Boa leitura!


Capítulo Vinte e Um

Meu Vizinho e o Natal

Meu celular vibrou outra vez, provavelmente mais uma mensagem de Demetri. Enquanto isso, Edward continuava esperando que eu lhe respondesse.

— Preciso ir para a aula — foi o que falei, estava tensa e não queria falar com ele sobre Demetri, não quando só a ideia de fazer isso fazia meu coração bater rápido de uma forma que sequer compreendi.

— Mas…

— Até mais tarde. — Enfiei o celular na bolsa e saí do carro, andando apressadamente.

Assim que estava sentada na sala de aula peguei meu celular e vi a segunda mensagem de Demetri.

Demetri: Como está sendo sua manhã?

Bella: Ocupada com as aulas, nos falamos depois?

Demetri: Tudo bem?

Bella: Sim, tudo ótimo!

Mandei uns emojis de coração junto e silenciei o celular, me forçando a prestar atenção no que o professor falava. Não me saí tão bem nisso, estava pensando em Demetri, Edward, futebol americano, arquitetura e Percy Jackson.

O dia passou voando e quando me dei conta já estava na lanchonete, olhando em direção à porta a cada cinco segundos. Então, Edward apareceu por fim, seus olhos se encontrando com os meus imediatamente porque eu estava olhando para a entrada do lugar.

Ele seguiu até o balcão e sentou em um dos bancos dali, perto de onde eu estava limpando. Tirou a mochila das costas e me avaliando atentamente, falou:

— Oi.

— Uhum — foi tudo que proferi.

— Você tá legal?

— O que vai querer comer?

Ele respondeu, anotei o pedido e levei para a cozinha. Depois, fui limpar outras mesas, querendo fugir dele e dos seus questionamentos sobre Demetri.

Por que eu estava tão nervosa sobre isso? Parecia que estava escondendo um assassinato e tinha medo de ser pega no flagra.

Quando o pedido de Edward ficou pronto eu o servi e voltei a ficar longe, querendo me acalmar. Não fazia sentido nenhum estar nervosa sobre contar a ele a respeito de Demetri.

Eu amava Demetri, e Edward tinha se tornado um amigo. Seria bom que ele soubesse logo, provavelmente ficaria feliz por mim, amigos ficavam felizes pela felicidade uns dos outros.

Edward terminou de comer e disse que me esperaria no carro para irmos embora, concordei com um sinal positivo e fui acabar de arrumar tudo para sair. Troquei o uniforme por minhas roupas e me uni ao meu falso noivo em seu carro.

— Vai pro meu apartamento? — ele perguntou.

— Vou — sussurrei.

— Certo.

Ele dirigiu e subiu com nossas malas que ainda estavam no carro quando chegamos ao nosso prédio, entrei rapidamente no meu apartamento para pegar umas roupas e deixar minha mala lá. Alice estava com Jasper na sala e eu os abracei por um minuto antes de ir, Rosalie tinha ido dormir no apartamento de Emmett e eu senti a falta dela gritar em mim.

— Oi, Bella! — Benjamin me cumprimentou quando Edward e eu passamos por ele na sala do 505, o outro jogador do time estava ali com seu namorado, um dos caras do basquete.

Demos um rápido oi para eles e fomos para o quarto de Edward, apoiei minhas coisas na mesinha dele e me sentei na cadeira para tirar meus sapatos. Ele estava mexendo no celular, sentado na cama.

Prendi a respiração por alguns segundos, depois respirei fundo e falei:

— Ele é um amigo.

Edward olhou para mim, arqueando a sobrancelha esquerda.

— Demetri?

— Sim. — Me movi da cadeira até estar sentada ao lado dele, concentrando meu olhar em minhas mãos que mexiam no lençol azul do Emo. — Eu morei com três famílias antes de ser adotada por meus pais — contei. — E Demetri já vivia com a terceira família quando mudei, eram os Johnson. Nós ficamos bem próximos, mas eu não o via da mesma maneira que via Jasper, por exemplo, como um irmão. Demetri e eu… Ele foi o primeiro cara com quem transei, eu tinha dezessete e Demetri era um ano mais velho. Mas aí ele viajou para a Inglaterra um tempo depois e perdemos totalmente o contato, até que me mandou uma mensagem em setembro.

Fiquei em silêncio por um tempo, sem desviar o olhar do lençol. Enquanto isso, Edward também permaneceu calado.

— Eu sempre amei ele — murmurei, pensando em como nunca esqueci Demetri, mesmo quando estava com outros caras. — Demetri está no Egito agora, trabalhando em uma expedição.

— Vocês estão… namorando a distância? — Edward perguntou em um tom de voz tão baixo que se eu não estivesse ao seu lado não teria lhe escutado.

— Não, mas espero que a gente fique pra valer e para sempre quando ele voltar. — Por alguma razão minha afirmação parecia muito com uma pergunta, o que fez meu estômago revirar e meu coração palpitar. Eu não entendia nenhuma daquelas sensações, estava tão confusa com tudo. — Meio que combinamos que não iríamos ficar sentados esperando pelo o outro até ele voltar para a Califórnia. — Naquele instante olhei para Edward, que já olhava para mim, deixando com que ele entendesse que aquilo era sobre nosso sexo casual. Seus olhos eram atentos, mas sua expressão era indecifrável.

— Quando ele volta?

— Julho.

— Após o fim do noivado falso.

— É. — Voltei a encarar o lençol. — Pois é.

— Ele sabe sobre isso? O plano Robin Hood?

— Não.

— Você pretende contar?

— Com todo mundo sabendo do noivado, terei que contar a verdade quando ele estiver aqui. — Puxei o ar e minhas pernas para cima, as abraçando. Senti Edward tocar em meus cabelos, o que fez com que eu o olhasse na mesma hora, a mesma expressão vazia de antes estava ali dominando seu rosto.

— Ele vai entender, se você precisar de ajuda para explicar tudo a respeito do plano Robin Hood a Demetri quando for a hora, eu posso ajudar. — Edward se inclinou e beijou o canto dos meus lábios. — Se você o ama durante todos esses anos o cara deve ser alguém legal — disse ao se afastar e ficar de pé. — Vou tomar banho. — Pegou uma toalha em seu armário e saiu do quarto rapidamente.

Eu senti lágrimas acumularem em meus olhos e meu peito apertou, sabia que uma crise de choro estava por vir e nem sabia exatamente porque estava querendo chorar. Levantei da cama, me calcei, peguei minhas coisas e deixei o apartamento 505.

X

Entrei no campo de futebol americano, o time estava terminando seu treino pelo horário, mas pela forma que Edward se movia ainda não parecia cansado. Parei de andar perto dos bancos onde os jogadores reservas e comissão técnica esperavam durante os jogos.

