Observações da autora:

Esse é o primeiro capítulo que publico após um hiato de quase onze anos. Essa é a única fanfic que eu escrevi na vida e tenho imenso carinho por ela. Meu objetivo é terminar a história em poucos meses, ainda esse ano. Aos leitores novos que estão lendo em 2023: obrigada por terem lido até aqui! Ao pessoal mais antigo que acompanha comigo desde 2010, se vocês ainda estiverem aí: um obrigada maior ainda! Nossa história vai ter um desfecho sim!

Breve resumo até aqui: Kagome e Ichiro se conheceram na Universidade Toudai e foram se aproximando cada vez mais. Ichiro é um rapaz de 20 anos com um passado problemático e um vazio de espírito que nunca soube explicar. Ele tende a se meter em problemas e até tenta afastar-se de Kagome, sem sucesso. Um dia um youkai pequeno aparece na Era Atual, assustando Kagome que começa a planejar uma ida pra lá. Só que um dia, um youkai maior surge e consegue atacar Ichiro. Ela chega bem na hora e se vê forçada a usar seus poderes espirituais pra salvar a vida dele. Abismado, o rapaz demanda respostas e Kagome conta toda a história de Inuyasha e da Joia de Quatro Almas. Até esse momento, Ichiro não faz ideia que pode ser a reencarnação de Inuyasha, mas sabe da existência dele. Ele teme pela segurança de Kagome e promete a Souta que vai busca-la, caso necessário. Kagome atravessa o poço pela primeira vez em três anos.

Trilha sonora do capítulo conta com:

"Dark Red" por Steve Lacy

"The Rip Tide" por Beirut


Capítulo 16

Era para isso que servia o faro aguçado de um youkai raposa. Levantou-se num pulo da árvore que estava encostado desde a noite anterior e olhou ao redor tentando identificar o rastro exato do aroma que havia sentido.

Era ela. Definitivamente era ela.

Não havia tempo de chamar Hatsue e, honestamente, ele não queria. Precisava chegar lá o mais rápido possível. Em que circunstâncias ela voltara? Será que estava bem? Será que ainda estava jovem? Ou precisaria de amparo? Ele bem sabia que humanos envelheciam muito mais rápido e o tempo parecia ter ficado mais confuso desde que aquela bagunça começara.

Correu.

O mais rápido que pôde.


Piscou seus olhos azuis inúmeras vezes, mas ela não precisaria enxergar nada para saber onde estava. Sabia que não estava mais em casa, sentia no ar. Não havia mais o teto de madeira do abrigo do templo acima de sua cabeça. Sentia um forte cheiro de grama molhada que a fez apalpar as paredes do poço em busca de sinais de chuva.

Estava úmido. E ela sabia com toda a certeza que não havia chovido em Tókio nas últimas horas. Não na sua Tókio.

Havia conseguido voltar a Era Feudal.

Arrumou a mochila nas costas e começou a escalar com a ajuda dos cipós entranhados na alvenaria desgastada. Chegou ao topo e, receosa, ergueu a cabeça lentamente tentando ver se ali existia algum tipo de youkai à espreita, mas o lugar parecia abandonado, isolado. Parecia que tinham se esquecido completamente dali e ela se perguntou, ansiosa e apreensiva, quanto tempo poderia ter se passado desde que fora embora.

Subiu na borda do poço e tocou o primeiro pé no chão o mais devagar que conseguiu, tentando não fazer muito barulho. Será que andaria muito até chegar ao vilarejo? Nem lembrava mais direito do percurso, já haviam se passado três anos desde que pisara ali pela última vez.

A insegurança galgou um pouco mais de espaço nela enquanto pensava em todas as coisas que poderiam dar errado.

- "Okay, Kagome..." - falou consigo mesma, tentando retomar seu foco - "...não é hora de pensar no que pode dar errado, é hora de evitar que essas coisas aconteçam."

Armou uma flecha em seu arco e decidiu que caminharia assim pelo menos até ter mais segurança de que tinha encontrado o caminho certo. Mas aquilo estava quieto demais, silencioso demais... Não era de se esperar que houvessem youkais à espreita, tentando transpor o poço? Ou será que suas visitas diárias ao poço durante os últimos dias tiveram efeito em afastar essas ameaças, pelo menos por enquanto? Era difícil dizer. O poder espiritual era uma habilidade sua que estava adormecida e ela não tinha mais referência suficiente para afirmar se seus poderes estavam fortes ou fracos.

Foi então que o barulho de algo se movimentando muito rápido chamou sua atenção e a colocou em posição de ataque em milésimos de segundo. Armou o arco e flecha. Bem, pelo menos seus reflexos continuavam bons. Agiu com instinto e virou a cabeça pro ponto exato de onde brotou um youkai de pelo ruivo, alto, em sua forma humana.

- "Parado!" - sua voz saíra em um tom duas vezes mais ameaçador do que pretendia - "Parado... Ou eu atiro."

O youkai trazia uma impressão confusa de choque no rosto, algo difícil de se ver. Youkais não costumavam se amedrontar com tão pouco, e ela sabia que uma mulher humana armada com arco e flecha não era motivo de ameaça... Não à primeira vista. Mas ela segurou um pouco o impulso de usar seus poderes. E não sabia o motivo, já que com certeza aquele ali tinha vindo em busca da joia poderosa que descansava entre suas clavículas. Agora que pensava a respeito, pensou ter sido muito ingênua de carrega-la tão à mostra em seu pescoço, um erro que ela pretendia consertar mais tarde, assim que conseguisse conter aquele youkai.

Estremeceu quando viu que a criatura não parava de a encarar, pelo contrário, ia andando em sua direção... E o que era aquilo? Um meio sorriso? Uma satisfação por achar que faria uma boa refeição em breve?

- "Eu disse PARADO!" - gritou ela, um foco de luz lilás já se acumulava na ponta de sua flecha - "Você deve ser meio lento se ainda não percebeu que eu não sou uma humana qualquer."

O youkai tentava balbuciar alguma palavra enquanto estendia as duas mãos para o alto em um sinal de paz, aparentemente. Kagome não se convenceu. Ele continuava a se aproximar e ela começava a suspeitar que talvez a joia estivesse tendo um efeito muito forte nele. Talvez o deixando meio hipnotizado? Droga! Odiaria ter que selar - ou quem sabe matar! - aquele ser, afinal de contas, era um SER. Por mais que fosse um youkai, uma raça que podia ser por vezes extremamente impiedosa...

- "Por favor..." - o youkai balbuciava tentando chamar a atenção de Kagome - "Por. Favor..."

Ela continuou com a flecha apontada para ele, mas dessa vez, por alguma razão, tentava ouvir o que ele estava tentando falar.

E finalmente ele disse.

- "Kagome, é você!" - falou ele, uma ansiedade transbordando e o fazendo tropeçar nas palavras - "Kagome!"

- "Quem diabos é você?" - perguntou ela, confusa.

Não se lembrava de ter conhecido nenhum youkai com aquelas características em sua jornada pelo Japão Feudal. Aliás, o que ele era mesmo? Tinha uma cauda felpuda ruiva atrás de si que ela não pode deixar de notar... Seria um lobo, tal qual Kouga?

- "Não está me reconhecendo, Kagome?" - ele pareceu ter recobrado a articulação na fala e começara a se expressar de maneira mais clara - "Sou eu... Mas... É verdade, você não teria como me reconhecer como eu estou te reconhecendo... Aliás, como conseguiu se manter tão jovem depois de tanto tempo?"

- "Do que você está falando?" - e estava cada vez mais confusa. Mas finalmente lembrou de alguém que conhecia que a fazia se lembrar daquele youkai. Mas era impossível. Certo?

- "Kagome, sou eu..." - ele fez uma pausa dando a ela uma última chance de tentar se lembrar, mas diante da expressão intrigada em seu rosto não demorou muito tempo para revelar-se - "Sou eu, Shippou-kun..."

Shippou. O nome ecoou em sua mente fazendo com que ela quase se desconcentrasse e baixasse sua guarda para o youkai. De fato, ambos eram muito parecidos. O mesmo tom de ruivo e os mesmos olhos verdes cintilantes que ela conhecera três anos atrás.

Mas não podia ser inocente ao ponto de acreditar nele de cara. E, por mais que sua mente fizesse todas as conexões que precisava fazer para atestar o que ele afirmava, ela tinha que pedir...

- "Eu preciso que prove." - disse ela - "Shippou... Se for você mesmo... Prove!"

Ele observou a firmeza de Kagome ao segurar o arco e flecha contrastando com seus olhos apaziguadores que pediam uma explicação concreta. Era evidente que ela estava estranhando o fato de Shippou aparentar ter agora seus 16 ou 17 anos e ele admitia que havia mudado muito para que ela pudesse reconhece-lo a uma primeira vista. Não se importava. Isso mostrava que Kagome continuava com a mesma força e esperteza que havia adquirido lutando contra youkais e aprendendo sobre suas artimanhas. Era aquela a mesma Kagome que havia destruído Naraku com apenas uma flechada. Ao lembrar disso e, consequentemente, recordar que sua vida estava em jogo ali, Shippou apressou-se a tentar convence-la de que estava falando a verdade.

- "Sou Shippou, o youkai raposa, e estive com você e Inuyasha por muito tempo. Lembro de quando fui salvo. Lembro de Sango e Miroku. Lembro de todas as vezes que me senti acolhido..."

Kagome não podia acreditar. Então ele continou, com uma expressão de pesar no olhar. E Kagome soube que ele estava relembrando os últimos acontecimentos que viveram juntos.

- "Lembro de mais coisas do que gostaria de lembrar. Mas lembro que eu sempre achei que você voltaria. Por mais doloroso que tenha sido... Eu, Sango, Miroku..." - ele se deteve, como se fosse falar de mais pessoas, mas por algum motivo, decidiu parar - "Todos nós sempre acreditamos que você voltaria."

O tempo todo Shippou manteve-se de cabeça baixa. Mas mesmo sem olhar diretamente para Kagome ele sentiu ela desfazendo sua posição de ataque e caminhando até ele.

- "Não precisa me dizer mais nada, Shippou-kun."

Ela o envolveu num abraço.

Com toda a força que quis abraça-lo durante todo aquele tempo. E ele retribuiu numa intensidade ainda maior, compatível com o tempo que passou sem vê-la.

- "Eu sabia que você ia voltar... E-eu falei pra Hatsue-sama desde o início... Eu sabia!"

- "Calma, calma..." - disse ela, acalmando-o e apoiando o rosto dele em seu ombro - "Tá tudo bem, Shippou... Eu voltei! Está tudo bem, mas... Me escute."

Subitamente ele fungou uma última vez e respirou fundo. Segurou nos ombros dela, olhou ao redor e farejou. Por um instante havia esquecido de zelar pela segurança dos dois. Precisava verificar se mais algum youkai havia sentido a presença da joia misturada com o cheiro humano de Kagome. Aquele era um risco que não poderia correr.

- "Shippou...?" - a voz dela o despertou.

- "Vamos." - ele respondeu com firmeza - "Agora."

Ofereceu suas costas para que Kagome subisse e não perdeu tempo com explicações. E Kagome soube, sem que fosse preciso eles conversarem, que as coisas que ela estava sentindo na Era Atual também estavam sendo sentidas ali, de alguma maneira. Precisavam chegar em segurança ao vilarejo o mais rápido possível.


Haviam parado para descansar por alguns instantes próximo a um lago, já na metade do caminho. Havia se passado quase um dia inteiro de viagem e tudo corria dentro do esperado.

Tinham se distanciado muito das imediações do vilarejo desde que Naraku havia sido destruído pela sacerdotisa e o caminho de volta era razoavelmente longo até mesmo para um youkai do porte dele, em sua forma original. A mulher não se importava. Desceu de suas costas felpudas e, enquanto ele adquiria sua forma humana, ela corria em direção ao lago louca para colocar seus pés na água. Ele observou-a erguer o kimono branco reluzente na altura dos joelhos molhando os tornozelos, olhando para o horizonte.

O sol já estava quase se pondo e ela adorava o espetáculo que era vê-lo se pôr.

De repente virou a cabeça pra ele, olhando-o de longe.

- "Você deveria experimentar, sabia?" - disse ela retirando parcialmente suas roupas, preparando-se para tomar um breve banho - "Não tem coisa mais linda do que assistir o pôr-do-sol de dentro de um rio."

Ele resmungou alguma coisa inaudível e decidiu que ficaria sentado à margem. Odiava estar dentro d'água ao passo que ela sentia uma necessidade enorme de banhar-se dia sim, dia não.

- "Tome cuidado." - murmurou ele, sentando-se.

- "Cuidado com o quê?" - questionou ela - "Você sabe muito bem que hoje qualquer lugar é perigoso. Não faz mal pararmos um pouco só pra descansar."

- "Não estou reclamando, Rin." - costumava tomar cuidado para não cercear a pouca liberdade que eles tinham, mas não podia deixar de preocupar-se.

- "Eu sei..." - disse ela e mergulhou o corpo inteiro na água em seguida.

Seu corpo emergiu de volta e as vestes de baixo, também brancas, já estavam completamente molhadas e, consequentemente, transparentes. Ele ficou observando as curvas de seu corpo adquirirem o tom alaranjado dos últimos raios de sol. Respirou fundo, porém inaudivelmente, enquanto a via afastar-se da margem em busca de um bom espaço para nadar livremente. Sentiu um ímpeto de dizer novamente para que ela tomasse cuidado, mas tinha que se conter. Rin não era mais uma criança há muito tempo. Muito mais tempo do que a vida humana normalmente lhe permitiria... Mas aquele era um segredo só deles. Muito embora ele não soubesse até quando seria assim.


Era impossível não achar que estava vivendo dentro de um grande déja vu. Era como reviver a época onde tudo se iniciara, só que montada nas costas de - quem diria? - Shippou tal qual ela fazia com Inuyasha. Os cheiros - das plantas, do ar, dos restos de chuva - despertavam nela uma nostalgia incomparavelmente mais forte do que a que ela sentia quando sonhava com aquele lugar ou olhava uma das raras fotografias que havia tirado com os amigos que fizera ali.

Seguiram o caminho todo em silêncio até que Kagome avistou as moradias organizadas do vilarejo e como haviam mudado. Ela não sabia quanto tempo havia se passado, mas a possibilidade de ter ficado fora durante tempo demais a assombrava. Na verdade, mil coisas passavam pela sua cabeça, mas ela decidiu não dar ouvidos a nenhuma de suas hipóteses ou provavelmente enlouqueceria tentando descobrir tudo o que poderia simplesmente perguntar.

Sua ansiedade diminuiu um pouco ao colocar os pés em terra firme.

- "Obrigada, Shippou" - ela se demorou algum tempo olhando para ele que agora estava um palmo mais alto do que ela. Essa constatação a fez sorrir levemente - "Eu não me recordava de você ser tão rápido assim."

Shippou sorriu de volta, mas, antes que pudesse responder, Hatsue apareceu como se estivesse esperando pelos dois. O olhar dela encontrou o de Kagome, e ela soube imediatamente que aquela era a nova sacerdotisa do vilarejo. Partindo dessa constatação, sabia que, provavelmente, Kaede se fora.

- "Shippou-kun, você estava certo." - disse Hatsue, curvando-se em uma reverência logo em seguida - "Kagome-sama. Seja bem vinda novamente. Me chamo Hastue. É uma honra recebe-la aqui".

Kagome admirou a jovem sacerdotisa com curiosidade. Ela tinha os cabelos longos, lisos e castanhos, cortados todo no mesmo tamanho, que passava um pouco da cintura. Sua postura era muito sábia e serena, como se ela tivesse uma experiência que ia além da sua idade. Kagome retribuiu com outra reverência igualmente respeitosa.

- "Muito obrigada" - elas se ergueram novamente quase que ao mesmo tempo e Kagome decidiu não dar rodeios - "Infelizmente o que me trouxe de volta pra cá parece ser preocupante..."

- "Sabemos, Kagome-sama. Eu estava esperando a sua vinda." - o tom de Hatsue era pesaroso, porém firme - "Venha. Temos muito o que conversar."

Ela seguiu a sacerdotisa enquanto Shippou permaneceu parado. Olhou para trás. Ele não estava fixando o olhar no dela, mas nas costas de Hatsue, como que aguardando uma ordem.

- "Shippou-kun..." - disse Hatsue, sem se virar - "Venha conosco também, por favor".

Só então ele se mexeu e os três começaram a atravessar o vilarejo.

O sol começava a sair por entre as nuvens, pois a chuva havia cessado pouco antes de Kagome chegar ali. Conforme iam andando por entre os casebres, ela não pode deixar de notar vários sussurros sobressaltados. Pareciam dizer seu nome entre eles, os olhares traziam expressões diversas que Kagome não conseguiu ler precisamente... Ninguém parecia estar focado em outra coisa que não fosse eles três, ali, em seu caminho rumo a casa central da vila.

Finalmente chegaram e Hatsue pediu para que todas que estavam na cabana se ausentassem. Ficaram a sós e Kagome se perguntou quando veria um rosto conhecido além de Shippou.

- "Primeiro..." - Hatsue começou, sentando-se elegantemente e acendendo algo aromático que parecia ser um incenso - "Acho que devemos te dizer que... muito tempo se passou desde que você esteve nesse vilarejo pela última vez."

Shippou e Kagome também se sentaram. Ela o olhou de soslaio e viu que seus punhos estavam cerrados, a cabeça baixa.

Youkais não envelheciam do dia pra noite. E, sabendo que Shippou era um deles e que da última vez que eles haviam se visto ele ainda era uma criança, ela só poderia imaginar quanto tempo havia se passado.

- "Kagome-sama, preciso perguntar..." - disse Hatsue, interrompendo seus pensamentos - "Sei que você não teve nenhum tipo de contato com este mundo... Mas... você tem alguma noção de quanto tempo se passou?"

Hatsue sabia o quão difícil seria essa parte da conversa para Kagome, pois Shippou havia comentado algumas vezes o quanto todos eles eram unidos.

- "Não. Não até ver o quanto esse menininho cresceu!" - disse Kagome, tentando trazer alguma leveza para uma situação que, ela tinha quase certeza, seria bem dolorosa.

Hatsue respirou fundo e o cheiro de sândalo que queimava do incenso renovou suas energias.

- "105 anos se passaram desde a última vez em que esteve aqui". - ela observou a expressão de Kagome endurecer - "Eu sinto muito."

Kagome engoliu em seco.

Era isso. A linha temporal estava completamente bagunçada. Eles haviam se desencontrado e, dessa vez, era para sempre. Teve de se segurar para não chorar. Era como se estivesse passando novamente pela experiência do luto, mas dessa vez, dos seus melhores amigos. Sango e Miroku! Quisera tanto reencontra-los! Isso mantinha acesa qualquer tipo de esperança nela.

Mas agora tinha acabado.

Ela perguntou a única coisa que importava nesse momento.

- "Foram felizes?"

Hatsue sorriu. Seu olhar encontrou novamente o de Kagome.

- "Sim." - respondeu, com doçura.

E após uma breve pausa, que Kagome prontamente utilizou para soltar a respiração que havia prendido sem perceber, ela complementou.

