Capítulo 13 — Seja digno
KAGOME
Enquanto descemos em direção ao vale, sinto Inuyasha apertar minha mão, sei que ele também está ansioso para que tudo dê certo e eu consiga minhas memórias de volta, mas preciso conversar com ele e deixar claro que independente de minhas memórias retornarem ou não, meus sentimentos por ele não irão mudar.
— Chegamos… — avisou o monge logo após avistarmos ao final do vale, o que não demorou mais do que alguns minutos.
Enquanto estávamos andando entre as casas daquela pequena aldeia, as pessoas nos olhavam de esguelha e se afastavam, principalmente quando percebiam que o Inu era um meio-youkai.
Miroku seguiu a nossa frente para conseguir informações sobre a localização do Sábio que estávamos procurando, enquanto eu e Inu permanecemos mais atrás por precaução e no caso de algum ataque, apesar de todos aparentarem ser calmos e do bem, não custava nada prevenir.
— Olha Inu! São maçãs! — logo mais à nossa frentes haviam várias árvores, a maioria frutíferas, o que me deixou com a boca cheia d'água. Já era muito difícil de encontrar frutas fresquinhas assim na minha era, imagine então um monte de árvores assim na minha frente, não consegui me segurar e corri até uma das árvores.
Inuyasha pulou num galho de uma das árvores e pegou duas maçãs, descendo em seguida, estendendo a mão, entregando uma para mim.
— O… obrigado — baixei meu olhar enquanto comia a fruta. Kami! Ele não tinha noção como ficava lindo e sexy com esses pequenos gestos.
— O que foi Kah, algo te incomoda?
— Não! Éee… que ainda não me acostumei com algumas coisas daqui — com certeza estava vermelha com esses pensamentos.
— É só isso mesmo? — disse me olhando atentamente, enquanto comia sua fruta.
Às vezes me sentia nua quando direcionava seu olhar intenso como estava fazendo agora. Vi ele erguer um pouco seu rosto, fechando levemente seus olhos e o nariz se movimentar cheirando o ar, logo depois me olhou com um sorrisinho no rosto. Será que ele percebeu? Ele terminou de comer sua maçã, e em seguida colou seu corpo no meu, enlaçando minha cintura.
— Ahhh mulher… já cedo assim pensando nessas coisas? — disse enquanto esfregava seu nariz no meu pescoço, cheirando e dando beijinhos.
— I… Inu! — não consegui terminar de falar, segurou em minha nuca iniciando um beijo afoito me deixando sem ar, eu sentia sua respiração cada vez mais pesada e minhas pernas já estavam bambas.
— Hruummm hrummm — ouvimos alguém nos interromper.
Mesmo sem olhar para trás, vi suas orelhinhas sacudirem agitadas e o ouvi bufar enquanto ainda me apertava em seus braços.
— Keh Miroku! Não podemos ter paz nem por alguns minutos?! — Inuyasha resmungou com o monge e tivemos que nos separar.
— Me desculpe senhorita Kagome, mas vim para avisar que achei o Sábio, ele está nos esperando.
— Ei! Porque as suas desculpas são só para ela? — Inuyasha ralhou com o monge.
— Porque Kagome é uma dama, então para ela dou minhas desculpas — disse e saiu fazendo uma reverência.
— Keh! Esse monge não tem respeito por minha pessoa! — saiu resmungando, enquanto me puxava pela mão e eu rindo da cena desses dois.
Seguimos Miroku por alguns minutos numa rua onde haviam várias casas e atravessamos um riacho por uma ponte para logo depois avistarmos uma casa muito grande. Era bem simples, mas olhando atentamente parecia com um hospital, tinha uma extensa fila de pessoas esperando fora dos portões, passamos por ela até chegar em uma entrada onde um monge de cabeça raspada estava nos aguardando.
— Monge Miroku! E vocês devem ser Kagome e Inuyasha, certo? — perguntou assim que nos avistou — Me chamo Seijin, seguidor e ajudante do Mestre Rokono, sejam bem vindos! — disse e logo após fez uma reverência.
— Estávamos esperando vocês! Me sigam, o Mestre os aguarda… — logo em seguida nos direcionou para dentro da casa.
Olhei para Inuyasha e Miroku, então seguimos o ajudante por um longo corredor com várias portas até chegarmos a última, na qual Senji parou. Abriu esta e nos conduzir até o centro de uma ampla sala com um lindo tapete antigo, todo com gravuras lindíssimas, com certeza deve ter levado muito tempo para tecer essa obra de arte, não queria nem pisar nele.
Logo a nossa frente estava um senhor de cabeça raspada, vestes pretas e uma faixa na cintura, sentado em Posição de lótus*, com os olhos fechados e as mãos em oração. Atrás dele havia uma enorme estátua de Buda em pedra polida, linda e imponente, mas ao mesmo tempo, de uma simplicidade e leveza que nos transmitia tranquilidade ao olhá-la.
O ajudante nos indicou algumas almofadas nas laterais para sentar e aguardarmos o sábio vir nos atender, ao fundo se ouvia uma linda melodia que pude reconhecer ser de uma Shakuhachi*, eu sabia porque ouvia muito desse estilo de músicas no templo que meu avô colocava pra tocar, mas lógico, eram somente CD´s tocando. Mas aqui conseguia distinguir que o som vinha bem próximo e era tão suave que nos envolvia e relaxava.
Enquanto esperávamos continuei observando ao redor do templo, suas paredes eram todas pintadas com desenhos que representavam pequenos eventos, como as colheitas, as celebrações, e rituais religiosos. Haviam também mapas desenhados indicando os locais das plantações, dos templos e locais sagrados. O teto era muito alto e todo com madeiras que atravessavam de um lado ao outro, o templo era relativamente simples perto daqueles que tinha visitado em minha era, mas essa simplicidade me deixava muito confortável e com um sentimento de aconchego e serenidade.
Então, após o que se passou longos minutos, o Sábio inspirou profundamente e abriu os olhos olhando diretamente para mim, me fazendo estremecer, seus olhos eram negros e muito intensos, transmitiam muita sabedoria e também muita paz e tranquilidade, ele desviou seu olhar analisando-nos por um tempo até que se levantou, chegou próximo fazendo uma reverência e nos cumprimentou:
— Monge Miroku, Inuyasha Taisho, Kagome Higurashi! — nos cumprimentou olhando um a um na sequência.
Estávamos todos atordoados, como ele sabia sobre nós? Novamente sinto seu olhar sobre mim e abriu um amigável sorriso.