Meu pai estava no campo com os jogadores, combinando alguma jogada com eles, mas me viu ali e acenou. Sorri e acenei de volta, porém logo voltei a me concentrar em Edward, que estava focado na prancheta nas mãos do técnico.

Quando Charlie se afastou os jogadores ensaiaram a jogada e eu senti uma dorzinha por saber que em breve Edward nunca mais entraria num campo para competir para valer, entendia que ele queria seguir outros rumos em sua vida, porém como torcedora aquilo era uma pena. Não só porque ele ficava muito bem em seu uniforme, mas porque jogava tão bem.

O apito soou pelo campo e o treino chegou ao fim, Edward tirou o capacete e meu coração disparou quando ele correu na minha direção sorrindo, dando um rápido beijo na minha cabeça. Estava todo suado, mas ainda assim quis o abraçar, só não fiz aquilo porque o pessoal do time começou a gritar algo que me distraiu.

— Senhora Masen, Senhora Masen, Senhora Masen! — Eu corei e vi Edward revirar os olhos, mas ainda estava sorrindo.

— Você tem algo de importante para fazer no seu apartamento? Ou não precisamos ir daqui direto para o prédio?

— Não, nada importante — neguei.

Aquela terça-feira tinha sido o último dia de aulas antes do recesso das férias de inverno. Eu só não deixei a universidade mais cedo porque fiquei em uma última reunião de um grupo de estudos antes de conseguirmos alguns dias de liberdade, e também porque Edward me daria carona.

— Por quê? — perguntei.

— Precisamos ir a um lugar, mas é segredo. — Meu coração disparou novamente ao escutar aquilo. — Deixa eu ir me trocar. — Se afastou correndo para o vestiário.

Fui falar com meu pai, mas antes mesmo de dizer oi já estava o abraçando apertado.

— Tudo bem? — perguntou afagando meus cabelos.

Não, nada estava bem. Não depois de uma noite inteira acordada depois que deixei o apartamento de Edward, que sequer se importou em ir atrás de mim ou perguntar quando me deu carona aquela manhã o que tinha acontecido para eu sair sem falar nada.

Eu tinha passado a noite chorando, e só naquela manhã entendi o motivo de estar tão sensível nos últimos dias. Era TPM, eu deveria ter melhorado um pouco com a menstruação descendo, mas parecia ainda mais abalada do que antes e o dia inteiro fiquei com vontade de só sentar num cantinho e chorar.

— Bella?

— Sim, tudo bem — menti e meu pai fez com que olhasse para ele. — Só cansada, foi um longo semestre — melhorei minha desculpa, ele não parecia 100% convencido, mas aceitou, me abraçando mais um pouco antes de convidar para jantar. — Edward quer que eu vá com ele para não sei onde — contei ao negar, aquilo fez meu pai sorrir.

— Fico feliz que vocês sejam amigos agora.

Éramos mesmo amigos? Um amigo teria perguntado porque eu sumi do seu apartamento. Talvez Edward fosse apenas aquilo que era desde o dia seguinte ao meu aniversário: um cara para sexo casual.

— Se você ver o Edward diz que fui esperar lá perto do carro dele, tá? — desconversei, abracei meu pai mais uma vez e segui para o estacionamento.

Edward e Emmett apareceram juntos ali minutos depois, e o namorado da minha melhor amiga me apertou em seus braços antes de correr, ou saltitar até seu carro. Meu vizinho riu, eu não tinha entendido tanta animação.

— Para onde vamos? — perguntei para Edward quando entramos no seu carro.

— Já falei, é segredo. E preciso do seu celular. — Esticou uma mão para mim.

— O quê? Por quê?

— Bella, confia em mim.

E eu deveria confiar? De novo, sumi do apartamento dele e não recebi sequer uma mensagem de preocupação. Entretanto, entreguei meu celular para ele, sem conseguir ser durona e negar.

Eu culpava a menstruação, estava mexendo com minha sanidade. E com meu coração que não parava de bater em disparada, talvez devesse procurar um cardiologista.

Edward não deu nenhuma pista durante o caminho até o lugar misterioso, e estranhei ainda mais quando parou perto do prédio em que Emmett morava, após dar algumas voltas em ruas desnecessárias para me despistar. O que tínhamos para fazer lá? Porém, quando entramos no elevador uma luz se acendeu em minha mente. Emmett todo feliz, uma reunião secreta no apartamento dele e meu celular confiscado, sabia o que estava acontecendo.

— Puta que pariu! — eu gritei e Edward riu.

— Você se tocou do que tá rolando? Não posso falar, mas se você adivinhou sozinha estou livre de represálias do Emm.

— Ele vai pedir a Rosalie em casamento! — gritei mais uma vez e pulei no elevador de tão animada que fiquei, Edward me segurou, fazendo com que eu parasse de pular.

— Parabéns, você reconquistou seu celular, mas está proibida de contar isso para qualquer um, especialmente Rosalie.

— E estragar a surpresa? Claro que não! — eu ainda estava gritando. — Mas por que viemos para cá? Ele vai pedir agora? A Rose tá vindo? — O elevador parou no andar de Emmett e eu corri até a porta, tocando a campainha como uma louca.

Emmett abriu a porta e eu o abracei com força, ele foi logo reclamando:

— Você contou, Edward?

— Ela é inteligente, percebeu sozinha e você deu bola. — Edward nos cutucou para que saíssemos da porta e a fechou.

— Rosalie está vindo? Qual a minha parte no pedido? Cadê o anel? Como será? — comecei a questionar Emmett.

— Não, não será hoje. Por isso quis que você e Edward viessem para cá, Jazz e Alice também estarão aqui, preciso contar meus planos para vocês quatro.

— Certo, eles já estão vindo?

— Sim, logo estão aí.

— Eu estou tão feliz! — gritei mais um pouquinho e foi minha vez de saltitar até a sala de estar do imenso apartamento.

Emmett arranjou uma cerveja para si e outra para mim, Edward dispensou por estar dirigindo. E para meu alívio, logo a campainha tocou e Jasper estava ali com Alice.

— Ei, o que tá rolando? — Jasper perguntou quando nos viu. — Por que a gente não podia falar para a Rose que estava vindo para cá?

— Emmett vai pedir ela em casamento! — anunciei e o McCarty me olhou de cara feia, mas eu não estava nem aí, precisava extravasar toda a alegria acumulada em mim. Sabia como Rosalie o amava, sabia como ela ficaria feliz com aquele pedido e minha amiga merecia toda aquela felicidade e muito mais em sua vida.

— Ai meu Deus! — Alice gritou também e Jasper começou a chorar, cruzando a sala para abraçar Emmett, que riu, mas o abraçou de volta.

