"I got a fear, oh, in my blood
She was carried up into the clouds, high above
Ooh, if you've bled, I bleed the same
Ooh, if you're scared, I'm on my way"
Capítulo 17
O ar parecia puro. Intocado. A sensação de respirar ali era muito diferente. Ele piscou os olhos. Uma. Duas. Três vezes. Levou uma mão ao peito. Ainda estava meio ofegante, talvez por ter corrido desesperadamente pelas ruas da cidade. Ou talvez por ter socado uma pessoa e destruído uma porta em segundos aos pontapés.
Seria sensato tomar uns minutos pra se acalmar, sim?
Ele passou as mãos nervosamente pelos cabelos e andou alguns passos em círculos dada as dimensões do poço em que se encontrava. Então tinha mesmo saltado. Souta chamara seu nome, mas agora... E ele olhou pra cima mais uma vez, só pra ter certeza: não estava mais ali.
"Tá. Hora de escalar isso aqui."
Ele começou a subir as paredes do poço com calma. Uma borboleta que nunca tinha visto antes voou perto dele no meio do caminho. Tinha um brilho diferente. Parecia inofensiva, como se estivesse lhe dando as boas vindas. Sacudiu a cabeça, afastando esse pensamento bobo e retomou a escalada. Quando finalmente alcançou a borda, deu um impulso com um dos pés. E pronto. Estava sentado. Pisou em uma grama verde, perfeita.
Foi só aí que ele ergueu a cabeça.
Estava no meio de uma planície, cercado por árvores. A grama se estendia por alguns metros diante de onde ele estava, mas também dos lados. Os limites laterais esbarravam na floresta, cheia de arbustos e árvores gigantes que pareciam ter dois séculos de vida. Era o céu mais lindo que ele já tinha visto, de um azul que quase cegava, pouquíssimas nuvens, temperatura amena. O sol era quente, mas gentil.
Ele percebeu que, muito embora estivesse meio que surtando de ansiedade e preocupação poucos minutos atrás, naquele momento se sentia extremamente calmo. Sempre se descrevia como uma pessoa meio cética, mas o que quer que o tenha impulsionado a ir pra lá parecia até... algo sobrenatural. Por incrível que pareça, ele se sentia equilibrado e tranquilo, por mais que ali existisse a possibilidade de ser atacado a qualquer minuto por um...
Meu deus. Era isso mesmo, não é? Aquela loucura toda era real. Se ele tinha conseguido se transportar no tempo através de um poço, com certeza todo o resto era verdade também. Percebeu, de repente, que deveria ter se preparado mais antes... Não foi a coisa mais inteligente do mundo largar tudo que tinha nas mãos e se atirar ali. Talvez tivesse sido melhor trazer alguma coisa - qualquer coisa - que servisse como arma para se defender.
Digamos que as duas últimas horas não foram exatamente as mais brilhantes de sua vida.
Mas agora estava feito, supunha ele. Não tinha coragem de saltar de volta e ir buscar o que quer que fosse. Uma vez ali, só voltaria de novo com Kagome. Qualquer outra possibilidade estava fora de cogitação.
Seria ótimo saber precisamente onde ela estava também. Mas aquela localização era impossível de prever. Ele não tinha encontrado nenhum registro geográfico de um Poço Come-Ossos em nenhum dos livros que lera. Souta não conseguiu ajudar nesse sentido porque nunca esteve lá. Kagome também não deu detalhes específicos porque, ah, sim, ela nem queria que ele estivesse ali pra início de conversa.
Sem saber o que fazer, ou pra onde ir, Ichiro decidiu que a melhor alternativa era andar. Se encontrasse ao menos uma pessoa pelas redondezas poderia tentar pedir alguma informação. Essa possibilidade o fez lembrar-se de outro erro: se aquele era realmente o passado, teria sido útil "viajar" com roupas um pouco mais tradicionais. Jeans e tênis não iam ajudar ele a conquistar a confiança de ninguém ali e conseguir orientações ia ficar difícil.
Mas Ichiro não tinha muita escolha. E, assim como fez quando se aproximou de Kagome, decidiu seguir sua intuição e deixar a lógica um pouco de lado.
"Espere aí... E se eu conseguir achar aquela árvore? Se ela tem mesmo mais de quinhentos anos de existência, com certeza deve estar por aqui em alguma parte, certo?"
Ele começou a andar, ao menos agora sabia exatamente o que estava procurando. Só não sabia se iria ajudar ou não, mas definitivamente aqueles eram os dois únicos lugares que ele "conhecia" ali: o poço e a árvore.
Fora o fato de que alguma coisa dentro de si o chamava pra lá.
Ela sentia algo diferente no ar naquele dia. Sesshomarou estava ainda mais quieto do que o normal. Mas ele tinha prometido a ela voltar ao vilarejo, afinal de contas, e era nisso que Rin se apegava enquanto bebia água às margens do rio naquela manhã.
Na noite anterior teve pesadelos. Recordou-se das inúmeras conversas que tivera com Shippou sobre tudo que estava acontecendo. Nunca tinha lhes ocorrido antes que youkais poderiam estar atravessando o Poço Come-Ossos. Pelos anos que passou sendo criada por Kaede, Rin se lembrava que aquilo não era mais possível. Ou, ao menos, não deveria ser. A Joia de Quatro Almas tinhas sido levada por Kagome para a Era dela e, até aquele momento, não existia nenhuma possibilidade dela retornar.
Só que, se a Era de Kagome ficava no futuro, então o que acontecia ali só podia ser muito grave. Ela e Sesshomarou não tiveram tantas conversas explícitas sobre o assunto. Na verdade, elas sempre se pareceram muito com monólogos. Rin perguntando se era preocupante. Perguntando se Sesshomarou seria afetado. Perguntando se existia alguma chance de isso acabar com o mundo do jeito que eles conheciam... O silêncio que recebia em resposta, ao menos para ela, significava um sim. Se ele achava que ao não responder estava realmente poupando Rin, ela só conseguia achar graça do seu equívoco. Seus medos só cresciam diante do desconhecido e Sesshomarou parecia apreciar deixa-la no escuro. Sempre.
Por mais que ela já fosse uma adulta, ainda assim, era tratada como criança. Será que ele nunca ia vê-la de outra forma?
Ainda tinha aquela espada que ele havia roubado. E Rin sabia que Kagome havia percebido. Mas ele nunca compartilhou com ela a razão de guardar aquilo por tantos anos. Ela bem sabia que a espada não tinha nenhuma serventia nas mãos dele, então porque insistia? Seria uma memória do irmão que ele não queria deixar pra trás? Seria ele capaz de, no final de tudo, sentir alguma espécie de afeto por Inuyasha? Isso explicaria muita coisa.
Eram diversas as suposições e escassas as certezas.
Mas Rin sempre tivera fé em Kagome. Sempre tivera fé em Shippou e - por mais que tivessem suas diferenças e ela soubesse o quanto Hatsue a odiava - também tinha fé na sacerdotisa. Conforme os anos se passaram, a fama de humana mais poderosa passou de Kikyou para Kagome... E, desde então, apenas Hatsue demonstrara tamanho talento. As duas juntas, poderiam ser imbatíveis. Poderiam ser a única chance de ver as coisas voltarem à normalidade. Por isso seu coração enchera-se de esperança no dia anterior. E ela estava disposta a se apegar a isso. A alternativa era muito pior.
Rin fazia o caminho de volta para o acampamento que ela e Sesshomarou montaram na noite anterior. Sabia que ele aproveitava esses momentos em que ela se distanciava para providenciar comida. Era sempre assim. Nunca o vira cozinhar nada - por deus, essa cena seria realmente muito intrigante de se ver. Ele sempre fazia as coisas na surdina. Mas jamais lhe deixou faltar nada. Dito e feito. Deixara pronto um cozido de peixe, ela sentia o aroma, estava delicioso.
Comeu silenciosamente enquanto admirava a silhueta dele ao longe. Estava sentado no penhasco a sua frente, da mesma maneira que estava na noite anterior quando discutiram. Sempre olhando o céu com aquela expressão fechada, que nada dizia.
Soube que era hora deles irem quando o viu levantar-se. Se comunicaram apenas com o olhar. Ela o viu transformar-se no ar. Rin pegou impulso e correu até a borda. Abriu os braços e saltou. Sabia exatamente onde iria cair: nas costas macias de um enorme cachorro branco.
Os dois voaram juntos, rumo ao vilarejo.
"Ele se foi."
Souta olhava estarrecido para o fundo do Poço Come-Ossos, tal como fizera tantas outras vezes quando Kagome precisava se ausentar por dias. Sentia-se culpado, pois lembrava da promessa que Ichiro lhe fizera dias atrás, quando sua irmã também mergulhou naquela mesma escuridão desconhecida.
"Se ela não voltar, eu a trarei de volta". Será que Souta tinha, sem querer, colocado ele em perigo? Nem ao menos levava nada, nem uma mochila, pelo que tinha percebido. Na verdade, Ichiro parecia meio... estranho. Souta não teve tempo para avaliar de perto, mas viu que parecia um tanto abatido. Nem ao menos tinham se falado. Ele só correu e saltou dentro do poço, como se já soubesse exatamente o que tinha que fazer.
- "Souta!" - ele ouviu a voz da mãe chamando-o - "O que... O que aconteceu aqui?"
Ele virou-se pra ela e viu que encarava confusa a porta despedaçada no chão.
"Ah, claro, tinha isso também."
- "Ichiro..." - disse ele. E àquelas alturas, não precisou dizer mais nada para que ela entendesse.
- "Bem..." - tossiu seu avô, que chegava logo atrás da Sra. Higurashi - "Ele poderia ao menos ter pedido as chaves."
Souta soltou uma risada triste. Uma das suas mãos ainda descansava na borda do poço. Sua mãe desceu as escadas e o alcançou com um abraço.
- "Filho... Vai ficar tudo bem."
Mas ela não sabia, não tinha como ter certeza disso, não é? Nenhum deles tinha. Mas não seria ele a levantar essa hipótese. Durante aqueles dias a presença de Ichiro na casa deles tinha sido determinante pra manter os ânimos esperançosos. Agora, sem saber quando os dois iriam voltar, ele teria que assumir uma postura mais madura. Sua mãe precisava dele e seu avô, por mais que disfarçasse e dissesse que não, também precisava.
- "Eu sei." - respondeu Souta, sem acreditar muito no que afirmava - "Sei que eles vão voltar logo."
- "Ótimo! Esse é meu garoto..." - a Sra Higurashi sorriu pra ele e acariciou sua bochecha exatamente como fazia quando ele era uma criança - "Agora ajude-me a limpar essa bagunça, sim?"
- "Meu deus do céu. Que loucura." - repetia Zhang, sem parar - "Que. Loucura."
Kayri, Sam e Zhang estavam sentados a alguns minutos em um pequeno restaurante bem próximo a Toudai. Fazia algum tempo que tinham se dispersado desde a briga de Ichiro e Éric. Zhang, a mais abalada dos três, repetia mais ou menos as mesmas frases a cada cinco minutos, muito embora, até onde sabiam, Éric estava bem. Assim que sentaram à mesa, receberam uma ligação de Hideki avisando que ele só precisava fazer os devidos curativos e tomar algo para a dor e, de resto, estava tudo "bem". Depois da ligação, passaram alguns minutos em silêncio até que Kayri perguntou:
- "Ele não vai prestar queixa, não é?"
Zhang suspirou. Essa possibilidade ainda não tinha lhe passado pela cabeça. Agora tinha uma nova preocupação para lidar e pior: se isso acontecesse, não ia ter outra alternativa a não ser contar aos seus pais.
- "Claro que não!" - respondeu Sam, como se achasse a hipótese absurda - "Éric não faria isso... Quer dizer..."
- "Ele poderia, não é?" - interrompeu Zhang, olhando mais para Kayri do que para Sam.
Kayri cruzou os braços e suspirou. Durante a briga, ele e Sam automaticamente foram para o lado de Ichiro e sabia que aquilo não era à toa. Apesar de serem muito amigos de Éric e de acreditarem realmente que ele era uma pessoa maravilhosa, seu comportamento ficava mais e mais difícil de entender. Em contrapartida, quando viam Kagome e Ichiro juntos, sabiam que eram certos um pro outro. Talvez o fato deles mesmos estarem vivendo um romance os tenha tornado mais sensíveis aos sentimentos alheios. Ou talvez o que Kagome e Ichiro sentiam um pelo outro era tão visível e óbvio que até mesmo quem estava de fora percebia. Seja como fosse, se eles não tivessem equilibrado as coisas durante a briga, seriam cinco contra um.
E cinco contra um era uma puta injustiça.
Sam suspirou. Os braços estavam cruzados, as sobrancelhas franzidas de preocupação.
- "Ele não vai fazer nada, Zhang." - afirmou Kayri, por fim - "Vou conversar com ele. Fique tranquila."
Zhang suspirou aliviada. Sabia que seu irmão tinha agido por impulso. Ficara daquele jeito que ela presenciara raras vezes na vida: cego de raiva.
- "Eu ficaria mais tranquila se a gente soubesse realmente onde está a Kagome." - falou Sam, soando desanimada - "Mas eu acho que... No fim, Ichiro blefou um pouco... Certo?"
- "Isso com certeza." - confirmou Zhang, e logo viu que Kayri acenava com a cabeça afirmativamente - "Ele não sabe onde ela está. Ele me contaria."
- "Sim..." - disse Kayri, ponderando - "Ou talvez seja um segredo deles, sabe?"
Sam parecia compreender onde ele queria chegar. Mas Zhang o encarava com uma expressão confusa no rosto.
- "O que quer dizer?" - questionou ela.
- "Bem..." - ele tomou um tempo para respirar antes de completar a frase - "Acho que seu irmão e Kagome estavam realmente bem unidos na semana antes dela desaparecer. E hoje... Ele pareceu bastante... Como posso dizer..."
- "Ele estava praticamente chorando." - concluiu Sam - "Sério, eu senti um pouco de pena. Vocês não?"
Zhang e Kayri concordaram imediatamente. Qualquer um que visse a expressão dele antes de sair correndo seria incapaz de dizer que aqueles sentimentos não eram reais.
- "Eu nunca vou ser a favor do que ele fez hoje, vocês sabem." - começou Zhang, constrangida - "Ele sempre teve esses ataques... Não era frequente, nem um pouco, mas... Sempre depois de algo que tivesse deixado ele nervoso... ou ansioso."
- "Ei, Zhang... estamos todos aqui para aprender, certo?" - amenizou Kayri - "Ichiro vai aprender a controlar os nervos dele... e Éric vai perceber que não dá pra sair por aí falando tudo que pensa. Ele foi cruel."
- "Mas não precisava ter apanhado." - disse Zhang, tentando ponderar - "Não se resolve nada assim."
- "Pare de se culpar, Zhang." - a voz de Sam soou, compreensiva - "Você não é responsável por nenhum dos dois. Eles são bem grandinhos. Vão se resolver."
Zhang suspirou, aliviada.
- "Suponho que sim... Mas..." - ela ficou quieta de repente, pensando, enquanto Kayri e Sam a encaravam, esperando - "Eu só... não sei o que deixou ele desse jeito."
- "Foi o que Éric disse... não?" - tentou Kayri.
Zhang olhou para ele e balançou a cabeça de um lado pro outro.
- "Não. Sempre tem uma coisa... grande... por trás."
Zhang vasculhou suas memórias tentando entender o que tinha acontecido com seu irmão. Sua mente só conseguia lhe soprar um único palpite. Ele não sabia onde Kagome estava. Era isso que o tinha tirado dos eixos. Certamente aquela era a primeira vez que o via apaixonado por alguém, o que poderia ter contribuído para elevar o nível de stress dele.
Ichiro sempre fora um irmão carinhoso. Ela se lembrava das poucas vezes que o tinha visto perder o controle: uma vez, no jardim de infância, um garoto a arrastou pelos cabelos por ela ter ganhado um chocolate da professora. Ichiro ficou sabendo e, no dia seguinte, bateu no menino até que dois monitores interrompessem a briga.
Foi assim que ele conseguiu ser matriculado em todo tipo de arte marcial que seu pai conhecia. Nunca mais parou de praticar.
Mas o motivo não tinha sido meramente para defender Zhang. Aquilo tinha ocorrido mais ou menos na mesma época que todos eles começaram a conviver juntos - ela, a mãe, o pai e Ichiro - e os atritos verbais entre ele e sua madrasta eram simplesmente intensos demais.
Sempre existia um motivo maior.
Tiveram outras vezes em que ele reagira agressivamente, nunca com mulheres, sempre com homens.
Quando não sucumbia ao álcool, acabava se envolvendo em encrenca. Sempre fora assim. Zhang não conseguia não sentir pena. De alguma forma, o olhar dele sempre parecia um pouco vazio. Como se faltasse um pedaço ali. Mas ela não conseguiria resolver todos os problemas do seu irmão. No máximo, poderia aconselhar a fazer a coisa certa... e apenas torcer para que ele encontrasse o próprio caminho.
Os três permaneceram calados por alguns instantes até que Kayri resolveu fazer os pedidos. Diante do silêncio das meninas, ele escolheu o que cada um deles iria comer e liberou o garçom. Assim que terminou de pedir, Sam retomou a conversa.
- "Tenho que admitir..." - recomeçou Sam - "Eu realmente sinto que seu irmão gosta da Kagome. De verdade. E se for isso que ela quer, o que eu suspeito que sim, nenhum de nós pode ficar no caminho."
Zhang e Kayri concordaram e ele tornou a falar.
- "Ichiro me parece ser um cara legal. Faz merda, como todo mundo, mas é um cara legal... dá pra perceber. Ele é seu irmão, afinal de contas, Zhang."
- "Bem... É meu meio-irmão, pra dizer a verdade, não é? Mas... acho que isso é suficiente pra torna-lo uns 25% legal, no mínimo." - brincou ela.
Kayri e Sam acharam graça. Pelo menos ninguém tinha se machucado de verdade e, talvez, num futuro próximo, aquela história iria se tornar apenas uma memória engraçada. Eles ficaram mais alguns instantes em silêncio.
- "Posso confessar uma coisa?" - falou Sam, finalmente - "O comportamento do Éric com a Kagome não é saudável. Tenho pensado em falar com ele sobre isso também. Sem contar que o que ele disse pro Ichiro foi... maldoso. Considerando o quanto todos nós sabemos que ele e Kagome se gostam."
- "Acho que sim..." - concordou Zhang - "Poucas vezes vi meu irmão tão... magoado."
- "Éric não costuma ser assim..." - disse Kayri - "Ele era o melhor de nós. Não sei o que está acontecendo."
