Agosto de 2019:
Eu caí com tudo no chão frio de algum lugar. Meus pensamentos ainda estavam confusos, mas a dor no meu braço me fez lembrar de algo.
Sentei-me rapidamente no chão asfaltado e olhei para o meu pulso...
Ali estava uma linha negra e nunca pensei que essas linhas iriam escurecer, nunca pensei que um dia iria ver a linha de Draco Malfoy escura como uma noite sem estrelas. Ele tinha se ido, ele se foi primeiro e me deixou sozinha.
Quero ressuscitá-lo e batê-lo até que minhas mãos ficassem em carne viva. Meus olhos ardiam e minha pele também, a música que estava na minha cabeça parou de tocar e meus olhos queriam se fechar para dormir, mas eu não podia.
Eu tinha que salvar o meu bebê e aquelas pessoas não tinham um vira-tempo, espero que realmente não tenham.
Levantei-me e olhei para as minhas roupas desgastadas e sujas. Não me importava com isso, mas eu não queria aparecer assim na frente do meu garotinho.
Olhei para os lados e eu estava em algum bairro trouxa. As luzes dos postes estavam acesas e isso era um pouco acalentador. Fui em direção dos fundos de uma casa e enquanto meus pés batiam no chão frio, tentava achar alguma coisa na minha bolsa que pudesse me ajudar.
E eu encontrei uma varinha marrom, mas ela queria se soltar da minha mão e ir para um lugar bem longe de mim.
_ Se você voar ou se quebrar quando eu fizer um feitiço, vou consertar você e lhe dar uma morte dolorosa, vou tirar fibra por fibra de seu corpo. Então é melhor você funcionar direitinho. - Sussurrei para a varinha e ela parou de se mexer e ficou parada em minha mão.
Tento abrir a porta dos fundos de uma casa, mas estava trancada. Isso não era problema para mim e nem para nenhum bruxo.
Abro a porta e entro na casa sentindo duas pessoas no andar de cima, caminho até o segundo andar sem fazer barulho.
Odiava escuridão, mas eu não poderia fazer um lumos, infelizmente.
Vejo uma porta aberta e tinha duas pessoas na cama, não fico os observando e os invejando por dormir. Eu apenas apontei a minha varinha para a primeira pessoa e vi o seu corpo parar de se mexer. Apontei a varinha para a segunda pessoa e falo novamente o feitiço da morte.
Faço um feitiço para detectar outras pessoas na casa, mas não tinha ninguém, nem mesmo um gato, um cachorro ou um rato andando pelos encanamentos.
Saio do quarto e entro em um banheiro. Retiro a minha bolsa e a varinha e os coloquei em cima do balcão. Tiro o vira-tempo e minhas roupas e os deixo no chão.
Começo a tatear a parede do banheiro e quase dei de cara com o box de vidro. Mesmo com um pouco da luz do poste entrando dentro do banheiro, eu não conseguia enxergar o vidro do box.
Abro o box e ligo o registro do chuveiro.
Não fico muito tempo no banho, mesmo eu querendo esfregar a minha pele até que ela ficasse em carne viva, mesmo que eu quisesse apenas chorar sentada no chão desse banheiro e esquecer de tudo. Eu não podia fazer isso.
Não podia deixar o meu bebê em um passado desconhecido, preciso salvá-lo.
Fechei o registro e não peguei uma toalha para me secar ou lavei os meus cabelos com aqueles produtos que provavelmente eram caros. Tinha pressa para salvar o meu pequeno.
Eu não estava com paciência para procurar coisas dentro da minha bolsa, então eu fiz um accio e achei rapidamente o que queria. Coloquei roupas confortáveis e até coloquei uma capa que escondia completamente o meu rosto, que provavelmente estava destruído, cheio de marcas e hematomas, já que eu podia sentir os meus lábios rachados. Mas eu não tinha sapatos... Tudo bem, eu não me importava com isso.
Espera, precisava escovar os dentes, talvez eu esteja com bafo... Dragon estava tão perto, ele deve ter sentindo um nojo horrendo...
Procuro no armário uma escova lacrada e tinha. Pego a pasta e começo a escovar os meus dentes, não precisava de muita luz para isso. Enxaguei a boca e faço a escova evaporar, eu não podia deixar mais coisas que poderiam me incriminar. Já basta as minhas digitais.
Coloco a roupa suja dentro da bolsa e peguei as minhas coisas para sair dessa casa, mas antes que eu fizesse isso, fiz que o cano de gás se rompesse.
Vamos fazer uma grande explosão como despedida para esse ano. Vamos matar alguns trouxas e dar um belo trabalho para aquele ministério.
Saio da casa e andei por algum tempo. Comecei a procurar alguma coisa dentro da bolsa que Draco colocou dentro da minha bolsa. Isso era confuso.
Retirei um amontoado de correspondências e deveria ter pelo menos umas duas mil cartas, para que tantas? Fiquei parada e digo apontando a minha varinha para o bolo.
_ Accio Escorpião. - Uma carta saiu do amontoado e ficou flutuando na minha frente.
Jogo as outras cartas dentro da bolsa e leio a carta que na verdade não era uma carta e sim, um bilhete. Para que gastou envelope se não era uma carta? Draco, você me prometeu que teria uma carta me explicando sobre o motivo de Scorpius estar no passado e isso... Isso é nada mais que o ano que ele está.
Seu estúpido!
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"Vá para 1981, você se lembra quando Potter quase morreu, não é?"
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Que grande notícia, vou ver a pessoa que eu não queria ver. Claramente não estou falando do Potter e sim, do sem nariz, faço de tudo para ficar o mais longe dele, mas sempre acabo ficando cada vez mais perto.
O destino gostava de me foder, esperava o grande dia para eu fazer o contrário.
Tudo bem, não posso lamentar muita coisa, tenho que salvar Scorpius e por ele, pela família Malfoy, eu faria de tudo, até mesmo matar o Lorde das Trevas, mesmo que isso me matasse logo em seguida.
Olho para a casa onde tomei banho e lanço um feitiço em direção da casa e a vejo explodir, o ar quente da explosão fez a minha capa balançar e meu capuz acabou caindo nos meus ombros.
Várias pessoas começaram a acender a luz e sair de suas casas ou abrir as janelas para ver o que tinha acabado de acontecer.
Algumas residências sofreram as consequências da explosão, nada demais. Por enquanto. Lanço mais alguns feitiços e vejo outras casas explodindo ao longe.
Espero que a ministra goste do meu presente de despedida.
Desaparato dali e vou para outro lugar. Antes de usar esse vira-tempo eu tinha que saber como funcionava. Não queria viajar para a era dos dinossauros e ficar presa lá sem a chance de voltar.
Olhei em volta e eu me vejo em um parquinho de criança trouxa. Não sabia que lugar era esse, mas não me importava.
Fui até o balanço que tinha correntes grossas segurando a tábua e me sentei. Comecei a observar o vira-tempo e ele era muito bonito, era feito de ouro e tinha como colocar a data e o ano que você queria ir. Mas o local, bom, não tinha como colocar, talvez com força do pensamento eu conseguisse, afinal, esse objeto era mágico e tudo era possível.