- "Casaram-se." - ela falava e sorria como se recordasse de uma história que já tinha ouvido muitas e muitas vezes - "Dois anos depois que você foi embora. E tiveram dois filhos... e esses filhos tiveram filhos. Moram em um vilarejo mais distante, ao sul."

Seu coração parecia que ia sair pela boca, mas ainda assim ela não esboçava muita reação. Shippou ao seu lado estava atento a qualquer movimento e Kagome fez um esforço enorme para não enche-lo de perguntas sobre Sango, Miroku e seus descendentes. Pelo tom solene daquela reunião, ela sabia que iria ter tempo para conversarem. Sabia que sua visita não seria tão breve.

- "Obrigada, Hatsue-sama." - respondeu, enfim, com sinceridade - "Fico feliz em saber disso."

Como se tivesse adivinhado seus pensamentos, a sacerdotisa respondeu.

- "Não precisa agradecer, Kagome-sama, nem muito menos referir-se a mim dessa forma." - Kagome a olhou um pouco confusa, e Hatsue teve que se lembrar que as coisas que eram óbvias para ela iriam ser uma grande novidade para Kagome - "Esse título é muito mais seu do que meu, dada sua enorme contribuição para este mundo. Você, Inuyasha, Sango, Miroku... Nós temos muito a agradecer todos vocês..."

Kagome não sabia muito bem como reagir àquela informação. Não só ela tinha voltado para um Japão Feudal sem praticamente nenhuma das pessoas que conhecia, mas agora tinha que absorver o status ao qual haviam sido alçados. Tudo aquilo parecia muito surreal e difícil de assimilar, então ela partiu para algo mais concreto e muito mais urgente.

- "Hatsue-sama, Shippou-kun... Youkais tem aparecido na minha Era."

O olhar de Hatsue tornou-se mais atento. Shippou, que já a conhecia bastante bem, sabia que aquele era o olhar que ela carregava quando estava com medo.

- "Devo admitir..." - começou Hatsue - "...que eu não imaginei que as coisas estivessem tão... instáveis. A verdade é que desde que você partiu, Kagome-sama, muitas coisas andam estranhas por aqui. Mas, nos últimos meses, tudo se intensificou. Mesmo assim, eu ainda nutria esperanças de que não fosse tão ruim."

Shippou apenas ouvia as duas sacerdotisas conversarem enquanto tentava absorver todas as informações que Kagome compartilhava.

- "Mas o quanto se sabe aqui?" - questionou Kagome.

- "Não muito." - Hatsue respondeu com uma voz quase desanimada. Ela subiu o olhar para Shippou e imediatamente soube que ele gostaria de falar algo - "Sim, Shippou-kun, por favor, fale."

Ele coçou a cabeça envergonhado, pois Hatsue, por mais que não tivesse intenção, era um pouco intimidadora. Mas respirou fundo e começou.

- "Eu acho que... Ela precisa ver." - Hatsue não entendeu num primeiro momento e ele foi forçado a tentar se expressar melhor - "O... você sabe. O lugar onde ele está"

- "Sim! - ela respondeu de bate pronto, e aquele era um dos motivos pelos quais ela admirava Shippou. Sempre ajudando-a enxergar as coisas da forma como deveriam ser vistas - "Claro, você tem toda razão. Mas..."

- "Kagome!" - Shippou virou-se para ela, num tom de súplica, de quem praticamente pede desculpas pelo que vai falar a seguir - "Sinto muito, mas... Temos que ir. Temos que ver Inuyasha... O lugar onde ele..."

Hatsue levantou-se concordando silenciosamente com Shippou e Kagome entendeu onde os dois estavam querendo chegar. Não sabia se estava pronta para isso, mas sabia que tinha de estar, pois o que quer que eles queriam mostrar a ela, deveria ser muito importante.


Assim como Kikyou, após a morte, Inuyasha foi cremado. As únicas coisas que restaram dele foram sua vestes, praticamente indestrutíveis, e algumas continhas da kotodama que ele carregava no pescoço. Ao final da cerimônia, Kagome se recordava de terem encontrado na floresta uma clareira intocada pelo tempo que acabou servindo perfeitamente para espalhar as cinzas e transformar o local numa espécie de sepultura.

Na época, a morte dele comoveu todo o vilarejo. Inuyasha já não era mais visto como uma ameaça, mas como um ser que havia se sacrificado por humanos. Um hanyou que tinha superado suas tendências assassinas e dedicado o restante de sua vida à proteção de inocentes. Ele estabeleceu um parâmetro que antes não existia, pois ainda que houvessem youkais e humanos se relacionando, nada como a história do resgate da famosa Joia de Quatro Almas havia se espalhado por tantos lugares. E, com essa aventura, foi inevitável que Kagome e seu grupo se tornassem relativamente conhecidos.

Hatsue, Shippou e ela caminhavam silenciosamente. A luz do sol mudando conforme entardecia. No início, ela preocupou-se achando que teria se esquecido do caminho até lá, mas surpreendentemente era Hatsue-sama quem liderava a caminhada e ela se perguntou como. A jovem sacerdotisa não aparentava ter mais de 15 anos e com certeza não teria como saber onde estavam as cinzas de um youkai morto a 105 anos atrás...

Eles adentraram a floresta e logo chegaram na clareira. O lugar estava iluminado pelo sol que escapava por entre os galhos das árvores. Feixes finos de luz se formavam e dava pra ver através deles o pólen das flores brincando com o vento leve que soprava.

Kagome piscou os olhos.

Havia ali uma pequena placa de madeira do qual ela não se recordava. Uma estrutura em formato oval. Tinha o nome de Inuyasha escavado nela. Mas isso Kagome só percebeu após analisar bem o que via. Era difícil enxergar, pois, por toda parte, haviam buquês de flores silvestres, artesanatos locais, pergaminhos enrolados, amuletos... O tipo de cena que você encontraria em locais sagrados no Japão. Um olhar mais atento revelou à Kagome que, por entre as flores, estava o que restou da kotodama, um fino fio com as contas que sobraram. Parecia permanentemente pendurado e fixo no topo oval da placa.

Sua curiosidade diante da cena não deu espaço para recordações emotivas e ela se perguntou mentalmente o que significava tudo aquilo.

- "Kagome-sama, acreditamos que você precisa examinar esse local conosco, apesar das lembranças que devem despertar em você" - falou Hatsue calmamente - "Alguns fenômenos estranhos que merecem nossa atenção acontecem aqui todos os dias."

- "Fenômenos? O que exatamente quer dizer?" - questionou Kagome, seu faro se aguçando por respostas - "Que tipo de fenômeno estamos falando?"

- "Uma luz." - falou Shippou antes que Hatsue pudesse elaborar as palavras - "Não acontece sempre. Mas aqui tem uma luz que aparece de vez em quando. Parece sair da terra... De baixo pra cima. Muito brilhante, muito azul."

Kagome franziu o cenho tentando raciocinar uma explicação lógica.

- "Não demorou muito a surgir os relatos das primeiras aparições dessa luz." - complementou Hatsue - "Como você pode imaginar, esse é um lugar frequentado por muitos dos moradores da região e também por viajantes que estão de passagem e querem prestar suas homenagens. Na época que você partiu, Kagome-sama, seu grupo já tinha se tornado conhecido graças a sua jornada pela Joia de Quatro Almas. Mas, para as pessoas como eu, nascidas a menos de duas décadas atrás... bem, nós conhecemos vocês e suas histórias praticamente como lendas."

- "Lendas?" - tudo aquilo era meio difícil para Kagome assimilar. Então todas aquelas flores e objetos e incensos... tinham sido deixados por pessoas. Humanos. Humanos frequentando e homenageando o túmulo de um meio-youkai.

De repente os cochichos e todo o burburinho que se fez no vilarejo quando ela chegou, o extremo respeito e gratidão com que Hatsue-sama parecia falar com ela... Fizeram mais sentido.

- "Kagome-sama, não sei se todas essas informações eram coisas que você já esperava confirmar aqui..." - continuou Hatsue - "mas para que você entenda a dimensão de tudo: imagine apenas que hoje é muito raro encontrar alguém que não conheça com algum nível de detalhe a sua história... A importância desse lugar... Da Árvore Sagrada, do Poço Come-Ossos... E do seu retorno."

Kagome franzia o cenho, confusa, tentando entender aquela nova perspectiva. Olhou para o lado e viu que Shippou havia se abaixado até o nível do túmulo e olhava atentamente para a grama, como se esperasse que algo brotasse dali.

- "Kagome..." - disse ele, o olhar ainda fixo no chão - "Você sente?"

A sensação de sentir uma presença sempre foi muito mais forte na Era Feudal. Claro que, normalmente, até mesmo na Era Atual, é possível sentir presenças. Como quando achamos que estamos sendo observados, por exemplo. Mas ali "sentir a presença de algo" era uma experiência física. As pontas dos dedos dela começaram a formigar levemente, o coração palpitou, pulando algumas batidas.

- "Sinto!" - respondeu e nesse momento os três estavam abaixados, observando o lugar.

Kagome tinha as palmas das mãos sobre o local. A sensação foi surgindo, aumentando conforme a luz brotava e encontrava seu caminho por entre as flores e objetos deixados ali. Logo tornou-se um pouco mais desafiador enxergar porque tudo foi crescendo e crescendo, e parecia, em certo ponto, envolver toda a clareira, como uma neblina leve, porém colorida. O ar foi se tornando um pouco mais frio. Porém, tão momentaneamente como começou, o fenômeno se foi em um instante.

Hatsue e Shippou se entreolharam apreensivos.

- "Você já tinha visto tão forte assim, Shippou-kun?"

- "Não." - respondeu ele. E ficara implícito que aquele era um lugar que o youkai raposa visitava constantemente.

Shippou olhou pra Kagome buscando algum tipo de explicação. Sempre acreditou que ela voltaria com todas as respostas, como sempre.

- "Kagome, você acredita que... é ele?"

Aquela pergunta a pegou totalmente desprevenida. E sim, o raciocínio de Shippou fazia sentido, mas o fato é que ela estava a muito tempo sem sentir a presença de Inuyasha. No início, se lembrava vividamente. Tinha pesadelos todas as noites e era como se ela revivesse durante o sono tudo que tinha acontecido. Se fosse naquela época, sim, ela poderia dar uma resposta certeira. Agora, as coisas estavam confusas. E especialmente confusas porque o que Hatsue e Shippou não sabiam é que poderia existir na Era Atual uma reencarnação de Inuyasha, alguém que, ao mesmo tempo em que lembrava ele, ameaçava ocupar um espaço há muito tempo vazio... Era difícil dizer.

- "Honestamente Shippou... Eu não sei." - disse ela - "Mas se eu fosse alguém que visitasse esse lugar constantemente e nutrindo esse sentimento de... gratidão. Esse ímpeto de homenagear quem esteve aqui... Acho que eu pensaria sim na possibilidade de ser ele. Mas você sabe muito bem que esse tipo de alma seria diferente, seria reconhecível."

- "Eu e Shippou conversamos sobre as possibilidades." - confessou Hatsue - "Desde o início, sempre achei que não fosse ele. Essa luz, nunca vi igual antes... Mas parece não pertencer a alguém em específico."

- "Mas tem que ser ele, não é Kagome?" - retrucou Shippou, soando um pouco inconformado.

Kagome balançou a cabeça sutilmente. Hatsue a observou.

- "Não consigo afirmar, Shippou... Sinto muito... Eu juro que queria..." - ela reuniu coragem para expor o seu lado mais vulnerável - "Eu queria estar aqui com todas as respostas pra vocês... Mas, na verdade, eu trago mais perguntas."

Shippou contemplava o túmulo tristemente. Sem dizer mais uma só palavra ele assentiu com a cabeça, resignado, levantou-se e começou a fazer o caminho de volta, dando um tempo para Kagome e Hatsue conversarem a sós, e também para que ele assimilasse as coisas antes de retornarem ao vilarejo.

Hatsue foi a primeira a quebrar o silêncio.

- "Ele estava muito ansioso para sua vinda, Kagome-sama." - começou ela - "O amor e admiração que ele sente por você ultrapassam qualquer dedicação que eu já vi."

- "Eu sinto muito, Hatsue-sama." - e era verdade.

- "Ah, por favor. Não sinta!" - continuou ela - "Já não basta ter livrado nosso mundo de todo aquele mal... Não nos deve nada, Kagome-sama!"

Kagome sorriu com um misto de tristeza e alívio. Era bom saber que o vilarejo estava nas mãos de alguém tão doce e competente como Hatsue. Era reconfortante que Shippou tivesse um lugar ali, por mais que obviamente ele estivesse com aquele típico ar amadurecido e sombrio de quem começa a se transformar em um "adulto". Se é que dá pra definir youkais assim.

Ela suspirou, cansada e abalada com tudo o que ouvira, mas tentando demonstrar algum tipo de força. Sentia que Hatsue e Shippou estavam, de certa forma, sob sua proteção. Imaginou o tempo que eles teriam esperado, as especulações, as horas gastas buscando explicações. Lembrou-se dela mesma anos atrás quando procurava auxílio das pessoas que ela considerava mais experientes e inteligentes. Kaede-sama. Sua mente inevitavelmente recordou-se de todos. Passou por todos os rostos que tanto amava.

Nenhum deles ali.

Mas não podia chorar, nem fraquejar. Todos, onde quer que estivessem, contavam com ela. Agora, mais do que nunca.

- "Vamos voltar." - disse - "Precisamos estudar as possibilidades e descobrir se isso tem alguma relação com a instabilidade no Poço Come-Ossos. Mas amanhã, com calma."

- "Claro, Kagome-sama." - Hatsue concordou acenando levemente a cabeça. - "Vamos andando, Shippou-kun deve estar nos esperando."

Eles seguiram o caminho de volta e, felizmente, conseguiram chegar antes do anoitecer. Montaram um sistema de vigília noturna, pois, com a Joia de Quatro Almas ali, seria fácil que algum youkai malicioso se aproximasse com más intenções. O vilarejo foi completamente mobilizado, todos estavam atentos e tinham um papel a cumprir. Kagome sentia muito por interferir na rotina daquelas pessoas, mas ao mesmo tempo, eles pareciam ávidos por ajudar. Ela recebia reverências e cumprimentos respeitosos e começava a assimilar o impacto cultural que Hatsue atribuía à história dela.

Finalmente, encolheu-se para dormir.

Mas, antes disso, chorou silenciosamente todas as lágrimas que havia guardado para Sango, Miroku e todos aqueles que ela jamais tornaria a ver.


Ele não conseguia dormir.

Havia deitado na cama já fazia algumas horas. Se virou para todos os lados possíveis. Uma música que ele não conseguia discernir tocava baixo pelos auto falantes do computador. Não fazia o efeito esperado, que era acalma-lo. Tentava segurar a vontade de beber, pois tinha receio que, no estado em que estava, isso seria porta de entrada para uma recaída pior. E aí vinha a culpa por ser quem ele era.

Ichiro Masagami.

"Something bad is 'bout to happen to me

I don't know it, but I feel it coming

Might be so sad, might leave my nose running

I just hope she don't wanna leave me"

Ele sabia que era um potencial desperdiçado. Sabia que tinha que ser muito melhor do que era e, ainda assim, além de todos os problemas que causava para si e para os outros, ele não conseguia. Agora, se sentia a beira de um ataque de nervos, coisa que ele um dia se gabara de ter superado totalmente. Mas não por querer ser uma pessoa melhor para si mesmo e sim por arrogância.

Mas Kagome tinha acionado nele uma vontade que estava adormecida.

"Don't you give me up, please don't give up

Honey, I belong with you, and only you, baby

Only you, my girl, only you, babe"

Ela fazia com que ele quisesse ser "puro". De coração, de alma. Alguém mais generoso, equilibrado e sem problemas. Mas não dava pra apagar o passado.

A respiração começou a acelerar. E ele lutou contra os próprios pensamentos. Levantou-se da cama. Suas mãos começaram a tremer e ele sabia que o próximo passo seria as pernas fraquejarem, mas ele não queria. Simplesmente não podia. Tinha que ser forte. Tinha que se certificar que seus nervos podiam ser controlados sem ajuda de nenhuma substância nociva. Mas a casa estava cheia de bebida e isso era um grande problema.

Foi aí que ela atravessou a mente dele pela milésima vez aquele dia.

Ele checou o celular. Ligou. A linha dela estava indisponível.

"Sim, porque ela voltou 500 anos no tempo, caralho."

Inacreditável.

"Something bad is 'bout to happen to me

Why I feel this way, I don't know, baby

I think of her so much, it drives me crazy

I just don't want her to leave me"

Quanto tempo aquilo ia demorar? Não, não. Ele não ia aguentar esperar nem mais um dia. Mas tinha que estar bem para conseguir ajuda-la.

Qual seria a melhor forma de se preparar pra socar alguns demônios?

Ele pousou a mão no peito. O coração desacelerava. Olhou para as mãos. O tremor diminuíra. As pernas estavam firmes. Sentou-se na borda da cama.

Se sentiu orgulhoso de si mesmo, mas a linha era tênue entre se dar um tapinha nas costas por ter resistido ou achar que estava bem ao ponto de beber só um gole. Ele foi até a cozinha. Mas escolheu fazer um chá. Camomila, baunilha e um pouco de mel. Precisava dormir. Precisava acordar no dia seguinte descansado, treinar, se energizar.

E precisava ir buscar Kagome.

"What if she's fine?

It's my mind that's wrong

And I just let bad thoughts

Linger for far too long"

Ele sabia que, desde sempre, sentia uma sensação de despropósito. E sim, muitas coisas que aconteceram em sua vida contribuíram para isso, mas ele sentia também que sempre tivera alguma coisa faltando. Algo dentro de si dizia que Kagome era a chave pra descobrir o que era.

Além disso, é claro, ele estava completamente apaixonado.

Deitou-se novamente com as esperanças renovadas. Com certeza iria conseguir. Não iria mais beber feito um louco; ia ser um bom garoto, ia cuidar da sua irmã. Ia estudar, mesmo achando que não precisava. Ia ser mais saudável. Se existir realmente alguma justiça nesse mundo, ele teria a sua segunda chance. Melhor: ia criar essa chance.

"Don't you give me up, please don't give up

Honey, I belong with you, and only you, baby

Only you, my girl, only you, babe"

Com o corpo cansado de tanto pensar. Ele finalmente adormeceu.


No dia seguinte, cumpriu todos os combinados que havia feito consigo mesmo. O hiperfoco o ajudou a controlar a ansiedade: acordou cedo e se enfiou num banho frio, sem se dar tempo de pensar. Comeu algo rápido, mas que lhe desse energia para suar por umas boas duas horas. Chegou em casa completamente encharcado e estava desesperado por um outro banho que, dessa vez, foi morno. Zhang ainda acordava quando ele saiu da ducha e tinha feito café da manhã para os dois. Ele não queria exatamente sentar e conversar meia hora que fosse com a irmã, pois tinha receio que ela perguntasse algo de Kagome. Mesmo assim, a acompanhou porque era o mínimo que ela merecia de agradecimento por ter preparado tudo.

- "Você foi dormir que horas mesmo, ontem, hem?" - perguntou ela enquanto mastigava um morango.