— Minha irmã te ama tanto, você é tão bom para ela — Jasper dizia, eu me inclinei para Edward, que estava sorrindo vendo a cena e cochichei:

— Viu? Valeu a pena te atropelar com aquele skate, unimos Emm e Rose com aquilo.

O sorriso dele morreu e se tornou em uma expressão magoada, Edward se levantou, caminhando até a cozinha. Eu fiquei ali, sentada sozinha, encarando o lugar que ele tinha deixado vago. Ele ficou bravo por eu o lembrar do seu primeiro jogo perdido? Aquele jogo que Eleazar teria ido assistir se eu não tivesse machucado seu filho.

— Bella, o que foi? — Alice sentou no lugar que Edward estava antes, enquanto Jasper e Emmett continuavam conversando.

— O quê?

— Edward, saiu daqui daquele jeito.

— É, acho que falei merda, vou lá falar com ele. — Fui atrás dele na cozinha e o encontrei fazendo um café na máquina mega cara que Emmett tinha ali. — Foi mal ter te lembrado do jogo perdido.

Ele estava de costas para mim e continuou assim mesmo quando falou:

— Você não precisa se desculpar por nada. Eu que deveria, por estar te fazendo sentir culpa por besteiras da minha cabeça e não fiquei chateado pelo jogo.

— Por que então? — Edward não respondeu.

Andei até ele e o abracei por trás, espalmando minha mão em seu peito e apertando meu rosto em suas costas. Edward estava tenso, eu podia sentir isso pelo abraço, mas relaxou um pouco quando também me envolveu com seus braços, ainda de costas para mim.

A cafeteira apitou, não nos movemos. Continuamos ali, nos abraçando, sem que ele pudesse ver meu rosto, ou eu ver o seu, até que ouvimos Emmett nos chamar da sala.

Edward me soltou, eu hesitei, mas o soltei também. Voltei para a sala ainda sem ver o rosto dele, sentando entre Alice e Jasper. Quando o Masen apareceu ali, estava sorrindo como se nada tivesse acontecido e carregando sua xícara de café já não tão quente assim.

— É o seguinte — Emmett começou a falar quando Edward sentou sozinho numa poltrona. — Quero pedir Rosalie em casamento no ano novo, vocês se lembram que ano passado ela e eu passamos a virada do ano na Times Square e será lá que irei fazer o pedido.

— Espera aí, a Rose torceu o pé nesse virada do ano, teve de usar bota ortopédica por um mês e tudo — Alice interviu com o que eu iria falar.

— Sim, sei que parece estranho, mas nós nos divertimos muito lá. Ela se divertiu, eu garanto, mesmo com o pé torcido. Foi caótico, é um lugar cheio de gente, ela se machucou e passamos a madrugada no hospital, mas estávamos rindo o tempo inteiro e eu só parei de rir quando vi o raio-x dela, não era nada grave, mas comecei a chorar, percebendo que meu amor por ela tinha multiplicado dez milhões de vezes naquele dia. Por isso o ano novo, por isso o mesmo lugar caótico do ano passado, ainda é o mesmo lugar caótico que Rosalie sempre sonhou em passar a virada do ano e quero tornar isso ainda mais importante para ela — Emmett defendeu sua decisão e mesmo que eu não gostasse de pedidos de casamento em datas comemorativas achei aquilo fofo.

— E o que temos que fazer? — Jasper perguntou.

— Arrumar as malas, irão comigo e com Rosalie para New York no ano novo! — foi a vez de Emmett gritar. — Ela vai querer compartilhar o momento com vocês, conheço minha futura esposa para afirmar isso. Então, a única missão é irem conosco e estarem lá para comemorar com a gente.

— Eu vou — falei sem hesitações, também sabia que Rosalie gostaria de comemorar imediatamente conosco.

Olhei para Edward, e não falei uma palavra, mas ele assentiu a pergunta que, sei lá, telepaticamente mandei para ele.

— Também vou — falou para Emmett.

É, eu ia passar outra data importante com Edward. Primeiro a Ação de Graças, depois o Ano Novo.

— Ai, meus pais vão reclamar, mas não perderia isso por nada — Alice disse decidida.

— Muito menos eu — Jasper fez coro. — Não é todo dia que minha irmã fica noiva de um sugar daddy.

Emmett riu e foi dar mais um abraço em Jasper. Depois pediu pizza e jantamos ali com ele, que nos mostrou o anel e choramingou por estarmos comendo sem sua futura esposa.

— Isabella — Edward falou meu nome mais tarde no seu carro, enquanto dirigia até nosso prédio. — Posso passar o Natal na sua casa?

Aquilo me surpreendeu, já que tinha sido bem trabalhoso o fazer ir para a Ação de Graças.

— Seus tios decidiram ir de última hora passar com a família do Carlisle? — foi minha resposta e pergunta, até onde sabia ele iria ficar com os Cullen que estariam na casa deles.

— Não, eles estarão na casa deles com meus primos, Victoria e Leah, mas eu não quero. É o feriado mais… Não sou o maior fã do Natal. — Eu sabia, já que sua mãe tinha falecido perto da data. — E foi divertido estar com vocês na Ação de Graças, foi calmo também — murmurou.

Lá estava meu coração disparado de novo.

— Sim, você pode passar o Natal com a gente.

Ele sorriu e olhou para mim por um segundo antes de voltar a se concentrar na direção.

— O que você vai me dar de presente? — perguntou provocando.

— Você sabe o que me dará? — provoquei de volta e ele respondeu com confiança.

— Eu sei, Ratinha, sei sim.

X

Calcei as botas e estava pronta para a guerra: ir comprar um presente para Edward às vésperas do Natal.

Eu já tinha comprado o presente de todos, as encomendas chegaram nas últimas semanas, mas não pensei em comprar um para ele. Primeiro porque não sabia como ele iria reagir a um, segundo porque não sabia o que lhe dar.

Entretanto, se Edward me daria um presente eu teria de retribuir. Por isso estava indo ao shopping, sem ter ideia ainda do que comprar, mas tinha um cartão e a esperança de encontrar algo legal.

Saí do meu quarto carregando uma pilha de presentes, dos meus pais, de Renée, meu irmão e Renata. Renée passava os natais com a gente e ainda era o aniversário dela no dia vinte e quatro, sempre dávamos uma festa, sendo assim ela e o mimado do Jacob — que eu amava tanto e mimava sim — receberiam mais de um presente.

E eu ainda não tinha combinado com Renata, mas esperava que a gente conseguisse se encontrar algum dia entre o Natal e minha viagem para New York.

— Oi, mamãe Noel! — Rosalie saudou quando passei por ela.

— Amiga, abre a porta para mim — pedi e ela correu até a porta para abrir.

— Você volta antes de eu ir viajar? Ou vai demorar muito na entrega de presentes? — brincou, mantendo a porta aberta.