E eu não podia para Godric's Hollow, eu seria capturada novamente e dessa vez eu não teria ninguém para entrar na minha frente para levar a maldição Avada...
Volto a olhar o vira-tempo e não tinha nada de errado com ele, e parecia tão bem-feito. Tinha uma pontada de inveja no meu coração, mas não queria pensar nisso agora.
Então eu coloquei o vira-tempo no meu pescoço e coloco a data no objeto e desapareço dali para nunca mais voltar.
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31 de outubro de 1981:
Olhei para os lados e comecei a andar por aquela comunidade bruxa, eu estava na inesquecível Godric's Hollow. Realmente era apenas na força do pensamento que eu conseguia ir para qualquer lugar.
A dorzinha de inveja começou a ficar mais forte. Esse Nott era muito bom, eu queria saber como ele conseguiu fazer dois vira-tempo em poucos anos. Talvez um dia eu descubra.
Mas agora eu não podia apreciar a arquitetura medonha e brega desse lugar. Essas casas eram tão feia que até a minha antiga cela ganhava desse lugar.
Olho em volta e tento ver para onde eu iria. Não sabia a localização da casa dos Potter, não sabia o horário que o sem nariz iria atacar ou sabia alguma coisa desse lugar. A única coisa que eu sabia era que esse lugar era uma comunidade bruxa e que no futuro teria trouxas andando por aí.
Sigo para a direita e começo a andar rapidamente, eu tinha que olhar para todos os becos, para todos os esgotos e até mesmo para o céu. Eu tinha que encontrar uma criança que eu não vejo há mais de dois anos. Ele teria mudado muito? Eu sei que pelo menos os seus cabelos iriam me informar se era ele, cabelos loiros eram notáveis a noite.
Mas meus pés não aguentariam por muito tempo, mas tinham que aguentar. Esse corpo inútil tinha que servir para algo.
Vejo duas pessoas sentadas no meio fio e conversavam baixinho. Eu não conseguia ver os seus cabelos, mas dentro de mim, tinha uma voz dizendo que era ele, que era o meu bebê.
_ Scorpius? - O chamei me aproximando e o garoto me olhou. Era realmente eles, isso que eu estava sentindo era alívio?
Os dois se levantaram e ficaram prontos para correr. Eu seria exatamente assim.
Levantei as minhas mãos em rendição, mas não adiantou muito, já que eles olharam para a mão que segurava a varinha. Eles não voltaram ao normal, eles realmente estavam pensando na possibilidade de correr ou de tentar usar magia sem varinha. Draco deveria ter ensinado a ele.
_ Scorpius, sou eu. - Abaixei a minhas mãos e guardei a varinha e andei até ele.
_ Não te conheço. - Disse ríspido, tão Malfoy, tão Sonserino.
_ Sua primeira magia foi feita quando você tinha 4 anos, você quebrou o vaso da tia Cisa e você correu para o ministério e veio até mim. - Ele não estava mais com a posição que iria correr, mas estava me olhando confuso.
Eu mudei tanto assim? Ou era por estar escuro? Ou meu rosto estava muito deformado para que ele se lembrasse de mim?
_ Não abaixe a guarda, pode ser Delphini. - O garoto ao seu lado falou, provavelmente deve ser o Alvo, o Potter que entrou para Sonserina.
Como sei disso? A última carta de Scorpius em 2017.
_ O que eu disse quando...
_ Você disse que era um homem e não poderia chorar, e eu disse que você podia. Seu pai disse que chorou por um passarinho e nós dormimos desconfortáveis enquanto você dormia confortável.
Ele correu até mim e me abraçou, ele estava grande, já estava do meu tamanho esse pirralho. Meu bebê, meu bebezinho. O abracei fortemente e a dor de perder o meu irmão fez arder os meus olhos, mas eu não podia chorar na frente dele, não podia. Eu tinha que ser forte.
_ Segunda mãe. - Chorou e enfiou a sua cabeça no meu pescoço. _ Senti tanta a sua falta, segunda mãe.
_ Também senti, meu bebezinho. - Ele riu.
_ Não sou um bebê há muito tempo, segunda mãe.
_ Mas para mim sempre será. - Beijei a sua testa.
_ Ei, não temos tempo para isso, aquela louca vai atrás do pai. - Olhei para o garoto e ele me olhou com raiva. _ Eu vi você nas memórias do Scorpius...
_ Mas não era ela, não era a minha segunda mãe. - Scorpius me olhou e mordeu os lábios. Ele se distanciou de mim e fiquei confusa. O vejo secar o seu rosto e ele ficou um pouco vermelho, fofo.
_ O que ele está dizendo?
_ Segunda mãe, muitas coisas aconteceram, a mamãe morreu e o papai ficou arrasado, a única coisa que o tirava da depressão era escrever cartas para você. Eu espero que ele também tenha colocado as minhas naquele bolo de cartas.
_ Astoria morreu? Como? - Ele perdeu o pai e a mãe... Pelo menos os meus tios irão cuidar dele. Isso me conforta um pouco.
Não podia levá-lo comigo, seria perigoso.
_ A maldição. - Ele ficou triste e alisei seu rosto.
_ Sinto muito por não ter estado nesse momento tão delicado para a nossa família.
_ Está tudo bem, eu entendo o motivo de você não estar conosco e o que o Alvo está dizendo é que eu fui para um futuro que aquele homem ganhou a guerra. Eu não sei se papai contou, mas acabamos brincando algumas vezes com o tempo...
_ E foi tão ruim assim? Me explique.
_ Não temos tempo, mas eu posso te dar as minhas memórias.
_ Você sabe o feitiço de duplicar lembranças, não sabe?
_ Papai me ensinou. - Sorriu e procurei vidrinhos dentro da minha bolsa.
Entreguei a ele os vidrinhos e ele colocou as suas memórias ali. Eu as guardei e o observei. Ele olhou para baixo e para os lados, mas disse:
_ Nessa realidade você estava ao lado dele. De Voldemort.
_ E o que eu era?
_ A diretora de uma escola que não existe nesse mundo e era a melhor amiga da esposa daquele homem. Eu a conheci, mas eu não vi aquele homem, também não tive a vontade de conhecê-lo.
_ Eu fiz algum mal a você? - Perguntei aflita.
_ Não, mas também não me reconheceu como o seu afilhado. Você me disse que o único sobrenome que aceitava era Slytherin. Algo meio estranho.
_ Slytherin? Não existe mais esse sobrenome há tanto tempo. - Será que acabei sendo uma parenta do fundador?
_ Vocês podem conversar depois, temos que impedir uma louca de contar certas coisas para aquele homem.
_ Eu só queria entregar o vira-tempo para vocês, mas vejo que vou ter mais trabalho. - Bufei e começamos a andar.
Segurei a mão de Scorpius e ele apertou a minha mão.
_ Pensei que o papai iria vir junto.
_ Sobre isso... - Fui interrompida.
_ Ali, é aquela mulher e ali está aquele homem. - Vejo uma mulher de cabelos brancos e com algumas mechas em azul indo em direção de um homem com capa negra em seu corpo.