- "O que tá acontecendo, Kayri é que todo mundo faz besteira de vez em quando mesmo... ele só precisa de uma conversa." - falou Sam - "Faça isso por ele e estará fazendo um bem para a Kagome também."
Os três concordaram enfim e a comida não demorou a chegar. Sam observou Zhang pegar o celular algumas vezes e tentar chamar por algum número, mas não perguntou do que se tratava até que ela disse.
- "O telefone dele está desligado." - falou, de repente.
Kayri e Sam pararam, no mesmo instante.
- "De quem?" - perguntou ele.
- "Ichiro..."
Os três ficaram em silêncio por alguns segundos onde tudo que se ouvia eram barulhos de talheres sendo colocados ao lado dos pratos.
- "Não se preocupe, Zhang." - tranquilizou Kayri - Com certeza, pelo jeito que ele saiu dali, carregar o celular deve estar em último na sua lista de prioridades."
Zhang franziu as sobrancelhas. Estava com um mau pressentimento. Mas sabia que muito provavelmente estava exagerando. Ela deixou o telefone de lado e recomeçaram a refeição. Se permitiu esquecer um pouco daquela manhã conturbada e ter um momento tranquilo com seus amigos. Deus sabe o quanto eles mereciam.
Iria deixar para se preocupar com aquilo depois, quando realmente virasse um problema. Por enquanto, respirava fundo e tentava se distrair.
Já era hora de admitir que ele estava completamente perdido?
Talvez.
Mas a caminhada não era de todo inútil. Conforme andava e procurava a Árvore Sagrada, Ichiro aproveitava para tentar encontrar algum tipo de galho mais afiado ou até mesmo uma pedra, qualquer coisa que lembrasse vagamente uma arma que pudesse usar em sua defesa. Não precisou chegar muito longe para encontrar o local que procurava. Porém, até agora, não esbarrara com uma só alma viva a quem pudesse perguntar algo. Aquele lugar era bonito, mas... meio entediante? Ou talvez ele só tivesse lido histórias demais e pensava que seria recebido automaticamente com três youkais diferentes disputando um pedacinho da sua carne.
"Que tédio."
Tirou mais alguns minutos para apreciar a vista. Aquela árvore definitivamente parecia ter algo especial e não só por estar ali a tantos séculos, intacta. Souta lhe disse que era ali que Inuyasha tinha ficado por cinquenta anos até que Kagome o libertou e deu início a história dos dois. Tentou imaginar por um momento como teriam sido aqueles meses. Desafiadores, pra dizer o mínimo. Kagome ainda tinha conseguido se graduar no colégio, apesar de tudo, e entrar numa das melhores universidades do Japão. Tudo em meio aquele turbilhão... E esse... "cara" se é que dá pra chamar assim...
Ele teria cuidado dela como Ichiro pretendia cuidar?
Levou uma mão ao peito. Um vento soprou ao contrário de repente, assustando-o. Ele encarou a árvore mais uma vez, os olhos semicerrados, quase tentando se comunicar. E aquela sensação de familiaridade crescendo dentro dele.
"Eu já estive aqui?"
Balançou a cabeça. O que estava pensando? Aquilo já tinha ido longe demais, não podia se distrair daquela forma. Precisava encontrar Kagome. Tinha que achar... Ah! Bem ali! Aquilo ia servir perfeitamente. Ele escalou algumas raízes mais grossas que brotavam do chão e se uniam ao tronco da árvore. Avistava uma pedra comprida, alongada, não muito afiada. Mas deveria servir por enquanto. Chegou até ela e a alcançou com uma mão. Tornou a levantar-se e seu rosto estava a milímetros do tronco da árvore.
A mão que não segurava a pedra ergueu-se. Ele a encostou na madeira envelhecida, desgastada pelo tempo. Seu coração batia cada vez mais forte.
"O que tá acontecendo comigo?"
Antes que tivesse tempo de entender, sentiu algo prender seu tornozelo.
"Mas que merda...?"
- "Você..." - sibilou uma voz que parecia ser tudo, menos humana - "Onde... está...?"
Ele olhou para baixo e viu.
Diversos tentáculos brotavam da terra e subiam, tentando lentamente alcançar seus pés. A coisa tinha uma cabeça, se é que pode se chamar assim, com olhos por toda a parte, um nariz quase inexistente, similar ao de uma cobra, e uma boca semelhante a um rasgo de onde saía uma língua comprida, sibilante. "Ela" tinha um torso que parecia com o de uma mulher, mas no lugar onde deveria começar suas pernas havia tentáculos nojentos. Incontáveis.
- "Feh! Finalmente..." - debochou ele, consigo mesmo - "Um pouco de ação."
Ele usou toda a sua força para atingir e partir o tentáculo que envolvia seu pé com a pedra e desceu das raízes rapidamente, correndo para onde ele sabia que a mata era menos fechada. Embaixo dos seus pés, na terra, ele sentia que o monstro se movimentava, acompanhando seus movimentos. Aquilo era assustador, mas a adrenalina era bem vinda e fazia com que ele se sentisse vivo, como se lutar contra youkais correndo sérios riscos de vida fosse algo comum, que ele sempre tivesse feito.
Avistou um galho mais pontudo e bem afiado, deu meia volta, confundindo a trajetória do youkai e o alcançou com a mão direita. Era muito rápido, sabia disso, passara a vida inteira treinando os mais diversos tipos de esportes e artes marciais, então esperava que essas habilidades fossem ajuda-lo de alguma forma. Mas youkais são bem mais velozes do que humanos... E logo não demorou pra ser alcançado.
Ele sentiu quando a terra se abriu sobre seus pés de novo e um tentáculo conseguiu agarrar-se a ele, agora aprisionando as duas pernas, num só enlace. Ele foi ao chão, arranhando consideravelmente os dois braços, mas conseguiu agarrar-se firme no galho que pegara instantes antes. Dessa vez, não conseguiria sair do lugar, mas virou-se com o estômago pra cima e deu uma boa olhada na cara do monstro.
- "Você..." - dizia a criatura, seu "rosto" aproximando-se cada vez mais dele - "Não me é estranho..."
- "Se isso é algum tipo de cantada..." - disse ele, a mão segurando firme no galho, os nós dos dedos já sem cor tamanha a força - "Saiba que comigo não funcionou!"
Foi tudo muito rápido entre ele conseguir espetar alguns dos olhos da criatura com o galho e o tentáculo se afrouxar o suficiente para que tivesse tempo de se mexer. Levantou-se e correu mais uma vez, enquanto a criatura agonizava atrás de si. Não tinha sido o suficiente para acabar com ela, nem de longe, mas com certeza iria dar tempo pra ele pudesse se distanciar e procurar ajuda.
- "VOCÊ... ME... PAGA...!" - ele ouviu o youkai gritando ao longe.
Quanto tempo ainda teria?
"Kagome... Onde está você?!"
Shippou sabia que raramente se enganava. Sabia que não era o mais inteligente dos seres, ao menos não como Kagome ou Hatsue... Mas no que ele era realmente bom, no pouco que ele se considerava bom... não costumava falhar. Por isso, quando sentiu cheiro de sangue humano ficou em alerta total. E aquele cheiro especificamente o intrigou...
"Mas que sangue é esse?"
As duas sacerdotisas estavam em suas costas e ele corria com elas na direção da clareira. Elas tinham acabado de fazer uma descoberta e precisavam agir com rapidez... então não podia dizer que tinham que parar, certo? Mas havia um outro cheiro misturado ao daquele humano...
- "Hatsue-sama, Kagome..." - disse ele, enquanto desacelerava depois do último salto - "Sinto cheiro de youkai..."
- "Logo agora..." - falou Hatsue, sua testa franzida, num vinco de preocupação constante. Elas desceram das costas dele em seguida.
- "Mas porque paramos, Shippou?" - questionou Kagome - "Estamos em três. Não vai ser páreo pra nós."
Shippou a olhou, confuso. Se o cheiro que ele estava sentindo daquele sangue humano fizesse mesmo algum sentido, faltava alguma peça do quebra cabeça que elas alegaram ter solucionado agora a pouco... Pura alma... Mas não poderia ser, certo? Então se estivessem certas, tinha que ser coincidência toda aquela semelhança. Era um sangue humano, afinal de contas.
- "Shippou!" - a voz de Hatsue o despertou - "Vamos continuar! Você não vai enfrentar youkai nenhum sozinho!"
Elas já se preparavam pra subir novamente nas costas de Shippou, os cheiros que ele sentia ficando cada vez mais próximos, quando ouviram uma voz ao longe... Grunhidos agonizantes certamente do youkai que Shippou tinha identificado, mas, além disso, conforme se aproximavam, uma outra voz.
E gritava por Kagome.
- "KAGOMEEEE!"
Ele já tinha jogado o orgulho pro alto àquelas alturas porque sentia que estava simplesmente muito perto da morte. O youkai já quase o alcançara três vezes e nas três ele conseguira desviar ou confundi-lo, mas por onde quer que olhasse não via mais nada que pudesse usar como arma e, mesmo que visse, não estava com tanto tempo assim pra parar e apanhar. Sua desfeita, aparentemente, tinha feito a criatura ficar bem irritada e ela não lhe dava tempo nem de respirar. Ainda assim, ele conseguia forças pra se distrair do fato de que estava numa situação, no mínimo, perigosa.
- "Eu sei que que não fui muito delicado..." - gritava ele, debochando, como se o momento fosse apropriado - "Mas... você realmente não faz o meu tipo!"
Corria o máximo que conseguia e tinha plena consciência que aquela certamente não era a imagem que ele queria passar quando planejara resgatar Kagome.
Parecia que ele precisava ser resgatado.
"Mas cadê essa garota? Quão grande é esse lugar? Droga!"
- "KAGOMEEEE!" - gritou mais uma vez - "CADÊ VOCÊ?! SUA DESNATURADA!"
Ele se distraiu só por um segundo, mas foi o suficiente para a criatura se adiantar e surpreender ele, brotando da terra dois passos adiante, derrubando-o mais uma vez. Ele caiu de costas no chão, ou no que ele achara que era o chão, porque logo percebeu que quatro tentáculos prendiam cada um de seus membros: braços e pernas. Estava completamente imobilizado.
- "Você..." - sibilava o youkai, seu rosto amedrontador se aproximando lentamente do seu, como que para tortura-lo - "Humano... Você me lembra..."
- "Vai se foder, monstrenga horrorosa!" - gritou ele - "Não chega nem um centímetro mais perto ou eu acabo com você!"
A criatura soltou um urro vitorioso que fez Ichiro estremecer dos pés à cabeça. Ele sabia que estava só blefando. Não tinha nada que pudesse fazer estando naquela posição e a youkai se divertia adiando o momento da sua morte que, aquelas alturas, parecia inevitável. A cabeça do monstro foi se aproximando mais e mais... Os tentáculos se apertando conforme ela se aproximava às risadas.
- "Você... parece... delicioso...!"
A língua da youkai agora envolvia completamente seu pescoço. Ele via de muito perto sua imagem refletida nos minúsculos milhares de olhos que ela tinha. Instintivamente fechou os seus próprios olhos quando viu que a boca dela se abrira pronta para devora-lo, a começar pela cabeça.
Mas ele não foi devorado.
Ao invés disso, sentiu uma luz forte vindo de longe, mas muito rápido, atingindo o monstro que urrou novamente, dessa vez, de dor.
Sentiu seus braços e pernas livres de novo. Ele caiu a alguns poucos metros do chão, de costas na grama. Quando abriu os olhos a youkai se contorcia de dor. Seus tentáculos se desfazendo como se fossem pó.
E fincada na sua cabeça, uma flecha.
- "MALDITA!" - gritava ela, desaparecendo, envolvida pela luz lilás que brotava da flecha - "MALDITA! VOCÊ VOLTOU!"
Estava em choque demais para dizer algo e ainda não sabia exatamente como tinha sido salvo. Mas lembrava nitidamente daquela luz lilás. A mesma que tinha visto sair das mãos de Kagome quando ela o salvara do youkai que o atacou no Poço Come-Ossos, na Era Atual.
E então ele a viu.
Saltara das costas do que parecia ser um adolescente com roupas esquisitas e cauda de raposa. Parecia desafiar a gravidade, pois caía mais devagar, como se freasse o ar que a puxava pra baixo com aquela luz intensa que a envolvia por inteira, sacudindo suas roupas, seus cabelos... Ela parecia levitar. E no minuto em que seus olhos se encontraram, Ichiro esqueceu de toda a agonia que passara nas últimas horas. Nos últimos dias. Nas últimas duas semanas e meia. Esqueceu da briga, esqueceu que quase tinha virado lanchinho de youkai. Tudo o que importava era que ele estava diante dela de novo. Será que tinha se esquecido do quanto ela era linda ou só estava inebriado de saudades? Aquele rosto, aquela boca...
Aqueles olhos... tão azuis.
No instante em que os pés dela tocaram o chão, o youkai desapareceu por completo.
Kagome mal acreditava no que estava vendo. Ele tinha tido a coragem? Ele tinha conseguido? Não sabia o que dizer. Seu coração batia tão forte que parecia que ia parar a qualquer momento. Esqueceu-se completamente de Shippou e Hatsue, pois não conseguia olhar para nada mais que não fosse ele.
Era difícil encontrar uma parte do seu corpo que não estivesse arranhada. A camiseta tinha inúmeros rasgos, a calça (que já era rasgada) estava um trapo. Ele parecia ofegante. As bochechas rosadas, o cabelo ainda mais bagunçado do que o normal. Os olhos violeta, encarando-a profundamente. Mil perguntas a assolaram ao mesmo tempo: ele tinha acabado de chegar? Estava muito machucado? Quanto tempo se passara?
Kagome deu um passo pra frente, mas não conseguia perguntar nada do que estava pensando. Sentia suas bochechas corando e seu estômago embrulhava, aquele frio na barriga.
Ele já não se segurou mais.
Ichiro venceu a distância que ainda existia entre eles e a abraçou. Seus braços a envolveram, um deles, pela cintura, a suspendeu no ar e apertava forte, como se quisesse que eles dois se tornassem um só. Ele sentiu os bracinhos finos e macios dela se enroscarem no seu pescoço. Com a mão que não estava na cintura, ele acariciou os cabelos dela e apoiou sua cabeça em um dos ombros.
Nada mais importava. Ela estava ali.
Kagome não se recordava de ter recebido um abraço tão bom em toda a sua vida. Seu corpo inteiro relaxou, os pés suspensos, a centímetros do chão. Ela se sentia dentro de uma nuvem. Claro que nunca havia estado dentro de uma, mas tinha certeza absoluta que aquela era a sensação. Sentiu quando os dedos dele se enroscaram nos seus cabelos e um arrepio percorreu sua espinha. Descansou a testa no ombro dele, e apertou ainda mais seu pescoço. Por deus, não queria sair dali nunca mais. O tempo poderia parar. Ela não se importava. Mas queria olhar o rosto dele de novo.
E olhou.
Eles foram desfazendo o abraço aos poucos. Ichiro a colocou no chão devagar, mas ainda se recusava a soltar sua cintura. Quando seus olhares se encontraram, seu rosto a apenas centímetros do dela, ele não resistiu a acaricia-la de novo. Seus dedos traçaram um caminho que foi de uma das têmporas de Kagome, passando pela sua bochecha e descansando nos lábios.
Como ele queria beija-la ali mesmo.
Mas ao invés disso, só disse:
- "Você tá atrasada." - seu tom era aquele que escolhia quando queria provocar.
- "E você... chegou um pouco antes." - rebateu ela, a altura, sem conseguir segurar o sorriso.
Ele riu. Como tinha sentido falta das respostas dela. Dela por inteiro, aliás. Tinham se passado só alguns dias mesmo? Pareciam meses. Seus dedos se demoraram um pouco mais nos lábios dela, ele fez menção de aproximar-se ainda mais, segurou com delicadeza o queixinho fino e o ergueu de leve.
Mas foram interrompidos.
- "ERRRRM..." - Shippou fingiu uma tosse sem se importar se parecia fingimento ou não, só queria chamar a atenção dos dois e interromper o que quer que estivesse acontecendo - "OLÁ?!"
Ichiro não soltou Kagome imediatamente, só virou a cabeça devagar pra identificar quem estava interferindo no melhor momento da vida dele em muito tempo. Ele a sentia meio nervosa nos seus braços, mas de jeito nenhum ia deixa-la se desvencilhar tão rápido, a pressão do corpo dela no seu era boa demais pra ser cortada assim, do nada, por quem quer que fosse.
E quem era aquele fedelho mesmo?
Seu olhar deve ter transparecido o que sentia - irritação com pitadas de ódio - porque o garoto estranho de quem Kagome tinha saltado minutos antes parecia ligeiramente amedrontado.
Kagome sentia o constrangimento no ar.
- "Erm... Então..." - disse ela, se soltando um pouco mais de Ichiro agora - "Shippou, Hatsue-sama, esse aqui é o Ichiro. Ichiro... esses são meus... amigos... aqui nessa Era."
Ele não conseguiu não revirar os olhos, mas tinha que ser minimamente educado, certo? Finalmente, deixou Kagome se desvencilhar do abraço e tentou sorrir um pouco enquanto os cumprimentava.
- "E aí?" - falou ele, tentando usar o mínimo de sílabas possíveis.
Kagome deu uma olhada indignada pra ele e o cutucou não muito discretamente com o cotovelo. Ela observou Ichiro tentar demonstrar um pouco mais de simpatia e foi só aí que seu olhar recaiu em Shippou e na sua expressão estarrecida.
"Ah, claro. Tem isso."
Ela observou Shippou se aproximar em um segundo deles, a boca entreaberta, o olhar de espanto. Ele encarava Ichiro como se estivesse vendo um fantasma e Kagome imaginava que realmente deveria ser aquilo que parecia mesmo.
Às vezes se esquecia o quanto ele era semelhante a Inuyasha fisicamente.
- "Você é... humano... não é?" - perguntou a raposa enquanto fungava Ichiro de cima a baixo.
"Mas que diabos..?" Pensou ele, antes de empurrar o garoto com as duas mãos. Shippou deu um passo pra trás, ainda assustado.
- "Que droga você tá fazendo, seu pirralho? Eu, hem!"
Shippou sabia que seu olfato não lhe enganava. O cheiro daquele humano lembrava-o bastante do cheiro de Inuyasha, mas tinha que admitir que não era igual. O que mais o espantava era a semelhança física. O rosto era idêntico ao do hanyou, os cabelos tinham o mesmo tom de preto que atingiam quando era noite de lua nova. A única diferença estava nos olhos, de um tom de roxo bem fechado, às vezes meio azul escuro, mas definitivamente roxo.