Ela e Emmett passariam o Natal em Los Angeles, a véspera com o pai dele e o dia vinte e cinco com a mãe do McCarty, eu já tinha dado nas mãos de Rose o presente dos dois, mas com ordens expressas de que só poderiam abrir na data. Alice e Jasper já tinham viajado para a casa dos pais dela aquela manhã, também levando meus presentes com eles.

— Eu volto sim, só falta comprar o do Edward — contei e ela soltou uma risadinha.

— Deixou seu noivo por último? Que feio!

— Tchau, Rosalie! — exclamei e a deixei para trás, sem querer ouvir mais provocações.

No estacionamento ao lado do prédio apoiei as caixas no chão e abri o porta malas do carro de Edward. Eu tinha pedido o carro dele emprestado na noite anterior, para não ficar dependente de uber para buscar seu presente por aí. O meu plano era comprar o presente do Emo e deixar o embrulho junto aos outros na casa dos meus pais, mas, estava mesmo com medo de não conseguir escolher nada para presentear meu vizinho.

Guardei tudo e entrei no carro, resmungando de saudades da minha moto, mas pelo menos o carro era mais fácil para carregar mais coisas. E o carro de Edward era confortável, mas rápido, e bonitinho, com pacotes de M&M's no porta-luvas.

Ok, talvez eu gostasse só daquele carro e de nenhum outro. Era isso.

Assim que pisei no shopping me arrependi da graça, deveria ter contado com a sorte da compra online de última hora. O lugar estava lotado, a cada passo que eu dava esbarrava com alguém e uma promoção numa loja de sapatos, anunciada pelo sistema de som do shopping, gerou uma corrida de dezenas de pessoas e para fugir do caminho daquele povo todo entrei na primeira porta que vi.

— Oi, como posso te ajudar? — uma mulher de cabelos roxos, tatuagens e piercings falou comigo.

— Oi… — Olhei ao redor, percebendo que eu tinha entrado numa loja de instrumentos musicais. — Eu só… — comecei a falar, pronta para sair de lá, sem achar que encontraria o presente certo ali. Até que vi, um violão todo preto pendurado na parede e um sorriso tomou conta do meu rosto. — Quero aquele violão, meu noivo vai adorar!

X

Edward estacionou o carro na frente da casa dos meus pais e antes que saíssemos, ele comentou:

— Você meio que já tem sua casa amarela.

— O quê?

— Quando você comentou sobre De Repente 30 falou sobre ter uma casa amarela. — Apontou para a casa dos meus pais, eu sorri e assenti.

— Sim, meio que já tenho.

Porém, era diferente. Eu amava meus pais e meu irmão, amava aquela nossa casa e como me sentia em um lar ali. Entretanto, queria outra casa amarela em meu futuro, ao lado do meu marido e dos meus filhos.

Filhos… Porque, novamente, eu queria ter filhos e Edward não. Só que isso não importava, claro que não, já que não estava em meus planos ter filhos com ele.

— Vamos! — Saí do carro rapidamente.

Era dia 23 de dezembro, aniversário de falecimento da mãe de Edward. Eu estava a manhã inteira querendo falar algo sobre, desejar meus sentimentos e perguntar se poderia fazer alguma coisa para tornar o dia menos triste, mas achei melhor ficar quieta.

Ao menos por fora ele parecia ok, falando o tanto que sempre falava, comendo M&M's e até questionando:

— Onde eu vou dormir? — Puxou nossas malas até a entrada da casa, enquanto eu procurava por minha chave na bolsa. — Já que Renée estará aqui também, ela vai usar o quarto de hóspedes, né?

— Sim, mas o porão é aquecido, limpo, com um banheiro e aconchegante, você terá um sofá cama lá. — Coloquei a chave na porta. — Agora, se for bonzinho posso te deixar deitar na minha cama.

Ele riu e colocou as malas para dentro, em um tom de voz baixo perguntou:

— Você ainda tá…

— Sim, até amanhã. — Edward sabia que eu estava menstruada, afinal eu estive longe da sua cama e eu da dele nos últimos dias.

— Vocês chegaram! — Jacob surgiu no corredor de entrada gritando, com um gorro de Natal na cabeça.

— Oi, mané! — saudei.

— Bella — reclamou.

— Brincadeira. — Me aproximei dele e beijei sua bochecha corada.

— Vem, estávamos esperando vocês para arrumar a árvore de Natal. — Saiu do corredor apostando corrida consigo mesmo.

Olhei para Edward, que estava muito sério, e falei:

— Você pode ficar no porão se quiser ficar fora disso, tem TV lá e já pode abrir o sofá cama, mas… Se estiver com vontade pode vir arrumar a árvore conosco.

— Vou ter que usar um gorro? — Eu sorri.

— Vai sim! — exclamei, ele revirou os olhos, mas sorriu também.

— Bom, vamos lá arrumar essa árvore.

Nós demos oi para meus pais e Renée, depois fomos guardar nossas coisas, as dele no porão e as minhas no meu quarto. Por fim, voltamos à sala, que tinha cheiro de Natal entre a fragrância de chocolate quente e a do pinheiro.

— Opa, aqui para vocês! — Renée nos serviu com chocolate quente e biscoitos. — Bem-vindo ao Natal, Edward! — Entregou também nossos gorros.

— Desculpa se a Renée te sufocar com o Natal, é que por nascer na véspera ela tende a amar muito a data — papai Charlie explicou para Edward.

— Tudo bem — o Emo disse, meio nervoso, mas colocou o gorro, bebeu o chocolate e comeu o biscoito.

Arrumar a árvore era fácil, e divertido. Eu amava a tradição que tínhamos, algo que meus pais e Renée já faziam juntos antes, mas que incluíram a mim e Jacob conforme fomos entrando na família.

E foi legal ver que aos poucos Edward parecia estar curtindo também, no final de tudo, quando faltava apenas a estrela no topo da árvore, o sorriso no rosto dele era largo e relaxado.

— Edward, me carrega para eu colocar a estrela? — Jacob pediu para meu falso noivo, que para minha surpresa concordou, colocou meu irmão em seus ombros e deixou que ele alcançasse o topo da árvore para encaixar a estrela ali.

Meu coração se apertou, Jake o adorava e o Emo parecia sempre muito de boa com meu irmãozinho, feliz e tudo, como naquele momento que o colocou no chão e apertaram as mãos em comemoração. Edward não queria ser pai, ok, mas eu achava que ele seria um ótimo pai se decidisse mudar de ideia.

X

No dia seguinte outra tradição natalina foi seguida: a festa de aniversário da Renée. Isso queria dizer que logo após a hora do almoço a casa dos meus pais se encheu com amigos de Aro, Charlie e da aniversariante.