_ Fiquem aqui. - Eles concordaram e ficaram dentro do beco e apenas colocaram as cabeças para fora.
Respirei fundo e coloquei o capuz, eu só pedia a Merlim que aquele homem não olhasse para nós ou que pensasse em me matar, não queria que isso acontecesse justo hoje. Tiro a minha varinha e pedia a tudo que era Deus que me ajudasse.
Vejo que ela estava nervosa e iria falar algo, mas eu a faço ficar com as pernas presas e antes que ela gritasse ou proferisse o contrafeitiço. Eu a faço desmaiar.
Fácil, muito fácil para o meu gosto. Vou até a mulher e me agacho no chão para confirmar se era realmente um ser humano e uma mulher e realmente era. Mas foi tão fácil, tem certeza de que essa mulher era a filha do Lorde?
_ Quem são vocês? - Olhei para cima e vejo uma pessoa com um rosto tão bonito e de olhos tão vermelhos que me lembravam a sangue. _ Responda-me. - Apontou sua varinha para mim. Essa varinha...
Era o Lorde e a pessoa que eu não queria ver nem pintada a ouro.
Mas algo me chamou atenção, ele tinha nariz, santo Merlim, ele tinha nariz. Até que era bonitinho.
_ Eu sou apenas uma fiscal de realidades e essa pessoa iria acabar matando o senhor. Não queremos que seus planos deem errado. Então, até mais. - Eu me levantei e levitei a mulher, mas o meu braço foi agarrado.
_ Não sou idiota. - Pensei que fosse.
_ Se não é idiota, não deveria... - Não posso falar. _ Faça uma boa matança, meu senhor. O futuro é esplêndido com o senhor no poder. Até algum dia no futuro. - Retiro sua mão do meu braço e saio dali.
Ando devagar e não olho para trás, eu só espero que ele volte para o lugar que deveria estar. Vamos lá, seja mais uma vez burro e idiota que eu sei que você é.
Mas não posso dizer que ele era fraco, para um mestiço, ele tinha muito poder e era sufocante, pensei que eu fosse morrer por asfixia. Não sei como eu consegui falar com ele. Foi legal.
Encontrei os garotos no beco e deixei a mulher no meio dos dois.
Retirei o vira-tempo do meu pescoço e entreguei nas mãos de Scorpius.
_ Na próxima vez não brinque com o tempo, ele é muito perigoso.
_ Segunda mãe, por quê...
_ Scorpius. - Me ajoelhei no chão e segurei suas mãos. _ Seu pai foi um homem extraordinário e eu me sinto muito feliz por tê-lo conhecido. - Peguei um vidrinho dentro da minha bolsa e retiro uma memória, era a morte do meu irmão. _ Aqui, com essa memória você vai saber do que eu estou falando. Eu só espero que você me perdoe e me entenda. - Guardo a varinha.
_ Segunda mãe, o que você... - Eu o abracei e beijei as suas bochechas.
_ Saiba que a família Malfoy foi a minha primeira família e me deu tudo que sempre desejei. Fui feliz mesmo estando naquele lugar e apenas me perdoe. - Cheguei perto do seu ouvido e sussurrei. _ Eu vou mudar tudo e vou fazê-lo continuar vivo.
Ele me olhou perplexo, coloquei o vira-tempo no seu pescoço e me levanto do chão.
_ Vão, vocês precisam retornar.
_ Mas e você? - Alvo me perguntou.
_ Se ela voltar, ela vai ser morta. - Concordei. _ Espero que você continue sendo a minha segunda mãe. - Ele levantou o dedo indicador e me mostrou um anel. _ O anel Avery é bonitinho. - Sorriu e levantou o seu mindinho. _ Me prometa que vai me levar para a estação.
_ Prometo. - Entrelaço os nossos dedinhos e faço os nossos dedões se beijarem.
Mordi meus lábios para não chorar na sua frente. O vejo dar a mão para Alvo e Alvo segurou a mulher.
_ Te vejo quando eu nascer. - Ele sorriu e girou o vira-tempo. _ Te amo, mamãe. - Ele desapareceu e eu não suportei mais a dor dentro do meu peito.
Caí de joelhos e comecei a chorar como uma criança. Tento tapar a minha boca para não sair nenhum soluço, mas não consegui conter. Era doloroso demais perder sua família para o tempo.
Um foi tirado de mim pela morte e outro pelo tempo...
Eu não nasci para ser feliz? Eu nasci para ser usada e massacrada pelas entidades? Por favor, eu não aguento mais.
_ Chorar sozinha no escuro não é uma das melhores situações. - Não conhecia essa voz, olhei para a pessoa e era uma senhora. _ Vamos, eu te faço chocolate quente. - Estendeu sua mão.
_ Eu não conheço a senhora.
_ E nem mesmo eu te conheço, mas não gosto de ver uma moça tão jovem chorando por aí. Chorar com alguém é muito melhor que chorar sozinha. Venha, não se acanhe, eu não posso morder mais.
_ O quê?
_ Falta de dentes, escove os dentes quando ainda tem todos eles em sua boca. - Disse sorrindo e realmente não tinha muitos dentes.
Levantei-me e tento secar as minhas lágrimas.
_ Não as seque, o seu rosto vai ficar avermelhado. - Ela foi na frente e eu a segui. _ Hoje é uma noite belíssima, não acha?
_ Se for para perder pessoas importantes na sua vida, eu concordo.
_ Você não os perdeu, eles continuam em suas memórias, conte com elas para te dar forças.
_ Você já perdeu alguém? - Ela abriu um portãozinho e eu o fecho quando passo por ele.
_ Perdi a minha família, mas eu sei que existem alguns por aí, só que eu não os conheço. Infelizmente.
_ Sinto muito.
_ Tudo bem, eu não ligo muito para isso. - Abriu a porta de sua casa e todas as luzes ficaram acesas. _ Espero que não se importe com uma casa modesta. - Entramos na casa.
_ Não, está tudo bem, eu já fiquei em lugares piores. - Ela me olhou e eu me toquei do que falei. _ Bom, é muito bonita a casa da senhora, bem rústica e...
_ Não continue, não vai melhorar em nada. - Concordei e olhei para uma foto. _ Vejo que se interessou pelo meu sobrinho-neto.
_ Grindelwald era o seu sobrinho?
_ Neto. - Complementou e foi para a cozinha.
Olhei mais uma vez e o homem era bastante bonito, principalmente pelos seus olhos bicolores e cabelos medianos.
_ Ele era bastante bonito. - Digo indo para a cozinha e me sento na cadeira que estava em frente ao balcão. Retiro o capuz e ele caiu nos meus ombros.
_ Manipulou muitas pessoas com sua beleza, até mesmo a mim. Seu sorriso e palavras eram algo que eu sempre o invejei.
_ Você acha que ele seria páreo para você-sabe-quem?
_ Grindelwald foi fisgado por uma pessoa, um homem, na verdade. Ele o prometeu o mundo e Grindelwald gostou da ideia, mas esse homem deu para trás.
_ Dumbledore? - Ela me olhou enquanto esquentava o leite.
_ Sabia que o cheiro de tempo não vinha dos garotos e sim, de você. Viajou por muitos anos no tempo?