— Devem estar se perguntando como sei sobre vocês, hum? — meus olhos arregalaram mais ainda, ele podia ler nossas mentes? Olhei para Miroku e Inuyasha e estavam também de bocas abertas sem entender nada.
— Ha ha ha, calma, calma! Não me olhem desse jeito! Eu não sei ler mentes — olhei para ele, não é possível! — Não ainda! Ha ha ha.
O sábio ria se divertindo com o nosso espanto.
— Keh! Kagome! O que tanto esse velhote ri de nossa cara? Ele está querendo apanhar, é isso?! — percebi que Inuyasha já estava perdendo sua paciência com as brincadeiras do sábio à nossa frente, vendo-o se erguer em direção ao eremita, não tive outra opção.
— Inuyasha… SENTA!
— Kagome! Porque fez isso?! — praguejou com a face afundada no piso do templo.
"Eeeee… sinto que exagerei", pensei, vendo Inuyasha voltar me fuzilando com o olhar.
— Grande sábio Rokono-dono! — vejo Miroku se ajoelhando e fazendo uma respeitosa reverência — Nos perdoe pelos poucos modos do nosso amigo hanyou aqui, e por nossa incompreensão de toda essa situação, mas estamos aqui para que nos ajude com um assunto de extrema urgência. Por favor, precisamos dos seus préstimos com meus amigos.
— Ora, ora, não se preocupe tanto assim monge, ou vai acabar se encontrando com seu pai antes do tempo, não acha? — disse sorrindo e segurando nas mãos de Miroku, ajudando-o a levantar-se.
— Sigam-me… — virou-se e voltamos pelo mesmo corredor de quando entramos, até chegarmos a um pátio externo — Como podem ver, esse templo não é somente de oração, todas essas portas que observaram no longo corredor que passamos são para atendimentos aos doentes e necessitados que recebemos aqui. Já viram a grande fila fora de nossos portões, não?
— Sim. O senhor atende a todos da vila? — perguntei curiosa.
— Exatamente moça bonita — ouvi Inu rosnar — Não só da vila, como os que chegam de vários lugares procurando atendimento. Aqui temos muitos voluntários que assim como eu e meus ajudantes, nos dedicamos não só às orações e engrandecimento espiritual, mas também nos doamos ao próximo.
— Ajudamos principalmente com cuidados da saúde, com curativos e tratamentos de doenças leves, até as mais graves, aqueles que conseguem sair curados, também auxiliamos com assistência as famílias com mantimentos, e até com trabalho, trazendo aqueles com mais disposição para ajudar nas plantações que temos aqui para nosso próprio sustento — relatou com muita calma o sábio.
— Uau, estou impressionada com o tamanho da organização disso tudo aqui, isso me fez lembrar das nossas prefeituras bem organizadas… — será que foi daí que começaram as surgir as pequenas cidades que resultaram onde estamos hoje? Questionei-me pensativa.
— Eu não sei o que seriam essas "prefeituras", bela morena — Inuyasha rosnou novamente, sendo ignorado pelo Mestre — Mas sei que tudo isso tem ajudado muita gente e, ao mesmo tempo, tem dado esperança as pessoas desta vila, sendo que antes estava lamentável e esquecida por todos.
Inuyasha se mantinha o tempo todo ao meu lado, irritado e com cara de poucos amigos.
— Devo dizer que está fazendo um trabalho admirável aqui — elogiou Miroku com os olhos brilhantes olhando tudo ao redor, com certeza era uma inspiração para ele.
— Keh! Também não é para tanto assim… — resmungou o hanyou carrancudo.
— I… nu… y… a… shaaaa — chamei a atenção pausadamente dele, para entender que se continuasse com seus resmungos, o que aconteceria, vi suas orelhinhas arriarem e sua cabeça abaixar, cessando suas reclamações.
— Tudo bem, eu sei que a paciência não é uma das virtudes dos descendentes Inu-Youkais — comentou o sábio, olhando para o Inuyasha, que bufou revirando os olhos — Então, vamos direto ao assunto que trouxe vocês aqui — disse caminhando até o outro lado do pátio, onde havia um lindo jardim todo rodeado por estonteantes cerejeiras em plena floração e logo todos estávamos sentados em confortáveis almofadas dispostas sob a sombra das árvores.
Alguns instantes depois chegou o ajudante do mestre com uma grande bandeja, que tinha pequenos apoios, tornando-a uma mesa também, xícaras e um bule estavam sobre a mesma. Seijin nos serviu Matcha* então pude saborear um chá com um leve sabor amargo, mas para compensar haviam Manju´s* e Seijokankidan´s*, que fizeram aquele instante ficar mais doce e prazeroso, deixando-nos mais calmos e relaxados e com as emoções mais afloradas.
Então Miroku e Inuyasha relataram tudo desde quando aquele hanyou Tengu me atacou e roubou minhas memórias até o momento de agora, enquanto eu somente observava.
Confesso que ouvir Inuyasha revivendo o que passamos me deixou triste e com um sentimento de culpa cada vez mais presente, se tivesse conseguido derrotar aquele monstro não estaríamos passando por tudo o que aconteceu até hoje, se eu fosse mais forte, muito sofrimento poderia ter sido evitado, eu precisava ficar mais forte!
Senti minha mão sendo acariciada, estava tão absorta em meus pensamentos que nem havia notado que eles haviam acabado de contar tudo e no momento Inuyasha estava me olhando preocupado.
— Você está bem, Kah? — assenti e olhei para a frente.
— Bom… senhor sábio, agora que já está a par de toda a história, acha realmente que a espada pode liberar minhas memórias? Aliás, ainda ninguém aqui perguntou, a Tessaiga realmente está com minhas memórias? — Olhei angustiada para ele, não aguentava mais essa ansiedade por respostas.
O sábio levantou e caminhou até nós, depois dirigiu-se ao Inuyasha:
— Me dê sua espada — pediu com as mãos estendidas, o hanyou também se levantou e entregou a espada ainda na bainha.
Com as palmas das mãos para cima e a espada sobre elas, o Sábio cerrou seus olhos e manteve-se imóvel por alguns minutos recitando seus mantras, para logo após emitir um profundo suspiro, abrir seus olhos e nos fitar intensamente.
— Esta espada é muito poderosa — comentou, devolvendo-a a Inuyasha — E sim, como Toutousai havia dito, a espada absorveu não só suas memórias Kagome, como sua essência, ou seja, seus poderes de sacerdotisa, seus sentimentos, seus anseios.
