Disclaimer: Tróia não me pertence, faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.
Segunda Chance
Capítulo 3
Quando Aquiles deixou o território de Heitor no meio daquela madrugada, os questionamentos de todos os homens de ambas as facções que estavam envolvidas na infindável guerra da máfia ateniense só aumentaram, e não havia nenhuma resposta ou explicação plausível para o líder dos mirmidões, sob o comando de Agamenon, ter deixado a sala do herdeiro de Príamo completamente ileso.
Os protestos de Paris foram ouvidos com intensidade a despeito da música alta da boate, até serem silenciados quando ele entrou na sala a prova de som do irmão mais velho. Os homens mais fiéis de Heitor foram instruídos a escoltarem Aquiles de volta à entrada da boate, sem qualquer tentativa de agressão ou sofreriam retaliações. Andrej, que aguardava pelo retorno do chefe com uma impaciência crescente do lado de fora, também foi pego de surpresa ao encarar o chefe saindo da boate escoltado. Já havia muito tempo que se especulava, entre os veteranos da máfia, o que aconteceria dada a oportunidade de Heitor e Aquiles se enfrentarem pessoalmente. Nenhuma das especulações tinha previsto aquilo, e todas as apostas feitas na vitória de um dos dois lados foram perdidas para a casa.
O andar de Aquiles para fora da boate tinha sido tão tranquilo e comedido quanto aquele de entrar lá, na toca do leão. Andrej abriu e fechou a boca inúmeras vezes, tentando formular alguma pergunta para o chefe, quando eles entraram de novo no carro e dirigiram para longe do território inimigo, mas não conseguiu proferir uma palavra sequer. Depois de mais de uma década servindo a Aquiles, era como se desconhecesse o homem a sua frente completamente.
― Como foi o avanço dos homens na expansão do nosso território, Andrej? ― Aquiles que quebrou o silêncio no meio do caminho.
― O quê? ― Andrej estava tão perdido nos pensamentos, que não assimilou uma palavra sequer da pergunta alheia.
― A invasão que planejamos enquanto eu conversava com Heitor, foi bem-sucedida? ― perguntou Aquiles de novo, dessa vez virando o rosto para encarar o subordinado diretamente.
― Ah, s-sim, meu senhor. ― ele piscou algumas vezes, pegando o celular no bolso do blazer. ― Não conseguimos tomar todo o território, mas evitamos perdas, parece que de ambos os lados. Temos que confirmar os dados, mas acho que pelo menos um terço do território é nosso.
― Bom. ― Aquiles fez um aceno positivo com a cabeça. ― E Pátroclo? Está seguro?
― Sim, senhor, confirmei com os homens, ele não deixou o apartamento a noite toda. Estão de olho nele diretamente.
― Ótimo. ― ele ficou ainda mais satisfeito com a resposta, voltando a encarar a paisagem do lado de fora da janela. ― Vamos voltar para o clube, mande todos os homens irem lá para se reunirem e me passarem os detalhes da missão. Aquele porco vai querer os mínimos detalhes.
― Já passei as instruções.
― É por isso que é meu braço direito, Andrej. ― Aquiles sorriu satisfeito, batendo no ombro do outro com firmeza.
― Meu senhor… posso fazer uma pergunta?
― Claro.
― Como… ― ele pensou em perguntar como Aquiles tinha saído ileso da boate, mas reformulou a pergunta no meio do caminho. ― O que discutiu com Heitor? Como ele o deixou sair ileso?
Aquiles já esperava que o assunto fosse despertar a curiosidade do subordinado, mas por mais que Andrej fosse seu cúmplice mais fiel atravessando até eras históricas, sabia que não era hora para revelações, com tão pouco que ele e Heitor tinham em mãos, a guerra ainda podia ter o mesmo desfecho.
― Você sempre foi meu homem mais fiel, Andrej, e acho que não expressei isso o suficiente nessas vidas. ― respondeu Aquiles. ― Sei que estou pedindo demais de você agora, mas confie em mim por enquanto. Você saberá quando for hora.
― Eu sempre confio, meu senhor. ― a resposta de Andrej foi tão rápida que Aquiles não conteve o sorriso satisfeito. Fidelidade não era algo fácil de se obter, nem mesmo nos tempos da Grécia antiga.
O carro seguiu o trajeto conhecido de volta ao território com o qual Aquiles estava estranhamente familiarizado. Naqueles tempos, as fortalezas tinham se transformado em grandes prédios e arranha-céus onde o dinheiro circulava e tinha poder, muito mais poder do que territórios e grandes exércitos tinham na antiguidade. No submundo, onde as guerras de facção ainda existiam, as boates, cassinos, bordéis, eram os pontos estratégicos de cada um dos grandes reis e príncipes que tinham renascido sob novos status.
