga puxando-a pelos ombros.

- Bom diaaaa! – falou ela sem esconder que estava feliz – O que minha linda amiga vai querer pro café da manhã?

- Hmmmm... – Kagome deixou-se afundar no colo protetor de Sam e se demorou mais um pouco sentindo as notas do perfume dela – Qualquer coisa, hmmmm.

- Ei, não durma de novo! – disse ela balançando a amiga de leve – Tem certeza que não quer nada em especial? Porque eu posso preparar o que você quiser... Se eu fosse você aproveitaria essa chance.

- Hmmmm – gemeu Kagome deixando a preguiça evidente – Você pode preparar qualquer coisa para mim na cozinha assim que disser por que acordou tão feliz.

Sam se levantou da cama cantarolando alguma canção enquanto os cabelos castanhos dançavam atrás dela. Foi em direção ao banheiro para escovar os dentes, mas quando passou pelo notebook aberto em cima da escrivaninha apontou em direção à tela.

- O quê? – Kagome ergueu-se da cama confusa – O que você quer que eu olhe?

- O notebook. – falou ela, a boca cheia de pasta de dente – Olha.

Kagome se aproximou mais e a primeira coisa que identificou foi uma foto de Sam no canto esquerdo da tela. Ela ficou em pé de frente para o computador e então notou que estava olhando o perfil do facebook de Sam.

- O que raios você quer me mostrar? – perguntou ela, achando o que procurava em seguida – Esperaí... AI MEU DEUS DO CÉU. "SAMANTHA CAMPBELL ESTÁ EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO COM KAYRI KOBAYASHI!"

- EU SEI! – gritou ela, cuspindo água na pia – Detalhe para os comentários embaixo da notificação.

- EU ESTOU LENDO! – disse Kagome tossindo em seguida numa preparação para recitar o que via – Nossa, um cara comentou algo como "que peninha" e outros sete curtiram o comentário dele, haha. Quantos corações você partiu com isso, Samantha Alice Campbell?!

- Eu sinceramente não sei o que é melhor – falou ela sentando-se na cama de novo – ser pedida em namoro por Kayri ou saber que existem oito garotos além dele me desejando... – ela fez uma carinha provocativa e continuou – OK, OK, OK! Namorar com Kayri é melhor! Eu assumo!

- COMO FOI ISSO? – gritou Kagome virando-se na cadeira para ela – Me conte AGORA!

Sam fez uma carinha de boba que não combinava muito com ela. Definitivamente era estranho vê-la tão encantada com alguém. Kagome parou para pensar em Kayri e ela juntos e, de repente, nada mais era estranho. Era uma daquelas coisas que estavam na sua frente o tempo todo só que era tão óbvio que não se dava a devida atenção. Sam e Kayri namorando... Era de se esperar que tivesse previsto antes! Eles eram perfeitos.

- Você pegou no sono, eu pedi pra ele te trazer aqui. Então descemos e ele começou a falar em... – ela pareceu tentar lembrar de alguma coisa – Hipóteses. E foi assim que eu me tornei "hipoteticamente" a namorada dele.

- Ah, isso é tão a cara de vocês. – afirmou Kagome sentindo uma pontada de inveja branca da amiga - Você sabe... Pedir em namoro indiretamente. Hahaha, to tentando imaginar a cena.

- Ai, eu sei! – concordou Sam levantando-se em seguida – Mas é sério, temos de comer alguma coisa por que, não sei você, mas eu estou com muita fome!

Kagome concordou e deixou que Sam descesse as escadas para preparar o que quer que fosse na cozinha. A amiga apontou uma escova de dentes reserva que ela podia usar e disse para Kagome pegar as roupas que quisesse.

Caminhou lentamente em direção ao banheiro, ainda se sentia um pouco sonolenta, mas não estava com a menor vontade de voltar pra cama. Talvez fosse só preguiça. Ela localizou uma escova de dentes azul ainda na embalagem e usou-a enquanto esfregava os olhos, despertando. Decidiu tomar um banho rápido e não demorou nem dez minutos já estava saindo de toalha enrolada no corpo e cabelos pingando.

Enrolou os cabelos na toalha depois de vestir uma moletom branco de Sam, suas meias grossas de lã preta e um shortinho de tecido grosso preto.

Então secou os cabelos na até sentir que não ia morrer de frio por causa deles e desceu, passando um pente pelos fios lentamente.

Encontrou Samantha na cozinha, como esperava, virada para o balcão preparando alguma coisa muito suspeita numa panela pequena. Quando Kagome se aproximou mais, viu que a amiga mexia uma mistura amarronzada que exalava um odor de queimado terrível.