_ Não, eu só consegui colocar as mãos em um vira-tempo hoje. - Ela me olhou de esguelha. _ E você sabia dos garotos?
_ O cheiro de seu corpo é muito forte apenas por uma viagem. - Disse vendo o leite ferver. _ E sim, eu vi os garotos chegando e partindo. Você fez bem.
_ Não acho, eu perdi alguém para a morte...
_ A morte não significa que ele morreu, a pessoa está viva em seu coração e memórias. Só não pode esquecê-la.
_ Acho que não consigo esquecê-lo. - Ela concordou.
_ Presumo que não tenha um vira-tempo para voltar ou você pretende ficar?
_ Eu pretendo fazer um, não posso ficar aqui.
_ Muito difícil, mas eu acho que você consegue. Suas mãos parecem ser habilidosas.
Olhei para as minhas mãos e elas estavam com cortes e ossudas.
_ Se você está dizendo.
_ Ainda não sei o seu nome. - Eu deveria dizer o meu nome? _ O meu é Batilda Bagshot, talvez você me conheça por alguns livros.
_ Alguns? Por Merlim, a senhora está sendo modesta. - Vasculhei a minha bolsa e coloquei um livro que Draco me deu em um dos meus aniversários. _ A senhora é maravilhosa, por favor, me dê o seu autógrafo.
A mulher ficou com as bochechas coradas e colocou a mão na boca. Ela desligou o fogo e foi até o balcão para fazer o chocolate.
_ Eu agradeço o elogio. - Me entregou o chocolate quente.
Ela chamou uma pena e tinta e tomou o livro de minha posse. Ela me olhou e eu digo:
_ Leesa.
_ Sem sobrenome?
_ Nessa época eu ainda não era nem nascida, não posso...
_ Diga-me o seu sobrenome, aquele que te faz sentir bem e confortável de usá-lo. No
_ Malfoy. - Ela sorriu e fez uma dedicatória. _ Obrigada. - Bebo um pouco do chocolate.
_ De nada, acho que a senhorita irá ficar um bom tempo aqui. Vira-tempo demora para ser fabricado, tenho um quarto de hóspedes no segundo andar.
_ Eu tenho dinheiro, eu posso...
_ Nem pensar, e se pessoas do futuro vierem te matar? Pensou?
_ A senhora estaria em perigo.
_ Que bobagem, se for realmente para morrer, eu devo agradecer a Merlim por me apresentar uma menina tão educada e zombeteira.
_ Eu peço desculpas.
_ Você não sente isso. - Ela estava certa. _ Acho que o que você precisa é de aprender a manipular pessoas e não ser manipulada por elas.
_ Você está dizendo que...
_ Vou te ensinar, Grindelwald teve que aprender com alguém, ninguém nasce sabendo, nem aquele homem que você conversou por breve segundos.
_ Você realmente viu tudo.
_ Sim, foi interessante. - Deveria ter sido mesmo. _ Mas eu não acho que ele acreditou em você, mas deixou você ir, por enquanto.
_ Ele é burro, não deve ter mais racionalidade para pensar que menti. - Ela riu.
_ Vá, tome um banho e me espere no quarto do final do corredor, acho que você precisa cortar esse cabelo. Está horrível.
_ Fiquei presa por bastante tempo. - Deixei a caneca no balcão e me levantei.
_ E Grindelwald queria o mundo e o Lorde quer apenas o Reino Unido, Grindelwald manipulava com palavras, mas o Lorde...
_ Ele faz as pessoas o temerem por ações. - Ela concordou. _ Então o Lorde é mais perigoso que Grindelwald.
_ Você vê a diferença na forma em que os chamamos, um podemos dizer o seu nome e outro não. - Era estranho pensar por esse lado.
Peguei a minha bolsa e coloquei o livro dentro dela. Fui em direção à escadaria, mas parei antes de continuar.
_ Por que não me dedura?
_ Você é muito desconfiada.
_ Não é um extinto normal?
_ Quer que eu jure pela minha magia? - Eu iria dizer não, mas eu concordo. _ Realmente é muito desconfiada.
_ Apenas não quero ser traída. - Ela riu e se aproximou de mim.
_ Não erga os muros de seu coração, acabará se machucando quando eles desabarem, você ainda é jovem para ficar ranzinza. Não deixe o tempo fazer você aprender, faça o tempo aprender com você. - Ela segurou a minha mão e deu batidinhas nela. _ Escute os conselhos dessa velha.
_ Você ainda não jurou. - Ela bufou e chamou a sua varinha e disse:
_ Juro pela minha magia que eu nunca irei dizer, pensar ou escrever para as autoridades ou outras pessoas que eu escondi uma viajante do tempo chamada Leesa Malfoy. - Uma tatuagem apareceu no seu pulso. _ Satisfeita?
_ Muito. - Solto a minha mão e subo a escadaria.
_ Você me lembra alguém. - Gritou.
_ Espero que essa pessoa seja boa. - Gritei de volta.
_ Ela não é, não para o mundo. - Gritou de volta.
Comecei a abrir as portas para ver onde era o banheiro e era quase no final do corredor. Abri a porta e entrei.
O banheiro não era chique, mas dava para o gasto. Eu não deveria ter ficado exigente, mas acabei ficando. Tirei minhas roupas e as deixei no chão junto com a minha bolsa.
Antes de ir para o chuveiro, vejo que no armarinho tinha um espelho. Não queria me ver, mas eu também queria me ver. Vou até o espelho e fico me observando.
Antigamente minhas bochechas eram um pouco gordinhas, mas agora, agora elas eram tão fundas que dava para ver a mandíbula e o maxilar com perfeição.
Meus olhos estavam fundos, não tinha mais aquela vida neles, eu estava horrível. Meu nariz estava torto ou ele sempre foi assim. Tinha anos que eu não me via no espelho. Era estranho voltar se ver novamente.
Os meus cabelos nem se fala, pareciam palha em vez de cabelo, estavam tão quebradiços e ressecados. Horríveis.
Meus lábios estavam rachados e sem vida. Mas o meu rosto... O meu rosto estava tenebroso.
Tinha tantas manchas e machucados que eu só queria me esconder. Meu bebê me viu assim, o que ele deve ter pensado? Ele sentiu nojo? Não, ele me abraçou, pegou na minha mão...
Suspiro fundo e vou para o chuveiro. Tomei o banho que eu não tomava há muito tempo. Acho que posso ver sangue saindo do meu corpo e sujeira saindo dos meus cabelos. Eles estavam imensos, batiam em minha bunda e às vezes me incomodavam.
Preferia cabelos curtos, mas eu não tinha uma tesoura para cortar eles ou uma varinha no ministério.
Pensei que eu fosse chorar, mas não saia nada, talvez a mulher estivesse certa. Não os perdi, mas eu não iria ficar aqui sem fazer nada. Iria matar cada ser humano que se tornou da luz, que é contra a mim.
Vou matá-los, vou destroçar, dilacerar os seus corpos. Eu quero vingança contra aquelas pessoas e eu vou ter, vou fazer desse mundo um inferno para todos. Até mesmo para aqueles que convivem comigo. Vou matar todos os trouxas e sangue-ruins.