- "Ah... Não muito tarde. Umas dez, acho." - ele encheu a boca de iogurte com granola na esperança que isso encerrasse as perguntas.

- "Hum, entendi." - ela realmente parecia só estar puxando assunto. Olhou para o relógio de parede acima deles, pensativa - "Acho que vou ficar em casa a tarde toda, ver algum filme ou sei lá."

- "Tranquilo. Eu tenho muita coisa pra estudar."

Zhang deu uma risada descrente.

- "Você? Estudando? Nossa..."

Ichiro limitou-se a revirar os olhos e bebeu um pouco do café. Como ele não disse nada, Zhang continuou a conversa.

- "Bem, suponho que isso seja bom, afinal. Mas você sempre se gabou de não precisar estudar muito."

- "É, verdade. Mas sei lá..." - ele se surpreendeu consigo mesmo porque realmente estava com vontade de estudar. Mas era um assunto bem específico - "Talvez eu esteja mudando... de verdade."

- "Fico feliz, irmãozinho." - Zhang sorriu e parecia sincera - "A gente podia aproveitar e fazer uma limpa nessa casa, né... Você sabe, deixar só o necessário. A gente não precisa de uma adega toda aqui, nem muito menos da coleção de uísques do papai."

- "Sim. Você tem razão." - concordou ele, para a surpresa de Zhang. Ichiro concordar com ela costumava ser um evento tão raro quanto um eclipse - "Peça a alguém para colocar num depósito. Ou mande para a casa de férias em Sapporo."

Zhang concordou com a cabeça e murmurou um "boa ideia" enquanto procurava um contato no celular. Ela não sabia o que havia dado em Ichiro, mas sabia que ele tinha uma tendência a exagerar no consumo de algumas coisas. Já fazia algum tempo que estava incomodada em morar com ele ali, naquela casa cheia de tentações, e sabendo dos problemas que ele já teve. De certa forma, se sentia responsável, apesar de ser a mais nova.

Mas Ichiro realmente parecia uma pessoa mais tranquila ultimamente, especialmente na última semana. E sabia que o fato dele estar aparentemente apaixonado tinha grande influência nisso.

- "Bem, eu já vou indo então." - ele se levantou enquanto recolhia os pratos - "Preciso passar na biblioteca."

- "Indo estudar em pleno domingo... To orgulhosa de você!"

Ele debochou um pouco dela fazendo uma imitação boba da frase que tinha acabado de dizer. Os dois riram e Ichiro comemorou que ela felizmente não tinha tocado no nome de Kagome. Ainda. Só fazia um dia que ela estava "sumida" e ninguém tinha percebido até então. Ele não queria nem pensar no que aconteceria quando notassem. Com certeza não saberia o que dizer. Aproveitou a sorte, foi para o quarto e fez uma mochila leve. Já sabia exatamente onde iria e sim, primeiro iria a biblioteca, mas depois tinha um certo templo para visitar. Passava das nove da manhã quando ele saiu. No caminho, fez um telefonema.

O celular tocou duas vezes e a ligação foi atendida.

- "A-alô? Ichiro-san?"

- "E aí, pirralho. Escuta... Posso passar aí em duas horas?"

- "Claro, claro! Mas..." - Souta hesitou antes de falar a próxima frase - "Ela ainda não voltou."

Ichiro engoliu em seco. Não que ele não esperasse, pois ligava pro celular de Kagome a cada meia hora esperando que em algum momento ele tocasse. Mas sabia que ela provavelmente tinha deixado descarregar. Sabia que ela com toda a certeza não estava nem perto do celular.

- "Eu sei. Mas preciso te perguntar umas coisas." - ele sabia que o irmãozinho mais novo de Kagome era extremamente solícito, mas não queria atrapalhar - "Isso é claro, se eu não for atrapalhar. Você tinha planos?"

- "Eu? Ah..." - Souta riu. Ele era um garoto meio nerd e bem tímido de treze anos. Obviamente não tinha nenhum outro plano além de estudar. Ele quase riu da pergunta de Ichiro, mas respondeu rápido - "Eu preciso terminar uma pilha de dever de casa."

- "Ok, nisso eu posso te ajudar."

- "Combinado!" - ele podia perceber que Souta tinha respondido sorrindo.

- "Até mais."

Ichiro de fato passou na biblioteca e catou a maior quantidade de livros sobre Era Feudal imagináveis. É claro que sendo um estudante de História, ele demorou um certo tempo fazendo a curadoria do que ia levar. Conhecia muitos livros e autores diferentes, mas não poderia levar tudo. Queria escolher com calma e, mais uma vez, o hiperfoco manteve sua cabeça no lugar. Conseguiu não pensar em Kagome, apesar de, ironicamente, estar fazendo tudo aquilo por causa dela. Ele passou num restaurante conhecido para comprar um almoço. Para quatro pessoas.

Quando chegou no Templo Higurashi já passava um pouco do meio dia. Ele desceu do carro, carregava os livros numa mão e o almoço em outra. Souta já estava do lado de fora da casa, próximo a àrvore, aproveitando sua sombra e lendo um livro.

Ele se aproximou e fez uma sombra a mais acima do garoto.

- "Oi, fedelho."

Souta olhou para ele, para os livros e dos livros para a sacola cheia de comida. Levantou-se rápido colocando o livro embaixo do braço.

- "Nossa, quanta coisa! Quer ajuda? E... ahn? Isso é comida?"

- "Claro que é." - ele jogou a sacola nas mãos dele - "Vamos, leve lá pra dentro."

- "Mas..."

Antes que Souta pudesse terminar a frase, a mãe de Kagome apareceu, com a expressão calma e tranquila de sempre. Ichiro achava meio absurda a naturalidade com a qual a família de Kagome parecia lidar com aquela história toda. Mas bom pra eles, na verdade.

- "Ichiro, seja bem vindo!" - ela se aproximou um pouco até ver os livros e a sacola - "Oh, você trouxe algo."

- "Senhora Higurashi." - e mesmo carregando peso, ele fez uma reverência respeitosa - "Me desculpe chegar de última hora. Achei que o mínimo que eu poderia fazer era trazer algo para retribuir a hospitalidade."

- "Mas imagine!" - sorriu ela - "Não precisava se incomodar! Souta me avisou que você vinha, eu já tinha preparado almoço para todos nós. Bem, quase todos. O avô dos meninos está jejuando..."

Souta riu. Seu avô era meio maluco das ideias. Mas ele achava que Ichiro já sabia disso também.

- "Por tempo indeterminado." - disse Souta, rindo um pouco enquanto os três entravam na casa.

O cheiro que vinha da cozinha era espetacular, mas, no fim, eles comeram um pouco do que Ichiro havia levado e um pouco do que a Sra Higurashi tinha preparado. Ichiro gostou de sentar à mesa e ter uma refeição familiar, ou algo perto disso, já que aquela não era exatamente sua família. Lembrou de Zhang. Tinha que passar mais tempo com ela de agora em diante.

Souta e a mãe aproveitaram para perguntar várias coisas sobre Ichiro. Ele estava se sentindo à vontade como nunca e era realmente impressionante, pois geralmente odiava compartilhar detalhes da sua vida com recém-conhecidos. Mas a verdade é que Kagome e toda a sua família pareciam ser pessoas com que ele convivera desde sempre. Não se lembrava de ter se sentido à vontade assim, nem mesmo com sua própria família, com exceção de Zhang, é claro. E da mãe, de quem pouco se lembrava.

Se sentiu acolhido, mas também um pouco vazio. Mas tinha que admitir que o tempo que passou ali sentado tendo aquela refeição com os Higurashi tinha sido um dos momentos mais tranquilos e agradáveis dos últimos dias.

Estava ajudando a recolher os pratos e organizar a louça. A Sra Higurashi estava ao seu lado, enquanto Souta tinha ido buscar o avô no jardim em que estava meditando.

- "Ela não vai voltar de um dia pro outro, você sabe, não é?"

Ichiro a olhou surpreso. Não era nenhum segredo que ele ansiava por rever Kagome, mas alguma coisa na forma como ela arranjou aquela frase parecia entender exatamente como ele se sentia.

Bem, ela é a mãe, afinal de contas.

- "Eu... Eu sei." - ele se encostou na pia da cozinha, cruzou os braços e suspirou - "Mas... Tenho que fazer algo pra ajudar."

- "Entendo." - ela secou as mãos e pegou uma chaleira no armário. Ia ferver um pouco de água para o chá - "Mas você já ajuda, filho. Ela parece feliz quando está com você."

Ichirou não pode evitar corar um pouco.

- "Espero que sim." - nem ele acreditava que estava tendo aquela conversa, mas as palavras fluíam da sua boca com uma naturalidade surpreendente - "Sua filha é... bem especial."

Ele ia continuar a frase dizendo "para mim" mas no fim, decidiu deixar implícito. E pelo olhar dela, a mensagem tinha sido passada. Foi nesse momento que Souta entrou na cozinha, com o avô logo atrás de si.

- "Ora, ora! Temos visita!"

Ichiro o cumprimentou com uma reverência. Pelo pouco que Kagome tinha comentado sobre o avô, ele sabia que era uma pessoa, digamos... excêntrica.

- "Pst, garoto!" - cochicou ele para Ichiro, como quem fosse contar um segredo. Ele passou para ele algo que nem Souta, nem sua mãe viram - "Isso é um amuleto milenar e precioso! Com certeza vai te ajudar quando você for buscar a Kagome."

Ichiro olhou para a mão e viu que o "amuleto" parecia mais um pedaço de pé de algum animal empalhado. Tentou segurar o riso, sem sucesso, Souta virou-se, viu a cena e entendeu tudo.

- "Vovô!" - Souta balançou a cabeça e revirou os olhinhos discretamente - "O Ichiro não vai precisar disso..."

- "Não vai mesmo, diferente do senhor que está precisando do seu chá!" - disse a Sra Higurashi, segurando o bule numa mão - "Esse jejum já se estendeu por tempo demais, não acha?"

Souta acenou para que Ichiro o seguisse e os dois saíram da cozinha enquanto riam.

- "Pode deixar isso ali." - disse Souta, apontando para um aparador no corredor que dava pra sala - "E peço desculpas pelo vovô, ele ainda acha que esses amuletos fazem algum efeito."

- "Bem, garoto..." - respondeu Ichiro - "Para uma família que tem uma filha que viaja 500 anos no tempo através de um poço... isso nem me parece tão absurdo assim."

Souta deu uma risada, concordando. Ichiro soltou o pedaço de animal empalhado no aparador e os dois sentaram no chão, a mesa de centro da sala servindo de apoio pra todos os livros que ele trouxera, mais os cadernos e livros da escola de Souta.

Ficar a tarde ali foi a melhor decisão que ele tomara, pois a leitura o mantinha entretido e ajudar o pequeno Souta com a lição de casa o fazia sentir-se útil, de alguma forma. Ele lia e lia, e ao mesmo tempo perguntava a Souta o que ele achava ser real, lá, naquele outro mundo. Na verdade, Souta não tinha muitas respostas pra dar, visto que Kagome não entrava exatamente em detalhes sobre suas aventuras. Mas contou sobre o que sabia e lembrava de ter ouvido da sua irmã e de Inuyasha.

Falou de algumas batalhas, de Miroku, Sango e Shippou. Lembrava também que cada um deles tinha uma habilidade específica, não conseguiu lembrar-se de tudo, mas recordou que Inuyasha tinha uma espada velha e enferrujada que sempre carregava consigo. E também sabia que Sango tinha uma espécie de arma que parecia um bumerangue, ou pelo menos era o que parecia, pela foto que Kagome guardava deles todos.

Ichiro, que antes desacreditava completamente naquelas histórias, agora escutava com atenção, pois todo o tipo de informação que pudesse absorver seria útil para ajudar Kagome eventualmente, caso ela precisasse.

Ele refletiu. Não sabia exatamente se Kagome pretendia ficar lá até resolver o que quer que tinha de ser resolvido, ou se ela tentaria voltar antes. Quantos dias aquilo iria durar? Amanhã já seria segunda-feira. Ela não ia aparecer na Toudai, as pessoas iam começar a perguntar. Certamente os amigos super protetores dela iam ficar no seu pé. O que ele diria? Ele foi a última pessoa a ver Kagome, se alguém perguntasse algo, sabia que teria dificuldades para mentir. O que diria então? Que Kagome fez uma viagem secreta sem contar pra ninguém? Que o lugar aonde ela foi não tinha sinal? Ou conseguiria se fazer de bobo e parecer tão cheio de dúvidas quanto eles?

Ao final da tarde, antes de escurecer, ele despediu-se dos Higurashi e foi pra casa. No caminho, passou pelo apartamento de Kagome e ficou ali, olhando pra janela dela, torcendo pra ver uma luz se acender magicamente. Lembrou-se da primeira vez que foi ali, logo quando se conheceram. Logo quando decidira que não ia lutar contra sua vontade de estar perto dela e de conhece-la melhor.

E apesar de toda aquela situação absurda, ele não se arrependia.

Nem por um segundo.

E o que era mais louco ainda é que eles dois sequer haviam dado um beijo. Ichiro mal se reconhecia. Logo ele, que sempre se vangloriava de ir "direto ao ponto".

Mas lembrou-se que Kagome era a exceção. A garota que fugia à regra.

Chegou em casa, finalmente. Zhang estava na sala assistindo um filme de terror.

- "E aí." - cumprimentou ela, sem tirar os olhos da televisão.

- "Hm... Qual o nome desse?"

-" Os Sinais." - respondeu ela - "Senta aí, você já jantou?"

- "Ainda não." - Ichiro jogou a mochila no sofá e percebeu que naquele mesmo dia ela já tinha dado um jeito de tirar as bebidas do apartamento. Notou também que estava com fome - "Você quer pedir pizza?"

Ela pausou o filme já sorrindo e saltitou no sofá guinchando. Ichiro revirou os olhos e deu risada. Pegou o telefone e pediu a pizza. Depois abriu um chá gelado e foi pra sala.

Ele esperava que Zhang fosse querer conversar, mas ela parecia entretida com o filme que, no fim das contas, era realmente bom. Não muito assustador, na opinião dele. A pizza não demorou a chegar, eles comeram enquanto assistiam.

- "Não viu seu namorado hoje?" - perguntou ele, tentando puxar conversa.

- "Ora, ora..." - ela parecia surpresa por ele estar perguntando sobre Hideki, mas, ao mesmo tempo, satisfeita por ele estar reconhecendo o namoro dos dois - "Não nos vimos, mas amanhã vamos passar o dia praticamente inteiro juntos, né?"

- "To vendo o quanto você gosta dessa faculdade..." - provocou ele.

Zhang riu e jogou uma almofada na cabeça dele.

- "Cala a boca ou eu vou perguntar onde está a sua namorada."

Ichiro riu. "Você nem imagina" ele pensou.

Mas esperaí, Kagome não era sua namorada.

Ainda.

- "Bem, com essa eu me despeço." - ele se levantou e tomou o caminho para o quarto - "Boa noite, irmãzinha, nos vemos amanhã."

- "Boa noite pra você também!" - riu ela. Fazia tempo que não via Ichiro tão "leve".

Naquele noite ele cumpriu sua rotina de ligar mais três vezes para o celular de Kagome antes de dormir, sem sucesso. Sendo assim, ficou repassando na cabeça todas as informações que Souta havia lhe passado e tudo que a própria Kagome tinha compartilhado. Poço, joia, youkais.

Finalmente, ele adormeceu.


Kagome acordou muito cedo e tocou o rosto. Sentiu os olhos inchados e meio doloridos. A cabeça estava zonza e pesada.

Não tinha sido o sono mais restaurador da sua vida.

Sentou-se e olhou para o lado. Hatsue dormia aparentemente tranquila e ela sabia que lá fora estava Shippou, dormindo sentado, um sono leve, montando guarda para as duas. Levantou-se em seguida e lavou o rosto com a ajuda de uma tigela de água que ficava ali perto. Fez o máximo que pode fazer pela sua higiene pessoal com os itens que tinha levado. Aquilo seria suficiente até que ela tomasse um banho de verdade mais tarde.

Sentindo-se mais fresca, ela foi pra fora.

Respirou aquele ar meio frio de dia meio amanhecido. O céu estava num misto de laranja com azul escuro. Achava que tinha sido silenciosa o suficiente, mas quando olhou para o lado percebeu que Shippou não só tinha despertado como estava de pé, ao seu lado.

Ela sorriu para ele com doçura.

- "Como você está, Shippou-kun?"

Ele balançou a cabeça de cima pra baixo e deu um meio sorriso.

- "Bem, eu acho."

- "Shippou..." - ele não podia achar que conseguiria mentir pra ela - "Sei que você tinha outras expectativas."

- "Está tudo bem, Kagome..."

Ela o estudou calmamente. Shippou tinha crescido bastante em estatura, mas o rostinho ainda conservava alguns traços bem juvenis. Agora que analisava mais de perto, percebia que ele aparentava ter entre 14 e 16 anos. Sua expressão havia adquirido alguma dureza, mas ela conseguia ler os resquícios de esperança no olhar dele.

- "Shippou..." - disse ela, e segurou as mãos dele nas suas - "Não sei se você está preparado pra isso, mas... Preciso que você me conte tudo o que aconteceu... Não só com este mundo, mas principalmente com você, com os outros."

Ele assentiu com a cabeça. E Kagome percebeu que, assim como acontece com todos nós, aquela criancinha astuta e espontânea estava amadurecendo e se tornando um adulto respeitoso e até mesmo cauteloso, talvez. Shippou apertou as mãos dela de leve e, sem dizer mais nada, ofereceu as costas pra que ela subisse.

- "Onde vamos?" - perguntou Kagome, os dois já sentindo o vento da manhã no rosto conforme Shippou corria.

- "Onde eu sempre vou quando quero ficar sozinho."

Kagome apertou mais os braços ao redor do pescoço dele.


Os dois não demoraram mais do que cinco minutos para chegar nas bordas do rio mais próximo. Da margem que eles vinham, a planície seguia, mas do outro lado existia um rochedo não muito alto. Shippou saltou o lago com apenas um pulo e escalou as rochas. Eles alcançaram um espaço mais recuado entre as pedras, similar a uma pequena caverna, mas não muito funda. Dali, ainda conseguiam ver o lago, uma parte da floresta e alguns pontos de fogo subindo pelo horizonte, certamente fogueiras das vilas próximas. Shippou explicou que, apesar da visão deles ser privilegiada, era difícil que alguém que estivesse passando por baixo os avistasse ali.

Os dois se sentaram lado a lado. A paisagem estava linda demais para ser ignorada.

- "É verdade que Sango e Miroku foram felizes?" - perguntou ela, mas, como quem já soubesse a resposta, emendou mais uma frase - "Quem diria, hem? Eles dois... Sempre achamos que iam terminar juntos, mas nunca pensei que teriam coragem."

- "Como assim, coragem?" - questionou Shippou, confuso.

- "Ah... Você sabe..." - ela olhou pra ele um instante e, ao ler sua expressão, entendeu que não... ele não sabia - "É preciso coragem, Shippou. Ser feliz demanda que você se coloque em primeiro lugar... E a parte negativa de ser altruísta é que essa tarefa pode se tornar bem difícil."