Diferente da boate no território de Heitor, onde cada pessoa lhe apontava uma arma ou olhares acusadores, ali, ele entrou como um verdadeiro rei. Os seguranças e funcionários do estabelecimento lhe cumprimentavam com respeito e abriam espaço para que ele passasse, lhe oferecendo drinks, serviços e assistência para tudo o que ele precisava. Ele se pegou muito familiarizado com o tratamento, particularmente das belas dançarinas que cruzavam o limite do seu espaço pessoal e estendiam as mãos por cada centímetro do seu corpo. Na sua vida antiga, tinha experienciado aquilo, com mulheres e mulheres que se deitavam aos seus pés para glorificá-lo por todos os seus grandes feitos em batalha. Mas assim como, naquela vida, ele tinha se rendido a um amor proibido com a serva de Apolo e família do seu maior inimigo, agora que trazia as lembranças dela para a sua vida moderna, ele sabia que Briseis era tudo o que ele precisava.
Com um sorriso enigmático e gestos mais suaves, ele dispensou as companhias que foram oferecidas até estar no seu escritório, acompanhado de Andrej, onde o barulho todo da boate era silenciado também pelas paredes a prova de som.
― Os homens já chegaram, Andrej? ― Aquiles perguntou, se familiarizando com a sala ampla que sua mente já conhecia. Diferente do escritório de Heitor, o dele só tinha decorações modernas e aparentemente caras, sem qualquer coisa que o remetesse à sua vida antiga. Talvez ele pudesse trazer um pouco das heranças de sua vida de guerreiro para o escritório, ou quem sabe para o novo apartamento que ficaria pronto para ele no dia seguinte.
― Sim, senhor, já estão vindo para cá. ― Andrej confirmou, olhando a informação no celular.
Aquiles andou até atrás de sua mesa e viu uma garrafa de vidro elegante com uma bebida forte que ele reconheceu como whisky. Serviu um copo, sem gelo, e observou o líquido por um tempo antes de ouvir a porta se abrindo e os sons dos homens trocando informações em tons animados e convencidos, em contraste com a música que invadiu a sala, agora com a porta aberta.
― Senhor, nós trouxemos um presente do território de Heitor. ― uma voz masculina se sobrepôs às demais e Aquiles ouviu algumas risadas dos outros homens enquanto ainda observava a sua bebida.
Ele sorriu para o copo e se virou, ao levá-lo até a boca. Mas antes que o copo alcançasse seus lábios, ele parou e sentiu o corpo todo congelar. Parecia que todo o sangue tinha se esvaído de suas veias e o coração tinha parado de bater. Os olhos azuis pousaram imediatamente na jovem de longos cabelos encaracolados e, agora, bagunçados, a expressão sonolenta, como se estivesse em delírio, os olhos fora de foco e o corpo lânguido, incapaz de se manter de pé ou discernir qualquer coisa ao redor, a ponto dos homens precisarem segurá-la pelos braços. Nenhum estado entorpecido teria confundido aquele belo rosto alvo aos olhos de Aquiles, não o rosto de Briseis.
― Nós a encontramos perdida no território, parece que ela gosta de se divertir, já estava chapada quando nos encontrou. Achamos que o senhor ia gostar. ― outro dos homens puxou a jovem por um dos braços e ela só cambaleou para ele, tropeçando nos pés, incapaz de se sustentar. Um terceiro homem de Aquiles se aproximou, estendendo os dedos ásperos para o rosto da jovem drogada.
― Ela não é uma graça? Aposto que está bem molhad―
A sentença do homem foi interrompida imediatamente quando uma peça pesada de vidro bateu contra o rosto dele, e o líquido com forte cheiro de álcool se espalhou na sala. O movimento rápido de Aquiles ao arremessar o copo pegou todos os outros de surpresa, a ponto do homem que segurava Briseis soltá-la e Aquiles se mover rápido o suficiente para ampará-la antes que ela caísse no chão.
― Mas que po―
― Quem fez isso?! ― a voz dele soou como um estrondo, ao segurar uma Briseis desfalecida nos braços. Todos os homens ficaram estáticos, como se o grito de fúria de Aquiles os tivesse paralisado. Até Andrej ficou perdido na situação, e o homem que tinha sido acertado pelo copo de vidro estava caído ao chão, com um corte feio no rosto e desacordado. ― Eu perguntei quem fez isso!