Por isso mesmo estava tão confuso. Se a alma de Inuyasha tinha atingido o nirvana e se tornado "pura alma" (ainda que uma alma que não tinha conseguido sair daquele mundo) então o que aquele cara que mais parecia uma reencarnação dele estava fazendo ali?
- "Shippou-kun..." - interrompeu Hatsue - "Acho, antes de mais nada, não podemos deixar de dar as boas vindas a nossa visita, certo?"
- "C-claro!" - concordou ele, ainda tomado pelo espanto.
- "Você parece precisar de ajuda... com todos esses ferimentos." - Hatsue continuava a falar com naturalidade, pois estava alheia à semelhança que Ichiro carregava com Inuyasha. Nunca o tinha visto e as únicas descrições que tinha dele não a permitiam traçar esse paralelo de comparação.
Shippou mal podia se aguentar pra dividir suas suspeitas com Hatsue e também queria encher Kagome de perguntas, mas teria de fazer uma coisa de cada vez. O garoto não parecia ter se machucado gravemente, mas precisava ao menos se limpar um pouco, deus sabe a quanto tempo estava ali correndo em círculos com aquele youkai.
- "Hatsue-sama, acho que devemos ir até a clareira só para verificar por hoje... O que acha? Kagome pode acompanhar seu... amigo... até o vilarejo. Depois nos encontramos todos lá."
- "Ótima ideia, Shippou!" - concordou Kagome, antes que alguém pudesse responder - "Também não acho sensato não irmos lá pelo menos uma vez hoje. Ao mesmo tempo..."
- "Eu não vim para atrapalhar." - disse Ichiro e tornou a olhar para Kagome que retribuiu - "Só vim te buscar. Todos estão preocupados lá, sabe? Você sumiu por mais de quinze dias..."
- "Q-quinze dias?!" - espantou-se ela - "M-mas eu cheguei aqui antes de ontem!"
- "Você tá completamente doida, não é? Inacreditável..." - debochou Ichiro - "Ou só pode tá de brincadeira, Kagome, olha aqui, eu passei esse tempo todo enlouquecendo de preocupação! Sei muito bem contar quantos dias se passaram!"
"Ele estava preocupado... Comigo?"
A mente dela não tinha absorvido bem todas as partes do que ele falara de forma que apenas isso ficou ecoando dentro da sua cabeça enquanto ela admirava a expressão indignada dele.
- "Ah, Ichiro-san, já descobrimos que o tempo tem sido confuso mesmo..." - interrompeu Hatsue - "Para nós, Kagome demorou 105 anos para voltar, enquanto que pra vocês... Foram três anos e meio. Estou certa?"
- "Isso mesmo..." - confirmou ela, para a surpresa de Ichiro.
Ele observou a expressão de Kagome tornar-se ligeiramente melancólica.
Perguntou-se como ela estaria lidando com aquilo. Se teria contado com aquela possibilidade em algum momento...
Apesar disso, decidiu não prolongar o assunto. Tinham que resolver logo o que quer que houvesse a ser resolvido. Precisavam voltar para casa. Ichiro não sabia quem ela tinha perdido ali exatamente, mas sabia que quatrocentos anos no futuro existia uma família e amigos esperando por ela.
- "Feh, de qualquer forma... de quanto tempo mais você precisa, Kagome?" - questionou ele, soando impaciente.
- "Bem, eu... Eu não sei."
Ichiro cruzou os braços e soltou um muxoxo irritado. Achava mesmo que seria só pegar ela no colo e levar pra casa? Deveria imaginar que seria difícil, mas ainda assim não conseguia esconder a frustração.
- "Isso me deixa sem escolha, suponho..." - desistiu ele, revirando os olhos - "Vou ter que ficar aqui com você até resolvermos."
- "Ótimo!" - Hatsue animou-se e bateu as palmas das mãos uma na outra - "Mais ajuda, é tudo o que precisamos."
Ichiro ergueu uma sobrancelha pra ela. Não estava exatamente empolgado com aquela possibilidade. Só estava se dispondo única e exclusivamente para acelerar as coisas e leva-la de volta, e não por querer viver uma aventura com demônios no passado.
- "Vamos, Hatsue-sama, depressa." - apressou Shippou e a sacerdotisa montou em suas costas - "Kagome, por favor, se precisar de qualquer coisa..."
- "Eu sei, Shippou, mas não se preocupem..." - ela ergueu seu arco para ele, tranquilizando-o - "Consigo resolver qualquer problema que possamos ter no caminho."
- "Não vamos demorar. Vemos vocês no vilarejo." - prometeu Hatsue.
Eles observaram os dois sumirem por entre as árvores. Kagome olhou pra Ichiro novamente.
Viu que ele já passava uma mão sobre os ombros dela e teve um leve deja vu dos dois andando pela Toudai com poucas preocupações na cabeça além deles mesmos.
- "Então... Pra onde vamos?"
- "É por aqui." - disse ela enquanto limpava com uma das mãos um corte acima da sobrancelha de Ichiro - "Nossa, você tá um trapo. Temos que limpar esses cortes."
- "Ah, obrigado pelo elogio... que fofa." - retrucou ele, sem esconder a ironia - "Mas, convenhamos, não é... não foi nada grave. Nem tá doendo."
Kagome segurou na mão dele e o puxou. Ichiro sentiu as bochechas esquentarem. Tinha certeza que estava vermelho. Tentou disfarçar olhando para o chão.
- "Não seja bobo. Vamos logo cuidar disso. O vilarejo é logo ali."
Achou melhor não discutir. E, por enquanto, andar de mãos dadas com Kagome, mesmo que estivessem em um território desconhecido e perigoso, ele com cortes doloridos por todo o corpo... Aquele momento, ali, a mão fina e macia dela na sua... parecia ser tudo que ele precisava.
Caminharam em silêncio, a brisa tocando em seus rostos de leve.
Quando chegaram na clareira, Shippou e Hatsue encontraram três habitantes de um vilarejo próximo prestando suas homenagens com flores e incensos. Eles fizeram uma reverência respeitosa para ela assim que a viram. Hatsue relembrou-os que, com a ocorrência cada vez mais frequente do fenômeno, não era aconselhável visitas naquele momento.
Sabia que o aviso era em vão. As pessoas simplesmente apreciavam muito o lugar para deixarem de ir. Especialmente quando sabiam que a "luz" nunca fazia mal algum a ninguém.
Mesmo assim, Hatsue apreciou quando se retiraram, fingindo dar ouvidos a seus alertas, prometendo não retornar.
Tão logo foram deixados sozinhos, Shippou se pôs a falar.
- "Hatsue-sama... O que vocês contaram sobre 'pura alma'! Não faz sentido!" - ele gesticulava meio exasperado para surpresa dela - "Ele... ele..."
- "Shippou, do que você está falando?" - interrompeu Hatsue assim que a frase ficou suspensa no ar - "Tudo confere, desde os relatos de Kagome, até o que eu li e ouvi sobre esse tipo de fenômeno. O único 'porém' é que... ficou parado aqui, no nosso mundo dos vivos... Por algum motivo."
- "Hatsue, me escuta!" - disse ele, tomando-a pelos ombros - "Eu sei o que eu vi! Aquele garoto... É idêntico ao Inuyasha."
Aquela era uma das poucas vezes que Shippou tinha deixado de lado o tratamento respeitoso com o qual sempre se dirigia a ela ("sama") e aquilo acendeu uma luzinha de alerta nela... Com certeza ele estava contando algo que acreditava ser muito importante e, especialmente, verdadeiro.
- "Então o que tem aqui..." - disse ela, tentando não corar com o toque das mãos dele em seus ombros - "Mas... Shippou... Eu ainda acho que..."
- "Hatsue. Presta atenção." - chamou ele mais uma vez, olhando fundo nos olhos dela - "Aquele é a reencarnação de Inuyasha. Acredite em mim, por favor... Só dessa vez."
- "Shippou-kun! Quando eu não acreditei em algo que você me disse?" - exclamou ela, se sentindo ligeiramente injustiçada - "É claro que sei que está falando a verdade. Só preciso... pensar..."
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo. Shippou soltou os ombros dela enquanto permanecia alerta. Achava mesmo que tinham demorado a surgirem youkais durante aqueles últimos três dias. Aquele tempo todo tinham dado sorte. O demônio que atacou o tal garoto apareceria, mais cedo ou mais tarde. Junto dele, muitos outros poderiam vir. Fungou mais uma vez. Nada. Por enquanto, estavam seguros. Respirou aliviado.
Hatsue examinava o lugar, assim como ele já a tinha feito fazer tantas vezes. Mas ambos sentiam que as coisas estavam extremamente calmas daquela vez. Era estranho. Algo na energia havia mudado. Mas não necessariamente para pior, não... Não mesmo.
- "Acho que hoje nada acontecerá." - declarou Hatsue, após passar minutos analisando.
- "Sim. Imaginei..." - concordou Shippou, que ainda olhava pros lados, fungando, desconfiado - "Alguma ideia do motivo?"
- "Nenhuma. Precisamos observar Ichiro-san." - planejou ela - "Talvez... só talvez... ele seja a chave para o que está acontecendo aqui."
- "Você já tem uma hipótese, não é?" - Shippou a conhecia bem demais, conhecia aquele olhar de quem estava vasculhando a própria mente em busca de respostas.
- "Não sei se dá pra considerar uma hipótese, Shippou... preciso... observar mais." - ela hesitou um pouco - "E você vai me ajudar."
- "Sempre." - sorriu ele, piscando um dos olhos para ela.
Hatsue sorriu de volta.
Shippou sabia que Kagome tinha razão. Aquele era um desses momentos em que percebia o quanto sua vida só fazia sentido se existisse em conexão com a da jovem sacerdotisa a sua frente. Estava irremediavelmente apaixonado. Sempre soube, na verdade, mas só agora conseguia elaborar para si mesmo com aquelas palavras exatas.
Não sabia se ela sentia o mesmo, muito menos pretendia perguntar. Mas queria estar ao seu lado. Até o - inevitável - fim.
Os dois voltaram ao vilarejo.
- "Você tem certeza de que leva jeito com isso?" - provocou ele - "AI, KAGOME! Isso arde...!"
- "Quer fazer o favor de ficar quieto?" - retrucou ela, umedecendo mais uma gaze com ervas - "Já fiz isso milhões de vezes, você só precisa ficar parado."
- "Ah, agora a culpa é minha... Ai!" - ele se afastou um pouco, o máximo que conseguia sem sentir o impulso de voltar a ficar próximo dela novamente - "Isso dói pra caralho."
- "Sinal que está funcionando." - rebateu ela, colocando o último curativo nas costas dele - "Pronto, viu? Já terminei."
- "Até que enfim..." - provocou Ichiro, mas Kagome soube que ele brincava assim que olhou para o seu rosto de novo. Eles riram baixinho.
Estavam numa casa que havia sido preparada especialmente pra Kagome, assim que ela chegara com Ichiro. O vilarejo a olhou com espanto e curiosidade quando os dois apareceram ali, juntos. Mas a surpresa com as presenças que lhes pareciam bizarras não os impedia de serem solícitos. Tudo o que Kagome havia requisitado chegara rapidamente até ela. Um pouco de água, tecidos limpos, ervas curativas e retalhos da gaze que era produzida ali mesmo. Aos poucos, foi limpando cada machucado e arranhão de Ichiro. Não deixou de recordar-se de quando fizera o mesmo por Inuyasha, tantas outras vezes. Era engraçado ver que a reação dos dois era muito similar. Mas, de acordo com o que ela tinha descoberto até ali, a teoria da reencarnação caíra por terra.
Kagome levantou-se quando alguém bateu à porta para entregar a última coisa que solicitara. Ela agradeceu e tomou um embrulho nas mãos pedindo para ser avisada assim que Shippou e Hatsue retornassem.
- "Prontinho..." - ela se aproximou de Ichiro e entregou o presente a ele - "Agora você vai ter algo decente pra vestir também."
Suas roupas estavam completamente destruídas depois do embate com o youkai, de forma que se viu obrigado a aceitar. Não era exatamente o que ele escolheria para si numa boutique, mas com certeza serviria, pelo menos por enquanto. Ele se ausentou por alguns minutos para se trocar, retornando a tempo de ver Kagome falando com a mulher do vilarejo.
- "Certo." - dizia ela - "Obrigada, Yukiji-chan, por favor diga a eles que preciso de mais alguns minutos."
A mulher se foi, Kagome fechou a porta e quando se virou deu de cara com Ichiro já sentado confortavelmente à mesa, olhando-a como se estivesse analisando-a por inteiro.
Observou-o sorrir de leve - aliás, ele estava sorrindo consideravelmente mais desde que chegara ali - estava com as pernas cruzadas, uma mão apoiando o queixo, parecia esperar que ela desse início a uma conversa. Ou, pelo menos, continuasse alguma das muitas que eles não haviam tido chance de terminar. Apesar de estar muito acostumada a vê-lo nos seus típicos jeans rasgados e camisetas lisas de algodão, tinha que admitir que as roupas tradicionais lhe caíam muito bem. O haori azul escuro, quase preto, parecia tornar seus olhos mais brilhantes. A hakama num tom fechado de cinza o complementava muito bem. Apesar de serem vestimentas simples de aldeões comuns, ainda deixavam Ichiro parecendo uma espécie de príncipe.
Ela sacudiu a cabeça de leve obrigando-se a não se distrair mais.
- "Então... Er..." - começou ela, sem jeito, sentando-se ao lado dele - "Você... Veio mesmo, não é?"
- "Kagome..." - riu ele, brincando novamente com ela - Pensei que você seria mais inteligente para uma sacerdotisa... Que eu estou aqui é óbvio."
- "Ichiro... Acho que você realmente não entende..." - ela faria de tudo para que ele compreendesse o risco que estava correndo - "Esse lugar é perigoso. Você não pode simplesmente chegar do nada, especialmente sem nenhum tipo de preparo."
- "Achei que você tinha começado exatamente assim." - retrucou ele, ainda estava calmo, mas não sabia quanto tempo aquele estado iria durar.
Kagome ergueu uma sobrancelha. Ele claramente não ia dar o braço a torcer assim, tão fácil. Observou Ichiro suspirar e revirar os olhos. Ainda apoiava o queixo em uma mão e a outra batia na madeira da mesa, dedo a dedo, como se estivesse passando o tempo.
- "Você vai embora ainda hoje." - disse ela, tentando usar o tom de voz mais imperativo possível.
Ela viu as sobrancelhas dele se unirem, franzidas, numa expressão que misturava raiva com frustração. Como ela ousava? Depois de todos aqueles dias agonizantes sem notícias era assim que ela o recebia? E pensar que ele se viu forçado a mentir para todos aqueles amiguinhos dela que não saíam do pé dele, incluindo Zhang! Ela tinha alguma ideia do quão difícil ela enganar aquela fedelha?
- "Ichiro? Você não vai dizer nada?"
- "A namorada da raposa fedida disse que eu podia ficar." - rebateu ele, tentando esconder sua irritação.
- "Hatsue?" - riu Kagome - "Bela tentativa a sua, mas... não."
"Ela está testando minha paciência. Não é possível."
- "Ichiro?"
"Essa... Essa ingrata! Deixando a família inteira preocupada! A própria mãe! Souta! Ainda fica me olhando com essa carinha de sonsa... me expulsando!"
- "Oi...? Ichiro?"
"Eu não vou embora, mas nem por decreto. Não sem essa desmiolada embaixo do braço. O que essa garota tem na cabeça? O que EU tenho na cabeça pra gastar meu tempo me importando com a segurança dessa... dessa..."
- "Pelo amor de deus, Ichiro, FALA ALGUMA COISA." - gritou Kagome, batendo na mesa.
- "IDIOTA!" - ralhou ele, respondendo com outra batida na mesa, pelo menos três vezes mais forte que a dela - "Você é mesmo uma desnaturada, Kagome! Como ousa?"
- "Q-quê?" - ela arregalou os olhos e se encolheu um pouco.
- "NÃO! Agora você vai me ouvir!" - continuou ele, sem se intimidar - "Como você acha que foram os últimos dias? Dezessete dias, Kagome! Não podia ao menos fazer a porra de uma escala? Um dia aqui, dois dias lá! Tão fácil! Mas não! Melhor deixar todo mundo morrendo de preocupação e enchendo o saco do babacão aqui."
- "E-eu..."
- "QUIETA! Eu não terminei!" - disse ele, a raiva transparecendo em cada palavra a medida em que falava - "Porque foi esse babaca aqui que teve que aturar seus amigos insuportáveis me interrogando sobre você!"
- "M-me desculpa...?" - Kagome falava com um fiapo de voz enquanto Ichiro ficava mais e mais vermelho de raiva e nervosismo, seus olhos faiscando de mágoa. Ele continuou.
- "Acha que é fácil passar DUAS SEMANAS E MEIA me perguntando se você está bem?" - a raiva na sua voz agora diminuía e dava lugar a um tom de preocupação - Se está machucada? Se... Se está... ao menos..."
- "Ichiro, CALMA!" - ela segurou a mão dele na sua, Ichiro arregalou os olhos, surpreso - "Eu... Eu to bem... veja!"
Antes mesmo que ele pudesse reagir, Kagome tomou a mão dele que estava entre as suas e a pressionou contra seu peito. Só queria acalma-lo. Só queria que ele entendesse que ela não era a menina frágil e desastrada que ele achava que ela era. Seu coração batia forte, estava bem, estava viva. Ichiro precisava sentir isso.
E ele sentia. Sentia as batidas ritmadas sob sua palma, deixando que aquilo o acalmasse segundo a segundo. Sua mente demorou alguns instantes para assimilar, mas ali, no silêncio entre eles dois, foi se deixando levar pela certeza de que ela estava bem.
Kagome estava sã e salva.
Finalmente, olhou nos olhos dela e deixou escapar um suspiro de alívio. Via e sentia sua respiração, como tanto tinha desejado nos últimos tempos. No pescoço fino e macio a artéria pulsava, cheia de vida. A joia que ela sempre carregava reluzia pra ele.
- "Eu sou forte, sabia?" - afirmou ela, afrouxando o toque. Ichiro tirou a mão de seu peito e olhou pra baixo, em silêncio. Suspirou novamente antes de retomar a fala.
- "Eu não tenho dúvidas, Kagome. Eu sei que é." - sua voz agora saía baixinha, quase gentil, mas ainda assim, firme.
- "Eu consigo me cuidar." - enfatizou ela, sorrindo.
- "Eu sei que consegue." - ela parecia não entender, mas iria tentar explicar, mais uma vez. Ele a olhou nos olhos, aproximando-se - "Sempre se virou. Sempre vai se virar... certo?"
- "Isso mesmo. E você..."