- Eram pra ser almôndegas – declarou Sam, derrotada.

Kagome mirou uma caixa que estava em cima da pia. Soltou uma risada quando descobriu do que se tratava.

- Você não acertou fazer almôndegas congeladas? SÉRIO? – desdenhou ela, desembaraçando um nó particularmente difícil em seu cabelo.

- Beeem... – Sam largou a colher que mexia a mistura e desligou o fogão – Acho que isso significa que vamos comer fora! Não que eu esteja reclamando.

- Ah, não... – respondeu Kagome revirando os olhos – O meu bolso está reclamando.

- Oh, cale a boca, não é como se você estivesse economizando grana. – Sam subiu as escadas correndo, Kagome imaginou que ela iria se trocar – Eu vou ligar pra Zhang!

Kagome já ia subir atrás da amiga, quando parou de repente. Ela olhou para o pingente pendurado em seu pescoço e mordeu o lábio inferior, preocupada. Sabia que uma hora teria de deixar de se divertir com as suas amigas como uma estudante normal e encarar suas responsabilidades. Depois do youkai minúsculo que vira brotar do poço, tentar atravessá-lo era somente uma questão de tempo.

"Hoje mesmo eu irei lá." Pensou ela.

Mas, por enquanto, ela iria preferir esquecer por algumas horas tudo sobre Inuyasha, Ichiro, youkais e o Poço Come-Ossos.


A lata de refrigerante estourou em sua mão e ele xingou baixo. Por que, em nome de sabe-se-lá-quem as coisas estavam dando tão terrivelmente errado naquela manhã?

Primeiro, acordou sobressaltado devido a um pesadelo que o perseguiu a noite toda, ao que lhe pareceu. Quando criou coragem para se levantar e molhar a garganta com alguma coisa, deu de cara com o bilhete que Zhang havia deixado na porta da geladeira. Não teria nada demais se a irmã não tivesse mencionado no recado que estava indo se encontrar com algumas amigas.

E por amigas, entenda-se: Samantha e Kagome.

Não que ele tivesse algum tipo de problema com a primeira, muito pelo contrário. Pelas poucas palavras que trocou com a garota pôde perceber que ela era bacana, engraçadinha até. As coisas ficavam tensas quando ele parava pra pensar numa certa morena de pele clara e olhos intensamente azuis. Ah, dos olhos ele se recordava. Alguns trechos de seus pesadelos noturnos incluíam aquele atrativo em especial de forma que todas as vezes que se concentrava um pouco para lembrar dos sonhos que tivera caía na imensidão azulada do olhar dela.

Abriu a porta da geladeira novamente decidido a pegar alguma coisa sem gás daquela vez. Optou por um simples copo d'água e então saiu da cozinha pisando duro, torcendo para que os vizinhos de baixo ligassem reclamando e ele tivesse uma desculpa para pegar uma briga.

Sim, estava doido para dar umas porradas em alguém.

Mas tinha de se controlar. Por isso que, tendo dito isso a si mesmo, sufocou toda a sua irritação e afundou no sofá, mirando o teto desconsolado. Agora que havia acordado era hora de retomar de onde havia parado no dia anterior.

"Ah, sim. Inuyasha era um cara que possivelmente namorou com Kagome, morreu e deixou a garota tendo pesadelos por três anos." Pensou ele enquanto entornava a água. "E ainda por cima é fisicamente parecido comigo."

- De uma coisa já sabemos, Ichiro... – falou ele sussurrando pra si mesmo – Esse cara deve ter sido muito bonito.

Ele não iria deixar passar a oportunidade de auto-massagear seu ego.

Estava cedo, Ichiro não queria ir exatamente naquele momento começar sua investigação com o irmão mais novo de Kagome. Por outro lado, ele também não queria ter de correr o risco de esbarrar com ela por lá. Que desculpa inventaria? Não, não, já estava suficientemente ocupado tentando inventar uma mentira que justificasse sua ida até lá. Mais do que isso, que o impedisse de ser enxotado do local à vassouradas. Afinal de contas, muito provavelmente toda a família de Kagome estava ciente de que ele havia terminado tudo com ela e deixado a garota sozinha.

Na chuva.

Ichiro abanou a cabeça, tentando afastar qualquer pensamento pessimista. Precisava trocar de roupa o quanto antes e correr para o Templo Higurashi antes que houvesse a possibilidade de Kagome ir ao mesmo local.