- "Hum... É que... Depois que você e Inuyasha se foram... Nós só tínhamos a nós mesmos, na verdade." - refletiu ele.

- "Eu entendo." - suspirou Kagome - "Eu não deixei de pensar nele e em vocês, nem por um só dia. Mas ficar aqui... Deve ter sido igualmente difícil."

Shippou, que estava sentado com as pernas cruzadas, abraçou os joelhos.

- "No início foi bem ruim." - e Kagome notou que sua voz já não carregava nenhum tipo de tristeza, como se aquele fosse um assunto muito antigo e já resolvido pra ele - "Mas Sango e Miroku viveram uma vida longa, sabe... Eu fiquei por perto, vi os filhos dele crescerem... Eles tiveram dois. Uma menina, Gyokuto. E um menino, Hisui."

- "Onde eles estão agora?"

- "Gyokuto tornou-se exterminadora de youkais, ela trabalhou no mesmo bando de Kohaku por muitos anos... Hisui preferiu se mudar pro sul, ele só queria casar e ter uma família. Soube que teve filhos, mas nunca cheguei a conhece-los."

- "Hum..."

Kagome sentia que já havia chorado todas as lágrimas possíveis na noite anterior, por isso ouvia tudo aquilo com uma certa indiferença. Mas não podia esconder que tinha muita curiosidade em conhecer os descendentes de Miroku e Sango. Porém era como se, só de saber que eles estavam bem, que tinham vivido uma boa vida e estavam seguros... Só aquilo já era suficiente para acalmar seu coração.

- "Sabe quem ainda vive até hoje?" - Shippou cortou seus pensamentos - "A Rin!"

- "Rin?! Mas... Shippou... Isso é impossível. Humanos..."

- "Eu sei, eu sei... Inclusive esse era um dos meus maiores receios quando pensava em você retornando, Kagome. Humanos envelhecem incrivelmente rápido, não é?"

- "Sim! Shippou, isso é..." - Kagome tinha os olhos arregalados, achava que Shippou tinha se confundido, mas aparentemente era verdade - "É impossível porque a Rin teria que ter hoje mais de um século de vida... Isso é bem difícil de alcançar como humano, quase impossível mesmo!"

- "Eu sei, mas... É ela mesmo, sabe." - Shippou agora havia esticado as pernas e colocado as mãos para trás, apoiando o corpo com elas, sentia-se mais à vontade - "Eu sei porque ela viveu até os primeiros anos da vida adulta aqui no vilarejo... Depois o Sesshoumarou veio busca-la. Os rumores dizem que ele barganhou a tenseiga com alguém para prolongar a vida dela."

- "Nossa..." - Kagome mal podia acreditar - "O Sesshomarou... Ele realmente havia mudado, não é?"

- "É... Até certo ponto, talvez. Ele continua sendo um idiota. Acho que era de família."

Ele a olhou com uma expressão de quase riso e Kagome soltou uma gargalhada. Shippou se alegrou por ter conseguido faze-la rir.

- "Sabe que até hoje quando tenho sonhos com vocês..." - disse ela, entre risos - "A kotodama ainda me ajuda, haha"

- "Ah, eu imagino!" - ele também riu um pouco - "Nem em sonho o babaca do Inuyasha te dá sossego..."

- "Não mesmo!" - Kagome aproveitou a leveza do clima entre eles e deitou-se um pouco, as mãos atrás da cabeça, servindo de apoio - "Mas então, você tem visto Rin e Sesshomarou com frequencia?"

- "Na verdade..." - começou ele como se estivesse se recordando de algo que não fazia tanto tempo assim - "Eu a procurei. Depois que os fenômenos se tornaram mais frequentes eu fui até ela. Queria pedir ajuda de alguém que tivesse conhecido vocês. Então falei com ela, e fui tentar a sorte com Sesshomarou... Mas, você pode imaginar, não é?"

- "Hum." - Kagome revirou os olhos, Shippou deitou-se ao lado dela na mesma posição, os dois tinham uma visão privilegiada do céu - "Ele não ajudou muito, imagino."

- "Ele nem falou comigo..." - Shippou soltou um resmungo - "É como eu disse: idiota. E a Rin meio que depende dele pra viajar de volta pra cá, então... Não sei."

- "Ah, mas eu sei..." - falou Kagome, com segurança - "A gente vai resolver."

- "Mas..." - Shippou parecia querer perguntar algo, mas estava sem jeito - "É algo que a gente consegue resolver? Você consegue?"

Kagome sentiu a dúvida das palavras dele. E não, ela não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, nem como resolver. Mas não podia esquecer que, pra ela, Shippou ainda era um pequeno youkai raposa a quem ela tinha que proteger. Não ousou demonstrar nenhum traço de insegurança na sua resposta.

- "Bem, está claro que existe alguma coisa que está fazendo com que as duas eras se atraiam, de certa forma." - começou ela, o raciocínio ainda sendo construído conforme falava - "Tem aparecido youkais na minha Era, e sabe-se lá se o contrário também não pode acontecer... Por isso que nós trancamos o poço por lá. Agora temos que entender o que exatamente está causando isso. E se há relação com o que acontece na clareira."

- "A Hatsue-sama... Ela tem estudado muito sobre o assunto..." - a voz de Shippou de repente se transformou, e ele falava as palavras de uma maneira doce que Kagome demorou a assimilar - "Ela é muito inteligente, esforçada... Dedicou a vida inteira, desde muito pequena, a servir o vilarejo e..."

- "...e você gosta dela." - interrompeu Kagome.

Shippou levantou-se num pulo, como se tivesse sido eletrocutado.

- "QUÊ?!" - Shippou não pretendia que a sua voz saísse tão estridente, mas foi o que aconteceu e Kagome sentou-se como ele e começou a rir - "N-não! Kagome, do que você tá falando?!"

- "Shippou-kun! É simples..." - gargalhou ela - "Você tá apaixonado!"

- "Hunf." - ele cruzou os braços em protesto - "Ela é humana. E é uma sacerdotisa. Não tem nenhuma chance de..."

- "Ora, vamos... Isso nunca impediu ninguém." - provocou ela.

Shippou revirou os olhos porque ele sabia que era verdade. Os dois riram lembrando-se que regras normais simplesmente não se aplicavam a história dela e de Inuyasha e, se fossemos mais longe, ainda tinha o exemplo de Kikyou.

- "Mas, de verdade, Kagome..." - Shippou interrompeu as risadas - "Se tem alguém que pode nos ajudar a entender o que tá acontecendo... esse alguém é a Hatsue-sama."

- "Bom..." - disse ela, pondo-se de pé - "Então, não vamos perder tempo. Me leve de volta ao vilarejo. Temos um longo dia pela frente."


De volta a vila, Kagome notou que a maior parte das pessoas já estava de pé, abrindo seus comércios, cuidando dos animais e plantações ou colhendo ervas para os chás e medicamentos. Hatsue estava entre essas pessoas. Ela conversava com uma menininha que não aparentava ter mais do que seis anos. Entregava a ela um frasco com alguma mistura enquanto dava instruções calmamente.

- "Dê a ela duas doses por dia e eu tenho certeza que em menos de uma semana, sua avó vai estar de pé novamente!" - ela acariciou o rosto da criança que agradeceu e correu de volta pra sua casa. Hatsue ergueu-se a tempo de ver Kagome e Shippou retornando.

- "Bom dia, Kagome-sama... Shippou-kun."

Shippou a cumprimentou silenciosamente e Kagome não deixou de confirmar suas suspeitas: ele ficava incrivelmente mais quieto quando ela se aproximava, em alguns momentos parecia até corar. Mas a cabeça sempre mais abaixada escondia esse tipo de reação muito bem.

- "Kagome-sama, venha comigo." - Hatsue retomou a palavra antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa - "Tenho algo pra te entregar."

As duas seguiram juntas para o que, Kagome supunha, era realmente a "casa" da sacerdotisa, o mesmo lugar onde elas tinham dormido na noite anterior. Assim que entrou, um aroma de especiarias e cozido de arroz preencheu suas narinas. Como que acordado de um sono profundo, seu estômago deu uma revirada e ela percebeu como precisava comer alguma coisa o quanto antes.

- "Por favor, sente-se. Eu já comi, mas pensei que iria gostar de uma refeição quando acordasse."

Hatsue parecia ter adivinhado seus pensamentos. Kagome agradeceu e as duas sentaram-se à mesa, frente a frente. A sacerdotisa bebericava calmamente um chá agradável. O aroma de sândalo era constante ali, mesmo que o incenso tivesse sido apagado na noite anterior.

A comida estava deliciosa e Kagome se permitiu apreciar por alguns momentos, sem que nada fosse dito. Mesmo tendo acabado de conhece-la, Kagome sentia que Hatsue era uma pessoa em quem podia confiar. De alguma forma inexplicável, o fato de Shippou nutrir sentimentos por ela fazia com que uma confiança cega se firmasse entre as duas. Alguns minutos se passaram antes que o confortável silêncio fosse quebrado.

- "Kagome-sama." - ela pegou um embrulho que estava ao seu lado esse tempo todo e estendeu para Kagome - "Por favor, aceite isto."

Kagome acenou com a cabeça, sorriu e alcançou o pacote com as mãos. Era um embrulho em papel pardo, de formato retangular, macio e amarrado com um fio de barbante que saía dos quatro lados e se unia no topo em um laço firme. Ela desembrulhou.

Conhecia bem demais aquelas vestes.

- "Achei que nada estaria mais a sua altura, Kagome-sama. Por favor, são suas. Vista-as quando achar mais apropriado."

Era uma nova versão da roupa típica vermelha e branca de sacerdotisa. Tinham algumas diferenças, pois é de se esperar que em 105 anos as coisas mudem um pouco, mas as costuras e recortes ainda pareciam idênticas às que ela costumava usar.

Kagome sempre teve uma relação conflituosa com aquelas vestes. Ao mesmo tempo em que se sentia poderosa, havia momentos em que parecia estar fingindo ser algo que ela não era. Mas o fato é que suas inseguranças tinham um enorme papel nisso tudo. Agora, já com dezoito anos, parecia que ela tinha feito as pazes com tudo aquilo. Mas não recriminando a Kagome mais jovem, pois ter quinze anos e tentar conciliar tudo o que ela conciliou demandava uma maturidade assombrosa que ela não tinha, porém adquiriu.

Ela acariciou o tecido. O tom de vermelho parecia mais frio e escuro, o branco parecia um tanto mais cru, menos branco puro do que era antigamente. Ela adorou aqueles pequenos detalhes diferentes.

Ali, naquele vilarejo, fazendo parte de uma lenda secular, ela sentiu-se apta pra ser aquela pessoa. Porque no fim, ela era. E, de repente, a atingiu: tudo o que Kikyou foi, tudo o que ela se tornou, aos trancos e barrancos... Tudo aquilo era parte da mesma jornada espiritual. Afinal, por mais diferentes que fossem, elas compartilhavam a mesma alma. E isso não era motivo de vergonha ou cobrança. Era algo que a alegrava imensamente.

- "Fico feliz, Hatsue-sama. É igualzinha a sua, não é?"

Hatsue corou um pouco.

- "Sim. Não que eu ache que somos iguais, pelo contrário... Sei que tenho muito a aprender..."

Kagome a interrompeu, colocando as roupas ao seu lado.

- "E eu... tenho muito a aprender com você também." - disse ela, estendendo a mão direita ao longo da mesa, num convite claro a Hatsue - "O que me diz? Vamos trabalhar juntas?"

O rosto de Hatsue se iluminou num misto de surpresa e felicidade e ela segurou animadamente a mão de Kagome com as suas duas mãos.

- "Kagome-sama, nada me honraria mais!" - e aquela era a primeira vez que ela se deixava levar pela alegria desde que as duas tinham se encontrado - "E-eu me preparei muito pra esse momento..."

- "Ah, sim... Tenho certeza. Shippou me contou o quanto você é esforçada e inteligente."

As bochechas de Hatsue pareceram ficar ainda mais vermelhas ao som do nome do youkai e Kagome sabia que não havia mencionado aquilo apenas com uma única intenção em mente.

Pra quê se contentar apenas em salvar o Japão Feudal, quando se pode também bancar o cupido para um velho amigo?

- "Sim, claro... Eu, bem..." - ela observou calmamente a jovem tentar retomar o fio da meada - "Eu tive um preparo especial para isso, digamos assim... Sou a quinta geração de sacerdotisas desde que Kaede-sama se foi. Como eu disse ontem, as coisas aqui começaram a ficar estranhas muito rápido e logo percebeu-se que íamos ter que começar a desenvolver habilidades específicas para lidar com tudo."

- "Entendo..." - Kagome sentiu uma ponta de saudade envolve-la quando o nome de Kaede foi mencionado - "E o que exatamente começou a acontecer?"

- "Bem, como Kagome-sama deve imaginar eu ainda não existia nessa época, mas... Os relatos foram registrados e passados de geração em geração. Há perturbações energéticas de todos os tipos nessa região, mas especialmente, no Poço Come-Ossos. Ali é um local de bastante confusão energética, constantemente youkais são encontrados presos ali. Por isso me surpreendeu quando mencionou que eles tinham conseguido atravessar até sua Era. Não se atravessa sem a Joia de Quatro Almas... Em tese."

Kagome franziu o cenho tentando pensar.

- "Isso é verdade. Mas eu só presenciei isso duas únicas vezes. Não acho que tenha acontecido sem a minha presença... Espere aí..." - Kagome franziu o cenho e parecia estar chegando numa conclusão - "Provavelmente por isso! Eu sempre carreguei a joia comigo. A presença dela tão perto do poço deve ter facilitado a vinda dos youkais, ou atraído eles de alguma forma."

- "Mas, Kagome-sama... Quanto tempo exatamente se passou na sua Era? E por quanto tempo você ficou sem frequentar o poço? N-não que eu ache que existiam motivos pra isso, mas..."

- "Tudo bem perguntar, Hatsue." - disse Kagome, amenizando o constrangimento entre as duas, pois sabia que a jovem achava ter tocado num assunto sensível - "Pouco mais de três anos. Nesse meio tempo eu nunca tinha entrado no poço. Na minha era, ele fica protegido, dentro de um abrigo de madeira com porta. Só muito recentemente eu entrei lá pela primeira vez desde que retornei."

- "Entendo, Kagome-sama..." - Hatsue disse e calou-se. Ia esperar Kagome retomar a palavra.

- "Você nunca achou que os youkais atravessavam o poço então."

- "Nunca. Eles sempre eram encontrados aos pedaços. Parecendo que tinham batido contra a terra várias vezes. Alguns saíam de lá muito machucados, penso eu, mas outros... Nunca saíam. Simplesmente morriam lá."

- "Mas... Quem tirava eles de lá? Quem te ajudou com isso...?"

- "Shippou-kun." - respondeu Hatsue com um sorriso, como se aquela fosse a resposta para a pergunta mais óbvia do mundo - "Ah, Shippou-kun... Eles nos ajuda desde sempre, Kagome-sama. Ele esteve com Kaede-sama, com Yuri-sama, depois Akiko-sama... Até chegar até mim. Ele sempre esteve conosco. Mal deixou esse vilarejo todos esses anos."

Kagome não conseguia deixar de orgulhar-se de como Shippou parecia ter amadurecido. Desejava que a vida não tivesse sido tão dura com ele, mas, ao mesmo tempo, admirava a forma como ele tinha escolhido vive-la. E sabia que, para um youkai, viver ao lado de humanos era realmente uma escolha. E não das mais fáceis. Se perguntou se aquela era a primeira vez que Shippou gostava de alguém, ou se, antes de Hatsue, havia existido outra pessoa que ele amou e perdeu, assim como Sango e Miroku.

Mas um detalhe ainda a intrigava na história de Hatsue.

- "Você disse que é a quinta geração após Kaede-sama, certo?"

Ela assentiu com a cabeça.

- "Mas... 105 anos... É pouco tempo pra tantas gerações de sacerdotisas, Hatsue. Considerando que conseguimos alcançar os 50 anos."

Hatsue respirou fundo.

- "Tivemos que elevar nossa habilidade espiritual, Kagome-sama. Pra conter a energia confusa que circula nessa região. Fomos além do nosso limite. Mas por um bem maior, é claro." - com pesar na voz, ela continuou - "Eu tenho 14 anos e não vou viver muito mais do que isso. Não se eu continuar a utilizar meus poderes espirituais dessa forma... Mas sei que... É necessário."

Ela olhou para fora, na direção da porta. E Kagome soube, intuitivamente, que ela pensava em Shippou.

Sentiu pena da jovem. Então aquele era o preço a se pagar? Cinco jovens mulheres perdidas em apenas um século. Cinco vidas brilhantes sacrificadas. Será que as outras também tinham amado alguém? Do que teriam abdicado? Quais teriam sido os sacrifícios?

Não. Definitivamente não.

Hatsue e sua bondade, o amor que ela sentia por Shippou e que lhe era retribuído. Kagome tinha acabado de ganhar mais um motivo pra lutar. Nem ao menos sabia contra o que. Mas ela iria fazer de tudo pra dar uma chance àqueles dois de serem felizes.

- "Kagome-sama..." - para a surpresa dela, Hatsue quebrou o silêncio - "Não há exatamente um registro da alma de Inuyasha, você sabe."

- "Não? Mas... Não entendo."

- "Bem... É claro que não temos como comprovar de fato, mas... Existem teorias de pra onde foi a alma dele depois. Muitos acreditavam que você não tinha partido apenas fisicamente, mas também espiritualmente e que as almas de vocês dois encontraram-se e ficaram juntas, mas.. é claro que isso não é possível, você está viva e bem aqui na nossa frente e..."

Kagome subitamente lembrou-se da última conversa que ela e Inuyasha tiveram. E um estranho sonho também lhe veio à memória.

- "Sabe... As últimas palavras que ouvi de Inuyasha, Hatsue..." - ela controlou-se para não se emocionar demais enquanto recordava - "Ele me disse 'ainda não acabou'. E eu pensei por muitos anos sobre o que poderia significar aquilo."

Hatsue parecia pensativa. Mas deixou que Kagome continuasse.

- "Uma coisa que eu sempre achei muito... estranha. Inuyasha sempre foi muito, digamos, eufórico não é bem a palavra. Mas ele não era conhecido por sua paz de espírito, vamos colocar dessa forma!"

Elas riram um pouco. Aparentemente a fama de esquentado de Inuyasha era algo que não tinha passado despercebido às lendas, já que Hatsue parecia entender perfeitamente do que ela estava falando.

- "No entanto, tenho que admitir..."- continuou Kagome - "Ele parecia estar simplesmente... calmo. Uma das últimas palavras que eu usaria para descrevê-lo."

"Ainda não acabou."

A frase ecoava na memória de Kagome repetindo-se como um disco arranhado. Ela refletiu. Poderia simplesmente achar exatamente o que achou na época, que ele estava delirando, que já havia perdido muito sangue... Que não estava falando nada com nada. Mas a expressão calma dele. Aquilo era difícil de encaixar, de entender. A assustava e fascinava ao mesmo tempo.

E tinha aquele sonho.

"Porque você não enxerga?"