- "Eu só... quero ajudar, Kagome. Agora não posso mais evitar, não consigo ir embora. Nem quero." - declarou Ichiro e se antes seu olhar transparecia irritação, agora seus olhos pareciam carinhosos e compreensivos - "Não é porque você sabe se virar que tem que passar por tudo sozinha."
Sem perceber, enquanto falava, ele chegara mais perto dela ao ponto de seus joelhos se encostarem. O silêncio ali fazia com que conseguissem ouvir as respirações um do outro. Eles se encararam, sem nada dizer, porque nada mais havia de ser dito. Kagome sentia que estava emocionada com as palavras dele, mas, estranhamente, as lágrimas não vinham. Seu olhar permanecia distraído, capturado no rosto dele, imerso nas duas orbes lilases brilhantes. Ela sentiu seu coração palpitar, como um passarinho. Ele pegou uma mecha do seu cabelo e a enrolou nos dedos delicadamente. Kagome tinha congelado. Eles já tinham estado fisicamente próximos outras vezes, mas... As coisas estavam diferentes agora. Como se tivessem, cada um, revelado mais uma camada do seu ser, o que os deixava mais expostos, mas também um pouco mais tímidos, mais cautelosos.
Ichiro queria preservar aquele momento. Desde o segundo que a vira sentia uma vontade incontrolável de beijar seus lábios, mas... seria aquela a hora? Não queria apressar as coisas, não queria fazer nada de errado. O que sentia por ela era precioso demais, não podia simplesmente agir como estava acostumado.
Se aproximou um pouco mais, sua mão subiu do cabelo, para o pescoço, e agora ele tocava na bochecha alva e delicada. Fechou os olhos e respirou seu perfume de novo. O mesmo perfume que sentiu no quarto dela aquele dia.
Era a melhor coisa do mundo.
Ele puxou Kagome pela nuca de leve e deixou que seus lábios encostassem na testa dela.
- "Você é muito idiota." - murmurou ele.
Ela tentou falar, mas a voz não saía. Poderia jurar que eles iam se beijar... o que tinha acontecido? Alguma coisa estava segurando ele? Será que tinha confundido seus sentimentos? Tinha se iludido? Mas ele estava ali, não estava? Tinha ido até ali procurar por ela, não tinha?
- "Eu não vou embora sem você. Já disse." - afirmou ele, se afastando. Seu dedo indicador tocou a ponta do nariz dela, brincando, e Kagome soltou uma risadinha nervosa.
Demoraram-se um pouco mais ali, juntos no silêncio confortável que era só deles. Sabia que uma hora teria de se levantar e procurar Hatsue e Shippou - que já tinham chegado, conforme Yukiji avisara minutos antes - mas adiou aquele momento só um pouco mais. Talvez fosse desgastante. Ela sabia que o youkai raposa tinha notado a semelhança de Ichiro com Inuyasha, só não sabia o que exatamente ele pensava sobre isso. Uma teoria excluiria a outra, certo? Sua mente ficou girando em círculos por alguns minutos até que, quando já não se aguentava mais de ansiedade, levantou-se.
- "Preciso falar de um assunto importante com Shippou e Hatsue-sama." - Kagome já se dirigia à porta, mas quando viu que Ichiro fez menção de levantar-se também, completou - "Você fica aqui."
- "Porque?!" - questionou ele, magoado.
- "Porque sim."
Ele bufou impacientemente enquanto a via passar pela porta. Odiava quando ela acionava aquela versão mandona e chata. Sentia uma vontade quase irresistível de fazer exatamente o contrário. Avaliou os riscos. Estavam naquela espécie de vilarejo que parecia organizado e até mesmo, seguro. Que mal faria sair pra dar uma caminhada rápida? Se iam mesmo ficar ali alguns dias então melhor aproveitar e conhecer logo tudo, não é? Quem poderia culpa-lo? Afinal de contas, passar tantos dias imerso nos livros sobre Era Feudal tinha atiçado sua curiosidade por aquela época. Precisava encontrar uma arma também se realmente queria ser útil ali.
Levantou-se de fininho e deu uma espiadinha no lado de fora. Nenhum sinal de Kagome, nem dos amigos dela.
"Perfeito. Ela não vai nem notar..."
Hatsue podia dizer para si mesma que estava mais aliviada com o que tinha visto na clareira. Desde que as agitações pioraram, ela nunca tinha visto o lugar sustentar aquela calmaria por pouco mais de doze horas. O que a preocupava agora, no entanto, era a nova informação que Shippou havia trazido a tona.
Obviamente, acreditava nele. Por mais que fosse uma sacerdotisa treinada desde cedo, ainda existiam muitas coisas que jamais teria como saber. Por isso o papel de Shippou era tão importante para ela e para cada uma de suas antecessoras. Ele era a ponte real com o passado que elas precisavam. Agora, mais do que nunca, com a expectativa de vida diminuindo de geração em geração de sacerdotisas. Seus anos vividos encurtavam à medida em que seu treinamento tornava-se mais rigoroso e eficaz.
Eles chegaram ao vilarejo, entraram e sentaram-se em silêncio. Àquelas alturas, já sabiam que Kagome e Ichiro também estavam ali, pois uma das mulheres veio informar que uma casa separada havia sido arranjada logo ao lado para Kagome-sama tratar os ferimentos do humano. Shippou e Hatsue aguardavam pacientemente que o retorno dela. Hatsue sentia-se nervosa. Tinha compartilhado suas maiores inseguranças com Kagome e, em resposta, não recebera confiança suficiente para saber da existência daquela possível reencarnação. Porque?
Estava bebericando lentamente seu chá de hortelã quando alguém lá fora anunciou a entrada de Kagome que, ainda bem, tinha ido vê-la desacompanhada.
- "Hatsue, Shippou..." - cumprimentou ela, sentando-se rapidamente.
- "Kagome-sama... Como está nosso convidado?" - Hatsue apoiou sua xícara na mesa a sua frente.
- "Bem, obrigada por se preocupar... Por sorte, foram apenas arranhões." - ela sentia que a sacerdotisa estava incomodada com algo - "Eu requisitei a cabana aqui ao lado, para que ele possa passar a noite."
- "Vai ficar apenas um dia?" - perguntou ela, ainda evitando encarar Kagome nos olhos.
- "Gostaria que sim. Porém ele se recusa. Quer nos ajudar."
Hatsue pegou a xícara novamente e bebericou o chá enquanto refletia.
Kagome observou Shippou olhando para os lados nervosamente. Definitivamente eles tinham conversado sobre Ichiro. Ela não tinha percebido o quão rápido descartara a hipótese inicial quando elas falaram sobre a pura alma aprisionada na clareira. Não era preciso ser gênio para ler aquele ambiente. Estavam repensando.
E se estavam repensando é porque havia uma chance.
- "Sei o que estão pensando." - começou ela - "Também achei a mesma coisa quando o vi pela primeira vez..."
- "Kagome, para mim... não há dúvidas." - acrescentou Shipppou.
- "Entendo..." - ela olhou dele para Hatsue - "Vocês tem tanta certeza assim? Isso nos colocaria de volta a estaca zero."
"Não necessariamente." Pensou Hatsue. Mas ainda não era a hora de dividir aquela possibilidade com eles. Ainda era muita loucura... muito improvável.
- "Devemos explorar todas as hipóteses, Kagome-sama. Está claro que se trata de um caso nunca antes visto... mesmo que nossa primeira conclusão se confirme."
- "Ele é idêntico a Inuyasha." - dizia Shippou - "Até os cheiros são parecidos. Não são iguais, claro... ele é humano... mas..."
Ele deixou a frase suspensa no ar.
Kagome culpou-se um pouco. Deixar Ichiro de fora daquela equação não tinha sido seu movimento mais sábio até ali. Ela tinha certeza que tinha chateado Hatsue, ou pior, decepcionado-a. Sua vinda tinha tudo a ver com trazer informações e soluções, mas deixou que seus sentimentos interferissem no processo.
- "Peço desculpas, Shippou, Hatsue-sama..." - Kagome inclinou a cabeça pra frente em sinal de respeito.
- "Kagome-sama!" - Hatsue desfez a postura mais fria em questão de milésimos de segundos, as mãos indo para os ombros de Kagome, obrigando-a a reerguer-se - Pare com isso!"
- "Sinto muito... não sou tão sábia e experiente assim como vocês pensam..." - ela encarou Hatsue que sustentava uma expressão gentil e compreensiva no rosto - "Estive tantos anos sem enfrentar nada do tipo... Não tive o seu treinamento, Hatsue-sama."
- "Kagome-sama... Está tudo bem... Vamos resolver isso juntos! Certo, Shippou-kun?"
Mas quando as duas olharam para o ponto em que Shippou estivera sentado aquele tempo todo, não viram ninguém ali.
O youkai já estava de pé, alguns passos a frente, perto da porta, seu nariz sentindo dois cheiros familiares que ele conhecia muito bem.
- "Sesshomarou e Rin." - afirmou ele, sem se virar para as sacerdotisas.
Kagome ficou em alerta e agradeceu a si mesma por ter pedido a Ichiro que ficasse na cabana. Sesshomarou provavelmente não ia deixar passar o fato dele ser uma cópia do irmão mais novo... o que ele iria pensar? Kagome sabia que ele tinha sido de grande ajuda para destruir Naraku, mas até onde ia essa boa vontade? Em que termos tinha findado sua relação com Inuyasha?
Não fazia ideia e isso a deixava em pânico.
- "Kagome-sama." - a voz de Hatsue a despertou. Elas se apressaram e saíram dali, logo atrás de Shippou.
O vilarejo não se sentia exatamente à vontade com a presença de Sesshomarou, mas, graças as histórias que tinham passado de geração em geração sobre Inuyasha, ninguém ali se sentia verdadeiramente ameaçado. Sabiam da relação de Sesshomarou e Rin, possivelmente achavam que o fato de conviver com uma humana o tornava inofensivo. Mas Kagome sempre tivera suas desconfianças. Não o achava um youkai essencialmente mal, mas Sesshomarou era do tipo que agia apenas de acordo com seus próprios interesses. Sendo assim, ela só tinha que torcer para que seus objetivos fossem, se não os mesmos, ao menos similares.
Ela só esperava que aquele segundo encontro fosse menos tenso do que o anterior.
Pensava no quanto Kagome ia ficar surpresa. Esperava que positivamente, claro.
As pessoas ali eram simpáticas, o clima estava ameno. Era época de colheita, pelo que ele pode perceber ao observar os campos. Sabia que, para aquelas pessoas, isso fazia uma grande diferença no bom humor.
Pela forma como trataram Kagome e, consequentemente ele, suspeitava que ela era extremamente respeitada ali. Tinha lido muito sobre a relação dos vilarejos com suas sacerdotisas. Kagome parecia ser poderosa. Havia derrotado aquele grande youkai, disseram os habitantes com quem conversara nos últimos minutos. Com apenas uma flecha. Guardiã da Joia de Quatro Almas. A sacerdotisa que viaja pelo poço.
Não só ela era admirada, seus amigos também. Seu ex-namorado - se é que pode ser considerado assim - era um dos nomes que mais se repetiam entre os habitantes. Ele tentou esconder seus ciúmes para que ninguém se sentisse intimidado o suficiente para deixar de lhe contar algo. Funcionara.
Mas não sabia quanto ia durar aquela conversa de Kagome com a raposa e sua namoradinha, então tinha que ser rápido. Com um pouco mais de esforço, negociou a aquisição de uma bakken velha e desgastada, mas que já seria alguma coisa. Não queria ser pego de surpresa novamente, precisava de algo fácil e acessível com que pudesse se defender. E se uma espada de madeira velha era tudo que iam disponibilizar para ele, então que fosse.
Já fazia o caminho de volta, ia entrar pelos fundos da cabana, quando ouviu a voz que ele julgou ser da sacerdotisa a quem chamavam Hatsue.
- "As coisas estão mais calmas hoje." - não deixou de notar que o tom dela parecia menos simpático e mais passivo agressivo - "Não entendo a finalidade da presença de vocês aqui."
Seguiu a voz e não precisou dar muitos passos adiante para ver cinco pessoas conversando. Apressou-se e encontrou um lugar pra se esconder, encolheu-se encostando-se na parede de uma das cabanas, atrás de um monte de caixas com mantimentos.
Kagome estava lá. A raposinha e sua namoradinha sacerdotisa ele já conhecia. Mas quem era aquela menina de kimono branco? Mal dava para enxergar seu rosto, a raposa estava próximo dela em um ângulo que o impedia de ter uma visão clara... Havia ainda um quinto sujeito, mais afastado de todos, atrás da garota cujo rosto ele não conseguia ver.
- "Hatsue-sama, viemos pedir desculpas por ontem." - ele viu a garota no kimono branco aproximar-se, sem se intimidar com o tom nada amigável da outra garota - "Quero reforçar que eu e Sesshomarou-sama vamos fazer o possível para ajudar vocês... no que quer que seja."
Tão logo a garota aproximou-se de Hatsue, seu rosto tornou-se visível. E Ichiro começou a achar que estava imaginando coisas.
Ela parecia exatamente com Zhang.
Mesmo surpreso, tentou retomar seu foco para a conversa entre o grupo, Hatsue estava de costas para ele, assim como Kagome e Shippou. Poderia jurar que Hatsue não se sentia confortável com aquela conversa. Levara as duas mãos às costas, apertava uma na outra nervosamente ao ponto dos nós dos dedos ficarem esbranquiçados.
Seus olhos repousaram novamente em Kagome. Tentou ler o que ela pensava da situação, mas sua linguagem corporal fazia com que ela parecesse... neutra? Alerta, porém neutra.
- "Não vai ser necessário." - respondeu Hatsue - "Estamos bem perto de obter uma resposta."
Ele sentiu o olhar do outro sujeito - que agora calculava que poderia ser um youkai, assim como a raposa - repousar sobre o ponto em que ele se escondia. De repente, seu corpo todo entrou em alerta. Aquele cara não estava vendo ele, certo? Sabia que estava devidamente escondido, pois conseguia assistir a cena apenas pela brecha entre duas caixas cheias de maçãs. Deu uma dupla checada para conferir se alguma parte de seu corpo tinha ficado à mostra, mas ele estava totalmente encolhido ali.
Ainda assim, não deixou-se enganar, o youkai parecia saber muito bem para onde estava olhando.
Engoliu em seco. Mas não permitiu que o nervosismo tomasse conta.
- "Chamaremos vocês assim que tivermos novas informações." - reforçou Hatsue.
- "Espere." - ele viu Kagome dar dois passos à frente - "Sesshomarou... o que pretende com isso?"
O clima entre eles pareceu alterar-se. Para pior.
Aquele youkai era difícil de ler, mesmo para Ichiro que estava com uma visão clara de seu rosto. Por isso mesmo, conseguia dizer o momento exato em que parou de ser observado por ele. O rosto do youkai virou-se lentamente para Kagome. O olhar acompanhou em seguida.
- "Vocês estão escondendo esse humano terrivelmente mal." - decretou, para surpresa de Ichiro - "Sinto o cheiro imundo dele de muito longe."
Kagome apenas ignorou o que ele disse. A garota igual a Zhang parecia decepcionada com algo. Kagome passou por ela, dando mais alguns passos à frente até ficar bem próxima do youkai.
- "Se você não tiver nenhum interesse nisso, sei que não vai nos ajudar." - disse ela, o tom de voz firme, sem hesitação.
O youkai pareceu ponderar por alguns instantes, custou alguns segundos a responder. Seus movimentos eram mínimos, quase calculados; dada a distância e a pouca amplitude que Ichiro tinha de visão, era quase impossível subentender algo das intenções dele.
- "Essa escolha não é sua." - disse ele, por fim. Ichiro não sentiu ameaça, nem raiva em sua voz.
Mas sabia que, por algum motivo, Kagome ainda se mantinha desconfiada.
- "Pense bem antes de me desafiar, Sesshomarou. Sou grata por ter nos ajudado com Naraku, mas te lacraria por mil anos em um piscar de olhos caso fosse necessário."
Houve um silêncio constrangedor no ar e Ichiro sentiu nas reações de todas as outras pessoas que Kagome não estava apenas falando por falar. Ela podia e ela iria fazer isso, se pensasse ser o certo. Ninguém falou nada até que o youkai suspirou impaciente, os lábios formando um sorriso discreto e satisfeito.
- "Aí está..." - contemplou ele, os lábios deixando escapar uma risada leve, impossível saber se era um deboche ou não - "A humana por quem meu irmão idiota perdeu a vida."
"Irmão?!"
Ichiro parou por alguns instantes, sua mente a mil. Aquele cara só poderia estar se referindo a um youkai... Inuyasha. Ele tinha dado a vida por Kagome?
Algo dentro de Ichiro afirmava que sim, muito embora ele não tivesse como saber.
Sentiu-se estranho. Sua cabeça pareceu pesar enquanto ele ouvia sombras de memórias brotando dentro de si. De todos os lugares e situações em que poderia estar aquele definitivamente não era o contexto em que ele imaginaria ter um deja vu.
Balançou a cabeça rápido para retomar o foco.
- "Já chega, Sesshomarou." - cortou a garota que o acompanhava.
Ele observou a menina alcançar Kagome. Suas mãos tomaram as dela, talvez para demonstrar confiança; talvez para ajudar a diluir o clima tenso entre Kagome e o youkai.
- "Kagome, tenho certeza que Sesshomarou-sama tem seus próprios... métodos... para lidar com isso." - ela pareceu engolir em seco - "Estamos em busca das mesmas soluções que vocês. Nossos interesses estão alinhados, isso é o que importa."
Kagome não respondeu. O youkai virou-se de costas. Estava indo embora.
- "Não posso ficar aqui com vocês, conforme Hatsue-sama deve ter explicado a você ontem." - a menina retomou a palavra, na ausência de respostas de Kagome - "Mas se precisarem de ajuda, nós viremos."
Ele viu quando Kagome fez um sinal afirmativo com a cabeça. A menina cumprimentou em silêncio Hatsue e Shippou antes de correr para alcançar o youkai que já estava alguns metros adiante.
Ichiro ia esperar alguns instantes até sair de seu esconderijo, mas Shippou, que esteve de costas o tempo inteiro, virou-se para o ponto em que ele estava.
- "Você já pode sair..." - assegurou a raposa.
- "Não que se esconder aí tenha adiantado de muita coisa." - completou Kagome, um desagrado residual das interações prévias ainda presente em sua voz.
Ele levantou-se, devagar e se aproximou do grupo. A tensão entre eles era latente e os poucos moradores da vila que ali transitavam pareciam alheios a ela.
Kagome balançou a cabeça de um lado para o outro.