Ouvir tudo aqui fez meu coração disparar! Olhei para o Inu e percebi que ele também estava agitado.
— E como podemos fazer a espada devolver tudo de volta a Kagome? — Inuyasha perguntou ansioso à minha frente, enquanto segurava firme minha mão.
— Bom, vamos nos sentar porque preciso explicar uma coisa para vocês — falou enquanto se ajeitava no banco novamente, Inu também voltou a sentar ao meu lado, olhamos para Miroku que observava tudo quieto.
— Calma pessoal! Confiem no sábio — Miroku falou tentando nos acalmar — Nesse momento é a única esperança e caminho que temos, então vamos apenas ouvir e depois tiramos nossa conclusão.
O sábio sorriu e assentiu.
— Certo… provavelmente vocês já sabem, a Tessaiga é agora uma extensão do Inuyasha — nos olhou e assentimos — A princípio foi um presente de seu pai para que você pudesse evoluir não somente como um bravo lutador e guerreiro, mas também com como pessoa, ou seja, seu corpo, mente e espírito.
Olhei para Inuyasha e ele estava surpreso com as informações que recebeu.
— Meu… pai — olhou para a Tessaiga — Fez tudo isso por mim?
— Sim, ele te amava muito e quando percebeu que não poderia estar junto a ti e te ensinar e acompanhar seu crescimento e amadurecimento, então ele deixou uma extensão dele para lhe acompanhar e, simultaneamente; ensinar através das provas que você passou, como se tornar uma pessoa melhor, desenvolver amizades e estreitar laços; pois ele sabia que você estaria sozinho nessa jornada.
Ainda olhando para a espada, vi uma lágrima molhar a bainha, e depois várias caíram no chão enquanto ele apertava a katana em suas mãos.
— Inu… — abracei ele enquanto o sentia afundar o rosto em meu pescoço tentando controlar suas emoções — Tudo bem? — Ele somente balançou a cabeça.
— Continuando — olhamos de volta para o Sábio — Vocês devem estar se questionando como Inu no Taisho sabia sobre esses eventos que ainda nem haviam acontecido, certo? — Olhou para todos e continuou — Ele conhecia pessoas que habilmente podiam prever eventos futuros, pessoas essas muito próximas dele, que provavelmente revelaram alguns fatos do seu futuro, o que fez ele tomar essa decisão.
"Estávamos todos atordoados, pessoas que viam o futuro? Isso seria possível existir?"
— Sei que podem estar ainda em dúvida e até nem acreditar, mas realmente foi isso que ocorreu. Mas precisamos seguir adiante, então deixaremos esse assunto para uma ocasião mais propícia.
— Seguindo essa linha de pensamento de Inu no Taisho, a espada foi feita de seu canino e consequentemente uma extensão dele para seu filho — olhou para Inuyasha — Isso fez desta espada a sua protetora, aquela que cuida e ensina, vocês estão compreendendo?
— É… acho que sim — respondi, Inuyasha somente balançou a cabeça assentindo.
— Certo, certo… — respirou profundamente e continuou — Essa proteção aconteceu também com Kagome quando a espada percebeu os sentimentos de Inuyasha para você — falou olhando para mim.
— Kagome, você estava correndo risco de vida, então a katana fez seu papel e a protegeu do jeito que podia no momento da situação. O que quero dizer é que, se ela não tivesse absorvido sua essência, e logo depois o Tengu foi morto, provavelmente você teria morrido, ou na melhor hipótese, nunca mais conseguiria reaver suas memórias.
— A espada me salvou? — murmurei.
— Não! — respondeu o sábio.
Olhei para ele espantada e totalmente confusa.
— Mas…
— Me deixa consertar o que falei, eu disse que a espada somente absorveu suas memórias e essência, mas quem te salvou foi o amor que Inuyasha tem por você e que naquele momento estava conectado na sua totalidade com a Tessaiga, o que resultou em dar o golpe certeiro.
Não aguentei e me joguei nos braços de Inuyasha emocionada, abraçando-o fortemente.
— Ei pequena? Não fiquei assim — falava enquanto sentia afagar meus cabelos e passava a mão em meu rosto — Eu sempre estarei aqui para te proteger, com minha vida se for necessário.
Ouvir essa declaração tão cheia de amor foi demais para mim e desabei chorando em seu peito.
— Pessoal, calma… — Miroku se aproximou e nos abraçou também, sentindo toda a emoção do momento — O importante é que estamos todos bem, e vamos superar mais essa batalha juntos, certo? — concordamos.
— Sei que é muita informação, mas eu precisava que estivessem cientes de tudo antes de dar todo o processo do teste que vocês vão ter que passar.
— Teste?! — questionamos juntos.
— Exatamente, esta é a segunda parte da história e também não será fácil. Inuyasha e Kagome, para que a liberação de suas memórias seja feita, vocês têm que passar por uma teste meritório* no Monte Kita.
— O queeee?
INUYASHA
— Como assim teremos que passar por um teste? — mas que absurdo era isso que esse sábio estava falando?!
Olhei para Kagome e percebi que ela estava totalmente confusa assim como eu.
— Por favor Mestre Rokono-dono, o que seria esse teste, pode nos explicar? — ouvi Miroku perguntar.
— Vou ser breve, vocês, Kagome e Inuyasha, precisam subir o monte Kita sozinhos, mas devo avisá-los que, somente aqueles considerados dignos conseguem retornar.
— Keh! Não pode ser mais claro? Ser digno, o que isto quer dizer? — minha cabeça dava voltas com todas essas informações.
— Inuyasha, sei que está confuso com tudo o que falei, mas esse Monte é místico e tem uma história muito antiga que se tornou lenda, e esta lenda hoje faz parte deste Monte.
Todos ficamos agitados, mas essa agora?! Um teste e agora o monte é místico?!
— Pode nos contar mais dessa lenda Mestre? — perguntou Kagome.
— A história da lenda diz que, um Imperador mandou anunciar que sua filha iria se casar, mas somente com alguém que fosse digno de seu coração, e pediu para espalhar à todas as nações o anúncio do casamento. No dia de se apresentarem apareceram vários príncipes, de todo canto do país, mas o que surpreendeu ao Imperador é que por último apareceu um simples rapaz que dizia ser somente um agricultor, mas que desejava competir pelo coração da princesa, pois a amava.