Vou matar todos sem sobrar um.
Meu coração batia muito rápido no meu peito, mas essa sensação inebriante que corria à solta pelo meu corpo me fazia rir. Sim, eu vou matar eles, seja homem ou mulher, criança ou idosos. Todos estarão na minha lista.
E imaginar que eu tive medo do Potter quando eu o vi. Sim, eu tinha medo dele, mas ele matou uma pessoa muito importante para mim. Esse medo que estava no meu corpo e me fez tremer em sua presença, não poderia se tornar ódio?
Eu saberia me conter, conter esse medo e matá-lo na hora certa.
_ Enlouqueceu aí dentro? - Gritou a senhora atrás da porta.
_ Acho que sim.
_ Bom, enlouquecer não é ruim, apenas continue tendo a racionalidade.
_ Acho que ela foi para bem longe. - Digo rindo.
_ Bom, cada louco tem seus problemas, não vou me meter no seu, vai que é doença.
_ Obrigada pelas palavras motivadoras.
_ De nada, e não demora, não me casei com o dono da luz e nem da água.
_ Desculpa. - Escuto a resmungar.
Fecho o chuveiro e dessa vez eu peguei uma toalha para me secar. A toalha não era fofa, mas eu não iria reclamar, era melhor do que nada.
Peguei as minhas coisas do chão e saio do banheiro com a toalha sendo segurada. Vou em direção ao quarto que ela me disse para ir e vejo que ela estava olhando para a rua.
_ Os Potter morreram, mas eu acho que você já sabia disso. - Apontou para a rua movimentada.
_ Sim, mas o garoto sobreviveu, infelizmente. - Digo colocando as minhas coisas na cama de solteiro.
_ Você sofreu muito. - Disse chegando perto de mim e olhando para o meu corpo, algumas partes ela não podia ver. _ Vai ficar cicatrizes, mas posso deixá-las esbranquiçadas em vez de avermelhadas.
_ Eu agradeceria. - Ela me pediu para me sentar e fiz o que ela pediu.
_ Retire a toalha, suas costas merecem mais da minha atenção.
Homens já me viram nua, uma senhora não é nada comparado àquilo. Deixo a toalha na minha cintura e vejo a mulher se sentar atrás de mim.
_ Que linda maldição, sabia que o relógio está girando? - Fico surpresa. _ Vejo que não sabia.
_ Ele sempre ficou parado.
_ Talvez tenha ativado quando você viajou pelo tempo. - Sinto algo gelado nas minhas costas. _ Você pode se sentir um pouco desconfortável, mas aguente.
_ Já senti coisa pior.
_ Sim, sim, eu percebo isso. Poderia me dizer o motivo de suas risadas?
_ Eu vou matar todos, sem sobrar uma alma viva para contar a história das pessoas da Luz. - Ela riu.
_ Lembro-me de uma pessoa dizer exatamente isso para mim.
_ Vejo que não deu certo.
_ Infelizmente. Espero que sua vingança dê certo. Mas sempre use a sua inteligência e não as emoções, ela atrapalha às vezes.
_ Acha que vou errar o caminho?
_ Essa pessoa errou.
_ Não sou essa pessoa.
_ Espero que realmente não seja. - Pegou os meus cabelos e começou a cortá-los. _ Seus olhos parecem a maldição Avada, são lindos.
_ Algumas pessoas já me disseram exatamente isso.
_ Eles estão certos. - Mostrou-me os meus cabelos. _ Irão crescer, não faça um chilique.
_ Não irei fazer. - Toco os fios dos meus cabelos e eles estavam nos meus ombros. _ E nem está tão curto assim. - Ela fez evaporar os meus cabelos.
_ Para não vir um engraçadinho e fazer uma poção. - Entendi. _ Agora vamos cuidar do seu rosto, está horrível.
_ Está tão ruim assim? - Que pergunta besta, eu já não confirmei isso no banheiro?
_ Está igual ao rosto de Dumbledore, só que mais feio.
_ Por Merlim. - Ela riu e eu me virei para ela.
Ela apontou sua varinha para o meu rosto e disse algo. Senti um pouco de formigamento e umas fisgadas em certos lugares.
_ Prontinho, seu rosto foi mais fácil. - Toquei o meu rosto e não senti dor ou feridas, até o meu nariz torto se endireitou. _ Não me agradeça.
_ Ok. - Ela levantou as minhas pernas e caí para trás na cama.
_ Seus tornozelos estão horríveis, não sei como continuou em pé. - Ela passou mais uma vez aquele troço gelado e um arrepio percorreu o meu corpo. _ Prontinho. - Ela se levantou.
_ Eu iria... - Ela me interrompeu.
_ Não fique lendo até tarde, eu acordo cedo. - Fico surpresa. _ Não, não sou vidente. - Ela se foi.
_ Essa mulher é estranha.
_ Eu escutei. - Gritou de sabe-se lá onde.
Não respondo e apenas pego dentro da bolsa as minhas roupas que usei por alguns anos e as roupas que usei nessa noite. Eu as coloquei no chão e estalei os meus dedos as transformando em poeira. Vamos deixar o passado para trás ou viver nele.
Peguei uma muda de roupa e a coloquei. E antes que eu começasse a mexer na minha bolsa, uma bandeja de comida apareceu.
_ É melhor comer, não quero ver você morta de fome amanhã. - Gritou.
_ Obrigada. - Pego a bandeja e começo a comer.
Como devagar, mesmo estando com muita fome, eu não queria passar mal. Quando terminei de comer, eu deixo a bandeja no chão e limpo minhas mãos nas minhas roupas e começo a fuxicar a bolsa que Draco colocou dentro da minha bolsa. Isso ainda era confuso.
A bolsa era preta de veludo, bem a cara dele. Dentro tinha cartas, um bolo de cartas e agora sei o motivo dele ter escrito tantas. Ele deve ter sofrido muito com a perda da Astoria, ele gostava muito dela.
Deixo as cartas em cima da cama e vejo o que mais tinha. Tinha um saquinho de dinheiro, esqueci de dizer a ele que eu já tinha dinheiro e muito para a época que eu pretendia ir. E ainda tinha o saquinho de dinheiro que eu nunca usei desde 2007, era pouco, mas talvez naquela época fosse muito.
Tinha roupas de 1900 até 2000. Gostei dos vestidos, eles não eram floridos; eram lisos e apenas tinham uma cordinha de veludo como detalhe; alguns tinham botões pequenos e feitos de prata. Fofo.
Tinha chapéus e era estranho, mas para a época que eu ia, eu tinha que usar quando eu fosse sair.
Encontrei livros de história trouxa e bruxa dizendo sobre a guerra... Guerra, por Merlim, esqueci que eu iria viver em duas guerras.
A Segunda Guerra Mundial trouxa e a guerra bruxa global por causa de Grindelwald. A guerra de Grindelwald começou mais ou menos em 1920 e a guerra trouxa ocorreu em 1939.
Eu estava no meio do fogo cruzado e tinha a Blitz em 1940. Esse Lorde não poderia ter nascido depois que essas guerras tivessem acontecido? Santo Merlim, eu não nasci para isso.