- "Eu te pedi pra ficar onde estava." - disse ela. Para alívio dele, sua voz parecia levemente decepcionada, mas não irritada.
- "Não ia fazer diferença, Kagome." - interrompeu Shippou, antes que ele pudesse se defender - "Sesshomarou já sabia da presença dele aqui a quilômetros de distância."
- "Bem, isso não importa agora." - complementou Hatsue. Ichiro percebeu que ela tinha se mantido calada por minutos a fio até aquele momento.
Kagome soltou um suspiro resignado. O olhar dela foi do rosto de Ichiro para a bakken que ele trazia presa à cintura. Ela deu uma risada ao perceber.
- "Vejo que já deve ter feito amizades aqui... Para ter conseguido encontrar isso."
- "Heh, bem..." - ele ergueu uma sobrancelha - "Qualquer coisa é melhor do que não ter nada pra me defender e passar pela humilhação de ser resgatado por você de novo."
Shippou conteve uma risada enquanto Kagome revirou os olhos.
Finalmente a tensão no ar tinha se dissipado um pouco.
Hatsue ainda se mantinha mais quieta. Ichiro chegou à conclusão de que ela era uma pessoa mais introspectiva. Ou talvez não gostasse muito de ser visitada por aqueles outros dois. De qualquer forma, ele ainda estava curioso e esperava fazer mais perguntas, especialmente com relação à garota que achara idêntica a Zhang.
- "Acho que... temos uma conversa para concluir, Kagome-sama." - disse Hatsue, seu tom de voz finalmente parecia mais tranquilo, menos contido.
- "Claro, vamos." - respondeu Kagome, em seguida voltando-se para ele dois - "Porque não passam um tempo juntos enquanto isso?"
Ichiro não achou má ideia. Assentiu para Kagome enquanto ela se afastava com a sacerdotisa. Talvez aquela fosse mais uma chance de extrair alguma informação útil. Ele tinha inúmeras perguntas. Não sabia se Kagome estava disposta a responder a todas elas, mas desconfiava que talvez aquele youkai fosse um pouco mais suscetível.
Esperava estar certo.
Kagome não tinha expectativas que Hatsue fosse superar sua antipatia por Rin só porque havia desabafado com ela sobre como se sentia. Sabia que não funcionava assim. Ela própria não conseguia afirmar com certeza se confiava na menina, ou se o fato de andar na companhia de Sesshomarou a tornava tão volúvel e inconstante quanto ele.
Fato é que sua intuição seria sua maior aliada na hora de fazer esse tipo de julgamento. E, pelo toque das mãos de Rin e o brilho nos olhos dela, Kagome não se sentia ameaçada.
Talvez Sesshomarou realmente estivesse do lado delas. Isto é, se ele tinha alguma noção do quanto as instabilidades no Poço Come-Ossos eram graves - e ela suspeitava que ele sabia disso - então estava tão interessado em impedir o fim do mundo quanto eles.
Como a conversa entre elas e Shippou ficara suspensa no ar, agora ambas hesitavam em retomar o assunto. Caminhavam lado a lado, aproximando-se dos campos de colheita do vilarejo. Ao longe, os agricultores trabalhavam com seus cestos de palha. Um cheiro suave de trigo ia e vinha de acordo com a direção do vento. Elas podiam ouvir alguns pássaros cantando e o som de crianças brincando por perto.
Foi Hatsue quem rompeu o silêncio.
- "Precisamos saber o que você realmente pensa disso tudo." - disse ela, as mãos unidas uma na outra a sua frente, ela encarava o horizonte.
Kagome ponderou antes de responder. Será que era possível deixar seus sentimentos de lado e realmente dar uma opinião imparcial? Ela duvidava. Respirou fundo antes de começar.
Se iriam chegar naquele assunto, ela precisaria falar do início.
- "Passei anos tentando esquecer o que vivi aqui, ou pelo menos, parte do que vivi. Doeu demais perder... ele..." - Kagome hesitou.
Ela precisou de um instante para organizar os pensamentos. Hatsue manteve-se em silêncio, dando a ela o tempo que fosse necessário para retomar.
- "Acredita que quando eu percebi que youkais estavam chegando na minha Era eu até fiquei... bem, não feliz, mas... a perspectiva de voltar aqui me animou. Isto é, até eu chegar e ver quantos anos tinham se passado... Até então, eu tinha feito progresso, sabe? Conquistei algumas coisas por mim mesma. Reaprendi a sorrir. É claro que a falta dele sempre fará parte de mim, mas, de alguma forma, deixei Inuyasha guardado em algum lugar especial... de saudade, nostalgia, amor... Ou tudo isso junto, talvez. De qualquer forma, consegui fazer com que as lembranças que tenho dele não me impedissem de viver, porque sei que esquece-lo é impossível. E mesmo que fosse possível... não sei se eu iria querer."
Ela deixou que o peso das palavras se dissolvesse no ar. E continuou.
- "Fiz novos amigos também. Você e Shippou iriam gostar de conhece-los."
Hatsue sorriu. Olhou para Kagome pela primeira vez desde que começaram a caminhar juntas.
- "Tenho certeza que sim."
Kagome sorriu de volta.
- "Eu lutei comigo mesma desde o primeiro momento em que vi Ichiro. Não sabia o que pensar. A semelhança era óbvia. De alguma forma, sinto que algo em mim também o atrai... Longe de mim querer afirmar algo ou..."
- "Ele te ama, Kagome-sama." - interrompeu Hatsue, sua voz exalava certeza - "Sei pelo jeito que ele te olha. E quando ele abre a boca, só reforça o que os olhos já dizem em silêncio."
O coração de Kagome acelerou. Sua barriga deu um giro em si mesma. Era difícil não se deslumbrar com aquelas palavras. Gostaria muito que Hatsue estivesse certa. Sabia que seu carinho por Ichiro se intensificava dia após dia.
Tentou não se distrair com esses pensamentos e voltar ao cerne da conversa entre as duas.
- "De qualquer forma, eu acho difícil te dar uma opinião com relação a possibilidade dele ser ou não a reencarnação de Inuyasha. É o tipo de coisa que não dá pra saber com certeza. Existe muito pouco que se possa fazer pra comprovar esse tipo de hipótese."
- "Bem... a não ser que alguma bruxa malvada resolvesse reviver o hanyou de alguma forma bizarra..." - brincou Hatsue.
Kagome soltou uma risada baixa.
- "Nem pensar."
- "Nem pensar." - concordou ela, também rindo.
As duas contemplaram o horizonte por mais alguns instantes.
- "Acho que você vai ter que responder essa pergunta da mesma forma que tem respondido todas as outras que fizemos até aqui..." - a voz de Hatsue era calma e tranquila, ela pôs uma das mãos no coração quando terminou de falar. Seu olhar sustentava o de Kagome.
"Intuição."
Elas sempre voltavam a esse ponto.
Mas Kagome ainda sentia-se perdida.
- "O que faremos se Inuyasha tiver reencarnado em Ichiro?" - perguntou ela.
- "Não acha importante levarmos ele lá?" - respondeu Hatsue com outra pergunta, ela parecia pensar conforme falava, o raciocínio se construindo a medida em que novas perguntas surgiam - "Não acha que deveria contar a ele? Ou talvez... Isso só piore as coisas. Talvez..."
- "Talvez ele mesmo tenha que descobrir. Não sei... Preciso conversar mais com ele."
Hatsue inspirou profundamente. Uma das suas mãos encostou no ombro de Kagome, consolando-a.
- "Kagome-sama, você é quem nos guia nessa jornada. Agora que temos todas as variáveis, acho que você deve se sentir livre para agir como achar mais prudente..." - ela percebeu que Kagome iria interrompe-la certamente com mais um ataque de humildade - "Não, não, nada disso. Eu sei o que você vai dizer. Não se acha tão experiente, mesmo sendo a sacerdotisa mais poderosa de todo o Japão. Isso não importa. Mesmo que erremos a resposta uma vez ou duas... A verdade vai aparecer."
Kagome a olhou com admiração. Era impressionante como uma menina tão jovem podia ser tão sábia. É verdade, ela não tinha Kaede, ela liderava a equipe agora e não tinha uma pessoa mais velha a quem recorrer. Mas Hatsue era a melhor companhia que ela poderia ter desejado.
- "Tenho medo, Hatsue..." - confessou Kagome - "De não termos mais tempo."
Hatsue balançou a cabeça de um lado para o outro, como se esse movimento fosse o suficiente para dissipar os medos e dúvidas dela.
- "O que quer que esteja lá esperando vai encontrar seu destino muito em breve."
- "O que te faz ter tanta certeza?" - perguntou Kagome, curiosa.
Hatsue sorriu. Sua mão tocou novamente o próprio peito, no lugar onde ficava o coração, imitando o mesmo gesto que ela havia feito instantes antes.
- "Eu simplesmente... sinto." - respondeu ela.
Podia parecer clichê, mas era a verdade.
Sacerdotisas eram guiadas por força espiritual e intuição. Não haviam certezas, nem naquela Era, nem na sua. Tudo o que restavam eram esses sentimentos que afloravam em horas oportunas ou não. Esses impulsos do âmago do ser que geralmente sinalizavam alguma coisa importante. Como saber se era a pura alma de Inuyasha causando desequilíbrio energético? Ou se na verdade se tratava de outra coisa, pois a alma dele estava em Ichiro? Se sim, que coisa seria essa e como ela faria para descobrir? Contar a Ichiro das suas suspeitas seria melhor? Seria pior? Influenciaria o comportamento dele quando o ideal seria que se mantivesse imparcial?
As perguntas eram tantas que a deixavam atordoada.
Kagome torcia para descobrir por onde começar eventualmente.
Shippou deixou a amiga mais próxima de Hatsue - a mulher chamada Yukiji - avisada de que eles iriam sair para uma caminhada rápida. Ichiro perguntara a ele onde era a fonte de água corrente mais próxima e assim eles começaram a andar na direção do lago onde Shippou e Kagome haviam conversado dois dias antes.
Ichiro manuseava a bakken, cortando o ar e tentando recuperar a memória muscular de seus reflexos. Tentaria iniciar conversa com o youkai, mas tomaria cuidado para não parecer que estava curioso demais com relação a algum assunto específico. Queria que ele pensasse que estavam apenas jogando conversa fora. Esperava que assim ele fosse mais suscetível a revelar informações importantes.
Afinal, não tinha tido muito tempo para conversar com Kagome. E suspeitava que, pelo jeito dela, algumas coisas não seriam ditas. Ela agia de uma forma protetora com relação a ele, o que o incomodava um pouco. Não que visse algum problema real em ser salvo por ela, mas não era para isso que ele tinha ido a seu encontro. Queria que Kagome deixasse de vê-lo como mais uma pessoa para cuidar. Queria ele mesmo assumir esse papel. Por mais que ela não desse o braço a torcer, era o que estava precisando.
Era simplesmente demais para lidar sozinha. Ele gostaria que ela dividisse o fardo.
Ele se perguntou como estaria a cabeça dela... 105 anos, Hatsue disse. Isso significava que praticamente todas as pessoas com quem ela convivera ali três anos antes estavam mortas. E ela ainda insistia em fazer tudo sozinha.
"Garota teimosa."
- "Então... Estamos bem perto..." - Shippou cortou seus pensamentos.
Ichiro entendeu pela pausa da frase que o youkai estava tentando perguntar de que forma ele gostaria de ser chamado.
Achou a atitude respeitosa. Quem diria que demônios podiam ser tão bem educados.
- "Ichiro. Só... Ichiro." - julgou que não fazia nenhum sentido dizer seu sobrenome naquele contexto.
- "Ichiro-san...?" - respondeu a raposa, hesitante.
- "Só Ichiro. Já disse."
Pela visão periférica ele viu quando o youkai assentiu, timidamente. Sabia que tinha soado um tanto impaciente, por isso achou por bem retomar a conversa e quebrar o gelo.
Os dois chegaram nas margens do rio. A água era fresca e tão transparente que dava pra ver a vegetação aquática que crescia no fundo. A outra margem não continuava com a planície, ao invés disso uma série de rochedos uns sobre os outros se erguia a frente deles.
Era lindo... era calmo.
Eles se sentaram na grama quase que ao mesmo tempo. Ichiro esticou as pernas e jogou o tronco para trás, apoiando as palmas das mãos no chão. Shippou cruzara as pernas.
- "Esse lugar é bem mais entediante do que eu achava que seria." - começou Ichiro.
Shippou ergueu uma sobrancelha.
- "Bem... você não parecia nada entediado quando te encontramos hoje mais cedo." - provocou.
Ichiro adorou. Soltou uma risada seca.
- "Suponho que você está certo... Mas agora, olhando essa paisagem... Parece até que nada acontece por aqui."
Foi a vez de Shippou soltar uma risada meio irônica. Se Ichiro soubesse o tanto de movimentação que aqueles arredores já tinham presenciado...
Se sentindo mais à vontade, ele puxou conversa com o humano.
- "Como você e Kagome se conheceram?"
- "Estudamos juntos. Quer dizer... não juntos, juntos. Estudamos coisas diferentes, mas... no mesmo local. Ela é uma das melhores amigas da minha irmã mais nova também."
- "Legal..." - Shippou catou uma pedrinha achatada e jogou ela na água, vendo-a quicar três vezes antes de afundar - "Você só tem uma irmã?"
- "Sim, apenas ela. Zhang." - ele imitou o youkai e também encontrou uma pedrinha com a qual pudesse brincar - "Somos irmãos... por parte de pai."
- "Entendo..."
Ichiro esperou alguns instantes por mais perguntas, mas Shippou deixara o assunto morrer ali. Não tinha escolhido mencionar Zhang a toa. Esperava chegar na pergunta que estava querendo fazer desde que viu aquela menina de kimono branco a pouco.
- "Sabe... Aquela garota e o youkai que estava com ela... Quem são?" - questionou, tentando não ir tão direto ao ponto.
- "Ah... Sesshoumarou e Rin." - respondeu Shippou descruzando as pernas e esticando-as, na mesma posição que Ichiro estava - "Ele é o irmão mais velho de um... amigo meu. Bem... meio irmão também, por parte de pai. Rin é uma menina que ele supostamente salvou. Eles vivem juntos."
- "Legal." - Ichiro não conseguiu pensar em nada melhor para dizer. Sua mente confirmando a suspeita de que Sesshomarou era, de fato, meio irmão de Inuyasha.
Shippou soltou uma risada. Dessa vez, a ironia estava claramente ali.
- "O que foi? Ele não é legal?" - perguntou Ichiro olhando pra Shippou que ergueu as duas sobrancelhas e balançou a cabeça de um lado para o outro - "Bem, eu percebi que ele não é o cara mais simpático do mundo, claro, mas..."
- "Nunca dá pra saber quando Sesshomarou vai ser 'legal'. Esse é o problema. Ele sabe que estamos tentando buscar uma solução para os youkais que estão atravessando o Poço. Mas não tem ajudado muito. E..."
Shippou hesitou. Como se tivesse acabado de se dar conta que falara demais.
Chegou a conclusão que tinha que fazer mais perguntas a Ichiro antes de prosseguir. Não sabia ao certo a extensão do conhecimento dele, o que Kagome havia contado? Teria omitido alguma parte?
- "Kagome te disse o que veio fazer aqui, não disse?" - perguntou ele, antes que Ichiro pudesse reagir.
- "Claro. Ela me salvou de um youkai dias atrás. Teve que me contar tudo depois disso." - ele fez uma pausa, recordando-se da quantidade de coisas que tinham acontecido nos últimos dias - "Sei sobre seus amigos... Inuyasha, Sango e Miroku, certo?"
Shippou assentiu. Então ele sabia sobre Inuyasha, embora aparentemente não soubesse muita coisa. Continuou em silêncio.
- "Ela me falou sobre essa coisa toda das sacerdotisas." - Ichiro retomou a conversa - "Falou de uma delas que se chamava... como era mesmo o nome... Kiyo..."
- "Kikyou?"
- "Isso! Isso mesmo... Kagome acredita que é a reencarnação dessa mulher, de alguma forma... Eu acho meio absurdo, mas bem... Acabei de ser perseguido por um verme gigante. Isso seria o de menos."
Shippou riu. Ichiro era cético. Mas aparentemente sua afeição por Kagome deixava o ceticismo esquecido de lado. Ele concluiu que era seguro falar um pouco mais.
- "Seria horrível se mais youkais conseguissem chegar na sua Era. Estamos tentando evitar o pior. Hatsue-sama estuda o fenômeno desde que nasceu. Outras sacerdotisas fizeram o mesmo antes dela, sem muito sucesso... Mas agora, com Kagome de volta, talvez a gente consiga... Não sei."
Ichiro tentou pensar numa forma de voltar o assunto para onde ele queria. Tinham divagado demais àquelas alturas. Mas ele achava que tinha sido necessário para ganhar alguma confiança da raposa.
- "Então... todas essas sacerdotisas eram... reencarnações de alguém?"
- "Ah, não, não... Não necessariamente. Kagome e Kikyou são um caso específico."
- "Porque a Kikyou pediu para reencarnar e encontrar o Inuyasha de novo... certo?"
- "Isso..."
- "Bem... Shippou é o seu nome, não é, fedelho?"
Ele viu o youkai assentir com a cabeça positivamente.
- "Então, Shippou... Aquela garota, a... Rin, não é mesmo? Engraçado que... ela parece muito com a minha irmã, mas... Ah, suponho que seja apenas coincidência, certo?"
Shippou deu de ombros. Não considerava aquela possibilidade importante.
- "Talvez sim, talvez não..." - ponderou ele - "Não é assim que acontece às vezes? Pessoas conhecidas acabam reencarnando próximas nas vidas seguintes. Não é incomum."
- "Claro, claro..."
Ichiro inesperadamente lembrou-se de uma conversa que tivera com Zhang, um pouco antes de descobrir tudo. Ele estava pressionando ela por informações, pois tinha ouvido Kagome chamar pelo nome de Inuyasha enquanto dormia. Sua curiosidade não o deixara ficar quieto na época. Procurara por rastros desse nome em todos os lugares, mas depois ficou óbvio porque jamais iria encontrar nada. Não sabia nem ao menos como era o cara.
Mas.. Zhang sim... Não é?
Nunca chegara a ver uma foto de Inuyasha, mas ela tinha visto. E ela tinha afirmado que eles eram parecidos.
Uma hipótese muito maluca começava a se formar em sua mente. Uma hipótese maluca demais para prender a atenção dele.
Algo em seu peito começara a a formigar. Ele lembrou-se da sensação de pertencimento que estava sentindo desde que chegara ali. Tinha viajado o mundo inteiro, mas nunca se sentira assim antes, em nenhum outro lugar. Não sabia se só estava deslumbrado depois de ter tido uma crise de nervos antes de se atirar no poço impetuosamente... Certamente poderia ter ser isso. Talvez ali, em contato com a natureza, ele encontrara uma calma inexplicável depois de um momento de pânico.