— Ei, tudo bem? Você tá bem? — perguntei para Edward quando entrei na cozinha no meio da festa e o vi ali sozinho, comendo Doritos e tomando uma cerveja. — Não estamos esgotando sua bateria social? — Nada demais estava rolando na festa, apenas gente dançando, conversando alto e cantando no karaokê, mas eu já conhecia Edward o suficiente para saber que ele não era a pessoa que mais curtia festas no mundo.

— Um pouquinho — confessou. — Mas estou de boa. — Me esticou o pacote de Doritos e peguei alguns. — O pessoal é legal.

— Muito melhor do que as pessoas chatas que aturamos nas festas do seu pai dos meus avós.

— Nossa, mil vezes — concordou.

— Vou voltar para lá, fica aí recarregando sua bateria social.

— Não, vou com você. — Terminou com seu Doritos e a cerveja, pegamos cerveja nova para nós dois, biscoitos que tinha ido ali pegar para meu irmão, e retornamos para a sala onde todos estavam.

Naquele momento uma amiga de Renée fazia um discurso fofo de parabéns para a aniversariante, depois começou a cantar Girls Just Wanna Have Fun da Cindy Lauper. Avistei Jacob, que estava sendo paparicado por um casal de amigas dos meus pais, e levei os biscoitos que achava que ele fosse querer comer.

— Valeu! — agradeceu animado, já começando a comer e de boca cheia não se conteve e disse. O abracei e beijei sua cabeça, depois o fiz dançar comigo, ele mais pisou em meus pés do que qualquer coisa, mas ainda assim foi ótimo me divertir com Jacob.

Algumas músicas depois, eu estava bêbada e Edward poderia estar calado, mas estava no canto dele todo sorridente e talvez fosse por também já ter consumido tantas cervejas quanto eu. Quando papai Charlie subiu ao "palco" do karaokê para cantar Vogue da Madonna, soltei um gritinho e corri para mais perto, papai Aro estava ali e ficamos cantando e performando a canção juntos.

— Cara, a voz do treinador é tão boa! — Ouvimos Edward e nos voltamos para o olhar.

— Sim, ele poderia largar tudo e viver da voz dele se quisesse — papai Aro disse rindo, voltando a seguir a coreografia comigo.

— Edward, strike a pose¹! — ordenei.

— Ah, com certeza, não — ele negou, corando e rindo.

— Vamos, é assim! — papai Aro exclamou repetindo a coreografia para ele e Edward ficou ainda mais vermelho só de levantar os braços para repetir.

— Não consigo — negou mais uma vez.

— Consegue sim — teimei, segurando em seus braços para ajudá-lo.

Ele riu, mas deixou com que eu o coordenasse como uma marionete. Depois, o deixei por conta própria, e ele repetiu a coreografia que eu fazia como um espelho, tão vermelho quanto um gorro de Natal e rindo constrangido.

— Ok, estou contratado para a próxima turnê da Madonna como dançarino? — perguntou quando a canção acabou.

— Edward, você tem um rosto tão marcante, ficaria incrível maquiado — papai Aro falou olhando bem para o Masen.

— Deixa o papai te maquiar — falei para o Emo, outra vez sendo tomada por um pensamento intrusivo de que a partir daquilo meu pai poderia gostar mais de Edward.

— Eu posso? — meu pai perguntou animado, naquele momento papai Charlie se uniu a gente.

— O que vocês estão tramando?

— Papai Aro quer maquiar o Edward.

— Edward, você não precisa fazer isso — Charlie disse.

— Hum, não sei… — Edward sussurrou. — Sem fotos desse momento? — sugeriu. — Não quero que corra o risco do meu pai ver isso.

— Sem fotos, prometo! — Aro exclamou. — Posso mesmo te maquiar? Vou fazer algo rápido, prometo.

— É, acho que pode — Edward respondeu rindo, papai Aro bateu palmas empolgado e foi atrás da sua maleta de maquiagens.

— Você não precisa mesmo fazer isso — papai Charlie insistiu.

— Tudo bem, vai ser legal. — Meu noivo… Meu falso noivo deu de ombros.

Logo meu pai retornou, levando Edward para um sofá para que os dois pudessem sentar lado a lado. Eu sentei na mesinha de centro ali perto, observando meu pai primeiro começar a limpar o rosto do Emo.

— Eu tinha a idade de vocês quando subi em um palco como Drag Queen a primeira vez — papai contou para a gente, só que eu sabia a história, então de certa forma foi mais para Edward. — Também estava no último ano da faculdade, um amigo já se apresentava e um dia perguntou se eu não queria me apresentar com ele, perfomamos Dancing Queen do ABBA, foi tão legal, nunca mais parei desde então.

— Como você escolheu o nome? — Edward perguntou enquanto meu pai começava a esconder as sobrancelhas dele.

— Judy foi em homenagem a Judy Garland, a atriz de O Mágico de Oz. Passione porque sou descendente de italianos.

— Os seus pais chegaram a assistir alguma apresentação sua?

— Ah não, infelizmente faleceram um ano antes de eu começar a me apresentar — papai Aro se lamentou. — Mas eu acho que eles teriam adorado. — Riu suavemente. — Meu pai era um músico e minha mãe dançarina, eles amavam qualquer expressão artística. Eu nasci nos Estados Unidos, mas só passei alguns meses aqui antes de voltarmos a morar lá, e depois eu retornei para fazer faculdade em New York.

Papai Aro continuou contando mais sobre sua história, com Edward sempre fazendo perguntas e sendo um modelo perfeito para a maquiagem. A festa ao nosso redor continuava rolando, com alguns convidados vez ou outra se aproximando para dar palpites ou apenas contemplar, mas eles voltavam a cantar e dançar, no entanto eu quis ficar ali, observando meu pai e meu vizinho conversando, assistindo a arte de Aro ser colocada em cada pincelada de maquiagem que ele espalhava pelo rosto de Edward.

— Antes de você se olhar no espelho — papai Aro falou em expectativa quando acabou com a maquiagem e ele tinha mesmo razão, o rosto de Edward era bem marcante, o que realçou espetacularmente os tons azuis usados na pintura.

E para muitos a maquiagem poderia causar repulsa, mas em mim só me deu mais vontade de abraçar e beijar Edward. Não pela maquiagem em si, sim por ele ter topado se deixar ser maquiado e por ter ficado todo aquele tempo batendo papo com papai.

— E se você colocasse uma peruca também? — papai terminou sua pergunta, Edward hesitou, mas acabou topando.

— Uma loira? — Ele pegou sua garrafa de cerveja que eu segurava, tomando cuidado para não borrar o batom, mesmo que não tivesse se olhado no espelho ainda.

— Bom, tenho várias loiras! — Meu pai estava mesmo muito animado e foi buscar a peruca, retornando com uma loira imensa.