— Vamos ter que ouvir historinhas agora? — reclamou o hanyou irritado, olhei para Kagome e Miroku e estavam sérios olhando para o Sábio esperando ele continuar, cruzei meus braços e bufando continuei ouvindo.
— O Imperador reuniu todos no palácio e pediu um teste do amor deles pela princesa, o teste consistia em ter que subir o Monte Kita e quem fosse o primeiro a retornar seria o que teria a mão da princesa. Todos ficaram alvoroçados dizendo que o teste era muito fácil, mas o que o Imperador só contou depois é que eles não poderiam levar ninguém para ajudá-los, nenhuma arma para se defender e também nenhuma comida ou água. E para agravar a situação, estavam em pleno inverno, com constantes nevascas e dias curtos com noites longas e congelantes, existiam ainda os animais selvagens que ali habitavam e que poucos tinham coragem de enfrentar, mesmo aqueles que conheciam a região.
Vendo que todos estavam quietos e atentos, o Sábio continuou.
— Sabendo das dificuldades do teste, a maiorias dos príncipes desistiram e foram embora, dizendo que o teste era impossível de ser realizado, e por fim sobraram somente três pretendentes dispostos a enfrentar todas as dificuldades. Entre eles estava o agricultor, que em nenhum momento vacilou em começar logo sua jornada, mas antes chegou próximo à princesa, se ajoelhou e fez uma reverência e após uma promessa: "— Logo estarei de volta para revogar meu prêmio, o qual é o seu amor princesa!" — então levantou-se e sem mais nenhuma palavra dirigiu-se em direção ao Monte Kita.
— Todos aguardavam a um pouco mais de 24 horas o retorno do primeiro que seria o futuro imperador, foi quando constataram no pé do Monte o primeiro a chegar, cansado e todo machucado estava um dos príncipes, significando ter passado no teste. Após algumas horas outro príncipe retornou e notou que falhara no teste chegando em segundo lugar, deixando-o muito irritado, então foi embora. Todos ainda aguardavam o retorno do agricultor, mas este infelizmente não voltou.
— O imperador percebeu que a princesa ficou desconsolada, mas não perguntou porque, e o casamento foi realizado logo em seguida com o príncipe vencedor. Foi enviada uma equipe de busca para tentar achar o agricultor, mas nada foi encontrado.
— A cerimônia do casamento foi grandiosa, e entre eles, os mais nobres foram convidados e uma grande festa foi realizada deixando a todos muito satisfeitos. Mas o que a maioria não percebeu, nem o próprio príncipe, é que no meio da festa a princesa desapareceu, e após um tempo quando sentiram falta da mesma, começaram as buscas pela região, até cogitaram que ela tivesse sido sequestrada, mas um tempo depois, um dos servos do Imperador informou ter visto a princesa subir o Monte Kita sozinha, já fazia algum tempo.
— Kami-sama! — Ouço Kagome falar, já percebi que sua voz estava trêmula.
— Pois é bela sacerdotisa, o Imperador moveu todo o seu exército em busca de sua amada filha, busca essa que durou uma semana, em meio ao mais rigoroso inverso, e após ver suas esperanças se findarem, a princesa foi dada como desaparecida, pois também ninguém nunca a encontrou.
— O Imperador morreu pouco tempo depois de uma profunda tristeza e também pela culpa de ter feito esse teste e causado a morte de sua amada filha, ele descobriu também que a princesa era apaixonada há muito tempo pelo agricultor, e por esse motivo a mesma havia ido ao encontro do seu amor.
Kagome nesse momento chorava baixinho e eu fiquei triste por esse amor que não pode ter sua felicidade.
— Diz a lenda… — contou o Sábio — Que o casal que subir o Monte e conseguir voltar após passarem pelo teste, serão dignos de vivenciarem o amor pleno e ficarão ligados pelo fio do destino eternamente.
Estávamos todos em silêncio com as informações passadas pelo sábio, respirei fundo e me levantei, peguei a mão de Kagome e a puxei para perto de mim.
— Independente do tipo que seja esse teste e da sua dificuldade, sei que retornaremos! — Afirmei olhando diretamente para ela, por quem eu passaria por qualquer teste para provar o meu amor por aquela que já tem meu coração e minha vida em suas mãos.
— Espera! Mas e quanto a mim? — perguntou Miroku.
— Você ficará aqui embaixo, me ajudando com os doentes e necessitados, estamos precisando muito de ajudantes — olho para o monge e vejo ele arregalar os olhos e bufar, hahaha agora era a vez dele se dar mal.
Olhei para cima e vi aquele monte gigantesco à nossa frente, cercado por uma densa neblina e senti um frio em minha coluna.
— Vamos Inu — sinto Kagome segurar minha mão e apertá-la, me dirigindo um lindo e imenso sorriso — Quero retornar logo desse teste e me lembrar de tudinho.
— Keh! Vamos! — segurei com força e começamos a subir o monte.
(...)
Estávamos subindo o monte havia duas horas, decidi que iríamos fazer o percurso calmamente, mesmo porque o mesmo era muito alto e provavelmente quando estivéssemos chegando próximo ao topo, o ar ficaria rarefeito e cada vez mais difícil de respirar. Então, para não cansarmos à toa, resolvi caminhar em um ritmo constante e que não exigisse muito. Até tentei levar Kagome em minhas costas, mas ela não concordou.
— Não Inuyasha! — respondeu decidida — Esta prova é para nós dois, preciso chegar lá por meu próprio esforço, caso contrário, sentirei estar sabotando o teste indo em suas costas.
Pensando desse jeito ela tinha razão, então concordei e ao seu lado seguimos subindo, percebi que o monte possuía uma trilha que o circundava todo, era estreita e bem rústica, cheia de pedras pelo caminho. A meu ver, isso facilitaria muito a nossa jornada até o cume, pois seria mais difícil se tivéssemos que escalar.
Claro que eu sendo um hanyou poderia ir pulando e rapidamente estaria no topo, mas eu decidi seguir a mesma convicção de Kagome, onde realizaria a prova juntos e terminaríamos juntos.
— Kagome, você está bem? Quer parar um pouco para descansar?
— Estou bem Inu, só um pouco preocupada sabe… — suspirou continuando a caminhada — Quero fazer tudo direitinho, quero poder chegar lá e passar nesse teste, isso está me deixando angustiada.
— Pois não deveria, vai dar tudo certo, meu coração está me dizendo isso — a vi sorrindo e recuperando sua determinação do início e seguimos adiante comigo ao seu lado.
(...)