Era por isso que sentia toda aquela familiaridade?
Ou tinha outra razão?
- "Acho que deveríamos voltar agora." - falou Shippou levantando-se - "Agora que sabe o caminho pode vir aqui mais tarde banhar-se caso precise. É só... manter-se atento a qualquer aproximação suspeita."
- "Claro. Acho que demos tempo suficiente para elas conversarem."
Deixaram o lugar rapidamente.
A sensação dentro do peito de Ichiro crescia cada vez mais.
Já entardecia quando Kagome, Ichiro, Hatsue e Shippou se encontraram novamente.
O jantar iria ser farto, a colheita do vilarejo ia melhor do que nunca, apesar de todas as atribulações. Hatsue conversara com algumas pessoas próximas e organizara uma refeição especial para eles. Achava que ainda não tinham dado as boas vindas apropriadamente para Ichiro. Sem falar que depois de dias tão intensos e cheios de informação, pensou que sentar e comer juntos sem preocupações seria o ideal. Após tudo preparado, combinou com Kagome que concordou sem demora.
Estavam famintos e só perceberam isso quando colocaram os primeiros pedaços de comida na boca. Uma chuva leve começara a cair lá fora, o cheiro de verde misturado aos incensos de Hatsue tornavam o aroma do ambiente ainda mais agradável. Kagome estava sentada ao lado de Ichiro. A frente dele estava Shippou e ao seu lado Hatsue. Ela observou a sacerdotisa oferecer um pouco mais de sopa a ele. Shippou parecia se tornar bem mais introspectivo e tímido quando estavam juntos. Se Hatsue se aproximasse dele um pouco mais, as bochechas coravam quase que imediatamente. Era muito fofo de assistir. Ela percebeu com a visão periférica que Ichiro também notara a mesma coisa. Virou-se para ele a tempo de ver os últimos segundos do sorrisinho de canto de boca estampado em seu rosto.
Seus olhares se encontraram. Ela também sorriu.
Ao final, agradeceram a Hatsue pela hospitalidade. Kagome e Hatsue iam dormir juntas na casa dessa última, enquanto Ichiro iria para a cabana que havia sido preparada para tratar seus ferimentos. Mas antes que pudesse se retirar, Kagome sentiu alguém segurar sua mão.
Era ele.
Um arrepio percorreu sua espinha quando Ichiro se aproximou de seu rosto e sussurrou perigosamente perto do seu pescoço.
- "Você ainda não me mostrou o vilarejo, que péssima anfitriã."
Ela viu Shippou e Hatsue saírem pela porta enquanto conversavam sobre alguma outra coisa. Eles também estavam entretidos demais consigo mesmos para nota-los ali.
Kagome virou-se de frente para Ichiro rapidamente, tentando deixar seu pescoço o mais distante possível da respiração dele.
- "Er... Mas pensei que... você já tinha perambulado por toda parte aqui... quando me desobedeceu depois que eu pedi pra você ficar na cabana, lembra?"
Ele ainda segurava a sua mão com firmeza. Viu a sobrancelha dele erguer-se e um sorriso discreto começou a se formar em seus lábios.
- "Você não manda em mim, Kagome." - debochou ele, se aproximando um pouco mais dela sem nem perceber.
- "Isso eu já notei..." - ela não sabia ao certo se Ichiro estava se inclinando de propósito ou não, mas pensou que a única forma de contornar isso seria atendendo ao pedido dele.
Soltou seu pulso da mão dele para em seguida puxa-lo pela manga da roupa murmurando um "vamos" tímido.
Ichiro olhava o cabelo dela dançar conforme andava a sua frente e pensava como era divertido deixa-la sem jeito. A desvantagem era que ele não ficava nada calmo nessa situação. Sentia o peito explodir quando chegava perto dela.
Ele andou um passo mais rápido e ficou ao seu lado. Ela o olhou pelo canto do olho, dava pra ver que estava sorrindo. Ichiro levou as mãos à nuca, espreguiçando-se de leve.
Não pretendia ir muito longe, até por uma questão de segurança, já que a Joia de Quatro Almas estava permanentemente pendurada em seu pescoço. O vilarejo apagava suas luzes devagar. Todos se preparavam para dormir muito cedo e acordar mais cedo ainda.
Mas Kagome não sentia sono. E podia jurar que Ichiro também não.
Eles circularam as casas, admirando o céu apinhado de estrelas que nunca tinham visto antes. Estavam em silêncio a alguns minutos, mas, como Kagome já sabia, o silêncio entre eles era o oposto de constrangedor.
- "Será que quando retornarmos já vai ter se passado muito tempo?" - perguntou Ichiro, de repente.
- "Prefiro acreditar que não." - respondeu Kagome. Eles encontraram um ponto onde podiam sentar-se e admirar as plantações de trigo que desciam adiante - "Mas algo me diz que... não vamos demorar a voltar."
- "É mesmo...?" - sentaram-se lado a lado, admirando a lua que estava imensa - "Uma pena... Esse lugar... me dá uma sensação boa."
Kagome sorriu enquanto abraçava os joelhos e olhou para ele. Esperava ver algum traço de ironia em seu rosto - o que não era incomum - mas quando encontrou sua expressão, percebeu que falara sério. Na verdade, olhando bem, ele parecia diferente, muito embora não conseguisse afirmar com certeza o que tinha mudado. Gostaria muito de descobrir.
- "Que sensação exatamente?" - perguntou, sem fazer questão de esconder sua curiosidade.
- "Ah... Deixa pra lá. Acho que deve ser coisa da minha cabeça." - riu ele.
- "Deve ser... Mas quero saber mesmo assim."
Ela sempre parecia interessada no que ele tinha a dizer. Virou o rosto para encara-la e por mais que tivesse repousado os olhos nela incontáveis vezes, de alguma forma, ela parecia sempre estar ficando mais e mais bonita. As roupas não eram algo que Ichiro gostasse particularmente, mas Kagome poderia vestir qualquer coisa: era como se nada tirasse seu brilho.
Ichiro apertou os olhos encarando-a enquanto pensava no que responder. Percebeu que a luz da lua iluminava os pontos mais altos do seu rosto. O cabelo parecia de um tom surreal de preto. Era o reflexo das estrelas nos olhos dela ou eles sempre tinham brilhado daquele jeito? Um vento passou cortando os dois e o cheiro maravilhoso que ela emanava o atingiu.
Ichiro piscou de novo. Onde eles estavam mesmo? Ah, sim.
- "E-eu... não sei explicar direito. Mas..." - tentou olhar de novo para o horizonte e relembrar o que ia dizer - "É como se... eu me sentisse..."
- "Em paz?" - interrompeu ela, inclinando a cabeça e apoiando-a nos joelhos.
- "Hm, é... mas não exatamente." - ele se sentia muito bobo tentando nomear um sentimento que não sabia nem explicar, nessas horas sua mente sempre recorria à explicações mais lógicas - "Será que que é isso que estar no meio da natureza faz com as pessoas?"
Ele inclinou-se e deixou as costas encostarem na grama macia. Queria observar melhor o céu. Kagome repetiu o gesto e deitou-se ao seu lado enquanto dava de ombros.
- "Talvez..."
Passaram-se alguns instantes até que ele voltasse a falar.
- "Eu sempre me senti meio... vazio... Bem, você já sabe." - ele ouviu ela sussurrar um sim ao seu lado - "Mas aqui... desde antes de eu saltar no poço. Me senti muito... diferente."
Ichiro sabia que aquela frase não passava nem perto de ser suficiente para resumir tudo que ele tinha sentido nas horas anteriores. Entretanto, era tudo que ele pretendia dizer a ela por enquanto. Não precisava entrar nos detalhes de que tinha surtado um pouquinho de nada antes de tomar a impetuosa atitude de ir atrás dela, não é? Ela saberia de tudo quando visse o estrago que ele deixara no rosto de Éric. Ou talvez o tempo fosse generoso com eles e passasse um tantinho mais rápido por lá, dando chance do rosto dele cicatrizar... será que estava pedindo demais? Tentando selecionar bem o que diria a seguir, retomou a fala.
- "Senti algo me atraindo pra cá... Foi bem... doido, eu acho." - admitiu ele - "Mas isso deve ser só porque você quase me matou de preocupação mesmo."
- "Não de propósito..." - defendeu-se ela.
- "Pensando bem, com certeza foi isso, né? Você some, eu entro em desespero, venho pra cá impulsivamente e agora que vi que está tudo bem, minha mente relaxou." - ele podia ouvir a risada baixinha dela ao seu lado, como adorava faze-la rir - "Feh! Assim é fácil achar que qualquer lugar é mágico..."
- "Ei! Não seja injusto... Como eu ia saber que iam ter se passado duas semanas?"
- "E meia." - provocou ele.
- "Que seja..." - de repente ela ergueu-se e apoiou-se num só cotovelo, o torso virando-se para Ichiro - "Aliás, o que você ficou fazendo esse tempo todo lá? Como está todo mundo?"
- "Seus amigos? Preocupados, como eu disse..." - ele dobrou os cotovelos levando as duas mãos atrás da cabeça para apoia-la - Sua mãe inventou que você foi visitar uns parentes. Uma desculpa nada convincente. Pela quantidade de vezes que você afirma já ter feito isso antes, achei que eles fossem melhores nisso."
- "Meu avô que é o especialista nesse departamento." - Kagome riu lembrando de algumas doenças mirabolantes que seu avô inventava quando ela precisava se ausentar do colégio.
- "Bem, ele não estava lá na hora."
- "Ué... e você estava?"
- "Lógico." - afirmou ele, como se fosse óbvio - "Enquanto você corria atrás de monstros aqui eu tentava ajudar o pivete do seu irmão com o dever de casa."
- "QUÊ?! Tipo... professor particular?" - riu ela, descrente - "Você só pode estar brincando."
- "Bem, eu não ia ficar de braços cruzados esperando você voltar das suas férias. Estive estudando com o fedelho esses dias todos. Catei uma montanha de livros na biblioteca, sobre essa Era e tudo o mais. Passei várias tardes lá. Até dormi no seu quarto um dia."
Kagome mal podia acreditar, sua boca agora estava entreaberta tamanha a surpresa. Ichiro não conteve a risada ao perceber o choque em seu rosto.
Primeiro sentiu vergonha de imaginar ele passando uma noite no seu antigo quarto. Não lembrava exatamente do estado em que ele ficara depois da última vez que tinha ido lá. Tinha de admitir que era muito adorável saber que ele tinha se dado o trabalho de fazer o que estava a seu alcance para ajuda-la, mesmo antes de aparecer ali.
- "Você é impossível, Masagami."
- "E você é uma teimosa." - brincou ele, empurrando de leve um dos ombros dela - "É meu karma. Por eu ter sido tão horrível na adolescência."
Ela deu uma risada e balançou a cabeça de um lado para o outro. Lembrava do que Sam e Kayri haviam dito dias atrás, sobre ninguém ser perfeito, sobre todo mundo cometer erros.
- "Talvez você não tenha sido horrível... talvez você só tenha sido um adolescente." - debochou ela, em resposta.
Mesmo que ela tenha falado em tom de brincadeira, algo naquela frase tirou um peso de seus ombros sem que ele nem ao menos percebesse. Eram raros os momentos em que não se cobrava. E quando não estava fazendo isso, geralmente estava se culpando por algo do passado. O mais engraçado era que estar ali, no passado de fato, o fazia pensar... no futuro. Por mais contraditório que aquilo fosse.
De repente, uma parte dele arrependeu-se de ter brigado com o amigo detestável dela - apesar de, no fundo, ainda achar que ele merecia o soco que levara. No fim, Ichiro queria ser uma pessoa melhor, queria vislumbrar um futuro onde não estivesse consumido por ansiedade, raiva ou tristeza. Queria ser o suficiente para estar a altura... dela.
Queria um futuro com a garota que estava ali, bem do seu lado.
- "Sabe o que eu estava pensando?" - disse ele - "Hoje aquela raposa me levou num lugar bem bonito..."
- "Que lugar?" - perguntou Kagome, supondo que ele falava de Shippou.
- "Um rio. Bem perto daqui." - ele se levantou, sentando-se, Kagome o seguiu com o olhar - "A gente deveria ir lá."
Ela não sabia se aquela era uma boa ideia, mas a quem tentava enganar? Passar mais tempo a sós com ele era tudo que queria. Mesmo assim, tinha que ser um pouco mais responsável que isso, não é?
- "Está bem escuro. Pode ser perigoso." - ela deu um impulso com uma das mãos e sentou-se novamente.
- "Que eu saiba você é uma sacerdotisa fodona e eu sou faixa preta em, sei lá, umas três artes marciais diferentes..." - ela riu conforme ele argumentava - "Eu acho que ficaremos bem a dois quilômetros daqui."
Kagome riu. Ele era inacreditável quando queria alguma coisa.
- "Não estou com meu arco e flecha aqui, como você pode ver..."
- "Ah, Kagome, pelo amor de deus. É só buscar. Vamos..." - ele se pôs de pé e segurou nas duas mãos dela para ergue-la também - "Além disso... eu não to com um pingo de sono."
- "Ichiro..." - ele usou um impulso extra para levanta-la o que fez com que praticamente esbarrasse no peito dele. Kagome apoiou as duas mãos ali, enquanto ele a segurava pelos cotovelos, aparando seu peso.
Cometeu o erro de erguer a cabeça.
Ichiro era um palmo mais alto do que ela, mas ele estava com a cabeça abaixada, olhando-a. Seu corpo todo entrou em alerta quando percebeu que estavam a centímetros um do outro, narizes quase se encostando.
- "Vamos?" - insistiu ele, sem se abalar com a micro distância entre os dois - "Eu protejo você com a minha bakken super poderosa."
Ela riu enquanto se desvencilhava dos braços dele antes que aquilo ficasse perigoso demais.
- "TÁ! Nossa...! Que... insistente." - ela acariciou os próprios braços tentando se recompor enquanto evitava olhar diretamente para ele. Sabia que estava corada, mas agradecia por estar de noite... provavelmente ele não ia notar - "Vou buscar minhas coisas."
Inevitavelmente esbarrou em Shippou antes de sair já que ele sempre ficava rondando a casa de Hatsue durante a noite. Tomou o cuidado de avisa-lo e podia jurar que ele não tinha gostado da ideia, mas já era tarde demais para desistir.
Agora ela não estava com sono. E queria estender aqueles momentos com Ichiro pelo máximo de tempo que conseguisse.
Eles não demoraram a sair e a caminhada de fato era curta.
O rio ficava ainda mais lindo a noite e ela agradeceu a si mesma por ter se permitido ir até ali. A lua estava cheia. O brilho da sua luz refletida na água era tão intenso que em alguns pontos não dava para encarar por mais de um segundo antes dos olhos começarem a doer. O clima era fresco e todas as estrelas no céu estavam visíveis. Constelações que Kagome nunca tinha visto na vida estavam ali. O brilho da madrugada da agitada Tókio moderna impedia aquela visão magnífica.
Nesses momentos, não conseguia não se sentir com sorte. Estava em um dos lugares mais lindos que já tinha visto na vida... Quantas pessoas que conhecia teriam a oportunidade de estar ali? Apenas ela.
E agora... Ichiro.
Que, pelo visto, estava igualmente admirado.
Era claro que qualquer ser humano ficaria feliz de estar ali, mas sendo ele um historiador, as circunstâncias eram ainda mais especiais. Vivia o sonho de qualquer pessoa. Voltar no passado. Ver como as coisas eram, vive-las, estar em uma realidade impossível.
Sentiu seu ser preencher-se.
Uma sensação que ficava cada instante mais intensa e mais frequente.
Olhou para os lados.
Parecia que algo tinha chamado o seu nome. Deu uma volta em si mesmo, procurando.
- "O que foi?" - Kagome o olhava confusa - "Tá tudo bem?"
Ichiro demorou alguns segundos até perceber que não tinha ninguém chamando ele de fato. Era só uma sensação de estar sendo atraído a algum lugar. Parecia a mesma coisa que ele tinha sentido antes de adentrar o poço, mas estava diferente. Não havia angústia... pelo contrário. Balançou a cabeça, tentando deixar aquilo de lado. Não queria se distrair do fato de que estava a sós com Kagome.
- "Não foi nada." - respondeu sorrindo para ela - "Tive uma ideia."
Kagome sentiu seu corpo inteiro arrepiar-se. Suas bochechas esquentaram ainda mais quando o viu desamarrar a faixa da cintura que prendia suas roupas.
Tentou olhar para o rosto dele a fim de evitar algum tipo de constrangimento. Viu quando Ichiro deu-lhe uma piscadela que faria qualquer garota se sentir especial enquanto se despia. Tirou a parte de cima da roupa, ela lembrava-se de tê-lo visto sem camisa uma vez ou duas, mas aquela era a primeira vez que não desviava o olhar. Se enganava dizendo a si mesma que não estava conseguindo ver muita coisa e que por isso tudo bem, mas sabia que seus olhos já tinham se adaptado a escuridão. A luz da lua não facilitava. Dava pra ver cada músculo do corpo dele.
- "Preciso de um banho." - disse, enquanto fazia menção de tirar a parte de baixo, ao que Kagome virou-se de costas envergonhada - "Você vem?"
"A ousadia dele!" pensou ela. Ela ouviu sua própria voz dizer um "não sei" inaudível e gaguejado. Ouviu a risada seca atrás de si. Podia ouvir também as passadas dele na grama, sabia que estava se afastando, mas não ousou virar-se de volta até que ecoasse o barulho do corpo mergulhando na água.
Quando percebeu que estava "seguro" tornar a olhar, virou-se novamente.
Ichiro mergulhou a cabeça. A sensação de molhar os cabelos pareceu desanuviar seus pensamentos. Voltou a superfície e abriu os olhos. Ele via Kagome parada a poucos metros da margem, não queria tirar os olhos dela por questões de segurança, mas também porque estava linda demais para não se admirar.
Além disso, esperava importuna-la um pouco mais, tentando convence-la a entrar na água em algum momento.
- "Kagome, não seja uma porquinha..." - brincou ele - "Entra na água."
- "Não mesmo!" - riu ela, nervosamente, apoiando seu arco e flechas na grama e cruzando os braços em protesto - "Você deve estar morrendo de frio aí!"
- "Juro que não!" - e dizia a verdade de fato - "Tá ótimo aqui!"
Kagome riu. Sentiu as bochechas doendo. Tinha sorrido tanto nas últimas duas horas...