Ele comeu o primeiro congelado que encontrou no freezer junto com uma coca cola bem gelada. Depois tomou um banho rapidamente e vestiu uma camisa quentinha com os mesmos jeans surrados de sempre e um par de tênis qualquer. Em cerca de meia hora já estava ligando a chave do carro na ignição e saindo do apartamento.


O Templo Higurashi era, sem dúvida, um local que transmitia bastante paz. No entanto, para Ichiro Masagami estar ali sempre fora motivo de ansiedade. Uma sensação estranha se apoderou de seu estômago assim que ele estacionou o carro próximo às longas escadarias de pedra branca que davam acesso ao local.

Ele ainda se lembrava da primeira vez que tinha ido ali. Ele e Kagome não se conheciam muito bem, apenas algumas palavras trocadas na biblioteca e alfinetadas de leve. Era um domingo e ele lembrou-se do quão mal-humorado estava por ter de ficar com Zhang circulando pela cidade ajudando-a a filmar algo para um trabalho da faculdade. Então ele a viu.

Kagome segurava uma câmera, o ar de surpresa e consternação por encontrar Ichiro ali era evidente. Estava deslumbrante, exatamente como era todos os dias em que Ichiro se perdia admirando-a secretamente na Toudai. Ele não era capaz de se recordar das roupas que ela vestia ou de como seu cabelo estava no dia; tudo o que estava fixo em sua memória era a beleza dela que parecia independer de detalhes como vestimentas e penteados. Kagome poderia vestir um saco de lixo e continuar bonita.

"Ela poderia não vestir nada e ainda assim..."

Ichiro se recriminou automaticamente. Ele estava ali para conversar com o irmão menor da garota e perdia tempo imaginando-a pelada? Era realmente um canalha.

Ele abanou a cabeça e começou a longa subida pelas escadarias. Logo que chegou lá em cima avistou duas coisas que chamavam tanta atenção quanto a antiga casa de Kagome: uma árvore frondosa, alta, com uma graciosa cerquinha ao seu redor; e uma pequena casinha que, se sua memória não falhava, guardava um antigo poço agora completamente seco.

Ichiro se dirigiu prontamente para o poço, num gesto involuntário. Estava se lembrando de quando Kagome se recusou a entrar ali. Agora que sabia alguma coisa sobre Inuyasha tentava relacionar tudo o que podia à ele, mas sabia que poderia muito bem estar sendo tendencioso. Mas porque não? Ichiro deixou então a mente viajar e elaborou diversas hipóteses. Inuyasha poderia ter morrido ali, não? Será que ele havia se atirado no poço? Suicídio, então? Ou será que foi algum tipo de acidente? Isso explicaria muito bem o motivo pelo qual Kagome parecia não suportar o local.

Ichiro não se aproximou mais do poço por que notou, mesmo à distância que estava trancado com um grande cadeado. Deu de ombros e virou-se para encarar a árvore que se encontrava mais à frente.

Ele também tinha lembranças daquela árvore. Da segunda vez que visitara o Templo Higurashi, Ichiro passou grande parte do tempo em companhia de Souta, o irmão menor de Kagome.

Souta lhe pareceu um garotinho muito maduro para a pouca idade, apesar de ainda acreditar em toda aquela lorota de youkais e seres mágicos, provavelmente ele também era um daqueles fãs de Harry Potter que esperava ansiosamente a carta que o levaria direto para Hogwarts.

Souta havia dito que aquela árvore era a Árvore do Tempo. Quem ali fosse selado – seja lá o que isso significa – teria condições de permanecer com a mesma idade até que o selo fosse quebrado.

Ichiro apenas conhecia sobre aquele tipo de mitologia como obras de ficção. Era assim que lidava com qualquer coisa relacionada à planos espirituais, ele era extremamente cético. Apesar de ter sido criado em uma família religiosa, o conceito de um Deus uno ou deuses não lhe parecia suficientemente sensato. Aos 13 anos decidiu tornar-se ateu de vez, apesar dos protestos de sua madrasta e de seu pai.

Se nem ao menos acreditava em deuses, o conceito de demônios, monstros e sacerdotisas com poderes mágicos era mais ilógico ainda. Tudo isso mais o que Souta havia mencionado faziam parte do que eles estudavam em História do Japão Feudal. Com treze anos, o garoto provavelmente estava estudando exatamente aquilo no colégio, mas que razão teria ele para acreditar em tais bobagens?

Talvez o fato de ter crescido em um Templo tenha contribuído de alguma forma. Mas Ichiro estava se lembrando de outra coisa... Souta falou que tinha sido Kagome quem mencionou a Árvore Sagrada e seus efeitos.