Eu o ajudei a colocar em Edward, e por fim deixamos o menino se olhar no espelho, Edward exclamou:

— Uau, eu meio que gostei!

— Ficou incrível, Aro — alguém atrás de mim disse.

E outros convidados se reuniram para elogiar e dizer que Edward deveria pensar em ser uma Drag Queen.

— Não é só para pessoas dentro da comunidade LGBTQIA+? — ele perguntou para Aro.

— Não é uma exclusividade, apesar de ser mais comum. Um hétero cis também pode ser uma Drag Queen — explicou. — Agora preciso pegar uma bebida e me brindar pelo meu maravilhoso trabalho, uma obra de arte! — Apertou o queixo de Edward, que riu.

Quando meu pai se afastou, ele olhou para mim e disse:

— Você gostou? — Jogou os cabelos loiros da peruca para trás.

— Eu adorei — sussurrei, ainda encantada com muitas coisas naquela noite. — Escuta, sei que você não queria fotos, mas eu posso tirar umas na minha câmera? Só de você, lá no meu quarto, por favor, ninguém vai ver — pedi, segurando em suas mãos e ele aceitou.

— Sim, você pode. — Seu mindinho se entrelaçou ao meu e subimos até meu quarto.

Peguei minha câmera, deixei a luz do quarto amarelada pelo controle e tirei várias fotos de Edward. Era tão legal tirar fotos dele e naquele dia, com ele todo produzido foi ainda melhor, era como se a lente captasse um Emo não diferente, mas algumas camadas dele que eu não conhecia antes estavam expostas, como aquela que permitia ser maquiado.

Ele fez pose, perto da janela, sentado na minha cama, no chão e por último uma dele se aproximando de mim, antes de tirar a câmera das minhas mãos, colocar na mesinha ali perto e me abraçar. Um abraço quente e gigante, eu sumia em seus braços, mas me sentia bem entre eles, não como se estivesse perdida, pelo contrário.

Quando o abraço terminou, começou a tocar I Want Break Free do Queen lá embaixo, eu fiz Edward cantar e dançar comigo. Nossas mãos entrelaçadas, enquanto rodavamos pelo quarto, performando de forma exagerada, até cairmos em minha cama lado a lado, mas uma vez mindinhos entrelaçados em um aperto seguro.

— Posso te beijar assim? Ou preciso tirar a maquiagem primeiro? — perguntou ao final da canção, seus olhos se encontrando com os meus na pouca luz que iluminava meu quarto na casa amarela.

A minha resposta foi beijá-lo, e suspirar em seus lábios quando suas mãos se perderam em meus cabelos. Seu batom se misturava com o meu conforme o beijo se prolongava e eu desejei que ele nunca chegasse ao fim.

X

Mais tarde naquela noite, apesar de cansados após a festa e ajudarmos meus pais a arrumarmos tudo, Edward — sem maquiagem — e eu estávamos sem sono e ficamos no porão assistindo Modern Family na televisão de lá. Já não estava mais menstruada, mas não estava desesperada por sexo e ele também parecia igualmente tranquilo quanto a isso.

— Qual foi o melhor Natal da sua vida? — Edward perguntou depois de um tempo em que ficamos ali apenas calados assistindo nossa série favorita. Sua pergunta me pegou de surpresa, sem crer que ele estava mesmo querendo conversar sobre o Natal.

— Pergunta difícil.

— Eu sei qual foi o meu — ele falou e pausou a série, seus olhos não se desviavam dos meus.

— E você vai compartilhar? — Eu tinha meus pés apoiados no sofá cama, Edward puxou os seus para cima também e eles se aproximaram dos meus.

— Este Natal — respondeu e não vi uma centelha de dúvida em sua voz ao proferir aquelas palavras, mas algo na minha expressão fez com Edward se explicasse. — Os Natais antes tinham meu pai me deixando tenso, eu falei sobre como idolatrava meu pai até ele trair minha mãe, mas como depois percebi que era pavor. E não posso afirmar nada, mas acho que minha mãe também tinha medo dele, não por ser violento, apesar de não ser o homem mais carinhoso do mundo, sim por ele ser tão exigente. Eu deveria ser o filho perfeito, ela a esposa perfeita. Depois, vieram os Natais pós divórcio, obrigado a estar com meus tios e primos, muitos anos sem meu pai sequer aparecer. E por fim eu perdi minha mãe. Então, sim. — Forçou um sorriso. — Acredito que esse é meu Natal favorito.

— Tecnicamente, pelo horário, ainda não é Natal — murmurei.

— É Natal desde que você disse sim quando eu perguntei se poderia vir, Ratinha. Obrigado por isso, por me deixar respirar um pouco no Natal. — Se inclinou e beijou meu rosto.

Forcei um sorriso e engoli as palavras que quis proferir, não podia dizer que ele poderia aparecer todos os natais. Talvez fosse estranho, quando Demetri chegasse, talvez o melhor fosse cortar Edward totalmente da minha vida quando o plano Robin Hood chegasse ao fim.

— Acho que Renata está me ignorando — mudei de assunto, compartilhando algo que estava realmente me incomodando nos últimos dias.

— Como assim?

— Ela não me responde há dias, já até liguei e olha que detesto ligações — suspirei.

— Aposto que deve ser algum problema com o celular dela — ele falou e pegou o seu do bolso. — Coloca o número dela aqui e manda uma mensagem.

Com incerteza peguei o celular dele, também precisei pegar o meu pois não sabia o número de Renata de cabeça. Salvei o contato dela e mandei uma mensagem, sem me identificar para testar minha teoria.

Número Desconhecido: Oi.

Um minuto depois a mensagem foi respondida.

Renata: Oi, quem é?

Fiquei encarando a tela do celular, percebendo que infelizmente a minha teoria estava certa. Renata não tinha problema algum no celular, ela só estava me ignorando e eu nem sabia o porquê.

— Toma. — Devolvi o celular de Edward, que tinha lido as mensagens e não parecia saber muito bem o que falar, principalmente quando Renata ligou de volta para o contato dele.

Peguei o celular novamente, ignorei a chamada e bloqueei o número dela.

— Bella…

— Tá tudo bem. — Larguei o celular dele entre nós dois. — Eu vou dormir, até amanhã! — Eu deixei o porão, segurando o choro que só me permiti chorar quando estava escondida debaixo dos lençóis do meu quarto.

Por boa parte da noite esperei Edward ir atrás de mim, ele não fez isso. Por boa parte da noite esperei Renata mandar uma mensagem e falar que algum problema em seu celular fez ela não ver minhas mensagens, ela não fez isso.

A dor, mental, que tomou conta de mim durante aquela noite era uma velha conhecida. Em minha cabeça uma palavra me assombrava: abandonada, abandonada, abandonada!