- "Mentiroso!" - retrucou ela, mas a verdade é que seus pés estavam se aproximando da margem lentamente.
- "Eu juro!" - ele chegou mais perto, metade do corpo fora da água enquanto tentava molha-la um pouco.
Mas não achou que ela realmente ia entrar.
Em nenhum momento achou que ela realmente iria entrar.
Kagome aproximou-se o suficiente da margem para triscar as pontas dos dedos dos pés na água e sentir a temperatura. Fria. Mas não gelada.
Quando ela se dava o luxo de fazer as coisas sem pensar muito?
Ichiro a encarou, uma expressão confusa estampada em seu rosto. Ele inclinou a cabeça ligeiramente para um lado enquanto a observava.
Kagome sentou-se na margem e mergulhou as pernas na água até os joelhos. Ela percebeu quando olhou para Ichiro que ele não contava com aquele desenrolar de fatos, por mais que estivesse insistindo para que ela entrasse no rio.
- "Sua maluca! Vai entrar de roupa e tudo?" - Ichiro aproximou-se rapidamente.
Mas antes mesmo que ele conseguisse chegar até ela, Kagome apoiou as palmas das mãos na grama, deu um impulso e mergulhou de vez na água.
Ela fechou os olhos e sentiu a água envolve-la. A voz mal humorada de Ichiro ecoava da superfície, mas era indiscernível. Só sabia, pelo tom de voz, que ele estava reclamando. Sentia ele próximo, à sua frente, provavelmente com água até um pouco acima da cintura. Quando finalmente subiu, afastando os cabelos do rosto, conseguiu ouvir o final da frase.
- "Está me ouvindo? Vai pegar um resfriado! Sai já daqui."
Ele não esperava que ela fosse ressurgir tão perto assim e tentou controlar a expressão de susto que com certeza entregaria para ela que estava ligeiramente nervoso.
Kagome riu, revirando os olhos.
- "Você tinha razão... a água está ótima!" - ela ergueu os braços para cima, espreguiçando-se, em seguida jogou-os à frente e nadou um pouco, passando por ele.
Ichiro parou cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha pra ela. Sentiu as roupas dela passarem tocando levemente suas pernas. Quando Kagome tomou a frente, ele virou-se, seguindo-a com o olhar.
- "Ei... Kagome, é sério!" - protestou ele, segurando-a pelo ombro - "Não era pra você entrar de roupa, sua idiota... vai ficar doente!"
Ichiro virou-a de frente para si.
Os olhos deles se encontraram, e o tempo pareceu suspender-se.
Eles estavam apenas com os ombros para fora d'água e... a cinquenta centímetros um do outro? Quarenta? Ichiro não sabia dizer. A mão que estava apoiada no ombro de Kagome de repente deslizou pelo seu braço, passando pelo cotovelo... até ele sentir que seus dedos se entrelaçavam. Ela sorriu e engoliu em seco, olhando para baixo nervosamente, para o ponto em que ela sabia que, debaixo d'água, eles acabavam de dar as mãos.
Só por aquele momento Kagome se permitiu não pensar em mais nada.
Ela tornou a olhar para ele.
Não existia mais problema nenhum no mundo, e não fazia diferença se eles estavam no passado, no presente, no futuro... Sentiu que seu corpo flutuou mais alguns centímetros na direção dele, não sabia dizer se empurrado pela água, ou se por uma vontade sua que se sobrepunha a qualquer pensamento racional.
Ichiro não tinha planejado aquele momento. E agora, mergulhado nos olhos dela, tinha dúvidas do que fazer. Sabia que Kagome estava chegando perigosamente perto. Sabia que por mais que quisesse que tudo com ela fosse especial havia um limite de até onde ele poderia se conter.
Sentiu a respiração ficar mais pesada. Por quantos segundos eles estavam ali, parados, olhando-se daquele jeito?
Porque sua voz se recusava a sair?
- "A lua deixa seus olhos mais escuros..." - disse ela, de repente.
Ele sentiu seus dedos se entrelaçando nos dela com mais força.
- "Os seus só... ficam mais brilhantes..." - respondeu, a voz custando a sair, falhada, quase um sussurro - "E você tem que sair da água, é sério."
- "Não vou pegar uma gripe só por ficar na água por dois minutos." - protestou ela, desviando o olhar.
- "Bem, eu espero que não..." - respondeu ele, atraindo o olhar de Kagome para si novamente - "Você tem uns monstrengos pra vencer aqui, esqueceu?"
Kagome levou a outra mão à boca e escondeu um riso. Seus olhos encontraram os dele de novo. Estavam chegando cada vez mais perto.
A mão de Kagome flutuou, sem pensar, em direção ao queixo dele. Ichiro sentiu todos os pelos do seu corpo arrepiarem-se com o toque.
Os joelhos dele estavam levemente dobrados e quando ela se aproximou, percebeu suas roupas encostarem nas pernas dele. Não estava usando nada. Ao passo que Kagome estava completamente vestida.
Ele agradeceu mentalmente por isso. Apesar de saber que ela estar mergulhada na água com vestes pesadas aumentavam as chances de um resfriado, não sabia o que seria capaz de fazer diante da visão dela sem roupas. Lembrou-se mais uma vez que o primeiro beijo deles tinha de ser especial e se perguntou se aquele era o momento. E caso não fosse, se seria capaz de resistir.
Ele não ousava mais encara-la porque sabia que o olhava de um jeito suplicante que era quase insuportável. Irresistível. Fechou os olhos por precaução.
- "Kagome..." - será que ela tinha alguma ideia do que ia desencadear nele se continuasse com aquilo? Sabia que era um caminho sem volta - "Para..."
Os dedos dela recuaram do rosto dele e Ichiro deu um suspiro aliviado.
- "Vai fazer o favor de sair ag..." - mas antes que pudesse terminar a frase, a mão dela estava de volta, dessa vez, tocando seus lábios.
Não teve coragem de dizer mais nada.
Ichiro a encarava com os olhos arregalados de espanto. Nunca tinha sentido seu coração bater tão forte. Nem mesmo quando passava horas e horas se exercitando. Nem mesmo nos momentos em que achou que fosse explodir de ansiedade.
Ela estava perto. Muito perto. Sentiu sua respiração parar.
Uma vez eles tinham estado perto daquele jeito. Mas tinha sido diferente. Ele estava completamente bêbado, ao passo que agora se sentia dolorosamente sóbrio. Já ela, parecia mais frágil e vulnerável antes. Totalmente diferente da Kagome que ele via naquele momento.
Não havia hesitação em seu rosto. Ela parecia satisfeita que agora estavam finalmente mergulhados nos olhos um do outro. Ele sabia que Kagome estava sorrindo, mas não podia encarar os lábios dela. Não. De jeito nenhum. Era mais seguro continuar olhando-a nos olhos.
Já sentira desejo por alguém antes, mas aquilo era totalmente diferente. Totalmente... incontrolável.
Ele levou sua mão à dela, que ainda tocava seu rosto. Envolveu-a na sua e achou que conseguiria tira-la dali, mas não. Só deixou seus dedos sobre os dela, imóveis.
Kagome sentiu que sua cabeça não ditava mais em nada suas ações. Ali, encarando os olhos dele, ela parecia ser transportada para outro mundo. Um mundo onde só existiam eles dois, a água, a lua e mais nada.
- "Eu acho..." - sussurrou ela enquanto o encarava, e Ichiro conseguia sentir o sopro de cada sílaba no seu rosto - "...que você gosta de mim... um pouco."
Ele sorriu. De todas as coisas que achava que ela poderia dizer, aquela era a última delas.
- "Você notou? Droga..." - provocou ele, a voz voltando a ter o tom debochado que Kagome conhecia muito bem, suas mãos se fechando em torno das dela, uma ainda embaixo da água; a outra, bem perto do rosto dele - "Pensei que eu pudesse... disfarçar melhor."
Ela devolveu o sorriso. Era uma sensação ambígua, saber que Ichiro gostava dela. Acalmava completamente as dúvidas em seu coração, ao passo que a tornava mais ansiosa pelo que viria a seguir.
Mas ele não a deixou pensar muito.
Exatamente como tinha sido da vez em que quase tinham se beijado, o movimento dele foi rápido e preciso. Num instante, ele deslizou a mão que estava mais próxima para o rosto dela, envolveu seu pescoço e a puxou pela nuca.
Quando os lábios dela pressionaram os dele, o mundo de Ichiro girou.
Kagome buscou o rosto dele com as mãos, correspondendo o beijo. Ele deu o espaço que ela precisava deslizando sua mão para a cintura dela enquanto a outra galgava o caminho que ia do início da sua coluna, até a nuca. Ichiro sentiu o corpo de Kagome grudar no seu.
Ainda bem que ela estava vestida. Não queria assusta-la.
Kagome era a pessoa que ele iria proteger a qualquer custo, mas também o objeto de todos os seus desejos.
Ele a beijou ainda mais, acariciando seu pescoço enquanto seus dedos mergulhavam nos fios de cabelo, buscando o espaço que precisava para segurar uma mecha, cerrar o punho, e puxar de leve.
Os lábios deles se separaram por alguns instantes enquanto Ichiro erguia o rosto dela e contemplava Kagome, satisfeito. Precisava olha-la de novo, precisar ver se ela o desejava. E estava tudo ali. Kagome ofegava ao ponto de mal conseguir manter os lábios cerrados. Seus olhos estavam igualmente entreabertos, as sobrancelhas unidas, numa expressão de súplica impossível de se ignorar.
Ele puxou mais um pouco, alinhando a cabeça dela, erguendo-a um pouco mais, ditando o ritmo e expondo mais o pescoço fino e macio que reluzia na luz da noite. O aroma único cada vez mais forte. Inebriante. Mergulhou naquela direção, buscando mais ainda o cheiro dela, o mesmo que aparecia sempre que o vento mudava de direção, empurrando os longos cabelos negros; o mesmo que embalara seu sono quando passara a noite no templo; o mesmo cheiro que adentrava seus sonhos todas as noites; que causava reações inexplicáveis em sua mente e corpo... parecia algo que ele não podia mais viver sem, viciante.
Era melhor do que qualquer coisa que já havia entrado no seu organismo.
E de repente, só sentir seu aroma não era suficiente.
Kagome soube quando os lábios de Ichiro beijaram seu pescoço e achou que fosse perder os sentidos. Seu corpo respondeu, com um gemido baixinho que Ichiro só conseguiu perceber porque a noite estava tão quieta que o barulho da água era o mais alto de todos.
Ele sentiu que ia perder o controle de vez.
Deixou o aroma do pescoço dela e mergulhou em seus lábios mais uma vez, invadindo-os, aprofundando o beijo e explorando cada canto daquela boca.
Ele sentiu seu corpo inteiro arrepiar-se quando ela não só correspondeu, mas envolveu seu pescoço com os dois braços, puxando-o para ainda mais perto, se é que era aquilo era possível.
Ele tentava conter o impulso de descer as mãos pelo corpo de Kagome.
Sentia as pequenas mãos dela agarrando-o de várias formas: ora segurando o rosto dele entre suas mãos; ora puxando-o pelos ombros, cravando os dedos finos na sua pele.
Ela também queria.
E parecia o paraíso.
Queimava.
E por mais que fosse bom ainda não era suficiente.
Ele teve que parar um pouco para tomar ar e percebeu que os dois estavam ofegantes. Deixou que a testa dela descansasse na sua. Mas estava agitado, inquieto. Não queria parar.
Prendeu o rosto de Kagome numa das suas mãos, envolvendo seu pescoço, todos os dedos repousando na nuca dela exceto o polegar que contornava seus lábios.
Ela estava ali, com ele. Ela o queria, tanto quanto ele a ela.
Beijou-a novamente, dessa vez mais forte, suas línguas dançavam juntas uma música só deles. Tomou o cuidado de explorar cada canto da boca dela enquanto sentia os dedos pequenos cravando em diferentes lugares das suas costas. Ele sabia que Kagome provavelmente não tinha muita experiência, mas de alguma forma, por onde o toque dela passava, deixava um rastro de pelos arrepiados em seu corpo.
Ela recuou, de repente, ainda ofegante. Ichiro achou que fosse parar, Kagome provavelmente não tinha tido muito daquilo antes. Ele sempre soube que teria de ir devagar com ela até que sentiu uma mordida em seu lábio inferior.
Sua cabeça girou pela milésima vez naquele dia.
Enquanto ela ainda prendia seu lábio entre os dentes, ele soltou uma risada de leve se perguntando como uma mulher tão pequena, tão doce, o fazia ter pensamentos tão impuros. Mas não podia pular as etapas. Precisava recuperar a calma, afinal de contas, Kagome ainda estava na água gelada e completamente vestida. Por mais que eles ali, juntos, fosse praticamente um paraíso, Ichiro precisava respirar, voltar a si e fazer o que tinha prometido para si mesmo que faria.
Ele depositou um beijo suave nos lábios dela e ficaram respirando por alguns segundos, as testas encostadas. Ichiro enlaçava a cintura dela com as duas mãos, sentindo o corpo pequeno dela contra o seu.
Kagome descansava suas duas mãos no peito dele, desenhando carinhos com as pontas dos dedos, Ichiro sentia a pele arrepiar-se diante do toque.
Sabia que não iria se segurar por muito mais tempo sem colar os lábios dela nos seus. Ele apertou ainda mais sua cintura e aproximou-se da boca de Kagome até senti-la com seus lábios.
Mas não a beijou. Só ficou ali, respirando o mesmo ar que ela.
Conseguia sentir seu corpo inteiro queimar.
Mas ela era Kagome. Sua Kagome agora.
- "Vamos." - disse ele, depositando um selinho nos lábios dela.
Ichiro tomou as pernas de Kagome e suspendeu-as, carregando-a no colo.
- "Ei...!" - protestou ela, ainda envolvendo o pescoço dele com os braços.
- "Quieta, você já causou demais."
Ichiro carregou-a nos braços e deu dois ou três passos adiante. Apoiou um dos pés na margem do rio e, com um único impulso, subiu, sem se abalar com o fato de que, sem o empuxo da água, a força da gravidade os puxava para baixo. O kimono de Kagome estava pesado, encharcado, e ele sentiu ela começando a tremer de frio nos seus braços.
Com cuidado, colocou os pés dela no chão, tomou seu rosto novamente com as mãos e a beijou.
Tinha que existir alguma forma de faze-la continuar com a cabeça erguida, não é? Afinal de contas... ele estava completamente nu.
- "Consegue me esperar dois segundos?" - disse ele, segurando o queixo dela com uma mão - "Fica aqui... paradinha... admirando as estrelas um pouquinho."
O beijo de Ichiro atordoou tanto Kagome que ela se viu sem reação a não ser obedece-lo. Sentia suas bochechas coradas, o coração acelerado e sabia que aquela interação tinha feito seu corpo reagir de mais uma dúzia de formas diferentes que antes lhe eram desconhecidas.
Ichiro correu até suas roupas, vestiu apenas a parte de baixo da roupa o mais rápido que conseguiu e levou nos braços a parte de cima até ela. Kagome estava de costas, olhando o céu, da mesma forma que ele tinha deixado.
Só que agora ela agarrava os próprios cotovelos. Estava com muito frio, obviamente.
- "Continua assim, de costas." - disse ele, enquanto suas mãos percorriam o decote das vestes molhadas dela - "Vou tirar isso pra você."
Kagome ergueu os braços nas laterais do corpo e deixou que ele tirasse sua roupa. As mãos dele percorriam o corpo dela de leve, com cuidado, num ritmo oposto ao de instantes antes, quando eles estavam grudados se arranhando e se puxando dentro da água. O kimono molhado de Kagome caiu na grama, ela sentiu as vestes sequinhas dele sendo colocadas em seus ombros e braços. Ele teve o cuidado de transpassar e amarrar, deixando-a devidamente coberta.
Kagome só queria grudar nele de novo. Ainda de costas, agarrou os dois pulsos dele e o puxou para si, mas Ichiro era mais forte e não se mexeu.
- "Eu ainda estou molhado, sabia?" - disse ele - "Se a gente se abraçar agora, você vai por abaixo todo o trabalho que eu tive pra te manter saudável... maluca."
Kagome riu.
- "Eu não me importo." - ela se virou de frente pra ele e encostou as mãos em seu peito - "Me abraça de novo. Por favor."
- "Espera dois minutos." - disse ele, Kagome sentia o corpo dele inteiro arrepiando-se de frio, mas mesmo assim, Ichiro nem se mexia, como se fosse totalmente imune - "Eu já vou estar menos molhado e aí você não vai correr o risco de ficar doente."
Ele suspirou de alívio quando Kagome assentiu, sorrindo. Mas ficar longe dela era mais difícil do que pensava. Ele passou as mãos pelos cabelos longos, juntou-os e espremeu a água para longe dela. Kagome não tirava os olhos do rosto cuidadoso dele, mas Ichiro estava focado: penteou seus fios com os dedos, puxou-os pra cima e fez um coque no topo da cabeça dela, magicamente sem nenhuma presilha ou elástico.
- "Como...? Como você...?" - estava tão confusa com essa habilidade atípica que nem conseguia formular a pergunta corretamente.
- "Fazia isso com a Zhang às vezes." - ele piscou pra ela.
Kagome não sabia como, mas Ichiro tinha conseguido se tornar um milhão de vezes mais atraente durante a última meia hora.
Estava completamente e irrevogavelmente apaixonada.
- "Pronto." - falou ele, de repente, tirando-a de um transe que não soube quantos minutos durou - "Agora já dá."
Ichiro tomou novamente o rosto dela entre as mãos e a beijou. Dessa vez, ele foi mais devagar, aprofundando o toque aos poucos, passeando pelas bochechas dela com carinho. Kagome sempre esperou que ele fosse experiente nesse aspecto, mas nada a tinha preparado para isso. Ichiro sabia os momentos de ser mais delicado... e menos delicado, se é que pode-se falar assim. Era como se ele soubesse onde tocar no instante exato, como se tivesse lido um manual de instruções extenso sobre o corpo dela.
Ichiro desfez o beijo e inclinou a cabeça na direção do pescoço dela.
- "Kagome..." - ele sussurrou em seu ouvido - "Por favor..."
Mas não concluiu a frase, só ficou ali respirando no pescoço dela, os cabelos úmidos pingando ocasionalmente, ajudando sua pele a arrepiar-se por completo.
- "O que? Diga." - pediu ela, afastando-se para encara-lo.
Nunca tinha visto a expressão dele tão séria.
- "Por favor... seja... minha." - pediu ele, e Kagome podia jurar que seus olhos estavam marejados, mas não dava para ter certeza - "Diga que você é minha."