Por que Kagome faria isso? Encher a cabeça do irmão com aquelas bobagens? O que deixava Ichiro ainda mais intrigado era que, apesar de nunca ter conversado com ela sobre religião, duvidava muito que Kagome acreditasse naquelas antigas lendas mitológicas. Ou será que ela havia contado algumas historias de dormir para Souta e o pobre garoto que tinha levado tudo a sério demais?

Essa opção parecia a mais provável. Kagome não parecia chegar a ser tão cética quanto Ichiro, mas também não era uma completa lunática ao ponto de acreditar em seres mágicos.

Certo?

- O que você tá fazendo aqui? – Ichiro se assustou e virou-se tentando localizar o dono da voz – Minha irmã me contou que você brigou com ela. O que faz aqui?

Ichiro tentou identificar na voz de Souta Higurashi qualquer traço de ressentimento, mágoa ou raiva, mas o garoto parecia impassível. Isso significava que provavelmente ele não fazia ideia do motivo pelo qual ele e Kagome discutiram. No fim das contas, ela havia agido de acordo com a ética, como sempre. Ele devia ter imaginado, claro, não combinava com Kagome ficar falando mal das pessoas pelas costas. Mesmo que aquela pessoa merecesse muito.

O que era bem o caso de Ichiro.

- Souta. Tudo bem, fedelho? – respondeu ele, se aproximando ao que Souta fez uma pequena reverência respeitosa – Como andam as coisas?

- Muito bem! – disse ele, entusiasmado – Você veio pedir desculpas à Kagome? Ela não está aqui agora, mas eu posso ligar pra ela e...

- Não, Souta! – Ichiro falou rápido demais e temeu estar parecendo um pouco nervoso, ele tossiu levemente e recuperou a compostura – Er... Na verdade, eu planejava falar com você mesmo!

- Você? Queria falar... Comigo?

Ichiro se arrependeu de ter sido tão direto, mas foi a única coisa em que pensou para se livrar da possibilidade de Souta chamar Kagome. Ele seguiu com a sua história como se nada tivesse dado errado.

- Sim, er... Se você não estiver ocupado, claro.

O menino olhou calmamente para ele e acenou positivamente com a cabeça.

- Eu só tenho que fazer um favor pro meu avô – disse ele – e então podemos conversar. Se quiser, pode me acompanhar.

Souta esperou Ichiro concordar e começou a caminhar na direção do poço. Era realmente uma surpresa uma visita daquele tipo e ele esperava estar conseguindo controlar sua empolgação. Ele finalmente teria oportunidade de investigar mais a fundo a suspeita que compartilhava com Kagome: as chances de Ichiro ser a reencarnação de Inuyasha.

Claro que eles estavam brigados, ele sabia disso, mas Kagome pareceu não considerar a ideia de que a discussão tinha sido realmente feia. Só que Souta não tinha tido nem tempo de perguntar o que acontecera, quando aquele estranho inseto apareceu.

Nunca tinha visto sua irmã usar seus poderes de sacerdotisa, mas sabia que ela o tinha feito no dia anterior. O bicho que matara também não era nada parecido com qualquer coisa que ele já tinha visto antes. Era um youkai, como os que Inuyasha e Kagome relataram algumas pouquíssimas vezes. Como os bichos que uma vez ele vira Inuyasha cozinhar numa panela para fazer um chá milagroso que curaria a gripe de Kagome.

Ele sorriu ao se lembrar disso. Sua irmã parecera tão realizada naquele dia, tão feliz. Não havia nada que Souta quisesse mais na vida do que ver Kagome feliz novamente. Como ela era há três anos atrás.

Mas naquele momento ele tinha que se concentrar no seu dever. A primeira coisa que fez quando notou que estavam sob a ameaça de seres da Era Feudal foi providenciar selos com seu avô. Ele ia tentar lacrar o poço muito embora achasse que aqueles papéis escritos pouco adiantavam. De qualquer forma, sentia que tinha que fazer algo além de somente trancar a casinha de madeira, queria se sentir útil; queria ser alguém com quem Kagome pudesse contar. Sempre.

- Ei, fedelho... Por que isso aqui está trancado?

Souta engoliu em seco surpreso com a pergunta direta de Ichiro. Virou-se para ele enquanto tateava no bolso da calça em busca da chave que abriria o cadeado da porta.

- Por segurança. – respondeu ele, tentanto inventar uma resposta mais convincente – Um... Um gato caiu aí há alguns dias e... Morreu. Então...

- E pra quê esse monte de papel na sua mão?