― S-senhor, n-nós não… ― o homem que tinha segurado Briseis até então engoliu em seco, dando um passo para trás ao receber o olhar furioso de Aquiles em sua direção.
― Eu juro, por todos os deuses que já existiram nesse mundo, se eu não tiver uma resposta agora, ninguém sai daqui vivo. ― Aquiles se esforçou para não pressionar os braços em volta de Briseis, ou poderia facilmente machucá-la. O esforço se refletiu nos seus ombros trêmulos em raiva, o que só deixou todos os homens na sala ainda mais alertas. ― Quem fez isso?!
― Não fomos nós, senhor! ― um dos homens que estava mais ao fundo se arriscou a responder. Se ele era uma encarnação de um dos mirmidões que já tinham lhe servido no passado, Aquiles não estava num estado capaz de distinguir. ― E-ela apareceu quando estávamos deixando o bairro, a operação já estava encerrada. Já estava drogada, veio pra cima da gente, tentando falar alguma coisa, mas… nós não…
― É verdade, senhor…! ― outro dos homens reforçou, engolindo em seco também. ― Não a drogamos, nós só… a trouxemos. Para o senhor.
Aquiles sentia como se todo o corpo dele fosse explodir em fúria, ele seria capaz de torturar e matar cada um dos homens que estavam ali, mas toda a sua atenção se voltou para Briseis quando sentiu a respiração dela mais alta, quase dolorosa, e a cabeça dela pendeu para o lado, como se tivesse desistido de tentar se manter acordada. Mais uma vez, ele sentiu como se todo o corpo tivesse congelado, era como se tivesse sentido o momento em que a vida dela tinha se esvaído, bem em suas mãos, e nunca um sentimento lhe acometeu de forma tão terrível quanto aquele instante. Mas a respiração dela ainda estava ali, baixa, fraca, assim como as batidas inconstantes do coração.
― Se eu descobrir que qualquer um dos meus homens drogou ou abusou qualquer pessoa que seja, vão desejar estar mortos. ― Aquiles falou, entredentes. ― Saiam, todos vocês!
Os homens não esperaram para ouvir uma segunda ordem, dois deles se abaixaram para levantar o comparsa que estava desacordado e ferido, e até mesmo Andrej estava pronto a seguir a ordem e sair por último, mas Aquiles o deteve antes que ele atravessasse a porta.
― Chame o motorista, Andrej. E um médico para nos encontrar no hotel, o mais rápido possível. ― ele disse, e Andrej só concordou com um aceno de cabeça rápido enquanto abria a porta para dar espaço para que Aquiles passasse, levando Briseis em seus braços pela sua entrada privada pelos fundos da boate.
Ele andou a passos largos pelo corredor de baixa iluminação, apertando Briseis com cuidado contra o peito. Ele ainda sentia como se sua vida tivesse cessado ao vê-la naquele estado tão debilitado e praguejou todos os deuses por terem feito a mulher passar por aquilo. Talvez aquela fosse uma provação? Talvez fosse a punição divina por ele ter tentado tomar o controle do seu destino e da guerra da qual ele já sabia o desfecho?
Aquiles só foi tirado dos pensamentos ao sentir Briseis se remexendo desconfortável em seus braços, os olhos revirando nas órbitas com as pálpebras semicerradas.
― Eu devia ter ido até você antes, minha querida. ― Aquiles a puxou para mais perto, depositando um beijo terno na testa dela. ― Não vou deixar que nada de mal lhe aconteça de agora em diante.
Quando ele saiu da boate, o carro já o esperava do lado de fora. O motorista só teve tempo de estacionar e foi Andrej que abriu a porta para que ele entrasse com Briseis.
― O médico vai encontrá-lo no hotel, senhor.
― Cuide dos negócios, Andrej. Descubra o que realmente aconteceu essa noite. Quero os detalhes amanhã.
― Como quiser, meu senhor. ― Andrej fechou a porta com uma breve reverência respeitosa. Aquiles encarou o motorista pelo retrovisor do carro.
― Dirija. Rápido.