Bom, não posso recuar depois de perder tanto. Dou um suspiro e continuo mexendo e encontro um colar com um pingente muito pequeno, era um "M" feito de prata.
Mas era estranho, parecia que tinha algo dentro desse pequeno "M".
Aproximo o pingente e vejo que tinha uma foto e era uma da família Malfoy, a minha família. Era no dia que a tia Cisa inventou que aquele dia era o meu aniversário. Scorpius ainda era um bebê. Fofo.
Puxo a corrente de prata e vejo que tinha um bilhete preso na corrente.
───※ ·❆· ※───
"Para se lembrar da melhor família que existe nessa realidade. Esqueça a família Avery, eles não prestam."
-Tia Cisa-
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Essa mulher era demais.
Coloquei o colar no pescoço e me senti um pouco melhor. Mexi mais um pouco e escutei um barulho dentro da bolsa e eram livros...
_ Accio livros. - Cinco pilhas de livros saíram dessa bolsinha minúscula e eu me levantei para olhar os livros que Draco colocou dentro da bolsa.
Eram sobre as artes das trevas, magia de cura, magia da luz e diários. Peguei um diário e essa letra era da tia Cisa, ela realmente escreveu tudo desde 1800 até 2019 em dez livros? Essa mulher não era apenas demais, era sensacional.
Esses livros irão retirar esse tédio impregnado do meu corpo. Obrigada, tia Cisa.
Deixo o livro em uma das pilhas e volto para a bolsinha para ver se eu achava mais alguma coisa. Encontrei algumas fotos com um laço as prendendo e tinha um anel.
Para não perder nada, eu viro a bolsa de cabeça para baixo e começo a sacudi-la e saiu um saquinho. Peguei o saquinho na mão e vejo que era pó de vira-tempo, muito útil para fazer vira-tempo.
Mas esse pó era raro e proibido... Pensei que eu teria que ir na Travessa do Tranco para consegui-lo
Deixo o saquinho de lado e pego primeiro o anel que tinha três diamantes negros, cada um enfileirado e com tamanhos diferenciados, mas eram minúsculos. O anel era feito de ouro negro.
Devo agradecer às aulas de etiqueta ou eu não saberia que isso vale mais de um milhão de galeões. O anel não era exatamente redondo, porque quando ele chegava perto das três pedras preciosas ele se curvava um pouco para o lado. Fazendo que as duas pontas nunca se conectassem.
_ Accio carta do anel. - E uma apareceu.
Deixei o anel em cima das fotos e abro a carta que mais uma vez não era uma carta. Por Merlim, ele acha que papel é o quê? Capim?
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"Quando descobrir, não brigue comigo, não fiz por maldade. Use-o no dedinho, você vai entender quando colocá-lo."
-Dragon-
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Draco, Draco, o que raios é esse anel? Espero que não seja um rastreador. Bom, não vou usá-lo. Apenas vou deixá-lo guardado, talvez eu não seja a pessoa certa para ele.
Pego as fotos e vejo que era da minha família. Tinha até mesmo a Astoria em algumas das fotos. As fotos eram de quando Draco buscou Scorpius na estação e o garoto não parava de sorrir e as vestes verdes eram lindas no meu garotinho.
Viro a foto e vejo que tinha alguma coisa escrita nela.
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"Mesmo a segunda mãe não estando aqui, eu sei que ela estaria orgulhosa de mim."
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Sim, eu estou orgulhosa da pessoa que você se tornou, isso só me faz querer matar todas as pessoas que te fizeram sofrer. Santo Merlim, quem iria inventar que o meu bebê era filho daquele sem nariz? Draco chegou tão transtornado em uma de suas visitas, que quando ele me contou o que tinha acontecido, eu fiquei exatamente igual a ele.
As pessoas não tinham mais nada o que inventar.
Escorpião era focinho do Draco, não tinha como dizer que não eram pai e filho.
Vejo mais algumas fotos e todas tinham frases do meu pequeno, mas a última me fez lembrar do passado. Era daquela vez que Draco me fez de travesseiro e Scorpius também. Não sabia que tinha uma câmera ali.
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"Não é uma foto, é a junção de duas memórias e para nós, essa é uma das melhores memórias que tivemos com você."
-D&S-
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Essa também era uma das melhores lembranças que tive com vocês, eu queria ter tido mais...
_ Vai dormir, amanhã você acorda cedo. - Levei um susto e quase tive um ataque cardíaco. _ Não comece a fazer drama.
_ Tem certeza de que não é vidente ou lê pensamentos?
_ Não seja e vai dormir. - Essa mulher era um poço de fofura.
_ Eu sei. - Viu, ela está lendo os meus pensamentos. _ Não seja, anda, vai dormir.
Estalo os dedos e tudo entra novamente na bolsa e eu coloco essa bolsa na minha bolsa... Tão confuso.
Deito-me na cama e a luz apaga, mas eu não queria aquilo. Então eu deixo a luz do abajur ligada e me cubro depois de anos, era bom, até mesmo eu tinha um travesseiro, mas eu não conseguia dormir sem abraçar a bolsa...
───※ ·❆· ※───
1 de novembro de 1981:
Sou acordada por uma falação no andar debaixo, a casa era feita de madeira, então eu poderia escutar tudo, era um pouco estressante. Mas eu não podia reclamar ou poderia ser expulsa daqui, mesmo tendo dinheiro para ter um lugar para ficar, era interessante ficar aqui.
Eu me sentei na cama e olhei para o meu braço, será que quando Draco nascesse esse corte voltaria ao normal? Era uma pergunta sem resposta por enquanto...
Espera, estou em 1981 e Draco já deve ter um ano, isso quer dizer que o Draco desse lugar não é o meu irmão. Não era nada mais que uma pessoa com sua personalidade e aparência, mas não era o meu Dragon. O meu irmão narcisista.
Isso era meio decepcionante.
Dou um suspiro e minha cabeça começou a latejar, odiava sentir dor de cabeça, era algo horrível. Me levanto da cama e coloco a bolsa debaixo do travesseiro, ninguém podia tocá-la, apenas aqueles que eu confiava... Devo rever esse feitiço, mesmo eu confiando em algumas pessoas, essas pessoas poderiam me trair.
Draco me ajudou a enxergar um erro no meu feitiço. Um erro que poderia me colocar em perigo.
Saio do quarto e vou até o banheiro para escovar os dentes e pentear os meus cabelos, eu tinha visto uma escova de dente lacrada no banheiro ontem. Espero que a tia não se importe.
Quando termino de usar o banheiro, eu desço para o andar de baixo e vejo um senhor usando roupas estranhas. Era um vestido?
_ Você acordou, pensei que eu tivesse que te jogar um feitiço. - Acordei tão tarde assim? _ São quase meio-dia. Vamos, tome esse café da manhã e depois vamos dar um passeio.
_ Ok. - Eu me sentei ao lado do senhor e ele ficou me observando.
_ Eu nunca vi a senhorita. - Sorriu bondoso.
_ Eu apenas estou de passagem, a tia me deixou ficar por algum tempo em sua casa.