Souta não estava preparado para as perguntas rápidas e incisivas de Ichiro e limitou-se a abanar a cabeça e se concentrar em abrir o cadeado. Ichiro deu de ombros atrás dele, mas quando viu que o garoto encontrava dificuldades para equilibrar a pequena pilha de papel e o molho de chaves, tomou a frente e resolveu ajudar.

- Precisa de uma mão a mais. – afirmou ele, recolhendo alguns papéis caídos no chão – Vou te ajudar, duas pessoas terminam mais rápido do que uma, certo?

Souta sorriu para ele e entregou o resto dos selos se concentrando em abrir o cadeado e, assim que conseguiu, fez sinal para que Ichiro o acompanhasse.

Ele seguiu o garoto descendo os três degraus que os separavam do plano em que se encontrava o poço. Aquele lugar era muito misterioso aos olhos de Ichiro, por isso ele tratou de observar cada pequeno detalhe preso ali, como se o local pudesse lhe dar uma resposta para suas perguntas.

- Com licença... – a voz de Souta o despertou e quando olhou para o garoto ele estava tomando os papéis de sua mão.

O garoto começou a colar cada um dos selos silenciosamente em pontos diferentes do poço enquanto Ichiro o observava curiosamente.

- O que são essas coisas, garoto? – perguntou ele, sem pensar se estava sendo inconveniente.

Souta teve um sobressalto. O que diabos ele iria responder agora?

Ele permaneceu calado durante tempo suficiente para se tornar estranho. Sua cabeça raciocinava rapidamente procurando a melhor solução para sair daquela situação. Não seria melhor contar logo tudo o que sabia para Ichiro? Afinal, ele iria saber de qualquer forma, não?

Não, não, onde estava com a cabeça? Ninguém em sã consciência acreditaria nos devaneios de um garotinho de treze anos! Tinha que haver uma saída melhor. Um jeito de não mentir para Ichiro e, ao mesmo tempo, deixar algumas coisas implícitas. Souta colocou o monte de papéis na borda do polo e virou-se para encarar sua decisão.

- Estou tentando selar esse poço. – disse ele sem a menor cara de quem estava brincando.

Ichiro piscou uma ou duas vezes, atordoado.

- Você acreditaria em histórias sobre monstros e outras dessas mitologias que estudamos na escola, Ichiro? – perguntou ele, tentando manter o tom de voz firme.

Então havia alguma coisa que o garoto queria contar, de fato, apesar de Ichiro não estar esperando que fossem apenas lendas antigas. No entanto, Souta parecia tão sério e ávida por um ouvinte que Ichiro resolveu apenas assentir com a cabeça afirmativamente dando o sinal que o menino precisava para continuar.

- Eu vou lhe contar... – começou Souta, calmamente – uma história que talvez tenha acontecido... Muito tempo atrás.


- Eu ainda não consigo acreditar, Sam! Você e Kayri? Juntos?! – Zhang soltou uma risada sonora de satisfação – Eu devo confessar que sempre achei vocês dois muito parecidos!

- Claro que não, haha, nem você, nem Kagome, nem ninguém tinham notado coisa alguma até que anunciamos oficialmente...

- Nem vem, Samantha! – retrucou Zhang – Naquele dia que ele te comprou uma caixa de morangos ficou bem claro o que estava rolando entre vocês dois...

As duas amigas riram animadamente e Kagome as acompanhou sentindo-se renovada pela companhia delas.

Talvez talvez ela fosse capaz de esquecer Ichiro e todos os planos que traçara mentalmente com ele mais rápido do que pensava.

No entanto havia uma coisa que Kagome não conseguia nem podia esquecer.

- Meninas, eu peço desculpas mas não vai dar pra comer com vocês hoje. – disse ela e diante da expressão confusa das amigas, tentou esclarecer – E-eu tenho uns afazeres lá no Templo.

Zhang e Sam se entreolharam rapidamente.

- No templo? – questionou a primeira – Ainda tem coisas suas lá? A gente pode te ajudar s...

- Não! – ela abanou as mãos rapidamente – De forma alguma, eu tenho tudo sob controle!

Sam ergueu uma sobrancelha e apesar de Kagome ter certeza de que ela não fazia a mínima ideia do que eram os seus afazeres receou a pergunta da amiga.

- Você não vai correr atrás do Ichiro, né?

Kagome não pôde segurar a risada nervosa que se seguiu e as amigas desconfiaram ainda mais dos seus planos.

A questão era que Kagome estava se preparando para ir à Era Feudal o que já era um assunto conectado com Ichiro. De certa forma ela poderia estar correndo atrás dele. Atrás do passado dele.