Aquiles chegou ao hotel em que estivera hospedado nos últimos dias num horário avançado da madrugada, o que foi muito conveniente para evitar olhares indiscretos e principalmente informações sendo vazadas. Claro que o hotel tinha sido escolhido por conta do serviço e da discrição dos funcionários, mas ele ainda preferia menos olhares curiosos principalmente para Briseis no estado entorpecido em que estava. Só ao chegar ao hotel, ele também se deu conta de que ela estava usando um vestido um pouco mais ousado do que ele teria esperado dela na vida antiga, de um tecido de seda dourada que se moldava às curvas da jovem, uma saia que mal alcançava os joelhos e um decote que deixava o vale dos seios bem evidente. Ele tirou o terno que usava e a cobriu o máximo que conseguia ao saírem do carro e seguirem direto pelo lobby vazio do hotel em direção ao elevador, para ir até sua suíte. Ele só teve o caminho interrompido por um dos funcionários do hotel que se aproximou para lhe informar que o médico o esperava na suíte.
Ao chegar no próprio quarto, a porta foi aberta por um dos funcionários do hotel para lhe dar passagem com Briseis nos braços e ao entrar na suíte, Aquiles ficou levemente surpreso de constatar que o médico era uma mulher. Ele agradeceu mentalmente à presteza de Andrej, porque sabia que toda aquela recepção eficiente tinha sido organizada pelo seu funcionário para melhor atender às suas necessidades.
― Por favor, coloque-a na cama, senhor. ― a médica era uma senhora que não devia ter mais do que quarenta anos de idade, com o corpo volumoso debaixo de uma roupa social que tinha sido aparentemente improvisada para o atendimento rápido. Ela já tinha deixado uma maleta perto da cama e estava com um estetoscópio em volta do pescoço. ― O Sr. Andrej me informou o que aconteceu, eu vou fazer alguns exames para verificar o estado dela e descobrir se houve algo mais do que as drogas. O senhor pode esperar na sala, sim?
Aquiles queria protestar, mas um calafrio desconfortável passou pelo seu corpo quando ela disse que ia examinar Briseis para saber se havia "algo mais" do que as drogas. Ele não tinha considerado aquela possibilidade de verdade, mas um buraco pareceu se abrir em seu estômago. Mesmo tendo lutado nas maiores batalhas da Grécia antiga, tendo enfrentado os mais poderosos inimigos, Aquiles nunca se sentira tão derrotado e incapaz como naquele instante. Nem conseguiu verbalizar uma resposta, só deixou Briseis deitada em sua enorme cama e concordou com a médica, deixando o quarto em seguida.
Os minutos que ele ficou do lado de fora do quarto pareceram longas horas. Ele recebeu algumas mensagens no celular, mas as ignorou prontamente. Andou de um lado a outro, ouvindo as batidas do próprio coração como se fossem mais altas do que a música que ouvira na boate. E então, depois do que pareceu uma eternidade, a porta do quarto se abriu e a médica saiu, ajustando os óculos de grau sobre o nariz.
― Ela está descansando agora, senhor. ― a médica informou e o fato de não começar com os detalhes do estado físico de Briseis deixou Aquiles mais inquieto. Mas ela não deu tempo dele perguntar, continuou logo com o relato. ― Eu a examinei com cuidado, ela tem alguns pequenos hematomas e cortes no corpo, o que indica que ela deve ter tentado se livrar de algum avanço indesejado. Fisicamente, isso é tudo.
As palavras da médica fizeram com que Aquiles soltasse o ar pelos lábios de uma só vez, como se até então, ele estivesse prendendo a respiração, sem sequer perceber.
― Ela está sob o efeito de um forte entorpecente, sem exames detalhados, não posso dizer com mais precisão o que é, mas parece uma droga de estupro. Recolhi o sangue para mandar para laboratório. Eu a coloquei no soro e ministrei medicação na veia, a condição dela é estável, mas ela vai dormir por um bom tempo.
― Certo. Obrigado. ― Aquiles finalmente respondeu, e a mulher fez um aceno positivo na direção dele. Ela tirou um cartão do bolso e estendeu para ele.
― Eu volto em algumas horas para ver o estado dela e tirar o soro. Me ligue antes, se precisar, estarei a disposição.
Aquiles só concordou com outro aceno de cabeça e ela pegou a maleta para sair da suíte. Ele ainda olhou para dentro do quarto da porta, sentindo um nó na garganta ao ver a jovem tão pálida e frágil na cama, com um tubo ligado ao braço, o corpo tão inerte que ela parecia nem estar respirando. Demorou alguns instantes, mas ele finalmente entrou no quarto e se aproximou da cama, observando-a de cima, os belos cabelos cacheados se espalhando sobre os lençóis brancos da cama, emoldurando o rosto de traços firmes e, naquele momento, tão delicados e frágeis. Ela parecia que ia quebrar com o menor dos seus toques.