_ Não seja desconfiado, Dumbledore. A menina é minha sobrinha, uma sobrinha distante.
_ Ah, então o senhor é o grande Alvo Dumbledore. - Sorri para ele e estendi a minha mão. _ Me chamo Leesa.
_ Grindelwald, mas não usa. - A tia explicou.
_ Acho estranho usar o nome de um assassino. Então é só Leesa.
_ É filha...
_ Não, eu sou apenas uma parente distante da família Grindelwald. Não tenho relação com o tio Gellert. - Vejo a tia sorrir de lado e piscar um dos olhos sem que o velho percebesse.
Ela me entregou o café da manhã e eu comecei a comer.
_ Mas continuando, Albus. O que aconteceu ontem foi uma atrocidade, mas graças a Merlim que o mal foi eliminado. - Estavam falando do sem nariz que não tinha nada de sem nariz.
_ Eu deveria ter previsto que isso iria acontecer, estava muito quieto e aquele homem não pararia de procurar uma criança que poderia colocar os seus planos em perigo.
_ Albus, você não é vidente para saber de tudo. Já fez tanto para a comunidade bruxa.
_ Eu o vi crescer, Batilda. Poderia ter feito algo para impedir aquele garotinho que roubava pertences dos seus amiguinhos de virar esse monstro.
_ Já lhe disse, Albus. Não podemos saber de tudo.
_ O garoto vai viver sem os pais, espero que cresça bem, sem os holofotes.
_ Vai crescer e se tornará um grande bruxo. - Tento continuar comendo, mas a comida começou a ficar sem gosto. _ Mas o que te preocupa?
_ Eu acho que as trevas ainda irão assombrar o nosso mundo, Batilda. E eu não sei se serei capaz de ajudar dessa vez.
_ Está dizendo que aquele-que-não-devemos-falar, pode voltar?
_ Pode, mas eu estou temendo outra coisa.
_ E que coisa é essa? Não me deixe aflita, Albus. Ainda quero sobreviver por muitos anos. - O velho riu.
_ Vai sobreviver, vai sobreviver. - Disse olhando para ela. _ A professora Trelawney teve outra visão. - A tia ficou chocada.
_ E essa é ruim? Deve ser, para você estar temendo uma profecia, deve ser pior que a outra.
_ Não escutei tudo, a professora estava apenas sussurrando para o nada quando entrei em sua sala.
_ E o que dizia?
_ "A garota que seria a ruína e a derrota, virou a salvação... As mortes estão presentes em sua caminhada pela destruição... O fracasso da luz é iminente e nem com o sacrifício daqueles que os amam, será páreo para contê-la... O bem e o mal irão ser derrotados e a grande rebelião irá ser encerrada quando uma risada for ouvida e salvas de palmas forem batidas."
_ Santo Merlim, Albus. Essa é pior que quebra-cabeça.
_ Tem algumas partes faltando, mas não posso entrar no ministério para pegar essa profecia, já que não é endereçada a mim.
_ Mas pelo que parece essa profecia também não tem nome, pode ser que você consiga.
_ Talvez apenas seja uma profecia sem nenhuma relevância, Batilda. Não vamos pensar no pior enquanto o mundo está em festa. - Término de comer.
_ Eu posso olhar ao redor?
_ Claro. - Desci do banquinho e dei tchau para os dois. _ Tem sapatos na porta, não pode andar descalço para sempre.
_ Ah! - Olho para baixo e realmente não tinha nada nos meus pés. _ Obrigada por me lembrar, tia.
_ Agora vá, depois eu te encontro em qualquer lugar que você esteja.
Concordei e coloquei uma bota de cano médio de inverno, não estava tão frio. Mas era a única coisa que tinha ali.
Saio de casa e um vento gelado passou por mim, não era um vento que eu iria agradecer quando estivesse calor. Era um vento frio que me fez tremer e estalar os dedos para colocar um feitiço de aquecimento em mim. Era tão bom ter magia novamente.
Enquanto andava, eu tentava saber de quem a profecia se referia, que eu saiba não existia essa profecia ou será que existia, mas nunca foi realizada?
Escuto um pouco de falação e vejo uma casa, aquela casa que o sem nariz estava caminhando para entrar. A casa por fora não estava destruída, mas provavelmente dentro estava uma bagunça.
_ Um massacre foi feito ontem e nem sabíamos. - Disse uma senhora colocando uma rosa branca no muro da casa.
_ Fiquei sabendo que o garoto foi levado para um ambiente bom e familiar, ele crescerá para ser um grande bruxo. - Falou outra mulher.
_ Acha que aquele-que-não-devemos-falar...
_ Não, o garoto o derrotou, não podemos ser pessimistas, se formos, o que adiantou o garoto ter perdido os pais? - Elas começaram a andar para bem longe e fiquei observando a casa.
_ Ficou sabendo que hoje será a audiência do Malfoy? - Escutei uma pessoa falando lá do outro lado.
Olhei para trás e fiquei prestando atenção na conversa das duas senhoras.
_ Fiquei até mesmo sabendo que nem mesmo terá audiência para aquele assassino, isso é bom. Não podemos ter piedade.
_ Quem diria, Sirius Black matando doze trouxas e era aliado daquele homem.
_ Você não deve saber, mas amanhã será a audiência do Karkaroff, fiquei sabendo que ele vai delatar todos os Comensais.
_ Que fale, espero que com essas informações consigam capturar muitos daqueles vermes. - As duas concordaram e sumiram da minha vista.
Tio Lucius seria inocentado, mas Karkaroff iria dedurar um dos mais leais daquele sem nariz, Bartô Crouch Jr ou para os mais íntimos, Barty.
Eu poderia fazer algo por eles, mas não queria. Não agora, agora eu só queria colocar os meus pensamentos em ordem e começar a fazer o meu vira-tempo, modificar a poção da mamãe e refazer o feitiço da minha bolsa.
E claramente tentar fazer uma poção para mim, tinha que ver se eu conseguia desabilitar a minha maldição. Espero que eu consiga.
Eu também preciso refazer a poção de crescimento urgentemente, não queria ser uma professora e ser "manipulada" por aquele garoto. Se eu fosse igual Dumbledore, ele poderia me matar. Mas se eu fosse igual Slughorn, eu seria colocada na lista negra de Dumbledore.
Tão complicado...
E eu também não queria ser a professora daquele sem nariz, é bem capaz que eu acabe o matando.
Olhei para os lados e tentei escutar alguém falando, mas não escutei nada, apenas o vento balançando algumas árvores ao longe. Abri o portãozinho e caminhei até entrar na casa.
A casa estava bagunçada como eu tinha previsto, não tinha nenhum corpo no chão e nem mesmo sangue. Realmente o sem nariz era uma pessoa que gostava do feitiço da morte.
Bom, talvez ele não tivesse tempo para fazer algo a mais com as pessoas que estavam aqui. Ele tinha pressa, mas se apressou tanto que acabou morrendo. Que patético.
Subi para o segundo andar e alguns degraus rangiam pelo meu peso, odiava casas antigas.
Olhei para as fotos que tinha no corredor e elas eram fotos felizes de uma família que não temia a morte.