Por sorte, conseguiu convencer Zhang e Sam que não era nada daquilo que elas estavam pensando. Acabou dando a desculpa de que iria ajudar o irmão mais novo em um trabalho escolar o que, de certa forma, não era mentira.

Quando entrou no carro e tudo ficou em silêncio, longe da movimentação das ruas, Kagome sentiu algo.

Era quase como se ela tivesse que ir até o poço. Não por dedução própria, mas por que ela sentia que deveria ir. Definitivamente alguma coisa a estava atraindo pra lá. E se algum youkai aparecesse? E se ele ameaçasse as vidas de Souta ou de seu avô e sua mãe?

Kagome enfiou o pé no acelerador e olhou rapidamente sua imagem refletida no painel do automóvel.

A jóia trazia um brilho diferente naquele dia.


Souta respirou fundo enquanto ele e Ichiro se sentavam encostados na borda do poço, lado-a-lado. A porta escancarada dava uma visão magnífica da Árvore Sagrada o que ele considerou bastante conveniente.

- Lembra de uma vez que nos vimos e ficamos ali? – ele apontou para a árvore.

Ichiro meneou a cabeça lentamente, assentindo.

- A árvore do tempo? – perguntou ele, recordando-se – A que não permite que as pessoas envelheçam?

- Mais ou menos... – respondeu ele, tentando pensar numa forma melhor de explicar – É como se quem fosse colocado nela por meio de poderes espirituais ali permanecesse sem envelhecer.

- Heh, isso é lorota, pirralho. – disse Ichiro com uma risada sonora.

Souta riu, tranquilizando-se. Seria perfeito se Ichiro não acreditasse no que ele dizia em um primeiro momento por que ele não pretendia deixar isso claro de forma alguma. Kagome estava certa num ponto: deve-se interferir o mínimo possível nesses assuntos.

- É como eu disse... Essa história pode ter acontecido. – retrucou ele – É uma opção sua acreditar ou não.

Aquela conversa talvez não fosse nem um pouco esclarecedora, mas agora era tarde demais para que Ichiro pudesse inventar uma desculpa e sair de fininho. E de qualquer forma, estava feliz de servir de ouvinte para um garoto aparentemente solitário. Ele já ia fazer um sinal para que Souta continuasse com a história, mas o garoto nem precisou do recado.

- Sabe... Só há um jeito de saber se essa Árvore funciona mesmo. – ele virou-se para olhar Ichiro que escutava atentamente porém mirava um ponto fixo à sua frente – E esse jeito é testando.

Ichiro olhou para o garotinho, curioso.

- Um hanyou esteve lacrado aí por cinquenta anos. – disse ele, simplesmente.

"Certo. Esse garoto é doido."

- Hehe, é mesmo, fedelho? – disse Ichiro externando seu pensamento em forma de sarcasmo – Quer dizer que um desses monstros mitológicos ficou preso aí? E ele tentou atacar vocês?

- Não, nada disso! – falou Souta, sorrindo aparentemente sem perceber o tom de voz de Ichiro – Ele era amigo. E não era nenhum monstro, na verdade hanyous são metade humanos e metade youkais. Inuyasha se parecia um bocado com um humano normal, tirando aquelas or...

- O quê?

Talvez Ichiro não tivesse ouvido direito. Inuyasha?

- Ahn? O quê? – perguntou Souta confuso.

Não, Ichiro não poderia demonstrar sua surpresa agora. Não agora que a história podia fazer algum sentido no final das contas e quem sabe até ajudá-lo a compreender um coisa ou outra.

Finalmente ele iria saber quem – ou o quê – era Inuyasha.

- Nada, fedelho. – respondeu ele, mantendo a calma – Continue... O que tem esse tal de Inuyasha?

Souta notou a ênfase que Ichiro deu no último nome e encarou-o desconfiado. Será que em algum momento Kagome havia falado alguma coisa sobre Inuyasha para Ichiro? Ele não sabia, mas achava que provavelmente não. Então ele teria apenas imaginado a raiva com a qual Ichiro pronunciou o nome de Inuyasha?

- Ahn... Bem, ele foi lacrado nessa árvore faz quinhentos anos. E nela ficou durante cinquenta anos.

- Espere um segundo! – falou ele – Você fala como se tivesse conhecido esse tal Inuyasha. Isso não é possível se ele foi lacrado há quinhentos anos atrás.

- Eu sei que não. – falou ele – A menos que você tenha uma forma de voltar no tempo... E transitar livremente entre duas épocas distintas.

- Certo, muito fácil. – falou Ichiro sem esconder a descrença – Tirando um pequeno detalhe: isso é impossível.