Ela lembrou-se dos olhos dele. Das sobrancelhas franzidas, mas não de raiva, de... desapontamento? Ele parecia desapontado por ela não estar entendendo o que quer que ele tentasse explicar. Mas sonhos eram apenas sonhos, certo? Não podiam ser lidos como verdade absoluta ou como alguém tentando se comunicar através deles.

Mas aquele sonho...

"Porque você não se dá o devido crédito?"

E ela lembrava de ter respondido a altura. Ou, pelo menos, o que ela achava que ele estava perguntando. Sim, ela tinha sido a principal responsável pela destruição de Naraku. Havia sido ela que tinha lançado a flecha final, uma das flechas mais poderosas que ela lançou. Mas não era aquilo que ele queria ouvir.

"Não estou falando disso. Kagome, eu estou tentando..."

Mas tentando o quê?!

- "Kagome-sama..." - Hatsue a chamou. Mas ela não ouvia. Estava tão imersa naqueles pensamentos...

"Não há conserto. Você está morto."

E ela agora sentia-se culpada. Culpada pelas palavras cruéis que tinha dito a alguém em um simples sonho. Não era real... Nada daquilo tinha sido real... certo?

"Kagome. Kagome... eu juro..."

E se foi.

Ela permaneceu quieta por mais alguns instantes, deixando-se levar por aquela sensação avassaladora. A sensação de estar querendo tocar uma resposta que estava perto o suficiente para enxergar bem diante de si, mas longe o suficiente para não ser alcançada pelas suas mãos. Parecia esticar-se e esticar-se... mas nunca era o suficiente.

- "Hatsue... O quanto você acha que devo levar em consideração... um sonho?"

A jovem a olhou com curiosidade.

- "Um sonho... Bem... Um sonho pode ser só um sonho, Kagome-sama. Mas..." - ela demorou-se um pouco na resposta, o aroma de sândalo preencheu o ambiente - "O que a sua intuição te diz?"

E Kagome sabia exatamente a resposta.

Não com a ansiedade de quem busca o amor perdido desesperadamente. Mas com a tranquilidade de quem simplesmente confiava em si mesma. Quisera ela ter essa confiança quando tinha quinze anos... Certamente evitaria muitos problemas.

Kagome tinha certeza que aquele sonho te dava respostas. Mas não as respostas completas, que ela gostaria de ter. Era como se Inuyasha não tivesse tido o tempo que gostaria de ter para explicar tudo que gostaria de explicar. E agora o que restavam eram peças de memórias que ela tentava encaixar numa narrativa concisa.

Sentiu que tinha que perguntar mais uma coisa antes de encerrar a conversa com Hatsue.

- "Como você pode ter tanta certeza de que não era a alma dele ali?"

Hatsue espantou-se. Esperava que Kagome fosse fazer as perguntas difíceis, mas não achava que ela iria fazer aquela, em especial, ao menos não a ela. Não tão logo.

- "O que quer que tenha ali... É muito especial." - começou ela - "Pelas características, por tudo que sei e li em toda minha vida, Kagome-sama... Não é a alma de alguém. É uma forma de energia mais impessoal... mas também mais pura. Como uma essência. É tão puro que... bem, não era nem ao menos para estar entre nós. Parece estar..."

- "Preso?" - Kagome a interrompeu, sem pensar.

- "Não..." - Hatsue sorria docemente - "Parece estar... esperando."

Aquilo não fazia muito sentido. Mas Kagome confiava em Hatsue, confiava no que estava dizendo. E, mais uma vez, sua intuição lhe dizia para acreditar. Mas ainda sentia dificuldade em assimilar. O que aquela energia estava fazendo ali? Se não pertencia especificamente a Inuyasha, então de quem era?

E o que isso poderia ter a ver com os youkais indo parar na Era Atual?


Fazia quatro dias que Kagome havia ido para a Era Feudal.

Ichiro sabia que não havia data concreta para o seu retorno, mas não imaginava que fosse se sentir tão angustiado. Logo ele, que sempre se vangloriou de controlar seus sentimentos...

Para tentar manter a mente calma ele vinha seguindo uma rotina que consistia em acordar muito cedo, treinar por duas horas, depois retornar para o apartamento, comer qualquer coisa (mas sempre tentando sentar à mesa com Zhang), assistir as aulas que tivesse que assistir e correr para o Templo Higurashi o mais rápido que conseguisse.

Estar na companhia dos Higurashi era uma das únicas coisas que realmente o deixavam calmo. Além dele gostar de imaginar que Kagome poderia retornar enquanto ele estivesse ali, a família toda era muito acolhedora e ele sentiu uma sensação de pertencimento muito parecida com a que tinha sentido com a família que o hospedou durante o intercâmbio. Daquela vez, no entanto, era um pouco diferente... Era ainda melhor. O vazio constante no seu peito quase se desfazia perto deles.

Ele tinha conseguido driblar as perguntas de Zhang sobre Kagome no dia anterior, mas já era quinta feira e ele tivera que sair praticamente correndo de casa para evitar que ela perguntasse mais uma vez. Na Toudai, se esconder dela e dos amigos não era tarefa tão fácil assim... Digamos que estava sendo uma semana bem estressante e fora do normal.

Naquele fim de tarde ele já estava na sala ajudando Souta com a lição de casa enquanto devorava o terceiro livro sobre Japão Feudal. A mão que não estava ocupada com a leitura, brincava com o gatinho da família, Buyo. Eles beliscavam chá com biscoitos, o avô de Kagome tinha saído para meditar e a mãe dela já ia se retirar para um descanso breve quando a campainha tocou inesperadamente.

O coração de Ichiro deu um salto.

"Mas é óbvio que não poderia ser Kagome, seu idiota" - disse ele a si mesmo - "Ela não iria tocar a campainha da própria casa."

Souta já ia se levantar, mas a Sra. Higurashi tomou a frente e abriu a porta fazendo um sinal pra que eles permanecessem onde estavam.

- "Sra Higurashi! Desculpe incomodar..."

E Ichiro reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Pois parados em frente a porta estavam sua irmã mais nova e o namorado, Hideki.

- "Imagine... Incômodo algum. Eu me lembro de você, seu nome é Zhang, estou certa?"

- "Sim! E esse é o Hideki." - ele a cumprimentou discretamente com a cabeça e deixou que Zhang continuasse a falar - "Bem, Sra. Higurashi, nós estávamos nos perguntando se a Kagome está aqui... Ela não vem pras aulas desde segunda, e não conseguimos contato com ela."

A Sra. Higurashi seguia parada à porta, ainda não tinha oferecido para eles entrarem e Ichiro não sabia se eles iam conseguir avista-lo ali ou não. Hideki e Zhang espichavam as cabeças sobre o ombro da mãe de Kagome, as expressões tensas e preocupadas.

- "Agradeço a gentileza de vocês, mas... A Kagome está ótima! Ela só... precisou viajar para o interior... Temos alguns parentes lá."

Ichiro foi rapidamente para a ponta do sofá mais distante possível do campo de visão dos dois e ficou ouvindo a conversa de lá. Algo lhe dizia que a mãe de Kagome iria tentar expulsar as visitas o mais rápido possível. A desculpa que ela tinha inventado era boa, mas ele não sabia dizer se boa o suficiente pra convencer sua irmã.

- "Ela não levou o celular?" - questionou Zhang - "Estranho, né..."

- "Sra. Higurashi, podemos deixar isso com você?" - Hideki estendeu uma pasta com diversas folhas e anotações - "São das aulas que ela perdeu. Tomei a liberdade de fazer uma cópia dos meus estudos. Sabemos o quanto ela é responsável com essas coisas..."

Ele não podia ver a expressão da Sra. Higurashi de onde ele estava, mas a viu pegar a pasta com relutância. A frase de Hideki poderia soar solícita (Ichiro até acreditava que ele estava sendo solícito de verdade) mas algo no tom dele deixava claro que eles estavam achando muito estranho não só a falta de notícias de Kagome, mas também a negligência com os estudos. E estavam certos. Era totalmente fora da pesonalidade dela. Mas o que eles não sabiam era que ela estava resolvendo algo muito mais importante do que sua educação superior.

Ichiro engoliu em seco e se encolheu um pouco mais no sofá. Buyo no seu colo, confuso, sem entender muito bem o que estava acontecendo e Souta atento ao que se passava, como se estivesse pronto para intervir a qualquer minuto.

- "Tenho certeza de que ela vai ficar muito grata... Mas não se preocupem!" - ela parecia inventar as desculpas conforme falava, algo que geralmente dava errado - "Ontem mesmo nos falamos e..."

- "Como?" - questionou Zhang, a desconfiança crescendo no seu tom de voz - "Ela está sem telefone, não é?"

- "Ah! Sim... Claro, é que... Lá nos tios dela tem um telefone e..."

Souta levantou-se tão rápido quanto podia e antes mesmo de alcançar a porta já dizia:

- "Mãe, mãe! O vovô tá chamando..."

Zhang e Hideki encararam Souta que agora estava à porta, ao lado da mãe, e os três se cumprimentaram brevemente. Souta apressou as despedidas.

- "Bem, eu vou ter que ir, realmente." - disse a Sra. Higurashi com um sorriso constrangido - "Parece que precisam de mim agora. Obrigada, Zhang-chan, Hideki-kun! Sejam sempre bem vindos aqui."

- "Claro." - murmurrou Zhang. E Ichiro soube pelo tom de voz dela que a mentira não tinha sido bem executada - "Obrigada, Sra. Higurashi, tenha uma boa tarde!"

Tão logo a porta se fechou, Ichiro levantou-se do sofá, Buyo pulou rapidamente para o chão. Ele entrou no corredor mínimo que separava a porta de entrada da sala e viu a Sra. Higurashi com uma expressão de alívio no rosto.

- "Acha que a sua irmã acreditou, Ichiro?" - questionou Souta.

- "Nem por um segundo." - respondeu ele, sem hesitar.

Souta compartilhou com a mãe uma risadinha nervosa.

- "Acho que vou passar a noite em um hotel hoje." - disse Ichiro - "Pra, sabe... Evitar as perguntas que ela com certeza vai me fazer."

- "Hotel?!" - a voz da mãe de Kagome soava indignada - "De jeito nenhum! Com o quarto antigo da Kagome vazio não faz nenhum sentido você pagar uma diária de hotel."

Dormir? No quarto que tinha sido de Kagome? Porque aquela ideia parecia boa e ruim ao mesmo tempo?

- "Agradeço, Sra. Higurashi, mas... Não quero incomodar, de verdade."

- "Ah, pelo amor de deus, filho. Não é incômodo. Vou subir e verificar se está tudo nos conformes. Você fica aqui esta noite."

Ele ficou sem jeito demais para protestar, mas, no fim, achou que seria melhor mesmo. Uma ótima oportunidade pra tentar ocupar sua mente xeretando as coisas antigas de Kagome, apesar de ter quase certeza que ela tinha levado embora tudo que tinha de mais importante.

Incluindo a fotografia que Zhang mencionou e que ele queria tanto ver por si mesmo.

A noite caiu, e eles fizeram mais uma refeição tranquila, todos juntos à mesa. Ichiro riu das bobagens do avô de Kagome enquanto trocava informações com Souta sobre a leitura que tinha feito naquela tarde. Eles ajudaram na organização da cozinha, como retribuição a Sra. Higurashi e, em seguida, Souta mostrou a ele o que seria o seu quarto por aquela noite.

O quarto de Kagome ficava no primeiro andar da casa. Ali não tinha mais tantos móveis, mas dava pra ver que tinha sido um quarto bem feminino, a cara dela. As paredes de um tom bem específico de lilás, ora pareciam mais rosadas, ora azuladas. Ainda tinha um armário embutido próximo a cama, duas grandes janelas das quais pendiam cortinas cor de rosa vivo até o chão. Entre uma janela e outra, a escrivaninha com uma cadeira.

Ichiro desejou boa noite para Souta, que lhe entregou uma muda de roupas (das mais largas que tinha), lençol e travesseiro. Assim que ele fechou a porta, Ichiro sentou-se na cama de Kagome, pensativo. Ele conseguia ter uma visão da janela, que ainda estava aberta, com as cortinas amarradas.

Aquele lugar lhe parecia tão familiar.

Assim como a casa inteira, o templo, a árvore, o poço, a família... Tudo.

Suspirou enquanto se deitava e sentiu, de repente, o quanto aquela cama era agradável. Ali, suspenso no ar, ainda tinha um resquício do cheirinho inconfundível dela. Uma mistura indecifrável. Shampoo? Perfume? Hidratante? Talvez tudo aquilo junto.

Ele deitou-se. Ia descansar só um pouquinho antes de xeretar tudo.

Só uns minutinhos.


- "Você não acreditou nela, não é?" - começou Hideki, assim que eles se distanciaram o suficiente da porta.

- "De jeito nenhum. Tem alguma coisa muito estranha no ar..."

Hideki suspirou. Ele entendia a preocupação de Kagome, mas, ao mesmo tempo, não queria ser intrometido.

- "Talvez, mas pense bem, Zhang... A mãe dela que nos atendeu, tudo parecia normal..."

- "Não to nem aí." - falou ela, decidida - "Hideki, pensa um pouco aqui comigo, por favor! A Kagome não ia sumir assim. Nem por um dia. Imagine por dias seguidos..."

- "Tá, mas de repente um parente dela realmente precisou e ela teve que ir..." - ponderou ele - "Não sei não, talvez a gente esteja vendo coisa onde não tem... O seu irmão não sabe dela?"

- "Não... Ontem eu cheguei a perguntar, mas hoje mal nos falamos de manhã cedo. Eu nem sei se ele está realmente frequentando as aulas. Mal o tenho visto nos corredores."

- "Tá, mas o que ele disse quando você perguntou?"

- "Ah, ele disse algo parecido com isso: mfff, hmm, errr, nhoc nhoc, nham" - Hideki deu uma risadinha nervosa diante da resposta dela - "Enfiou um pedaço inteiro de waffle na boca e saiu correndo."

Ele balançou a cabeça em reprovação e os dois continuaram a caminhada rumo a estação de metrô mais próxima. Ele observou Zhang tentar ligar mais uma vez para o celular de Kagome. Em seguida, tentou o que ele achou ser o número de Ichiro. Mas nenhum dos dois atendeu e o vinco de preocupação entre as sobrancelhas dela parecia mais profundo.

Ele segurou a mão dela que retribuiu e deu um sorriso meio triste.

- "Está tudo bem com ela, Zhang... Eu prometo." - disse ele, sem acreditar.

- "Eu só queria ter certeza, Hideki-kun..." - confessou ela, o braço de Hideki passando pelos seus ombros, consolando-a - "Mas amanhã, pode apostar... Vou pegar Ichiro quando ele estiver acordando... E ele não vai ter outra saída a não ser me dar uma resposta."


Kagome e Hatsue passaram aquele dia inteiro juntas.

Primeiro foram até o lago mais próximo, Shippou as acompanhava todo o momento. Depois de se lavarem nas águas, Kagome decidiu que era hora de trocar suas vestes pelas que Hatsue tinha providenciado. Shippou e ela trocaram olhares animados quando a viram vestida daquele jeito. E a verdade é que tinham conversado sobre como (e se) aquele momento ocorreria para eles.

Menos de vinte e quatro horas haviam se passado, mas o vínculo entre os três com certeza parecia mais antigo. A identificação que as duas garotas sentiam uma pela outra era genuína, e a versão mais velha de Shippou com certeza não tinha demorado a se tornar familiar para Kagome.

Eles retornaram ao vilarejo onde Kagome e Hatsue seguiram colhendo informações, lendo escritos antigos e tentando mapear algum tipo de padrão entre os acontecimentos do último século. Várias coisas Hatsue tinha na ponta da língua, sem precisar de consulta e Kagome ficou impressionada com a capacidade intelectual dela. Eram inúmeros os relatos de aparições confusas de youkais em vilarejos próximos. Vários monges relatando sentir formas diversas de energias circundando em especial o local entre o Poço Come-Ossos e a clareira onde repousava Inuyasha. A luz que emanava provocava dúvidas e uma tendência a formulação de teorias que a justificassem. E é claro que no meio de tantas suposições ficava muito difícil tentar encontrar a verdade.

Elas decidiram, mais uma vez, ir até lá.

Sabiam que era arriscado, pois a cada vez que o fenômeno ocorria, grandes eram as chances de um youkai ser atraído por ela. Mas, com Shippou em seu encalço, as duas jovens caminharam até a floresta. Primeiro, verificaram o poço rapidamente, em seguida, seguiram na direção da clareira, adentrando por entre as árvores.

Estava exatamente do mesmo jeito do dia anterior. Era extremamente quieto ali, e a floresta que circundava a clareira parecia ser tão fechada que era impossível alguma criatura tentar acessar o local sem fazer barulho. Com certeza iriam ouvir algum som de galho se partindo ou folhas se mexendo.

As duas jovens sentaram-se, procurando concentrar-se. Cada uma estava munida com seu próprio arco e flechas, porém Shippou se mantinha em pé, atento a qualquer mudança suspeita no ambiente. Era uma situação desafiadora pois, ao mesmo tempo em que todos tinham que se manter alertas à aproximação de youkais, as sacerdotisas precisavam, de certa forma, isolar os pensamentos do mundo externo e focar ali.

Kagome estava receosa. Fazia muito tempo que não usava suas habilidades espirituais e, embora sentisse que aquele era um conhecimento impossível de ser esquecido, não se sentia totalmente segura. Acreditou sinceramente que, com bastante esforço, seria capaz de sentir algo. O que exatamente ela não sabia, mas esperava por qualquer coisa que lhe trouxesse pistas ou, até mesmo, respostas.

E então começou, tão do nada quanto no dia anterior.

Daquela vez, Kagome manteve os olhos fechados.

"Preciso sentir algo. Preciso..."

E de repente não havia mais nada ali. Nem clareira, nem Shippou, nem Hatsue. Apenas ela com seus pensamentos e aquela luz, fria, forte, azul... Que mesmo de olhos fechados dá pra sentir nas pálpebras. Ela tentou vasculhar a memória e encontrar algo que tivesse vivenciado que fosse parecido com aquilo. Mas não existia nada. Ela sabia de uma coisa: não era uma energia negativa. E a palavra que Hatsue usou para descreve-la parecia martelar em sua cabeça como nunca: "essência".

Mas ela não conseguiu concentrar-se por muito mais tempo porque a voz de Shippou cortou o ar com urgência.

- "Tem alguém vindo."

Imediatamente, ela e Hatsue levantaram-se e abriram os olhos. Ambas se armaram cada uma com seu arco e flecha. Elas ouviam o vento soprando mais forte enquanto a luz que antes as envolvia, se recolhia à terra novamente.

Kagome olhava para as árvores, tentando captar o mínimo movimento entre elas, as mãos tremiam tamanha a tensão que se formava entre seus braços e o fio do arco tensionado, pronto para disparar a qualquer minuto.

Mas ela não ouvia nem via nada.

Shippou era um youkai raposa e obviamente poderia sentir alguém se aproximando a quilômetros de distância. Kagome se perguntou se àquelas alturas ele já saberia quem estava vindo ou se o cheiro que sentia era desconhecido e por isso ele ainda não tinha dito nada.