Mas antes que Kagome pudesse raciocinar uma resposta, sentiu os lábios dele invadirem os dela mais uma vez.
Ele não a deixou responder, não conseguia. Por mais que quisesse fazer aquilo direito, era difícil não beija-la a cada instante. Sua mente alternava entre querer ouvir a resposta e querer sentir por mais tempo o gosto da boca dela.
Depois de alguns instantes, eles conseguiram se separar novamente. Encaravam-se. Ichiro agora segurava o pescoço dela com uma das mãos, o polegar brincando com seu lábio inferior, os olhos confusos, estudando-a, como se ele estivesse diante de algo que nunca tinha visto. Kagome sentiu a outra mão dele ir parar direto em sua cintura. Ele a apertou.
Gentil, mas possessivo.
- "O que...?" - a mente de Kagome girava, era difícil juntar as letras e formar as palavras, mas ela sabia a resposta.
- "Sabe, você errou numa coisa... Eu não gosto de você só um pouco" - e as frases saíram de sua boca numa naturalidade que ele jamais pensou que aconteceria e encarava os olhos dela como se fosse entrar dentro deles - "Eu penso em você o tempo todo... Esses dias todos eu pensei em você. Fico me perguntando o que você fez comigo."
- "O que eu fiz com você?" - riu ela, descrente - "Foi você que fez algo comigo."
Sim, porque antes dele, era como se o coração dela tivesse parado três anos no tempo. Antes dele, ela só tinha pesadelos e sonhos com as mesmas coisas. Antes dele, ela conseguia ser feliz... mas até certo ponto.
Agora ela torcia para que eles nunca mais tivessem que se desgrudar.
Mas tudo isso ficou rodando em sua cabeça. Kagome esperava que seu olhar e a última frase que disse fossem suficiente para que Ichiro entendesse que ela era dele. Irrevogavelmente dele.
Ele a beijou novamente. Dessa vez, não foi tão delicado.
Seus braços a envolveram por completo num abraço tão apertado que quase a deixava sem ar. Kagome deslizou as mãos pelas costas dele enquanto sentia ele tomar conta de todos os espaços da sua boca. Era como fogo.
Ela sentiu algo entre as suas pernas gritar.
Então era assim que era desejar alguém ao ponto de...
Seus dedos cravaram-se nas costas dele e quando Kagome menos percebeu estava arrancando pequenos pedaços da pele de Ichiro entre as suas unhas.
- "Mais forte." - disse ele, suspirando, entre um beijo e outro - "Me marque."
Ela obedeceu prontamente e o arranhou mais e mais. Ichiro abafou um gemido beijando-a. A cabeça dela pesava e não sabia dizer se estava ficando de pé com as próprias pernas ou se era ele que a segurava. Na verdade, ela não sentia mais direito suas pernas em si, só o espaço entre elas, esquentando mais e mais e mais.
Um leve ajuste entre os corpos deles e Kagome notou um volume pressionando-a na altura da barriga, perto do ventre.
Mas foi só por um segundo porque Ichiro a empurrou bruscamente em seguida, dando dois passos para trás e virando-se de costas, enquanto ofegava.
Kagome assustou-se e levou uma mão ao peito, enquanto a outra apoiava-se no joelho, tentando recuperar o fôlego e entender porque eles tinham parado.
- "O-O quê..." - perguntou ela, confusa.
- "P-preciso de... um segundo." - Ichiro ofegava, ainda de costas, tentando retomar o controle de seu próprio corpo.
Kagome fazia coisas com ele que eram incompreensíveis.
Sentia as costas arderem nos locais onde ela tinha cravado as unhas. Sorriu. Chacoalhou a cabeça de um lado para o outro e deu um último suspiro antes de virar-se para ela novamente.
- "Acho que a gente precisa voltar." - ele saiu catando rapidamente o arco e flechas dela que estavam na grama - "Daqui a pouco pode esfriar mais e aí vamos nós dois ficar doentes."
- "C-claro!" - concordou Kagome, ainda atordoada. Ela fez menção de pegar suas vestes de sacerdotisa encharcadas, mas Ichiro foi mais rápido e pegou a roupa em um segundo. Ela o observou torcer o tecido para tirar o excesso de água e torna-lo mais fácil de carregar. Ele levava tudo: as roupas, o arco e as flechas.
Um exemplo de cavalheirismo em plena Era Feudal.
Enquanto eles caminhavam de volta para o vilarejo Ichiro se perguntava se ela tinha percebido alguma coisa. Sabia que Kagome já era uma mulher adulta, mas considerando o que parecia ter sido seu último relacionamento, concluiu que as chances dela nunca ter passado por aquilo eram altas.
Por fora, ele já parecia ter voltado ao normal, mas a verdade é que só de estar ao lado dela ele se sentia atraído. Era como se Kagome fosse um ímã ou qualquer coisa que desestabilizasse seus pensamentos, confundisse suas ideias. Em um segundo, em um simples movimento dela, toda a racionalidade poderia se esvair e aí só sobraria a vontade de abraça-la forte pra nunca mais soltar.
Ela era dele? Será que podia contar com isso?
Será que ela entendia que Ichiro não podia mais ser de nenhuma outra pessoa que não ela?
Eles finalmente chegaram ao vilarejo, em silêncio. Todos dormiam e as únicas luzes que eles conseguiam distinguir eram pontos difusos de calor que dançavam dentro das casas e cabanas: velas ou incensos, mas nenhuma lamparina ou qualquer tipo de fonte de luz mais forte.
Eles conseguiram improvisar uma espécie de varal. Kagome entrou para trocar de roupa, silenciosamente, tentando não despertar Hatsue que dormia um sono pesado. Passou rapidamente por Shippou que descansava sentado, montando guarda do lado de fora. Dessa vez, colocou o pijama que havia trazido da sua era, uma calça e uma camisa de algodão listrados de branco e azul claro. Ichiro ajudou-a a estender as roupas e Kagome foi até ele, cruzando os poucos metros que separavam uma casa da outra.
Ichiro ainda estava descoberto da cintura para cima. Kagome estendeu o haori que ele havia emprestado de volta. Engoliu em seco ao encara-lo, parecia que nunca ia se acostumar a ver o corpo dele sem sentir um frio na barriga.
Ela observou Ichiro receber a roupa e jogar por cima dos ombros, sem amarrar. Ele sorriu de leve quando seus olhares se cruzaram de novo e olhou-a de cima a baixo, sem disfarçar.
- "É a primeira vez que eu te vejo tão fofa assim..." - provocou ele, erguendo uma sobrancelha para ela - "Me deu até vontade de te chamar de Kagome-chan de repente."
Ela sorriu nervosa enquanto abraçava os próprios braços, como quem tenta se esconder. Ichiro manteve duas ou três velas acesas de modo que existia luz o suficiente no ambiente para notar que as bochechas dela estavam ficando mais e mais vermelhas.
- "Pare com isso, é só... uma roupa normal!" - respondeu, ligeiramente irritada, cruzando os braços e desviando o olhar.
- "Nenhuma roupa fica normal em você, Kagome." - ele se aproximou um pouco mais.
Suas mãos flutuaram em direção as dela e ele descruzou os braços de Kagome devagar.
Ela o encarou, as bochechas queimando de vergonha.
A boca dele se curvou novamente em um sorriso. Um raro sorriso doce.
- "Qualquer coisa que você vista... vai ficar desconcertante... pelo menos para mim."
Kagome sentiu seu coração acelerar novamente e se perguntou quantas vezes por dia era seguro para um ser humano sentir que o peito estava prestes a explodir. Ela tinha perdido as contas...
- "Você disse muitas coisas hoje." - e Ichiro podia ler as dúvidas no olhar dela.
- "É tão difícil assim pra você entender?" - ele levou uma mão aos cabelos dela e soltou o coque que havia feito minutos antes. Kagome fechou os olhos enquanto sentia os dedos dele penteando os fios suavemente, com um carinho e delicadezas incompatíveis com a imagem que ele transmitia a maior parte do tempo.
Ele parou de repente e acariciou o rosto dela com as costas da mão.
- "Você é a primeira pessoa... que não sai da minha cabeça nem por um segundo."
Ele viu quando os olhos de Kagome encheram-se de água. Pescou uma lágrima nos olhos dela antes que descesse pela sua bochecha.
Ichiro sorriu.
- "O mais engraçado é que esse sentimento era tudo o que eu não queria sentir por muito, muito tempo... Você já sabe. Já te contei tudo o que poderia ter feito você se afastar de mim." - ele soltou uma risada baixa, daquelas que indicam quando estamos recordando de uma lembrança - "Você continuou por perto. Não sei se por amizade ou algo mais... Em vários momentos eu achei que você podia gostar de mim também. Mas eu nunca tive certeza."
Kagome balançou a cabeça de um lado para o outro e envolveu a mão dele na sua.
- "Pensei que estivesse óbvio." - admitiu ela.
- "Bem, não estava." - disse ele, ainda rindo baixinho - "Mas eu não me importei. Só queria ficar perto de você também. E acho que... mesmo que você me rejeite... Kagome..."
- "Ichiro, eu..."
- "Não." - ele repousou um de seus dedos nos lábios dela, seus olhos estavam sérios, escuros, profundos - "Deixa eu terminar..."
Kagome assentiu de leve com a cabeça, ainda sentindo os dedos dele ali.
Ichiro fechou os olhos e suspirou, como se estivesse tomando coragem. Quando encarou Kagome novamente seu olhar era tão intenso que ela sentia todas as suas defesas internas desmoronando, de uma só vez.
Tudo o que importava era o que ele diria a seguir.
- "Mesmo que você me rejeite, Kagome... Eu..." - ele tomou o rosto dela com as duas mãos e encostou o nariz de leve no dela - "Eu vou amar ter te amado."
Ela não sabia porque sua voz tinha sumido.
Mas tomou a única atitude que podia ser interpretada como a resposta que gostaria de dar.
Agarrou as roupas dele e o puxou. Ichiro mal teve tempo de fechar os olhos.
Seus lábios se encontraram novamente.
Fogo.
Ichiro sentiu seu corpo todo esquentar enquanto tomava Kagome em seus braços, envolvendo sua cintura, seus ombros, conduzindo-a entre um beijo e outro, até ela sentir que suas costas estavam contra a parede.
Ichiro pressionou seu corpo contra o dela, suas mãos envolveram as de Kagome enquanto ela a segurava pelos pulsos e suspendia seus braços acima da cabeça, prendendo-a na parede descendo pelo seu pescoço, enchendo-a de beijos.
Kagome sentiu suas pernas vacilarem, Ichiro percebeu seu desequilíbrio e apertou-a ainda mais contra a parede até ela sentir novamente a pressão logo acima da barriga.
Foi quando ele repetiu o que havia feito antes e se afastou abruptamente.
Kagome quase foi ao chão. Seus braços soltaram-se e penderam ao longo do seu corpo; seus joelhos dobraram-se e ela teve que fincar os dedos na parede para não despencar.
Porque ele tinha parado?!
Ichiro estava de costas, uma mão na testa e a outra na cintura, respirando, ofegante.
- "Porque você para?" - questionou ela, chateada, indo até ele e segurando seu ombro para vira-lo de frente - "O que houve?!"
Quando ele se virou Kagome percebeu que estava totalmente vermelho. Uma gota fina de suor escorreu na lateral do rosto dele. Parecia tenso e ofegava - assim como ela - as sobrancelhas unidas, formando um vinco.
- "Você não tem ideia... do que causa em mim... não é?" - disse ele, sério.
Kagome parou, dividida.
Teve um primeiro beijo quando tinha treze anos.
Aos quinze, conhecera Inuyasha. Eles tiveram pouquíssimas oportunidades de estarem juntos. O primeiro e último beijo deles aconteceu quando ele estava morrendo. Algo que Kagome recordava como uma lembrança tanto ruim, quanto boa.
Ela saiu com mais dois meninos durante os três anos anteriores. Não fizera mais do que pegar na mão deles ou dar um abraço.
Beijara Éric. Tinha sido bom... até não ser mais.
E agora beijara Ichiro. Agora. A poucos minutos.
Essa era a experiência que ela tinha.
E é claro que sabia como as coisas aconteciam, afinal, não era boba. Se tinha optado por se fechar por anos, aquela era uma opção dela e apenas dela. Mas a teoria é muito diferente da prática... E Kagome não entendia o motivo da hesitação de Ichiro depois de todas as coisas lindas que ele acabara de dizer.
- "Você não sabe... muita coisa, não é?" - perguntou ele, já mais calmo, a respiração voltando ao normal.
Ela abaixou o olhar, envergonhada.
- "Não muito. Quer dizer... saber, eu sei. Eu só..."
- "Nunca fez isso antes?" - perguntou ele, e Kagome sentiu-se aliviada por não sentir nem um traço de julgamento na voz dele.
- "Não. Nunca..." - disse ela, sabendo que as bochechas estavam queimando de vergonha - "Mas eu sei como funciona, é claro."
- "É claro." - disse ele, gentilmente.
Ichiro voltou a se aproximar e ergueu o queixo de Kagome para si, beijando-a na testa.
- "Vamos ter que ir com calma." - falou ele, encarando-a de muito perto - "E você tem que ter certeza."
Kagome deu um impulso com os pés e o beijo de leve nos lábios.
- "Está bem."
Ichiro suspirou fundo, enquanto alisava os cabelos dela, as mãos percorrendo o topo de sua cabeça, indo até onde terminavam os fios, bem depois da cintura.
- "Se eu parar é porque começou a ficar... difícil pra mim... não avançar."
- "Mas você pode..." - começou ela, apoiando as mãos no peito dele, encarando-o - "Você pode ir em frente. Eu quero que vá em frente."
- "Você é virgem, Kagome." - falou ele, sua voz soando firme, quase autoritária - "Eu não vou simplesmente avançar em você. Não posso. E nem é assim que eu quero que seja."
Ela sorriu tristemente e afundou a cabeça no peito dele, entre as mãos que estavam ali apoiadas. Sentiu os braços de Ichiro envolverem suas costas.
Se deixou descansar ali por mais alguns minutos.
A pele dele era incrivelmente macia e sem marcas. Sabia que ele não tinha usado nenhum perfume, mas tinha um cheiro específico ali que ela nunca tinha parado para sentir de fato. Riscou o peito dele com os dedos enquanto suspirava. Sentiu o abraço ficar mais forte.
Levantou a cabeça para encara-lo. Ichiro sorria de leve. Parecia estar tão... em paz.
- "Porque você tá tão feliz?" - perguntou Kagome, rindo - "Pensei que... isso... fosse algo ruim."
Ele sacudiu a cabeça de um lado para o outro, achando graça.
- "Não é ruim, nem bom. É só... algo. Sobre você." - ele dobrou os joelhos para ficar da mesma altura que ela e envolveu sua cintura com os dois braços, suspendendo-a no ar. Kagome riu sentindo seus pés descolarem do chão. Abraçou-o pelo pescoço. Seus rostos estavam na mesma altura, quase colados.
- "Seja como for, tudo o que você tem que fazer é me prometer dizer tudo que sentir..." - ele tocou o nariz dela com o dele - "Se é que você entende."
Kagome sentiu-se envergonhar quando lembrou-se que aquele curto espaço de tempo que passaram juntos já tinha sido mais que suficiente para ela sentir coisas que nunca sequer imaginara antes.
- "Bem, então... Tá."
- "Essa é minha garota."
Ichiro esboçou um sorriso quase infantil para ela, de orelha a orelha, por pouco não mostrando os dentes.
Kagome se lembrou que nunca tinha visto o sorriso dele tão grande. Ela não conseguia recordar se alguma vez ele já havia gargalhado. Sempre que Ichiro sorria, era com os lábios cerrados.
"Talvez em breve eu consiga fazer ele sorrir de verdade."
Devagar, Ichiro colocou Kagome novamente no chão e a abraçou forte antes de despedir-se e desejar boa noite. Observou ela voltar para a casa ao lado, onde Shippou descansava sentado, do lado de fora, perto da porta. Ele riu quando ela quase tropeçou ao tentar entrar de mansinho para não acordar Hatsue.
Ele fechou a porta.
Mas ficou parado ali, durante alguns segundos, como se quisesse absorver tudo o que tinha acabado de acontecer.
Era um sonho?
Ele apoiou as costas na porta, levou uma mão ao peito. Parecia que seus batimentos finalmente tinham voltado ao normal. Mas havia uma euforia dentro dele, qualquer coisa como uma agitação, como um tipo bom de ansiedade. Será que por isso que as pessoas gostavam tanto de se apaixonar?
Era como se estivesse dividido. A certeza de que agora seu coração pertencia a alguém o acalmava... mas ao mesmo tempo o deixava em pânico, vulnerável, como se estivesse a beira de um abismo. Ichiro sentia-se disposto a tudo. Respirava e era como se o ar do mundo inteiro invadisse os seus pulmões. De repente, ele era a pessoa mais corajosa do mundo. E também a mais feliz.
Ele sorriu consigo mesmo e sentiu uma dor fina espetar-lhe as bochechas.
Não se lembrava da última vez que seu rosto ficara dolorido de tanto sorrir.
Deitou-se mesmo sem sono.
Pensava em tudo que ele e Kagome ainda iriam viver. Em todas as coisas que iriam fazer juntos, de estudar a viajar pelo mundo. Sorriu imaginando o quanto Souta ia ficar feliz quando os dois retornassem. Lembrou de como gostava de cantar para ela, tinha que fazer isso mais vezes, tinha que retomar as coisas que mais gostava, pois amar Kagome o fazia lembrar-se de tudo que lhe despertava paixão, como se uma coisa puxasse a outra, tudo interligado.
Inesperadamente, pensou em se reconciliar com seu pai.
Se deu conta que seu coração parecia mais leve. Procurou por algum sinal de ansiedade em seu corpo - porque sempre havia um - mas não achou nada. Era raro. Tão raro que ele nem sabia se algum dia já se sentira daquela forma.
Cada instante mais e mais... completo.
Seu corpo relaxou conforme respirava e escutava os sons da noite. Foi um dia intenso, agitado, ele já ia completar muitas horas sem dormir. Seus olhos já se fechavam sozinhos quanto ele ouviu.
Algo ou alguém o chamando.
Mas não era Kagome. E o que quer que não fosse ela, podia ficar para depois. O cansaço batia em ondas. Sentiu um arrepio e se cobriu, seu corpo aquecendo em volta de si mesmo, a cabeça pendendo, os pensamentos indo embora um a um. Seus olhos já estavam semicerrados quando ele viu uma luz turva e azul lá fora... uma estrela cadente, talvez?
Mas seu corpo clamou por descanso e, com um suspiro profundo, Ichiro sentiu o cansaço de tudo atingi-lo até finalmente ceder ao sono.