Souta nada disse. Apenas levantou-se lentamente e apoiou uma mão na borda do Poço Come-Ossos. Ichiro permaneceu sentado, mas olhava-o sem entender seu gesto repentino que parecia querer poupar explicações. No entanto, Ichiro julgou que elas seriam necessárias e deu de ombros, demonstrando sua confusão. Do que afinal de contas aquele fedelho estava falando? O cara que ele desconfiava ser um relacionamento anterior de Kagome não era um cara, era um demônio? E ele tinha vivido há quinhentos anos?

Sua expressão certamente conseguia externar seus pensamentos confusos por que Souta recomeçou a falar.

- Este poço é uma ligação. – falou Souta, calmamente.

"Agora esse garoto foi longe demais"

- Ei, fedelho, alto lá. – respondeu ele, levantando-se abruptamente – Eu entendo você ter crenças e tudo o mais, já que foi criado em um Templo e etc... Mas daí a você pensar que esse poço velho serve como máquina do tempo é um pouco demais!

- N-não foi isso q-que eu quis dizer! – gaguejou o garotinho, tentando consertar – A Kagome sabe dessa história melhor do que eu!

- A Kagome te contou isso? – perguntou ele, indignado – É a sua irmã que fica enchendo a sua cabeça com essas historinhas bobas? Francamente, isso não é lá brincadeira que se faça.

Agora tudo tinha ficado muito claro. Era óbvio que Kagome inventara aquelas mentiras e usara Souta como meio de fazer com que elas chegassem até Ichiro. Provavelmente ela tinha descoberto que ele já sabia sobre Inuyasha e queria esconder esse segredo, era claro! Por isso que o fedelho estava tentando fazê-lo acreditar naquilo. Realmente, esse tal de Inuyasha deve ser um cara muito estranho e bizarro pra Kagome ter tanta vergonha dele ao ponto de inventar uma lenda só para apagá-lo de seu passado.

- A Kagome não me contou isso! – Souta já estava perdendo a paciência, nem media mais as palavras – Ela viveu isso.

- Ah, claro! Souta, olha, você não precisa mais acobertar sua irmã eu já sei de tudo. – disse Ichiro cruzando os braços – Ele é ex-namorado dela, ela tem vergonha dele e não queria que eu soubesse de nada e por isso você está me contando todas essas baboseiras.

- Não!

- Sim! Eu descobri tudo, fedelho. – retrucou ele diante da expressão consternada de Souta – E quando você encontrar com Kagome pode dizer a ela q...

- Não, você não sabe de nada!

Souta havia gritado tão alto que sua voz ecoara levemente e até mesmo Ichiro recuou um pouco, assustado. As bochechas do menino estavam vermelhas e os punhos cerraram-se revelando a tensão que ele sentia no momento. As sobrancelhas formando um vinco entre elas quase tornavam a expressão dele ameaçadora. Mas ainda assim, era apenas um garotinho de treze anos. E não era capaz de amedrontar Ichiro.

- Me conte você então! – gritou ele de volta, apontando um dedo para Souta – SEM mentiras! SEM enrolações! Quem é Inuyasha?!

Souta não recuou como Ichiro achava que ele faria. Aquele era o sinal de que o que estava por vir era, de fato, a verdade.

- Eu perdi meu gato aqui uma vez. Ele caiu nesse poç...

- Vamos lá, Souta, me ajude aqui! – irritou-se Ichiro, querendo chegar ao ponto de uma vez – Apenas fatos relevantes certo?

Souta permaneceu firme outra vez. Ganhou mais um pouco do respeito de Ichiro, encheu-se de coragem e soltou de uma vez.

- Há três anos atrás Buyo supostamente caiu nesse poço. Quando Kagome foi buscá-lo ela caiu também e... Foi transportada quinhentos anos no tempo. E encontrou um meio youkai lacrado naquela árvore. – ele apontou para a planta que estava do lado de fora – Esse seria Inuyasha.

- Q-quê?

O que impressionava não era a habilidade que Souta demonstrava em inventar lendas, mas sim o jeito como as contava, como se elas realmente tivessem acontecido. E a convicção dele, o olhar firme, a voz sem gaguejo nem floreios... Tudo isso passava uma segurança incrível para Ichiro. Então será que – e ele se recriminou mentalmente antes mesmo de pensar nisso – tudo aquilo poderia ser a verdade que ele tanto procurava?

- Inuyasha foi lacrado por uma sacerdotisa chamada Kikyou. – continuou Souta demonstrando a mesma firmeza – Kagome é a reencarnação dessa sacerdotisa. Ela tem poderes espirituais.

