Olho Azul 20 Anos Apresenta:

Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos


Capítulo 32

Makoto largou com um baque uma bandeja na frente de Usagi, que apenas estava olhando para o nada em vez de cuidar do bar. Usagi olhou para os copos com cerveja e de volta para a amiga, sem entender.

— Serve a mesa do fundo, eu que não volto lá — pediu, virando os olhos.

Usagi protestou, mas acedeu. Ao menos o mau humor de Makoto não era com ela.

Parecia que uma de suas maiores funções era lidar com clientes que tendessem a embaraçar as meninas que trabalhavam ali. Makoto e Rei sempre acabavam lhe empurrando essas pessoas; esta pelo prazer de alegar sua imunidade, Makoto simplesmente por achar que Usagi lidava melhor com a situação e que clientes precisavam estar vivos para pagar a conta no final da noite. Fosse como fosse, Usagi nunca realmente se sentira assediada e, muitas vezes até acabava se divertindo no karaokê com esses mesmos clientes, ou até ouvindo histórias de primeiro amor ou amores igualmente excitantes.

Ao retornar da mesa, com todas as partes do corpo intocadas, Usagi percebeu que Makoto lia o folheto que a própria trouxera de uma palestra na faculdade, à qual tivera que comparecer apesar de as férias de verão haverem se iniciado naquela segunda. Era difícil acreditar que já fazia dois meses desde a viagem para Nagasaki na Golden Week, e agora sua amiga estava assistindo a palestras sobre busca de emprego. Por que o tempo estava voando?

— Você também vai procurar emprego, é? — perguntou-lhe.

— Acho que sim, é o que todo mundo faz, acho... — Makoto sorriu.

— Mas você vai continuar aqui no Motoki, né? Ele sempre diz que você é a sucessora dele!

— Na verdade... — Seu olhar desceu ao papel sobre o balcão. — Eu comecei um meio-período em outro bar, como experiência. É só um dia na semana, não vai atrapalhar aqui. Eles sabem que eu tenho o Drunk Crown e tudo.

— Como assim?

— Bem, ano que vem precisamos nos concentrar ainda mais nas entrevistas de emprego, né? Eu tô pensando em achar algo certo, que não seja um bar. Mas se for para ser um bar, eu... eu tenho pensado em não ser este.

— Mas por quê?

— Onde está o Motoki agora?

Usagi pensou na resposta, mas não tinha certeza, apenas que o patrão viajara na segunda-feira com a atual namorada — sua ex-noiva. Abriu a boca ao perceber o que Makoto tinha querido dizer com a pergunta.

A porta do bar se abriu para interrompê-las e Rei entrou. Não, marchou até o balcão, onde se sentou com o punho firme, exigindo uma bebida.

— Mas qual delas? — perguntou Makoto confusa, levando os olhos até o monte de garrafas coloridas que tinham para preparar os drinques.

— Cerveja. É, isso aí. O maior copo de cerveja! E umas rodelas de alho pra acompanhar.

Usagi olhou confusa para Makoto, como se perguntando se era para anotar o pedido.

— Aconteceu alguma coisa com a Ami? — perguntou a Rei.

— Claro que não. A idiota continua sem brigar pelo cafajeste. — Rei balançou a mão como quem dizia para nem tocarem mais no assunto. Então olhou para as duas, que riam abertamente, e falou: — Não vão me atender, não? A maior cerveja e rodelas de alho. Pra ontem! Aliás, cadê o Motoki pra pôr ordem aqui? — Esticou o pescoço, como se pudesse enxergar a cozinha.

— Não está. — Makoto virou-se para a cozinha logo em seguida.

Rei franziu as sobrancelhas quando concluiu:

— Com a namorada?

— É, viajaram e só voltam amanhã de tarde.

Assim que ouviu a resposta de Usagi, Rei se levantou e esticou o corpo ainda mais que antes.

— Makoto, larga de ser boba e põe ele logo contra a parede!

A mais alta apareceu da cozinha levemente pálida, espiou o arredor, mas os clientes seguiram suas atividades e fizeram-se de desentendidos. Sem demonstrar se ela tinha percebido que eles só estavam fingindo, Makoto voltou para o interior e enfim trouxe o pedido de Rei. Usagi correu para servir a cerveja.

— Eu estava falando com a Usagi — Makoto continuava a conversa como se nada tivesse acontecido, os olhos no prato intocado de Rei — que vou largar aqui. Estou em experiência noutro bar lá perto de casa, vamos ver se funciona. Sabe, é um caso diferente do da sua amiga. Nunca tivemos nada, nossa relação é profissional e é isso.

— Quer dizer que é você quem não quer o bastante?

— Não, sou eu admitindo que perdi. Motoki nunca me olhou como mais que uma irmã mais nova. Agora posso sair em paz daqui e deixar tudo com vocês duas. — E sorriu.

— Só pode ser vingança, né? — Rei escarneceu, de olho em Usagi. — Deixar o coitado com a Usagi...

— Eeei! — reclamou.

Makoto gargalhou de leve.

— Ele sempre pode contar com você também, Rei. E nos finais de semana há bastante gente.

— Não sei sobre os outros, mas a Usagi é inútil. E eu mesma não ficarei por tanto mais tempo. — Suspirou. — Meu pai... — Rei deu uma pausa para suspirar de novo, enquanto Usagi prendeu a respiração. O pai dela. O pai dela que era o ex-chefe de Mamoru. Era a primeira vez que a ouvia mencioná-lo de verdade. — Nós não nos damos nada bem, mas agora que estou no penúltimo ano da faculdade ele quer que eu me case com alguém que possa suceder os negócios. Ele já até escolheu quem, acreditam? — Riu-se, ajeitando os longos cabelos. Antes de prosseguir, tomou um longo gole da cerveja. — Isso realmente me dá nos nervos!

Usagi engoliu em seco. Mais de dois meses já se haviam passado desde a viagem para Nagasaki, e ela ainda não conseguira tocar no assunto com Mamoru sobre o que ele faria tanto quanto o casamento como quanto a transferência. Não era como se qualquer das opções fossem lhe beneficiar.

— Por que não recusa logo? — perguntou Makoto.

— Eu pensei, mas... meu avô está envelhecendo e logo não conseguirá mais cuidar do templo. A verdade é que eu queria assumi-lo, mas não tenho confiança de que poderia mantê-lo como meu avô consegue. Ter o dinheiro do meu pai enquanto alguém mais o administra seria uma ótima forma, né?

— Mas seu pai te excluiria da família assim? Só por isso?

— Não é como se ele fosse morrer antes do meu avô... Mas se eu me casar, eu ficaria próxima o bastante para usar o dinheiro dele caso precise pro templo. Sem contar que ele me deu a entender que também poderia acabar adotando alguém se realmente eu não quisesse fazer isto. Só o fato de eu não estar sendo obrigada abertamente me deixa simplesmente... — Ela bebeu mais alguns goles para ilustrar o que dizia. — E me casar com um estranho! Mesmo que seja quando eu me formar e até lá eu possa conhecê-lo melhor... É enfurecedor!

Usagi olhou para as próprias mãos, ela estava puxando seus dedos e se beliscando a cada palavra. Vinha se prendendo em um último fio de esperança: o de Rei nem estar sabendo ainda dos planos de casamento arranjado e que seria compatível com seu jeito acabar por rejeitar toda a ideia. Agora, ele estava se partindo.