Ela viu quando ele ergueu o olhar para o alto sem cerimônia, como se já esperasse que o que quer que fosse surgir, surgiria do alto. Ela sentiu Hatsue acompanhar, as duas agora apontavam suas flechas pro alto.

Antes que pudesse surgir uma figura bem familiar, emoldurada pela copa das árvores ao redor, Shippou falou, com um tom de voz sibilante que carregava uma dose de desprezo.

- "Você."

Kagome mal podia acreditar.

Ele ainda tinha a mesma aparência de sempre. Os cabelos claros, longos, movendo-se de acordo com a direção do vento. O tecido de uma das mangas da roupa se sacudia, subia e descia, com a ausência do braço. A expressão. Indecifrável. Um olhar gelado que nada dizia, a boca reta, sem apresentar nenhum tipo de sentimento.

Mas antes que alguém pudesse ter tempo de dizer alguma coisa, eles ouviram um som de algo se mexendo que parecia surgir das árvores. Um outro youkai, talvez? Mas quem? Sesshomarou só andava acompanhado de Jaken (que geralmente vinha grudado nele, e não andando).

Shippou já não olhava mais pra Sesshomarou. Mirava algum ponto entre as àrvores de onde ele sabia, certamente, que algo sairia.

Hatsue agora mirava para o ponto em que Shippou olhava, mas Kagome empunhava a sua flecha na direção do youkai cachorro que as sobrevoava.

- "Você continua servindo essas... humanas." - disse Sesshomarou, como se quisesse voltar novamente o olhar dos três para si - "Raposa."

Shippou ouviu quando Hatsue preparou o disparo. Ele virou a cabeça pra ela muito rápido, a mão direita na frente da flecha, como se quisesse impedi-la.

- "Não atira."

Foi a primeira vez que Kagome viu a jovem sacerdotisa com uma expressão meio contrariada no rosto. Achava que tinha algo ali que ela não estava entendendo muito bem. Alguma dinâmica já tinha se estabelecido entre eles e, com certeza, aquele não era o primeiro encontro que tinham.

Hatsue não parecia surpresa. Como se soubesse o que estava por vir.

Elas ouviram passos vindo das árvores, o que quer estivesse pra sair dali iria se revelar agora.

Mas não saiu youkai algum.

Uma jovem de cabelos longos e escuros emergiu aos tropeços das árvores. Ela vestia um kimono branco quase reluzente. A primeira pessoa que ela viu foi Shippou e, sem demora, correu pra abraça-lo.

- "Shippou!"

Aquela voz... Kagome já a tinha escutado em algum lugar.

- "Quanto tempo... Rin" - disse Shippou, abraçando-a com um braço só. O outro ainda havia ficado parado, na frente de Hatsue, quase que contendo-a.

Ao seu lado, a expressão de Hatsue se traduzia no mais próximo de raiva que Kagome achava que ela podia chegar. Ela teve certeza, e essa análise levou milésimos de segundos, que existia animosidade entre as duas. Com certeza, o faro de raposa de Shippou já o tinha avisado quem exatamente estava chegando. Kagome não sabia dizer se Hatsue tinha chegado a mesma conclusão, já que ela não contava com um super olfato para saber a identidade deles antes que aparecessem. Porém ela suspeitava que cenas parecidas já haviam ocorrido entre aqueles quatro antes.

Mas então... Então era verdade.

Rin havia vivido todos aquele tempo... E com aquela aparência? Como era possível? Ela não parecia ter muito mais do que quinze anos.

Kagome não deixou de observar Sesshomarou em nenhum momento. E lembrou-se do que Shippou havia lhe dito mais cedo sobre ter procurado os dois para pedir ajuda. Será que Sesshomarou havia mudado de ideia? Mas se sim, então porque ela tinha a estranha sensação que ele tentava deixar Rin fora disso?

- "O que vocês estão fazendo aqui?" - perguntou Shippou - "Pensei que..."

- "Eu praticamente implorei para virmos." - falou Rin, e deu uma olhadela meio raivosa para Sesshomarou - "Chegamos a pouco. Ele me deixou lá fora. Tive de atravessar as árvores por conta própria... Mas... ei...Espere aí."

Rin parecia ter acabado de se dar conta da presença de Kagome. Ela sorriu, mas Kagome ainda estava em posição de ataque. A flecha apontada para Sesshomarou com firmeza.

- "Você já pode guardar isso." - disse Sesshomarou. E mesmo que ele não tivesse usado o nome de Kagome, ela sabia que ele estava lhe dirigindo a palavra.

- "Não confio em você." - respondeu ela, tentando transparecer segurança.

- "Então porque pedem minha ajuda?"

- "Kagome... Deixa. Ele não vai fazer mal algum." - acalmou Shippou.

Ela ainda não estava convencida e olhou pra Shippou com descrença. Mas de alguma forma ele parecia saber do que estava falando e, como Kagome acreditava que aquela não era a primeira interação entre eles, concluiu que, se Sesshomarou quisesse fazer algum mal, já o teria feito das primeiras vezes que se encontraram.

Afinal de contas, parecia que ele tinha sacrificado a lâmina de seu próprio pai só para ter uma jovem humana ao seu lado por mais tempo.

Kagome respirou fundo e guardou a flecha.

- "Kagome...?" - perguntou Rin, num tom de cautela - "Então é verdade! Shippou sempre disse que você poderia voltar..."

Ela não conseguia pensar em nada pra responder, então apenas sorriu de leve e cumprimentou Rin com um aceno de cabeça. Sesshomarou já tinha colocado os pés no chão e se juntava a eles, meio a contragosto. Kagome não deixou de notar um detalhe curioso: ele tinha ficado com a espada que era de Inuyasha.

Como ela não se lembrava disso?

Hatsue parecia não estar nada a vontade e, pelo que Kagome pode perceber, tentava o tempo todo desviar os olhos de Shippou e Rin.

- "Estávamos tentando investigar a energia daqui primeiro." - o youkai raposa cortou o silêncio e falava mais para Rin do que para Sesshomarou, que seguia calado, a mesma expressão impassível no olhar - "Mas... Não sabemos do que se trata... Ainda."

- "Entendo..." - respondeu Rin - "Nós sentimos que piorou nos últimos tempos..."

- "Sim. Os youkais já estão conseguindo atravessar o poço..." - completou Shippou - "Eles estão aparecendo na Era de Kagome."

- "Vocês estão correndo atrás de algo sem solução." - declarou Sesshomarou.

- "Como pode ter tanta certeza?" - Kagome ouviu a voz de Hatsue soar raivosa ao seu lado. Aquela era a primeira vez que ela falava algo em muitos minutos.

- "Não há nada aqui que tenha a ver com Inuyasha... Se é isso que vocês estão pensando."

Kagome o encarou. Ela olhava dele para a tessaiga, presa a sua cintura pela bainha. Tentou entender o que ele estaria fazendo com ela visto que nunca conseguiria empunha-la, muito menos utiliza-la. Pensou em perguntar, mas logo desistiu. Não queria que os assuntos se perdessem. Ademais, ele já havia percebido onde o olhar dela repousava. A verdade é que Sesshomarou já havia falado muito mais do que costumava falar. Aquele parecia ser um assunto que ele já tinha estudado e tirado suas próprias conclusões. Mas fazia parte da personalidade dele esse ar de arrogância e de certeza com tudo e todos. Aquilo não a surpreendia.

- "Você parece ter pensado bastante sobre isso." - afirmou Kagome, desafiando-o - "Alguma teoria?"

- "Claro."

Sesshomarou olhou de Shippou para Hatsue. E Kagome soube instantaneamente que eles já haviam tido uma conversa muito parecida.

- "Você sabe que é impossível." - começou Hatsue. E como Sesshomarou se recusava a dizer o que pensava, ela acabou completando para que Kagome soubesse também - "Ele afirma que tem algo aqui que não pertence a essa Era... E precisa voltar."

- "Então... Algo preso aqui? Mas o quê? Essa luz..." - aquilo não fazia muito sentido para Kagome.

- "Não. Ele está errado." - afirmou categoricamente Hatsue - "Não há nada 'preso' aqui, essa energia não traz nada de negativo consigo... É como eu disse, Kagome-sama. Está esperando."

- "Isso não faz a menor diferença." - cortou Sesshomarou - "Foi pra isso que me chamou, raposa?"

- "Sesshomarou... Por favor." - interrompeu Rin, tentando apaziguar os ânimos.

- "Vamos embora, Rin." - ordenou ele.

Kagome viu as sobrancelhas dela se curvarem num misto de raiva e súplica. Ela não podia nem começar a imaginar como era aquela estranha relação entre eles. Seriam mais como pai e filha? Amantes? Irmãos? Sua cabeça dava voltas só de imaginar. Tudo que ela sabia era o que parecia. E, pelo visto, Rin tinha crescido e se tornado uma menina forte; já Sesshomarou, apesar de agir como se tivesse a última palavra, permanecia calado, esperando a resposta dela.

Ora, se ele realmente se achasse no direito já teria pegado a garota e se mandado pra longe. Porque esperava então? Poderia ele ter realmente passado a gostar e respeitar uma simples humana?

- "Eu vou ficar. Kagome voltou." - respondeu Rin, como se aquela frase explicasse tudo.

- "Você não pode ficar." - a voz de Hatsue soou, e Kagome poderia jurar que ouviu uma certa satisfação no que ela disse.

Rin a encarou, magoada. Esse tempo todo ela segurava ainda um dos braços de Shippou, mas nesse momento, ela o soltou. Ele encarou a garota com tristeza.

- "Não pode deixa-lo, não é?" - Hatsue continuou, como se soubesse exatamente o que estava falando - "Se não..."

- "Rin." - a voz de Sesshomarou soou mais uma vez.

Dessa vez, não havia nada mais a ser dito. Rin parecia triste, mas conformada. Ela deu uma última olhada em Shippou e sorriu para Kagome antes de abraçar Sesshomarou e os dois flutuarem metros acima do chão, subindo... E sumindo no céu conforme se distanciavam.

O que diabos tinha acontecido ali?

Depois que os dois se foram, não havia mais como retomar o que haviam iniciado. Kagome se perguntou se sua leitura estava certa... Até agora, o que ela tinha conseguido compreender conforme os três caminhavam de volta para o vilarejo era que Rin e Hatsue tinham algum problema uma com a outra. O motivo mais óbvio para uma rixa entre as duas seria Shippou. Mas Kagome honestamente não sentia que era o caso. Rin parecia ama-lo, é verdade, mas não do jeito que Hatsue o amava, provavelmente.

Tinha muito mais coisas ali, suspensas no ar... Que àquelas alturas era tão denso que daria pra cortar com uma faca.

De uma coisa, Kagome tinha certeza: era impossível ajuda-los se eles continuassem a contar a ela as coisas pela metade. Desde que chegara ali na noite anterior, ela tinha a estranha sensação que tanto Hatsue quanto Shippou tinham mais coisas a compartilhar. E, por mais que ela tivesse certeza que eles não faziam por mal, era parte do papel dela coloca-los contra a parede e obter as respostas que precisava.

Foi por isso que, tão logo chegaram no vilarejo, ela chamou Hatsue. A sacerdotisa a olhou com surpresa.

- "Precisamos falar, Hatsue-sama... A sós."

Ela sentia que a jovem a respeitava muito, mas não tinha intenção nenhuma de se valer daquele respeito para impor medo. Mesmo assim, ela sentiu a menina se encolher, receosa, apesar de obedecer, sem questionar. As duas foram sozinhas aos aposentos de Hatsue, onde um chá quente já as esperava.

A menina terminava de cozinhar um ensopado que cheirava muito bem. Como que pra ocupar a mente e não ter que enxergar que aquela seria uma conversa séria.

Mesmo assim, Kagome não a pediu para parar. Se ela precisava se sentir produtiva para estar à vontade, tudo bem.

- "Hatsue. Não foi a primeira vez que você e Shippou conversaram com Rin e Sesshomarou... Estou certa?"

Ela recebeu uma resposta afirmativa em forma de aceno. Hatsue parecia nervosa e até um pouco... constrangida?

- "Você está bem?" - perguntou Kagome - "Não gosta deles?"

Hatsue pareceu se alarmar ante aquela possibilidade. E, dessa vez, sua resposta saiu apressada, impulsiva.

- "Kagome-sama, de jeito nenhum! Sou muito, muito grata aos dois! São... São amigos de Shippou-kun."

Kagome deu uma risada. Era difícil imaginar Sesshomarou tendo algum amigo, imagine só um amigo como Shippou. Ela sabia que estaria sendo injusta se o considerasse simplesmente como um youkai malvado e egoísta (coisa que ele provava constantemente que não era), mas, ao mesmo tempo, não dava pra confiar totalmente nele. E ela suspeitava que Shippou se sentia da mesma forma.

Hatsue parecia confusa com o que exatamente Kagome tinha achado engraçado e tinha uma expressão confusa no rosto.

- "Kagome-sama." - recomeçou ela, tentando manter a seriedade - "Eu não... Eu não fui criada para ter esses tipos de sentimentos negativos... Eu, eu não... Simplesmente não..."

- "Porque você é uma sacerdotisa não pode simplesmente não gostar de alguém?" - disse Kagome. E Hatsue parecia confusa, como se não soubesse se aquilo era um teste ou se Kagome estava realmente falando sério.

- "Hatsue, eu já tive inúmeros sentimentos sombrios." - continuou ela, a expressão de surpresa no rosto de Hatsue se tornando cada vez mais visível - "Somos humanas. É impossível ser puramente boa sempre... Eu me lembro que... Bem..."

Hatsue tinha se distraído um pouco. O ensopado borbulhava ao seu lado, a colher de madeira que ela usava pra mexe-lo pendia frouxa na sua mão. Os olhos arregalados, atentos a cada palavra que Kagome dizia.

Talvez a melhor forma de fazer com que alguém se abrisse fosse sendo a primeira a dividir suas histórias. E foi isso que ela decidiu fazer.

- "O que acha de servir um pouco disso aí enquanto eu te conto algumas coisas sobre mim?"

Hatsue fez que 'sim' com a cabeça e apressou-se a servir duas tigelas da sopa. Estava deliciosa e Kagome se permitiu aproveitar a refeição por alguns minutos antes de começar.

- "Você sabe que, apesar de eu ser a reencarnação de Kikyou, ela foi trazida de volta à vida, não sabe? Nós convivemos juntas. Eu, ela, Inuyasha. Muitas vezes, eu e Inuyasha. Outras vezes, Inuyasha e ela... Bem, digamos que não foi nada fácil. Aos quinze anos não dá pra ser a pessoa mais madura do mundo especialmente diante de uma situação dessas.

"Quando Kikyou morreu, ela pediu a Kaede-sama que queimasse a Joia de Quatro Almas com ela. Ela fez três pedidos a joia, você sabia?"

Hatsue balançou a cabeça afirmativamente. Ela havia lido e ouvido demais sobre aquela história.

- "O primeiro pedido, é claro, foi que a joia fosse levada junto com ela para o além mundo. Assim, ela evitaria que caísse em mãos erradas aqui, no mundo dos vivos. Um pedido completamente aceitável e até esperado para uma sacerdotisa cuja missão de vida era proteger essa joia. Só que... Kikyou não tinha escolhido esse caminho. Esse caminho a escolheu. Desde sempre ela apresentava enormes poderes espirituais e foi a única sacerdotisa do seu tempo que conseguiu purificar a joia com sua energia.

"É um fardo muito grande, concorda? Ela não podia viver a vida de uma garota normal. Não podia demonstrar fraqueza... Não podia amar. Por isso que o segundo pedido dela foi viver uma vida "comum". E o terceiro... Bem, o terceiro foi encontrar Inuyasha novamente. Você vê, Hatsue, esses pedidos todos se realizaram... Através de mim. Mas, no fim, apesar de terem sido desejos dela... Se voltaram contra ela mesma depois. Ela não contava que iria ser revivida por uma bruxa e teria que participar de... tudo isso.

"Eu nem sempre lidei bem com a existência de Kikyou. Como eu poderia? É uma situação que jamais deveria ocorrer, foge à tudo que conhecemos. Mas a verdade é que eu aprendi muito com isso. Não sem antes, claro, ter diversos sentimentos sombrios habitando meu coração. Ou você acha que eu não desejei nenhuma só vez que ela simplesmente sumisse?"

Hatsue mal podia acreditar. Aquela era a parte da história que ela não conhecia. Ler sobre aquelas pessoas tão poderosas definitivamente colocava-as em um patamar acima do humano, mas saber, de fato, o que elas haviam sentido e o que exatamente tinha influenciado a tomada de decisões delas, esclarecia muito mais coisas do que ela podia imaginar.

- "Kagome-sama... Você..."

- "Hatsue, o que quer que você esteja sentindo... Tá tudo bem."

As duas trocaram um olhar compreensivo e Hatsue finalmente relaxou, pela primeira vez desde que tinham tido o encontro na clareira. Ela pousou a tigela na mesa, olhando pra baixo, como se estivesse prestes a admitir alguma coisa muito séria.

- "Senti vergonha hoje, Kagome-sama." - confessou - "A verdade é que..."

Ela parou de repente. Parecia prestes a chorar.

- "Hatsue, você e Shippou precisam me contar tudo. Tudo mesmo." - demandou Kagome, num último esforço - "Eu não vou conseguir ajuda-los se não me disserem exatamente o que aconteceu... Vocês já se encontraram todos antes, não é?"

- "Sim." - Hatsue parecia ter se recuperado e agora tentava falar com firmeza - "Shippou já tentou recorrer a Rin e Sesshomarou algumas vezes. Rin e ele tem... um elo especial. Já havíamos conversado sobre as possibilidades do que poderia estar acontecendo, mas eu discordo de Sesshomarou, Kagome-sama. Eu realmente discordo."

- "Tudo bem. Eu acho que também não concordo com ele." - endossou Kagome - "Definitivamente o que eu senti hoje se parece muito mais com o que você descreveu."

Hatsue balançou a cabeça afirmativamente, mas nada disse. Ela bebericou um pouco do chá antes de Kagome retomar novamente a palavra.

- "E porque Rin não pode ficar com a gente? Shippou disse que ela vive até hoje por causa da tenseiga."

A expressão de Hatsue se tornou novamente dura e raivosa.

- "Bem, ninguém sabe com certeza o que é. Mas ela vive desse jeito porque ele fez algum tipo de acordo com o submundo... O que se sabe é que ela não pode deixa-lo. Ou vai começar a envelhecer ainda mais rápido do que uma humana normal. Essa foi a barganha."

Kagome tentava ler os sentimentos de Hatsue diante daquela situação.

- "Porque você não gosta dela?"

- "Eu não tenho nada contra ela." - afirmou ela categoricamente - "A questão é que... Ela... Ela não tem que... Ah, esqueça Kagome-sama."

- "Hatsue..." - e de repente, Kagome tinha um palpite - "Ela não tem culpa de você estar nessa situação."

A jovem calou-se por alguns minutos como que digerindo aquelas palavras difíceis de ouvir. Claro que era muito mais fácil colocar a culpa em outra pessoa e simplesmente odiá-la. Mas Kagome tinha razão. Seu destino como sacerdotisa e tudo o que envolvia ele nada tinha a ver com Rin.

Mesmo assim, aquilo a entristecia. Na verdade, a revoltava.