Mais duas horas adiante e ainda continuamos nessa andança interminável, decidi dar uma olhada a nossa beira e notei que chegamos a metade do nosso caminho.
— Kagome, vamos dar uma parada, certo? — percebi que ela estava cansada e respirando com dificuldade, provavelmente pelo ar rarefeito.
— Só mais um… pouquinho, logo mais… à frente paramos tá?!
Argh! Que mulher teimosa! Pensei, mas resolvi ficar quieto e atento caso ela tropeçasse, porque percebi seu cansaço e as pernas trêmulas.
Após mais alguns minutos no trajeto comecei a sentir um cheiro estranho no ar, tentei farejar de onde vinha e o que poderia ser, mas não consegui identificar. Nunca senti este cheiro em toda minha vida, era levemente ácido e me deixou dormente. Olhei para meu lado e não enxerguei Kagome, um nevoeiro espesso havia se formado em minha volta, tentei encontrar seu cheiro característico, mas nada senti! Todos os cheiros haviam desaparecido.
— Kagome! — gritei entrando em desespero, meus sentidos começaram a ficar dormentes, então caí de joelhos, meus olhos ficaram pesados e antes de entrar em uma escuridão profunda tentei encontrá-la novamente — Ka… gome…
...
— Inu… — ouvi uma voz fraca e bem distante me chamando, o som daquela voz começou a ficar mais forte e próximo.
— Acorde… — ouvi aquela voz me chamando novamente… uma voz conhecida…
— Inuyasha! — desta vez pude ouvir nitidamente, fazendo-me sentar rapidamente. Minha cabeça rodou e um forte zumbido tiniu em minhas orelhas.
— Argh!
— Inuyasha você está bem? — Eu conhecia essa voz, abri meus olhos — Kikyou?! — Olhei aquela mulher à minha frente, o que estava acontecendo?
— Kikyou? — repeti a pergunta.
— Sim Inuyasha, sou eu! O que está acontecendo com você? — Vi ela se levantar colocando as mãos na cintura e com as feições nem um pouco humoradas.
Olhei ao redor, eu estava deitado em um futon muito confortável, no outro canto também havia mais dois deles, mas em tamanhos menores.
— Onde estou? Por que está aqui? — O que está acontecendo? Pensei. Como vim parar aqui?
— Ahhh Inuyasha, pare de brincadeira! — se virou e saiu andando, eu me levantei ainda com uma leve tontura e a segui.
Olhando em volta, notei estar numa cabana, havia uma lareira no centro, no canto uma pequena mesa com almofadas me trazendo uma sensação de aconchego, de já conhecer este lugar, mas não me lembrava de onde, então Kikyou saiu e fui atrás.
— Kikyou porque estou nessa cabana com você? — ela estava na lateral da casa onde estendia algumas roupas, achei estranho, pois também haviam roupas masculinas ali penduradas.
— Como assim Inuyasha? Você está estranho hoje… — disse olhando-me com as mãos na cintura.
— Kikyou, por favor, estou sem paciência, de quem é esta cabana?
Vi ela enrugar a testa e andar em minha direção, chegou bem perto e colocou a mão na minha testa, me fazendo paralisar.
— Hummm! Febre você não está — olhou-me e sorriu enlaçando meu pescoço — Amor, esse é nosso lar, não se lembra? — logo depois depositou um beijo em meus lábios rapidamente.
Arregalei meus olhos, uma sensação muito desconfortável me apossou e instintivamente a empurrei, ela se afastou parecendo assustada.
— Co… como assim nosso lar? — minha cabeça estava uma confusão, Kikyou olhava-me com a boca aberta e aturdida.
— Sim, essa é nossa casa, você a construiu para nós! Eu não estou entendendo, você não se lembra de nada?
Eu só balançava a cabeça negativamente, tentando me lembrar quando fiz isso, não tinha lembranças nenhuma de ter construído essa casa, eu nem sabia construir nada!
— Inuyasha, pare com isso, por favor, você está me deixando assustada — disse se aproximando.
Instintivamente pulei para trás me afastando, com isso percebi haver algo errado, eu estava sem minha energia demoníaca, olhei para minhas mãos e estavam sem garras, então passei a mão em minha cabeça e minhas orelhas de hanyou não estavam lá!
— O que? — Estou humano e era dia? — O que você fez Kikyou? — Olhei para ela e lágrimas caíam de seus olhos. "Porque ela estava chorando? Ela nunca chora!"
Percebo que Kikyou iria falar algo quando ouço me chamarem atrás de mim.
— Oê Inuyasha! — Era Miroku que estava com uma criança em suas costas.
— Monge! — fui em sua direção, visualizei logo atrás Sango vindo com duas meninas.
— Tio Inu! — as meninas correram e agarraram em minhas calças gritando o meu nome.
— Olá, Inuyasha! — Sango chegou me cumprimentando — Tudo bem com vocês? Olá Kikyou! — Saiu em direção a ela me deixando sozinho com Miroku.
— Miroku, preciso conversar com você — sussurrei — Tem algo de errado por aqui.
— Errado? Aconteceu algo com as crianças?
"Crianças? Ele está falando dos filhos deles?" Pensei. Quando ia comentar sobre minha condição humana, ouço gritos e risadas vindo de longe, próximo ao rio que avistei passava ao lado da cabana.
Virei e vi duas crianças correndo em nossa direção, uma menina com longos cabelos e olhos escuros e um menino também com cabelos longos, mas estes estavam presos, já seus olhos eram castanhos, já tinha visto olhos iguais, só não me lembrava onde…
— Papai! — gritaram juntos correndo em minha direção, sorrindo e com os braços abertos.
"O QUEEEE? Aquelas crianças estavam me chamando de papai?"
Antes que eu conseguisse entender tudo o que estava acontecendo, sinto-as abraçarem minhas pernas, olhei para baixo e as vejo sorrindo de alegria.
— Papai, vamos brincar lá no rio? — "Eu tenho filhos? Quando isso aconteceu?"
— Olá monge Miroku — vejo Sango chegando com as crianças e Kikyou logo atrás.
— O que você fez Kikyou?! — Me desvencilhei das crianças e fui em sua direção segurando-a pelos ombros — Que droga de feitiço, maldição ou sei lá o que fez comigo?! — gritei perdendo minha paciência.
— Isso é jeito de falar com sua esposa, Inuyasha? — recriminou Sango, todos me olhavam assustados e Kikyou já estava em prantos.