Continuei andando e me encontrei no quarto do bebê, estava mais bagunçado do que tudo. Olhei para o chão e tinha uma capa negra na frente do berço, deve ser do sem nariz.
Eu me aproximo da capa e cutuco ela com pé e sinto algo sólido. Agachei-me no chão e vejo que o objeto que meu pé tocou era apenas uma varinha.
Pego a varinha na minha mão e ela não gostava muito de mim. Acho que nenhuma varinha gostava de mim.
_ Quer que eu te quebre? Posso fazer isso se você continuar sentindo medo de mim. - Ela parou e até que ela não era feia.
Era uma cor que parecia marfim, sua base tinha um encaixe perfeito para não usar o dedão para segurá-la. Era uma boa varinha para um bruxo idiota.
Deixo a varinha no mesmo lugar que eu a encontrei e volto a olhar o quarto, era um quarto simples de bebê. Nada muito interessante. Levantei-me e fui embora daquele lugar.
Começo a andar mais um pouco e vejo o cemitério, alguns diziam que esse lugar era mal-assombrado. Para os bruxos dizerem isso, deve realmente ser mal-assombrado.
_ Ah, aí está você. - Olhei para o lado e era a Batilda. _ Dumbledore não me deixava ir atrás de você, ele estava sempre falando que o mundo que estaríamos acostumados iria mudar complementarmente.
_ Talvez ele tenha razão. - Digo entrando no cemitério.
_ Talvez, mas não gosto de acreditar em profecias, mesmo que elas se realizem como a do garoto Potter.
_ E por quê? - Olhei para alguns túmulos.
_ Porque as profecias são mutáveis, Leesa. Se o Lorde fosse um pouco inteligente ele iria raciocinar que não precisava procurar o garoto da profecia, ele poderia ter ganhado essa guerra que durou anos.
_ Não durou tanto quanto a guerra bruxa global.
_ Sim, você está certa. Aquela guerra durou mais de 20 anos. Muitos bruxos morreram ao longo do caminho. Mas essa durou por bastante tempo também, dez anos não é muito? - Perguntou me observando.
_ Sim, dez anos é muita coisa. - Olho para um túmulo em específico.
_ Godric Gryffindor, era um homem bondoso e um ótimo diretor.
_ Você não parece ter mil anos para saber das qualidades de um dos fundadores.
_ E não tenho, mas já li livros.
_ Nem todos os livros dizem a verdade. Talvez sejam apenas palavras manipulativas para manipular as pessoas.
_ Acha que Godric não era uma pessoa boa?
_ Não estou dizendo isso, mas não podemos confiar em livros de histórias que contam apenas uma versão, a versão daqueles que ganharam e não dos que perderam.
_ Acha que deveria ter as duas versões?
_ Teve um tempo que fiquei perdida em que lado eu deveria seguir, um lado que sempre me manipulou, que me prendeu em cordas apertadas ou aquele lado que me prendeu por anos a fio.
_ E que lado você escolheu?
_ O meu. - Ela sorriu. _ Não quero mais dançar conforme toca a música, eu quero ser o maestro que conduz as pessoas a não errarem, a tocarem perfeitamente em sintonia.
_ Você sabia que nunca voltamos no tempo e sim, viajamos para outra realidade para mudar? - Andei para ver os outros túmulos.
_ Percebi isso ontem.
_ E o que você achou?
_ Que viagem no tempo é uma grande porcaria. - Ela riu.
_ Você quer saber o motivo de eu conseguir ler os seus pensamentos? - Parei em um túmulo.
_ Diga-me.
_ As suas memórias estão protegidas por um feitiço muito poderoso, mas seus pensamentos não.
_ Legilimência. - Ela concordou. _ Então eu preciso fortificar a minha cabeça.
_ Sim, acho que posso te ajudar nisso.
_ Ainda não sei o motivo de estar me ajudando. - Ela parecia triste.
_ Quando aquela pessoa me pediu ajuda, eu preferi um lado que me abandonou. Fiz escolhas erradas, Leesa. Não quero que você também as faça.
_ Não sou a senhora.
_ Felizmente. Mas está em busca de vingança, vingança não faz bem para o corpo e nem para a mente.
_ Não me importo, eu só quero matar aquelas pessoas, como eles me mataram por dentro.
_ Acha que você vai ficar satisfeita com isso? Matando pessoas que você não conhece?
_ Mas eu os conheço, podem ser pessoas de outra realidade, mas são as mesmas pessoas, fizeram as mesmas escolhas. - Quase as mesmas escolhas, eu não deixaria nenhum deles passarem de 1998.
_ Se você acha isso, por que ficou triste quando percebeu que a pessoa que você perdeu para a morte, não existia nessa...
_ Isso é apenas uma desculpa para que eu consiga o que quero. Meu irmão não vai voltar e já entendi isso.
_ Você sim, mas o seu coração não.
_ Então eu vou arrancar os meus sentimentos para conseguir o que eu quero. - Digo convicta de minhas palavras.
_ Às vezes eu sinto pena dos seus inimigos, mas depois eu lembro que você deve ter sofrido mais do que eles irão sofrer. - Leio o nome do túmulo.
_ Ignotus Peverell, o irmão mais sábio dos seus irmãos. - Digo para a bruxa.
_ Então conhece a história deles.
_ Sim, a varinha das varinhas ficou com o irmão mais velho, mas logo foi morto por um bruxo que cobiçava o seu poder, que no final era a sua varinha. O segundo irmão queria ver a sua amada, mas percebeu que não era ela que ele tanto amou e acabou se matando por desilusão. E o último irmão fugiu da morte, mas foi com ela quando percebeu que já estava na hora de descansar.
_ Uma história triste, não acha?
_ Se eles não fossem bruxos, eles nunca teriam essa história para contar. - Digo observando as relíquias da morte. _ Talvez a morte tenha feito essas relíquias pensando nas almas que iria receber por ter pessoas gananciosas o bastante para tê-las.
_ Então você acredita nas relíquias. - Olhei para ela e dei de ombros.
_ Talvez seja apenas uma história para as crianças dormirem.
_ Você não acredita nisso.
_ E eu tenho o direito de acreditar em algo? - Olho para os outros túmulos.
_ Você não é mais uma marionete presa por cordas invisíveis, Leesa. Todas as suas ações são feitas por você e todas as suas escolhas terão uma consequência. - Família Dumbledore, era o que estava escrito em um túmulo.
_ Acha que eu vou cair? Acha que vou me tornar alguém irreconhecível?
_ Acho que o caminho que você escolheu é tortuoso e imprevisível.
_ "Eu dirijo por um nevoeiro, mas no final do caminho, irei encontrar o que eu almejo?" - Essa frase era da Lady Panda. Uma das autoras que fui capaz de apreciar e navegar pelas suas linhas.
_ Espero que encontre, ou a solidão da vingança irá te assombrar e nem mesmo um vira-tempo irá te salvar.
_ Aguardo ansiosamente pelos meus dias no passado, titia. - Passei por ela, mas eu escuto um suspiro de surpresa.
Os meus dias em 1981, serão agitados, mas rápidos...