- "Eu vou morrer, Kagome-sama." - disse ela, os olhos enchendo-se de lágrimas - "Eu vou morrer e não há nada que eu possa fazer pra evitar. Eu sempre soube. E aquela mulher... Aquela mulher simplesmente consegue viver um século de vida sem sofrer absolutamente nada. Nada."

- "Hatsue-sama..." - e Kagome sabia que não havia mais nada a dizer - "Eu sinto muito."

Kagome já havia vencido a distância entre elas e estava ao lado da jovem, abraçando-a. Uma menina que só queria viver uma vida normal. Quantas vezes aquela história teria que se repetir? Quantas pessoas mais o destino ia aprisionar na sua teia cruel? Quantos amores ainda iriam ser perdidos?

Lá fora chovia.

Naquela noite, deitou-se pra dormir e adormeceu pensando em Ichiro.


- "Inacreditável! Porque você veio comigo, afinal?!" - esbravejava ela.

O youkai se limitava a olhar para a garota de cima a baixo, mas nada dizia. Com a mão que ainda tinha, repousava o queixo, e, do alto daquele penhasco, admirava a luz da lua que já estava alta.

- "Sesshomarou... Diga alguma coisa. Qualquer coisa."

- "Você pediu minha ajuda, Rin. Não posso força-la a nada. Eu vim. Te trouxe aqui."

- "Eu sei que você nunca gostou do Shippou, mas ele é apenas um amigo. Sempre foi."

Sesshomarou a olhou e, para quem não o conhecia, podia parecer o mesmo olhar de sempre. Porém Rin sabia que aquela expressão era a que ele escolhia quando estava consternado com algo que tinha acabado de ouvir.

Como ela podia insinuar uma coisa daquelas? Logo ele, que nunca havia encostado num só fio de cabelo dela. Sempre tentou deixa-la livre pra fazer suas próprias escolhas. Exceto por uma.

- "Rin... Você pode ir embora quando quiser."

Ela o encarou magoada. Porque sempre que parecia que ele ia finalmente admitir algo, acabava dizendo o oposto? Será que ela havia se enganado esse tempo todo? Poderia mesmo um youkai poderoso como ele abrir mão de tanta coisa por uma humana... Só por companhia? Ou nem isso, visto que ele simplesmente não a forçaria a ficar com ele, se é que ela estava entendendo bem.

Mas Rin lembrava-se bem. Lembrava de quando tinha visto Sesshomarou pela primeira vez, completamente machucado e abatido. De como ainda não falava e tinha muito mais medo de outros seres humanos do que de youkais. Lembrava-se de como ele tinha sido uma das primeiras pessoas a se importar com ela, desde que ficara sozinha no mundo. E das duas vezes que ele a salvou da morte. A primeira, com a tenseiga. A segunda, indo até o submundo por ela.

Era só pela companhia? Não existia amor?

Se Rin vivia a um século, em todo esse tempo ela se questionava se Sesshomarou só fingia não ver o quanto ela o amava. O jeito que ela o amava.

Mas ele era indecifrável.

- "Eu não quero ir embora." - disse ela, com tristeza - "Eu só queria ficar mais tempo lá. Por favor, Sesshomarou, eu só queria que você ajudasse. Você sabe. Você também corre riscos. Todos nós."

Ele suspirou. Os longos cabelos brancos brilhando diante da luz da lua. A pele reluzia, com aquele brilho diferente que os youkais tem quando estão na forma humana. Ele não se mexeu, apenas a encarou com aqueles olhos grandes, dourados, vazios...

- "Não me importo." - disse ele, simplesmente - "E você também não deveria se importar."

Mas ele sabia que mentia. A verdade é que Sesshomarou tinha uma vaga ideia do que poderia estar acontecendo. Ou não carregaria com ele a antiga tessaiga de Inuyasha. Aquela espada fascinante e, ao mesmo tempo, completamente inútil. Ainda mais inútil para ele do que sua lâmina irmã. Ele revirou os olhos.

Achava que ser irmão de Inuyasha era uma das coisas que mais lhe dava trabalho na vida.

E agora tinha Rin. O encarando. Com aqueles olhos magoados.

- "Amanhã voltamos lá." - disse ele simplesmente.

Rin descruzou os braços. Era uma resposta que significava que ela havia "vencido" a discussão. Mas, assim como em todas as conversas que ela tinha com Sesshomarou, sempre restava algo de suspenso no ar. Palavras que eram pensadas, mas nunca ditas. E ela mais uma vez chegou muito perto de dizer o que sempre tinha vontade de dizer quando eles entravam em conflito. Aquelas três palavras tão difíceis de sair. Que a paralisavam de medo, pois, caso saíssem, ela não sabia qual seria a reação dele.

E o que mais a amedrontava era a resposta que poderia vir.

Ou, pior, a ausência dela.


Ele abriu os olhos devagar. O mesmo aroma doce que o fez relaxar e dormir, o acordou, só que agora quente, com a luz dos primeiros raios de sol entrando pela janela escancarada.

"Eu... adormeci?"

Ichiro virou de lado. Ele conseguia ver o quarto inteiro dali. Instintivamente fechou os olhos por mais alguns instantes e agarrou-se no lençol.

"Esse cheiro..."

De repente, seu coração encheu-se de um sentimento que ele raramente sentia. E ele se sentiu idiota, porque "só" fazia seis dias que não via o motivo da sua saudade. Só que o que doía nele e fazia o sentimento aumentar era o fato de não saber quando exatamente iriam se ver novamente. Ficou grato a si mesmo por ter se permitido passar a noite ali. Era o sono mais restaurador que ele tinha em muito tempo. E, pelo menos, tinha feito ele se sentir um tantinho mais perto de Kagome.

Agarrou o celular que tinha ficado em cima da cômoda ao lado da cama.

Várias chamadas perdidas da irmã.

"Droga."

Talvez tivesse sido bom dar pelo menos um aviso de que iria dormir fora, né? Mas é claro que ele tinha que cair no sono antes disso. Mesmo sabendo que podia ter evitado esse problema, ele não se culpou. Precisava de um tempo e Zhang ia ter que entender isso. Levantou-se devagar, espreguiçando-se. Ele sabia que não devia passar de seis e meia da manhã só de olhar a cor do céu. Aproximou-se da janela e avistou a Sra. Higurashi varrendo as folhas que haviam caído das árvores.

Sorriu e deu bom dia, acenando. Ela respondeu, simpática como sempre.

- "Ichiro?" - ele escutou a voz de Souta chamar enquanto dava batidas na porta - "Posso entrar?"

- "Oi, fedelho! Claro que pode, a casa é sua."

- "Aqui, tome" - disse ele já entrando e entregando a Ichiro uma bolsinha transparente com alguns itens de higiene - "Aqui deve ter o que você precisa pra tomar um banho, caso queira, ta?"

- "Ah, valeu." - e percebeu que Souta já parecia estar pronto pra sair de casa, com o uniforme escolar e os cabelinhos ainda um pouco úmidos - "Você sempre sai cedo assim?"

- "Sim, odeio me atrasar."

"Pivetinho responsável esse..."

- "Até mais tarde então" - disse Souta, novamente - "Quer dizer, você vem de novo, não é? Tenho prova de História na semana que vem."

- "Claro que... Mas ei! Quanto você tá me pagando mesmo pra ser seu professor particular?" - ralhou ele, brincando.

Mas Souta já estava indo em direção à porta.

- "Te vejo mais tarde, irmãozão." - disse, por fim, saindo rumo às escadas.

"Mas vê se pode... O fedelho se acostumou comigo, no fim."

Ichiro sorriu consigo mesmo, pegou suas coisas e tomou um banho bem rápido, se sentindo meio envergonhado por abusar da hospitalidade dos Higurashi. Trocou as roupas pelas que Souta havia lhe emprestado (uma bermuda cargo que batia nos joelhos dele e uma camiseta branca oversized). Ele então catou suas coisas todas na mochila que havia trazido.

Desceu as escadas. O avô e a mãe de Kagome lhe ofereceram café, mas ele não podia abusar mais ainda, de forma que agradeceu e saiu praticamente correndo do templo, não sem antes dar uma boa olhada na casinha de madeira que abrigava o poço.

"Se a Kagome demorar um pouco mais... Eu juro que..."

Mas deixou o pensamento suspenso no ar. Como uma frase que ele se recusava a concluir. Por enquanto, apesar de acreditar em toda a história, ainda achava tudo muita loucura. Mas tentou não se ocupar com isso e saiu rumo a estação de metrô mais próxima. Ia pegar um café no meio do caminho, passar em casa pra trocar aquelas roupas pelas suas e em seguida ia para a Toudai tentar, mais uma vez, assistir as aulas, ao mesmo tempo em que driblava a presença de Zhang e seus amigos.

Era sexta feira. O sol estava quente e o dia estava bem bonito, por incrível que pareça.


Kagome acordou no dia seguinte e não se sentiu tão cansada quanto achava que se sentiria.

Era seu terceiro dia na Era Feudal. Pela primeira vez desde que chegara ela se perguntava quanto tempo havia se passado na sua Era. Seu maior receio era que, com a falta de um padrão, muitos anos se passassem por lá. Mas não gostava de pensar sobre isso. Seria cruel demais, até mesmo para uma vida como a dela.

Seu coração pesava naquele dia. Tinha tido um sono sem sonhos, mas, por deus, como queria ter sonhado com ele.

Parecia até irônico que ela tivesse viajado até ali, onde sua história com Inuyasha havia se iniciado, porém, ao contrário do que ela imaginava, ele não era a única pessoa de quem ela se lembrava. Sentou-se e abraçou os joelhos. Sentia-se tão pequena, tão insignificante... Como uma humana como ela ia conseguir solucionar aquele mistério? E se não conseguisse evitar? E se os youkais conseguissem usar o poço mais vezes para se transportar pra Era Atual? Seria o fim? Não bastava perder quase todos os amigos da Era Feudal, agora as pessoas mais importantes pra ela da sua Era também corriam perigo? Sam, Zhang, Hideki, Johnny, Éric, Kayri... Logo agora que ela tinha feito tantos bons amigos de quem gostava tanto. E toda a sua família: Souta, sua mãe e o avô...

Pensar neles a fez sentir-se sozinha. Sabia que não estava - Hatsue e Shippou estavam com ela e isso já era muita coisa - mas era assim que se sentia naquele instante. Talvez um pouco do luto estivesse voltando de novo. Era tão mais natural dividir as responsabilidades com Inuyasha, Miroku e Sango... Até mesmo Kaede-sama.

Mas agora era ela que tinha que exercer um papel maior do que gostaria.

"Será que era assim que Kikyou se sentia?"

Não sabia o motivo, mas uma outra coisa que insistia em voltar a sua mente era o seu sonho mais recente com Inuyasha. Onde ele a deixava escapar entre seus dedos e dizia estar "tentando". Era tudo tão confuso. Mas sua intuição lhe dizia que não podia ignorar essas mensagens.

De uma coisa ela tinha certeza: iria fazer o seu próprio desejo a joia... E, dessa vez, naquela vida, iria garantir que nada desse errado.

Ao seu lado, Hatsue acordava devagar. Ela observou a menina esfregar os olhos e sentar-se devagar.

- "Conseguiu dormir, Kagome-sama?" - disse ela enquanto soltava os cabelos com os dedos.

- "Sim. E você? Sente-se melhor?"

- "Muito melhor... Mas você está pensativa, não é?"

- "Sempre." - respondeu Kagome com um sorriso.

- "O que foi dessa vez? Sonhou esta noite?"

- "Pelo contrário..." - admitiu Kagome tristemente - "Não sonhei com nada, mas... Fico me lembrando do que conversamos. Da última vez que sonhei com Inuyasha. De como você me disse pra confiar na minha intuição."

- "Ele disse 'ainda não acabou'?"

- "Isso."

- "E parecia muito calmo... O que era... Atípico."

Kagome soltou uma risada leve.

- "Sabe..." - continuou Hatsue, refletindo - "Talvez... Ele tenha alcançado. Você sabe... Quando paramos de reencarnar e encontramos nosso propósito. Todos descrevem da mesma forma. Uma sensação de calmaria sem igual."

Kagome não conseguia esconder seu desapontamento com a suposição levantada por Hatsue. Será mesmo que ela tinha sido assim, tão cega? Tinha desejado tanto ter um pouco de Inuyasha consigo que criou sozinha essa teoria de que Ichiro era sua reencarnação? Porque sim, ela tinha ouvido relatos sobre o que Hatsue falava. E fazia sentido. Ela havia dito para si mesma que Inuyasha estava delirando em seus últimos momentos, mas talvez... Talvez ele estivesse só indo embora... para sempre.

- "Kagome-sama?" - a voz de Hatsue cortou seus pensamentos - "O que lhe aflige? Isso seria bom para ele, não é?"

- "Claro... É só que..."

Mas ela não conseguia concluir a frase.

Deixou aquilo suspenso no ar. Kagome se perguntava como seria capaz de separar seus sentimentos por Ichiro dos seus sentimentos por Inuyasha, agora que tinha lhe sido apresentada a possibilidade deles serem duas pessoas completamente desassociadas. Será que era melhor trabalhar com aquela hipótese? "Prender" a existência de Ichiro à de outra pessoa que ele tinha sequer conhecido também não lhe parecia justo com ele. Com nenhum dos dois, na verdade.

Não tinha sido exatamente isso que tinha causado discórdia entre ela e Kikyou?

- "Hatsue, me diga uma coisa..." - falou ela, de repente - "Que diferença você vê entre eu e Kikyou?"

Hatsue franziu as sobrancelhas, confusa. Ela via um milhão de diferenças, mas nada disse, então Kagome reformulou a frase:

- "Bem... Não, não é bem isso que eu quero saber... Na verdade, qual a diferença entre a mesma alma em vidas diferentes? De uma forma geral... O que você sabe sobre isso?"

Hatsue empertigou-se e sentou de joelhos em cima das pernas, voltada para Kagome.

- "Bem... É aquela parte fundamental do ser que reencarna, Kagome-sama. Em outro corpo, outra vida, outra realidade, outro tempo... Muita coisa é diferente... A energia, no entanto, continua a mesma."

- "Como se fosse o centro de tudo."

- "Isso. Mas até chegar nesse 'centro' existem todas as camadas que definem aquele ser, naquela vida específica. Também acredita-se que a alma tem a capacidade de 'aprender' ao longo das suas vidas. Até achar, digamos... o seu propósito. Aí, se torna o que chamamos de 'pura alma'. Como falamos agora a pouco que poderia ter acontecido com Inuyasha."

- "Será que... Era disso que ele estava falando...?" - disse Kagome, pensativa.

- "Talvez... É possível."

E ela se lembrou de mais uma frase.

- "Hatsue, ele me disse, antes de morrer..."

"Não se trata de mim. Não se trata de você, nem de Kikyou..."

- "Ele disse o quê?"

- "Inuyasha disse exatamente isso! Em outras palavras... Que não se tratava da vida, das nossas vidas, mas de algo maior, da essência..."

- "Meu deus..." - Hatsue levou uma mão a boca, estava chegando numa resposta. E quando olhou para Kagome, soube imediatamente: ela pensava a mesma coisa.

- "A luz...!" - exclamou Kagome, igualmente alarmada, sem acreditar.

E elas se olharam surpresas. A luz que esperava pacientemente na clareira. A energia pura, impessoal, única. A essência... Só podia ser isso... Mas então...

- "Kagome-sama, está lá esperando desde então? Se ele atingiu mesmo o nirvana, o que a energia dele está fazendo aqui entre nós ainda?!"

- "É isso, Hatsue! É isso que causa toda a instabilidade!"

- "Não existe pura alma no mundo dos vivos... Não pode existir. Simplesmente iria contra todas as leis da natureza..."

- "E é por isso que não dava pra dizer que era dele... Hatsue, não é ele realmente, não é?"

- "É sim, Kagome-sama... Mas é ele... e todos os outros e outras que ele já foi!"

As duas jovens se vestiram às pressas. Tinham acabado de chegar o mais perto de solucionar aqueles problemas do que nunca. O tempo era urgente. Já vestidas e cada uma com seu arco e flecha, elas saíram correndo pelo vilarejo a procura de Shippou enquanto continuavam a conversar.

- "Hatsue... Tem que ter alguma explicação para a pura alma ter ficado presa nesse plano."

- "Sim... Mas a questão é: precisamos ajuda-la a ir embora daqui, Kagome-sama. E rápido."

- "Mas isso já deve ter acontecido antes, não é? Você já sabe o que fazer?"

Hatsue deu um suspiro preocupado.

- "Nunca aconteceu antes, Kagome-sama. Esse é o problema..."

Hatsue jamais poderia imaginar um desfecho daqueles, nem em mil anos. Pura alma... Aqui? No nosso mundo? Vasculhou a mente buscando lembrar de algum exemplo onde tivesse lido sobre algo parecido. Mas não havia nada. Porém tudo apontava para que as suposições delas estivessem certas. Todas as características do fenômeno batiam e, especialmente, o relato de Kagome comprovava absolutamente tudo.

Uma parte de Kagome estava feliz por estar cada vez mais perto de descobrir as respostas e resolver o problema. Com isso, poderia finalmente voltar pra casa. Mas, por outro lado, ela sentia uma tristeza e uma certa sensação de vazio. Não queria acreditar que Inuyasha não tinha reencarnado. Era tudo tão óbvio. Como eles poderiam não ter a mesma alma? A mesma energia?

Aquilo, no entanto, não importava muito.

Seus sentimentos por Ichiro agora transcendiam o passado. Ela simplesmente sabia.

Tinha que voltar pra ele.

- "Shippou-kun!" - chamou Hatsue, finalmente o avistando - "Shippou-kun! Vamos!"

As duas viram Shippou correndo ao seu encontro. Ele já as tinha ouvido e sentia o senso de urgência. Elas montaram juntas nas costas dele e o youkai raposa corria, o mais rápido que conseguia.

- "Kagome-sama... Tem alguma ideia do que podemos fazer quando chegarmos lá?" - perguntou Hatsue.

- "Não... Mas... Nós vamos descobrir."

Shippou cortava o céu aos saltos.

A roda do tempo apressou-se mais uma vez.


Duas semanas. E meia.

Como ele havia aguentado tanto tempo?

Dias atrás, tinha "confessado" a Zhang, com muito custo, que sabia que Kagome tinha viajado, mas não sabia para onde.

"São coisas de família, Zhang, tente não se meter."

Ela parecia ter se conformado com aquela resposta, mas continuava preocupada. Ichiro sentia pena. Se ela estivesse com um milésimo da preocupação que ele estava, já seria muito.

Já seria quase insuportável.

Treinar o mantinha são. Ler o mantinha são. Estar com os Higurashi o mantinha são. Mas ele se sentia à beira de um abismo. Sentia como se seus pés não estivessem tocando o chão; como se a qualquer momento, qualquer mínima alteração no ambiente fosse faze-lo cometer alguma loucura.

Seu coração parecia se acalmar mais quando estava perto do Templo. E isso o impedia de fazer besteiras. Era quarta feira e o dia estava meio nublado, arriscando chover. Sentia-se um pouco mais triste do que o normal, um pouco mais desesperado. Por fora, procurava não transparecer.