— Sango, ele está assim desde que acordou! Como pode não se lembrar da gente, de sua família? — a sacerdotisa falava entre os soluços.
Minha cabeça dava voltas! Como assim eu tinha uma família e filhos? E com a Kikyou?! Não, não! Algo me dizia que não era com ela que eu deveria ficar e ter uma família!
— Eu não entendo… não me lembro de nada disso! Quando casamos? Por que estou humano?
Todos me olhavam, estavam realmente assustados, então Miroku chegou perto colocando a mão e meu ombro.
— Amigo, vamos nos acalmar e entrar para conversar, assim podemos responder todas as suas perguntas e quem sabe descobrimos porque você não se lembra, certo?
Concordei e fui em direção à casa, ao passar por Kikyou ela ainda me olhava chorando, seus olhos me fizeram sentir que ela sofria. Meu coração se apertou com isso, não queria vê-la sofrendo, um sentimento muito forte de culpa instalou-se em meu coração.
Entramos na casa e sentamos em volta da lareira, logo depois Sango e Kikyou também entraram, ela já não chorava mais. Enquanto todos se acomodavam, Sango colocou água na chaleira, após alguns minutos nos serviu um chá e saiu.
— Sango ficará cuidando das crianças enquanto conversamos — esclareceu Miroku.
— Inuyasha, você realmente não se lembra de nada? — me perguntou Kikyou.
— Não me lembro de nada, isso tudo me parece um pesadelo — falei sem pensar, então vejo ela voltar a chorar — Me… me desculpe Kikyou, eu não queria…
— Inuyasha, qual é sua última lembrança? — me cortou o monge.
Tentei puxar minhas últimas lembranças, mas não conseguia, estava tudo embaralhado em minha mente, eu só sabia que eu não tinha me casado com a Kikyou, eu sentia que não era a pessoa certa.
— Eu… não me lembro... não sei ao certo — respondi muito confuso.
— Você não se lembra do pedido que fizemos a Joia de quatro almas*? — perguntou Kikyou.
— Pedido? Você fez um pedido para a Shikon? Por quê?
— Nós fizemos Inuyasha, eu e você! Juntos pedimos para você se tornar humano e logo depois nos casamos! Não é possível que você não se lembre!?
— Eee… eu
— Todo aquele tempo você me observando e me seguindo, depois começamos a nos conhecer até nos apaixonar e depois combinamos de fazer o pedido para você se tornar humano para que eu não precisasse mais ser a guardiã da joia e podermos viver juntos! Não tem lembrança nenhuma disso?! — Kikyou chorava desesperada, me fazendo sentir ainda mais culpado.
— Inuyasha tente, faça um esforço para se lembrar! — pediu Miroku também angustiado com a situação.
— Eu não me lembro de nada disso! Só pode ser um pesadelo! — me levantei em total agonia.
"Como eu não me lembrava de uma coisa tão importante? Eu me casei, e abri mão da minha descendência Inu!" — pensei.
— Como posso não me lembrar de ter me tornado humano? — disse me questionando — Como não me lembro de ter me casado com você? Isso… isso é uma decisão que mudou a minha vida! Como não iria me lembrar de algo tão importante!?
— Inu… — ouvi Kikyou me chamar, quando olhei para ela, num instante de segundo vi outra pessoa em seu lugar, ela tinha olhos cor de chocolate e eram tão amáveis.
"Outra pessoa me chamava assim… mas quem?!" Meu coração batia descompassado, eu não sabia o que estava acontecendo, estava sentindo um vazio, meu lugar não era aqui.
— Não me chame assim! — gritei — Você não é ela!
Olhei e todos estavam estáticos e me encaravam assustados e confusos, mas tão confusos como eu, que mesmo gritando aos quatro ventos, não sabia quem era "ela".
(...)
Uma semana!
Uma semana que eu estava vivendo totalmente deslocado e com um sentimento de não estar no lugar ao qual eu pertencia, sentia que estava faltando algo… ou alguém.
Eu passava meus dias sentado no topo de uma das mais altas árvores, quando me chamavam eu descia e ajudava, porque eu sabia ser a coisa certa a fazer. Normalmente era Kikyou quem me pedia para cortar lenha, ou ajudar a pescar peixes, ou até mesmo brincar com as crianças.
Crianças… Suyen e Katsuo, meus filhos! Isso tudo soava tão irreal e absurdo, nunca tinha pensado em formar uma família, mas a sensação em meu interior me dizia o contrário, que havia alguém, sim, alguém que planejei ter uma família, que estava me esperando, isso me deixava com um gosto amargo na boca.
Miroku me chamou para ajudar com alguns youkais que estavam atacando em uma vila próxima, mas isso só fez piorar o meu sentimento, pois não consegui ajudá-lo em minha forma humana, deixando ele fazer o extermínio praticamente sozinho, me sentindo sem utilidade e me fazendo questionar o porquê fiz aquele pedido?
Depois de alguns dias de angústia e desespero percebi que não estava em um feitiço ou maldição, Kikyou estava me tratando com respeito e era muito compreensiva com a minha súbita perda de memória, mas esse sentimento de vazio e saudade nunca me deixava, ao contrário, somente aumentava a cada dia.
"— Inuyasha…" – ouvi uma suave voz me chamar fazendo meu coração disparar, pulei do galho que estava, procurando de onde vinha aquela voz, mas nada! Nenhum ruído depois disso! Meu peito ardia e meu coração batia tão rápido chegando a me causar dor, ajoelhei socando o chão.
— Droga! Droga! Droga! — O que era esse sentimento intenso? Quem estava me chamando?
— Inuyasha? — reconheci Kikyou me chamando, aquela voz que por muito tempo pensei estar apaixonado, mas que hoje não me causava nenhum sentimento, somente um bem-querer, um carinho por tudo aquilo que tínhamos passado juntos.
Levantei-me olhando aquela que um dia pensei amar, mas que hoje só significava uma grande amizade, uma importante pessoa do meu passado. Mas então a angústia e dúvida me corroíam, por que então resolvi me casar com ela, e ter uma família juntos? Não conseguia entender isso! Claro que ela continuava linda, como sempre foi, mas essa beleza hoje não me causava nenhum desejo, o que um casal que se ama deveria ter.
— Olá Kikyou…
— O jantar está pronto, você não quer vir comer conosco? Com a sua família?