- Não, não tem. – negou Ichiro instintivamente.

- Sim, ela tem. – retrucou Souta assim que IchiRo fechou a boca – Ela atravessava o poço constantemente. Ela me disse que as coisas estavam meio confusas no passado. Que havia uma jóia perdida e ela tinha o poder que se precisava pra encontrá-la.

- S-Souta, você faz ideia do quão insano isso parece?! – contestou Ichiro, dando um passo para trás – É... É impossível! E-eu sei que você é um bom garoto, cara e...

- Exato, você sabe. – respondeu ele enquanto Ichiro meneava a cabeça confirmando – Bons garotos... Não mentem, Ichiro.

- Cara. – ele levou as mãos à cabeça como que esperando o cérebro explodir – Cara, como você pode me pedir pra acreditar numa coisa dessas? Que droga!

Souta permaneceu parado esperando que Ichiro absorvesse o choque. Chegava a ser engraçado notar como à medida em que se crescia as pessoas ficavam mais céticas. Para ele tinha sido tão fácil entender aquilo quando tinha apenas dez anos. Enquanto que Ichiro, dez anos mais velho do que ele era na época se encontrava tão confuso que mal conseguia formular uma frase sem gaguejar.

Ele não ia esperar mais. Tinha que despejar tudo o que sabia, não podia segurar muito.

- Kagome demorou meses até conseguir encontrar a jóia. – continuou ele apesar de Ichiro permanecer com o olhar fixo na Árvore Sagrada, uma mão na testa segurando o cabelo insistente – Estava partida em vários fragmentos. Ela se culpava constantemente por isso. Inuyasha também podia vir pra essa Era, apesar de não ser o único amigo de Kagome lá, ele era o único que podia vir. Até que um dia... Não veio mais...

- O quê? – perguntou Ichiro finalmente olhando para Souta outra vez.

O garoto mantinha a cabeça baixa, podia jurar que estava chorando.

- E-ele – pela forma como a voz de Souta foi cortada, Ichiro teve a certeza que ele deixara escapar algumas lágrimas – ele parou de vir. Kagome nunca chegou a me dizer com todas as letras, mas... Eu simplesmente soube. Logo que vi a expressão no rosto dela.

Talvez a história toda fosse maluca demais ou talvez fosse apenas o ciúmes incontroláveis que Ichiro sentiu quando imaginou Kagome chorando por outro cara. Só soube que quando menos esperou desatou a falar sem pensar direito.

- Tudo bem, tudo bem. Isso foi... Muito divertido, Souta, realmente, mas não é verdade. – disse ele, tentando convencer a si mesmo – Quer dizer, não pode ser verdade!

Souta deu um leve sorriso de preocupação e se preparou para sair dali.

- Eu vou deixar você aqui agora... Talvez precise pensar um pouco.

Ichiro não conseguiu prestar atenção o suficiente para dar tchau à Souta. Queria exigir mais explicações, no entanto sua mente ainda estava tendo dificuldade para processar o que ouvira. Ele não sabia como podia lidar com mais do que isso. Não no momento. Souta pousou uma mão no ombro dele antes de sair e, depois de alguns segundos, passou por ele em silêncio. Com uma última olhada antes de passar pela porta ele se foi, deixando Ichiro sozinho.

Ichiro apoiou as suas mãos na borda do poço.

"Que merda foi essa?" Perguntou ele a si mesmo.

Era aquilo mesmo? Era aquela a verdade? Só podia ser, como não haveria de ser? E se fosse mesmo... Entao quer dizer que o antigo namorado de Kagome não era daquele mundo... Pensando por aquele lado, aquela explicação era perfeita para justificar a falta de registros dele em qualquer site de pesquisa. Afinal, mesmo que ele estivesse morto, tinha de haver registros dele em colégios ou coisas desse tipo. E Ichiro não havia encontrado NADA.

Mas como? Como tal coisa era possível? Aquele maldito poço velho era mágico mesmo então? Ele tinha permitido que Kagome voltasse no tempo repetidas vezes?

"É só um poço qualquer, Ichiro, vamos lá" falou ele para si mesmo "Não deve acontecer nada aí. O irmãozinho da Kagome deve ter fumado uma da boa e era aquilo... Certo?"

Ichiro esticou o pescoço com curiosidade para observar o interior do poço.

Tudo aconteceu muito rápido.

A sensação de ter as mãos agarradas por fortes tentáculos pegajosos.

"O-o quê?!"

Um grito desesperado.

- ICHIROOOO!

Ele reconheceu a voz dela.

E quando se virou para olhá-la foi sugado para dentro do buraco escuro.