Como um fantasma, às três da manhã, enrolada em lençóis, eu deixei meu quarto. Bati na porta dos meus pais e papai Aro abriu a porta, falei três palavras e logo estava sendo acolhida num abraço por ele e papai Charlie.

— Renata me abandonou.

X

Nada parecia que iria me animar na manhã seguinte, nem as músicas natalinas, ou os presentes. Mas, quando Jacob foi me buscar no quarto dos meus pais, onde eu tinha dormido depois de muito choro no colo deles, eu dei meu primeiro sorriso do dia.

— Papai Aro disse que você não estava se sentindo muito bem, mas eu não tô nem aí! — exclamou pulando na cama ao meu lado. — Você vai descer e abrir os presentes comigo.

— Estou com dor de cabeça, Jake.

— E daí? Ainda precisa descer comigo, não é Natal sem você lá, Bella.

Então, eu sorri. Amando ainda mais aquele garotinho ao escutar sua fala, eu o puxei para mim e o abracei com força, depois fizemos uma batalha de cócegas e finalmente concordei em descer.

Dei uma passada no banheiro e encontrei Jacob e os outros na sala de estar, meus pais, Renée e… Edward, que me lançou um olhar preocupado que retribui com um sorriso.

Jacob, Edward e eu sentamos no chão, enquanto a troca de presentes acontecia. Meus pais me deram livros, Renée me deu roupas, Jacob me deu uma capa nova para meu Kindle e Edward colocou em minhas mãos um embrulho que parecia ter uns trinta centímetros.

Eu desembrulhei, ansiosa para saber o que era, e me deparei com uma tela. Uma tela pintada com um desenho que sabia ser de Edward, um desenho que me retratava, sabia disso também.

Estava de costas, cabelos soltos, usando um moletom, com um livro em mão. Além de mim e do livro, tudo mais que a pintura expunha era o céu ao anoitecer.

Aquela pintura mexeu comigo, era tão linda e ninguém antes já tinha me desenhado. Olhei para Edward, que tinha expectativa sobre minha reação.

— Eu amei — sussurrei e um grande sorriso tomou conta de seus lábios.

— Você reconhece?

— Não?

— É do hotel em Palo Alto, quando estavamos lendo Percy Jackson — sussurrou de volta e aquilo me pegou ainda mais desprevenida.

Ele tinha feito um desenho meu sobre algo que tínhamos vivido há tanto tempo atrás? Era… Caramba, era fofo e atencioso.

Eu me movi pelo chão até poder abraçar Edward, que devolveu o abraço, mas não permitiu que ele demorasse muito. Depois, deixei meu quadro em um lugar seguro e entreguei para o Masen a grande caixa — que tinha sido embrulhada na loja do shopping de forma que não desse na cara ser um violão — com seu presente.

— Ah, pensei que esse fosse para mim — meu irmão protestou, enquanto brincava com o avião de controle remoto que eu tinha lhe dado, o que não era o brinquedo mais seguro para o interior de casa.

— É meu mesmo? — Edward perguntou desconfiado.

— Sim, abra.

— Isso, abra logo, estou curioso — Charlie disse do sofá.

— Eu estou magoada que Edward só deu presente para Bella — Renée provocou e ele corou.

— Ignore, abra! — ordenei e ele começou a abrir a caixa, seus olhos brilhando quando viu o violão, mas logo depois estava dizendo:

— Bella, não, ele parece caro, você pode devolver e conseguir o seu dinheiro de volta.

— Calado e aceite seu presente.

— Você pode tocar algo — Renée sugeriu e ele ficou mais vermelho do que antes.

— Não vamos obrigar o Edward a nada, ok? — falei para os outros.

— Até porque temos algo para você, Bella. — Charlie e Aro ficaram de pé.

— O quê? Vocês já me deram presentes.

— Vistam casacos e venham com a gente — papai Charlie disse para todos, fizemos isso, eu mais ansiosa do que todos e saímos de casa pela porta da frente, foi quando realmente me surpreendi com o que tinha lá fora.

— Ai caramba! — Eu corri até a moto amarela que tinha um laço rosa pendurado.

Eles estavam me dando uma moto nova, eram os melhores pais do mundo. Corri novamente até eles e os abracei, enchendo seus rostos de beijo também.

— Obrigada, obrigada, obrigada.

— Pensamos em te dar um carro, mas sabemos que você prefere motos e isso te faria mais feliz — papai Aro falou em um suspiro.

— Eu amo muito vocês! — gritei e pulei, pegando com Charlie a chave da moto. — Ela estava escondida na garagem?

— Na do vizinho, você não quer mesmo trocar por um carro?

— Não, eu com certeza prefiro a moto. Edward, você não precisa mais me dar caronas! — comemorei e ele sorriu, no instante que percebi que sentiria falta das caronas e de passar um tempo no carro com o Emo.

X

Eu estava no meu quarto aquela noite, lendo em meu Kindle um conto de Natal, quando o celular vibrou. O peguei e vi a mensagem de Edward.

Emo: Oi, acordada? Desce aqui.

Saí da cama tão rápido que não sabia como não tinha caído, larguei o Kindle e o celular na minha cama e desci até o porão, me senti meio boba por isso, como se eu não conseguisse dizer não para o Masen.

O sofá cama estava armado e ele sentado ali, com seu violão em mãos. Me juntei ao jogador, que entregou seu celular, aberto em uma letra de música, se chamava Mania de Você da Rita Lee e pelas informações no site era uma canção brasileira.

Edward começou a tocar e eu reconheci na hora, era a mesma música que ele tocou no aniversário de Peter e tinha dito ser de uma cantora do Brasil. O Emo não cantava, mas eu acompanhei a letra traduzida para o inglês pelo celular.

Era uma canção sensual, em uma composição tão gostosa. Em determinado momento deixei o celular de lado e fiquei ali só observando Edward tocar e quando suas mãos pararam de trabalhar no violão, eu sabia que queria elas em mim.

Puxei a minha camiseta pela cabeça, na verdade a camiseta de Edward que eu tinha desde que o rato me expulsou de casa, a jogando para o chão. Ele suspirou, também colocando o violão no chão, me puxou para si e seus lábios encontraram primeiro meu pescoço.

Edward me deitou no sofá cama, sua boca ainda em meu pescoço, provocando gemidos que escapavam de mim. Eu senti meu corpo todo estremecer quando seus lábios desceram até os seios que tinha deixado completamente expostos para ele, Edward os beijou, os tocou, os chupou.

E enquanto fazia tudo isso sua mão esquerda desceu até minha calça de pijama, ultrapassou a barreira da calcinha e me tocou onde eu já estava bem molhada. Seu dedo deslizou para meu interior, eu o apertei, meu mamilo direito foi mordiscado, eu contive um grito, que se transformou em um longo gemido.