Olhei em seu rosto, estava abatido, seus olhos estavam tristes, suspirei, eu já havia falado milhares de vezes que eles não eram minha família e que algo estava errado. Mas após tanto ver o sofrimento deles acabei parando de falar. Mais adiante estavam as crianças que ela dizia serem meus filhos, eles estavam parados na porta, ansiosos para que eu entrasse.
— Tudo bem, jantarei com vocês… — vi um sorriso surgir em seu rosto.
Estávamos jantando, Kikyou e as crianças comiam e conversavam bastante, eles pareciam ser uma família muito unida.
Família, uma palavra tão distante para mim, sempre quis saber como era o aconchego de um lar, de pessoas que de verdade se importassem, independente de sua condição. Só lembrava desse sentimento de minha mãe, mas já havia passado tanto tempo que tinha ficado bem distante em meu coração.
— Inu… você quer mais peixe? Tem batatas e legumes também — um zumbido forte em meu ouvido nesse momento me tirou do ar.
"Inu! Não coma só porcarias, coma os legumes também!".
Ouvi aquela doce voz novamente, como se já as tivesse ouvido em algum lugar…
"Inu, as batatinhas são para dividir!"
Me levantei sufocando, não conseguia sentir o ar passar, meu coração doía, me deixando arqueado e desesperado.
— Calma Inuyasha, venha — Kikyou pegou em minha mão me levando até o futon no quarto — Deite-se e se acalme, respire devagar.
Ela passava as mãos em meu peito e falava suavemente para me acalmar, suas palavras e a massagem em meu peito que doía começaram a surtir efeito e fui me acalmando.
"Aquelas mãos eram tão macias, eu me lembrava de mãos assim, mas de quem eram?"
Meu manto foi aberto, assim como meu kosode* e senti um calor subindo em meu pescoço que foi descendo até meu peito, suas mãos massageavam e as unhas roçando levemente fazendo meu corpo arrepiar, minha respiração ainda ainda estava falha e mal consegui me concentrar, sentia minha mente girar. Mãos quentes agora estavam em meus quadris e retiravam meu hakama*…
Ahhh aquelas mãos, aquela boca…
Lembranças tentavam surgirm em minha mente de alguém que fazia sentir meu corpo queimar e meu coração acelerar…
Meu corpo todo ardia, uma saudade imensa "dela" sentia no peito que se oprimia mais. Mas quem era ela?
Algo molhado e quente me fez gemer quando entrou em contato com meu membro que já estava rijo e pulsante.
— Delícia… — ouvi. O calor virou brasa e meu corpo começou a convulsionar.
— Isso… Me chupa minha mulher… minha Kagome!
Abri meus olhos olhei para baixo e não era "ela", era Kikyou!
Congelei. Em choque a empurrei, senti que me libertava de tentáculos que estavam me arrastando para o mais profundo de uma escuridão sem fim.
Arrumei rapidamente minhas roupas e sai correndo em total desespero, minha cabeça estava pesada, eu ouvia ao longe Kikyou e as crianças gritando e me chamando.
— Inuyasha, volte!
— Papai! Papai!
Não parei!
Corri para o mais longe possível de tudo aquilo. Meu estômago embrulhava com a visão do que havia acabado de fazer.
— Não! Como pude? Como deixei isso acontecer?! "Quem era Kagome?" — pensei. Uma sensação de estar traindo-a se alojou em meu coração.
Tentei forçar minha mente nesse nome, mas sentia em meu cérebro como se recebesse milhares de pequenos choques, era uma dor lancinante, não aguentei e me ajoelhei desesperado com as mãos na cabeça, os choques eram dolorosos e insuportáveis, notei um nevoeiro denso se formar em minha volta, eu não conseguia enxergar mais, tudo ficou cinza e um cheiro ácido se fez presente.
" — Você não a quer, hanyou!" — uma potente voz surgiu junto àquele nevoeiro.
— Quem é você? — perguntei totalmente zonzo.
" — Você não a ama! Sempre a desprezou e preferiu a outra!" — aquela voz continuava.
Eu não entendia, mas meu coração, que estava disparado, se revoltou e eu respondi por ele.
— Não! — gritei.
— Eu sempre a admirei! — disse sem notar que as palavras saim sem meu controle.
" — Você nunca a quis!" — aquela voz não parava, e conforme falava, mais denso o nevoeiro ficava, meu estômago embrulhava com aquele cheiro e minha cabeça pesava mais a cada instante.
— Sim, eu a quero! Ela é minha! — eu não sabia quem era, eu só tinha toda a certeza do meu coração que a queria.
" — Você não a ama!"
— Mentira! Eu a amo! — Cada vez mais era difícil conseguir falar ou pensar.
— Eu… a amo… Amo com a minha vida! — sem forças, meu corpo foi ao chão e minha mente se apagou.
...
Meus olhos ardiam, minha garganta estava seca e queimava, tossi para conseguir respirar e olhei à minha volta. Estava de volta ao monte, o nevoeiro havia sumido e as lembranças começaram a retornar, tão rapidamente como tinha desaparecido no meu provável teste. Então com dificuldade me coloquei de pé e olhei ao redor sem encontrá-la.
— Kagomeeee! – chamei-a, várias e várias vezes, tendo somente o silêncio como resposta.
De súbito lembrei-me do mestre dizendo que deveríamos chegar ao topo para encerrar o teste. Provavelmente ela estava passando pelo mesmo teste e com certeza Kagome já estava lá me esperando.
"Então tudo havia sido um teste, aquilo tudo que passei era um maldito teste! Porque tudo tinha que ser tão difícil para ficarmos juntos?!"
Respirei fundo e reuni toda minha força, gradualmente comecei a andar e depois a correr rumo ao cume, ansioso e angustiado para ver minha amada que já devia estar a minha espera.
*Posição de lótus — A posição de lótus é uma postura onde o indivíduo permanece sentado com as pernas cruzadas e os pés em oposição às coxas com o fim de meditar seguindo práticas indianas. Foi estabelecida na tradição da ioga hindu. a posição lembra uma flor de lótus, melhorando a respiração e promovendo a estabilidade física. Estudantes experientes utilizam-no na meditação, este trabalha a flexibilidade das articulações dos joelhos e tornozelos, tonificar os órgãos abdominais e a coluna, promovendo maior irrigação sanguínea na base do tronco.
*Shakuhachi — O shakuhachi é uma flauta tradicional japonesa, tocada verticalmente, como a flauta doce ou a quena, e possui embocadura livre. O modelo tradicional é fabricado com bambu madake, possui cinco furos para os dedos e sete nós em seu corpo. O comprimento padrão é de 30,3 centímetros. O bambu usado na sua construção é um bambu grosso e duro chamado Madake, cortado na base e com a distância entre os nós bem-definida. Possui quatro orifícios na parte frontal e outro na parte traseira coberto pelo polegar.