― Ainda é tão forte quanto eu me lembro, minha querida. ― ele puxou a cadeira que a médica tinha usado e se sentou ao lado da cama, tocando a mão de Briseis, sentindo os dedos dela frios, fechando as mãos em volta deles, para aquecê-los. ― Eu vou cuidar de você. Perdoe minha falha.
E levou a mão dela até as dele, inerte, beijando-lhe os nós dos dedos frios, permitindo-se mergulhar nas lembranças que tinha de outra vida, da pele quente dela contra a sua, da ousadia dela em tentar lhe matar para salvar o seu reino, do corpo dela se rendendo ao seu para descobrir os prazeres mundanos dos quais ela tinha se privado a vida toda. Nunca, nenhuma mulher tivera tamanho impacto nele, e mesmo depois das eras que tinham se passado, ela ainda era o bem mais precioso que a guerra de Tróia tinha lhe garantido.
Naquele momento, depois de toda a fúria contra os céus, ele silenciosamente agradeceu ao capricho dos deuses por lhe permitir tê-la em seu caminho mais uma vez.
Aquiles não fechou os olhos um instante sequer daquela noite. Ele ignorou todas as mensagens e ligações no celular, manteve toda a atenção voltada para o rosto pálido e adormecido de Briseis, que agora só parecia estar rendida a um sono profundo. A médica voltou ao quarto depois de um par de horas e tirou o soro que já tinha acabado. Ela avaliou o estado de Briseis mais uma vez e assegurou Aquiles de que a jovem teria uma boa recuperação, física, pelo menos.
Mesmo pouco acostumado aos modos desse mundo moderno, com as lembranças que se sobrepunham em sua mente, ele sabia que a situação dela seria muito delicada ao acordar. Imerso nos próprios pensamentos madrugada adentro, ele só percebeu quanto tempo tinha passado ali, observando a tez pálida de pele de Briseis embalada pelos sonhos de Morfeu, quando a luz da manhã iluminou o quarto atravessando as janelas panorâmicas da suíte.
Ele se levantou para fechar todas as cortinas e deixar o ambiente agradável para que ela continuasse dormindo, e só então, pegou o celular para constatar as várias mensagens de Andrej e de seus homens sobre as missões que tinham feito. Havia mensagens também de Ulisses e Pátroclo, e algumas ligações perdidas, o que indicava que o sucesso de sua empreitada na noite anterior tinha se espalhado. Para Ulisses, Andrej devia ter informado um pouco mais da sua ousadia, porque o seu velho amigo estava muito curioso para saber o que raios tinha passado em sua cabeça para visitar Heitor diretamente.
Entre as mensagens que recebera, a lembrança da sua conversa com Heitor a portas fechadas e a imagem de uma Briseis calmamente adormecida em sua cama, ele só conseguia priorizar o bem-estar da jovem que podia acordar a qualquer momento e provavelmente se sentir ameaçada num lugar que ela desconhecia, na companhia de um homem também desconhecido, depois de ter sido drogada. Seria demais para Aquiles, desejar que os deuses tivessem também devolvido a ela a memória de seus breves momentos juntos antes do trágico desfecho da guerra de Tróia?
Aquiles sorriu com os pensamentos vãos, certo de que se ela lembrasse dele, assim como Heitor lembrara de sua vida passada, teria reagido mais naquela mera troca de olhares no dia anterior. Ele não queria alimentar esperanças, mas estava vendo ali uma chance de fazer tudo certo daquela vez, num mundo em que Briseis não era a sua prisioneira de guerra, em que ele não tinha desafiado a família dela, em que não a tinha roubado da chance de servir aos deuses, em que não a tinha roubado da vida de entes queridos e de um reino fadado a ruína.
Tomado pelos pensamentos de sua vida passada se entremeando com as da sua vida moderna, ele pegou o celular do bolso e digitou uma mensagem com dedos tão ágeis sobre a tela do aparelho que riu com o pensamento de que aquela agilidade, em outra vida, só teria utilidade no manuseio de uma espada. Era um mundo novo, estranho e curioso. Ele enviou a mensagem para o contato mais recente que tinha salvado no aparelho. Àquela hora da madrugada, com o sol prestes a nascer, ele sabia que não teria uma resposta imediata, mas esperava ter a ajuda concedida na manhã seguinte. Com sorte, antes de Briseis acordar.
A última coisa que ele precisava era que a Briseis daquela vida acordasse tomada pelo medo e o desespero, como ela tinha sido acometida na invasão ao templo de Apolo durante a guerra de Tróia. Ele jamais queria que ela sofresse de novo.
Final do Capítulo 3