— Edward…

As suas mãos e sua boca me deixaram, mas por pouco tempo, até ele retirar minha calça e calcinha, que ficaram emboladas ao pé do sofá cama. Meu clitóris foi seu próximo alvo, um tiro perfeito, me fazendo suprimir outro grito para não acordar a casa inteira.

Eu fiquei hiper consciente de tudo enquanto a boca dele estava em mim, os cheiros, os sons, a sua língua em mim, o teto do porão que encarava e o desejo de sentir o gosto dele também. Entretanto, não tive tempo de pedir que ele me deixasse chupá-lo, não quando logo ele parou de me chupar, deixando a cama e voltando com uma camisinha.

Edward tirou suas roupas, calça moletom e camiseta como eu usava antes, em um piscar de olhos. Colocou a camisinha e veio por cima de mim novamente, sua testa apoiada na minha, conforme seu pau se encaixava no meu corpo.

— Você é lindo — eu me vi murmurando, apreciando seus olhos verdes, seu nariz, suas bochechas coradas, seus lábios, os cabelos ruivos bagunçados.

— Você é linda — falou de volta. Eu não lembrava se era a primeira vez que ele falava isso, não sabia se era verdadeiro, ou apenas motivado pelo tesão, mas abracei aquelas palavras.

Abracei Edward, deixando com que ele fosse mais fundo em mim. Seu rosto se perdeu em meus cabelos, eu cheirei seu pescoço como se todo o oxigênio do mundo estivesse ali, apertei meus dedos em suas costas e o ouvi dizer:

— Bella.

Só Bella, nada mais, somente meu apelido oficial escapando por seus lábios.

Nossas peles estavam se tocando por completo, a sensação dele encostando em mim era eletrizante e relaxante. Eu me acendia com ele, mas também apagava como nas noites que dormíamos juntos em uma conchinha onde eu era a mochila em suas costas.

Edward segurou minhas mãos, dedos entrelaçados que pareciam que nunca se soltariam. Sua testa voltou a se apoiar na minha, olhos verdes com pupilas dilatadas, lábios entreabertos, seu quadril vindo de encontro ao meu com a força necessária que ambos precisávamos.

Eu gozei, os gritos mais uma vez abafados por gemidos, clamando o nome dele como se fosse a minha palavra favorita no mundo. E naquele momento, considerei ler um livro todo apenas com as páginas cheias de Edwards, porque eu queria mais dele, bem mais, poderia ser uma saga de incontáveis livros.

Um beijo cobriu minha testa, meus olhos que tinham se fechado voltaram a se abrir para ele. Os dele tinham se fechado, seu rosto foi para meu pescoço e ele ficou ali, me fodendo, me segurando em suas mãos, me fazendo querer nunca sair daquele sofá cama.

Outra palavra dominou meu cérebro, casa. Duas palavras a seguir, nossa casa.

— Bella — gemeu contra meu pescoço, ele gozou, suas mãos soltaram as minhas e cedo demais ele me deixou.

As páginas dos livros desapareceram, a casa desapareceu. Eu me encolhi no sofá cama quando ele foi para o banheiro, estava frio, mas quando Edward voltou e me aqueceu num abraço nu, me senti novamente em casa.

Apertei meus olhos, flashbacks dos últimos meses desde o aniversário de Rosalie e Jasper invadiram minha mente. Edward e eu no carro dele, dividindo M&M's, conversas que nunca tínhamos tido, sorrisos, conspirações, uma piscina em Palo Alto, um livro em comum, um plano, um restaurante francês, fotos e mais fotos, jogos, um quadro, um Natal, uma transa.

Meu coração apertado, a vontade de estar com Edward. Preocupação quando ele contou sobre seu futuro profissional. Carinho quando ele cuidou de mim depois do assalto. A raiva por ele não querer o mesmo que eu, nada de filhos.

— Dorme aqui comigo? — pediu, beijando meu ombro.

Eu não poderia dormir, não quando me dei conta do óbvio. Estava apaixonada por Edward Masen, tão apaixonada que doía profundamente saber que nunca ficaríamos juntos para valer, era só sexo e um plano para ele.

O futuro dele, sem filhos, não se encontrava com o meu, com crianças e um marido em minha casa amarela. Entre nós, tudo acabaria no instante em que dez milhões de dólares fosse doado.

E eu não sabia como, mas teria de deixar a paixão por ele morrer. Edward não era meu cara certo, estava bem longe de ser, não era o Matt para minha Jenna interior.

— Estou cansada, quero ficar só no meu quarto.

Fiquei de pé, recolhi minhas roupas e as vesti, ignorando o rosto dele para não ceder.

Ele não está apaixonado por você. Eu repetia para mim. Ele não te procurou quando você desapareceu do apartamento dele. Fica no Demetri, Demetri, Demetri.

Praticamente corri até meu quarto e ao alcançar meu celular, mandei uma mensagem para Demetri.

Bella: Você vai casar e ter filhos comigo um dia?

Ele respondeu, quase na mesma hora.

Demetri: Eu sonho em casar e ter filhos com você desde sempre.

Era isso, Demetri era o cara certo. Deitei na minha cama, ainda sentindo o cheiro de Edward em meu corpo, mais alguns minutos e iria o lavar de mim, iria lavar o choro por ele não sentir, ou querer, o mesmo que eu.

Minha casa amarela não teria desenhos do Masen, não teria suas camisetas, não teria M&M's escondidos em bolsos, ou crianças jogando futebol americano com o pai no quintal. Não teria fugas de pantufas para restaurantes, não teria maratonas de Modern Family, não teria canções brasileiras no violão e não teria aqueles olhos verdes, ou as costas que eu dormia abraçando, mas estava tudo bem.

Eu ia superar, aquela paixão boba iria desaparecer e depois do plano Robin Hood Edward seria só o padrinho de Rosalie e Emmett, uma figura distante que eu veria de vez em quando. Meu futuro era com Demetri, isso estava traçado desde o momento que naquela casa amarela eu perdi a virgindade com o garoto que estive apaixonada por toda minha adolescência, por toda minha vida.

Fechei os olhos. Mais flashbacks não solicitados.

Você é linda.

Bella.

A voz dele estava em mim, seu cheiro, seu gosto, sua pele. A imagem dele, sua testa colada à minha.

Porém, no futuro, tudo aquilo seriam apenas fragmentos perdidos de memória. Fechei os olhos com mais força, tentando visualizar o rosto de Demetri, mas o de Edward roubava a atenção.

Mais um flashback. Um skate, um grito, uma batida, uma queda.

E se eu nunca tivesse acertado ele com o skate? E se as coisas tivessem sido diferentes desde o começo? E se ele nunca tivesse pensado em pedir Kate em casamento? E se Demetri nunca tivesse reaparecido?


Beijos!

Lola Royal.

08.08.23