O shakuhachi foi introduzido no Japão através da China. Existem composições para o shakuhachi datadas da era Nara (Século VIII). O shakuhachi era tocado como parte das cerimônias e práticas do Zen Budismo, mais especificamente na facção Fuke japonesa. Era o instrumento preferido dos sacerdotes peregrinos. No início do período Edo (Século XVII) surge a escola Kinko, que sem perder os aspectos religiosos, passou a utilizar o instrumento puramente para a música. Há cerca de cem anos surgiu uma nova escola, a Tozan. Existem diferenças na técnica de execução dos instrumentos, e até mesmo na estrutura, como a colocação do quinto orifício numa posição mais abaixo.
*Meritório — Mérito (do latim "meritus") ou merecimento, é a qualidade atribuída a uma pessoa cujo ato ou atividade foram reconhecidos como de grande valor (meritório) em favor da coletividade, a partir de um julgamento moral. Ocasionalmente, o reconhecimento público do mérito é demonstrado através da concessão de medalhas, condecorações, títulos ou diplomas, para destacar os atos reconhecidos.
*Joia de Quatro Almas — A Shikon no Tama (Jóia de Quatro Almas) foi criada pela Sacerdotisa Midoriko em uma batalha contra Youkais, a partir da junção das 4 almas:
Ara-mitama, Nigi-mitama, Kushi-mitama, Saki-mitama que simbolizam respectivamente a coragem(Yuu), amizade(Shin), sabedoria(Chi) e amor(Ai).
Essas 4 almas unidas formam uma coisa só: o coração humano. Os humanos podem agir com bravura, ter intimidade e amizade com alguém, ter sabedoria e sentir amor, esses são os sentimentos que formam as almas.
Quando essas almas são unidas em uma só, em tempos de grande caos, quando o bem e o mal são selados juntos, é possível criar uma Shikon no Tama.
Origem: A Shikon no Tama nasceu do imenso reiryouku (poder espiritual) da sacerdotisa Midoriko durante uma batalha entre ela e centenas de youkais, as almas dos dois lados foram capturadas e se tornaram uma. A alma pura de Midoriko e as almas corrompidas dos youkais, interligadas, deram origem a Shikon no Tama. No anime, acredita-se que enquanto a Shikon no Tama não desaparecer desse mundo uma batalha ainda é travada entre Midoriko e os youkais, dentro da Shikon no Tama, uma batalha entre o bem e o mal, o que talvez seja o porquê de todos que possuem a Shikon terem tantas desgraças em suas vidas.
*Matcha — Chá usado nas Cerimônias do Chá, tomado em ocasiões informais e servido em casas de chá estilo tradicional. É um chá bem diferente dos produzidos no resto do mundo porque ele é em pó (a própria folha do chá é transformada num pó bem fino e bem verde). Assim, enquanto nos demais chás o néctar é resultado de uma infusão de folhas desidratadas e picadas de chá, no matcha a folha inteira transformada em pó é dissolvida em água quente. Para se preparar o matcha é necessário bater o pó com um pincel de bambu, misturando-se a água aos poucos numa tigela, formando um líquido verde, de aparência densa, e espumante. É um chá extremamente amargo (o torna um pouco difícil de bebê-lo puro), e por isso, quando se quer tomá-lo em uma ocasião qualquer que não numa Cerimônia do Chá, come-se um doce junto (são recomendados os doces tradicionais de mochi com recheio de feijão azuki). Adoçar o matcha com um pouco de açúcar ou adoçante é algo mal visto pelos apreciadores tradicionalistas.
*Seijokankidan — Este é considerado hoje o doce mais antigo do japão, acredita-se que este doce tenha começado a se originar no período Nara (710-794). Mas, foi no Período Edo que ele foi mais consumido, na verdade, a história do Seijokankidan ultrapasse em muito os 1.000 anos. Provavelmente ele foi introduzido pela primeira vez no Japão por um enviado japonês à China, que trouxe iguarias chinesas chamadas Karakudamono para o Japão, juntamente com a prática religiosa muito popular até hoje, o budismo.
Por conta de sua origem, esse doce já foi até mesmo usado como oferenda em rituais e em determinado momento era consumido somente pela nobreza. Ele é feito com uma massa de farinha de arroz que envolve uma pasta de feijão doce. Em seguida é frito, antes da fritura, ainda é passado um óleo de gergelim para trazer um sabor ainda mais especial, além do aroma. Por conta da fritura e seu modo de preparo, ele tem uma crocância especial. A aparência se assemelha a uma flor de lótus com oito pétalas.
*Manjū — Manjū 饅頭, まんじゅう (manjū?) O Manju é um dos bolinhos mais tradicionais do Japão, também feito à base de mochi. Ele é tradicionalmente recheado com anko (pasta de feijão azuki). O doce é uma variação de uma espécie de pão chinês, Mantou (馒头). Este doce pode ser facilmente encontrado em mercados típicos japoneses. Além da versão tradicional, ele também pode ser servido assado, grelhado no espeto ou com creme de laranja.
*Hakama — Hakama (袴, hákámá) é um tipo de vestimenta tradicional japonesa. Cobre a parte inferior do corpo e se assemelha a uma calça larga.
Existem dois tipos de Hakama:
. Inteiriço — como uma saia, utilizado sobre Quimono longo e especialmente em cerimônias formais;
. Dividido — como calças, o umanori (馬乗り, "Hakama de equitação").
Originalmente eram usados por samurais para proteger as pernas enquanto andavam a cavalo. A pé, o Hakama esconde as pernas, tornando mais difícil prever a movimentação, dando assim vantagem em combate.
Hoje em dia, Hakamas são usados apenas em situações extremamente formais, como a cerimônia do chá, casamentos e funerais; também por atendentes de templos xintoístas e por praticantes de certas artes marciais japonesas, como aikido, iaido, kenjutsu, kendo, kyudo.
InuYasha veste um kosode (camisa) branca, uma espécie de calça, chamada hakama, um obi envolto da cintura e quimono, tudo na cor vermelha, e nas mangas largas, contém uma pequena abertura no antebraço. A roupa é feita com pele de rato-de-fogo.
Notas Finais
Obrigado por acompanhar e comentar, até o próximo!
Beijos no coração!
