Não há vermelho na sua paleta

Capítulo 2: Mãe

Eles acordam no hospital ao som de uma conversa abafada vinda do corredor. Nenhum dos dois pôde reconhecer aquela voz imediatamente, mas quando o som pareceu quebrado, fora de ritmo e rouco eles souberam de quem era. Aquela mulher havia passado as últimas horas fazendo apenas uma coisa: gritando de agonia, negação e luto a ponto de quase perder a voz.

— Seu porco miserável, você é o sensei dela, para protegê-la! — É a primeira coisa que eles entendem. A força de suas palavras pareciam querer machucar de volta na mesma proporção com a qual ela estava machucada. Mas não deveria haver no mundo alguém sofrendo mais do que aquela mulher.

— Eu sinto muito, Haruno-san. — Naruto e Sasuke reconhecem a voz de Kakashi.

A maneira como ele se dirige à mãe de Sakura é suave, tão calma e paciente, tão cheia de culpa.

Os dois garotos se sentam na cama. Absorvendo a conversa dita lá fora, desejando que ela permaneça lá e não entre. Mebuki, eles tem quase certeza de que esse é o nome dela, seria muito parecida com Sakura? Eles não suportariam olhar o rosto daquela mulher agora e encontrar qualquer fragmento de sua pessoa mais especial.

E como, como poderiam encará-la depois do que haviam feito? Sinto muito? O que isso significaria para ela?

Sasuke sente a marca da maldição doer em seu ombro só de pensar nisso, pulsando dolorosamente. Não havia Sakura agora para segurar sua mão. Não havia Sakura, ele ofega, mais uma vez, e fecha os olhos com força para apagar a imagem dela de seus pensamentos. O selo que continha o mangekyou se foi e ele arrisca um olhar para Naruto.

O Uzumaki aperta o lençol da cama. Kurama ria em seus pensamentos. Que shinobi de merda você é, a raposa dizia, como se sua dor fosse um entretenimento. Naruto não discutiu com ela.

Só então o Uchiha viu as pulseiras de supressão de chakra em seus pulsos, reparando que tinha homólogas nos próprios.

Ele considerou se isso não era permissivo demais. Sasuke esperava acordar na prisão. Eles haviam cometido um crime, afinal. Mais importante, um crime contra Sakura. E o lugar de criminosos como eles era no fundo de uma cela, apodrecendo o resto da vida, perecendo para alguma doença ou em uma briga de refeitório em um dia sem importância.

Repentinamente, o som de um tapa interrompe seus pensamentos, foi tão alto e agudo que deve ter reverberado pelo corredor inteiro.

— Sente muito? — Eles captam a incredulidade na voz daquela mãe. — Nós sentimos muito quando esbarramos por acidente numa pessoa, Kakashi. Não sentimos muito quando a filhinha de alguém é assassinada por dois monstros.

— Sim, eu não quis…

— Nós sabemos o que você fez no passado. É isso que você tem ensinado para eles? Assassinar menininhas? — Então, a voz dela quebrou: — A minha Sakura. A minha única filha. Eu a carreguei por nove meses, cuidei por todos esses anos. E a tiram de mim assim.

Quando eles ouvem o soluço da mulher, seus corações se apertam. Naruto leva a mão ao peito, tentando controlar a dor. Monstros. Eles com certeza eram. Não havia outra forma de defini-los e era como se sentiam. Como monstros que tiraram a vida de uma garotinha.

Sasuke, por outro lado, entra numa espiral de pensamentos confusos. Se ele não tivesse pronunciado aquelas malditas palavras… vamos lutar. Se não fosse o seu maldito egoísmo, sua maldita vingança, sua maldita vontade de se provar melhor. Vamos lutar. Por que ele havia dito isso? Naruto sequer queria uma briga, para começo de conversa.

Por que ele tinha que ser assim?

Tentando se provar, negando que ele era fraco. Fraco demais.

Outra voz entrou em cena, masculina e chorosa.

O pai da família que eles destruíram.

— Os garotos serão punidos?

Mesmo de dentro do quarto era possível notar a hesitação em Kakashi ao responder.

— A Godaime decidirá o destino deles.

— Eu não perguntei isso — o homem diz, mais frio. Eles lembram de uma vez que Sakura contou que seu pai nunca levava nada a sério e estava sempre brincando sobre tudo. — Os garotos serão punidos? Eu sei que a Sakura não é… importante o suficiente para essa gente. Nosso clã…

De repente, o homem se interrompe, e solta uma triste risada pelo nariz, como um reflexo.

— Que clã? Foi só uma estupidez que eu inventei para deixassem de incomodá-la na escola. — O homem parece se perder em suas memórias. Passam-se vários segundos até que ele volte a falar: — Eu sei que um garoto é um Uchiha e o outro… é aquilo. Mas eles precisam pagar pelo que fizeram.

— Eu vou passar suas preocupações à hokage, mas asseguro… eles não ficarão impunes — Kakashi garante, humildemente. Naruto e Sasuke sabem que o ritmo de sua voz é sempre tão calmo e quase monótono, mas havia algo diferente mesmo naquele habitual timbre, como se o sensei estivesse vazio e em outro lugar que não ali.

— Nós não vamos descansar enquanto isso não acontecer. Minha filha… ela nunca fez nada de mal a ninguém. Ela não merecia. — Mebuki diz e funga. — Eu a vi, horas atrás. Eu vi o estado que ela ficou. Como vocês dão armas assim nas mãos de crianças? Crianças! Estão loucos?

— Nós somos shinobi, é meu papel… — Kakashi tenta se explicar, mas sua voz sai tão vacilante e sem certeza, que ele com certeza desiste de terminá-la.

— Papel? E onde estava o grande jutsu da minha filha para que ela pudesse se defender deles? O que você ensinou para ela para que ela pudesse evitar isso? A menina passou seus últimos meses de vida com a cara enfiada nos livros e treinando atirar kunais. Kunais! Porque disse que queria ser páreo para seus companheiros de time. Onde você estava nisso, Kakashi?

Quando Kakashi não diz nada, Mebuki continua. Ele apenas permite que ela jogue as palavras contra ele e não revida. Naruto e Sasuke concordam que era a única coisa que poderiam fazer por ela agora: ouvi-la.

— Eles me pediram para escolher uma roupa para ela. No necrotério, me disseram: escolha algo que ela goste. Mas eu não quero abrir mão de nada que pertença a Sakura. Eu não quero enterrar minha filha.

Mebuki chora, como se a própria vida fosse insuportável. Eles podem dizer mesmo daqui.

— Não queremos vocês no velório — Kizashi diz, a sua voz é cortante, de novo. — Não ousem aparecer. Eu sei que Sakura gostaria, eu sei que minha menina é doce a esse ponto, mas nós não suportaríamos.

Naruto e Sasuke se entreolham, e abaixam a cabeça, sem nada a dizer.

— Não iremos — Kakashi garante.

Então, eles ouvem um som na porta. Um soco ou algo se chocando contra ela. Repentinamente, a voz de Mebuki soa e os meninos sabem que dessa vez ela se dirige exatamente para eles, pela primeira vez.

— Malditos sejam... Eu lamento o dia que o clã Uchiha não se foi por inteiro, eu havia me esquecido como esse clã era uma praga nessa vila. — Mais um soco. A porta do quarto se chacoalha. — Lamento por aquela besta em forma de menino não ter sido morto depois que causou toda aquela destruição — ela acrescenta. — E lamento, Kakashi, que você não tenha tido o mesmo destino de seu pai.