Mal sabia ele que, sem sucesso.

O que o consolava é que ele não era o único nessa situação. Sabia que, apesar de estarem habituados aquelas ausências de Kagome, tanto Souta, como seu avô, e especialmente a Sra. Higurashi... Todos estavam meio aflitos e à flor da pele, cada um à sua maneira. Eles todos certamente sabiam o que Ichiro estava sentindo durante aqueles dias todos. Não importava o quão bem ele tentasse disfarçar sempre que ia pra lá.

Só que naquele dia em especial ele se sentia inquieto demais. Ansioso demais.

Tinha tido aula a manhã inteira e agora caminhava pelos corredores da Toudai. Seu dia estava todo planejado. Ia pegar o metrô, passar na biblioteca pra devolver alguns livros e pegar outros novos emprestado. Souta precisava de ajuda com o dever de matemática (eles tinham conversado sobre isso na noite anterior) e ele ouviu também a Sra. Higurashi comentando que uma das portas estava quebrada. Ninguém tinha pedido ajuda dele, mas, por coincidência, aquele era um conserto que ele sabia como fazer, por isso se adiantou e estava levando algumas ferramentas pra fazer o reparo, sem aviso.

- "Ei, Ichiro!"

Ele estava tão desatento que não percebeu que tinha acabado de passar pela sua irmã. Zhang estava sentada num dos inúmeros banquinhos de parque do pátio da Universidade, e é claro que não estava sozinha.

Ao lado dela sentava-se Sam, a amiga mais maluquinha das três. Aparentemente ela estava namorando Kayri que, Ichiro tinha que admitir, era o mais simpático dos quatro garotos. O loirinho bronzeado conversava alguma coisa com Hideki. O francesinho insuportável parecia estar conversando com Zhang, de pé, ao lado dela. Na verdade, estava, porque agora que ela tinha interrompido o papo para chamar por Ichiro, ele só o encarava com aquele olhar desconfiado que fazia seu sangue ferver de raiva.

Ele só acenou com a mão, cumprimentando a irmã de longe e já indo embora. Mas Zhang fez sinal pra que ele esperasse. Ela pegou a bolsa e os cadernos e correu até ele.

- "Alguma novidade?"

- "Não." - disse ele, sem muita paciência. O olhar de Éric ao longe o incomodando cada vez mais.

- "Poxa... Não consigo entender." - murmurou Zhang, desapontada - "Sabe, eu esperava que se fosse o caso... ela pelo menos iria me avisar."

- "Talvez só era algo muito pessoal, Zhang." - consolou ele - "Tipo, mesmo."

Ele viu quando Éric começou a caminhar até eles. Kayri imediatamente se ligou e bateu no ombro de Sam, como que para avisa-la.

- "E aí?" - chegou ele, assustando de leve Zhang que estava de costas e não tinha visto a aproximação.

Ele viu quando a irmã arregalou os olhos quase em pânico. Aquilo não tinha como acabar bem.

Ichiro não achou que ele merecesse uma resposta, por isso só deu de ombros e plantou um sorriso meio zombeteiro no rosto.

- "Quando você vai nos dizer onde ela está?" - questionou ele. Seu tom não parecia muito acusatório até então. Era pior. Ele parecia ter certeza do que dizia. O que deixava Ichiro ainda mais puto.

Ele ainda não achava que deveria dizer algo. Mas sustentou o olhar do rapaz enquanto pegava um cigarro da carteira que estava no bolso e levava à boca. Tentou demorar o máximo possível para acender e depois ainda olhou pra ele novamente e fez sinal como se estivesse oferecendo.

Mas é claro que não estava.

- "Obrigado, eu não fumo."

Ichiro deu de ombros. Zhang finalmente falou.

- "Éric, lembra que te contei? Ichiro não sabe pra onde a Kagome foi. Só que ela viajou. A mãe dela me disse que foi ver alguns parentes." - ela sentia a tensão no ar. Os outros estavam se aproximando lentamente deles.

- "Ah, é mesmo?" - começou ele - "Engraçado... Ontem, depois da aula, eu precisei resolver algumas coisas... E estava passando, por acaso, naquele Templo... E só fiquei curioso... O que exatamente você estava indo fazer lá?"

Zhang não sabia desse detalhe. Isso porque seria muito complicado explicar que, na verdade, ele e Kagome estavam muito mais próximos do que todo mundo pensava. Porque o motivo deles terem ficado próximos envolvia um segredo maluco que apenas eles e a família dela sabiam. E que ele, obviamente, não poderia contar. E, mesmo se pudesse, não contaria.

Não para esse otário.

- "Você não me disse que tinha ido lá..." - Zhang parecia confusa - "É verdade?"

Ichiro respirou fundo. Claramente ele não tinha preparo emocional suficiente para lidar com aquele interrogatório. Sabia muito bem o que acontecia quando explodia e não queria que acontecesse logo ali. Ele era uma pessoa melhor desde que tinha conhecido Kagome, certo?

- "Eu estou dando aulas particulares pro pirralho." - disse ele, soprando fumaça.

- "Você quer dizer o irmão mais novo dela?" - perguntou Zhang, achando graça da forma como ele tinha colocado as palavras - "O nome dele é Souta, você sabe né?"

Zhang tinha dito aquilo como uma piada, pois sentia que se alguém não fizesse alguma coisa e logo algo ruim ia acabar acontecendo. Ela sabia o irmão que tinha. Observou ele dar um longo trago no cigarro e já ia dizer mais alguma coisa, mas não houve tempo.

- "Não sabia que você era íntimo dos Higurashi, Masagami." - falou Éric. E o que irritava mais ainda Ichiro é que ele não conseguia concluir se aquela era uma pergunta inocente ou se ele estava tentando provoca-lo.

Mas, na dúvida, ele sempre acreditaria na segunda hipótese.

Mas aquilo não ia tirar sua calma. Não, não mesmo.

- "Isso realmente não é da sua conta." - cortou ele, ríspido.

- "Como não?" - Éric parecia surpreso - "E se você é assim tão íntimo deles porque não parece preocupado? Kagome está sumida a mais de quinze dias. Tem que admitir que é estranho que você esteja frequentando a casa deles e não saiba de nada."

Ele deu um trago ainda mais longo dessa vez. Suspirou. Ele era uma pessoa calma. Muito paciente.

- "Sabe o que eu acho?" - disse, enfim - "Que você faz perguntas demais. E sabe de menos."

Éric recuou.

- "Então você sabe de alguma coisa." - questionou ele, e agora a desconfiança estava explícita - "E mesmo assim não faz questão de esclarecer."

Como ele ousava insinuar que ele estava despreocupado? Como ele ousava? Dias e dias sem a porra de um sono decente, tendo ataques de nervos por causa da garota e ele dizia isso. Sorte a dele. Sorte a dele que Kagome tornava ele um ser mais elevado e obviamente não iria se meter em nenhuma encrenca. Muito menos em plena Toudai. Muito menos diante de todos os amigos mais próximos de Kagome.

- "Sabe, cara..." - disse ele, jogando o cigarro no chão e pisando com a sola do tênis - "Você tem razão. Claro que Kagome me contou onde ela está. Eu sei exatamente."

Ele ouviu Sam guinchar atrás de si. Os amigos de Kagome cercaram eles. Kayri e a namorada atrás de Ichiro; Johnny e Hideki logo atrás de Éric.

Um clima bem amistoso.

- "Me desculpa, Zhang, mas seu irmão é um idiota." - respondeu Éric, com desprezo - "Você não sabe onde ela está. Sabe?"

- "Sei, mas não vou contar pra um otário que nem você." - cuspiu ele.

Ele não ousou olhar pra Zhang, pois sabia que aquela insinuação iria deixa-la bastante chateada. Ela esperava que ele compartilhasse com ela caso soubesse de alguma coisa. Mas aquele era o preço a se pagar pela satisfação de irritar e confundir aquele francesinho irritante. Éric franziu o cenho, parecia irritado.

Ótimo.

- "Acho melhor a gente ir embora, pessoal." - cortou Hideki fazendo sinal para Éric.

Ichiro respirou de novo. Era só se afastar agora. Ele tinha conseguido.

- "Claro." - disse Éric e Ichiro já tinha dado um passo pra trás quando o ouviu retomar a palavra - "Sabe, você pode até conseguir ficar com ela... por um tempo. Mas vocês nunca vão ficar realmente juntos. É o que eu acho."

Zhang levou as mãos a boca. Sam fez uma expressão chocada. Ninguém esperava que ele fosse dizer aquilo.

Calma, Ichiro. Calma.

Certo?

E, num instante, tudo ficou vermelho.

Uma vez, quando criança, Ichiro frequentou uma terapeuta que passou um exercício lúdico pra ele. Tinha que eleger os três sentimentos mais recorrentes na sua vida e fazer um desenho que representasse cada um deles.

Ele cerrou os punhos, deu um passo pra frente.

E assim, o pequeno Ichiro fez... Tédio. Medo. Raiva. Foram os escolhidos. Só que ele precisou fazer dois desenhos para este último e a terapeuta, intrigada, pediu que explicasse.

O braço direito pegou impulso. Em milésimos de segundo os nós de seus dedos se encontraram com a bochecha esquerda de Éric.

Dois vulcões. Um em erupção. O outro, não. Sua raiva ficava, na maior parte do tempo, contida, escondida. Alguém poderia até achar que não se passava nada ali. Por dentro, era apenas uma montanha normal. Mas, uma vez que a lava começava a brotar do seu topo... Bem... Era tarde demais.

Ele nem pensou. A mão esquerda acertou as costelas do garoto.

- "MEU DEUS DO CÉU, ICHIRO, PARA!" - gritou Zhang.

O vermelho se esvaiu. A voz da irmã o acordou. Ele sentiu dois braços segurarem os seus por trás. Era Kayri.

- "Mas que merda!" - ralhou Sam - "Vocês dois, por favor! Que ridículo..."

Mas Ichiro ainda estava inflamado de ódio.

- "VOCÊ. É. UM IDIOTA!" - gritou ele, quase cuspindo as palavras - "OTÁRIO!"

- "Cara, se acalma, pelo amor de deus." - falou Kayri baixinho.

Algumas pessoas tinham parado pra olhar.

Ichiro se soltou bruscamente e olhou com raiva para Kayri que estendeu as mãos pra cima em sinal de paz. Tornou a olhar pra frente e viu seu alvo com um olho meio roxo e uma mão na costela. Hideki e Johnny tinham oferecido ajuda, mas Éric recusou, ríspido. Se ninguém estivesse por perto com certeza ele iria tentar revidar. Seu olhar era puro ódio.

Mas a raiva de Ichiro ainda estava longe de passar. Ele foi até Éric mais uma vez, que fez menção de ataca-lo, mas foi detido por Johnny.

- "Ichiro, pelo amor de deus, volta aqui!" - disse Kayri, em desespero, voltando a segura-lo.

Mas ele não precisava bater mais no moleque. Se deixou ser segurado dessa vez.

- "Você vai ter que se conformar." - ele cuspiu no chão, na direção de Éric.

- "Ichiro, já chega." - falou Zhang. E ele nem ousava olhar pra ela, porque ver aquela expressão de decepção no rosto dela era literalmente uma das piores coisas do mundo.

- "Isso não fica assim." - ameaçou Éric.

- "Cê tá doido, cara?!" - disse Johnny - "Vamo embora! Agora!"

Kayri o soltou. Hideki, Johnny e Éric se afastaram, levantando cochichos de alunos conforme passavam pelo pátio. Zhang levou uma mão à cabeça e, nessas horas, ela parecia ser a irmã mais velha e mais responsável. Sam colocou uma mão no ombro de Ichiro e sorriu, com pesar. Kayri estava ao seu lado.

- "Não sei nem o que dizer." - disse Zhang, Ichiro olhou pro lado, evitando contato visual com ela a todo custo - "Precisava disso?"

Mas estava indignado demais para não retrucar. O sentimento de injustiça crescendo no seu peito.

- "Você ouviu o que ele disse?" - Ichiro, ainda sob efeito da raiva falou, com uma dose de mágoa - "Que eu não me... Que ela..."

Mas não conseguiu terminar a frase. Seus olhos ameaçavam encher-se de lágrimas.

Seu olhar encontrou o de Zhang. E ele soube que não podia aguentar mais.

E correu. Pra longe dali. O mais rápido que suas pernas conseguiram.


É claro que sabia que o que tinha feito era errado. Na maior parte do tempo se martirizava internamente todas as vezes que falhava. Bom seria se ele simplesmente não se importasse. Mas a cada erro que cometia, ele se culpava. Desde sempre. Só que ninguém sabia. Ninguém podia saber. Ele já se sentia mal o suficiente por si só, não queria e nem nunca quis ninguém sentindo pena dele.

Pena. Ele odiava esse sentimento.

Só que, diferente da maior parte das vezes em que cometeu um erro, dessa vez, Ichiro não se sentiu imediatamente culpado.

"Não é justo... Não é justo."

Correu pelas ruas de Tókio até não sentir mais as lágrimas que teimavam em escorrer pelo seu rosto. Esbarrava nas pessoas sem pedir desculpas, tropeçou e quase caiu algumas vezes. Parecia estar fugindo de algo que em algum momento iria alcança-lo. Fugindo de si mesmo. Tinha tentado se controlar, não tinha? Mas ouvir que ele não se importava... Tinha sido demais. E, somado a isso, ouvir que existia uma chance de não ficar com a única pessoa que queria estar naquele momento... Doeu. Demais.

Tudo bem então aquele idiota presumir que ele não tava nem aí sendo que ninguém sabia o quão angustiante tinham sido os últimos dias? Era justo? Talvez não fosse, mas, ao mesmo tempo, era o preço que ele pagava por não externar seus sentimentos.

A chuva fina que ameaçou cair a manhã inteira finalmente começara, mas ele não sentiu. Só parou de correr quando não aguentou mais. Pra onde iria agora? Não queria ir pra casa. Encontraria Zhang decepcionada. E ele tinha prometido pra si mesmo que iria tentar agir mais como o irmão mais velho para ela. Por ela. Zhang era a única coisa na qual ele pensava naquele momento que fazia brotar uma pontada de arrependimento por ter socado aquele imbecil.

O pior era saber que, sem perceber, Éric tinha tocado em outra possibilidade que assombrava Ichiro dia e noite.

"E se ela não ficar comigo não por uma escolha, mas por... simplesmente não voltar mais?"

Ele e Souta tinham conversado sobre isso. Kagome nunca disse em palavras, mas estava implícito que, se Inuyasha ainda estivesse vivo, eles teriam ficado juntos e, possivelmente, ela viveria na Era Feudal. E se... por qualquer motivo que fosse... ela reconsiderasse? E se - pior de tudo, isso ele nem ousava pensar por muito tempo - alguma coisa acontecesse e ela não conseguisse voltar? E se...

Aquela sensação de novo. O vazio que sempre o assombrava. A sensação de existir pela metade. Nos seus momentos de maior desespero, ele sempre se sentia assim. E, apesar de saber exatamente como era, todas as vezes que vinha parecia diferente... Parecia um pouco pior. Agora, por exemplo, ele se sentia sozinho. Mais sozinho do que nunca.

Não. Não iria suportar nem mais um dia.

"This is the house where I

I feel alone, feel alone now"

Ele parou. Olhou em volta pela primeira vez em muitos minutos para entender onde estava. Identificou a estação de metrô mais próxima e correu, decidido.

Sua mente estancou. De repente, ver Kagome era a única coisa que importava. Não iria perde-la de jeito nenhum. Aquilo estava fora de cogitação. Iriam se encontrar. Iria falar pra ela como se sentia. Iria melhorar. Por ela. Por ele. Iriam ser felizes juntos, certo? Era o destino deles, ele sentia. Não sabia porque, mas sentia. Será que o vazio iria embora assim? Será que era de Kagome que ele precisava?

"This is the house where I

Could be unknown, feel alone now"

Sem demora, ele estava diante das escadarias brancas que davam acesso ao Templo Higurashi. Porque, desde sempre, aquele lugar parecia tão familiar? Conforme subia, a sensação crescia. Parecia que ia sufoca-lo de dentro pra fora. Parecia que seu peito ia explodir. Mesmo assim, não parou de subir. Logo viu a Árvore Sagrada. Uma copa vasta, frondosa.

"Já estive aqui antes! Eu já estive aqui antes. Não é possível."

Sentiu algo molhado escorrer pela bochecha. Tocou seu rosto. Chorava, mas agora, sem nem sentir.

Souta o avistou.

- "Ichiro!" - disse ele, acenando.

Mas seu olhar estava fixo. Nublado. Ele só via a árvore. E o poço.

E de repente, ele soube. Que não só pra rever Kagome, mas que para tirar aquele sentimento estranho do peito. Aquela loucura que havia estado com ele a vida toda... De alguma forma, tudo o que ele precisava, tudo o que ele queria... Era ir.

Só queria ir.

- "Ichiro!" - chamou Souta, novamente - "Ichiro?!"

Souta não teve muito tempo pra agir. Gritou pela mãe e pelo avô, mas Ichiro era muito mais rápido. Ele correu de novo. Soltou tudo que trazia no chão. Não queria levar nada. Só precisava de si mesmo. Ele sabia. De alguma forma, ele sabia. Ele chutou e destruiu a porta que abrigava o poço e que estava trancada com um enorme cadeado. Aquilo provavelmente doeria muito mais tarde, mas a adrenalina era tamanha que ele nem sentiu.

A porta despedaçada. Diante dele, o poço.

"So, the waves and I

Found the rolling tide"

Pediu, com todas as forças e pra quem quer que estivesse ouvindo, que lhe garantisse apenas uma chance de ver Kagome de novo. Uma chance pra se encontrar, de vez. E ele nunca sentiu tamanha vontade de acertar. Ouvia um chamado. Algo lhe puxava pra lá. Ele encarou o poço.

- "Ichiro! Espera!"

Souta alcançou a porta. No exato momento em que Ichiro saltou.

Mas seus pés não tocaram o chão firme. Uma luz muito forte o envolveu e o obrigou a colocar o braço na frente do rosto. Tinha medo, mas sentiu que estava mais perto do que nunca de algo que precisava muito. Algo que não sabia ainda nomear. Mas estava lá. Do outro lado. Ele tinha certeza. Esfregou os olhos. Olhou pra cima. Viu a silhueta de Souta se tornando menor, menor e menor...

"So, the waves and I

Found the rip tide"

Seus pés tocaram novamente o chão.

E, do fundo do poço, ao olhar pra cima, ele não via mais a silhueta de Souta. Nem o teto de madeira que protegia sua cabeça.

O céu era azul e limpo. Um bando de pássaros passava voando.


Observações finais:

Sândalo é o incenso favorito das sacerdotisas, pois é conhecido por atrair vibrações positivas, elevando o estado de consciência e ajudando na expansão da intuição. Além disso, auxilia no equilíbrio das emoções, na criação de uma atmosfera de bem estar e na paz de espírito.

"Pura alma" é um conceito construído exclusivamente para o universo dessa fanfic e não tem nenhuma relação com o budismo tradicional ou qualquer outra religião, apesar de se basear nas crenças mostradas no mangá original.